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domingo, 7 de outubro de 2012

" BREU !... "



"  BREU "  foi o título que escolhi para este meu post, que de meu tem muito pouco, à excepção de uma confrangedora dor, e uma solidariedade profundas pelas gentes do meu país .... indiscriminadamente afinal ... porque  somos  sempre  "os mesmos",  os que estão  na mesma barca!...

Nem sequer é o "NEVOEIRO"  de que nos falava o Mestre, vaticinando afinal uma cerração tão espessa e cega, que  não deixa passar um só raio de sol !...

É uma mágoa opacizada, é uma revolta  já quase silenciosa ... é um desespero, a cheirar a morte antecipada nos corações !...

Ai   PORTUGAL  de milénios gloriosos, de histórias de coragem e desafio ... serás mesmo capaz de te ajoelhares aos pés, de quem sem pudor ou vergonha, já te espezinha ??!!...

Deixo-vos Pessoa, e uma mulher sem rosto, sem nome, sem casa, sem comida .... uma mulher que são todas as mulheres, todas as mães, todas as avós da minha terra ...
As  Evas,  do  PRINCÍPIO  e  do  FIM  de  tudo .... do  Paraíso  que  não  temos, e do Inferno  em  que vivemos ... apenas  com  um  CORAÇÃO  ainda  a  pulsar ... e  noventa  e  nove  anos .......para  que reflictam !!!...

 ( Clique no título,  para abrir o vídeo )

Idosa de 99 anos passa os dias a pedir na rua para ajudar a família desempregada - País - Notícias - RTP





Anamar

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

" TRISTE REALIDADE ..."



A minha mãe chora porque o "seu país chegou a esta desgraça " ... e não queria morrer ainda, sem ver de novo a sua terra erguida !!

Mas a minha mãe tem quase 92 anos, emociona-se por tudo e por nada ;
chora por ver os fogos a grassar nas nossas florestas ... chora porque aconteceu este e aquele crime hediondo, com que a televisão a não poupou no telejornal ( quase só o único programa que a motiva ) ...  chora pelos acidentes que vitimaram estas e aquelas pessoas aqui e ali ...  chora  porque é o 13 de Maio e as cerimónias de Fátima a mexem ... chora na missa de domingo, que agora deu em assistir também pela TV  ( felizmente que eu não estou por perto ) ...

Chora ...

...porque o Mundo chegou a esta calamidade, porque a preocupa o meu futuro, o futuro das netas, e também já o dos bisnetos claro ...
Acho que mesmo com tanto sofrimento, ela quereria ser eterna, para estender uma "asa protectora", que obviamente não tem, por cima de nós todos ... os seus, e os outros !...
... a minha mãe, que garante que nunca poderia emigrar do seu Portugal,  porque  nunca  conseguiria  afastar-se  do  seu  pedaço  de  chão !...

Falhei ontem o discurso de Passos Coelho, porque me esqueci completamente  ( resta-me saber se foi algum "bloqueio" psicológico com que o subconsciente me protegeu ... ).
Li agora, no café, um dos jornais do dia, que fez o favor de me pôr a par, "grosso modo", das notícias recentes.
O discurso de Vítor Gaspar, acompanhei, por acaso com a minha mãe,  porque  ocorreu  a  uma  hora  em que  sempre  estou  com  ela, ( mais  ou  menos  pela  hora  de  almoço ), e pasmei com o ar atento com que ela bebia todo aquele arrazoado, aquele discurso demasiado hermético, absolutamente técnico e formal, que poucos poderão ou terão capacidade de entender, menos ainda de descodificar, a menos que tenham largos conhecimentos de economia e finanças, e que estejam por dentro de toda a conjuntura nacional e internacional.
Creio que já é intencional, que determinadas linguagens de determinados profissionais em diversas áreas, primem por serem ininteligíveis para o cidadão comum.
Quanto menos se percebe, menos se interroga, menos se rebate, menos se questiona ... e mais fácil é afirmar que se disse, o que não se disse !...
Eu mesma ( e enfim, não sou propriamente analfabeta ), entendi muito pouco, sendo embora verdade, que visceralmente ofereço, mesmo inconscientemente, uma resistência tremenda à política ou às políticas, de que tenho, e penso que só poderei ter mesmo, uma opinião forçosamente negativa.

