Será um blogue escrito com a aleatoriedade da aleatoriedade das emoções de cada momento... É de mim, para todos, mas também para ninguém... É feito de amor, com o amor que nutro pela escrita...
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domingo, 9 de setembro de 2018
" UM BANHO DE SAÚDE "
Quem tem a Natureza à porta, às vezes desconhece a mais valia de que dispõe.
Quem vive no betão impessoal e descolorido, sabe-o bem. O mergulhar nas potencialidades que a Natureza nos prodigaliza, ali ao virar da esquina, é quase sempre um banho vitamínico para a alma e para o corpo.
Amanheci e estive ao longo do dia com um "calundu" daqueles ... Cansaço de fases da vida ... ressaca da "esfrega" a que fui sujeita ontem, como aqui contei ... noite mal dormida também por isso ... ?? Sei lá ... talvez tudo e talvez nada .
O que é facto é que passei o dia naquele enrolo improdutivo e indeciso, sem iniciativa para nada. Uma modorra chata e desmotivante que não faz, nem deixa fazer.
E o domingo a escoar-se, e de útil ... népia ! Ao menos que tivesse dormido, o que nem sequer foi o caso.
Há muito, demasiado tempo, que banira as caminhadas da minha realidade. Sei lá ... nem sei quanto.
A situação da minha mãe até ao fim da sua vida, foi de tal maneira limitativa, absorvente e destrutiva, que me tirava toda a disponibilidade temporal, mas sobretudo toda a vontade e espírito anímico para o efeito.
Sou comodista por excelência, extremamente avessa ao exercício físico, e como tal, ginásios ou prática de outros desportos representam uma dificuldade acrescida, que me desanima e afasta.
Caminhar ... e caminhar na mata, era a única actividade que tolerava sem grande esforço, direi mesmo, com algum gosto.
Havia deixado de o fazer, como disse.
Mas com o avanço de uma tarde sem história que teimava em se arrastar, com um sentimento de inutilidade e bloqueio psíquico, desgastante ... e sem vontade útil de outras iniciativas, escutei o desafio de um amigo que há largo tempo já, me "alfineta", confrontando-me com a perda dos meus bons hábitos de vida : "Margarida, tu eras tão persistente e agora estás preguiçosa. O exercício é fundamental para a saúde. A tua vida é demasiado sedentária ..." e etc, etc, etc.
E o mais grave é que é exactamente verdade !
Desta forma meio safadinha, mexeu-me nos brios, e ... ala que se faz tarde ! Uniforme de treino, ténis, mochila às costas com água, as chaves e o telemóvel e aí fui eu ... ou melhor, aí fomos nós, porque uma caminhada com companhia, é bem mais gratificante e bem menos castigadora do que fazê-la em protesto, refilando só comigo mesma ... 😄😄😄
Às vezes é só preciso um empurrãozinho ...
Uma tarde pouco quente com uma brisa fresquinha a correr, o silêncio das veredas, os aloendros em flor, o trinado dos pássaros e o verde bem reconfortante, esperaram-me na mata de sempre.
Receava o cansaço por excesso de destreino, mas a hora e meia passou agradavelmente rápida, por entre conversa, risos e algumas confidências ... ou não fôssemos nós amigos de há já muitos anos.
E pronto, deixei por lá o "calundu" que me massacrava os miolos, esvaziei a cabeça de alguma coisa do que ma perturbava, e concretizei o primeiro episódio do que espero venha a ter continuidade : a realização persistente, disciplinada e esforçada, da manutenção saudável da minha qualidade de vida !
Afinal, p'ra grandes males ... grandes remédios !...
Anamar
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quarta-feira, 5 de setembro de 2018
" O SONHO COMANDA A VIDA ... DIZEM ... "
Escrevo pouco. Já o referi vezes sem conta.
Neste momento acho que estou tão crítica face ao que escrevo, que cada texto resulta num parto tão difícil, que custa a fazer-se.
Atravesso uma crise de criatividade, julgo, mas sobretudo, por cada escrito que escrevinho, sopeso vezes de mais da oportunidade de o fazer, do interesse ou do valor do mesmo. E como sou demasiado perfeccionista em tudo na minha vida, acabo concluindo da inutilidade de o produzir.
Nada de novo poderia envolver as minhas palavras, pois como se sabe, já absolutamente tudo foi inventado.
Claro que qualquer tema ou assunto é sempre passível de ser abordado das mais variadas formas.
A visão de cada um. Mas o interesse devido à minha possível, é forçosamente irrelevante e irrisório, desnecessário e redundante, face à proliferação de autores, de gente capaz e abalizada ... em suma, de gente "autorizada" no domínio das letras e da cultura, neste país !
Depois ainda, eu escrevo primordialmente numa libertação de alma, num aliviar de comportas emocionais, quase sempre. É uma escrita intimista e personalista que caracteriza este meu espaço. Uma verborreia com pouco de pragmática, uma abordagem dos temas invariavelmente indissociável do meu "eu" interior, sendo que é sempre "ele" e a sua "saúde" real, que ditam o espírito das minhas letras ...
E isso, é obviamente domínio pessoal, de interesse ou consideração precários, por parte de quem aqui eventualmente desce a lê-las.
Tenho um amigo que descobriu recentemente as virtualidades da escrita. O quão importante é, tantas e tantas vezes, libertar para o papel o que nos vai na alma, o que nos assalta a mente, as interrogações que nos colocamos, as dúvidas e as inquietudes que nos assolam.
Podermos "conversar" com nós mesmos, através das palavras que alinhamos, sem outro intuito ou objectivo além de olharmos como se olha num espelho a nossa imagem, de uma forma descomprometida, ou como se observa no porta-retratos o nosso rosto ali representado ... de fora para dentro, com algum distanciamento, é efectivamente uma forma de nos sentirmos vivos, e um privilégio ... acho..
Admiro muito o que escreve. Tem uma forma de se expressar "naïf", sem pretensões de estilo, de conteúdo ou forma. Sem preocupações de correcção ortográfica, inclusive.
Alinha tudo o que quer dizer, ao sabor do desalinho do seu próprio pensamento ... sem demais preocupações.
Escreve tal qual é, tal qual pensa, tal qual age na vida. É uma escorrência com a impulsividade ditada apenas pelas próprias convicções, sentimentos e opiniões. Duma forma liberta, sem peias ... vernácula.
Solta as memórias ao vento, conforme o povoam. Não tem inibições, censuras ou medos.
Escreve com uma genuinidade absoluta. Lembra uma criança a fazê-lo. Tem a simplicidade de Aleixo na expressão, e um discurso muitas vezes, absolutamente ternurento, porque ditado pelo coração que tem no peito, bem subido ... pertinho da boca !
Escreve sobre tudo e sobre nada.
Tem uma criatividade inesgotável, e as suas histórias, contadas na primeira pessoa, ou através de outras personagens heterónimas, são quase sempre deliciosas.
É um homem vivido, com muita estrada palmilhada lá para trás. Com incursões por muitos mundos, cruzou a sua vida com muitas outras ... e de todas tem um episódio para contar.
É dotado de uma sensibilidade à flor da pele. Tem uma curiosidade de menino que descobre a vida, e uma mescla de bonomia e irreverência face à mesma ... muitas vezes.
Ingenuidade também ... como criança grande, esperançosa e crente, que não cresceu.
Invejo-lhe a riqueza de ideias. O manancial de vivências. Invejo-lhe a liberdade de expressão. Invejo-lhe mesmo a "inconsciência" com que o faz ...
Duvido que alguma vez envelheça. Duvido que algum dia reconsidere caminhos, mesmo podendo ser prejudicado quantas vezes, por palmilhar os escolhidos.
Desejo que mantenha e nunca deixe apagar dentro de si, a chama infantil que o norteia.
Desejo que nunca desista, mesmo que um dia perceba que tudo foram histórias ...
Porque afinal, quem escreve, é sempre, em última análise, um privilegiado contador das mesmas ...
E porque, simplesmente ...
"o sonho comanda a vida, e o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança" !...
Anamar
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domingo, 26 de agosto de 2018
" PRAIA DAS MAÇÃS - curiosidades "
"Praia das Maçãs" - José Malhoa ( 1918 )
Estive bem pertinho da Praia das Maçãs, local que por muitas razões me é particularmente querido.
Realizava-se hoje a procissão anual em honra de Nª. Senhora da Praia, com a pompa e circunstância que lhe é inerente, segundo me informaram.
Pasmo, como já decorreu um ano desde que, no Agosto passado, escrevi aqui neste meu espaço, um texto a propósito. O tempo, efectivamente é inalcançável !
Pois hoje, de novo, a Senhora foi a banhos, como eu referia há um ano atrás, tentando descrever para os que não conhecem, tal efeméride, mantendo-se a tradição local das gentes destas paragens.
Não vou portanto repetir aquilo que recheou o meu post de 2017.
