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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

" TENHO PENA ... "





" TENHO PENA DE SÓ MORAR NA MINHA PELE, QUANDO A TERRA É TÃO GRANDE "

Esta frase consta do diálogo entre duas personagens, de um livro de Simone de Beauvoir que estou a reler, e saltou-me do livro como uma faísca atinge um pinheiro, fulminante e inesperadamente ... tipo, "é isto ... exactamente o que pressinto em mim " !...
A precariedade do meu "invólucro", com tanto, para lá deste quarto e desta janela !
A pequenez do que conseguirei viver enquanto por cá andar, e tanto que é o viver das vidas todas por aí, tanto que é o VIVER, afinal !...

Há um ano eu enganava, por esta altura, esta sensação claustrofóbica existencial, pois dentro de um mês iria partilhar mais um retalhinho de outras vidas, miscigenando-me com outras peles, nesta Terra de facto tão grande.
E invejo profundamente, a idade e a disponibilidade de quem coloca uma mochila nas costas, e simplesmente segue, cumprindo um espírito viageiro, que pressinto desde sempre em mim.

É por ele, que me sinto incompleta ; é por ele, que sempre me falta uma fatia ;  é por ele, que a insatisfação de qualquer coisa inacabada coexiste comigo em permanência,  e que a angústia de saber que os horizontes escondem horizontes, sem que eu  tenha "passada" que os atinja, me é absolutamente sensível !...
É por ele, por esse espírito inquieto e em turbulência, que sei injusto o quinhão cada vez mais reduzido e curto, que me distribuíram à chegada.

Só me deram mente, coração, espírito e sonho, para deles fazer o que quisesse.

Com a mente torturo-me, porque feito um bicho-carpinteiro, não sossega nem me dá tréguas ;  questiona-me, confronta-me comigo mesma a cada segundo que respiro, coloca-me problemas em permanência, e questões que parecem desafiar a inteligência que me distribuíram também, mas não em quantidade suficiente, estou convicta ...

Com o coração amo destemperadamente, sofro na mesma proporção, dilacero-me, porque é pequeno demais para tudo o que lá quero meter dentro, desgoverna-se e perde-se nos percursos, frequentemente, deixando-me a mente  "à  nora" ;
descompassa o ritmo, pela utopia, pela insanidade que o caracteriza, pela falta de clarividência, prudência e recusa de racionalidade.
É rebelde, é indisciplinado ;  é muito, muito pouco inteligente, e é recorrente no enviesado dos caminhos que sempre escolhe ...  e tem memória curta, curta demais ...

O espírito, é este companheiro irreverente, travesso, irrequieto, que me projecta para lá dos meus muros e me confronta comigo mesma.
Mas como um cavalo sem freio, não se deixa dominar, domar, sequer orientar nos trilhos para onde me leva ...
O espírito é o écran onde se projectam os meus filmes, onde existe a dicotomia do que sou e do que talvez devesse ser, onde o razoável e o louco se degladiam sem piedade, onde o meu direito e o meu avesso, jogam de gato e rato.
O espírito é o que tira as noites para me atormentar, nas horas de insónia e de solidão ...
É o que me faz sentir a mais feliz e a  mais infeliz dos mortais ... enfim, é de alguma forma, a "tribuna" onde me são lidas pela Vida, as "sentenças", favoráveis ou não !...

Resta o sonho ...
Do sonho disponho em excesso, incontidamente, na liberdade, na leveza, no etéreo  provocador  rodopio, de bailarina em pontas, no bailado da sua vida.
Com o sonho mergulho e arrisco-me constantemente, porque nunca olho primeiro, o que me espera no fundo do abismo.
Com  o  sonho  entrego-me  razoável  ou  irrazoavelmente, aposto sem limites, ( quando bastaria "ler" atentamente ), para que percebesse estar a tomar uma canoa furada !...
O sonho, é o que ainda me faz levantar em cada manhã, como se esse fosse o dia do meu "jackpot", e a ausência dele, o que me faz chorar ao deitar, e desejar morrer quando o sol dormiu, o céu se apagou, e as primeiras estrelas começaram a anunciar-se, sabendo que tudo se repetirá, exactamente igual, no dia seguinte ...

Sinto que cada vez sonho menos, e sem ele, a esperança parte, a coragem também, e o desencanto toma conta de mim.  A ingenuidade  do acreditar fácil, abandonou o meu coração há muito, embora incoerentemente, num cantinho esconso do meu peito, como uma criança, acredito infantilmente, que de uma cartola pode continuar a sair um coelho !!!...

Hoje sinto-me sem ar ;  hoje, feriado, pouco movimento, muitas coisas fechadas, ausência de gente, em clima de fim de semana antecipado, tenho uma solidão mortal dentro de mim.
Desci para tomar um café, porque me apavora pensar, que como todos os dias, vou estar sentada frente àquela vidraça, de onde nem já a minha gaivota se aproxima, frente àqueles telhados desalinhados, naquele silêncio absoluto de casa desabitada, a ver o laranja lá ao fundo, com o sol a descer de mansinho, até que os seus últimos raios do dia, tombem sobre Sintra, e sobre o mar de Sintra, que ainda fica noutro horizonte que visualizo na minha mente e no meu coração, mas obviamente não, da minha janela ...
E sufoco, a pensar que mais um dia se exauriu, inglória e irreversivelmente, sem história, sem rumo, sem ter valido a pena, afinal ...

E  lamento, lamento  que  com  uma  Terra  tão  grande, eu  viva  confinada  e  condenada  a  morar  na minha  única  e  imperfeita  pele !!!...

Anamar 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"APONTAMENTO"



Nem sei por que estou aqui ... afinal são seis horas da manhã, há hora e meia que não durmo, e "ela"  chamou-me ...  Decididamente chamou-me!

A minha casa acesa com uma luz clara, mansa, silenciosa, levou-me à vidraça. Claro que ela era dona do céu. Ela já ofuscava a luz do dia  que ainda  não espreitava,  e a das estrelas que esfregavam os olhos de sono ... e de espanto.
Ela, e um pássaro branco e roçagante, dividiram o céu escuro. Talvez uma coruja em regresso a casa !

Não tenho nada para dizer, não tenho nada sobre que valha a pena fazer-vos perder tempo. Só que, agora é assim ... as madrugadas trazem-me quase sempre à realidade antes da hora, começam a massacrar-me os miolos com demasiada antecedência ... E entre  rebolar-me  naquela cama vazia, e vir "à janela"... resolvi vir abrir as cortinas e espreitar-vos desse lado, na tal hora mágica, de silêncio absoluto, de seres inquietos como eu, que se passeiam por aqui.
Comungamos das noites, dividimos as madrugadas, ouvimos o silêncio.
 Eles lá ... eu, cá ... ainda!...

Há de facto algo estranho, na noite.
A noite é uma entidade que se impõe ... tem os seus segredos e as suas histórias.
A noite é o albergue dos que circulam contra-ciclo quase sempre.
Claro que há quem conviva com ela, porque está assimilada nas suas vidas, por imposições profissionais.  Mas mesmo aí, eu acho que as cumplicidades que se geram nas noites e nas madrugadas silenciosas, é muito particular.  Não tem a ver com as cumplicidades desnudas, partilhadas no buliço dos dias confusos.
Diria que têm uma força especial. A força do comungado num segredo que o não é.

Bom, começam a circular os primeiros combóios, que certamente levam gente que adoraria estar numa cama como a que eu rejeitei.
A vida de quem tem vida!...
A minha mãe, seguramente, também já está levantada há algum tempo.  Essa aí, tem pressa em sorver o resto do tempo que lhe atribuiram para ver luas sobre luas, por enquanto.
Essa aí, faria de cada vinte e quatro, quarenta e oito horas, para que a estrada ainda se lhe alongasse ... porque ela ama viver.
De facto, tenho poucos dos genes dela !...

E vou voltar para o segundo "round" de mais uma noite sem história ... ou com tantas histórias, que me fundem a cabeça, e me trazem à janela, para lhe render homenagem ... a ela, à rainha imponente da noite ... e ao pássaro branco, talvez uma coruja ... em rota de "casa"...

Anamar

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

" CARTAS DE AMOR ... " :)))))



As minhas noites são muito engraçadas nos últimos tempos.
Acho que isto é o preâmbulo do fim ... rsrsrs.   Perceberão porquê !

Largo o computador - que nos últimos tempos me saturou, me irrita, de certa forma mexe comigo - bem cedo.
Já não vou tendo paciência para os pps  ou outros mails, correio personalizado é raro.  As pessoas não se escrevem.
Tendo percorrido algumas "capelinhas" obrigatórias, como lhes chamo, e não tendo também muita pachorra para paleio de messengers, porque pessoas interessantes vão rareando ( sinal dos tempos ), aí pelas dez da noite, desligo e vou para a cama.
Tenho bons filmes gravados, mas até esses, raramente vejo.   Limito-me a três ou quatro canais, daqueles em que a gente não precisa pensar, especo-me frente às imagens que vão desfilando pelos meus olhos  ( é certo que a cabeça, na maior parte das vezes, sem avisar, vai indo, e quando dou por ela, onde é que já vai !... ), até que,  muitas noites, começo a percepcionar os sons, a música ou as vozes, bem longe.
É quando  percebo que já estou entre as três e as quatro, ou dizendo melhor, entre a meia-noite e a uma, de certeza.
Olho o relógio e confirmo ... é certinho e direitinho !

Digo então para a Rita, que há muito dorme ao fundo da cama : " Vá Rita, horas de ó-ó !..."  ( a quem mais poderia eu dizer isto ?!... ) ;  ajeito as almofadas ao meu gosto, olho de novo o relógio, olho o quadro a óleo do meu pai, que está perto da minha cama, como num ritual de despedida, e apago a luz.
Última  e  felizmente, não tenho muito tempo para continuar a pensar em demasiadas coisas ( e "agradeço" por isso ) ...  Adormeço.

O meu sono é extremamente leve.  Sempre o foi.  Devem ser resquícios da "profissão" de mãe, com marido, que, desde as filhas chorarem, chamarem, ou cair a casa, nada o tirava do "doce aconchego", e por isso apercebo-me das voltas e voltinhas que dou na cama, pela noite fora, enrolando, que nem croquete no pão ralado.
O relógio biológico é impecável.  Acontece com frequência, noite após noite, olhar o mostrador luminoso, exactamente às mesmas horas, por exemplo, 2,22 ....
E além de constatar que na noite anterior, o mesmo se verificara, ainda tenho "tempo" para achar super gira, a pontaria assaz frequente, de os algarismos serem todos iguais ... Vejam para o que me dá!