Para mim, política é corrupção, é compadrio, é desonestidade, é aldrabice, é oportunismo, é o "primeiro amanho-me eu", depois logo se vê ... é falta de transparência, de princípios, de respeito por valores, de protecção das classes já favorecidas e desfavorecimento progressivo, exactamente das que precisariam de quem lhes desse voz.
É ignorar o interesse e o bem colectivo, em benefício de algumas classes ( sempre as mesmas ) !
Em suma, para mim, política é um campo de imundície, é a lixeira da humanidade, é a vergonha da espécie humana.
São jogos de bastidores criminosos e organizados, com objectivos cirurgicamente planeados ...

Não conheço, acho que ninguém conhece, um só político que tenha tanta coerência de vida, de postura, de integridade, de ideais de defesa de valores e princípios ... que seja tão impoluto, que contrarie um só destes aspectos que foquei !

É certo que este posicionamento que exponho, será sem dúvida cómodo, prático ...
É fácil estender dedos acusadores, e depois não pugnar ou envolver-se, em pelo menos, tentativas de reversão do errado.
É comodismo talvez, é hipocrisia, é demagogia se calhar ... é indiferentismo grave.  É irresponsabilidade, ou desresponsabilização enquanto cidadã, enquanto pessoa, enquanto elemento de comunidades, enquanto habitante desta terra e deste Mundo.

Eu sei !

Mas também sei, que para o fazer, é necessário  à partida, ter o tal estofo ou perfil para entrar no esquema, o tal "jogo de cintura" intencionalmente permissivo e conivente ... até porque todos sabemos que mais cedo ou mais tarde, a coerência, as boas intenções, a garra, a verticalidade que até pode caracterizar-nos, a honestidade que apregoamos, e por aí fora, são trucidadas pelo sistema ... parecendo que na verdade, tudo sempre terá um preço, e que os D. Quixotes são cada vez, mais figuras lendárias ... os Sancho Panças não existem, e os moinhos de vento, há muito foram substituídos pelas turbinas eólicas !!!...

E penso que esse indivíduo acaba por, ou deixar-se arrastar pela "enxurrada" e deixar-se corromper, ou se se quiser manter-se em pé, contra ventos e correntes tão poderosas e avassaladoras, o melhor e única saída que lhe resta, é dar um tiro nos "cornos" ... ( desculpem o vernaculismo ), por desilusão, cansaço, desistência ... incapacidade absoluta !!

A minha mãe chora ... a minha mãe tem quase 92 anos ...

Infelizmente não nos sobra muito mais, quando se toma conhecimento, que mesmo a pequena criminalidade dispara, porque os pais de família não têm o que pôr na mesa ;
quando os suicídios por desespero, nas tais pessoas que não têm de facto estrutura nem perfil para encararem, se encaixarem no "molde", para viverem ou sequer se "ajeitarem", também dispara ;
quando, como acabei de ler ( e não é novidade ), as pessoas choram nas consultas médicas (que protelam o quanto podem, por não terem recursos ), deixam de fazer exames médicos, ou racionam os medicamentos que deveriam assegurar a sua saúde, pela mesma razão !!...
Estes, apenas alguns exemplos ...

Eu própria, em pleno café, não deixei soltar uma lágrima, por mero acaso.
Mas o nó no peito e no estômago, juro-vos que me "embrulhou" mesmo, o pequeno almoço !!!...

Anamar

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

" SALVOU-SE A LUA CHEIA "



Já aqui falei, não há muito tempo, do mecanismo enigmático e inexplicável dos sonhos.