Vou antes abordar aqui, algumas referências históricas ligadas a esta estância balnear, composta por praia e povoação epónima, da freguesia de Colares do Município de Sintra, que reporto de bem curiosas.
Foi e é a Praia das Maçãs eternizada por vários motivos.
Além de ser zona arqueológica de notoriedade assinalável e reconhecida, de que também já falei em posts anteriores, ela está indelevelmente associada a uma figura incontornável na área cultural portuguesa, no domínio da pintura : José Malhoa.
Fazendo parte do primeiro aglomerado da Praia das Maçãs, denominada ao tempo de Villa Nova da Praia das Maçãs, o chalet Villa Guida, a casa do sacerdote António Matias del Campo ( um dos primeiros habitantes da Praia ) e a capelinha de Nossa Senhora da Praia construída por Alfredo Keil em 1889, também a Taberna de Manuel Prego, é um marco histórico muito interessante.
Construída por Manuel Dias Prego, há muito que desapareceu, existindo hoje nesse local um edifício moderno de vista para a praia ( Rua de Nossa Senhora da Praia ).
Terá sido exactamente nesse local que Malhoa pintou em 1918 o seu famoso quadro "Praia das Maçãs", hoje espólio do Museu do Chiado em Lisboa.
Decorre de informação local, que onde se erigia a Taberna de Manuel Prego, foi posteriormente construído o edifício onde veio a funcionar o Hotel Royal, exactamente a meio da rua que acompanha lateralmente o areal da Praia das Maçãs.
Também no acervo da Câmara Municipal de Sintra existem fotos onde, por cima da porta da Taberna se pode ver inscrita a data de 1889, contemporânea da construção da Villa Guida e da casa do Padre António Matias del Campo, como referi.
Ao que parece, o negócio do Prego era florescente à época, a ponto do mesmo ocupar um terreno adjacente, baldio, com mesas e bancos, que foi coberto, para o sombrear, com o caramanchão patente no quadro de Malhoa.
Viria a solicitar licença para utilização desse terreno, o que veio a verificar-se posteriormente, dado que o mesmo pertencia à edilidade.
Antes da construção da Taberna em tijolo, sabe-se contudo, que já Manuel Prego detinha uma construção mais rudimentar, na praia, onde exercia o seu negócio.
Existe um testemunho disso mesmo, num artigo publicado a 7 de Junho de 1896 no jornal "Correio de Sintra", onde se pode ler :
" Não há memória de nunca ter arribado à Praia das Maçãs ( Colares ), barco pequeno ou grande, com o mar manso ou bravo ; pois arribou no dia 28 ( Maio ? ) um barquito remado por uns intrépidos rapazes d'Arosa, soltando um em terra para fornecer-se dumas garrafitas de vinho em casa do Prego ! "
Enfim, memórias idas, lembradas hoje, duma forma gratificante, quando uma outra vez a Praia das Maçãs se adornou para receber condignamente a passagem da sua padroeira, pelas ruas do povoado até à praia.
As pétalas das flores sempre tombam dos céus, o sol sempre brilha no firmamento, os andores, a irmandade, o povo anónimo desceram à rua ... a música, os cânticos e as rezas voltaram a ecoar no azul transparente de mais um quente dia de Verão ...
Só Manuel Prego e a sua tasca não existem mais ... Keil, também não ... e Malhoa, se por aqui estivesse, imortalizaria uma vez mais, sob a frescura do caramanchão, frente a um copo de Colares, a passagem da procissão da Senhora da Praia ... tenho a certeza !...

Nota : Documentação recolhida em textos afins provenientes de várias fontes, na Internet.
Anamar
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domingo, 19 de agosto de 2018
" DICOTOMIA "
Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam "
Eça de Queiroz
Dei-me com esta frase do Eça, algures ...
Li, reli, parei para reavaliar ... reflecti ... fiz rewinds na vida e concluí da certitude da mesma.
Eça, objectivo, pragmático, conciso, experiente e sabedor sabe do que fala. Revela-se afinal, um profundo conhecedor da alma humana !
Aparentemente pareceria um contrassenso. Afinal, o Homem, ao longo da vida, debate-se, em vão, pelo alcance inatingível de um amor eterno. Sofre porque o não tem, sonha tê-lo, porque tendo-o estaria completo e eternamente feliz, acredita piamente.
E digladia-se com uma infelicidade atroz, porque na sua vida afectiva parece haver uma impossibilidade em agarrá-lo. Uma incapacidade mesmo, em pressenti-lo.
Na verdade, nada há de mais certo na existência do ser humano, que a impermanência de tudo o que o rodeia. Nada há de mais real que a incerteza das metas atingidas. Tudo é precário, incerto, duvidoso, inseguro ... sempre.
Só que essa realidade se configura num estímulo e desafio para a mente humana, é mesmo essa insegurança, insatisfação e inalcance que acrescentam a pitada de tempero, adrenalina e sabor aos amores ditos "impossíveis" !
E assim, estes, sem solução possível, amores improváveis, se tornam nos amores verdadeiros, amores de valer a pena, amores sem bafio, amores com cores flamejantes, sempre novos e dispostos.
Eles redescobrem-se por cada dia, reinventam-se em novas roupagens, eles não se entediam, são desejados a cada momento como amores acabadinhos de nascer.
São eles que aceleram as batidas do coração, tiram o fôlego, nos conduzem à gaiatice dos tempos da ingenuidade, do sonho e da fantasia.
Os outros ... aqueles que afinal conhecemos, acabamos experienciando e vivendo, aqueles que nos foram desafios aureolados de todas as virtudes, adequações, enquadramentos e soluções dos nossos desequilíbrios afectivos, não passam de amores corriqueiros, amores sem sobressaltos, amores "chapa três" ... trôpegas tentativas de desenhar o mundo, soluções de vida em tosco, irrespirável e desesperado esboço do avistamento da felicidade !...
Em suma ... amores possíveis e moribundos desde o primeiro instante !...
Afinal o Homem sempre quer o que não tem e mata o que tem. Sempre busca o sol, apagando para isso, as estrelas no firmamento !
A utopia e a incoerência fazem parte da nossa alma imperfeita e insatisfeita, alma em turbulência e inquietude.
Ainda assim ... deixem-me com os amores impossíveis, pois seguramente sempre serão " eternos e infinitos enquanto durarem !..."
Anamar
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segunda-feira, 6 de agosto de 2018
" POR QUE RAIO TIVEMOS QUE CRESCER ??!! "
Estranhíssimo este sol que se põe lá ao fundo, num céu pesado, sem nuvens, mas longe de ser límpido.
Aliás, mostra-se com um semblante esfumado que lembra aquele céu de incêndios.
Entretanto a "fogueira" acende-se por todo o país, com as temperaturas a roçarem os 46 ºC ...
Todos ficamos imprestáveis, neste ar irrespirável. O cansaço toma-nos conta e nem as ventoínhas nem os duches frios sucessivos, aplacam esta sensação de desconforto.
As noites não refrescam, não se dorme, e erguemo-nos na manhã seguinte, totalmente partidos, espapaçados, como se tivéssemos sido açoitados durante a noite. Mais cansados ainda do que antes de dormir ... como se isso fosse possível !
Sonha-se com uma sombra fresca, sofre-se à míngua de uma aragem ...
Os animais sofrem também ... e muito ! Os meus gatos, sobretudo o que transporta às costas um manto invejável de pelo, não encontra poiso, arrasta-se pelo chão de mármore, dorme na frescura possível do poliban e estica-se indiferente a tudo, parecendo moribundo na apatia que ostenta.
Tenta resistir ... como todos nós !
Entretanto, nas notícias, fomos confrontados com uma tempestade que se abateu ontem ao fim da tarde, sobre certas zonas do Algarve. Intempestivamente ! Imprevisivelmente !
Temos o planeta em desnorte total. Assustadoramente a sofrer desmandos da Natureza, que vão afectando de forma acentuada, os seres vivos que lhes ficam à mercê ...
Talvez devido a tudo isto também, me sinta demasiado cansada. Este calor mata-me, definitivamente !
O tempo está como a vida ... tudo incerto, tudo imprevisto, tudo anormal ... tudo meio louco !
Na minha meninice e juventude, tanto quanto lembro, as coisas tinham nomes ... Primavera era Primavera, Verão chegava na hora certa e tinha a cara do costume ... o Inverno sempre nos trazia o friozinho gostoso, a convidar a gorros luvas e cachecóis, o fumo das castanhas assadas a soltar-se dos carrinhos e as alamedas dos jardins, totalmente forradas com as folhas molhadas, que já eram ...
E por aí adiante.
Por isso sempre sabíamos com o que contar, sem demais surpresas ou ansiedades. Acho que os dias corriam mais ou menos mansos, sem outros sobressaltos.
