Será um blogue escrito com a aleatoriedade da aleatoriedade das emoções de cada momento...
É de mim, para todos, mas também para ninguém...
É feito de amor, com o amor que nutro pela escrita...
A gente parte pensando que foge.
Mas a gente não foge, sempre fica no mesmo lugar !
Ando a escrever pouquíssimo. Aliás, não ando a escrever. Dito de outra forma, alieno diariamente uma parte de mim, importante. Demasiado importante.
Sinto-me ressequida. Tão vazia que nada tenho de relevante p'ra falar ou p'ra contar.
Estou demasiado parada na vida. A vê-la passar simplesmente. E isso é um perfeito desperdício, porque por muito pouco que ela valha, é a única que tenho, é o único bem verdadeiramente meu, de que disponho.
E o absurdo é que tenho consciência disso, e não tomo providências.
Sou como aquele menino que está no pátio do recreio e não brinca, só olha os outros brincando.
Ainda assim, podia sentir-se feliz, mas não sente !...
Hoje está um dia radioso. Um dia de Inverno a enganar de Primavera.
O sol claro e brilhante, o céu totalmente limpo e azul, parece um empacotado de vitaminas para a alma.
E eu, pareço procurar o lado esconso da vida.
Logo eu, que implico com janelas fechadas, persianas descidas, cortinas corridas. Logo eu, que implico com páginas viradas, esquinas dobradas, muros altos e sentidos proibidos ...
Logo eu que refilo, dizendo aos outros que tenho tempo de ficar às escuras ... no coração e na alma ...
Mas estou assim !...
E fui embora. Fui embora sem fé.
E estranhamente, foi a primeira vez que corri o pano, troquei de cena, e em que me senti como o actor, que sozinho no palco, olha com cansaço e decepção a plateia vazia, num espectáculo que não se fez !
Há silêncio lá fora e dentro de mim ... Demasiado silêncio ...
Criminoso ! É um crime o que faço comigo. É imerecido acordar viva por cada dia que começa.
É injusto existir assim, com tanta razão para existir de outra forma !!!...
O dia amanheceu mergulhado em "nieblas".
Uma cerração desgraçada, adivinhava que o sol não se levantaria. Temperatura a baixar abissalmente, um frio de Natal a instalar-se.
Na rua, as pessoas circulam apressadas. Golas levantadas, narizes vermelhos, ofegantes, passo estugado na tentativa de enganarem o ar gélido. Das bocas, aquele fuminho denunciador de uma humidade brava, espalha-se, como se de uma chaminé se tratasse.
Foi o primeiro dia, deste Outono beirando o Inverno, que efectivamente puxou dos "galões" e mostrou claramente que o tempo atmosférico até agora, tem andado a brincar a uma coisa que não é nem deixa de ser. Hoje sim, temos um daqueles genuínos dias coerentes com o calendário.
Os faróis dos carros, neste lusco-fusco de noite às cinco da tarde, projectam um cone de luz tremeluzente, no asfalto molhado.
E choveu toda a noite.
Os pingos das gotas de chuva nas vidraças da janela, o pingue-pingue metálico na calha do estore da vizinha de baixo, foi-me lembrando ao longo das horas de silêncio, que estaria desagradável lá fora.
O gato preto ... onde andará ?
Continuo a entrevê-lo através dos estendais, prédio abaixo. Estendais agora vazios de roupa, em tempo de borrasca. Sobrevive no terraço, em completa solidão.
Onde se acoitará da água ? Sim, porque do frio, não há lugar razoavelmente protector.
Os pingos ...
"Estás constipada ?" - perguntaram-me ao telefone.
"Não ! Estou apenas a pingar !" - respondi, justificando o fungar perceptível.
A gente pinga, de quando em quando. Pingam os olhos, pinga o nariz, ao sabor do pingar do coração. Porque é aí que tudo começa !
Será que se pode ter saudades do futuro ? Ou melhor, de um futuro que ainda o não foi, e apenas se idealizou ?
Será que se pode ter saudades de alguma coisa que não se viveu, só se adivinhou no coração ?
Porque saudades do passado, é fácil. E lógico. As saudades são os restos que ainda não partiram.
Sou capaz de olhar um galho adormecido, e cheirar o verde húmido da mata, quando foi apanhado...
Sou capaz de olhar um calhau rolado das areias distantes, e inebriar a alma com a maresia que dele se desprende ...
Sou capaz de ouvir os chocalhos do rebanho no pastoreio, e as badaladas da torre sineira ... ritmadas, cadenciadas, ecoando no silêncio, como então ...
Escuto com precisão o grasnido da gaivota planante, antes de repousar no alto daquele poste lá ...
E escuto também as exactas palavras ditas, os risos largados, os sorrisos subentendidos ...
E oiço o Natal, e o ano vizinho ... e cheiro a intimidade da sala, e o calor da cama cúmplice...
Tudo ontem ...
E amanhã ?
Amanhã, é uma manhã como a de hoje, mergulhada em "nieblas". É um vendaval de chuva cerrada, que não deixa ver através das vidraças embaciadas. É uma espécie de vereda que caminha na ravina e termina lá ao fundo, subitamente ... num penhasco em garganta rasgada sobre o mar ...
Amanhã ... é uma manhã cinzenta de um Outono beirando o Inverno.
Amanhã é uma interrogação sem resposta. É um futuro de fé sem esperança ...
Amanhã é a ausência de nexo, numa história que desconhece o seu significado !...
Os dias são o que deles fazemos ...
Os dias são o que neles vivemos ... Vivemos ou "vivêmos" ... p'ra se perceber melhor ...
Já gostei muito dos sábados !!! Eram o meu dia sonhado e inventado, nos sete que desfilam na semana.
Era o dia esperado, criado e recriado nas asas da imaginação. Mesmo que fossem sábados como hoje ... ou melhor, sobretudo se fossem sábados como hoje, de cara feia, cenho carregado, de escuridão, vento e chuva, distribuídos por quem gere estas coisas ...
Eram sábados com história ... muitas histórias ! Eram sábados de sala iluminada, de vamos ali e voltamos ... golas levantadas já, sábados de correr à chuva em chapéu dividido, com as gotas trazidas nas rajadas do vento a molharem a meia de licra ( comprometendo a exigência da toilette ), empoleirada nos saltos altos em harmonia.
Eram sábados com vozes, conversas, risos e gargalhadas. Sábados aquecidos no tinto de copo de pé alto, adoçados na cremosidade do chocolate, brindados no cálice de Limoncello ...
Olhares cúmplices e segredos trocados. Eram sábados com alma. Eram sábados com vida !
E um calor que trepava, amarinhava, e envolvia ... Capaz de trazer à vida, alguém que partiu ...
Não era esta coisa de silêncio a esfumar-se entre as quatro paredes ... sempre só as quatro paredes .
Não era este abandono gélido que me perfura até às entranhas. Este som que não ecoa, estas palavras que não são ditas ... porque não há quem diga palavras, por aqui ...
Não era este frio que atravessa as vidraças, pela ausência de sonho, e me tolhe, me limita, me amarfanha ...
Não era esta ausência de tudo, mas sobretudo da esperança.
Não era o saber-me viva, apenas porque respiro ... ainda !
Não era o mitigar-me com os farrapos das nuvens, olhando o céu que se redesenha a cada golpe de vento. Como se a faxina do firmamento pudesse soprar-me para longe, este peso de nuvem negra sem arco-íris !...
E anoiteceu. Anoiteceu abruptamente ... insensivelmente ...
E tanto sábado que eu tinha então, ainda p'la frente ... e tão pouco sábado que tenho hoje, entre os dedos ...
Ainda "cheiro" os sábados, porque cada hora era uma hora de ser. Cada hora tinha uma batida diferente do coração, e um sorriso específico nos lábios.
Havia os de sol, que eram dourados, só dourados, e havia os de chuva e escuridão que eram doces, apenas doces ...
E eu, era aquela ... de então. Não esta de hoje, sem identidade definida, vazia, amorfa, indiferente.
Sonâmbula na vida, distante, esquecida ... cansada !
Oiço o grasnido da minha gaivota já perdido no cinzento fechado, aqui por cima. As asas estendidas e o peito à aragem, levam-na por círculos longínquos, adormentados, para bem longe da minha janela.
O horizonte limita-me a vista e tolhe-me o pensamento ...
Por que raio ainda existem sábados, nas semanas ?!...
O tempo está isto. Está esta coisa que se sabe ...
Mas também, sempre ele tem a culpa de tudo ! Por isso, ri ou chora, adocica ou sopra de fúria, se, e quando quer. Com estados de humor indiferentes aos estados de humor flutuantes, dos simples mortais.
Afinal a gente sempre reclama. Sempre achamos, do que reclamar.
