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domingo, 11 de fevereiro de 2018

" PORQUE OS PENSAMENTOS TAMBÉM SÃO COMO AS CEREJAS ... "





Uma  tarde cinzenta  de um  Domingo  de  Carnaval  meio  mascarado  de  quarta feira  de  cinzas ...
A minha música que embala, o meu computador que me dá voz, o meu silêncio que pacifica, o meu quarto com esta janela sobranceira ao casario, Sintra que continua lá, lá por detrás daquilo tudo que já não alcanço daqui, uma que outra gaivota dispersa em céus que não são bem os seus ... enfim, uma realidade tão doce, palco da minha vida, desenhado ao meu jeito há quase década e meia, preenche gratificantemente a minha tarde.

Não sei se seria fácil para alguém que não eu, perceber como esta interioridade me equilibra, me aninha, me acarinha o coração, e como este ninho protector me faz sentir tão segura, tão defendida da adversidade com que a vida, em frequência, nos presenteia.
É um porto seguro, é um cais de ancoradouro, é uma estação de chegada ...
Os gatos dormem no calor do radiador aos meus pés.  Também eles fazem parte da moldura que me rodeia .

Inevitavelmente penso na minha vida.  Na que detenho actualmente, na que já atravessei, na que terei adiante, sabe-se lá até quando ...

A que me é oferecida por cada manhã em que acordo, viva... e que aprendi por isso a amar e a valorizar ... começou a fazer-me finalmente o sentido de que talvez nunca tivesse desconfiado, ou de que andasse injustamente distraída.
Comecei a senti-la como um presente de laço e fita .
Comecei a olhá-la como uma guloseima de dia de festa.
Comecei a aprender a usufruí-la, sorvê-la  como refresco doce, disponível a atleta em meta de chegada.
Comecei a degustá-la como aquele pratinho de farófias que a mãe nos punha na mesa ... iguaria perecível, quando a última colherada esvaziasse a taça ...
Tudo isto, toda esta atenção mais desperta à sorte que me é disponibilizada, adveio da modelagem doída, operada no meu coração,  adveio do milagre operado na minha alma, pelos tempos adversos, dolorosos e violentos que atravesso, face à degradação irreversível e sem volta, da minha mãe, e tudo o mais que rodeia esta situação.  Face ao anúncio iminente da sua partida, e talvez por isso eu poder perceber, como ela encheu a sua vida, de uma forma simples, singularmente alegre e feliz, com bouquets de pequenas coisas.  Perceber como ela sempre deu o justo valor ao que foi o passar por aqui, sem exigências, a dividir-se com todos os que amou. E amou muito ... todos.
Perceber que ela ainda não partiu, simplesmente porque ainda não o quis.
Porque para ela, a vida sempre foi muito ... sempre foi tudo.

Aprende-se com o sofrimento.  Cresce-se nas vicissitudes. Amadurece-se na dor.

Por tudo isso, duramente aprendido, não só me posiciono com mais positividade e relativismo face ao dia a dia, como posso agora olhar o passado com mais bonomia, aceitação, benevolência e tolerância.
E  gratidão, sem dúvida.
Por tudo isso, em momentos de reflexão e interioridade, como estes, exercito a paz com a vida que vivi, com humildade e sem exigências,  pratico uma mentalização de aceitação e alegria com o que conheci, quem conheci, percebo a sorte e a riqueza que tive, porque a vida se me coloriu generosamente, e afinal me abençoou ....
E  procurarei não esquecer nunca, que  sem dias de chuva não haveria arco-íris !...

Sobre a estrada que ainda terei que percorrer, acredito na sua mansidão e sombra ...
Acredito que o mar estará "flat", que não haverá grandes tropeços no caminho, que haverá pássaros e sonhos azuis ... porque acredito que a existência não poderá ser um castigo, e que a hora da reconciliação sempre chega !...

Anamar

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

" E A MAIS NÃO SEREMOS OBRIGADOS ..."


Nesta tarde mansa e ensolarada, com um sol tímido a espreitar-nos, neste Janeiro frescote, resolvi meditar um pouco, aproveitando o silêncio e a serenidade que baixaram por aqui.