Os dias viviam-se ao ritmo dos dias. O hoje era vivido hoje, sem pressas ou ansiedades, o ontem ainda não deixava aquelas marcas mortais que nunca mais se apagam ... e o amanhã, sempre nos aparecia como uma rosa fresca que desabrochasse ao romper da alvorada ... doce, sorridente, cheia de promessas ...
Os amores eram generosos, embaladores e leves.
Viviam-se e sorviam-se ao sabor do sonho. Em jeito de presente de laço e fita, deixado nos sapatinhos da nossa imaginação, nos tempos em que era Natal todos os dias ...
As imagens das nossas histórias eram sempre coloridas ... porque eram exactamente isso ... imagens das nossas histórias ...
E estas sempre tinham finais felizes ...
A vida tinha muito do açúcar e do arroz doce com que as avós e as mães nos resgatavam dos pequenos desgostinhos ...
Não havia despedidas, nem perdas, nem separações.
Tudo parecia ser para sempre, simples, certo, sem as complicações da gente grande ...
E quando as lágrimas desciam ... porque às vezes também acontecia ... era garantido, que dormida a cabeça no travesseiro, a madrugada era azul à certa, enfeitada de arco-íris, estrelas esfregando os olhos de ensonadas, e cantos dos pássaros da alvorada ...
E assim se fazia a vida ... com a ingenuidade e a bonomia dos anos que então tínhamos !...
Mal sabíamos da turbulência que nos esperaria a muitos mil pés de altitude ... mal imaginávamos da tormenta de mar alteroso que se iria encapelar diante de nós ...
Afinal ... por que raio tivemos que crescer ??!!...
Anamar
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segunda-feira, 23 de julho de 2018
" VOANDO COM ELAS ..."
Pelas seis da manhã já aí andam.
Elas, as pegas rabudas, os melros, as rolas, as andorinhas ...
Mas são elas que me acordam. As gaivotas. Muitas, planantes, ao sabor do vento que aqui é muito, quase sempre.
Não se inquietam no bater de asas. Deixam-se embalar no baile que se faz lá por cima. E grasnam, em gritos estridentes de marinhagem.
Acordo e fico quieta. Sorrio para dentro.
Acho que as gaivotas não pertencem bem a este cenário arrumadinho, de Natureza plastificada.
Sei que estou no Algarve e que o mar aqui é rei. Aliás, vejo-o a cada esquina ou recanto. Azul intenso, rematando um céu sem mácula. Ponteado a vezes, por uma ou outra vela branca ...
Sei que estou num condomínio para privilegiados, para uso turístico ou para consumo interno ... de quem pode, bem entendido.
E obviamente todo o contexto tem que ser perfeito ... e é-o, de facto !
Flores, muitas flores cuidadosamente tratadas, de todas as cores, rochas dispostas aparentemente ao acaso, que o não é, relva bem cuidada, árvores e trepadeiras multicores aqui e ali, com intencionalidade ... fazem deste espaço, como de muitos idênticos, oásis para utentes exigentes.
Aqui, claro, praticamente todos falam outras línguas. Provêm de países não bafejados por este clima abençoado, esta envolvência pródiga e generosa, que é a nossa.
São ingleses e alemães na maioria, gente de uma estranja de névoas, de céus cinzentos e dias escuros.
Gente fria e distante, bem ao contrário deste sul de uma Europa namoradeira de África, que empresta calor, emoção e paixão ao sangue dos que aqui nasceram.
Como dizia, o mar está por perto. É o coração desta terra, e é dono destes areais.
E se o mar está ao virar de cada esquina, é expectável que as gaivotas também o estejam ( ainda que eu não ache tão lógico assim ... )
A menos que elas, já mercenárias, sejam também pássaro decorativo para "camone" consumir (rsrsrs ) ...
Porque, gaivota para mim, é pertença de escarpas, falésias, arribas selvagens. É pertença de costa bravia, de areais desertos, de ondas que tripudiam, no incessante vai-vem, dos rochedos que massacram ...
Gaivota é pássaro de liberdade total e absoluta, de horizontes sem limites, pássaro de silêncios ... pássaro de maresias, de marulho suave ou agreste ... de solidão e memória ...
E por isso elas me levam ...
Libertam-me deste "caixilho civilizado", e conseguem transportar-me daqui para bem longe. Lá, onde eu vejo tudo isto, onde eu sinto tudo isto ... onde a Natureza é talhada à séria ...
Junto de mim, Énya solta os acordes da música da sua Irlanda rude, inóspita e selvagem. Uma Irlanda de costas impiedosas, abruptas, açoitadas por mares encrespados e alterosos ...
Costas envoltas na magia do indomado, do autêntico, das neblinas cerradas e misteriosas ...
E lembro " A filha de Ryan", um filme de há muitos anos. Icónico na sétima arte, inesquecível ... fantástico ... Visto e revisto ... Arquivado, sempre ...
Será por tudo isto que me sinto nostálgica ?!...
Anamar
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terça-feira, 8 de maio de 2018
" DEVIA SER PROIBIDO ... "
Ontem, ao fim do dia, a despedida de mais uma colega de profissão, amiga também, exactamente da minha idade.
Muitos, fomos apanhados de surpresa pela notícia. Doença prolongada, de que poucos sabiam ela padecer, não havia contudo, muito tempo.
A mesma capela mortuária onde há três semanas me despedi da minha mãe , só que esta mulher tinha menos trinta anos que a minha mãe ...
Aquela coisa de sempre : o reencontro de rostos que já não se viam há tempo, porque os aposentados, erradamente deixam de se encontrar. Parece não haver vagar, não caber no calendário, não terem espaço numa agenda que deveria ser, obviamente liberta. Mas não !
Nestas circunstâncias rumamos todos, fazemo-nos presentes, como se nos tivéssemos separado ontem.
São as flores, o aperto na alma, a penalização no olhar e no coração, as palavras de conforto aos familiares ... os momentos de recolhimento frente à serenidade de quem parecia apenas dormir.
E depois, depois ficamos a falar uns com os outros, como se em intervalo na sala dos professores, estivéssemos.
Lembramos coisas, recordamos pessoas, fazemos estatística dos que já nos antecederam ( e foram já tantos ! ), sabemos de outros tantos que ameaçam estar na calha ... Terá sido o amianto que toda a vida nos cobriu, sobre os pavilhões ? Havia de se fazer um levantamento do número dos que já partiram ... reféns da maldita doença ...
Falamos dos filhos . Tem-los cá ? Porque muitos, mas mesmo muitos, os têm em países estrangeiros, na busca de segurança e futuro mais digno.
Até porque, ao longo da vida permutámos os nossos filhos com os dos colegas, no ofício do magistério. Frequentaram a mesma escola, a nossa escola. Conhecíamo-los bem.
Pergunta-se pelos netos. Mostram-se fotos, vídeos ... Oh, tão fofinha ! Parecida com a mãe. Dá-lhe um beijinho. Sempre foi uma aluna impecável e trabalhadora ...
E regressamos a casa. Mais pobres. Mais tristes ...
O vento cá fora, desabrido apesar de Primavera, ainda nos desconforta mais. O coração apertado, contrito.
Nem a piada de recurso daquele colega que anunciava ter resolvido não comparecer mais aos funerais dos colegas, como protesto por eles também não comparecerem ao seu próprio, nos amenizou o estado de espírito !
E quando nos despedimos, sempre a mesma frase repetida : até à próxima. Que não seja pelo mesmo motivo !...
É assim a vida !
Dizia a minha mãe : " na cadeia e no hospital é que se reconhecem os amigos ! "
Eu acrescentaria ... e na partida também !...
Amanhã haverá sol. O céu estará azul, os pássaros irão cantar.
Será Primavera mesmo, em toda a sua exuberância. O verde, as flores, toda a Natureza estará pujante e plena. Haverá risos, será leve a vida !...
Por isso, devia ser proibido morrer-se !...
Anamar
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segunda-feira, 7 de maio de 2018
" O PRIVILÉGIO SUPREMO "
Mais um primeiro domingo de Maio ...
Para as gerações actuais, mais um Dia da Mãe. Para mim e para os da minha geração, acredito que um dia atípico, ao qual nunca aderi. Desde os bancos da escola, o dia que homenageava as mães, sempre foi o 8 de Dezembro, feriado religioso que venera Nossa Senhora da Conceição, dita a Padroeira de Portugal, mãe de todos nós ...
Bem pequenita, já rabiscava uns desenhos numa folha de papel, que a minha professora dobrava cuidadosamente, engendrando um cartãozinho de felicitações para orgulhosamente lhe oferecer.
Curiosamente, ainda há pouco, ao mexer nos guardados da minha mãe, na casa que estou a desfazer, me encontrei com muitos destes postaizinhos, arquivados religiosamente por ela ... como se de verdadeiros tesouros se tratasse ...
E tantos anos já passaram !...