É a humidade, é a chuva, é o sol forte demais, a desuso, é a ventania desabrida, é o ar trovoado que nos azara a cabeça, ou é o cinzento de um céu mal pintado ... Enfim, qualquer coisa é "bode expiatório", qualquer coisa justifica o desconforto, a vontade estranha de fugir, de voar p'ra outros céus, outro chão ...
Qualquer coisa explica esta estranha ânsia de levantar ferro e zarpar ... zarpar por aí, por onde não houvesse vivalma ...de preferência ... digo eu !
Até os patos estão fora do lago...
Mais de vinte ponteavam há pouco a relva, na bordadura da água.
Cá fora a chuva cai, copiosa, insensível. Tenebrosa. Toda a noite, toda a madrugada e por todo o dia, vento fortíssimo arremessou torrentes de água contra os vidros das janelas, empoleiradas neste terceiro andar, sobranceiro ao verde frondoso das árvores baixas e da relva do golfe, e frente ao cinzento uniforme e plúmbeo do céu, sem horizonte que o limite.
Está um tempo de borrasca.
O firmamento não tem nuvens ... é uma nuvem ! Inteiro, escuro e triste, desliza açoitado pelo vento, empurrado, como se fosse fumarada enfarruscada de chaminé de fábrica.
As árvores vergam, ameaçando quebrar, a temperatura caíu abissalmente, antecipando um Inverno em Outubro ... e as rajadas ruidosas, assobiam desaconchegando tudo e todos. Fustigando o corpo e macerando a alma !...
O silêncio por aqui, ouve-se ...
À excepção do assobio da ventania que se esgueira por qualquer não detectada frincha, à excepção do tamborilar forte das gotas de chuva nas vidraças, e do lamento queixoso da ramaria ... tudo o mais, é quietude.
Vi-os há pouco , à passagem ... aquele casal, na beira da estrada.
Dividiam uma protecção única, para a chuva impiedosa. As roupas ainda ligeiras, obedecendo à convenção calendarizada, levantavam as golas, fingindo proteger.
Eu juraria estarem completamente encharcados, porque o vento desordenava o percurso da chuva .
E cingiam os corpos na tentativa de aconchego ... e seguravam o chapéu sem esperança, titubeante aos golpes desabridos ... e tinham os rostos iluminados, radiosos e coloridos do calor terno que os inundava, com uma felicidade e um sorriso tão rasgado, que desafiava a autoridade dos céus ...
Eu diria que passeavam pelos intervalos das gotas, provocadoramente, desatentos ...
Tão demais o que os unia !!!...Tão de menos a intempérie que os rodeava !!!...
Anoiteceu-me junto às vidraças.
Sou eu, os dois gatos e a cadela, o universo espectador deste fim de dia.
Eles dormem. Eu, alongo o olhar através da penumbra que desce mais e mais, de instante a instante, apagando os contornos deste quadro sem caixilho.
Espicho os olhos por entre as cordas que despencam dos céus, na tentativa de divisar alguma coisa, alguém ... lá longe ... mais além ..
Uma sombra que entrasse solidão adentro... Uma ária que me trinasse um rouxinol ... Um perfume que me subisse da mata ...
Ou tão só, na esperança de descobrir onde pára a nesga de azul e os raios de sol ( neste anoitecer castigador ), que eu tenho a certeza, pairavam sobre o chapéu de chuva daqueles dois ...
Estamos naquela hora em que o sol nos foge numa fracção de segundos. Apenas o tempo de procurar os óculos, para percebermos que ele já foi por hoje, naquele azul diluído num laranja-fogo, lá longe ...
Está a por-se bem mais à esquerda, no meu horizonte visual, por detrás das antenas de telecomunicações encarrapitadas incomodamente no alto de um terraço, frente à minha janela.
Ainda assim, deu p'ra ver que se deitou numa espécie de água de maré baixa, quando o mar recua, e fica aquela serenidade no areal.
Levantei-me não há muito, constatei ... E pensei como foi curto o meu dia, como se encurtando-o mo anestesiasse, doesse menos, por menos horas ter de confronto comigo mesma.
Porque, de facto, enquanto os sonhos vão e vêm na sala escura do nosso "consciente onírico", tudo desfila à revelia do real, e com sorte, deambulamos por espaços, por pessoas, por momentos que já foram, e que se não foram, muito provavelmente gostaríamos que tivessem sido ...
Estou assim ... não diria desequilibrada ... Não gosto do termo.
"Desestruturada", encaixa na perfeição.
Desestruturada é alguma coisa fora do contexto, fora do enquadramento ... fora da moldura.
Aquele pedaço de pano que esgaçou, sem hipótese de conserto, está totalmente desestruturado.
Um dia fica-se assim. Quando os olhos, o peito e a mente, não obedecem a ordens.
"Florzinha de estufa", como diria a minha filha, que tem pouca queda p'ra perceber estas coisas fora dos enquadramentos rígidos de racionalidade, pragmatismo e objectividade, na realidade em que se mexe .
Fraca capacidade de resiliência. "Frescuras" ... diria, se fosse brasileira. Falta do que fazer ... dir-se-á. "Vida santa " ... dirão os que analisam de fora ... " que não valorizo".
"Querer mais o quê ?... perguntam-se.
Tontinha, insana ... mal agradecida e parva !!!
Estão desde já, todos perdoados !
Estas coisas, não entende quem quer. Sim, quem pode. Quem é capaz. Quem percebe. Quem sente, ou sentiu .
Quase me culpabilizo por não ter uma razão comezinhamente palpável, que justifique o esfiapar deste tecido de refugo, que é a minha mente, sobretudo nestes dias coloridos a ocres e vermelhos de Outono, com o sol a dormir por detrás das antenas, só p'ra me desfeitear ...
Uma razão daquelas que fazem estatística. Que engrossam colunas. Insuspeita. De peso. Uma boa razão, de valer a pena !
Porque nos tempos que correm, só tem direito a lamúrias existenciais, quem sofrer de males maiores, aqueles que atacam as pessoas ditas normais, por azar, acidente, ou destino, nesta época de crise bravia.
Esses sim, mereceriam o nosso respeito, comiseração e solidariedade.
Só que há "males maiores", tão "mortais" quanto outros. Que uns entendem ... outros não !...
Também, não vou agora aqui discutir o sexo dos anjos !
"Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos, sempre. Acreditamos que não é a última vez " - diz Mia Couto.
Eu sempre olho para os lugares, bem ao contrário ... Achando que é de facto a última vez. Lamentando que o seja, quase sempre.
Por isso também, guardo uma religiosidade solene quando o sol amodorra, e os silêncios possíveis ocupam os espaços vazios por aqui. Sempre penso, que muitos o vêem deitar sem que o vejam acordar amanhã ...
E pareço ouvir aquele meu amigo ( alguém, já não sei quem foi, dizendo a sorrir, abanando a cabeça desaprovadora ) : "Lá estás tu a ver as coisas dessa forma ! Tens é que pensar, quantos lhe assistem o despertar, isso sim !"
A velha história do copo meio cheio e meio vazio ... A demagogia à solta !...
Este texto hoje, é um desconchavo mental. Uma peça de "patchwork" de má qualidade !
Retalhos mal ajambrados, coisa atamancada e perversa ...
É lava de vulcão, cujo vómito súbito seria impensado ...
É tudo, e é nada ! É só um "botar para fora", neste Outono pesado e cansativo.
O Outono parece ter chegado. Mais cedo, afinal.
Depois de um Verão atípico e de uma Primavera que não tivemos, o tempo deu uma volta, os dias acinzentaram, o sol ganhou aquele brilho estranho que se percebe estar a apagar-se, embora ainda seja quente.
Um calor, que não nos espantaria se de repente ouvíssemos trovejar.
Iniciaram-se as tarefas de preparação da " toca " para o Inverno que há-de vir.
Os putos andam ligados " à corrente ", pelo reinício das escolas. Como se isso fosse a última maravilha do mundo, e como se os livros que agora afagam, miram e re-miram com curiosidade, não fossem rapidamente motivo de saturação e incómodo ... Não demora !
Os pais andam obviamente a reboque, às vezes mais ansiosos que os próprios miúdos.
Quem já não tem esses "filmes", mesmo assim anda a sofrer da "síndrome" outonal.
Numa sanha estranha e inexplicável, lança-se à limpeza das casas, a fundo, lança-se à "purga" dos roupeiros, numa ânsia de os extirpar do antigo acumulado, e considerado já de inviável utilização. Parece pretender-se deitar fora, junto com tudo isso, e com urgência, um pouco do "lixo de alma", pesado, cansativo e sufocante.
Na época da queda da folha, numa das fases de mudança profunda no ano, o ser humano também assume o espírito de equinócio, que desta feita, à semelhança da Natureza, é um período de interioridade, introspecção e intimismo.
É o período de recolhimento, de hibernação, de adormecimento, de concha.
Eu, pelo menos, sinto assim !