Alguns parecem divertir-se a surpreenderem-nos com o ilógico do seu conteúdo ( isto se eles devessem ter alguma lógica ), outros, vão definitivamente buscar inquietações, estados de alma, angústias que nos assaltam, mas na maioria das vezes o contexto em que essa perturbação se apresenta, é dum confusionismo total, com assomos de "non senses" absolutos ...
Outros ainda, são a resposta nítida e sem dúvidas, de uma forma explícita mesmo, a qualquer coisa que vimos, que lemos, que pensámos, muitas vezes ao adormecer.
Foi exactamente este, e lembro bem, o tipo de sonho com que labutei esta noite.

Já ontem durante o dia havia pensado que hoje, dia 3 de Setembro, o primeiro dia útil do mês, é também o limite do período de férias da generalidade dos docentes, o que significa que o dia de hoje é o dia de apresentações nas escolas, para início de mais um ano escolar, pelo menos o início das actividades preparatórias do mesmo.

É um dia de fim de férias, que sempre traz a nostalgia do términus de um período que deverá ter sido de repouso devido, de lazer, de ausência de horários e preocupações laborais, ou seja, um período do desligar das realidades, normalmente pesadas, que vivenciamos todo o ano.
Por essa razão, ao longo da vida, mesmo ainda quando era estudante, os anos "mediam-se" com princípio e fim, coincidentes com o início e o fim do ano escolar, e não com os início e fim do normal ano civil.
Penso que se calhar acaba por ser um pouco assim, em todas as famílias com elementos ligados ao ensino, sejam estudantes ou professores.
Isso acaba por se "infiltrar" e colar às realidades familiares, efectivamente.

Por isso, este dia sempre foi marcante, com um misto de sentimentos e emoções, até contraditórios, na minha vida.
Por um lado, uma sensação desagradável pelo fim compulsivo de uma época descontraída e com menos responsabilidades, que foram as férias, depois alguma ansiedade do desconhecido que me esperava por cada ano iniciante ... que turmas, que alunos, que novidades o ano me destinaria ?!...
Depois, havia o sentimento sempre gratificante do reencontro com os colegas mais queridos ( aqueles que o coração sorria só por revê-los ), o contar das férias, o partilhar de informações sobre "novidades" que normalmente o Ministério da Educação sempre primou por pôr cá fora estrategicamente durante o mês de Agosto, em que as pessoas estão desmobilizadas, e a troca de opiniões sobre as mesmas ... e enfim, "novidades"também pessoais, se as houvesse.

E é  espantoso que dois anos depois, e em que já me sinto a anos-luz de tudo isto, ainda assim, involuntariamente, experiencio de alguma forma, toda esta mescla de sentimentos, e por que não dizê-lo ... sobretudo de algum saudosismo deste reencontro afectivo e sempre carinhoso, com caras e corações que me eram queridos.

Ontem à noite, no Facebook, li também depoimentos de algumas colegas que referiam exactamente o dia de hoje que as esperava, e a apreensão adivinhada mas já sentida, do futuro próximo, nas escolas.

No átrio do meu prédio, cruzei-me também com uma miúda, igualmente docente já há vários anos ( e digo "miúda", porque beira a idade da minha filha mais velha ), que "derrubada" ( é o termo ), desalentada, quase desesperada, por se sentir injustiçada e encurralada sem grandes perspectivas à frente,  me disse que pura e simplesmente não havia ficado colocada.  ( As colocações saíram nesta sexta-feira passada ).
Divorciada, com dois filhos a cargo, em idade escolar, "senti" em mim mesma, a situação e ... bem ... e fiquei sem "nada" para lhe dizer, porque de facto não há nada que se consiga dizer, sobre a insegurança, o desgaste, a angústia da incerteza, na verdade o desespero  que será por certo, ter que viver do Fundo de Desemprego, e manter-se em permanência ( quase ao dia ), atenta a novos concursos que vão saindo, para que  os não falhe, e possa concorrer a tempo de novas tentativas, nunca sabendo se continuarão a ser infrutíferas, ou não ;
ainda que venha a ter a sorte de conseguir, entre os milhares de pessoas em idêntica situação, uma colocação, onde será ( perto, longe de casa ? ), com toda a logística a gerir, de crianças a estudar, e a viverem em tempo integral com a mãe !...