Por isso ontem, por defesa pessoal minha, três semanas decorridas sobre a partida da minha mãe, procurei, por maioria de razão, esquecer o dia que actualmente se comemorava ...
Mãe não tem dia, nem mês ... Mãe é todos os dias, desde que lançámos ao mundo uma criaturinha nascida e formada dentro de nós... com todo o amor com que a concebemos .
E desde então, sê-lo, é uma tarefa "non stop", para o bem e para o mal, em jornada permanente.
Sê-lo, é o maior privilégio de que um ser humano pode usufruir. E esse privilégio é a bênção que só uma mulher pode experimentar !
A minha mãe foi, de facto, um ser ímpar. Talvez todos digamos exactamente isto, àcerca da sua própria mãe. Admito-o.
Mas, comparo muitas vezes a pessoa que ela era, e a pessoa imperfeita e incompleta que eu sou.
Nunca conheci ninguém tão generoso, abnegado, disponível, com um espírito de sacrifício total em prol de todos da pequena família que nós somos, fosse eu, sua única filha, fossem as netas, fossem os bisnetos ...
Nunca conheci ninguém que nos devotasse um amor tão imenso e incondicional, esquecendo-se de si própria e vivendo sempre para todos nós.
Nunca conheci ninguém tão de bem com a vida, como ela, sem exigências, sempre aceitando o que aquela lhe destinava.
Sempre viveu a felicidade e as alegrias, as realizações e os sucessos de todos. Sempre se envolveu e esteve presente, nos momentos mais difíceis na vida de cada um.
Foi a pessoa que sempre, mesmo nos últimos tempos, quando a cabeça já não era clara a discernir o que a rodeava, mais se preocupava comigo ... com a minha saúde e as minhas inquietações ... E sempre me dizia : " a mim não escondes nada. Conheço-te desde pequenina"...
Eu sorria e completava : "desde que nasci, não é, mãe ?"...
E assim viveu feliz, toda a sua longa vida, sentindo-se sempre um ser abençoado !
Ainda que não estando já fisicamente perto de nós, o desígnio imenso que o destino lhe imputou, jamais terminará. Onde quer que esteja, continuará a sorrir e certamente velará por todos os que amou e ainda por cá continuam ...
Mãe, é isto mesmo !!!...
Anamar
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sexta-feira, 4 de maio de 2018
" A FOTO "
Normalmente nas minhas escritas adiciono uma foto, um vídeo, enfim, algo com que acho valorizar o que escrevo.
Desta feita, escrevo sobre uma foto ... esta, exactamente esta !
Tem esta foto, gratas memórias para mim. Digamos, que memórias gratas por inusitadas, por incomuns, por engraçadas ... memórias vivas.
Remontam a um período da minha vida sui-generis, já lá vão alguns, razoáveis anos.
Um período em que me pus em pé, depois de tormentas atravessadas. Um período de reabilitação e ressurreição, depois de uma turbulência sem tamanho. Um período de me repintar, depois de um cinzentismo nebuloso e insípido me ter tomado, parecendo não haver mais luz ou cor à minha espera.
Talvez por isso, ou mesmo por isso, escolhi para mim, na altura, como fetiche, esta imagem espantosa, de plenitude, esperança, vida, sonho, liberdade ... Tudo o que eu precisava desencavar então, do buraco fundo onde me encontrava.
Tudo isso eu precisava voltar a vivenciar . Tudo isso eu agarrava então, com toda a força preênsil dos meus braços, com toda a ânsia das minhas mãos, com toda a fé do meu coração.
E fi-lo com uma "fome" de vida que urgia voltar a sentir.
Fi-lo, com uma entrega de alma que me animava o âmago.
Fi-lo, num mergulho alucinado, de cima da falésia, não importando se me salvava ou me perdia, não importando se encontrava rocha ou tapete de flores à minha espera.
Era preciso que me sentisse viva, apenas !
Atravessei um tempo estranho, incomum, desconhecido, insuspeito. Saltei baias, desafiei limites, enjeitei convenções. Tapei os olhos, os ouvidos e a boca e deixei-me ir, na doçura do bote à deriva nas águas mansas de um riacho sereno.
Fiz descobertas, medi-me, tomei-me o pulso, alucinei-me talvez ... saboreei o sal, o doce e o amargo.
E sinto-me muito grata por isso.
Fiz uma travessia no desconhecido e sinto-me abençoada por o ter feito. Descobri ilhas inóspitas, galguei montanhas, desci ravinas, percorri desertos ... Voei com o condor, senhor dos rochedos. Planei com as gaivotas, no auge de liberdades plenas. Tornei-me muitas, sendo uma só. Senti-me sufocada de emoções. Desafiei o escuro com o sol a pino ...
E saí-me bem. De tudo me saí bem. Mais feliz, mais mulher, mais eu !
E sinto-me privilegiada, incomensuravelmente privilegiada, porque posso olhar para trás e sorrir docemente, cúmplice com a vida que foi generosa comigo e me mostrou valer a pena vivê-la, sempre, porque tudo é sempre surpreendentemente ENORME, pelo facto de nos sentirmos vivos !
Anamar
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segunda-feira, 23 de abril de 2018
" COISAS DE MULHERES "
O dia amanheceu de borrasca, mas a tarde compôs. Um sol amarelo adocicado de Primavera emoldurava a paisagem. A estação não enganava. Os pássaros chilreavam em devaneios de acasalamento. A excitação das urgências libidinosas, neles como nos seres humanos, começavam, ainda o dia esfregava os olhos ensonados.
Sempre assim é. Esta estação é poderosa. O sentido da renovação, remoça-nos, torna-nos capazes, crentes, imparáveis, irresistíveis.
De repente há um acreditar generalizado de que a vida reinicia mesmo. Saímos das trevas dos Invernos escuros e olhamos de frente a luz da vida, com que o sol ilumina e pinta os nossos sonhos.
A vontade dispara, a força multiplica-se, a esperança agiganta-se e, da noite para o dia, ficamos outros, tornamo-nos outros, surpreendentemente, o milagre opera-se ...
Lembrei uma tarde igual a esta, naquela mesa de café, à beira-rio, faz tempo.
Também havia chovido toda a manhã e custámos a confirmar o encontro pela tarde. Afinal, o dia não garantia nada seguro. Mas acabámos por ir, num Abril lá para trás, com um sol amarelo adocicado de Primavera ... como hoje, a emoldurar a paisagem.
Como sempre, falar das "nossas coisas", " arear os talheres", como diz um amigo meu ... inevitável entre mulheres, quando se encontram.
Há sempre um atraso notório ... Ainda não te contei, cheguei a dizer-te ? Imagina tu ... e por aí adiante.
Ela estava apreensiva, um pouco silenciosa demais para o hábito. Estranhei-a. Mas connosco era questão de começo. Como as cerejas, as conversas não se negariam.
Acreditas que a última vez que fizemos amor foi há mais de dois anos ? Sei exactamente qual o dia. Já então a nossa relação resvalava. Ele nunca entendeu. Uma mulher só faz amor se houver amor, se houver afecto, se houver romance, história. Se houver lastro afectivo e emocional, cumplicidade. Caso contrário, uma mulher faz sexo. E juro-te, é muito mais fácil fazer sexo, que amor. O amor implica dádiva, partilha, presença. O amor tem códigos secretos, linguagens, memórias, imagens. Deixa rasto, marca uma mulher. O sexo não. O amor faz-se de perto ... não com lonjura ...
E ele deixou de ter tempo para mim ... para nós.
Havia um fosso cavado dolorosamente, já então.
Eu olhava-a em silêncio. Conhecia a história ao pormenor.
Juro que vi raiva, mágoa e dor nas lágrimas que lhe afloravam os olhos e que custava a dominar.
Mantive-me em silêncio. Se quisesse ser honesta com ela, ela sabia exactamente o que lhe diria. Talvez hoje não quisesse ouvir ... Era uma mulher profundamente sofrida ! Uma mulher decepcionada face à vida ... triste, quase desinteressada.
E continuei apenas uma ouvinte atenta.
As amigas têm estas partilhas, a qualquer preço. Contra tudo e contra todos. A solidariedade e o afecto, um afecto fraterno consegue torná-las muros de lamentações silenciosos.
Não julgam, não censuram. Choram junto, vibram junto, festejam junto ... mas sem juízos ou recriminações. Com um entendimento que eu acho ser coisa de género.
E depois, ele começou a afastar-se mais e mais. Sempre tinha justificações que não me faziam sentido. Nem podiam. Afinal, para mim, a união, a partilha das dificuldades é que poderia tornar-nos fortes, corajosos, vencedores. Quando se quer, não se abandona. Quem ama, não promete ... faz. Sempre encontra forma de fazer.
Mas ele nunca o fará. Eu sei que não conseguirá fazê-lo. Ele nunca será capaz de alterar o esquema cómodo em que vive. Os homens acomodam-se. Acobardam-se. Não enfrentam. Também é coisa de género. E auto-justificam-se, numa comiseração consigo mesmos, que dói ...