Muito difícil sempre, atravessar este "túnel" !
Muito penoso sempre, arranjar forças para andar adiante. Mais difícil de ano para ano, parece.
É como um fardo mais e mais pesado, com acumulação de tudo o que de negativo a vida parece encarregar-se de nos adicionar ao percurso, sempre na razão inversa da força anímica de que dispomos, e que enfraquece a olhos vistos.
Mas por outro lado, acredito que o Outono da vida, possa ser um tempo de privilégio para alguns.
Para aqueles que têm ninho, lura, porto, cais, luz, âncora ...
Para aqueles que têm raízes escoradas, referências seguras, que têm sossego no coração e vivem quietude na alma.
Esses devem fazer um tempo de fruição, de bem-estar, de enriquecimento espiritual, de acerto com o "caminho", de pacificação do espírito, de repouso interior, de plenitude gratificante, sem sobressaltos ou angústias, estou certa ...
Imagino aquela casa, bem simples, de quarto e sala, aninhada naquele jardim pequeno, de plantas bravas a bordejar o areão da entrada.
Imagino aquelas duas janelas ladeando a porta, e a cancela em madeira velha franqueando o acesso ... a gemer nas dobradiças ...
as roseiras de rosas singelas, com o aroma tépido das Santa Teresinha, e as ervas aromáticas perfumando o ar.
Imagino os gatos ronceiros por ali ... Os de dentro e os de fora, em harmonia plena ...
E os pássaros que ficaram, buscando o aconchego. Porque os outros, já não pulam pelos galhos ... Partiram para longe, faz tempo !
Imagino a mesa junto à janela, salpicada de potes com alecrim e madressilva, a esmo ... espaço de escrita ou de leitura, na moldura do jardim lá fora ...
uma música calma, perpassando em surdina, para não espantar o som da aragem nas folhas, nem macular o tamborilar dos salpicos de chuva na vidraça, de quando em vez, em ameaços, apenas ameaços ...
Imagino uma luz acesa, velada, íntima, para não sobressaltar os sonhos, nem dispersar os pensamentos ...
Imagino aquela casa de Outono ... imagino ...
Por que será que imagino aquela casa, que de repente, pelo sonho parece tão minha ... se nunca a vi, se nunca a vivi, se nunca a senti ??!!...
E no entanto, é como se a cheirasse, como se já a tivesse palpado, como se conhecesse com perfeição a rugosidade da madeira da arca, como se soubesse com clareza a intensidade da luz que penetra pela janela ... como se ouvisse com nitidez o estalar do areão do caminho sob os pés que avançam, como se adivinhasse sem erro, os "gatos" daquele prato do escaparate, como se olhasse a ramagem do cretone que forra o sofá ... e a soubesse minha, de há muito ...
É como se me passeasse por um espaço mais que familiar ... íntimo ... secreto ... e tivesse em mim um calor doce de compotas, num embalo de amarelos, ocres e vermelhos ... de castanhas quase no braseiro ...
Quase sinto a brisa lá fora, lembro as notas do murmúrio do vento, e os cheiros que vêm voando, e que eu não sei se são salgados ou doces, se vêm do mar ou da serra ...
Tenho um xaile breve pelas costas, tenho o cabelo prateado em corrente líquida de intemporalidade, e tenho um cesto no braço, repleto de rosmaninho ...
Quase sinto ...
Por que será que temos estas coisas ? Por que será que nos deixamos invadir por desnortes, que são isso mesmo... coisas inexplicáveis de orgias mentais, pura elucubração de demência ??!!...
Serão reminiscências de vidas passadas, ou sonhos de vidas futuras ???!!!...
Só os livros se multiplicam, criando edições sucessivas de acordo com a satisfação dos leitores.
O ser humano vive, vira a página e anda para a frente. Esgotou !
Gostou ? Queria alongar ? Temos pena, não é possível !
Nem comprando novo bilhete como no cinema, poderíamos visualizar o mesmo filme !
Não gostou ? Não se amofine, pois também já passou ! Aquela sessão terminou, e não há reprise, felizmente !
Então, inventámos aquela coisa a que chamamos de "saudade", que é algo perturbador, como o é a comida requentada.
Faz mal. Passou do prazo. Ficou estragada.
É algo que acabou, e não deixamos que acabe. Que não existe, mas não desgruda.
A saudade é exactamente assim. Mata o coração, inunda os olhos, aperta o peito, provoca cataclismos na alma.
E depois, se não bastasse, a saudade é ilusoriamente adocicada, bem safada e mazinha ...
Parece aquecer-nos por dentro, parece adoçar-nos o desencanto, parece embalar-nos a existência.
E enquanto a sentimos, volta-nos tudo aquilo que a despertou, e parece que o reeditamos ... Mas não !.
Tudo não passa de uma masturbação das emoções, com um clímax nunca alcançado. Porque não passa disso mesmo ... de uma satisfação insatisfeita, quase quase real, mas que sempre nos defrauda, sempre nos deixa outra vez de mãos dolorosamente mais vazias, e o coração mais dorido ainda.
Não passa de um truque, um analgésico para doença crónica !...
E inventámos também uma coisa chamada "sonho" , que consiste em projectar na luz do dia, o que só é possível viver ( quando desligados do real ), vogamos pelo mundo onírico .
Porque o sonho e a realidade não casam de nenhuma forma ! E por isso os sonhos reais, aqueles que arquitectamos com os cinco sentidos bem despertos, são tão mentirosos como os outros !
Nós é que pensamos que não. E vamos acalentando ao longo da vida, o tão maquiavélico quanto patético projecto de realizá-los.
E por isso nos degladiamos, para isso consumimos todas as energias que conseguimos arregimentar dentro de nós ; reunimos todas as forças e convicções possíveis, e usamos um argumento forte, para nós mesmos :
aquilo a que se chama "esperança", de que nunca abrimos mão, e que garantimos ser a última que morre, ou seja, que sempre irá além da vida !
Sem ela na linha do horizonte, torna-se difícil progredir. Ela funciona como catalizador ... assim como uma espécie de braseiro de sol, de dia, e de farol nas escarpas, pelas noites ...
Ela empurra-nos, quando queremos amodorrar, hibernar, desistir ... puft ... sumir no espaço !
Ela é o complexo vitamínico que acode a situações de déficit orgânico ...
É o balão de oxigénio que impede a asfixia eminente ...
É a transfusão abençoada, que evita o progresso da astenia anunciada ...
Mas actua pontualmente. Não se tomam vitaminas todo o ano !!!...
E assim, entre a saudade, o sonho e a esperança, o ser humano vai acreditando na reedição possível de excertos da sua vida, exactamente aqueles que quereria preservar, re-experienciar .
Extirpando do coração mágoas destruidoras, vai pintando quadros de renovação alcançável, vai tropeçando e esgrimindo com as dificuldades, as tormentas e os vendavais ...
E não se rende, porque apesar de tudo, o Homem é sempre um ser de fé, mesmo que ela não tenha rótulo, e o seja apenas na sua essência de herói e resistente, enquanto Homem que é !!!...
A gente faz os lugares ...
Sem dúvida, cada vez mais me é óbvio que não adianta estar-se no paraíso, se o paraíso não está em nós ...
Por isso, pode estar-se na maior solidão e abandono, rodeado de gente, pode estar-se infeliz frente a um cenário deslumbrante, ou no mais cobiçado canto do mundo, no espírito de qualquer mortal ...
E ao contrário, conseguiremos descortinar o sol e sentir o seu calor aconchegante a envolver-nos, conseguiremos sentir-nos plenos ainda que sós, preenchidos de emoções e de paz, mesmo em condições precárias, mesmo com poucos requisitos cumpridos, ainda que teoricamente talvez isso não fosse expectável .
Picasso dizia " Há quem transforme o sol numa insignificante bola amarela, e há quem transforme uma bola amarela no próprio sol !... "
E isto é absolutamente verdade, todos o sabemos e sentimos.
A felicidade não está nas coisas, nos lugares, nos momentos ou nas pessoas que os preenchem. A felicidade está, ou não está, dentro de nós, num coração desarmado, limpo, disposto e aberto a deixar-se tomar, invadir, preencher ...
O recheio sempre tem que ser interior ... é o da alma e do coração ! O conteúdo é o da disponibilidade do espírito, para transformar as pequenas coisas insignificantes, em grandes acontecimentos gratificantes.
A fotografia mais genuína de um lugar, não é a que cuidadosamente captamos com a máquina.
Essa é uma mera imagem impressa numa película, numa memória.
Essa está despida, nua, vazia ... Essa, é "curta", incompleta e é irreal.
A verdadeira fotografia não existe, nem vale a pena tentar fazê-la, porque ela é um misto de vectores indescritíveis, incomensuráveis e intransmissíveis.