Depois, aí pelas 3.30 h / 4 h, desperto mesmo. Desperto e percebo  que não adianta muito, persistir.
Ultimamente levanto-me, porque estranhamente nessas circunstâncias, a cama ganha "picos" .  Todos sabemos isso, creio.  E fazer o quê?
Volto ao computador.
Aí é uma hora engraçada.  É a hora de perscrutar a noite, olhar o Mundo, deste lado.
A maior parte das pessoas, porque são normais ainda, estarão em "vale de lençóis", como cabe a qualquer cidadão, que não tenha motivos que o arranquem ao descanso óbvio.
Normalmente "vejo" apenas, porque evito interromper, um amigo cujo ritmo eu sei  ser exactamente notívago, que é "militante" do FB.
Há outro que "cruza" trabalho ( diz ele ), com a minha insónia, e se assim for, encalho por ali um bocado.
A última, mas não frequente alternativa, é "palear" com alguém do outro lado do Mundo, a partir de Dallas, Estados Unidos, que devido à diferença de fuso, tem seis horas a menos, e portanto está em pleno pós-jantar.
E quando dou por mim ( esta noite por exemplo ), eram seis da manhã !
Consciencializei que cada vez estou pior, que a essa hora muitos cidadãos úteis e trabalhadores deste país, já caminham para os combóios rumando a Lisboa ( aliás a circulação dos combóios já se ouve distintamente da minha casa, perto da estação ) ... que daí a pouco as criancinhas de escolas e colégios estão quase a saltar das camas, a duras penas, que a luz do sol ou não, não demorará a clarear o firmamento.
E com algum cansaço então, regresso à cama que me volta a saber bem, e consigo dormir mais umas três ou quatro horinhas.
Enfim, no cômputo global, fiz uma noite de sono, em duas fatias.   Claro que agora, que é uma da tarde, é que me está a dar a "pedrada" da insónia, e começo a ficar rabugenta como os miúdos ...

Dizia eu no princípio, que este "festival" é o preâmbulo do fim.
Isto, porque segundo se diz e se sabe, à medida que os anos avançam, a necessidade de sono diminui, parecendo que o organismo, não querendo desperdiçar os últimos cartuchos da vida, tenta rentabilizá-los, mantendo-nos mais tempo acordados, para os aproveitarmos o melhor possível.
Às vezes "o pior possível ", diria ...  Mas claro, isto é o meu mau feitio, como se sabe !

Dizia eu também, que graças às novas tecnologias, as pessoas não se escrevem ...
Este é um dos sinais mais tristes dos tempos, acho .
Lembro o tempo das grandes missivas, manuscritas ;  lembro o tempo dos postais dos correios ( quando havia menos a dizer ), dos aerogramas no tempo da Guerra Colonial, dos envelopes emoldurados com aquela cercadura de riscas enviesadas, vermelhas e verdes do correio aéreo, para o estrangeiro ...  o tempo das Boas Festas, religiosamente enviadas a familiares e amigos, pelo Natal ( no tempo em que os cartõezinhos eram baratos e a franquia também ) ... e faziam-se listas dos destinatários, não esquecêssemos alguém ...
Se estávamos de luto, os cartões de visita e os respectivos envelopes,  à  semelhança  dos  "fumos"  nas  mangas  dos casacos   ( quem não lembra ? ), eram contornados com cercadura preta ; mais larga se o luto era recente, mais fina, se já se aliviava...ou se o grau de parentesco não era tão próximo ...
Lembro o tempo em que se parabenizavam as crianças e os adultos, pelos aniversários, pelos eventos relevantes da vida ... tudo pelo Correio, tudo com letrinha mais ou menos desenhada, mais ou menos legível, mais ou menos rabiscada ...
Lembro com saudade o tempo das cartas de amor, epístolas intermináveis, também mais ou menos "inflamadas", contendo  poemas  às  vezes,  florzinhas  secas  também,  a marca  do  bâton dos lábios, em jeito de despedida !...
E lembro o tempo em que a chegada do carteiro se aguardava com desejo, curiosidade e alegria, com frequência.
Em que se olhava para o chão junto à porta da rua, porque em portas onde não existia caixa, o correio era metido por debaixo da dita ...
E os carteiros eram muito mais simpáticos, porque não nos traziam só  contas  para  pagarmos ... aliás,  as  contas  nem  vinham  pelo  correio !
Hoje, o abrir da caixa do correio é diariamente um susto, um filme de terror, porque nunca se prevê nada de bom .... rsrsrs !!!

Bem, vou ficar por aqui.
Esta "viagem" de nostalgia, está a fazer-me sentir dinossáurica, melancólica, saudosa ... Se calhar mais cinzenta que este dia nada prometedor, que faz lá fora !...

E tudo isto, porque, p'ra variar, me comuniquei despersonalisticamente, mais uma vez esta noite, com uma pantalha à frente do nariz, com o "éter" de permeio, com quilómetros galgados mais depressa do que se me transportasse nas asas de uma borboleta monarca, em plena migração !...
Porque uma coisa que chamam de Internet, rouba despudoradamente todos os dias, o lugar aos carteiros, e ao romantismo dos corações de antanho !!!...




Anamar

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

" O MONSTRO "



Cá estou eu a dissertar sobre banalidades ...
Aquelas banalidades que ocupam realmente muito da minha mente, e do meu espaço disponível para pensar .
Pensar demais, diz a minha filha, quando, segundo ela, eu deveria "centrar-me" em coisas práticas da vida.
Talvez ajudá-la a forrar os quarenta livros ( que, pelo número de vezes que já me disse, já devem ir em cento e vinte pelo menos ), do início do ano escolar dos próprios filhos.

Eu entendo !...
O verdadeiro discurso que ela se coíbe de dizer, seria : "...em vez de teorizares sobre parvoíces ! "
Também entendo, claro que entendo !

Ela é uma pessoa real, centrada, objectiva.  Eu sou uma espécie de "projecto" de pessoa, um espécime raro, muito mais para "fantasma de gente", muito menos para gente de carne e osso.
Ela é pragmática, racional, metódica na arrumação das ideias, e dos interesses.
É assim, porque assim foi forjada, é assim porque quer a vida profissional quer a familiar, a obrigam a sê-lo.

Eu, não !
Eu sou meio enviesada.  Estou por aqui, mas pairo noutro mundo que cultivo .
Realizo, como toda a gente, o que do ponto de vista prático tem que ser realizado diariamente, e depois tenho um "alter-ego" onde me situo, e para onde me "escapulo", até sem dar por isso.
Os meus "jardins proibidos", têm portões dos quais só eu tenho as chaves, têm recantos que só eu conheço, têm segredos que são meus, só meus !

Mas tudo bem ...  Por alguma razão este meu espaço foi baptizado por mim, assim, sem pestanejar, com um título, que não foi sequer pensado ... caíu-me no cólo : "Filosofices" ... o que significa bem, que se trata  daquelas  filosofias que não valem "um caracol " !...  
Mas que são as minhas, ora bolas !!

Enquanto isso, o "Mundo" saíu à rua, o  "Mundo" está na eminência de desabar, o "Mundo", este, o nosso, aquele que conhecíamos, virou estranho, desconhecido, inseguro, carrasco, traiçoeiro ... virou-nos literalmente as costas ...

E eu cá continuo a dissertar, sobre o que não acrescenta nem retira nada, a esse Mundo.
O tempo, o tempo retira ... muito ... retira tudo !
O tempo é o algoz mais sádico que conheço, é o "gozão" mais endiabrado, provocador e ardiloso que nos enfrenta !...
Por outro lado, tem soluções e mezinhas para todo o tipo de mazelas.
Hoje eu não tenho nenhuma dúvida, de que aquela frase gasta de que "o tempo tudo cura", é absolutamente verdadeira.
O tempo resolve, nem que seja à custa de uma "cortina de nevoeiro" que nos lança sobre a mente.
Com ela, como que perdidos no meio da bruma, deixamos de lembrar, de sentir, e as imagens perdem os contornos e a nitidez.  As memórias esvaiem-se, as feridas ganham crostas que hão-de cair um dia, consequentemente a dor aplaca, a Vida vira as páginas ...

Encontrei há dias uma pessoa, que foi absolutamente determinante na minha vida.  Alguém que eu juraria, jamais ser possível desocupar o lugar que ocupara.  Impensável isso acontecer !...
Pois bem, fiquei chocada comigo mesma, fiquei impressionada com a inalteração do meu ritmo cardíaco, fiquei até incomodada e incrédula, sobre alguma "apatia emocional" que experimentei ...

Como foi isso possível ?!...
Que mezinha me ministraram ?  E quem ?

Obviamente, o tempo, o gigante aterrador, o feiticeiro, o monstro ... mas também o grande mestre !...

Sou compulsiva em fotografar tudo e todos.  Momentos, lugares, pessoas, e acredito que também consigo fotografar a brisa, os cheiros, os sons, as palavras, as gargalhadas, as mágoas e as alegrias .
É uma compulsão que tem um objectivo : criar em mim um antídoto contra o tempo, uma vacina contra o "nevoeiro", uma espécie de "aforro mental", para  quando as "economias" da mente e do coração, tiverem ido !!...

Porquê ( já aqui me perguntei muitas vezes ), porquê injustamente, o ser humano "deleta" em curto espaço de tempo, os rostos, as vozes, as vivências, que eram do tamanho de oceanos, sem fim ou horizontes ??!!...
Admito que sejam mecanismos de defesa, biológicos, do foro mental, para nos preservarem e nos subtraírem a sofrimentos, que, acredito, não suportaríamos.
Mas é triste de qualquer forma, porque a nossa vida vai-se transformando num balão, com um furinho imperceptível, por onde se vai perdendo o ar que o enchia, aos poucos e poucos, aqui e ali, ficando cada vez mais vazio e irreconhecível !...
A nossa vida vai ficando como um livro, que fôssemos lendo e esquecendo as páginas que viramos, uma a uma, sem no entanto devermos e podermos esquecer a história toda, apesar de irmos esquecendo os capítulos da mesma !...

Como é isso possível ... continuarei sempre a perguntar-me ??!!...

Anamar

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

" A MALDIÇÃO "



A minha orquídea morreu !...
As últimas folhas caíram exangues, soltando-se do pé, num abandono que me impressionou.
Assim ... em silêncio ... sem resistência ... indiferentes ... soltaram-se do pé ainda verdes, mas já mortas ...
Sem um desespero, um queixume, com alguma desistência ... eu diria !
Adoeceu aos poucos e poucos, devagarzinho, sem incomodar, em silêncio, sem indignação, sem raiva ...
Primeiro as flores, lindas, mimosas, delicadas ;  depois as duas hastes começaram a amarelecer.  Primeiro uma, depois a outra, anunciando uma morte ... uma morte anunciada !
Juro que não sei se ela terá gritado, chamado, pedido socorro.  Não sei, porque os meus ouvidos estão embotados demais, e não ouvem ... estão insensibilizados, duros, e os olhos a opacizarem-se gradualmente, como a orquídea ... sem reclamação !
Estão a fechar-se ao que não podem, não conseguem ver ...

Parece que se completam ciclos na minha casa.  Parece que se encerram capítulos na minha vida.
Garanto-vos, é uma sensação desconfortável, estranha, devastadora.
Uma postura de depor de armas, que deve ser a que o guerreiro tem, perante a impotência do campo de batalha ;  a que as populações têm em cenário de guerra, que lhes foge ao controle ;  a dos doentes terminais, que já anseiam acabar o "jogo", o quanto antes ;  a que o Mundo exibe, perante uma  catástrofe natural, onde também nada tem já a fazer ...
Ou melhor, há duas coisas que podem ser feitas :  resignar-se ou desistir.
Eu acho que estou mais para a segunda !...

As plantas morrem, por sistema, junto de mim.  Parece que o meu olhar as devasta, as seca, tem a capacidade de uma maldição estranha.
Parece que toco e desfaço, consigo parir e tirar a vida, transformar o ouro em cinza .
Parece que o que passa por mim, entra irremediável e irreversivelmente num estágio de corredor da morte, aquele local em que nas prisões de alta segurança de alguns estados dos Estados Unidos, os condenados à morte, apenas aguardam.
Engraçado ...  É um espaço exactamente oposto às incubadoras nas maternidades onde a minha filha trabalha ...
Aí, o corredor é da morte para a vida,  eu sou mais, da vida para a morte ... Estranho !...
Acho que estou a enlouquecer aos poucos !...