Arrastam uma infelicidade sem tamanho, compensam-na com infidelidades mais ou menos satisfatórias e romanceadas, e seguem sempre o mesmo caminho. Continuam no mesmo trilho. Aquele que conhecem e lhes é mais cómodo.
Achas que alguém pode viver assim ? Achas que se suporta indefinidamente uma insatisfação, ano após ano, semana após semana, fins de semana, férias, festas ... só... completamente só ?
Isto é uma relação entre duas pessoas ?
Ele achava que sim, e que eu, porque o amava, o esperaria indefinidamente. Eu continuaria ali sempre, se preciso fosse, até que a vida lhe permitisse alcançar os patamares que considerava imprescindíveis para assumir a relação.
E eu fui vivendo, de facto. Tanto sofrimento, tanta mágoa na minha vida então ... como sabes.
Tanta insegurança, tanta dúvida e ansiedade. Tudo tão escuro à minha frente. Tantas lágrimas de impotência e desespero. Solidão atroz. Infelicidade que me roía as entranhas ...
Mas fui vivendo ... Só ... sempre só !
Das recordações, das loucuras, dos risos e das gargalhadas felizes, que cada vez pareciam mais longe.
Fui vivendo dos sonhos que continuava a sonhar ... Do mar e da serra, das falésias e das gaivotas sobranceiras. Dos sítios e das memórias. Dos cheiros, das cores, das palavras e da música que haviam feito o mágico da nossa história
As lágrimas romperam diques. Eram de mágoa e injustiça....
Mas tu sabes, o cansaço domina-nos. A dor corrói-nos e a angústia mata-nos.
Cheguei a hoje. A minha vida parece-me uma fraude. Sinto-me com o coração amordaçado. E pergunto-me ... fazer o quê ? Perdi totalmente a fé e a confiança. Nada disto deixa dúvida. Sempre tudo foi rigorosamente coerente na sua postura. Não há absolutamente nada a esperar. Sempre tudo foi sem surpresas. Expectável.
E no entanto, tudo poderia ter sido diferente. Daí, a raiva que sinto. A mágoa que me toma. E tantas vezes lhe toquei os alarmes ... atenção, olha o rumo das coisas... atenção, eu não sou de ferro. Eu sinto-me só e desamparada. Eu não tenho um ombro, um apoio ... nada ! E no entanto, nunca lhe neguei os meus ...
Diz-me ... o que faço com isto que sinto no meu peito ? Para onde deito as rosas magoadas que tenho no coração ? O que faço com os dias ensolarados, no azul do mar cavalgando as rochas ? Com as matas, os pinhais, as flores vadias e insubmissas, ou simplesmente os sonhos que sonhei ?
O que faço, quando Enya me canta docemente que "só o tempo o sabe" ?...
Coisas de mulheres ... Todas diferentes e todas iguais. Dramas vividos no feminino. Dúvidas sem resposta. Histórias sofridas, estradas percorridas vezes sem conta ... sem saída, bifurcação ou sequer escapatória !
Era uma tarde de Abril, com um sol amarelo adocicando a paisagem ...
Onde é que eu já ouvi algo semelhante ?! ...
Anamar
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terça-feira, 20 de março de 2018
" AS MARGARIDAS SELVAGENS "
Elas já romperam por aí ...
Adivinho-as no alto das falésias, com este sol de Primavera com pressa de chegar, tímidas, humildes, singelas.
São elas, as margaridas não semeadas. As que assomam quando Março adentra, quando Abril acena com as suas "águas mil"...
Não passeio faz tempo, no alto das ravinas, com o vento a despentear-me, com este azul meio sim meio não, pontilhado por farrapos brancos que se esqueceram de partir. Com o mar lá em baixo em aguarela de azul e verde, e com as gaivotas vagueando no preguiçamento do costume ...
Vou pouco para além.
Tenho memória de as ver. A elas, e às flores amarelas sem nome, no meio de outras mais ... mas isso parece fazer parte de uma vida que nem é já bem minha ...
As nossas existências são fatiadas em períodos, em épocas, em realidades. Cada período, cada época, cada realidade pintou-se com as suas particulares cores. Encheu-se dos seus particulares sons, palavras e acordes musicais. Decorou-se com as suas especiais vivências, emoções e sentimentos.
Assim, quando lembramos a meninice, logo somos assaltados por este ou aquele pensamento, este ou aquele rosto, este ou aquele momento ...
Quando avançamos no tempo, a adolescência traz-nos outros sentires e outras emoções diversas.
A idade adulta, da mesma forma, faz-nos atravessar realidades qualitativamente diferentes, caracterizadas e povoadas por personagens diferentes também.
E cada espaço temporal por nós vivenciado nos acende mais e mais memórias, nos firma mais e mais apontamentos, todos pintalgados por aquela risada especial, adoçados por aquela ternura perpassante, sofridos por aquela mágoa que desceu, assaltados por aquele desencanto que nos tomou ...
Por isso não é à toa que neste puzzle da existência, esta peça só encaixa aqui, aquela outra, ali ...
E não é à toa que indelevelmente o colorido deste matiz, é pertença deste momento e jamais de outro. O sol que brilhou naquele dia, jamais teve o mesmo brilho em mais nenhum outro. As palavras trocadas então, pertencem só e exclusivamente àquele contexto e são irrepetíveis em mais nenhum outro !...
Por isso, o tempo das margaridas selvagens todos os anos chega, quando Março adentra e quando Abril acena com as suas "águas mil" ... Mas não é a mesma coisa ... ainda que eu possa vaguear por além, ainda que eu possa passear no alto das ravinas, com o cabelo em desalinho e com as gaivotas volteando no espreguiçamento do costume ...
As fatias do tempo vão-se cumprindo. As folhas do livro vão-se desfolhando. As nossas existências vão-se consumindo ...
Anamar
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AO CORRER DA PENA
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
" SONHAR AINDA É POSSÍVEL ?... "
Na passada quarta-feira, dia 14, viveu-se mais um dia de hipocrisia social, criado pela exploração da hipocrisia comercial.
Já escrevi várias vezes sobre o dia de S.Valentim, dos namorados e quejandos, importação trazida de outras latitudes, aliás como outras semelhantes que me irritam e arrepiam ... a do Halloween, por exemplo.
Importada, assimilada, encaixada.
Nada de novo que não conheçamos, peritos que somos nas importações fáceis, sem critério e sem demais juízos de valor, de quase tudo o que nada tem a ver connosco, nossas raízes e cultura
.
E aí temos nós, jovens e menos jovens, milagrosamente derretidos como picolé em dia de calorina !
O comércio acena-nos com o êxtase da felicidade afectiva, ao alcance de uma comprazinha ainda que por vezes à última hora, de uma rosinha vermelha, de um qualquer presentinho inevitavelmente decorado com os corações "ensarampados" (que estampam toda a profusão de cartões e cartõezinhos para qualquer gosto ), da caixa de chocolates em coração, do peluche com coração, da caneca com corações ... enfim ...
Cumprido qualquer um desses desideratos, tranquilizam-se os espíritos, porque o alvo a atingir perceberá como o amor é tão importante para nós !...
Os cartões até já trazem as dedicatórias escritas, o que simplifica a coisa ...
Depois ... bom, depois, temos 364 dias para recarregar baterias e tomar fôlego para a próxima jornada valentinesca ...
As rosas entretanto secam ao ritmo do esquecimento das juras de amor seladas. Os bombons comem-se e recheiam-nos com mais umas quantas indesejáveis calorias. O resto, repousa por uns tempos nas prateleiras ou desce directo às gavetas.
O amor ... o amor de valer a pena ... o amor espécie em vias de extinção ... esse, o amor a vivenciar, a adubar, a regar ... a valorizar em suma, confina-se muitas vezes a um processo de intenções, e pouco mais.
Cada vez mais os sentimentos são plastificados, descartáveis, inconsistentes ... recicláveis. Troca-se de amor com a facilidade com que se troca de projectos, de sonhos, de opiniões.
Estamos no tempo da volatilidade de sentimentos e emoções. Estamos no tempo da desaposta, às vezes por bem pouco. Estamos no tempo da desvalorização dos reais valores, em benefício de uma liquidez escorregadia, ajustável, cómoda, de relações de fácil consumo e afectos precários ...
Estamos na época em que parece não haver vagar para partilhar, dividir, saborear a beleza de um pôr de sol a dois, escutar os sons da terra a dois, ouvir o mar ... perdidamente ... dançar um "slow" na cumplicidade dos corpos colados, das mãos entrelaçadas, dos olhos enternecidos ...
Até porque penso que também já parece não haver "slows" ... desgraçadamente !
Bom, este meu texto foi meramente uma sinalização da data.
Nada traz de novo. Constata, não questiona, não discute.