Desde sempre que a minha maneira de ser, introspectiva, exigente, perfeccionista e por isso severa, me coloca sem dó nem piedade, nas linhas da frente das batalhas com que a existência não me tem poupado.
Não sou uma pessoa optimista por natureza, sempre vejo o copo mais vazio que cheio, sempre desvalorizo além da conta aquilo que meritoriamente talvez me fosse devido.
E porque sou honesta comigo mesma, antes de o ser com os outros ... e porque me exijo sem apelo, o alcance de uma fasquia que talvez nem me fosse exigível ... guerreio, brigo, colido  ... e quase sempre saio injustamente perdedora nas análises que faço sobre mim própria.
Sempre me acho mais responsável por isto ou aquilo, que o razoável ... sempre me acho mais culpada por isto ou aquilo que o racionalmente aponta ... sempre me penalizo por não ter feito isto ou aquilo que se calhar nem me seria devido.

Contudo, desde os anos em que semanalmente dispunha de apoio psicoterapêutico, que fui orientada no sentido de reciclar estas posturas, no sentido de ser mais imparcial, isenta e justa com a pessoa que eu sou ... em suma, de ME repensar..
Filha única que fui, de pais centrados exclusiva e doentiamente em mim, sempre me foi exigido o máximo, e não o aceitável  Sempre fui confrontada com o ideal e não com a realidade possível ao meu alcance.  Sempre fui cotejada desfavoravelmente com os que me rodeavam ...
Tudo isso, frequentemente me deixava um profundo gosto amargo de insatisfação, uma infelicidade, uma insegurança  e uma culpa desgostosa.

Mas enfim ... a vida prosseguiu.
Os anos trazem maturidade, distanciamento, aprendizagem ... calo, "endurance" face às intempéries.
Tudo isso tem custos, contudo.  A modelagem de uma personalidade não é pacífica, o olhar sobre a vida e as pessoas, é quase sempre de defesa e de difícil exposição.
A carapaça grudada não despega fácil. O sentido de "vigília" e guarda, não facilita.
Ganha-se dureza, resistência à saída da zona de conforto que nos aninha e pacifica, inércia perante reinícios, alterações de fundo, novos figurinos.

Assim, porque a  frescura  da  idade  já  foi, e  porque a  saúde  e  o cansaço  também  começam  a  dar sinais, neste momento o meu trabalho pessoal, prende-se numa luta comigo mesma sobre a relativização dos acontecimentos que me povoam a vida, prende-se numa reaprendizagem de vida mais saudável, menos penalizante e destruidora, prende-se numa busca de mais paz, a paz que advém de sabermos que talvez tenhamos dado o nosso melhor, ou pelo menos tudo o que sabíamos e de que podíamos dispor para superar cada dificuldade.
Dessa forma, por cada noite, ela será seguramente  de sono tranquilo e não de vigília, porque certamente a consciência, de nada poderá acusar-nos ...

... já que a mais não seremos obrigados !...

Anamar

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

" UM DIA DE CHUVA ... "






O dia amanheceu finalmente em "modo" inverno, depois de ontem nos ter sorrido primaveril, diáfano, de céu transparente e azul, sem que sequer um fiapo de algodão o pintalgasse ...
Hoje o firmamento carregou-se de nuvens dantescas, ameaçadoras e choronas, que ainda não pararam de verter água cá para baixo.  Felizmente.  Obviamente de forma feliz, para nos amenizar a preocupante e ameaçadora seca severa que se estendeu temporalmente além da conta, de uma forma contra-natura para a época.
O frio também fez jus à estação que atravessamos.  E eu diria que até sabe bem ...

No meu posto habitual, que é como quem diz, o meu "miradouro privado", frente ao tal casario inexpressivo  que se estende aos limites do horizonte ( permitindo que os meus devaneios nunca sufoquem por aqui ) ... olho as nuvens no alto, que se deslocam ao sabor da aragem,  vejo  algumas gaivotas  intrépidas  que  ousam  planar  desfrutando  a  intempérie ... ( ou não fossem elas pássaros de falésias, de mar encapelado e de salpicos de espuma endiabrada nos areais ), assomo por instantes breves, tentando ver se o meu Farrusco se atreve, no terraço lá de baixo ... constato uma outra vez  que o meu plátano atrevido  se desnuda mais e mais, despudoradamente ao sabor do vento que o sacode e lhe eleva as folhas mortas ao nível do meu sétimo andar, e penso ...

Penso como na verdade a vida é interessante, curiosa, desafiadora, estimulante !...