Entretanto oiço Simone no mp3, que diz que "vai valer a pena ter amanhecido ..." num "Começar de novo" da sua canção ...
Eu, levo a vida a começar de novo, só que não me tem valido a pena, acordar por cada madrugada ...

Hoje amanheci com esta estranha premonição de maldição, de capacidade de secar tudo em mim e à minha volta.
Se olhar para a minha vida, ela parece desenrolar-se num parque de diversões, em que as diversões são mais as que assombram o "Combóio Fantasma ".
E eu, como um diabinho à solta, como uma menina endiabrada, inconsequente e entontecida, desafio tudo e todos ;  desafio a sorte, o destino, a prudência ...
Pareço deliciar-me sadicamente, a andar em arames sem rede de amparo, pareço subir e descer montanhas russas sem mãos, pareço divertir-me a debruçar-me do topo do rochedo a um passo do vazio, desafiando a vertigem ...

Há uma tendência persecutória de certas doenças, que se manifesta, pelo paciente se infligir dores e sofrimentos.
Não sei o nome dessa neurose. Poderei procurar na Net, mas sei que se trata de pessoas que se auto-mutilam, que se ferem, que se magoam intencionalmente, como se isso as aliviasse de qualquer coisa, como se com essa flagelação, expurgassem de si algum veneno que as atormenta ... exorcisassem fantasmas que as atazanam !...

Agora ... porquê ???

Por que se punem de alguma coisa lá do subconsciente, que acham que lhes exige essa destruição ??!!...
Por que, doentiamente, como numa masturbação psicológica e mental, só se sentem realmente "enquadradas", quando em sofrimento, em dor, em mágoa ... repito, como se com isso quisessem purificar algo de muito errado no seu ser ??!!...
Cumprir penitência pesada, por algo de muito perturbador que têm dentro de si ??!!...

Eu movimento-me muito perto desse registo.
Eu inflijo-me, de uma forma leviana e imatura ( e parece que me deleito ao fazê-lo ), desafios  constantes de limite de resistência, piso terrenos endemoninhados, como se realmente uma maldição me comandasse, e perante a qual sou impotente, e me imobiliza.
Tenho atracção por provar aquela poção mortal, sabendo que o é, mas parecendo querer testar até onde consigo chegar, até onde resistiria, até onde teria antídotos suficientes para a mesma ...
Parecendo desafiar, atrevidamente, a minha distância entre o ser terreno e o divino, que todos detemos ...
Enfim, tenho uma pulsão imperativa e assustadora, pelas "red lines" da Vida ...

Repito ... acho que estou a enlouquecer aos poucos !...

Mas ... Afinal a minha orquídea morreu !!!...



Anamar

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

" QUE CANSAÇO !... "



Precisava escrever.
Aliás era urgente que escrevesse, porque está a faltar-me o ar.  O ar no coração.
Não sei explicar, mas sinto uma cobra constritora a envolver-me o coração e a tirar-me o ar ... devagar,  gradualmente, segundo a segundo, lentamente, como quem goza o que faz ...
Um nó, talvez um nó explique melhor.  Um nó  com laçada a apertar devagarzinho, sadicamente, doloroso, maquiavélico, que me está a tornar os olhos húmidos ...

À minha volta o café de sempre, provavelmente as pessoas de sempre, provavelmente as conversas de sempre, provavelmente a normalidade de sempre, excepto eu, cada vez mais anormal, mais inconsequente e ilógica no que sinto, na forma como me pauto, no arrastar dos meus dias.

Que cansaço ... bolas, que cansaço !

Por que há-de ser sempre assim comigo ?  Por que hei-de eu ser diferente das pessoas comuns ?  Por que hei-de eu sangrar, por que hei-de eu sofrer até me doer, mas doer de dor mesmo, na alma ??!!

A alma dói ?  Será que a alma dói ?  Mas ... onde está essa bendita alma alojada, se o peso que eu tenho é no peito, e o rio que ameaça correr, está nos olhos ??!!...

Em fundo, como uma espécie de "ponto" numa peça de teatro, oiço a voz da minha  filha, pragmática, objectiva, segura, realista, a questionar-me como sempre o faz, do porquê  de toda esta anormalidade de vida e personalística, se na verdade eu não tenho motivos reais ...
Se na verdade eu tenho saúde, eu subsisto e mais que subsisto, vivo razoavelmente, dentro de tudo o que nos rodeia, se eu sou simplesmente uma utópica, uma exigente sei lá do quê ... uma tonta, afinal ... se na verdade eu devia agradecer também sei lá a quem, tudo o que tenho demais ( e se calhar devia ... ) !!!

Mas ninguém está aqui "dentro", e portanto ninguém sente.
Os médicos iriam reduzir tudo aos chavões habituais, de ansiedade,  angústia, desvios de personalidade, desequilíbrios, tendências compulsivamente depressivas ... e patati e patata ...
Tudo espremido, as pessoas comuns simplificariam, e diriam . " Que ganda pancada ! " ... " Esta não é certa ... não tem os parafusos todos no sítio ..." e etc, etc.
Já p'ra não dizerem "doente" ... porque as pessoas reduzem tudo a doenças .  Doenças do corpo, doenças da alma, doenças ...
E os médicos curam tudo com químicos ... ou melhor, não curam, " mascaram " ...  Os médicos são mestres na grande arte de " mascarar " tudo.
As dores ( as outras ), mascaram-se com analgésicos, as alergias com anti-histamínicos,  a  falta de sono, com soníferos, as depressões com anti-depressivos e ansiolíticos ... em última análise, a loucura, com manicómios !!

Mas eu é que sei  ( não sabendo ), o que sinto !
Este estar sem estar em lado nenhum, esta tristeza e infelicidade de coisa incompleta, de árvore a que arrancaram uma pernada, de arco-íris a que roubaram uma das sete cores, de dia de Verão a que apagaram o sol, de pássaro amputado nas asas ... de coração todo partidinho em picadora de alta rotação !!!

Porra ... desculpem ... devia  pôr o "ozinho" no canto, mas não ponho ... sei lá ... quero lá saber ... Hoje estou assim !!!
As contenções dentro de mim acabaram ; o parecer bem ou mal, adequado ou não, não me molesta  ;  o parecer sem ser, não me faz sentido mais ;  o ter que "encarneirar" no rebanho, violenta-me.
Não  me  enquadro,  parece  que  cada  vez  me  enquadro  menos  nos contextos sociais, de costumes,  dos  "politicamente correcto ",  do " não tens idade para ... ",  " não se te apropria ... " !
Estou cansada !...

Fui espartilhada antes, durante e depois ??!!
Será que tive que atravessar gerações e épocas em que fui forjada para obedecer a padrões, figurinos e esquemas ?   Em que tinha que caber em " molduras " instituídas ??!!...
E tenho que continuar nos mesmos moldes e medidas ??
E sempre tenho " sombras " que me " medem ", me " emparedam ",  me " espartilham "??
Estou cansada !!...

Nada encaixa na minha vida !
Parece um tecido esfarrapado, sem conserto, parece uma renda esburacada, parece um puzzle vandalizado, parece um alfabeto em que anarquizaram a ordem das letras !!!
Logo eu, que sou aquele animal em que colocam a cabeçada e a sacode, o arnês e lhe foge, lhe dão o medicamento e o cospe !...
Logo eu, que vivo em permanente dialéctica com a vida, em permanente conflito e dúvida com as realidades, em permanente discussão comigo própria, em permanente desajuste com o espaço, o tempo e o Mundo !!...

Precisava escrever, precisava e preciso ...

Fui escrevendo sem escrever ...  Fui apenas largando pensamentos, frases, sentires a esmo,  ao correr desta cabeça que parou de pensar, e deixou apenas a mão e a caneta a caminharem ...

Precisava ter aberto, aliás, escancarado as comportas aqui de dentro, para ver se respirava melhor ;  precisava ser desconstruída e construída de novo ... mas isso já não vai acontecer nesta vida, seguramente ... talvez na próxima  reincarnação !!!...


Anamar

terça-feira, 4 de setembro de 2012

" FOI TEMPO ... "



Foi tempo ...
tempo das macieiras florirem,
foi tempo das tâmaras tombarem, amarelecidas nos cachos ...
e das margaridas silvestres  terem  pétalas  rosa,  brancas  e  amarelas ...
das violetas da Serra morrerem, porque foram arrancadas da Serra,
das mimosas perderem o ouro com que se vestiam, e as madressilvas, o cheiro com que se perfumavam ...

Simplesmente porque já foi tempo !...

Foi tempo em que eu sabia as tuas mãos,
cada centímetro do teu corpo e a tua gargalhada ...
Sabia o teu cheiro e o teu calor,
e o desenho que fazias na minha cama ...

E até sabia se rias ou se choravas por dentro,
só por ouvir a tua voz !

Foi tempo em que as rochas eram grutas,
e as árvores, nichos ...
Mas o alcantilado da arriba, onde o vento era livre, o sol perseguia a sombra das gaivotas ...sempre !
Nunca se escondia ...
Era Mundo aberto para outros Mundos ...

Foi tempo de relógio a correr rápido, depois mais devagar,
e mais devagar ainda ... até parar ...
E foi aí que deixou de ser tempo !...

Foi tempo de pôres-de-sol vermelhos, com braseiro aceso,
igual ao braseiro que ficou no buraco do coração ...

Foi tempo de rir, depois foi tempo de calar, e depois foi tempo de chorar,
porque foi tempo de acreditar, de esperar e de desesperar ...

E por que é que o tempo tem que ser sempre assim?!

Um  tempo  que  escurece  cedo,  com  a  mania  que  é  quase  Inverno ??!!...

E de repente o areal fica vazio ... e até as pedras tombam, para que não lembrem locais ...

Odeio o tempo das encruzilhadas,
o tempo dos caminhos tortuosos e confusos,
que sempre vão ter a caminhos que não são caminhos, porque não têm princípio nem fim !

Odeio o tempo dos cansaços e da desesperança,
porque são mortes anunciadas ...
E odeio os silêncios porque as palavras secaram ...
E eu preciso de palavras, para viver ...

Mas até para viver é preciso haver tempo ...
E eu acho que para mim,
simplesmaente ... JÁ  FOI  TEMPO !!!...



Anamar

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

" AS CHUVAS DE AGOSTO "


As chuvas de Verão são amenidades trazidas dos céus, como bençãos, nas intempéries da Vida.

São como os amores também de Verão ... fortes, curtas e desafiadoras ...

Vêm mas não ficam.   Acariciam mas não acarinham.   Pacificam mas não instalam a paz.
São parêntesis que se abrem na canícula entorpecente ;  são oásis vislumbrados, que não passam de miragens ;  são as reticências no meio duma frase, para o leitor interpretar ;  são aquela palavra que se solta no ar, e que só os atentos captam ...

Convidam-nos a dançar nos seus acordes ;  aliciam-nos a que encharquemos o corpo e a alma, em danças alucinadas, inconsequentes e expurgadoras.
Atraem-nos  e  penetram-nos  sem  remédio, como  numa  noite  de  amor ...
Molham-nos, como o suor que escorre dos corpos na loucura indistinta de dois seres ...