São meras convicções minhas. Já as expus em anos anteriores. A idade só mas reforça e alicerça. Não mais !
É o que vejo e analiso à minha volta.
Gostaria de auspiciar futuros diferentes para as gerações que aí temos.
Gostaria de poder acreditar que as vidas teriam outros rumos, mais consistentes e de sorrisos simples.
Gostaria !...
O sonho ainda não nos está vedado ... não é ???...
Anamar
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AO CORRER DA PENA
domingo, 20 de agosto de 2017
" AQUELE DIABRETE "
A alegria, a boa disposição e a "corda" toda, são a sua imagem de marca.
Eu acho que vendo bem, vendo bem, o Kiko já nasceu a rir com aquele ar descarado, já nasceu com a agenda de afazeres preenchida para as décadas subsequentes, e um camião TIR de amigos e fãs para o resto da vida !...
É assim este puto reguila, de rosto sereno e iluminado, com uma bonomia com que amanhece e se deita, sem um pingo de gastura, aconteça o que acontecer ...
No "fair play", na desinibição e na extroversão, "não há pai" p'ra ele.
É o meu terceiro, daquela fornada, com que se encerra cada Agosto, em cada ano.
Nasceu "ontem", e já leva um decénio de vida p'ra contar.
Vai iniciar a odisseia do segundo ciclo do Básico. Mas nada disso constitui apreensão ou problema para o Kiko.
Já familiarizado com a coisa, mercê das vivências dos irmãos mais velhos, encara a "rentrée" escolar, como mero acidente de percurso, propiciador de reencontros com os colegas e amigos, propiciador de jogatanas de futebol com direito a joelhos esmurrados e tudo, e depois, todas as outras actividades desportivas, extra-escola, no seu Sporting de coração.
Assim, cada início de ano, pós-férias algarvias, se resume a uma festa ainda maior se possível, na vida do Kiko.
É um menino doce, já o referi algumas vezes.
É o que primeiro chega à porta e se pendura no meu pescoço, quando os visito.
É o que se apresta a mostrar os cadernos, me narra os acontecimentos escolares, em carácter de urgência e me "aluga" o máximo tempo possível, para que nada fique esquecido.
É o que ainda me senta o cólo ... E como isso me sabe bem, na escassez de afectos explícitos por parte de todos os crescidos e dos que para lá caminham !...
Porque claro, as pessoas "crescidas" têm algum "pudor" em demonstrar manifestações mais "piegas", digamos assim. Acho que deve ser isso ... ☺
O Kiko aniversaria hoje. Já lhe chamei o "meu menino light "...
Desejo que o continue a ser pela vida fora, pois a boa disposição, o "fair play" e a ausência de stresses, são formas saudáveis de encarar a vida, são ferramentas inteligentes e a chave para que ela se viva num registo de arco-íris, em pleno, com responsabilidade e alegria, no seio de tantos quantos ( e são muitos, já o disse ), consegue reunir à sua volta, num círculo de amizades, que aquecem o coração e amparam ao longo da existência !
Por isso, Kiko, desejo-te um dia supimpa, ainda mais cheio de emoções fortes, peripécias giras e boa disposição, como são todos aqueles em que estás por perto !
Aqui de longe, beijinhos com todo o meu amor ... e não esqueças de guardar uma fatia de bolo p'ra mim, que sou gulosa como sabes !
Anamar
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domingo, 30 de julho de 2017
" UMA VIAGEM DE CORAÇÃO ... "
O montado dormia ...
Afinal é quase Agosto e lá fora sentia-se claramente o bafo dos 40 graus que o termómetro acusava.
Nem uma aragem corria naquele braseiro. Da terra ardente, levantava aquele halo de Alentejo interior que arfava ao respirar. O castanho e ocre da charneca ressequida, estendia-se até onde a vista alcançava.
Nem um som, nem um sussurro, sequer um gemido desprendido dos braços contorcidos dos sobreiros, figuras esfíngicas, sonolentas, resistentes, no recorte de um céu toldado pelo calor.
Sempre que os olho, rendo-me ao respeito, à admiração e à tenacidade.
São árvores guardiãs, algumas ancestrais, fiéis testemunhas de tempos e memórias.
De casca enrugada pela cortiça que as reveste, lembram-me os velhos encarquilhados, de olhos perdidos, com piriscas apagadas no canto dos lábios, que sempre esperam sem pressas, na sossega da fresca, pelos largos modorrentos das nossas aldeias ...
Também eles já são figuras silentes, também eles erguem olhares perdidos e implorantes ao céu, também eles se conformam tenazmente com os destinos ... sem exigências, expectativas, sequer esperanças ...
E ficam ali, pelas tardes dolentes, enquanto as badaladas do campanário vão ecoando, e as horas que recolhem o sol, avançam ...
No montado a tarde cai. Alguma frescura se compadece ... As aves saem da sesta, para voos rasantes em busca do aprivisionamento para a noite.
As cigarras e os grilos desgarram. Os cheiros e as cores daquele chão, sobem e abraçam-nos.
É o Alentejo a dar colo e regaço a todos quantos o deixam pulsar nas veias, rumo ao coração ...
Fui lá.
Ontem, fui lá, numa escapada de busca de arrego, de busca de paz e de partilha de afectos.
O monte estava lá, pertinho de Grândola, no âmago de uma terra que é morena e quer molhar os pés no mar, lá no outro lado da encosta.
Casa de amiga, que quando do coração, se torna casa nossa.
Cumplicidades, risos, histórias, conversas intermináveis e tão pingadas umas nas outras quanto as cerejas o são ... memórias buscadas, dores relembradas e mitigadas pelo afecto que escorria, numa conversa sem fim, à volta de uma mesa, na fresca do telheiro, na macieza de um sofá preguiçoso ... ou, caminho abaixo, na beira do tanque que refrescava os pés e nos soltava gargalhadas ...
Coisas que só entende quem as experimenta, que só são possíveis e permitidas por quem traz nas costas a sabedoria já doída dos anos, que só se tornam comuns e pressentidas por amigas da mesma geração, com linguagens semelhantes, experiências de vida partilhadas pelos tempos e pelas épocas ...
Coisas simples, pueris e tão gratificantes, que nos levam outra vez lá atrás, ao fundinho das nossas estradas ...
Coisas de mulheres ... eu diria ... encontradas e partilhadas numa viagem de coração !...
Anamar
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AO CORRER DA PENA
domingo, 23 de julho de 2017
" A GAIVOTA QUE GOSTAVA DE VERDI ... "
Abateu-se a tarde sobre a cidade.
Aquela luminosidade doce desceu, a brisa mansa corria. As ruas estavam pejadas de gente bonita, de todas as raças e cores, que jogavam fora um bem estar de quem nada quer ou espera, num sábado à tarde ... Uma pressa sem pressa, numa cacofonia de palavras largadas, esvoaçantes e soltas em meio dos passantes ...
E eu por lá, ao largo, no largo ...
Verdi haveria de descer ao Chiado, em pleno Largo de S. Carlos, com o teatro à frente e a casa do "Mestre", atrás.
Pessoa circulava por ali. Bem que o sentia no empedrado silente do meu espírito. Afinal, nascera, vivera, perambulara entre aquelas casas antigas, espreitara vezes sem conta a nesga de rio lá longe, em baixo ... parara pela Brasileira nas tertúlias ociosas, rabiscara versos, letras, palavras, com um cheirinho a céu de Lisboa ...
E depois, havia as gaivotas que em volteios incansáveis, asas estendidas, pescoços esticados, lembravam que o Tejo era vizinho e que a cidade é sua, de direito ...
Pairavam bem ali por cima, numa espécie de recepção e homenagem discreta ... cerimoniando o acontecimento .
Uma multidão colorida disputava os lugares sentados que já não existiam, acotovelava as esquinas, abordava o empedrado dos degraus, a soleira das portas, o poleiro das varandas sobranceiras ou, em última análise, simplesmente um pedaço de chão nas pedras da calçada ...
Lisboa fora chamada pelos acordes de um dos eventos culturais mais interessantes, generosos e fantásticos com que anualmente o Festival "Ao Largo" mima a cidade, por estes meses de um Verão certo e seguro.
Ontem, seria Verdi o "mágico" de serviço, o virtuoso do mundo fantástico da música, o encaminhador do sonho que nos tomaria, ao escutá-lo.
A Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do S. Carlos, a soprano Cristiana Oliveira e o barítono Roland Wood, sob a batuta de Andrea Sanguineti, seriam os mentores da nossa evasão, seriam os fazedores do nosso fascínio e da nossa paz, numa viagem além do tempo e do espaço, num maravilhamento que não se descreve ... só se sente ... numa magia sem tamanho, enquanto a noite nos foi tomando conta ...
E Verdi desfilou.