Ela transportaria todos os valores de cor, luz, brilho, som e imagem, que a objectiva captou e a tecnologia processou, duma forma aparentemente perfeita e sofisticada. Mas também e sobretudo, ela teria que transportar toda a amálgama de componentes respeitantes à subjectividade, à sensibilidade, à emoção ...
Ela teria que conter o som ( não o que ficou registado na câmara, mas aquele que apenas os nossos ouvidos "ouviram" ... ), o calor ( aquele que nos embriagou e nos impregnou a alma ... ou o friozinho que nos percorreu, porque isto, ou porque aquilo ... ), o silêncio que talvez então nos cortava a respiração ... o tique-taque desordenado das batidas do nosso coração ... ou a mansidão das lágrimas que desceram em emoções incontidas e teimosas ... nesse momento ...
E teria que conter os cheiros que não se descrevem ... nunca se descrevem ... Os sentidos, todos os sentidos também ...
E os sentidos são isso mesmo ; "sentem-se", não se racionalizam, nem têm alfabeto com que se digam ...
... E obviamente "essa" fotografia, "essa" imagem única e exclusiva, é pessoal, é impartilhável, é indescritível ...
Viveu-se e é nossa, só nossa ... É riqueza pessoal. Morrerá connosco, ou com a morte das nossas memórias !!!
O mesmo com os lugares ...
Posso vivê-los, ou posso só inventá-los.
E vivendo-os, ainda assim, sempre os viverei dependendo daquilo que me preencha e eu transporte dentro de mim, nesses instantes, da minha capacidade de ainda me emocionar, me surpreender, da minha disponibilidade de coração, da grandeza da minha alma ... do espaço que dentro de mim, eu ainda tenha p'ra sonhar ...
Em suma, da força de que eu disponha para transformar o tal borrão amarelo, num imenso sol na minha vida !!!...
Não sei se todos serão assim, ou se pelo menos as mulheres serão assim.
Cheguei a uma fase da vida em que se me impõem à frente dos olhos, as limitações inerentes ao avanço dos anos.
Ao longo dos tempos, sempre fui uma "descontraídona", uma atrevida e uma desafiadora em relação ao seu percurso.
Achava-me invencível, achava que nada me poderia tirar a robustez. , a agilidade, a invencibilidade... e até a dose saudável de loucura, que achava ser-me devida !...
Como por feitio sempre desafiei os dias e os anos, sempre os provoquei, e sempre fui bem mais saudável comparativamente a muitas colegas e amigas da minha faixa etária, sempre vivi descontraída, sempre ousei isto e aquilo em contra-ciclo com as posturas convencionais, sempre desvalorizei talvez demasiado inconscientemente, o espectro dos males possíveis ...
Contudo o tempo passa, e de repente há um dia em que às vezes, por nada em especial, parece que acordamos para a realidade, e consciencializamos que talvez, na verdade, tenhamos vindo a perder capacidades, desenvoltura, sagacidade ... E não achamos graça !...
Deixámos de ser escorreitos física e mentalmente, deixámos de ter aquele entusiasmo, de ter aquela disponibilidade de espírito que nos permitia arriscar, achar graça a tantas coisas, avançar p'ra tantas outras, ainda com o desejo de aventura, e com a adrenalina de outros tempos.
Ficámos comodistas, arreigados a uma vida demasiado morna, a disposição para o risco ainda que calculado desapareceu, os medos instalam-se, a noção de fragilidade e vulnerabilidade agiganta-se, a convicção de limitação também, o fantasma do perigo, do susto da incapacidade se instalar, fica premente, e premeia-nos com ansiedades e pânicos, injustificáveis muitas vezes !...
Dou por mim a ter cuidados redobrados, na rua, com as quedas ( parece-me sentença certa, uma fractura de perna, se cair ... Não faço por menos ... )
Dou por mim a verificar desgostosamente, como fica difícil amarinhar a um banco, p'ra acertar o relógio de parede, e a ter medo de subir...Até porque as pernas viraram chumbo ... com os diabos !...
Dou por mim a constatar como a cabeça parece perra, e a linguagem pouco oleada, no falar e no escrever ... eu, que sempre fui desembaraçada para o efeito ... E afianço que começo a ter sinais de Alzheimer incipiente ...
Dou por mim, a ver com desgosto, que objectivamente não vejo ... ou seja, se calhar tenho que me habituar a viver num "aquário" de água turva, porque contornos bem nítidos, olhar acutilante, preciso e límpido ... talvez nunca mais !...
Que ouvir ... bom, se olhar o mexer dos lábios do meu interlocutor, é mais fácil ... Senão ... os sons misturam-se todos, e ao meu tímpano poucos chegam definidos ...
Dou por mim, dei pela primeira vez este ano, na viagem que sozinha fiz recentemente para o estrangeiro, como habitualmente, a apavorar-me na eventualidade de lá poder adoecer, na inventada hipótese de um acidente, de um ferimento ( eu, que sempre achei com alguma inconsciência, é verdade, que não haveria de acontecer logo a mim, e que o isolamento e a distância não eram problema ... Afinal o mundo é logo ali, tudo ao virar da esquina !...
Dou por mim, em última análise, a evitar fazer exames médicos de rotina, porque ... receio o resultado, e mais o que "eles" dêem em inventar !... (rsrsrs)
Bolas ! Isto é velhice ? É degenerescência mental ? É estupidez mesmo ???...
Acho que é apenas mais um capítulo da velha guerra sem tréguas, travada entre mim e o avanço dos anos e da vida.
É a inaceitação da inevitabilidade da progressão inelutável do tempo ...
É a raiva de estimação contra o ciclo da existência, que me parece sem sentido, sem lógica, sem explicação e sem razão ...
É a sensação azeda de ser a tal peça de xadrês movida sem regras ( e sem que ninguém mas tenha ensinado, algum dia ) ...
De ser o tal actor largado no palco onde uma peça se desenrola, e a quem ninguém teve sequer a gentileza de explicar qual o enredo ... menos ainda se queria participar da mesma ...
De ser a marioneta mexida a cordéis, aleatoriamente, ao sabor dos dedos caprichosos de quem tenta dar-lhe vida ...
É a velha sensação, de que alguém prepotentemente goza, ou perdida ou indiferentemente, com os peõezitos por aqui largados ( nada muito importante, afinal ... ), mera carne para canhão lançada em cenário de guerra ... E que cada um invente, que se safe o melhor que possa ... que se "amanhe" dentro do contexto ... que descortine como sobreviver !...
E depois há os que sabem fazê-lo, e os que não, os pragmáticos e os que não, os que estrebucham e os que não, os que se importam, e os que se indiferentizam e seguem ... amodorradamente ... anestesiadamente ... apaticamente, sem grandes ondas, turbulências ou convulsões ... navegando à bolina ... acomodados que são !...
E os que não !!!...
É demasiado rocambolesco e de mau gosto tudo isto.
É um "nonsense" sem tamanho, um filme de humor negro de mau gosto, um sketche dos Monty Python em fim de carreira, que não consegue sequer, arrancar-me já, uma só derradeira gargalhada !!!...
Uma viagem é um sonho que sai do universo onírico, torna-se palpável, materializa-se, ganha substância ...
Ao contrário dos sonhos, a viagem tem o antes, o durante e o depois. Começa a programar-se, e com isso "descola" na nossa mente.
Enriquece-se em tudo aquilo que lhe adicionamos mentalmente, numa preparação meticulosa, desejadamente diversificada, intencionalmente multifacetada.
Transforma-se num sonho monitorizado, com asas que nos começam a crescer na alma.
Do alto do galho onde a sonhámos, atrevemo-nos a ensaiar voos, por espaços e horizontes, em direcção a sóis que se põem e nascem fulgurantes, em mapas desconhecidos ...
Temos connosco a expectativa do não conhecido, aureolada pela curiosidade, ânsia, vontade e liberdade sonhadas.
Até porque os espaços longínquos que nos espreitam, e nos fogem na realidade quotidiana, sempre se condimentam nas cores, nos sons, nos sabores, na luz, nos cheiros, nas gentes e quase sempre nos silêncios da interioridade que nos despertam, do intimismo p'ra onde nos conduzem ... porque nos emergem o melhor que possuímos ...
Para mim, são o regresso ao âmago, ao avesso do meu direito, são o retorno à purificação dos sentires embiocados, são o retomar da viagem uterina rumo a outras essências, outro chão e outra verdade ...
São reencontro comigo ... do que sou, mas não sou aqui ... São redescoberta do equilíbrio ... São partida p'ra novas chegadas, para o autêntico, o verdadeiro ... são mergulho no que importa ... finalmente !!!
E por isso escolho o verde, o mar, o sol, a lua, a areia e a rocha, pássaros e flores, vento e trovoadas ... escolho a brisa e os silêncios, a genuinidade das gentes, perfumada com as flores de acácias, com o aroma das especiarias e da terra molhada, impregnado na pele encharcada pelo aguaceiro torrencial ...