As chuvas de Verão têm a doçura de um embalo, ou o afago duma mão que nos desalinha os cabelos ...
São quentes, embriagantes, como o trago de um licor que nos desce no peito, mas que nos faz festas na alma ...
São chuvas que esquecemos no momento seguinte, e só os charcos deixados na calçada, nos garantem que elas vieram mesmo.
São águas que nos despem e nos descalçam, para que chapinhemos numa dança de roda enlouquecida, que começa de súbito, e termina de súbito também ...

São chuvas fora de época, como há amores que também o são !
E esses, são sugados até às entranhas, são vividos sôfregamente até ao último fôlego, têm o sabor picante do desajustado ... têm o desafio do "provocador", têm o privilégio de espicaçar os sentidos, têm a clandestinidade do secreto !...

São mergulhos incontroláveis, do alto da falésia para as águas que parecem mansas, mas em que sempre acreditamos, que pelo caminho ganhamos asas, e continuamos a voar pelos céus.
São amores inteiros, porque já não há peias para eles ... e afinal a seguir ao Verão, o Outono chega rápido, e urge vivê-los e esgotá-los, antes que, como os riachos que rompem caminho de pedra em pedra, sequem ... sequem, porque na verdade ainda é Verão !...

Deixam na alma a paz, e no corpo o cansaço saboroso do caminheiro, o sossobrar do viajante após a jornada ... são o poisar da gaivota no areal, para o repouso merecido.
Têm na boca o "travo" agridoce do queijo misturado com compota de cereja, da pitada de sal numa sobremesa, do salgado no rebordo de um copo de "Margarita" ...

São tudo e são nada ;
São frescos e escaldam ;
São efémeros mas eternos ;
Invadem-nos o coração, mas inundam-nos de lágrimas ;
São verdades e mentiras ;
São apostas em jogo viciado !...

Tal qual as desejadas e odiadas chuvas de Agosto ... docemente enganadoras ... são a penumbra inesquecível de uma lenda, que atravessa as nossas Vidas !...

Anamar

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

" JÁ ... "



Uma leve neblina perpassa, como se fosse um nevoeiro com pés, por cima das rochas semeadas no areal.
O mar desassoreou espantosamente em três dias, este local.
O meu nicho preferido mudou de "design".  Custei a encontrá-lo, e ao encontrá-lo, verifiquei como o mar, nas sucessivas marés, deixou a descoberto mais rochedos, e como roubou pelo menos mais de meio metro de  areia em altura, a esta praia.
A força incontrolável e sem freio do vai-vem das ondas, na modelagem do que foi, já não é, mas poderá voltar a ser.

Na falésia, desenhados a régua e esquadro, os sucessivos estratos que a erosão definiu na costa, ao longo dos séculos, por certo.
Estratos sobrepostos como páginas de um livro escrito, com uma longa história, uma história imemorial, transversal a destinos e gerações ...

A memória das pedras ...  O que contariam, se pudessem contar, ao comum dos mortais, sobre o percurso dos Homens, sobre a memória do Tempo, sobre os caminhos das Vidas??!!
Sim,  há  homens  que  as sabem  ler,  lhes  conhecem  a  linguagem ...

Eu, só imagino a perenidade do que vai ficando, enquanto os Homens partem !
A memória das pedras mede-se em Tempo, mas o Homem só consegue medir a sua existência em dias ... e dias e Tempo, não são a mesma coisa ...

Aqui por cima uma gaivota voa, batendo as asas.  A brisa que corre não dá para simplesmente planar, como tanto gostam.
Ver o Mundo do céu, ver a pequenez do que se estende aqui por baixo, transportando liberdade nas asas ... coisa que os Homens não têm !
Voar, só o meu pensamento o faz.
Ele é livre ... o pensamento sempre é livre, o Homem não, embora tenha pavor de perder o que imagina ser liberdade ... Uma coisa que afinal não detém ! ...  Paradoxal !...

Uma vegetação escassa e rasteira trepa pelas escarpas, e floresce ... há tufos de flores amarelas espalhadas a esmo, adocicando a aridez da falésia.
A vida esbanja-se em todo o lado, e sempre é pródiga.  Existe, mesmo quando se esconde dos olhos, mas não dos sentidos.

Estou num período da minha vida ( que se iniciou na solidão de Samaná, e mercê de muitos factores, se prolonga ), de muita maturação, reflexão lúcida, definição das minhas verdades.
Neste momento penso que com alguma clareza, consigo discernir com mais equilíbrio, e com a paz que tento instalar no coração, o que quero e o que não quero da minha vida.
Consigo olhá-la olhos nos olhos, e perceber mas sobretudo aceitar, que ela não é mais do que um fluxo de água, que corre da nascente à foz ;  segue, já a mais de dois terços do percurso, eventualmente.
É imparável, não desviará o trilho que lhe está destinado, encontra e continuará a encontrar a inevitabilidade dos escolhos no caminho, e usando a sabedoria da água, terá que os contornar, porque nada nem ninguém tem força que vença os rochedos e as penedias ...

Como toda a gente que cruzamos, penso, já ri, já chorei, já fui amada e não amei, já amei e não me amaram, já escolhi e não me escolheram e o inverso também ...
Já tive sonhos, sacos de sonhos, que se transformaram em pequenas sacolas, com o transcorrer do tempo.
Já semeei esperança e esperança, no coração ... esperando que florisse, e algumas vezes a sementeira foi abençoada.
Já acreditei com as forças todas que tinha e não tinha ... e depois, às vezes, percebi que me havia enganado muito.
Já me senti perdida em dúvidas e na cerração dos nevoeiros, que faziam crer nada valer a pena ...
Já deitei muitas vezes a "toalha ao chão", porque achei que era o fim do torneio, mas depois vi que afinal me enganara, e que ainda conseguia pôr-me de novo em pé.
Outras vezes sossobrei, e entrei em túneis sombrios e compridos que pareciam não ter fim ; escuros, húmidos e gelados, e neles estive tempos, se calhar tempos demais, até que conseguisse distinguir uma pequena luz norteadora.
Já tive que reunir forças, que fui buscar a baús que nem sabia que existiam na minha alma.
Já cerrei os dentes e mordi os lábios, para conseguir avançar simplesmente mais um passo.
Já  deixei  de  enxergar caminhos, porque as lágrimas me turvavam a vista, ou apenas ... porque não os havia ...
Já tive ao meu lado quem mas enxugasse do rosto, quem me desse um ombro, um cólo ou uns braços de repouso, quando o cansaço me matava de desespero.
Já topei com encruzilhadas, muitas encruzilhadas, sem que tivesse bússola, norte, sem estrelas no céu que me guiassem ... e tive que escolher caminhos ...
Enfim, já vivi muito, muito ... outras vezes só vegetei adormecida, entorpecida por mágoas, cansaços, desilusões ... outras vezes nem sequer vivi ...

Em suma ... fui simplesmente normal, creio, como o são as pessoas comuns;  e talvez não queira ser nunca, mais que isso !

Afinal, somos todos matéria, chegámos da mesma forma, tivémos vivências iguais ( tenho a certeza ), experimentámos todos, todas as coisa que existiam por aqui,  soubémos melhor ou pior gerir e conduzir este nosso "bote", tentando abrigá-lo das tempestades ...

Vamos estando por cá, e amanhã partiremos, simplesmente com uma única bagagem :  as páginas que conseguimos escrever do nosso "livro", e aquilo que não esquecemos, de tudo quanto aprendemos nesta nossa Viagem !!!...

Anamar

segunda-feira, 30 de julho de 2012

" A HERANÇA "




Ainda estamos em Julho ... para mim, cada vez mais, um mês muito marcado.

Hoje faz vinte anos que o meu pai partiu, três que o Óscar me deixou ... mês de partidas, e as partidas são sempre demolidoras.
As partidas nunca nos deixam incólumes. O tempo abate-lhes a destruição, mas nunca, nunca as apaga ... sejam que partidas forem.

Todas correspondem a ausências, voluntárias ou não, de seres que fizeram parte integrante das nossas vidas, e se o fizeram, é porque foram importantes para nós e determinantes no nosso percurso.

E se o fizeram e deixaram de o fazer, subtrairam parte de nós, que sempre carregam com eles.
E sem um pedaço, por pequeno que seja, não estaremos nunca mais, inteiros !

Detesto que este meu espaço seja um lugar de correio ou aferição.
O que é facto, é que sendo um canto intimista onde fundamental e inevitavelmente veiculo emoções, estados de alma, sentimentos, acaba por o ser, digamos que à minha revelia.
Isso advém obviamente também, da transparência do que escrevo, do que digo, de como sempre me posiciono, da frontalidade, verdade e pouca inteligência que acabo por usar na exposição que faço da minha pessoa ( imprudentemente, reconheço às vezes ), defendendo-me pouco, e talvez perdendo, por isso.

O povo diz que "o mal e o bem, à cara vem" ...
A escrita é uma forma aproximada de "dar a cara", e como tal, é fácil que a minha, seja um barómetro do muito que se passa dentro de mim.
Às vezes arrependo-me e reflicto sobre isso ... outras, "borrifo-me" simplesmente, e "pairo" sobre essa sensação desconfortável, é verdade.
Contudo, escrever só por escrever, sobre temas avulsos, como que "por encomenda", como que "a metro", não é seguramente a "minha praia".
Por essa razão, nunca aceitei nenhum furo jornalístico, em colunas de opinião ou outras, que já me propuseram, ou sequer publiquei o que quer que fosse.
Em boa verdade, as palavras que por aqui largo, são meras folhas largadas ao vento, que exactamente por isso, não têm uma direcção definida, não são obrigadas a ir por aqui ou por ali ;  são livres, não se encaminham para nenhum lado, e destinam-se a ser destruídas e  perdidas no remoinho dessa mesma aragem ...

Tocam aqui e ali ;  farão sorrir alguns desprevenidos ( como aquele golpe de vento que nos levanta a saia, quando menos esperamos ) ; talvez levem alguns a apanhá-las, e curiosos queiram ver o que aquela folhinha que lhes esbarrou nas pernas, ou que poisava na relva ou no banco daquele jardim, continha ...

Não são mais que aquela folha de jornal esmaecida, fora de dia e de mês ... que o "sem abrigo" lê, naquele tempo sem pressa, que é a sua vida ...

Não são mais que aquela revista serôdia, que as pessoas largam junto aos contentores, depois de lida e esmiuçada ...  Pode ser que alguém ainda aproveite ... felizmente as letras não se gastam !...

Todos conhecemos aquela imagem ou frase feita, de "abrir um buraco na areia e falar lá para dentro", como forma de extravasar o que nos "entope", e que ninguém tem obrigação de escutar, aturar, sequer entender ...
E também, poucos teriam tempo para isso, porque hoje já não há tempo para grandes coisas ...
E depois, a areia cobre rapidamente qualquer buraco que nela se escave.  É "volátil", escorregadia, macia, movediça, instável ... e o buraco aberto, rapidamente se encerra, encerrando consigo os desabafos de quem os fez ...
Outras vezes, dar um grito no escuro também resolve o sufoco no coração.
E porquê no escuro??
Porque no escuro, ninguém vê donde vem, para onde vai ...  Perde-se anonimamente pelo "éter", transportando em si, toda a carga que nos perturba ou atormenta ...