Reli  ao longo desta tarde, alguns posts  meus, com tempo de escritos.  Remontam a alguns anos atrás.
Revisitei-me assim, à distância que o tempo permite.
Re-olhei-me com a isenção e o desapaixonamento possíveis, de alguém que se analisa cirurgicamente. A que eu era, a que eu fui,  como o fui, por que o fui.  De fora para dentro, sem complacência ou pieguice.
Reflecti, maturei pensamentos, auscultei posturas.  Esgravatei emoções,  mexi em sonhos que me povoaram, percebi dores e sofrimentos ... pacificamente ... e não me penalizei por isso.
Convivi com a vida real.  Com as escolhas reais.  Assentei e firmei os pés bem no chão, por forma a catapultar-me ao futuro, com esperança e confiança.
Porque o futuro é afinal o desconhecido que nos espera, a partir do presente que vivermos.  Há  por isso que valorizar cada momento, enfrentar corajosamente cada atribulação, deixarmo-nos surpreender  com os desafios, acreditar que a vida é como as marés ... depois da maré baixa, sempre uma preia-mar chegará ao destino e que, tal como este tempo atmosférico de sol radioso seguido de um abençoado dia de borrasca ...

   " um  dia  de  chuva  é  tão  belo  como  um dia de sol ;  ambos existem ... cada um como é ! "

Anamar

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

" E A RODA RODOU DE NOVO ... "





Época estranha esta !
Mesmo os mais resistentes, sempre se deixam envolver e "mexer", por um clima global de sentimentos, emoções, reflexões, balanços contraditórios.

Todos sabemos racionalmente que o 31 de Dezembro é igual ao 1 de Janeiro.
Todos sabemos que a escorrência do tempo prossegue segundo a segundo, com a inevitabilidade do que nunca é reversível.   Mas de repente, porque o Homem criou fronteiras, balizas, bitolas, achamos que pulámos de uma qualquer margem para outra, promissora  margem de valer a pena, miraculosamente diferente e seguramente melhor !
Olhamos para o Novo Ano como auspicioso, como um paraíso que nos pisca o olho, a nós que ainda estamos num ano já rançoso, já gasto, que já deu o que tinha a dar ...
E agora  sim, os milagres da mudança, da reconstrução, do aperfeiçoamento e consequentemente da felicidade ... aquela que nos foi escorregando das mãos nos 365 dias transactos ... aquela que nos espreitava e fugia  num esconde-esconde sádico de jogo de promessa ... vão propiciar-nos finalmente a almejada existência que sempre acreditámos merecer ...
E melhor ... numa espécie de passe de mágica, na proporção das Boas Festas que fomos pulverizando profusamente, com o coração cheio de bonomia e generosidade, por amigos, conhecidos e até desconhecidos ...

Só que esse "balão" insuflado de ingenuidade esperançosa, de boa vontade a rodos, de solidariedade magnânima, irá inevitavelmente esvaziando com o transcurso das horas, dos dias, dos meses ... até que outra passagem recarregue as expectativas, os sonhos, a fé e as vontades.
Até que outro rio de esperança se reabra à nossa frente !
Até que volte a ser Dezembro de novo, e a "roda" complete a caminhada !...

Agora ... bem, agora que o Ano está fresquinho de recém-chegado, criança de nascido, vemos, revemos, rebobinamos as nossas histórias.  As histórias das vidas,  porque todas as vidas sempre são enredos mais ou menos felizes de histórias ... as nossas !
Só nós as conhecemos no recôndito do privado.  Só nós lhes conhecemos os cheiros, as cores, os risos e as lágrimas.  Só nós lhes podemos dar nomes e reconhecer as personagens.  Ninguém mais !
E temos que as abordar sem severidade, acredito.  Temos que as encarar com tolerância, carinho e aceitação. Porque foram seguramente as que conseguimos escrever, como conseguimos escrever, com a convicção de que cumpríamos o designado.

E depois, sim ... pacificados com a nossa alma e de boas relações com o nosso coração, podemos então calmamente, fazer  uma "arrumação de casa", uma "faxina" de decisões, um "cardápio" de sonhos ...
Mas sobretudo, é desejável que esse processo de intenções seja permanentemente dinâmico, actualizável, corrigível, questionável, aperfeiçoável, fazível ... ao alcance das nossas forças, das nossas incompletudes, de acordo com as nossas vontades, longe das utopias e angústias da perfeição, envolto no acreditar que passa por nós e apenas por nós, a capacidade da renovação e portanto da melhoria !

Só dessa forma  fará  sentido o balanço que nos propomos  com perseverança, ano após ano, no esgotar dos doze meses que nos são concedidos !