As pessoas informadas, e nem sequer necessitam ser muito atentas, conhecem, pela comunicação social, como se apresenta a situação de milhares de docentes neste país, até mesmo a existência de imensos professores com vínculo ao quadro, com "horário zero", ou seja, sem horas que lhes sejam distribuídas.
O número de turmas reduziu, porque demograficamente a população em idade escolar diminuíu abissalmente, o número mínimo e máximo de alunos por turma foi alargado, o que prevê redução dessas mesmas turmas, e porque a legislação sucessivamente implementada pelo Ministério, a nível do ensino, é anedótica, para não dizer profundamente dramática ...

Para além do êxodo de todos os docentes, que com mais ou menos penalização, preferiram partir ( que foi o meu caso ), provocando mais uma verdadeira sangria de competências neste país, há a situação dos que "entalados" em meio de carreira, nada mais puderam fazer que ficar.
Permaneceram, a exaurir-se, num remar contra marés e ventos adversos, com consequentes situações de desgaste físico e mental, num "esticar" de resistência quase para lá do humano, numa luta de, no meio do turbilhão, conseguirem ainda assim, manterem-se "à tona" ... dando o seu melhor, em prol das reais e mais importantes  vítimas  de tudo isto, os jovens deste país, a prepararem também eles, sem grandes horizontes e certezas, os seus futuros !!!...

Ontem, pela internet, e retirado, creio, de um espaço que se diz "de liberdade de expressão" - " O Cão Danado ", chegou-me também ao conhecimento este texto, que aqui deixo  ( como homenagem de solidariedade a estas estóicas e abnegadas personagens, verdadeiros "bombeiros" na área da educação ), e que não é mais que um relato real e fiel, do "filme de terror" que muitas pessoas estão a viver neste momento em Portugal ... e que hoje, encetam mais um episódio das suas vidas ...

Escusado será dizer-vos, qual foi o tema do sonho que me massacrou por esta madrugada adiante ... em que uma lua cheia linda, clara, espectacularmente brilhante, foi a única nota dissonante, positiva e animadora, que me iluminou a alma  !!!...



 "Amanhã os professores com colocação apresentam-se nas escolas por este país fora para um novo ano letivo.

Cada professor (colocado ou não) enfrentará o dia de amanhã com um estado de espírito diferente:

- uns apresentam-se nas escolas como sempre o fizeram, ainda sem consciência da “nova” escola que os espera;

- outros apresentam-se após terem passado pelo “limbo” durante o verão sem saber se iam ser “repescados” ou não;

- alguns apresentam-se à espera da desejada aposentação após o dever cumprido durante toda uma carreira;

- enquanto uns se apresentam para saber que tipo de trabalho vão desenvolver (num ano em que o “mais com menos” imperará), outros apresentam-se sem serviço letivo atribuído e sem conhecer que tipo de funções irão realizar no agrupamento, ao lado de colegas com 24 horas letivas;

- muitos apresentam-se amanhã no Centro de Emprego sem certezas quanto ao seu futuro profissional;

- uns continuarão em casa a candidatar-se a ofertas de escola, esperando uma colocação por essa via ou pela Bolsa de Recrutamento;

- e outros tentarão conseguir emprego noutra área, talvez até fora do país.

A todos, independentemente da situação de cada um, este novo ano letivo trará com certeza um novo paradigma, uma escola diferente daquela que conhecíamos.

E perante isto o que fará cada um de nós? "



Anamar

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

" O SORTILÉGIO DA LUA CHEIA "

 

No céu escuro da cidade, onde nunca temos o privilégio de ver estrelas, uma imensa  lua cheia anda "plantada" bem frente à minha janela ...