E não escolho o betão, nem as casas, nem os bairros, os fumos e os horizontes quebrados, o sol que se esconde, pedindo licença aos espaços exíguos libertados por entre as torres.
Não escolho museus, palácios, ruas, cacofonia alucinante de vozes e gritos sibilantes, que me agridem o coração.
Não escolho os destinos onde a mão do Homem trabalhou, sofisticou, enfeitou, artificializou ... não escolho os caminhos onde a sua pegada se afundou, não escolho os espaços que ele polui e destrói ...
Fujo das metrópoles, as grandes cidades não me movem, a sua laboriosa concepção, também não ... a sua arquitectura trabalhada e presumida, as maravilhas da tecnologia ou os "milagres" megalómanos do seu ressurgimento, menos ainda !...
E nunca me arrependo !!!...
Desta vez também é assim ...
Busco o paraíso e lamento não trazê-lo comigo, na volta ...
Porque as viagens, como os sonhos, também têm o seu despertar.
Como com eles, com alguns deles, também lamentamos que se esfumem no tempo, naquele clique injusto de apagar de luz, ao desligar-se o interruptor.
Como eles, alguns deles, foram janela aberta por algum tempo, num interlúdio ou intermezzo de vida, cujo sabor experimentado, desejaríamos perpetuar no nosso coração.
Foram uma nesga entreaberta na porta da monotonia do nosso quotidiano ...
Foram uma nesga de azul, no cinzento plúmbeo em que mergulha quase sempre a nossa realidade ...
Foram uma demão de tinta colorida, no opalino, desvanecido em cada aurora das nossas vidas !!!...
Ao que parece, Manuel Forjaz tinha mil coisas para fazer, por dia. Fazia listas exaustivas de actividades, programava a vida, a mil à hora ...
Deixei de "ter coisas para fazer" por dia, e acomodei-me a amodorrar-me no meu canto, a esperar o dia cair lá fora, a olhar o sol a descer nas nuvens ou no céu limpo, azul ou róseo, até tombar na linha que determina estar na hora de fechar as cortinas ...
Indiferentizei-me quase, com o passar das horas, num desperdício injusto e aterrador.
Insensibilizei-me, numa espécie de espera de vida a correr.
E como um doce requentado, fora de prazo, vou azedando aos poucos. Como uma maçã bichada, esquecida na cesta, vou apodrecendo aos poucos ... Como o atleta esgotado que atira a toalha ao tapete, desisto todos os dias um bocadinho ...
E não faz sentido, não é lógico, não é justo !...
Caracoleta que estou, vou morrer de preguiça de me mexer, me agilizar, me interessar, lutar, ou pelo menos esbracejar ... acordar ... viver !!!
E vivo no escuro, no lusco-fusco, na penumbra ... no crepúsculo interior.
E vivo de pescadinha de rabo na boca, em círculos concêntricos e herméticos, sobre si mesmos, sem porta de saída ...
Acordo, olho a paisagem lá fora, vejo o filme a passar, película igual todos os dias ... e não saio da plateia ... não abandono a sala ... nunca ...
Faltam-me razões. Razões de acordar, razões de rir, razões de sonhar, razões de querer e de crer, também.
Faltam-me forças para serrar as grades que me prendem por detrás dos jardins, que me enjaulam em gaiola de cansaços ...
Faltam-me motivos que justifiquem que eu espere ... a Páscoa, o Verão ... o Inverno outra vez ...
Faltam-me justificações para que me sobressalte, me surpreenda, me agite, me encante, me emocione ... Justificações para que chore ...
Chore ... choro de vontade, choro de avalanche que rebente diques, choro de excesso, choro de exagero ...
Porque sempre fui uma mulher de excessos. A minha alma não vive regada apenas ... só vive inundada.
Não vive morna ... só vive a queimar. Não vive de mais ou menos ... necessita de tudo. Tudo, até esgotar !...
Não consigo viver de dias pardos. Ou quero dias de escuridão absoluta, com borrasca demolidora por sobre a cabeça ... ou dias em que o sol me cegue os olhos.
Em que os azuis, os verdes e os prateados do mar, me ofusquem .
Dias, em que as cores das flores desabrochadas, ganhem às cores do arco-íris, porque ainda mais belas e variadas ...
Dias em que as borboletas acenam liberdade, em volteios azougados
Dias em que os cheiros, não cheirem só ... Mas me sufoquem de aromas entorpecentes ...
Dias de conversar com os pássaros, dias de adormecer no batuque dos tambores na savana de África, dias de me largar louca, com os cabelos empurrados pela brisa da tarde ...
Eu tenho urgência !
Urgência de ter mil coisas a fazer por dia, mil sonhos a sonhar por noite, mil palavras a dizer a mil ouvidos de escutar, de ter mãos para agarrar, braços para prender, boca para sugar ... de ter futuro para alcançar, de ter vida para viver ...
Urgência de renascer, urgência de trilho para andar, ar para respirar, praias para naufragar, montanhas para escalar ... todas as cores para pintar ... qualquer coisa ... qualquer coisa ... mil coisas ...
Na mata havia um casal de melros, uma borboleta branca, e uma única mimosa ...
Demorei a redescobri-la, e pensei para mim, que na devastação que por lá provocaram, ela também teria ido.
Mas não !
Verdade seja, que seria uma vergonha, uma mata, sem mimosas !...
Vi-a há alguns dias, porque as bolinhas amarelas, começaram a abrir e a tornarem-se novelinhos de algodão, fofinhos e cheirosos, dependurados pela ramagem. Faz de tudo para espreitar o sol, na clareira onde habita ...
As flores também deitaram o nariz de fora. São brancas, amarelas e lilazes.
As azedas, ora abrem os cálices às abelhas, se o sol der a sua graça, ora ficam espremidinhas e dormem, bem fechadas, se o dia acinzenta, e alguma chuva miudinha desce.
Atapetam tudo, e na companhia dos dentes de leão, dos pampilhos, das biscutelas, ou dos malmequeres silvestres, todos amarelos ( como são as primeiras flores que despertam no início das Primaveras ) ... dos folhados ( delicados bouquets brancos ), ou ainda das vincas ou erva donzela, azuis arroxeadas, decoram e perfumam aquilo por lá ...
E depois, há o silêncio.
Esse, não tem preço, porque é um bem em vias de extinção, com um valor inestimável ...
Gente ... gente não encontro.
E é uma paz ... porque acho que gente, estragaria todo o contexto !
Ando com pouca paciência para encontrar pessoas ...
Estou mais no registo do urso pardo, que vagueia pela floresta, sozinho, com todo o tempo do mundo, dia após dia, seguindo a determinação da sua natureza biológica, simplesmente.
E não parece infeliz, o urso pardo !...
"Infeliz" ... que engraçado !...
Só o ser humano conota os estados de espírito, as contrariedades, as frustrações, as ansiedades, as amarguras ... com felicidade, ou infelicidade.
Felicidade ou o seu contrário, essas coisas que não existem, já aqui defendi, e que não passam de uma tradução, em linguagem humana, do grau de insatisfação, de desequilíbrio, de desajuste, de desarmonia, que o Homem experimenta ...
E complica a droga da vida !...
Coloca a existência, permanentemente na corda bamba, no "tem-te não caias ", do equilibrista de circo ... sem rede por baixo !...
Tudo, porque o Homem tem miolos, dentro da caixa negra que lhe colocaram por entre as orelhas.
Miolos, que são os "complicadores" de serviço, maioritariamente ...
Depois, quando resolvem entrar em negociações com o quartel-general, que está bem no meio do peito, fica tudo lixado !
Há um equilíbrio de forças "desequilibradas", tipo guerra fria, porque aqueles dois centros de resolução, estão quase sempre de candeias às avessas, de costas voltadas ...
E há então uma degladiação de forças, na capacidade decisória. Há uma guerrilha constante, há guerra de emboscada, há golpes baixos, há toda uma panóplia de safadezas, que aqueles dois fazem um ao outro.
Parecem o governo e a oposição ...
Normalmente, se os miolos mostram um indicador de prudência, perante determinada circunstância , o coração manda as tropas p'ra frente, com uma inconsciência que só ele, de facto, exibe ...
Outras vezes, este, sabe perfeitamente quão devastadora será esta ou aquela decisão, mas os miolos ordenam, que custe o que custar, é por ali, o caminho !
E aí temos nós, o ser humano, nesta maré de recuos e avanços, que destrói, que desgasta ... que mata !...
Por isso, eu ando cansada de gente que nem eu !...
Gosto mais de bichos, de plantas, de marés, de chuva, de vento e de sol ...
Gosto mais de nuvens, que embora sempre em fuga, constroem castelinhos lindos, no firmamento ; pintam carneirinhos, em rebanhos de algodão pelos céus !...