Anamar

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

" BALANÇO "





Os diospiros estão no fim, disseram-me há pouco.
O plátano está quase despido, na praceta onde o farrusco se esconde da intempérie.
O azul há muito sumiu de um céu que, promitente de Verão fora de época, envergou finalmente roupagens escuras, encasteladas e molhadas.  Adequadas a este tempo de silêncio interior, de quietude e sonolência .
As gaivotas, algumas, esparsas aqui por cima, parecem não ter rumo, mercenárias que são do betão.
Deixaram mais além a orla marinha, nunca entendi porquê ...
Trocar aquele mar de paz ou de borrasca, de verde ou de azul ... aquele vaivém de balanço, de cólo ou de berço por este nada que a cidade lhes oferece ... não é coisa que eu entenda ...

O tempo avança, inexoravelmente.  Pula de estação em estação, de mês em mês, de ano em ano.
Agora, outra vez aquela época insana de uma espécie de alucinação colectiva, numa urgência de salvar não sei o quê, de redimir não sei o quê, de inventar não sei o quê ...
Parece querer agarrar-se o que se deixou fugir o ano inteiro.
Parece querer vivenciar-se uma bonomia de redenção inexplicável.
Parece querer salvar-se uma humanidade dissoluta e distraída ...
Parecemos querer atordoar-nos no mergulho suicida de miragens felizes ...
Tudo a correr muito, ao ritmo estranho do calendário que parte ...

E as pessoas partem também das nossas vidas ...
As "nossas", as próximas, as distantes, as conhecidas ... mesmo as quase desconhecidas...
As que nos pertencem e as que a vida determinou pertencerem-nos ...
E sempre, seja em que circunstância for, empobrecemos.  São pedaços de nós que se dispersam por aí.  São marcos de caminhos que vão ficando sem sentido.
São  horizontes  que se vão distanciando e entrando na linha penumbrenta das névoas das madrugadas ...
São silêncios instalados em lugares vazios e ausentes ... são espaços que se agigantam em frio descomunal ... são marcas quentes deixadas em camas desfeitas há muito ...
Risos e gargalhadas que já só ecoam, olhares descoloridos pelo desconexo da vida, memórias que empalidecem com toda a injustiça do mundo ... sem apelo ... só porque tinha que ser assim !...
São perdas ... sempre perdas ... inevitáveis perdas !...

E a história vai-se escrevendo .
Como num livro,  as páginas vão virando, as folhas vão dobrando  amarelecidas, como esquinas contornadas sem retorno.  E caminhamos, apoiados no que fica, nos que ficam ...
E nada vai ficando igual.
E um destes dias, nós, que minuto a minuto deixamos de nos conhecer, acabamos olhando apenas o horizonte distante das memórias ... enquanto a tivermos.
E tudo o que aquela foto desfocada ainda nos mostra, já não fará sequer sentido nas nossas mentes !...

Balanço inevitável e injusto das vidas !!!

Anamar

sábado, 30 de setembro de 2017

" SEMPRE O OUTONO ... "




E o equinócio de Outono aconteceu.
O Verão partiu e com ele os dias prometedoramente azuis, quentes e luminosos.
Passei-o por aqui mesmo.  Nada de praias, nada de férias no que elas têm de especial, nada de significativa mudança de vida, na tentativa que se faz de a arejar quando se muda o local de poiso ...

Talvez por isso não me tenha verdadeiramente dado conta de que o ano está a iniciar o seu último trimestre, de que, mais um pulinho e é Natal outra vez, de que os dias escuros, curtos e sorumbáticos estão a bater-nos à porta.

Tenho sim, a sensação de uma escorrência demasiado célere de tudo isto.  Sinto dentro de mim um desejo imperioso, sonhador e utópico,  de fazer retardar a sua marcha ... Como se o pudesse ... como se isso fosse possível ... como se correndo em sua perseguição, numa qualquer volta a pudesse abrandar.
Como se pudesse retê-la antes de realizar tudo ou quase tudo que um dia sonhei ... que fui sonhando pelas esquinas da vida.  Como se esta tivesse comigo, uma dívida a saldar.

A nossa existência não se renova. É um bem de que dispomos, que devemos gerir com o cuidado e o carinho com que se trata tudo o que é valioso, mas frágil e insubstituível.
A precariedade com que tudo acontece, a aleatoriedade com que tudo nos surpreende  apelam e impõem que estejamos despertos e vigilantes, que não sejamos perdulários e estejamos atentos à fruição de cada pequena coisa que nos cai no regaço momento a momento, como presente em dia de aniversário, ou fruta madura pendida do ramo.
Estar por aqui, respirar, rir ou chorar ... viver afinal, deverão ser bênçãos que descem sobre nós, como a chuva doce em dia quente, que ameniza, envolve, embala ... adocica o caminho ...