O feitiço e o fascínio que me povoa olhando-a, não sei descrever ...
Penso  sempre que todos os olhos do Mundo, ao elevarem-se, se encontram nela, como numa triangulação enigmática.
Achei-a recortada nos coqueiros de Santa Lucia, de Bali, de Negril, sobre o céu livre das Maldivas, ou nos palmeirais de Samaná.

A lua cheia é um  "atentado" aos sentimentos.  A sua sensualidade desafia os mais insensíveis, tenho a certeza.
Na minha casa acende-me dia na noite, e banha o meu corpo nu, quando o sono cessa, a cama ganha picos, o oxigénio no meu quarto escasseia, e as lágrimas sempre saem das cavernas que tenho no peito e escorrem, feito caudal de rio, da nascente até à foz ...

Os lobos homenageiam-na ... os amantes também ...

A mim, envolve-me, acaricia-me, fala-me ao ouvido histórias mentirosas que só as luas sabem contar.
Fala-me de futuros, de vidas, de sonhos, de esperanças, de creres ... daquelas coisas sem fundamento, que fazemos de conta acreditar, e nos alimentam o existir.

Existir ... pois, existir mesmo, e não fingir apenas ...

E o que fazemos quase todos, todos os dias, por cada dia das nossas vidas ?
Criamos metas, etapas, objectivos.  Delineamos, programamos, sonhamos afinal.
Há fasquias que superamos, sobretudo na idade em que há fôlego, há vontade, há força ... sobretudo ingenuidade !
Naquela fase em que acreditamos que de certeza temos desígnios a atingir, missões a desempenhar, obrigações a cumprir.
Há responsabilidades profissionais diárias, há exigências familiares diárias, há os filhos, há os pais, há a luta para que o futuro seja mais garantido, seja mais tranquilo.
Sonha-se ver os filhos a crescer, a ter sucesso, a independentizarem-se, também eles alicerçando vidas e caminhos, desenhando percursos seguros, de qualidade ...
Sonha-se com aquele espaço de campo ou mar, onde seria tão gratificante se tivéssemos uma casa ...
Se a tivermos, sonha-se como alindá-la, como dar-lhe a nossa "marca", como personalizá-la ao nosso jeito.
Florimo-la, plantamos e vemos desabrochar as nossas flores preferidas ...  Afinal é suposto ali irmos ser felizes !...

Depois vêm os netos, e a saga continua ... apenas nuns episódios mais à frente.  Mas tudo mais ou menos igual, apenas com responsabilidades minoradas ... preocupações, não !

Mas vamos sempre ficando mais órfãos ...

Começa a época das perdas.  A profissão cessa ( o tão alvitrado alívio chega ... mas parece já não ser tão alívio quanto isso.  Afinal ocupava-nos a mente, exigia-nos presença, não nos facilitava a "entrega" à reflexão, e à consciencialização da verdade da Vida ) .
Os pais partem, e com eles vão levando pedaços de nós ;  por vezes os percursos dos descendentes não são exactamente como sonhámos, e talvez a tranquilidade não nos encha o coração ;
os nossos próprios sonhos, as "construções" dos nossos quereres, muitas vezes também desmoronam ... partimos para outras realidades.
A casa das flores, do mar e dos pássaros, ficou na dobra da esquina, ficou na página anterior, que já virámos...
Experienciamos uma nova forma de  solidão, embora já a conhecêssemos antes.  Só que esta, será aquela com que provavelmente teremos que conviver até ao fim.
Convém que nos habituemos a ela.  Convém que a adoptemos como o nosso  "segundo eu", a sombra que caminha ao nosso lado sem que a vejamos, pelas estradas vazias da existência.