Eu, escrevo ...

Às vezes resolve, outras não ;  umas vezes é terapêutico, outras simplesmente profiláctico ... outras, nem uma coisa nem outra ...
Contudo, tenho uma veleidade ou  ambição, devo  confessar, embora nunca venha a saber se se concretizará ...

Uma vez que todos os meus conteúdos coexistem em suporte de papel também, constituindo uma espécie de "colecção" muito pessoal, deixá-los-ei depois de mim, para os meus netos, que talvez possam um dia, quando tiverem idade madura, ter curiosidade em conhecer a avó que tiveram ;
uma avó meio estranha, reconheço, fora dos arquétipos ou padrões tradicionais, meio ensandecida e pouco convencional ;  rebelde sempre, contra-corrente também ...
Sempre no pico da alegria ou no maior fosso de sofrimento, com uma insatisfação permanente de Vida, uma exigência e uma busca imparável de felicidade ;  uma ingenuidade de criança ou uma ânsia adolescente, num corpo e numa mente de mulher madura ...

Digamos que será mesmo a única "herança" que verdadeiramente lhes deixarei, por genuína, "despida", autêntica, sem preço ou valor material ...

Exactamente e só, EU mesma, a nu, como se em cada post estivesse frente a um espelho mágico, que tivesse em todos os momentos, a capacidade de me ler até à alma !!!...

Anamar

sábado, 28 de julho de 2012

" TEMPO "


O tempo sem tempo ...
...  é aquele que passa e parece que não passa, porque não passa nunca !
É feito de dias e noites, e dias que são quase sempre noites.  É sempre um tempo de desespero, de desesperança, de esperar sem ter o quê.
Não é o tempo das Vidas, porque esse, ao contrário, corre tão rápido que nem temos tempo de o agarrar.
É o tempo da morte, porque essa é certa e chega depressa.
Aliás sempre está lá no virar de uma qualquer esquina de que nem nos tínhamos apercebido ...
e há também o tempo, que não dá tempo para viver o que quer que seja.
É enganador, faz-nos acreditar em dias de sol, e no máximo, há dias de arco-íris, porque sempre chove ao mesmo tempo.

O tempo em que rimos é tão curto, que não cabe no tempo sem tempo.  Esse, é aquele em que choramos ... e bolas, choramos quase sempre !...

Aquele que passa, espantosamente é um tempo de esquecimento.  Tem mata-borrão, ou melhor, tem mesmo borracha, e vai esbatendo, esbatendo, até que o que passa, já passou de vez, sempre contra a nossa vontade.
Só nos deixa restinhos, rabiscos, flores secas, pedrinhas que nunca secam, ou então as músicas, que numa vitrola partida, tocam, tocam exaustivamente, sempre as mesmas, como se a vitrola  se tivesse engasgado, ou então sadicamente é para nos magoarem bem, bem até ao fundo ...

O tempo que passa é um tempo sem piedade, que se ri de nós, promete Primaveras e Verões, e depois, quando já estamos quase convencidos, traz-nos Outonos e Invernos, e vai-se tornando no tal tempo sem tempo.
Mas depois é tão safado, que nunca nos deixa ficar os mesmos, por cada minuto do seu precioso existir ...  Não !... 
No minuto seguinte, conseguimos sempre estar mais amargos e doídos que no minuto anterior, e a droga é que os minutos fazem horas e dias e meses e anos ...
E, bom ... depois também já não temos vontade sequer de usar relógio, ou de olhar para as flores que já secaram mais ainda, nem para as pedras que não secaram, mas que estão cobertas do pó que nunca limpámos.

Os ouvidos endureceram de tal forma, que apesar dos decibéis acima do certo, não os alcançam, e a vitrola emudece de vez ...
E olhamos os sítios, os espaços, os objectos, e verificamos que eles já não fazem sentido, e até duvidamos que alguma vez o tivessem feito ...
E é quando começamos a pensar se não estivémos mesmo enlouquecidos, ou se foi o tempo sem tempo que nos deixou assim ...

E o que foi e parecia nunca poder deixar de o ser , deixa mesmo, e damos por nós desvairados, à procura na gaveta da mente, do que a gaveta do coração nos garante que estava lá ...
Lá, onde??!!...
Abanamos a mente, como num "shaker",  bem batida, a ver se o que está em baixo vem para cima e vice-versa, mas não !...
E a certa altura acreditamos que nunca houve gaivotas, nem céus azuis, nem pores-de-sol, nem mimosas em flor, nem mar de carneirinhos ...
Nós é que pensámos, e vimos tudo nun filme em 3D, em que Énya vinha ao nosso encontro pela sala fora, e nos cantava ao ouvido "Only time" !...

Estão a ver ??
Até Énya sabe que "só o tempo" sabe das coisas, e nós somos meros "aprendizes de feiticeiro" ...

E a estrada a percorrer é longa, o caminho muito, muito comprido, pelas matas, pelos mares, pelas florestas, com chuva impiedosa a açoitar-nos.
E vamos indo, mesmo que não pintemos o céu com estrelas, como ela também nos diz ...  e o tempo sem tempo, em caminho paralelo ali bem ao nosso lado !...
Se paramos, de cansaço, ele segue, e custamos a alcançá-lo, porque sempre nos leva a dianteira.
Nós tropeçamos muitas vezes, caímos vezes sem conta, mas ele não se compadece ... segue escorreito, porque não padece de pernas, alma e coração enfraquecidos ... simplesmente porque não os tem.

Até um determinado segundo, de um qualquer dia ( sempre quando ele quer, e porque tudo ocorre num escasso segundo ), em que nos barra a caminhada, nos espeta com um sinal de stop, até mesmo de sentido proibido ou de estrada sem saída, bem na nossa cara ;
e pronto, somos obrigados a estacar, porque dali para a frente não há mais saída ...
É tal qual aquela praia deserta que os meus pés descalços percorriam, percorriam pelo nascer do sol, e que os manglares cortavam lá ao fundo.
Dali para a frente ficava só o meu olhar perdido, que encompridava, encompridava ( a esmiuçar se para lá, ainda haveria tempo ), e o tic-tac que não era de nenhum relógio, mas simplesmente do pica-pau no tronco do coqueiro, que se reclinava para as águas mansas ... a fazer ninho ...

E pronto ...  Hoje estou assim ...

Talvez porque o tempo, o outro, esteja cinzento, chuvoso, dormente, desalentador, e eu pressinta que o tempo sem tempo que caminha ainda no trilho paralelo aqui mesmo ao meu lado, está aqui está a barrar-me a caminhada, e então, sem apelo nem agravo, vou ser obrigada a parar ...

Mas talvez então, eu já esteja tão entorpecida, tão abençoadamente exausta, tão inerte, que estará na altura certa para que o meu tempo deixe de verdade de ser TEMPO !!!...


Anamar

quinta-feira, 14 de junho de 2012

" OS TRÊS F DA NOSSA SINA "


Realmente continuamos a ser um país de brandos costumes.
Os três "F" continuam a imperar.
Fátima, Futebol e Fado "alimentam" a maioria dos portugueses, têm um efeito terapêutico, até mesmo profiláctico, neste povo quase sempre cordato, quase sempre acomodado, quase sempre pouco reivindicativo.

O Governo pode estar relativamente tranquilo, Passos Coelho pode dormir com mais algum sossego, porque o "povo é sereno" !
Basta que para isso lhe seja servida uma boa dose de futebolada, um campeonato "à maneira", com as "estrelinhas" todas a brilhar no firmamento, com um Paulo Bento que deve continuar a achar que o balneário está tranquilo, e eis o pessoal a saltar, a gritar, a ensandecer, num fenómeno social espantoso, numa alienação colectiva de que estamos mesmo a precisar !

Qual crise, qual desemprego, quais greves, quais secretas, qual Grécia, qual resgate espanhol, qual falta de dinheiro já no meio do mês ... se a bola bateu na trave dez vezes, se o golo esteve nos pés do Cristiano outras tantas, se pelo menos durante hora e meia o país encerra "para obras" !!!
Ajeitam-se as vidas, os horários ... o trânsito "cessa" na Segunda Circular, na IC19 somos donos da estrada ... e a malta em qualquer canto, em qualquer tasca ou em confraternizações caseiras ( porque isto de sofrer em grupo sempre é menos traumatizante que sofrer sozinho ), com uns caracóis e umas "bejecas" está feliz, alucina a discutir os fora de jogo, os apitos do árbitro, o que não foi e podia ter sido !!!...

E sentam-se para se levantarem trinta segundos depois, roem o que sobrou das unhas, gesticulam intensamente e gritam pelos jogadores, e soltam palavrões e impropérios contra os juízes do jogo ;
as bandeirinhas, que as crianças também já mobilizadas agitam mesmo nas salas, frente aos écrans das televisões, não param ... Grita-se  " Portugal ... Portugal " !  Como se isso pudesse ecoar lá no campo, e pronto ... o pessoal todo unido à volta do verde e vermelho duma bandeira, com um desígnio único ... torcer pelo que nem se sabe muito bem o que é, mas que é este estranho orgulho bairrista de se ser português, de, de pequeninos nos agigantarmos, e até "os comermos" todos !!!
Grandes ao menos em qualquer coisa ... carago !!!...

Abençoado Euro 2012, porque enquanto durar ( e esperemos que não tenhamos que arrumar prematuramente as malas ), Portugal vai continuar anestesiado, com uma embriaguês colectiva que o fará sorrir, conseguir cantar em uníssono, e sentir uma solidariedade e uma unidade tais, que nos tornarão tão "bonzinhos", que nem do Governo a gente vai conseguir falar mal, nos tempos mais próximos !

Fátima foi há dias ...

Aí a vertente era outra.  Era mais a vertente dolorosa e frágil do Homem, que imperava.
Lá estavam os mesmos, com os terços, os cânticos, as velas, os joelhos esmurrados pelo martírio das promessas, as lágrimas escorrentes pelos rostos em penitência, em submissão, em contrição, em súplica !

Lá estavam os que pediam milagres de saúde, de empregos, de ajuda para a prestação da casa, já atrasada no Banco p'ra lá de tempo.
As "vivendinhas" em cera, entre  €3,5 e  €5, isso testemunhavam !...
Já não bastava o tradicional negócio macabro das velas de alturas humanas, das pernas, dos braços, das cabeças em cera !!!...

Aí,  é a crise que induz o aumento do "clientelismo".
Fragilizando as pessoas, vulnerabilizando-as, deixa-as inseguras, desesperadas, redu-las à pequenez da dimensão humana,  e obviamente o apelo ao divino maximiza-se.
O milagre e a protecção dos céus surge como a solução possível, como a derradeira e única ajuda, para alguém que se sente completamente perdido.
Explora-se a ignorância, o obscurantismo, a incultura, o fanatismo, mesmo o fundamentalismo das classes mais desfavorecidas, e por isso mais desprotegidas do povo.

Desígnios diferentes ... rituais massificantes iguais !!!...

Depois, todos os meses têm um 13 no calendário ... e a crise parece estar para durar, o que fará render a coisa !!!

Resta-nos o Fado ...