Não tenho sido uma pessoa muito deslumbrada com a vida.  Por vezes arrasto-a, como quem carrega um fardo que me deixa dúvidas sobre as vantagens de o fazer.
Sobretudo nos últimos tempos, as "dores de crescimento" que tenho experimentado, fazem-me crer como  inevitáveis, demasiados danos colaterais.
Mas ainda assim, vagueando em pensamento até onde a memória mo permite, terei que concluir da generosidade de tudo quanto me tem sido disponibilizado.
Terei que concluir que se foi sendo assim, é porque teria que o ser ... E que as marés se sucedem nas subidas e descidas em praias que as acolhem ... E que as Primaveras sempre vêm no fim dos Invernos, sem nada que as altere ... E que depois do silêncio tantas vezes perturbador de noites escuras, sempre aclara uma alvorada que progride até à luz ...
Pelo menos, terei que entendê-lo como tal !... Terei que me obrigar a concluí-lo !...

E sempre assim, nas andanças das existências, por mais injustificáveis que as achemos ...

A vida é o sobe e desce dos carrosséis da minha infância ... É a ansiedade da subida, seguida da adrenalina louca da descida desenfreada, que atacávamos estugadamente, com um sorriso inevitável nos olhinhos matreiros pela satisfação da conquista do mundo ... parecia !...
Quando cavalgávamos aqueles corcéis de pau, em montanhas inventadas ... Quando o friozinho na barriga, nos tomava agradadamente, no desejo de que a viagem e a corrida não terminassem nunca !...

Mas éramos então crianças, e ainda não sabíamos grande coisa disto por aqui ...

Hoje, neste Outono doce e morno deixo-me tomar por uma lassidão de astenia de alma.  Deixo-me invadir por um silêncio que busco e desejo, na protecção da castanha no ouriço...
Fico e parto ... daqui.
Tenho que ficar, mas desejaria partir ... Subir ao pico da encosta, ao lugar tão alto que só tem céu e mar em contraste atrás de si, e adormecer por lá mesmo, afundando-me no musgo fofo das penedias, olhando as estrelas quando subissem no firmamento, escutando a brisa que promete ser vento qualquer dia ... simplesmente adormecer, quando o sol dormir também, lá longe, no horizonte vermelho, que sempre se acende p'ra noite ...

Na certeza de respirar a paz ... a paz que sempre sobe, gratuitamente, da Mãe, que é colo e útero...  Que é verdade suprema, primordial ... Que nos trouxe e nos há-de levar qualquer dia, e nos dará guarida e abrigo  na verdade única, matricial ...
Lá, onde reside a  nossa essência !...

Anamar

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

" A RELATIVIZAÇÃO DE TUDO "




Este texto recolhido algures na Net, diz tudo, diz quase tudo !...

Com o transcurso do tempo, atinge-se um estatuto conferido pelos anos, pela vida, pela estrada que calcorreamos mais ou menos aos tropeções, que nos permite pausar, sentar numa pedra do caminho e reduzir a velocidade que nos anima.
E não é apenas o ritmo de exigência das coisas que deixa de nos ser imposto. É mesmo porque há realmente poucas coisas já, passíveis de efectivamente agitar as nossas águas, passíveis de causar real e objectiva apreensão ... capazes de nos sobressaltarem na realidade, ou de nos arrancarem um calafrio ...
 Simplesmente, porque de facto não vale mesmo a pena, e tudo se torna enorme e absolutamente relativo nas nossas existências.