A Traviata, o Rigoletto, a Aida, Macbeth ou Otello ... o Baile de Máscaras, Il trovatore entre outras peças inconfundíveis, culminaram com o tão extraordinário quanto esmagador Coro dos Escravos Hebraicos de Nabucco - Va, pensiero ...
Essas notas, esses acordes, a força dos tons imperativos, doídos, suplicantes dessa ária, sempre arrancam em "pianíssimo" um trauteio irresistível, enquanto que um arrepio nos percorre o corpo e os olhos se tornam involuntariamente húmidos ...
Toda a noite a olhei ...
Sobre a grinalda em pedra que encima as armas reais da Coroa portuguesa, na fachada do edifício de características neoclássicas e inspiração italiana setecentista, profusamente iluminado em festa, ela, aquela gaivota certamente de ouvido apurado, olhos perscrutantes e esmerado sentido estético, se abancou, meneando-se deleitada, ora num pé, ora noutro, bico p'a esquerda, bico p'ra direita, penteou as penas, ou sonhadora e estática simplesmente se quedou ...
Era presença real, imponente, imperturbável ... indiferente ao correr do tempo ...
Desejava talvez, tal como eu, que ele não passasse, para que não fosse subtraída ao sortilégio que experimentávamos ...
Cá de baixo, eu acho que lhe via os olhinhos ... e julgo não mentir, se disser que ela sorria ...
E nem as notas mais troantes, os compassos mais estridentes, ou o esvoaçar céus fora das vozes fragorosas do coro, a estremeceram, assustaram ou afastaram ...
E ficou solitária, extasiada, sonhadora ...
Giuseppe Verdi estava no Largo ... e aquela gaivota gostava de Verdi !...
Anamar
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AO CORRER DA PENA
quarta-feira, 19 de julho de 2017
" POR JUSTIÇA ... "
" Há uma vila portuguesa entre os melhores destinos medievais da Europa"
Li esta frase nos media e agucei a curiosidade.
Eu, que tenho um fetiche imenso por me perder pelos destinos inóspitos deste país ... eu, que valorizo além da conta render-me à quietude de ruelas tortuosas do nosso interior ... calcorrear o empedrado silencioso das aldeias mágicas povoadas pela ausência de vivalmas ... eu que sonho ao som dos sinos nas avé-marias dos campanários, e me emociono com os chocalhos de regresso aos estábulos pelo cair da tardinha ...
eu, que sou apaixonada pela autenticidade de gentes e locais sem maquilhagens ou disfarces, e que detesto por isso, as grandes metrópoles, de ritmos alucinantes e ciclópicos ... fui ler, por inteiro, o texto que a frase supra-citada titulava.
Que vila, neste caso de uma vila se tratava, cumpriria os requisitos desejáveis para ser considerada um dos melhores destinos medievais da Europa ?
Seria o caso de por lá, eu já me haver perdido alguma vez ?
Curiosa mas não surpreendentemente, pelo menos para mim ( e tenho a certeza, para muitos ), a vila eleita para este desígnio, era exactamente a vila de Marvão !
Pois bem, em Marvão me perdi não uma nem duas vezes ... mas mais, e sempre me pareceram de menos !...
Empoleirada no alto de S. Mamede, ostentando o seu castelo medieval, lá, onde "as águias voam de costas", tomando a perspectiva indiscutível do nosso Aquilino ... Marvão é de facto uma jóia rara no Alentejo interior deste país.
Tão interior que, paredes meias com os nossos vizinhos espanhóis, é uma janela aberta e franca ao lado de lá, para além daquela linha imaginária que desenha a fronteira dos povos.
Marvão é terra de silêncios, terra de brisa sussurrante entre meio dos rochedos alcantilados. É balcão que se assoma planura adiante. É parada de mistérios inconfessados e alcova de amores e amantes perdidos nas ruelas sem rumo ou norte ...
Marvão nunca se me explicou. Tão só se deixou sentir-se...
Mostrou-se, despiu-se, deu-se, gravou-se na minha pele, sem pergunta nem resposta, sem dúvida ou reticência, sem tempo ou idade ...
Marvão foi lenda, foi história, foi marco ... foi destino !...
Marvão foi indelével paixão para todo o sempre !...
Anamar
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AO CORRER DA PENA
quarta-feira, 10 de maio de 2017
OS MEUS " SILÊNCIOS "
Publiquei há dias um livro. Um livro insuspeito ... de poesia... Todos esperavam um, de prosa.
Uma espécie de pirraça do destino, neste caso o meu destino literário.
Desde que me conheço mais ou menos, que sempre rabisquei nos papéis que me acompanham em permanência, frases, ideias, textos, crónicas ...
Às vezes coisas terminadas, outras, coisas incompletas para burilar, para repensar, para "mastigar" e "digerir", se for o caso.
O futuro ? É sempre incerto ! Algumas agradam-me e ficam ... outras têm um fim triste à espera !
De há uns tempos a esta parte, reincidi, mas em poesia ... nunca lhe dando, contudo, valor particular. Sempre achei que a minha expressão poética tem muito de "demodée", face às correntes actuais de escrita sem nenhum tipo de preocupação de rima. Escreve-se quase sempre em texto poético e chama-se-lhe poesia.
Não discuto nada disto. Não tenho conhecimentos literários de estilos e suas características, em profundidade suficiente que possa pronunciar-me.
Fui "formada" com poesia clássica ... vou chamar-lhe assim. Florbela e os seus sonetos, uma inspiradora musa, sempre presente!
Assim me formatei, e assim comecei a dar pequenos passos neste mundo.
No entanto, sempre volto à mesma. Para mim, um poema tem que ter um ritmo melódico, uma "música" por detrás, um fundo de vai-vem de ondas no areal ...
Sem esse desiderato, dou a coisa por imperfeita e inacabada ... em suma, insatisfatória !
Ainda assim, e continuo surpresa com os acontecimentos, as críticas têm sido generosas e muito positivas! Quase me convenço que ... talvez ... quem sabe... eu esteja a ser redutora e implacável comigo mesma.
Bom, por insistência de amigos que me impediram de delapidar o incipiente entusiasmo inicial, lá publiquei o dito.
De seu nome "Silêncios", porque alberga dentro de si, estados de alma, sentires, emoções que não se descrevem de viva voz ... Que apenas se pressentem e adivinham nos longos silêncios que povoam a minha vida.
Por assim dizer, cada poema "de per si", fala da profundidade do meu "eu" interior, e conduz o leitor, creio, exactamente à quietude da minha interioridade silenciosa, lá longe, naqueles recônditos lugares algo inacessíveis, que são o meu coração e a minha alma.
Fez-se uma festa ... e isso, foi de facto o grande prémio que me dei.
Dei asas aos sonhos, "viajei" na alegria de ter tido comigo quase todos os amigos, de longe e de perto que me estreitaram no laço de uma amizade que não tem tamanho, idade ou tempo ...
Senti-me menina mimada, acarinhada, embalada nos braços e nos colos de todos os que responderam à "chamada" ... Foi uma felicidade só !!!
A festa fez-se de flores, fez-se de música, de risos, de sonhos ... e também de lágrimas. Muitas lágrimas correram ...
E esse 2 de Maio virou uma das datas do meu calendário pessoal ( eu, que sou avessa às calendarizações oficiais impostas socialmente ), a nunca, nunca mais ser esquecida !
As pessoas parabenizam-me pelo sucesso ...
Sucesso ? Não ! Apenas realização pessoal. Uma espécie de realização de compromisso de mim para mim, uma espécie de concretização de alguma coisa importante, que se vinha adiando na minha vida ... tão só !
Como diria o Chico ... "Foi bonita a minha festa pá" !!!...
Anamar
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AO CORRER DA PENA
segunda-feira, 6 de março de 2017
" EM JEITO DE BALANÇO ..."
Folheei em retroespectiva as páginas do primeiro volume deste blogue.
Datam de 2007, ano em que de repente, brincando, tacteando, experimentando, dei os primeiros passos neste mundo da blogosfera.
De quando em vez gosto de reler os meus escritos à época, até porque através deles consigo visionar o que eu era, como era a minha realidade, quais os meus anseios, inquietudes, angústias e assomos de felicidade.
Porque eu sou assim, e sempre deixo escorrer através das minhas letras, os meus estados de alma, sem preocupações, maquilhagens, disfarces, máscaras ...
Eu sou de facto assim, e "dispo-me" sem reticências, sem receios de valorações, sem preocupações do socialmente correcto ou incorrecto.
Se de alguma coisa eu sou dona, neste mundo, é das minhas escolhas, decisões, sentires... e livre arbítrio, também ... sem sustos ou pudores.
A idade entretanto vai-me conferindo independência, despreocupação, "estatuto" ... O tal estatuto que eu acredito ser de facto "um posto", nesta vida.