O Fado,  é o que se vive todos os dias.
O Fado é aquela coisa que as pessoas carregam como um fardo, que por sinal também começa com "F", e que lixa com "F" quase toda a gente !
Fado é o que nos faz dizer com aquele fácies de quem cumpre pena, tão nosso conhecido : "Vamos indo "!...
É aquilo que nos faz trabalhar e nunca sermos ricos, ao contrário dos que o são sem trabalhar ...
É a corrupção frente ao nosso nariz,  são as injustiças sociais às quais já encolhemos os ombros ...
é o dinheiro que encolhe para a saúde, para a alimentação, para a escolaridade, para os transportes ... para um mínimo de dignidade de vida ...
Fado é o analfabetismo formal como destino, e a desinformação conveniente ... é o cansaço e a desmotivação ... é o determinismo cruel que se abate ... é o não valer a pena !
Fado são os subsídios que nos foram sonegados ( coisa que já assimilámos, obviamente ... ),  é o cinto que de mês a mês aperta um furo ... é a sangria dos jovens, e daqueles que habilitados e credenciados profissionalmente,  procuram numa emigração só comparável à que lembramos das "calendas gregas",  um futuro lá fora ...
Fado são os suicídios por desespero e ausência de saída, a aumentarem,  ou os antidepressivos a serem vendidos em massa nas nossas farmácias ... são os idosos, que engolindo o que lhes restava de algum  orgulho, já pedem esmola às portas dos supermercados ... e os sem-abrigo a lotarem as instituições de solidariedade social !...

Em suma ... Fado é o que retomaremos garantidamente, sempre que os outros "fait divers" deixarem de conseguir alienar-nos mais, ou pelo menos adormecer-nos ou distrair-nos um pouco,  e acordarmos finalmente para a  nossa  verdadeira realidade !!!...

Anamar

domingo, 10 de junho de 2012

"ESTÓRIAS ??!!... QUE ESTÓRIAS ??!!..."


Hoje retomei a minha caminhada.
Ou simplesmente tomei-a hoje ... sei lá !

Sendo extremamente indisciplinada na vida, desde os aspectos físicos, aos psicológicos, aos de coração ... ( de facto toda eu sou uma "casa desarrumada" ), não consigo dizer se se tratou de algo pontual, ou se terei entrado nos "eixos" por algum tempo.
Sempre por "algum tempo" ...  Tudo comigo é por "algum tempo", estranhamente !
Sei que precisava "falar-me", respirar natureza, fundamentalmente sair de casa.  Neste momento as paredes desta casa são-me algo fóbico, que não me faz bem nenhum, que me abafa, me angustia, me arrasa.

Reencontrei a "minha" mata, com tudo no sítio, perfeito, florido, cheiroso ... deserto.
Uma das particularidades que sempre me agradam quando me sinto "encerrada para obras" ( como é o meu momento actual ), é poder caminhar, caminhar sem ver ou encontrar vivalma.
Ando um bocado farta de gente, de conversa, a maior parte das vezes circunstancial ;  farta de ter que afivelar este ou aquele semblante, só porque tenho a noção de que ninguém terá que descodificar se estou excelente, péssima ou assim assim !
Condicionalismos da vida social, condicionalismos de se viver numa mesma terra há 48 anos, na mesma casa há 38 ...

A meio do percurso, bem à minha moda, já pensava que o passeio estava a finalizar, e que a casa, aquela penumbra de fim de dia, aquele silêncio, aquele vazio, aquela solidão, estavam lá à minha espera.
Decidi que nada feito ... não ia confinar-me a esse "castigo", às cinco horas de uma tarde espectacular de sol, céu azul, uma brisa que condimentava na justa medida a força do astro-rei.

E como o "diabo foge da cruz" e quase em automatismo, meti-me no carro e vim ao Belas tomar um café.
Por aqui também há silêncio, apenas um silêncio emoldurado, como num quadro impecavelmente bem pintado, pelo verde da relva do golfe, ou dos pinheiros mansos aqui e ali, o branco das estevas, o ouro das urzes, o rosado das murtas, enfim, as pinceladas multicoloridas de tudo quanto é flor no mato rasteiro .
Por aqui joga-se golfe, pelas encostas doces deste tapete sonolento, um desporto que sempre me parece desafiadoramente repousante, intimista ... "cool" ...

A passarada privilegiada que por aqui habita, ostenta provocadora, uma liberdade estonteante ; os melros curiosos assomam as cabeças negras de bico amarelo, como se espreitassem de "tocaia" ... as andorinhas delicadas e dançarinas, ensaiam coreografias laboriosas, ora alto, ora baixo, recortadas no azul ... desenhadas no verde !...
Os patos bravos, rasam os lagos, mergulham, "catam" qualquer coisa ... e seguem displicentemente, nadando em marcha ordeira, bem comportados, até que voltam a mergulhar, a "catar" ... a seguir ...  E assim sempre!...
O sol, esse caminha em direcção ao ponto cardeal que lhe dará cama logo mais, mas entretanto, porque ainda vai alto, faz a gentileza de me envolver totalmente, na mesa em que me encontro, de chávena já vazia à frente, música calma nos ouvidos, telemóvel como única ponte com o mundo para lá deste oásis ...

Enfim, um domingo mais sem história, ou com muitas estórias ... a mais surpreendente das quais é, embora pareça estranho, o facto de continuar viva por aqui !...

Anamar

quarta-feira, 6 de junho de 2012

" O SER HUMANO "

PREÂMBULOTenho tido o meu computador avariado, razão pela qual há bastante tempo aqui não venho.    
Tenho, contudo, escrito alguma coisa, que recomeço aqui a publicar hoje.



Que coisa mais estranha ... Deixei de conseguir escrever !
Deixei de sentir dentro de mim razão de ser, para por no papel alguma coisa, porque pareço estar insensível ao que me rodeia, e era razão de exprimir emoções.
Desvalorizo sistematicamente todo e qualquer assunto, porque de repente, as coisas que me mexiam, eram gigantes e precisavam vazar, continuam a precisar vazar, mas esbarram por sistema em comportas que não abrem.
A "albufeira" vai lotando, lotando, o que me instala um sofrimento, um desconforto, uma falta de ar ... e um "dia é dia", como costuma dizer-se ...
Assim são as catástrofes naturais, quando a chuva é intensa e os lagos não comportam o excesso de caudal.

O computador entretanto avariou, embora ultimamente eu tenha deixado de ter uma relação muito saudável com ele.
Penso que saturei, ou me desinteressei, ou me incomoda, de alguma forma.
O ser humano é bem complicado ... eu sou bem complicada !

Hoje perdi a última esperança de fazer algumas férias lá fora, como todos os anos.
Normalmente as minhas viagens eram suportadas economicamente em grande parte, pelos subsídios e pelo acerto do IRS, que recebia exactamente agora no Verão.

Este ano, como sabemos, não só os subsídios não foram e não serão pagos, como o meu acerto do IRS é absolutamente ridículo.
À semelhança de um mail irónico que circula, simbolizando as "férias dos portugueses" ( assim se chama ) - em que se vê uma personagem em trajes de praia, sob um chapéu de sol e um copo de refresco na mão, frente a um televisor onde passam imagens de ilhas tropicais - também "viajo" todas as noites, compulsivamente, no Travel Channel.
E como invejo os realizadores desses programasa, que à conta de os produzirem, conhecem o Mundo inteiro !...

Não é justo que eu coloque aqui este estado de espírito ; aliás, é provocatório, descabido e egoísta.
Numa época em que o planeta se debate, mais que nunca, com todo o tipo de dificuldades  para sobreviver ... numa época em que as famílias se desdobram, inventam, lutam em desespero para subsistir ... numa época em que o comum dos mortais apenas quer saber se estará ainda empregado no dia seguinte, se terá dinheiro para manter a escolaridade dos filhos, "responder" às necessidades de saúde e alimentação sua e dos seus familiares ... em que os sem-abrigo aumentam exponencialmente sob o céu escuro ... em que os suicídios e depressões grassam, e nunca tantos portugueses recorreram ao psiquiatra ... numa época em que até o sol parece ter-se apagado por cima de Portugal ... em que até ele parece ter deixado de ser gratuito e generoso para todos, aqui no nosso cantinho ... bolas, falar em férias ... nesta época ... exactamente nesta "altura do campeonato", parece uma blasfémia, óbvio !
E é ... claro que é !!!...

Mas também é verdade que continuamos a ver assimetrias sociais gritantes ; continuamos a ver gente ( e são sempre os mesmos ), a "dar-se" muito bem na vida ; a manter os privilégios e os esquemas, à custa de muita coisa mal, ou não explicada ; continuamos a ver que as oportunidades afinal não são nem foram iguais para todos, que as arbitrariedades estão e continuarão instaladas, que não é quem trabalha honesta e transparentemente, que enriquece e deixa de ter sobressaltos de vida ... 
E isso faz-nos sentir um amargo de boca, uma revolta interior, uma raiva que amordaçamos, sempre amordaçamos ( porque os portugueses, de uma maneira geral, são "boa gente", pacífica, cordata e sofredora por excelência ) ...

No café de todos os dias, em que as pessoas se partilham momentos desses dias ... em que as pessoas não se conhecendo objectivamente, criam afinidades, criam laços, de certo modo, trocam escassas palavras de cumprimento e raramente de algo mais ... em que as pessoas por hábito, já sabem quem está "a faltar", e se questionam por que o será ... e até se inquietam, até inquirem " o que terá acontecido" aos ausentes ... chega a experimentar-se "alegria" se regressam, se os rostos voltam a fazer parte dos desígnios dos destinos ... que se cruzam, se descruzam, se dividem ...

Hoje regressou à bica do pequeno almoço, um utente do espaço, que "desaparecera" há cerca de dois meses, e que quando "sumiu", aparentava estar com problemas de saúde.
Um senhor beirando os oitenta anos, tipo inglês, distinto, discreto, extremamente correcto, um senhor bastante alto, seco de carnes, "low profile".
Não fui só eu a sentir a sua ausência, apesar de apenas trocarmos alguns diálogos de pura cordialidade.
O "doutor", como é tratado ( não sei do quê ... Eu "fazia-o" ex-militar ... general, brigadeiro ... nunca menos ... rsrsrs ), sempre me oferece, depois de o ler, o jornal desportivo diário, que compra . 
Reencaminha-o para a minha mãe, que nos seus noventa e um anos, como já tenho dito, sabe mais que muitos, sobre futebol e não só.
Sabe largamente do seu Sporting, que lhe dá dores de cabeça continuadas ( e para cujos insucessos sempre tem uma explicação justificadora ), e fica diariamente reconhecida, por ter acesso gracioso às "frescas", que a distraem pelas tardes ociosas.

E dei por mim, ao bater os olhos nele, a ter uma espécie de alívio, de tranquilização de alma, de alegria.
Porque afinal, o "senhor" não morrera, como eu já havia imaginado  ( embora tenha estado longamente doente ) ;  
E mesmo depauperado, voltou ao nosso convívio.

Parece exagero o que aqui escrevo. Pode parecer uma postura "atoleimada", descabida, até pretensiosa talvez, da minha parte.
Mas afianço-vos que senti tal qual assim, porque o "doutor" já é pertença minha, já há muito faz parte da minha realidade diária, de cada uma da vinte e quatro horas que me vão sendo disponibilizadas, na estrada que me é dada percorrer.

O ser humano é assim ... enquanto for HUMANO ... espero !!!...