A correria sem norte ou rumo tantas vezes, a afobação da urgência de nos sentirmos idiotamente imprescindíveis, a aflição de bombeiro em socorro de incêndio, num desatino atontado ... abatem a fúria insana, e como um abanão que nos estremecesse pela surpresa, paramos de repente e percebemos então, que convém ver o filme da plateia, usufruir dele, com tino e sensatez, sem que tenhamos que pertencer ao elenco ...
As rotações acalmam, o sentimento de insubstituição faz-nos sorrir, a importância que nos damos e que damos a tudo à nossa volta abranda, e pensamos :  " aqui e agora, o que realmente ainda quero da minha vida ? "
"aqui e agora, o que me interessa verdadeiramente ? "
"aqui e agora, estou a valorizar ou não, o que vale de facto a pena, ou desgasto-me, esbanjando energia preciosa ? "
"aqui e agora, estou consciente de ter dado os passos que verdadeiramente me eram exigíveis ?  Deito a cabeça no travesseiro, por cada noite, com a tranquilidade de espírito de que terei feito o que me exigi, com seriedade, esforço, dedicação e perseverança ?...
Porque, se sim ... a mais não serei obrigada, seguramente !"
"aqui e agora consegui esvaziar da mente e do coração, o supérfluo, o nocivo, o que ocupa indevidamente lugar para o essencial e autêntico ? "
" aqui e agora, consigo estabelecer comigo uma relação de aceitação pacífica, com a minha essência, aceitando-me como sou, com todas as imperfeições e incompletudes ?  Com tudo o que sonhara ter sido e simplesmente não alcancei ... sem que por isso eu me tenha tornado uma má pessoa ? "
"aqui e agora, que estradas quero ainda percorrer ?  O que pretendo valorizar ?  O que realmente me interessa, e do que devo com carácter de urgência afastar-me e rejeitar ? "
" aqui e agora, que bitolas irei usar, que padrões irei tomar como avaliadores, à minha volta ?  Que exigências me valem a pena ainda traçar como metas, objectivos, até mesmo como sonhos a sonhar ? "
"aqui e agora, serei capaz de vislumbrar com a clareza do distanciamento de emoções que apenas toldam, perturbam, falseiam a realidade, e usar de pragmatismo e assertividade face aos desafios do dia a dia ?

Porque se a tudo isto eu conseguir dar uma resposta positiva e satisfatória para comigo mesma, sem penalizações ou desnecessários desencantos, desilusões ou má gestão de expectativas infundadas, estarei apta a vivenciar com a paz, a tranquilidade, a bonomia e a esperança, os sobressaltos dos tempos vindouros...
estarei apta a desfrutar com todo o fôlego que ainda me é permitido, o vórtice às vezes ciclópico de montanha russa, que são os atropelos da jornada ...
estarei apta a rasgar um sorriso no rosto, a abraçar o vento que me desalinha, a seguir com a gaivota que passa, rumo a um horizonte de valer a pena ...
      ... e sorver a liberdade de me sentir dona dos meus destinos, e mais mulher do que nunca !!!

Anamar

domingo, 2 de julho de 2017

" VAI-VEM DE MARÉ ..."




Hoje  estou  melancólica.
Sinto-me um pouco perdida no emaranhado da minha vida, como uma aluna frente a um manual sem saber bem encontrar-se no meio de tanta informação a reter.  Uma aluna dispersa, sem bem perceber onde se encontra a ponta da meada a desenlear.

Tenho escrito pouco, tenho reflectido pouco, deixei de me encontrar em tardes longas e desocupadas por aqui, perante mim, perante as minhas ideias, os meus pensamentos, as minhas angústias e preocupações, as minhas dúvidas e perplexidades, os meus sonhos, as minhas lembranças, também dores e sofrimentos ... também alegrias, obviamente.
Deixei de ouvir longamente Énya, em tardes ociosas, enquanto o sol me descia no firmamento frente a esta tribuna, sobre o casario que preguiça até Sintra.
Deixei que a vida me fosse atropelando a um ritmo que as minhas "pernas" já não acompanham ...
Demasiadas coisas acontecendo aqui ao meu lado, como avalanche de torrente que engole e leva das margens, as folhagens distraídas ...
Um turbilhão de sentires, diversos, esparsos, confusos, em atropelos ... que não me folgam e não me param, para sequer os assimilar, interiorizar, incorporar, vivenciar ...
A minha vida mostrou-se um remoinho de rio caudaloso, com a força imparável e cavalgante de águas impiedosas ...
Uma entropia estranha e avassaladora tirou-me os tempos de paragem que me eram vitais ao equilíbrio.
Portas fecharam, portas abriram, esquinas foram dobradas, rotundas estonteantes foram rodadas, ondas encapeladas de incertezas incómodas me enrolaram na areia da rebentação ... quase não me deixando vir à tona, respirar ...
Tudo isso num rompante louco de montanha russa, de voragem temporal, de realidades que não batem à porta para se instalarem.

O meu mundo, de dúvidas, encruzilhadas, "nieblas" pairantes  mas sabidas, tem-me amanhecido com madrugadas novas, de novos cheiros, novas cores, novos sons e claridades.
E como alguém que poisasse numa terra que não aprendeu, como alguém que dispusesse de roupagem desmedida, sinto-me desconfortável, desajustada e com uma canseira no coração e na alma, que me desconserta.