E cada dia, o espelho, o real e o que temos dentro de nós, nos mostra um ser a degradar-se, física e psicologicamente.
Mais uma marca no rosto, nas mãos, nas pernas ... no coração ...
Ouve-se menos, vê-se menos, comunica-se menos, embora estoicamente queiramos fazer de conta que não.
Entende-se  pior, a  memória  atraiçoa-nos, e até  nos  rimos com isso ( fazer o quê ? ), a concentração esvai-se, a vontade, queiramos ou não, fragiliza-se ( há coisas que já não justificam a "mão de obra" que requerem ... deixam de valer a pena, ou de terem força para nos fazer mover ... ) ; começamos a ter que ajudar a perna para entrar nas calças, começamos a necessitar de um suporte de apoio para trepar a um banco, o equilíbrio deixa muito a desejar, o riso escasseia e o semblante carrega-se ... a alma conturba-se.

As desilusões, a dureza e as frustrações que fomos acumulando, ainda conseguem surpreender-nos, espantosamente ... porque o Homem é por essência, um ser de esperança e fé.
Só que o sarar das feridas que nos conferem, é cada vez mais resistente, e as suas cicatrizes, nem com plásticas na alma se dissimulariam !...

E depois ficamos isto que eu estou hoje ...
Rica deste realismo doído, macabro, violento, mas seguramente real, sem panaceias ou profilaxias que lhe valham, sem maquilhagem que o componha, sem adição de açúcar que o adoce ...
Frente a frente com a verdade nua e crua, que quem tiver coragem percebe que é exactamente isso, a VERDADE despida da ilusão, do artificialismo ou do fazer de conta com que nos embalamos quase sempre, intencionalmente ou por defesa ( como canto de sereia em mar perdido ), para que suportemos ( para mim é o termo ), este tempo que temos, que nos dispensaram, de que dispomos ...  Até quando ??...

E haverá luas cheias depois de luas cheias, e vou continuar a vê-las da minha janela, sonhando que nelas os meus olhos se encontram com outros, perdidos lá para trás ...
Longe, longe, vão ficando os coqueirais de Santa Lucia, de Bali, de Samaná, de Negril ... as areias brancas sem horizontes das Maldivas, e o seu mar de prata, contra céus onde sempre se vêem estrelas ...

Mas  através dos  séculos, tenho  a  certeza, os  lobos vão continuar a homenageá-las ... e os amantes também !!!...

Anamar

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"UMA TRISTEZA..... ISSO SIM !..."


Estou no Fonte Nova a fazer horas...
A fazer tempo para a minha marcação do corte de cabelo.
Deambulo por aqui, esperançada que o tempo não leve muito tempo a passar, nesta minha mania de "não perder tempo", como se não  tivesse "mais tempo" para os nenhuns / tantos afazeres que não me esperam diariamente...

Um pouco confuso, talvez!!

Ainda eu não conhecia o Fonte Nova e uma amiga que já nos deixou há alguns anos, me falava dele.
Os centros comerciais estavam a dar os primeiros passos, começavam a disseminar-se...
Amoreiras, Colombo, Vasco da Gama, Alvaláxia, Corte Inglês... não minto se disser que não existiam.

Este era, entre todos, o mais "maneirinho", o menos "emproado", o mais familiar, o de melhor gosto na decoração!
Quem não lembra as decorações do Fonte Nova em época natalícia??!!

É verdade que se calcorreava o Fonte Nova num ápice, mas aqui  encontravam -se  lojas variadas de insuspeitado bom gosto, para todos os estilos.
Aqui comprei, desde presentes para casamentos, prendas mais requintadas por ocasiões especiais, a artigos pessoais (peças de lingerie absolutamente inesquecíveis, por exemplo)...
Até aqui comprei a minha viagem para a Jamaica, no remoto ano de 2006 !

Sempre o Fonte Nova tinha uma música de fundo relaxante, apaziguadora, nostálgica...
Isso ainda perdura ( menos mal !! )
Escrevo por aqui sentada, e Énya entre outros temas, envolve-me e devolve-me paz...

Apenas, e é sobre isso que escrevo este nada de nada, uma perturbação me toldou o coração : os sinais da crise instalada no nosso país e no Mundo, a malfadada crise sem fim à vista, está a dizimar o Fonte Nova.
Aqui, como em muitos outros sítios, como sabemos!!...