Gosto mais da lua, que conversa comigo, e nunca me questiona, do sol que me alimenta os sonhos ... e das estrelas também, que como eu, fojem deste céu sem cor, e emigram para o deserto ... onde eu também acho que se está bem ...
Ah ... e de florestas ... de matas ...
Gosto da simplicidade, da harmonia, da paz e da alegria despreocupada e irreverente, da mata ... mesmo que só tenha um casal de melros, uma borboleta branca, e uma única mimosa !!!...
Daqui a pouco é Páscoa ... daqui a pouco é Verão, e depois ... daí a pouco é Natal, !
E pufft !.... Mais outro ano !...
A vertigem do tempo é qualquer coisa de loucos !...
Este tempo de Páscoa, vá-se lá saber porquê, chama-me ao Alentejo.
Não sei se é porque os campos verdejaram, e as flores silvestres os adornam despudoradamente ...
Não sei se é porque as cegonhas regressaram às suas antigas "casas", e as chaminés, os postes eléctricos, os locais altos e protegidos, ponteiam o céu com o branco da sua plumagem, encarrapitadas a desníveis ...
Não sei se é porque o sol ainda não castiga os campos, e apetece agarrá-lo todo, por inteiro, e prender a sua luz, que nesta altura é particularmente doce e luminosa, e com ela nos envolvermos e aquecermos por dentro ...
Não sei se é porque a brisa mansa que perpassa, traz em si todos os aromas, de tudo quanto é bravio, e se engalana de cores reinventadas e cheiros redescobertos ...
Não sei se é porque à tardinha, as andorinhas, em labuta incessante, rasam a planície, em volteios de "prima-dona", na busca de gravetos para os ninhos ...
Não sei se é porque as memórias passadas começam também a fervilhar, com a mesma pujança emocionante, com que os borbotos re-adornam os galhos das árvores adormecidas, e que num milagre, acordam ...
Não sei se é porque , a terra púbere, em pousio, castanha e ocre, se assoma de onde em onde ... E sobe e desce em amenas encostas, com ondulação espreguiçada, salpicada pelas vacas no pastoreio ... E estas, dormem e amodorram, enquanto a melopeia dos chocalhos se ouve ao longe, e ecoa na planura deserta ...
Não sei se é porque as badaladas dos sinos nos campanários dos vilarejos e aldeias, perdidas naquele fim sem fim, nos pacificam a alma, nos lavam o coração e nos purificam o ser ... com avé-marias dolentes, na fresca da tarde ... e no céu em crepúsculo, a "estrela do boeiro" manda recolher o gado ...
Não sei se é porque aquela terra sem horizontes ou limites, berço do sol ao dormir, me acena com a liberdade, a paz, e o embalo de um regaço de mãe ... permitindo o reencontro comigo mesma ...
Não sei se é porque aquele silêncio de interioridade, desperta a menina azougada e feliz que eu era ... desperta a moreninha das tranças, rabo de cavalo e joelhos esfolados ... que me fugiu ...
Não sei se é porque os meus pais, os pais dos meus pais, os meus amigos, e os meus "todos" ( e todos eram muitos, ainda assim, naqueles anos idos ... ) estão por lá, vão sempre estar por lá !!!...
Não sei se é porque os meus "sítios", por mais que os disfarcem, os mudem, os componham ( dizem eles ) ... estão iguaizinhos, estão intocados, inalterados, com a força do mesmo sangue a correr-lhes nas veias ... porque eu, afinal, sempre continuei lá ...
Não sei se é porque, de quando em vez, os sonetos de Florbela , na minha cabeceira adormecidos, saltam e povoam os meus sonhos ...
E ela vem contar-me histórias nossas, da charneca em flor que eu sei, das paixões e das mágoas ... que eu também sei ... porque ambas somos mulheres ...
Não sei se por alguma destas razões ... Não sei se por todas elas ...
Sei lá !!!...
No Porto, as magnólias já voltaram ... lê-se em relatos locais. Anunciam a Primavera, dizem .
Primeiro, as brancas ... depois as rosa, mais claras ou mais intensas, florescem, quando os primeiros raios de sol, de um tempo que precisa convencer, se anunciam.
O Inverno ainda não abdicou por completo, percebe-se nas entrelinhas das neblinas, ou das nuvens esparsas, que de repente se impõem, num céu anteriormente azul.
Mas já não tem a convincência de há semanas atrás.
Também, este ano, brincou e judiou, impiedoso, mostrando bem quem mandava por aqui ...
O que é facto, é que o ameno das temperaturas já nos envolve, e o sol irreverente, leva-nos a deitar a cabeça de fora como os caracóis, dos muros de pedra sobre pedra, lá nas encostas.
Não me ocorre, que em Lisboa haja avenidas, adornadas de magnólias.
Não me ocorre, que os seus cálices, abertos ao céu, parecendo esperar que alguém poderoso, neles pingue um qualquer licor afrodisíaco, por aqui ornem praças ou ruas.
Em Lisboa, temos os jacarandás, que são igualmente espectaculares, e que formam abóbadas de lágrimas roxas. Apenas, noutra época do ano ...
As suas flores têm também uma beleza ímpar, mas creio que são desprovidas de aroma, ao contrário das magnólias que nos inebriam pela beleza, cheiro e aristocracia ... Sim, porque a majestade das magnólias, encerra uma sobranceria de distinção ... confere-lhe uma categoria de flor incomum !
Tive uma única magnólia, na minha vida, num jardim do passado.
E ainda assim, não passou de uma incipiente juventude, enquanto eu pude admirá-la . Três, quatro cálices desabrochados ... já era uma festa.
Era rosa, entre o rosa e o lilás. Delicada !!!...
Hoje, não sei se essa magnólia alargou braços, ganhou corpo, se tornou mulher parideira de cálices apontando o firmamento ...
Não sei ... não mais a vi !
Se eu tivesse um pedaço de campo, neste Março promitente de Primavera, hoje perder-me-ia pelos seus carreiros e veredas ; saltitaria de pedra em pedra, saborearia a doçura deste sol pouco ousado, dançaria nesta brisa, para cá e para lá ... ou só para lá, porque ela transporta-nos mais e mais, além.
Recuar não é próprio desta aragem. Recuar tem a ver com os ventos de temporal, redemoinhantes, dos Invernos agrestes, que sempre esbarram connosco.
E deixaria que os cheiros das verduras e flores silvestres, que pintalgam a paisagem, me envolvessem e me acariciassem ... solta, solta por aí, como as aves que também são livres, e não carecem de autorização para chamar o mundo, de seu !
Mas não !
Estou e continuo no betão. Tenho como paisagem, colmeias de morte, de solidão e indiferença.
Prédios com olhos que não riem. Varandas, que nem uma flor geram. Pássaros que não poisam, porque não há onde. Nesgas de azul, onde o horizonte ainda permite retalhos de sol, em fuga pelos meandros das sombras agigantadas, que os "monstros" que desafiam os céus, projectam !
Riachos que só gorgolejam nos meus ouvidos.
Zumbidos de abelhas, que apenas povoam a minha imaginação e a minha vontade indomada, de sonhadora inveterada ...
Que saudades duma cancela ao fundo do caminho, por onde o roseiral voluntarioso, assomasse !...
Que saudades de deixar o cabelo em desalinho !... Que saudades de lançar um xaile pelas costas, de aninhar no seio, a primeira flor que a beira da estrada me oferecesse ... e poder ir por aí, com os pés descalços na erva fresca ... sem rumo e sem destino !!!...
Que saudades da liberdade no espírito, da harmonia e da paz no coração ... da plenitude bebida na simplicidade das coisas !...
O tempo virou de vez. O sol faz negaças no meio de nuvens persistentes, e não consegue ser convincente, até porque a temperatura baixou drasticamente. Afinal, já neva na Estrela ...
As castanhas já se assam nas esquinas das ruas, e o seu calorzinho, nos cartuchos de jornal, não só nos aquece as mãos, como também nos aquece a alma, já que aqui na cidade, não temos o privilégio de sentir o aconchegante cheirinho das lareiras acesas, que os meios rurais nos oferecem, e que tão gratificante é ao coração.
Adoro uma lareira.
Adoro passar tempos perdidos, olhando apenas o bruxulear das chamas, cutucando as brasas, até que a última se extinga.
E não deixa de ser engraçado, que essa seja a recordação mais grata, que tenho da Beira, de há muitos anos atrás, na casa que então era de família.
O frio gélido desta época do ano, beirando o Natal, cá fora, o calor confortante do lume, aceso desde manhã, e que ardia até toda a gente se recolher, uma sala de pedra e madeira, na meia obscuridade de um só candeeiro de mesa, aceso, e um silêncio e um recolhimento tão intimistas, tão doces, tão pacificadores !...
E ali ficava eu ... Eu e eu, que foi a pessoa com quem sempre tive encontro marcado, já então ...