É sabido que novas vivências repentinas e inesperadas, sempre deixam o ser humano fragilizado, no vencer de inércias, quase sempre insatisfatórias, contudo cómodas ...
E a minha vida tem-se pautado por um mar flat, agitado repentina e inesperadamente por ondas alterosas de  marés.
Não é, nunca foi, uma vida cinzenta de rotinas e repetições.  Eu própria, convivo mal com tudo o que se repete, se decalca, se instala.
Por personalidade, sou uma alma inquieta  em turbilhão, que lida mal com tons "pastel" ... que prefere "nuances" definidas, bitolas de tudo ou nada, de zero ou cem.
E por isso, cada readaptação a novas vidas dentro da vida, que foi ocorrendo na minha existência, implicou, ajustes, custos emocionais, conflitos interiores com dispêndio acrescido de sofrimento inerente... com desgaste pessoal, com desnorte de rumos ... com fins e recomeços difíceis ...

Cada nova e desconhecida etapa que chega, questiona o pré-existente, agita as águas,  revoluciona o instalado, desencadeia perdas e ganhos, opções, decisões, mudanças.
São períodos de aprendizagem, de crescimento, de mudança, nem sempre ... quase nunca, fáceis !

E tudo isto - quando  então o Outono já assoma , com as primeiras intempéries na vida -  se reveste de dureza acrescida,  com envergadura de desafio titânico ... e se mostra como  um esgotante vai-vem de maré !...

Anamar

quinta-feira, 30 de março de 2017

" DANÇANDO NA CHUVA "





Sempre achei graça àquele pinheiro no recorte da paisagem lá longe, tendo por detrás apenas o céu, já que tudo o mais lhe fica aos pés.

Pinheiro, abeto ... araucária não me parece ser, continua garboso, ano após ano, absolutamente só, erguido a ventos e temporais.
Eu diria que ele se orgulha de por ali continuar feito um farol erecto, vigilante dos céus bem acima e observador da terra ... bem abaixo.

Deve ter muitas histórias para contar.  Afinal,  ele escuta a conversa dos melros e dos gaios que por aqui perambulam dia após dia.
De longe, observa as andorinhas no afã dos ninhos, e depois, daqui a uns meses, assiste-lhes aos primeiros projectos de voo.
Do alto, alcança a orla do mar que se adivinha, e adormece no balanço do vento que o sacode sem nunca lhe desalinhar as agulhas dos ramos.
É um desafiador, este pinheiro !
É um resistente também.  Verga, verga mas não claudica.
A vetustez do seu tronco atesta-lhe os Verões e Invernos que já lhe passaram.  É um ancião no sobrado da paisagem !...

Acho que me pareço um pouco com aquele pinheiro.
Também como a ele, a vida me balançou nas intempéries do destino.  Também por mim as Primaveras e os Outonos se sucederam.  Conheci os frios das amarguras gélidas dos Invernos, e a promessa das espigas maduras nos Verões dourados.
Os ventos açoitaram-me a alma.  O nevoeiro abateu-se vezes demais.
E eu ali, firme e hirta, teimosa e casmurra, aprendendo a equilibrar-me na tempestade .
Nunca deixei de olhar lá longe, como ele, o pinheiro.  Divisei céus azuis, nesgas de bonança, chilreado de pássaros, sussurro de asas de borboleta ...
Tudo isso foi sobrevivência e aposta de vida.  Tudo isso foi respirar fundo, erguer a cabeça, secar os olhos, arregaçar as mangas e enfrentar ...
Enfrentar a desesperança penumbrenta, vencer os pedregulhos do caminho, desafiar as borrascas que apostavam em roubar-me o sonho ... teimar com o tempo que prometia injustamente fugir-me ...

E caminhar, caminhar ... adiante ... sempre adiante, mantendo a coerência daquilo que sou, encarando as incompletudes da minha dimensão humana, acreditando nas luzernas de um sol espreitador, amando a "primavera" renovadora,  e aprendendo a não mais me molhar na chuva, mas sim a dançar no meio dela ...
E nunca desistir !...

Porque VIVER, é isso ! ...

Anamar

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

" E ASSIM SERÁ ... "




As andorinhas voltaram ...
E se voltaram é porque a Natureza outra vez milagrou.  Se voltaram, é porque a imortalidade do tempo permanece intocada .

Vi-as em volteios determinados na aragem fria que por ora se sente, esperando uma Primavera anunciada com a brevidade do calendário. Rumam aos ninhos que ainda outro dia deixaram, emancipadas que foram, quando, pressurosas e guiadas pelos pais, fugiam do Inverno desconfortante que se aproximava, e norteavam a África, na sua primeira viagem migratória.
Trazem sorte e felicidade aos beirais que escolhem ... diz-se.  Talvez por ser auspiciosa a sua chegada, mostrando que a renovação não cessa, a esperança não morre ...