Onde eu moro, também existe um "arremedo" de centro comercial... que de dia para dia é tudo menos centro comercial ; antes, um Texas por ali instalado, confinado a chineses, paquistaneses, indianos, telemóveis e mais telemóveis... onde mais parece estarmos em Brooklin, no Bronx ou em China Town... "português", precisa-se !!
Mas não me dói no coração nada daquilo lá!
Afinal, aquele espaço não tem nenhum carisma, nunca foi nada que valesse a pena ... continua não o sendo.

Mas o Fonte Nova ... que crime!!...

As lojas fechadas são por demais ; as ainda existentes não têm o "glamour" de outra época ; são sim lojas de "trapos" mal amanhados...
Persistem na maioria as de restauração, apostadoras nos utentes aqui à volta ... pouco mais !
Até os cinemas estão entre o "sono profundo"  e uma morte anunciada!
Tudo parece mais pequeno ... parece que o centro "encolheu", está a virar um pouco "fantasma" desalentado. 
Lembra um espantalho no meio dum campo de maçãs, cansado e sem convicção, como algo que recorda aos de memória mais curta, o que era, o que foi ... uma espécie de "ruína" em pé, uma espécie de "barco encalhado" pela tempestade que tentamos atravessar e à qual tentamos resistir...

Sinal dos tempos ... sei lá !!

Uma tristeza ... isso sim !!

Anamar

domingo, 13 de março de 2011

"O INFERNO ALI TÃO PERTO..."


Com "O INFERNO ALI TÃO PERTO..." quero solidarizar-me com o povo japonês e com todos os outros que sofreram e sofrem na alma e no coração, agora ou antes, a dor da perda, o destroçar dos sonhos, o desmoronar das vidas...

Tanto já se disse, tanto já se mostrou...as palavras e as imagens estão exaustivamente gastas.
Povo mártir de Hiroshima e Nagasáqui, voltou a testar as suas capacidades de aceitação, sobrevivência, fé e esperança, perante o inferno, de novo sobre si abatido!

"Requiem" -de MOZART pelo povo japonês neste 11 de Março de 2011



Anamar

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

" O MEU PAI É UM CABRÃO DE MERDA E UM GANDA FILHO DA PUTA..."





Credo!
Acabei de escrever o título deste post, e já olhei para ele de enviesado, dez vezes....
Aposto que a minha "audiência" hoje vai aumentar substancialmente. Aqui está o efeito das manchetes apelativas, pelos mais variados aspectos, todos os dias, nos mídia...

Fui há pouco a casa da minha mãe desincumbir-me da missão que me calhou em destino desde que ela decidiu viver na margem sul, numa zona de pinheiros, relvados, pássaros, as suas inalienáveis sardinheiras e o seu Gaspar, que é mais gente que muita gente...ou seja, fui ver o correio e regar as plantas, numa casa que está fechada há quase seis anos, escolhendo o lusco-fusco de uma tarde que invernou aos poucos, e "pedindo" que não cruzasse ninguém conhecido naquela avenida, que de conhecido meu, já tem muito pouco...pese embora os muitos anos que por ali deambulei, entre catraia, estudante, mãe de filhos e respeitável professora, do liceu que fica apenas alguns metros atrás...

"Respeitável professora"....eu, que graças a Deus ou ao Diabo continuo a ser a "Guidinha" para os agora velhotes, resistentes lá do sítio!!

O meu ânimo não era o melhor, porque não estou de facto com alma e coração para demonstrar aquela afabilidade necessária para quem está também sempre disposto a contar histórias, já mais ou menos "trôpegas" da solidão...e porque ir áquela casa, não me faz lá muito bem, sobretudo num momento em que ando a tentar reunir os meus "cacos".