E punha mais um tronco, e revirava os que já ardiam, e por fim, espalhava a cinza, para que as últimas brasas acesas, dessem o derradeiro calor da noite.
Às vezes só isso. Nada mais ...
Às vezes não lia, não via televisão, não ouvia música, que não a do crepitar da lenha na fogueira ... às vezes, muitas vezes, apenas pensava, pensava muito, sentindo claramente uma incompletude de vida, de sonhos cortados a meio, um vazio de alma, uma ausência de direcção, de rumo, como barco de leme quebrado, e velas sem vento ...
Não sei se ali delineei conscientemente, o que viria a ser a minha vida anos mais tarde.
Não sei se ali percebi, que um dia diria adeus àquela sala de madeira e pedra, de móveis antigos, de louça de outras gerações, de relógio de pé alto e pêndulo, que nunca deu horas, de peças escolhidas por mim, uma a uma, ao longo dos tempos.
Não sei sequer se sonhei todo o percurso que viria a ser a minha vida, as curvas e contracurvas, os caminhos de saídas estreitas e difíceis de encontrar, os becos, as veredas que pareciam não ter horizonte lá ao fundo, ou também os momentos de paz junto ao mar, de descanso junto de uma fonte, de sombra sob uma copa frondosa.
Não sonhei ... seguramente. Não poderia !...
Aquela sala era o coração daquela casa, e aquela lareira, o pulsar desse coração.
Era uma réplica muito longínqua, da que existira em casa dos meus avós, na minha meninice.
Essa, então, como todas as lareiras a sério no Alentejo, era no chão, mesmo, na tijoleira de barro cozido, e ocupava o fundo da enorme cozinha, de parede a parede.
Lembro-me que os madeiros com que o meu avô a acendia, vinham a rebolar pelo quintal fora, porque ninguém podia com eles.
A casa de pedra e madeira já não é minha, mas lá, ficou enterrado para sempre, um pedaço do meu coração.
Ele está em cada peça sobre os móveis, em cada braçada de flores do campo, secas, nos jarros de loiça gatados, em cada fotografia das minhas filhas, quando crianças, nas molduras espalhadas ... em cada silêncio, em cada sombra, ou até em cada rajada do vento cá fora, soprando desabrido, do lado do rio.
Nada disso me pode ser sonegado, mesmo que nada já exista como eu deixei naquele dia, em que não sabia sequer, que estava a deixar ...
Porque tudo isso eu amei e tactuei na minha mente, porque tudo isso eu sonhei, e o sonho é propriedade do Homem. Nele, ninguém interfere, ele, ninguém apaga, ninguém destrói ... porque é seu, só seu !!!...
Suponho que não gostaria de lá voltar, porque ninguém, afinal, faz voltar o tempo !
Há filmes que vemos uma só vez na vida, e que vamos recordar sempre, longinquamente, como algo doce que nos marcou, de que não esqueceremos sequer, pormenores.
Apenas, são imagens a esbaterem-se, a fugirem-nos da mente, à medida que a Vida flui, à medida que o tempo vai passando a borracha sobre elas, e depois fica assim ... uma sala obscurecida, uma luz difusa, uma lareira a extinguir-se, e um silêncio quente a embalar a última cena ...
Anamar
A vida é um incêndio, nela dançamos salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam, cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida, na própria luz consumida...
A alegria a dois, multiplica-se. A tristeza a dois, divide-se ...
Há frases e pensamentos que se esgotam em si mesmos. Este é um deles. Não há nada que se acrescente, ou que se retire, a esta matemática da Vida !
É desnecessário, está tudo dito, todos sabemos que é assim !
O Homem é um animal gregário, e ninguém pode ser feliz sozinho.
As alegrias só são plenas se forem partilhadas com cumplicidade, e as tristezas só se nos tornam mais leves, se houver uns braços que nos aconcheguem, ao suportá-las .
Até os seres mais solitários, aqueles que endureceram, muitas vezes mercê dos atropelos da vida, se rendem, ultrapassadas que sejam as "firewalls" dos afectos, como diz um amigo meu.
E quantas vezes redescobrem capacidades afectivas em que não acreditavam, aptidão para o reviver de emoções, que por esquecidas já, julgavam inexistentes, e de que se julgavam imunizados.
E a vida vai passando, e vamo-nos degladiando sem justificação frequentemente, vamo-nos desgastando por "nadas" que se tornam "tudos" determinantes e decisivos ... vamo-nos cansando, amargurando, esquecendo o sorriso, esquecendo o quão reconfortante é ao coração, um simples silêncio frente ao mar, enquanto o sol desce lá longe e nos abraça ... vamos esquecendo o sabor dos aromas da serra, o cheiro da lareira acesa, da terra molhada, ou a lenga-lenga do mar açoitando os rochedos ...
Vamos mesmo esquecendo, como hoje, S.Martinho, meia dúzia de castanhas e um copo de água-pé, poderiam constituir um magusto dos deuses, se o partilhássemos, se o saboreássemos juntos ...
Em suma ... vamos perdendo a vida, vamo-la deixando escoar por entre os dedos, vamos abafando as ilusões, até que um dia já não temos idade ou saúde para as construir, e até os sonhos há muito nos terão deixado ...
Vamos desperdiçando os tempos, e nunca percebemos que " o mal de quem apaga as estrelas, é não lembrar de que não é com candeias que se ilumina a Vida " !!!...
O sol resolveu aparecer. Nunca o S.Martinho nos falta ... e estamos quase lá.
Acordei, relancei os ohos pelo quarto. Prateleiras plenas de livros, gavetas plenas de coisas. As que prestam e as que já não. As que ainda se justificam, e as que nem por isso.
Lembrei a arrecadação, transformada em depósito de antiguidades. Antiguidades no mau sentido.
Desde uma arca cheia de papéis e cadernos, com os primeiros rabiscos das minhas filhas, os primeiros desenhos nos colégios, em classes infantis remotas, a livros escolares ultrapassados, a testes realizados por elas e creio mesmo que ainda por mim, quando aluna ( !!! ) ... tudo lá está com uma intenção meritória, em que acreditei piamente : passar calmas tardes, a rever registo por registo, redacção por redacção, desenho por desenho ... ( dos tempos em que as pessoas eram maiores que as casas e as árvores, os sóis tinham olhos e boca, e junto às figuras se escrevia "mamã" e "papá", como legenda do desenhado ... )
As gaiolas ferrugentas, dos canários e periquitos, da época em que pretendi transformar uma varanda, em viveiro romântico de passarinhos, de todas as cores imaginárias, para que com os trinados e chilreios, me fizessem sonhar que o meu sétimo andar era um qualquer recanto de uma mata frondosa, onde talvez eu gostasse de viver ... E para que as minhas filhas assistissem à nidificação, acasalamento e nascimento de mais canários e mais periquitos, e aprendessem a amar e a respeitar a Natureza, deslumbrando-se com os seus ciclos ... também lá estão ... sem préstimo !
A mala de porão, cheia até ao topo, de bonecos e peluches, que lhes atravessaram a infância, as loicinhas e os pin-pons, os legos, os alfabetos e os cubos com letras e números, motivadores das primeiras palavras e contas, que eu jurara abrir um dia, para os netos que viessem ...
E esses netos, já têm todos, de seis anos para cima, e o recheio da mala continua adormecido e inviolado ...
Também lá estão as colecções de borrachinhas, com as mais variadas e engraçadas formas, as cassetes de música dos doze, treze anos, cujos intérpretes já se perderam no tempo, não falando dos vinis de trinta e três rotações, com as canções de roda, da escolinha, que não voltaram a animar o gira-discos, também ele já ultrapassado ...
Os VHS de viagens, registando momentos felizes, eventos familiares, do tempo em que ainda havia família no sentido estrito do termo, testemunhos de risos e gargalhadas, mas também de "àpartes", que hoje nos fazem sorrir ...
Rostos que ainda existem, bem diferentes, bem marcados pela vida, bem menos iluminados pela esperança ... e rostos que já partiram, já nos deixaram, e que só estão num lugarzinho dentro do peito de cada um de nós ... também repousam por aqui, através dos anos ...
Enfim, não pararia de lembrar, de revisionar todo o espólio insano acumulado, guardado religiosamente, por isto e por aquilo, de que não conseguimos separar-nos afectivamente, e cujo valor se prende quase só afinal, a um desejo louco e inconsciente, de não soltarmos o passado, de podermos lá regressar a qualquer preço, de fazermos rodar o tempo e rodarmos com ele ...
Prende-se quase só, ao saudosismo efémero da juventude que ficou ... não nos iludamos !!!...
Resolvi levantar-me.
Arrepiei-me ao pensar, que quando um dia eu partir também, alguém terá mesmo de desprender tudo isto, soltar definitivamente todo este repositório de memórias.
Mas talvez seja então mais fácil, porque já serão memórias mais distantes, com menor significância ou valor ...