Anamar

domingo, 15 de abril de 2012

"TIME TO SAY GOODBYE "


Começa a chegar o pessoal para a bica do almoço.
Há um período, entre a manhã e a tarde, em que gente normal não está obviamente, nem a tomar o pequeno almoço, nem ainda o café pós-almoço.
Afinal, estamos entre a uma e as duas !

Gente tonta como eu, terminou o pequeno almoço ;  sinto o vazio de um café que se despovoa por algum tempo ( se bem que o odeio cheio,  quando aqui chego ) ;  oiço os "até amanhã" ditos em despedida aos empregados, e escrevo não sei o quê, nem para quê.
Escoamento nítido e absoluto de insanidades, por necessidade absoluta de abrir os diques em barragens na "cota máxima" ...

"Chamada de atenção" - foi-me dito um dia destes.  Porque, "se o não fosse, este espaço não seria público".

Acho que não !...
Acho que não quero chamar a atenção de ninguém, porque não quero nunca incomodar ninguém.
Apenas, ao escrever sinto-me acompanhada.  Tenho um objectivo ... algo real entre as mãos, mesmo que seja para ninguém ler, mesmo que seja apenas para ter a sensação quente, de abrir por momentos uma janela, mesmo que saiba que nada disto tem relevância, interesse sequer ( como é o caso de hoje ), mesmo que nada disto me satisfaça, realize ou alivie.

Afinal, abrir uma janela, sempre é ver céu, sol ou não, chuva ou não, pássaros ou não ... mas sentir Vida lá fora, inspirar o ar mais até ao fundo, absorver cheiros até ao âmago, sufocar-me do vento que corre, ou embalar-me no frio ... sei lá !!!

À noite, quando por saturação ou desinteresse desligo o computador, é um "até amanhã" silencioso para muitos e para ninguém, é um bater a porta, é a sensação de uma maior solidão e isolamento que se instala naquele quarto, na minha vida ...
É o ficar eu e a Rita, mesmo sós ... ninguém mais !

Deixar de escrever aqui, escrever e guardar, ou escrever e deitar fora simplesmente ... uma hipótese sugerida, que às vezes considero.
Mas aí fico sem nada, sem o resto que me sobrou, sem o pouco que tenho, porque na verdade, pouco tenho mesmo ...
Ninguém imagina a amputação que isso me representaria ...
É como se metade de mim já tivesse ido, e a metade que ficou, estivesse a ir ...

"Vais acabar sozinha" - sentenciava-me a minha filha noutro dia, acusando-me de me furtar frequentemente ao convívio, e me "enfiar na concha" ...
"Acabar" como ... se já o estou ???!!!...

Queria ser como a outra gente.

A Teresa tem ímpetos religiosos. "Respira" igreja ... a dela !
A Fátima organizou uma forma de existir, de subsistir ... de resistir.  Teve que ser, desde que a mãe partiu e ela ficou só.  Tenta sair, tenta conviver, viaja ...  Nunca recusa uma proposta de programa ...
A Bia faz trabalho social, exerce voluntariados, é feliz !
A Ema pertence à Legião de Maria e ao Banco Alimentar contra a Fome ... e é feliz !
A Lena, não tem vida própria ... vive a dos outros. Desdobra-se, transcende-se, ajuda, solidariza-se ...é feliz também !
Outros fazem "voluntariado" compulsivo, junto de filhos e netos.  Reclamam, mas sempre riem. São felizes !
Depois, há quem conviva pacificamente com a solidão, ou nem dê por ela.  Arranjam carapaças rijas.  Lêem, almoçam, lancham e jantam televisão ... e não se questionam, nunca se questionam ... nunca questionam o que é realmente viver, ou sequer a lógica que preside à mera sequência de dias iguais, esperando apenas que passem, que passem indiferentemente ... sabendo que os "amanhãs" são piores que os "hojes" ... e os "hojes" piores que os "ontens"...

E sempre a descontar, mantendo-se inconscientemente adormecidos, anestesiados ... porque as anestesias foram feitas para evitar as dores, até mesmo a sensibilidade.
Estar anestesiado é uma espécie de ante-câmara de estar morto.
E estar morto, deve ser a doce sensação de estar em paz.  Por alguma razão, nas lápides tumulares se escreve : " Repousa em paz"!...
É porque alguém sabe que só assim se alcança a paz ...
Bolas ... e se é assim, andamos nós todos com medo de a alcançar ... porquê ???!!!  Não se percebe !!!

A minha mãe teve ontem a sua festa dos noventa e um anos.
Olho para ela e vejo-a naquela mansa inconsciência ( sei lá se é !!!  E também, de que lhe serviria, se o não fosse ???!!! )
Que tanto futuro pode ter alguém com noventa e um anos??  Que "tanto", e "que" futuro ???!!!
A estrada termina logo ali !...

Eu "esgatanho-me" diariamente, numa impotência de luta desesperada com tanta perda de dias, com tanto desperdício de tempo, com tanta vida não vivida ...
E não consigo fazer nada ... Não consigo dar um passo à frente, que não dê dois para trás, na mudança de rumo ...
Ela vive, simplesmente ...
Se calhar a biologia humana é isto.  Encarrega-se de pôr as pessoas à sesta, antes que chegue o sono da noite.
Vai-as embalando, naquele estado de vigília, que já é, e ainda não é sono profundo ...
O tal estado de anestesia de Paz.  Pelo menos, não se degladiam de manhã à noite.
Porque ninguém aguenta uma disputa, de vinte e quatro sobre vinte e quatro horas ... inglória, destrutiva, ineficaz, mortífera !!!

Faz hoje um século, o naufrágio da História ...
O Titanic, o invencível, o gigante dos mares, o "inafundável" ... sucumbiu !
Um iceberg matreiro, dissimulado ... por destino, à sua espera, pôs fim ao sonho.  Bastaram duas horas e o fundo oceânico deu-lhe berço ... paz !!!

O meu "rombo" hoje é maior ...
O meu naufrágio, também ... Só que felizmente, eu afundo sozinha!...



                              
Anamar                       

sábado, 24 de março de 2012

" O FIM DO RECREIO "



Ontem um dia de sol, absolutamente primaveril.  Hoje um dia de chuva absolutamente imprevisível !

O tempo, como a Vida.
Altos, baixos ... sempre imprevisibilidades.

Hoje não estou para amar !
Nos fins de semana sobra-me tempo, e sobrando-me tempo, penso demais.  Seria desejável, se não fosse em excesso.  Os excessos nunca são úteis.

A certeza de não ter certezas, desgasta-me. O que é facto é que não ter certezas de nada, é uma das características do existir.
Tenho a mania das arrumações e da organização, talvez da sistematização ... ( defeito de fabrico ... ), e não me sentir "arrumada", deixa-me uma inquietude demasiado "desassossegada".  Mal gostosa !...
Só me sinto tranquila, se encarar, resolver, decidir ... arrumar ...  na prateleira, na gaveta, na cabeça, no coração ...
Tudo quanto fica a pairar, tudo quanto fica suspenso, tudo para que não tenho resposta, alguma resposta, seja lá qual for, não faz parte da minha índole.

Sempre sou de radicalismos.
Quando quero, quero muito ... só sei querer a cem por cento ... ou então não quero nada.
Custo a fazer concessões à Vida, não sei "negociar", não sou política ... decididamente !
E a Vida não é assim que se faz, as regras do jogo não são seguramente essas.  A diplomacia nunca foi o meu forte, a contemporização também não ...
Para mim, ou é preto ou é branco ; as cores difusas do comprometimento ... as cinzas da paleta, não pintam as minhas telas.  Hoje o céu está uniformemente cinzento ...

E dizem-me que não é assim.  Dizem-me que sempre o copo estará meio cheio ou meio vazio, depende de como o olhemos, e que nem tudo é branco totalmente, nem tudo é preto totalmente.
Quero acreditar, mas lá no fundo, não acredito mesmo !
A maior parte dos meus dias, é efectivamente ou de chuva, ou de sol primaveril, e o meu "copo" ou está pleno a transbordar, ou está vazio de dar dó !
Hoje, está vazio !!!

Não aceito o "talvez" no meu vocabulário ... custo a aceitá-lo pacificamente.
Porque o "talvez", precisa de tempo para se tornar "sim" ou "não" ... e tempo é o que eu já não tenho muito.

E cada pedacinho de tempo que é e deixa de o ser, não é mais do que uma parcela da soma que me concederam.
E de repente, estou a fazer vertiginosamente contas de subtrair e jamais de somar.
Todos os dias se encarregam de me lembrar que convém despachar-me, na busca do "sim" ou do "não" de vida.  Porque cada dia, a qualidade da mesma, também é o resultado de contas de "menos" e nunca contas de "mais".

E um dia acordamos de supetão, e o espelho, que sempre tem a capacidade de nos ler o rosto e a alma, vai mostrar-nos claramente que acabou o tempo "regulamentar", e batota não se pode fazer ...

Deixámos para trás as últimas árvores do caminho, deixámos para trás os últimos riachos onde sempre nos poderíamos refrescar, deixámos para trás a cauda do último cometa, que como cometa, é volátil na passagem, e por isso já foi ... e à frente, o trilho pedregoso que se desenha, não tem horizonte lá ao fundo, não tem paisagem merecedora a ladeá-lo, e o céu por cima, é cinzento uniforme, como o de hoje.

E aí a história é implacável.
É mesmo a história do copo inapelavelmente vazio, é mesmo a história da história que se esgotou, sem retorno.
Foi o toque da campainha do fim do recreio.
Foi o correr da cortina da boca de cena, sem que os actores retornem ao palco, porque foi simplesmente o último acto da peça !!!..

Anamar   

domingo, 26 de fevereiro de 2012

" EN PASSANT " - O gato preto



Agora, além da minha gaivota que bem se " borrifa " para mim em dias de céu azul e sol desanuviado, herdei um gato preto dos terraços das traseiras ...
Um gato preto em que, de claro só lhe luzem os olhões, duas bolas luminosas que distingo perfeitamente da altura de sete andares.

O gato preto partilha comigo alguns privilégios.
Gosta de se deitar sonhador, ao sol de Inverno, enquanto ele nos presenteia ( antes da sombra traiçoeira dos edifícios nos remeter para uma escuridão de dar dó !...)
Gosta de comer do meu fiambre, o que implica que a minha compra semanal deva alargar-se, porque partilhar é qualquer coisa que não discuto, sobretudo se for com animais ...
E talvez não goste ... ( eu também não ), da solidão destes sábados e domingos castigadores.

Mas também ... quem pode falar em solidão, se tem uma gaivota e um gato preto ??!!

De resto, tenho depois a meus pés, já vos contei, a panorâmica "emocionante", que vai do betão aos telhados, sem "rei nem roque", a alturas díspares e disposições caóticas.
Felizmente que não "embirram" comigo, já que a minha janela ocupa o cocuruto do prédio, e nada se lhe colocou nem colocará à frente.  Sou portanto uma sortuda !

Tenho também uma araucária que continua a "trepar" por patamares, ano após ano, sempre verde, sempre folhada ... Um plátano despudorado, que se despe sempre e completamente em pleno Inverno, sem preocupações de nudez exibida ... e uma outra arvorezita que o ladeia, e que para ser simpática, também se despe nesta altura.
Estes dois exemplares tornam-se interessantes, daqui sensivelmente a um mês, quando os verdes começam a despontar, e com eles, a passarada começa a acordar-me, aos primeiros raios de sol madrugadores.
Dantes tinha o Palácio da Pena no horizonte, mas fizeram o favor de o ocultar das minhas vistas, com a construção desenfreada.
Resta-me pois, lembrar o local donde ele me "espreitava", e imaginar que por detrás do casario, ele continua lá !...  E a imaginação é gratuita, felizmente !!!...