Já vou em quinze volumes das postagens que aqui deixo. Passei todas as publicações, comentários e afins, a suporte de papel ( sou da velha guarda, não esqueçam ... e esta coisa da net, da "cloud", "Dropbox", "OneDrive", pouca confiança me dá, dados os "cataclismos" por vezes ocorridos neste mundo virtual ), e com eles elaborei ano após ano, uns livritos que "enfeitam" a minha estante ...
Será herança patrimonial para quem cá ficar e os queira. Valem o que valem, poderão interessar ou não, aos meus continuadores ... Um dia terão um fim previsível, creio !
Uma das coisas que me chamou a atenção, nesta romagem à que eu era então, foi a hora a que debitava quase sempre, os meus textos. Verifiquei que varava a noite com toda a displicência, que escrevia preferencialmente na calada da madrugada.
Três da manhã, nessa época, era início de serão para mim. Refiro com frequência que "sono nem vê-lo", e parece ser verdade que a concentração, a paz e o recolhimento eram requisitos acontecidos, potenciais produtores dos meus relatos.
Parece-me também, ser eu então possuidora de um discurso algo esperançoso, interessado, entusiasmado e entusiasmante, frequentemente. Sinto em mim, olhando hoje o espelho que me reflecte, que aquele estava imbuído de uma postura de crença face ao futuro, de alguma determinação, expectativa doce, de alguma combatividade.
Eu era alguém com garra, convicção, aposta ... vontade !
Eu acho que acreditava mesmo, que a coisa iria adiante, que eu ainda teria muita história p'ra viver e contar ...
Passaram quase dez anos ... Como a tirania do tempo nos confina mais e mais à realidade, e nos corta as asas do sonho !...
Hoje, já constitui um sacrifício ... ou pelo menos uma desaposta, o esticar da noite madrugada fora.
Hoje, o meu discurso remete-me quase sempre, para uma introspecção reflexiva e algo doída, da minha existência.
As minhas palavras parecem ser mais azedas, mais cansadas, menos confiantes e esperançosas. Mais acomodadas, talvez !
Nos meus textos detecta-se, creio, o enrugado de marcas indeléveis e sem remissão, deixadas pelas intempéries da vida, sem perdão ou piedade.
Sinto uma mornidão que me exaspera e desanima. Sinto falta da loucura, da adrenalina, do riso, da alegria e da "pedalada" que me norteavam então.
Sinto falta daquele valer a pena que insuflava o meu espírito e velejava no meu coração.
E pergunto-me : pode uma década ser tão carrasca e impiedosa na nossa saúde física e mental ?
Podem os reveses e as desilusões, os sonhos derrubados e incumpridos, deixar tantas marcas, estragos e destroços numa vida ?!...
Podem os anos, confinar-nos a Invernos sem Primaveras que os sucedam ?!...
Podemos deixar que uma desistência instalada nos tome conta, nos avassale e nos adormeça nos anseios legítimos de quem ainda está vivo ???!!!...
Quero horizontes ! Preciso de pôres, seguidos de nasceres de mais sóis e luas ! Preciso de pintar, outra vez, o céu com estrelas !
Preciso de refrescar a minha capacidade de deslumbre. A minha capacidade de emoção.
Preciso de recolorir o verde da minha esperança !
Preciso ganhar outra vez asas e sabedoria de voo. Preciso redescobrir as coordenadas de viagem !
Preciso amar outra vez ! Rebentar de paixão ! Rir loucamente e insanamente soltando a criança, a jovem ... a mulher madura que já fui !
Preciso desgrenhar os cabelos no vento, abraçar o azul embalador do mar, conjugar outra vez convictamente, os verbos "querer", "acreditar", "apostar" e ... "VENCER" ...
Meu Deus ... como preciso !!!...
Anamar
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AO CORRER DA PENA
quinta-feira, 2 de março de 2017
" OS NINHOS "
"Os ninhos "
Os passarinhos tão engraçados,
Fazem os ninhos com mil cuidados
São para os filhinhos que estão para ter
Que os passarinhos os vão fazer !
Nos bicos trazem coisas pequenas,
e os ninhos fazem de musgo e penas
Depois, lá têm os seus meninos,
Tão pequeninos ao pé da mãe.
Nunca se faça mal a um ninho,
À linda graça de um passarinho !
Que nos lembremos sempre também
Do pai que temos, da nossa mãe !
Afonso Lopes Vieira
As andorinhas iniciaram a sua faina no beiral lá de casa ... contei ontem.
Revimo-las com sorrisos nos rostos e enternecida admiração. Afinal, auspiciam tempos felizes e promissores aos lares hospedeiros que escolhem.
A minha mãe, com 96 anos à beira de serem cumpridos, tem uma idade mental quase permanente, talvez de uns 5 ou 6. A demência progressiva que lhe tolda a mente e o raciocínio, transformou aquela mulher decidida, capaz, viva e independente, num simulacro de gente.
Transformou-a numa criança de tenra idade.
Neste momento, a minha mãe adora os patos da lagoa, fala e trata indistintamente os animais com a pieguice e a ingenuidade protectora de uma criança, infantiliza todas as suas posturas e todas as suas conversas.
Já me martirizei demais por tudo isso. Já me angustiei e rebelei demais contra o destino.
Mas como p'ra tudo o que é irremediável, e que ainda por cima se arrasta temporalmente, devemos encontrar estratégias de convivência por forma a defendermo-nos psicologicamente, também eu deixei de chorar, de me amarfanhar, de me revoltar, até mesmo de querer entender.
É simplesmente assim, nada se pode fazer além de lhe falar com a máxima doçura, aceitação e paciência.
Os diálogos parecem tirados de um jardim infantil.
Por isso lhe conto vezes sem conta quem é quem, na nossa família tão pequenina. Por isso lhe repito os nomes de cada um, desde os pais, ao marido, às netas, bisnetos ... ao meu próprio, e lhe reavivo quem ainda vive, quem já partiu e todos os pormenores referentes à sua vida actual e pregressa.
Por isso lhe fiz, a seu pedido, um esquema com todas as personagens que a atormentam, quando não consegue lembrar ...
E ri, quando diz que "já fez o trabalho de casa" ao ler e reler essa folha ...
E ri, quando me pergunta : "Filha, então tu és o quê, meu ?"... E fica eufórica quando a esclareço.
"Ah.... agora já sei que és minha filha ! Já não me engano mais !"....
Também se fascinou com a chegada das andorinhas.
Dizia-me hoje que elas haviam voltado porque sabiam que ali iam encontrar as suas casinhas.
Adora ir, na cadeira de rodas, ao terraço ver as sardinheiras em flor ( que a extasiam ), e o avanço dos ninhos em laboriosa construção.
E então do nada, surpreendentemente, com ar de menina levada de bibe e ardósia, começou a declamar-me, sem erro, as primeiras estrofes deste enternecedor poema de Afonso Lopes Vieira, que aprendera na escola, que fazia parte do seu Livro de Leitura e que por momentos a transportou a um passado longínquo e difuso, espantosamente claro, que a deixou tão feliz !
E eu nem sei bem descrever o misto de sentimentos que me tomou ... Estupefacção, ternura, alegria e tristeza ...
Como a mente humana é insondável e como os mecanismos mentais que norteiam o Homem ao longo da sua existência, fogem ao domínio da nossa compreensão e capacidade de entendimento !
É como se houvesse sempre dentro de nós, um eco que persiste e nos coexiste através dos tempos, rumo à Eternidade !
Por momentos, a minha mãe voltou a ser menina outra vez !
Anamar
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AO CORRER DA PENA
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
" ORAÇÃO VESPERTINA"
O último pássaro atravessou este céu empalidecido.
Ia sozinho, decidido, rumando ao horizonte, em recorte esfíngico , contra as pinceladas laranja desenhadas num azul diáfano, diluído ... líquido, eu diria ... deste fim de dia.
É um céu de paz e serenidade, este que se desenha frente à minha janela.
É um recolhimento absoluto, esta hora de dormir, em que a Natureza emudece e se apazigua.
Não há perturbação, não há ruído ... é uma hora de privilegiado comprazimento. É uma hora de intimismo perfeito. De equilíbrio e harmonia.
Em que a beleza que não se descreve é um louvor que se eleva ao infinito.
É uma oração celestial de gratidão pela arquitectura perfeita que nos envolve.
É um enlevo que nos emociona, por tão insignificantes, merecermos tanto !...
Sempre silencio, no recolhimento de claustro de abadia ... nem sei explicar o quanto !
Pareço não querer tocar o que vejo, o que sinto, o que perscruto. Porque tocando, perturbaria este milagre que se me desenrola perante o olhar ...
Breve, Vénus, a primeira "estrela" do firmamento, se acende, na guarda do rebanho que aí vem, à medida que a escuridão desce.
E uma poalha generosa ponteia e pinta, como nenhum pintor o sabe fazer, esta abóboda de veludo aqui por cima.
Fim de mais um dia que nos foi dado viver ...
Anamar
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