Ele há coisas !...
Que raio de forma enviesada de começar o dia !!!...
E ali estava eu, como em menina, deliciada e lambareira, a comer uma Bola de Berlim ...
Há quantos anos eu deixara de as saborear ?!
Recordo que em Albufeira, sete, oito anos, tempos de praia em férias sem fim ( parecia ... nessa altura ), era repasto de areias.
Eram trazidas nos cestos de verga com duas tampas, revestidos por toalhas alvas, enfiados nos braços da vendedeira, a sra. Júlia, descalça e também ela vestida de branco, que calcorreava a praia de ponta a ponta, com os pés enfrentando a areia escaldante.
A "Bola de Berlim", a batata frita e "olha ó Olá" ... ecoavam, e eram pregões obrigatórios, das praias de então ... ah ... é verdade ... e a "Língua da sogra" ou "A bolacha amaricana", também ...
Ainda não havia sogras, ainda não havia angústias, ainda não havia a gordura, a celulite ... o dia de amanhã !...
Era o tempo, em que debaixo do toldo se jogava ao prego e ao anel, era o tempo do balde de lata vermelho com bonecos, da pá, do ancinho, e das forminhas para os bolinhos de areia, em folha, também !
Era o tempo das construções sonhadas e mágicas, dos castelos encantados, decorados com algas e conchas da maré baixa.
Castelos com fossos à volta, com água de verdade e pontes, e com bandeirinha na torre de menagem ...
Era o tempo dos grandes mergulhos, e da bóia obrigatória, no banho.
Tive uma, amarela, com uma cabeça de pato ... lembro-me bem !
E "maillot" ... usava-se, e dizia-se, "maillot" ... O biquini ainda não existia.
Os meus, eram sempre azuis. A minha mãe devia gostar dessa cor.
E ela, bom, ela não vestia fato de banho. Ela usava vestido ou saia, e subia-os, pudicamente, quando ia vigiar-me à beira-mar, e aproveitava para molhar os pés.
Eu tinha um chapéu de palha amarelo, como o dos chinezinhos, e não havia ordem de o tirar da cabeça, por razão nenhuma, não fosse o sol molestar-me.
Ia-se para a praia cedinho. Vinha almoçar-se a casa, depois do que eu deveria fazer sesta obrigatória.
Pelas cinco da tarde, regressava-se à praia, para completar o dia.
As senhoras faziam rendas, e trocavam entre si, segredos e amostras das mesmas ...
A garotada brincava em bandos ... e era feliz !!!
Bom, e ali estava eu !
Agora, com o mar em fundo, e a praia lá em baixo, aos pés, no fundo da arriba.
Não estava em Albufeira, não !
E também, se estivesse, já lá não estava aquele marzão azul, aquela areia, aquele sol ...
Os meus castelos, já teriam ido, há muito, levados pelas ondas e pelo vento, tal como o foi também, aquela que eu era, arrastada no vórtice do tempo !
A "barrigudinha" do maillot azul, chapéu amarelo na cabeça, e balde de lata na mão, já não existe há séculos ... ela, e os seus sonhos de menina !
Outra vendedeira, no lugar da sra. Júlia, talvez percorra o areal, mais ou menos da mesma forma, com os pregões imortais, e transversais às gerações.
A criançada, já não joga ao prego nem ao anel. Passa demasiadas horas, a gastar os olhos, nos jogos electrónicos, nos IPads, tablets, e todas essas maravilhas da tecnologia, cujos nomes e variedade não conheço ...
As construções na areia, já não têm o mesmo virtuosismo.
São os pais que as fazem, para os mais pequeninos, sem suspeitarem, que na verdade são eles que procuram o seu passado, outra vez, nas areias da rebentação ...
E no alto da falésia, sentada numa pedra, das muitas que por ali se semeiam a esmo, com o mato rasteiro e as flores bravias à minha volta, com a brisa a desalinhar-me o cabelo, e as gaivotas grasnindo e rasando o monte ... com o olhar perdido na distância e no tempo que correu ... deliciada e lambareira ... exactamente como então, ali estava eu, a comer outra vez, uma Bola de Berlim !!!...
Não foi uma chegada, não foi uma visita, não foi um fim de semana ... foi simplesmente um "regresso a casa" ...
O Alentejo vestia-se de castanhos, ocres e verde pardo dos sobreiros, das oliveiras e azinheiras.
Os tons mimosos e verdejantes da Primavera tenra, já foram, os pastos secaram, as flores murcharam.
A charneca não está mais em flor, nesta época do ano. Pintou-se como um quadro de terra queimada, e a meio do dia, é a boca de uma fornalha, com o sol a pino sobre o montado.
As papoilas, as macelas, os malmequeres, e as flores roxas, que decoravam profusamente a paisagem meses atrás, secaram.
Nos campos, apenas o restolho que ficou, e as plantas resistentes, como a esteva, as giestas e a urze, agora não floridas, persistem e resistem ao braseiro ...
A passarada recolhe-se, para rasar os campos, apenas pela fresca da tarde.
As andorinhas, exibem então, bailados de prima-dona, de felicidade e paz. Acompanham-me desde menina ... Estão comigo desde os beirais da casa dos meus avós !
Até as cegonhas já foram. Os postes de alta tensão estão mais sós, com os ninhos a desníveis, abandonados até à próxima época de nidificação e acasalamento.
Demandaram África, nas suas deambulações sazonais.
O gado no campo, procura as sombras.
As vacas, e os rebanhos de ovelhas, sobretudo, fazem a sesta, e só regressam ao pastoreio, ao fim do dia, e pela fresca da manhã.
Nessas alturas, o Alentejo tem os sons todos da vida. Os chocalhos ecoam planície fora, perto e longe, as aves chilreiam e enchem os céus de trinados. As abelhas, os zângãos, as cigarras ensurdecedoras e os grilos, compõem sinfonias e lengas-lengas monótonas e imparáveis ...
A brisa corre então, mansa e abençoada, e resmalha nas folhas da vegetação perene e resistente.
Ao longe, às vezes, ouve-se um sino que não repica ... apenas lança no ar, badaladas dolentes, espaçadas ... sonolentas ...
Nunca se sabe se dá horas, se chama a finados, se lembra melancolicamente, apenas, que o Alentejo ainda vive, estando embora amodorrado ...
Porque o silêncio, aquele silêncio audível que nos trespassa até à alma ... o cheiro, aquele cheiro adocicado que sobe dos campos e nos enche até ao âmago ... a cor, aquela uniformidade da cor da terra, em ondulações de amarelos, castanhos e fogo, entranha-se-nos na pele e cola-se ... cola-se para todo o sempre, por debaixo dela !...
A planície, cujo único limite é o céu, que tremeluz nas ondas de calor que se levantam do chão, lá na linha do horizonte, a perder de vista ... essa, é a cama que nos foi destinada !...
E a pulsação da terra, o seu apelo sequioso, entre vida e morte, tem o frémito de um corpo fecundo de mulher, é o útero de paixões-ímpetos ... mas é sempre força de renascimento e de Vida !...
"Regressar a casa", volver às raízes, pisar o chão, olhar o sem-fim do firmamento ( que o sol alaranja e incendeia quando se põe, e que as estrelas pintam, quando pintalgam o breu das noites, sem luzes que perturbem ) ...beber o silêncio da paz que me invadiu a alma ... deixar que o calor do monte me percorresse as veias, e me aquecesse o coração ... falar com as pedras, e dançar com a brisa da tarde ... foi alguma coisa que me revitalizou, me invadiu, me impregnou, me transcendeu ...
... e me transportou, numa viagem onírica, até àquela menina das tranças, trigueira e ladina, que há já tanto tempo ficou lá para trás !!!...
Do Alentejo, voltei ... Mas já tenho saudades !!!...
Quando a maré desce, os pescadores descem às rochas.
Indistintamente, homens e mulheres catam no que o mar deixou à vista, o sustento para o dia, o peixe que arpoam e vendem, e as algas que secam e vendem para a Índia.
É assim Zanzibar ... é assim, África ...
Debruçam-se sobre o mar rasteiro, como as mondadeiras no meu Alentejo se debruçam sobre os regos das sementeiras, na altura das mondas.
Também aqui por cima, o sol é abrasador.
Também aqui, as mulheres se embiocam nos panos típicos dos seus trajes, em explosão de cor .
Também aqui protegem o rosto, como lá, nos campos de solidão.
Aqui, também os areais estão sós, e o mar não é um mar, é um lago de águas sonolentas, de todos os turquesas, azuis, verdes e prateados ... que dorme, como a dolência desta gente, que vive acocorada nas soleiras das portas, sob as copas das árvores, na beira das estradas ... onde haja uma nesga de sombra ... a qualquer hora !...
Dir-se-ia que África não vive, "modorra" ensonada, não esperando nada ... simplesmente !...