A minha mãe ficou definitivamente na outra banda, corria a quadra natalícia de 2004, por razões que não vêm ao caso.
Tinha enfeitado a casa com dois ou três apontamentozitos, do que era o seu Natal por aqui : uma coroa de Natal, a dar as boas vindas a quem entra, portanto, pendurada na porta de entrada, um castiçal natalício, em que não falta o azevinho, os sininhos dourados e os raminhos de pinheiro, e claro, sobre a mesa, um Pai Natal, da Loja dos Trezentos, com aquele ar de velhinho bonacheirão, saco às costas e creio que uma lanterna, dadas as hipotéticas curtas dioptrias...e pronto...acho que nada mais.
Sempre que meto a chave à porta e entro naquele rés do chão, evidentemente às escuras, sempre sorrio e penso: "Continua a ser Natal na casa da minha mãe...ainda!..." Depois sigo pensando como sou diferente dela e como a invejo...

Aqui, na casa onde vivo, há muito mais adornos alusivos, inclusive uma árvore de Natal estilizada, em dourado, de colocar sobre um móvel por exemplo...um bonito presépio que até esqueço, bolas, velas, fitas e luzes, de quando o Natal se impregnava debaixo da pele...
Há cerca dos mesmos seis anos, que ano após ano nada sai do lugar onde está guardado...
Há assim uma espécie de um "não valer a pena" aqui dentro.
Já referi algumas vezes que sou anti-convencional, mas teria maior mérito se fosse essa a razão por ignorar a quadra decretada. Era mais coerente...Mas nem sequer é disso que se trata....É sim, aquela desvalorização que tira amor a quase tudo o que faço comigo, e na minha vida....
É assim....e não adianta violentar-me....eu sou mesmo "uma coisa".....pouco, de "gente"......

Bom, mas lá fui e vim, com a noite a anunciar-se para breve.
Com ela, fim de aulas e a multidão de estudantes, seja da escola básica, seja da secundária (porque ficam quase lado a lado), têm por regresso esse caminho. Por isso,  falo em multidão mesmo.

É a multidão dos "bué", dos"curtes a cena, meu", dos "foda-se" para a esquerda e para a direita (já nem estremeci ao escrever....tenho p'ra mim, que estou já no domínio do calão, tal a vulgarização...), "do stôr é do baril" ou "o gajo é um cromo!..."

É a geração da calça bem "arejada", dos casacos com carapuço que tapa quase tudo, das barriguinhas Danone, das garotas que só não apanham pneumonia no umbigo, porque não é sítio de pneumonia...de t-shirts que ainda ficaram da estação anterior, e que ou encolheram, ou a miúda cresceu...(é provável!...), e sempre se areja cada vez mais...

É a geração dos diálogos mais "edificantes" que se possam conceber...
Dali, não sai coelho...nem música, nem filmes, nem livros, nem temas escolares......nada, nadica de nada....um vazio que dói, uma frivolidade que abisma, um desinteresse que preocupa, uma pergunta que atormenta: esta gente vai ser o nosso país daqui a meia dúzia de anos?????...


E do meio desta amálgama hululante, deste desenfreado de loucura colectiva, de patetice doentia, de geração que é órfã, seguramente, dum Mundo em que não sabe por que o ocupa, o que deve fazer dele, cujos valores e princípios já pertencem às "Calendas Gregas"...e isso nunca souberam o que era....e eis que do meio desta TRISTE SOLIDÃO E ABANDONO....estou certa, dizia... surge, largos decibéis acima, a voz duma adolescente, que para se fazer ouvir na "manada", propalava aos quatro ventos : "O meu pai é um cabrão de merda e um ganda filho da puta!... Eu já lhe disse: Se me casca outra vez, nunca mais me vai ver a cor!..."

Bom, realmente essa frase fez-me levantar os olhos do chão...e de imediato pensei comigo: "..."cabrão" esse que foi capaz de te pôr no Mundo, e provavelmente está sim, a desempenhar um emprego "filho da puta mesmo", para te sustentar!!!...."

Benza Deus!!....

Anamar