Depois também tenho pombos ... mas pombos nesta altura do campeonato, são uma praga, como se sabe.
Além de que os considero uns bichos estúpidos ...  Veja-se o sapateado que fazem à frente dos carros, para "virarem" tosta mista, na calçada, segundos depois ...
Portanto, neste meu cenário,
 estão reduzidos a "cartas fora do baralho" !...

Que mais poderei contar-vos aqui desta minha tribuna ?

Que estou "encarrapitada" na máquina de lavar roupa ... que estou a "espremer" o microondas contra a parede ...  E porquê ??
Para ter o sol a banhar-me praticamente de cima a baixo, o que me faz sentir de facto, mulher de sorte !

Há largos anos atrás, quando se colocou a questão da existência de um gato nesta casa, a única condição que a minha vertente de "bruxa" impôs, foi que ... "pois então ... que seja um gato preto "!

Todos os gatos são altivos, personalizados, independentes, livres ...  Mas um gato preto lembra-me uma pantera em tamanho "small", e a pantera é de facto um felídeo que me fascina.
Só que "o Homem põe, e Deus dispõe", e porque nesta casa não se compram animais, apenas se adoptam os que vêm das curvas do destino, e o primeiro "deserdado da sorte" que então surgiu foi o Óscar, aí fiquei eu, com um gato bem branquinho, concedendo algumas manchas apenas bejes ...

O Óscar já partiu, como também sabem.
A Rita, gata / gato remanescente, é o cinzento europeu, marcado a preto, mas ainda assim, cinzento.

Por isso, por todas as razões, não abro mão do meu "enfarruscado" do fiambre, ainda que eu esteja no sétimo e ele no terraço lá em baixo.
É preto, é rafeiro, tem olhos lindos e meigos, namora-me cada vez que me ouve abrir a janela, e o mais importante de tudo ... divide comigo solidões !...

 Anamar

sábado, 25 de fevereiro de 2012

QUEM NADA À TONA É ... "PATO" !...


O tema do meu post de hoje, versa o tipo de coisa para a qual não tenho jeito, que não gosto, que me violenta de certo modo, para que não sou vocacionada, que me irrita.

Desde sempre vos contei aqui, da indisciplina que caracteriza a minha forma de ser, e a relutância em me sujeitar a directrizes, determinações, seguidismos, se não os achar lógicos, certos, justos.
Embora tenha vivido grande parte da minha vida na época do silêncio, da mordaça, da submissão ... como diz Adriano, " há sempre alguém que resiste ... há sempre alguém que diz não !"... mesmo que o diga sem "estrilho", mesmo que o diga muitas vezes por pequenos / grandes gestos, ou pela assumpção de pequenos / grandes posicionamentos.
Nunca fui activista de nada, porque o não tenho na forma de ser ; mas também nunca me "encarneiraram", como costumo dizer, a massas acéfalas, a turbas meio confusas, a estruturas mais ou menos dúbias, e por isso pouco claras.
Por isso, nunca me filiei em nada que me exigisse submissão "cega", obediência inquestionável, seguidismo cómodo.
Tive o direito de extravasar a minha contestação quando o entendi, como estudante, nos memoráveis anos 60/70, no meu local de trabalho quando o achei necessário, nas relações sociais ( mais ou menos próximas ) como cidadã deste país, nas ruas, quando Abril já tão distante nos presenteou com "valeres a pena", quando Abril abanou até os mais imobilistas e acomodados, quando acendeu chamas em corações que há muito as tinham extinguido.

Não tenho, nunca me reconheci, dons de liderança, sequer de opiniões credíveis ou de peso ; nunca tive capacidade de mobilização ou arregimentação de "massas" ao meu lado ou atrás de mim, nunca tive carisma de líder de coisa nenhuma.
As minhas opiniões valem o que valem, a minha forma de ver as coisas enquadra-se tão simplesmente nos valores e nos princípios pessoais, morais, éticos, que me foram transmitidos de trás e em que acredito ... e evidentemente que tenho marcas bem nítidas, de um país extremamente apolitizado, com cidadãos demasiadamente desinteressados e desinformados, com uma participação feminina na vida pública e política pouco significativa, onde a questão das cotas atribuídas, por exemplo, não foi propriamente uma "quimera" longínqua, perdida no imemorial dos tempos, como sabemos.

Felizmente a realidade que entretanto se foi desenhando, teve capacidade mobilizadora, a sociedade abriu ou escancarou portas também às mulheres deste país, à semelhança da Europa e do Mundo que habitamos ...
A política começou a ver-se também por olhos femininos, o que sempre entendi como uma mais-valia, por beneficiar da adição de factores inerentes à sensibilidade da mulher, contra a exclusiva "musculação", advinda das mentes do tradicionalmente chamado ( ??? ) " sexo forte ".

Bom, mas todos os dias vamos vendo, vamos lendo, vamos ouvindo ...
Querendo ou não, acabamos por ser "mexidos" com isto ou aquilo que acontece ao "nosso lado", ou mais ou menos longe de nós, obviamente.
E foi exactamente o conteúdo de um mail circulante ( denunciador de situações abusivas, clamorosamente injustas, semelhante a muitos outros idênticos, sobre as mais diversas personalidades deste país e do xadrês político-social que nos rodeia, nos governa e nos insere ), que me trouxe a este escrito.

A informação veiculada,  era a tradicional neste contexto ( as reformas, arbitrária, duvidosa e injustamente alcançadas, os montantes absurdos das mesmas, a provocação ostentada frente ao cidadão comum, de benesses atribuídas muitas vezes imeritoriamente a indivíduos,  por ocuparem determinados lugares no jogo governativo ... e etc, etc, etc ...  Tudo idêntico a outros quinhentos mails que já li, e que deito rapidamente fora, encolhendo os ombros, não sei se por raiva, se por impotência, se por decepção ... )
Este mail apoiava-se em fontes informativas credíveis, remetia documentalmente para referenciados Diários da República, como sustentação.

Até aqui tudo bem, ou tudo mal ... Pelo menos, "tudo como dantes" !...

Então o que tanto me abanou, feito máquina de lavar roupa em plena centrifugação, para mexer nos meus "brios", a ponto de vir aqui debitar umas coisas??!!

É que o mail respeitava a uma personagem que embora não conhecendo cabalmente, me tem causado uma impressão favorável, apesar de pertencer a uma tendência política que não é  a "minha praia", se bem que eu não tenha propriamente uma "praia" ...
Eu defendo princípios sociais e não interesses partidários, eu defendo valores que lutem pela dignidade humana, pela justiça entre os seres, pela igualdade de direitos mas também de deveres, pela liberdade de acesso a quaisquer cargos públicos ( desde que haja transparência nesse acesso ), e de integral expressão individual, sem privilégios ou compadrios, por mérito ( porque a igualdade é p'ros burros ... também sei ...)

Assunção Esteves, actual Presidente da Assembleia da República, pelo partido do Governo, reformou-se com 42 anos.
Tem uma pensão mensal ( 14 vezes ao ano ) de € 2315,51 ... um vencimento mensal ( 14 vezes ao ano ) de € 5799,05 ... ajudas de custo mensais ( 14 vezes ao ano ) em média de € 2370,07,  o que a ser verdade o veiculado pelo mail  ( que remete para o Diário da República de 30 de Julho 1998 ), a dita senhora onera o erário público, num total mensal médio de € 12232,07  a que se adiciona viatura oficial BMW a tempo inteiro.

Que raios !...  Isto dispensa comentários !...

Que irritação !...   Até porque acresce que Assunção Esteves é mulher, e acaba de deitar por terra a minha ingenuidade e fé estúpida nas mulheres ... até mesmo nas loiras !!!..

Por que será que de repente me veio à mente Maria de Lourdes Pintasilgo ??!!  :)))

Já vos oiço dizer que nada disto passa de frases feitas ou demagogia barata.
Mas como diz um amigo meu, "uma verdade é feita de muitas verdades " e  eu acrescento  "uma verdadeira indignação deve advir de muitas pequenas / grandes indignações que lhe dêem voz "... sendo que será assim ( se mantivermos esperança ), que se poderá ir mudando / reformando / aperfeiçoando mentalidades, vontades, injustiças, assimetrias ... ilegalidades ... o Mundo !!!

Por outro lado, deparo-me constante e continuamente com a percepção de que continuamos exactamente como estávamos e sempre estivemos, em que os jogos de bastidores, as "protecções" entre amigos ( políticos e de interesses ), os velhinhos "tachos", os "boys" e os menos "boys", as redes, as seitas, as sociedades auto-protegidas, mais ou menos secretas e pouco transparentes, continuam a viabilizar, a facilitar, a abrir portas e a deitar escadas para "topos" ( por vezes bem suspeitos ), aos que "falam a mesma língua " e só a esses, em detrimento de outros possíveis e capazes, que apenas têm o azar de não pertencer a essas "cores", "credos", "interesses", "bastidores" encapotados ...
Continuamos a saber e a sentir, que o tráfico de influências e o "caciquismo" estão aí !!!...

Assim sendo, prosseguimos, e não tenham ilusões ( e eu não quero cair naquele raciocínio desenvolvido na  revista "Sábado" por Pacheco Pereira  " Dizemos que uma coisa é inevitável e deixamos de nos esforçar para a evitar, ou que é irrealista e logo a realidade se impõe sem apelo nem agravo, ou ainda irremediável e deixa de ter sentido procurar remédios " ( sic ) ... parece claro e definitivo, karma, destino ou fado, que cada vez mais, as intenções "tout court" não podem nem devem bastar ... Não chegam para fazer "destes", melhores que os "outros" ... dos "outros" melhores ainda que os "outros" ... e por aí adiante.
Até porque ( lá vou eu buscar a voz do Povo )... "Depois de mim virá, quem de mim, bom fará "!!...
Mas eu não quero ser simplista nem entrar em vulgaridades !

Moral da história : Dois caminhos são possíveis :

Ou alinhamos no esquema, espraiamos os olhos à volta e prospectamos onde se encontrará o auspicioso "furo", o "conhecimento", a "pessoa certa" para a abordagem perfeita, o "trampolim" apetecido ... a qualquer preço, sob quaisquer condições ( mas que nos dará tanto jeito ... ), e mandamos às "urtigas", coerência, valores, princípios, ética, boas intenções ... deixamo-nos de atitudes quixotescas utópicas e estúpidas ( ainda que por sobrevivência ) ...

ou

Continuamos "nhurros" ... "tótós" ... irredutíveis ... a "marrar" nas paredes ... a "topar" nas pedras ... armados em "pintas" não pactuantes, impolutos, incorruptíveis, com a mania "peregrina" de querer deitar a cabeça na almofada e dormirmos tranquilos, de consciência leve ( e acreditamos piamente que temos uma consciência a que devemos respostas ... ), ESTÚPIDOS e PARVOS ( em última análise ) ...... e então nadamos à tona do pântano fedorento onde nos encontramos ...

Mas aí, meus amigos, percamos as peneiras ... porque estamos todos "carecas" de saber que   "Quem nada à tona ... é obviamente PATO " !!!...

                    
Anamar