É sempre um deslumbre e uma emoção, confrontar-me com os mistérios perfeitamente insondáveis e que não se explicam, das leis da sobrevivência natural.
O "código genético" é poderoso e absolutamente imperativo. E quando pensamos que seres infinitamente pequenos e desapetrechados  quando comparados ao ser humano, respondem com uma inquestionável capacidade e uma eficácia espantosa e precisa, ao que a Biologia define para as suas vidas, temos que forçosamente nos sentir mínimos, insignificantes, fascinados !

Olhei-as na afobação da construção de novas "casas" e na reconstrução das já existentes. Olhei-as, na azáfama de projectos decididos, numa alegria de viagens, chilreios, deambulações apressadas, nos golpes de vento da tarde.
Como seriam as histórias que carregam ?  Como serão as lembranças do oceano, do deserto, dos dias e das noites estreladas, das luas e do sol quente e tórrido das terras lá longe ?  Como será esta liberdade de andorinha que vai e que vem, e sempre e só responde à chamada do destino ?

Por aqui, as mimosas começam a engalanar-se do amarelo esperançoso e promissor, simplesmente porque também elas sentem o apelo da continuidade da Vida.  E por cada canto, por cada nesga generosa de verde e terra tudo eclode numa cascata de cores, de cheiros e de sons ...
E assim será, ano após ano nas existências de cada ser. E assim será, numa renovação prometida, até à eternidade dos tempos.

A vida de cada um é a vida de cada um. É a fatia de contemporaneidade que por aqui partilhamos com tudo o que é vivente.  Mas também com tudo o que nos pré-existiu e existirá depois da nossa passagem.
Estamos em trânsito.
Não somos mais que andorinhas arribadoras.  Não passamos de mimosas que floriram, nas suas Primaveras ... ou sopro de brisa fugaz que perpassa pela copa dos pinhais ...
Mas o privilégio de que dispomos pelo facto de ainda continuarmos a cumprir os nossos desígnios por cada dia que nasce e adormece à tardinha, é uma bênção sem tamanho, é um êxtase e um deslumbramento agradecido à Natureza, mãe embaladora, útero generoso, regaço doce e repousante !

Anamar


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

" O NATAL DO NOSSO DESCONTENTAMENTO "




E então é Natal ...

Mais outro Dezembro, mais outro Natal, outro ano em passadas aceleradas para o fim.  E nós, com ele ...
O calendário anuncia, determina, impõe tréguas, paz, conciliação no coração dos Homens, indiferentes.

Um pouco por todo o Mundo a azáfama instala-se no ritmo de sempre.  As luzes há muito se acenderam nas ruas, as vitrinas das lojas vestiram-se com o que de melhor havia no seu interior, num apelo mudo aos passantes.
Compra-se, encomenda-se, marca-se ...
Tem que estar tudo estranhamente a postos,  no que mais parece uma maratona social que deverá ser irrepreensível nos pormenores.  Há uma urgência instalada e sentida.

Por aqui as pessoas dão-se as Boas Festas, indistintamente, numa transcendência magnânima que vem do coração.  Exortam-se os maiores e mais profundos sentimentos de alma, numa generosidade sem contenção ou limite.
Afinal, reina um espírito universal de solidariedade e irmandade.
Pelo menos uma vez no ano, as mãos entrelaçam-se, os corações estreitam-se ... parecemos comungar um insuspeito sentimento de fraternidade ...

É o "reencontro da diáspora", diz Marcelo Rebelo de Sousa, referindo o encontro das famílias que a sorte madrasta teimou em separar e espalhou pelo planeta.
É a busca do convívio daqueles que por aqui vão estando, por vezes pouco presentes ainda assim.
E é a recordação de outros encontros, entre aqueles que não voltarão a encontrar-se, nesta diáspora que é também a vida de cada um ...
E depois há os que não têm mais quem encontrar ... a não ser os que na mesma nau e na mesma odisseia, partilham os temporais de todos os dias .

Enquanto isso, sabemos das bombas.  Sabemos de Aleppo e das suas crianças órfãs e sem sonhos ...
Sabemos dos refugiados nos campos da desesperança ...
Sabemos dos atentados e sabemos dos que morrem, sem bem saber porquê ... Apenas pela desdita de estarem no sítio errado na hora errada ...
Sabemos os amordaçados na voz e na vontade, onde a palavra liberdade é mítica ...
E sabemos África e Ásia naquela manta de retalhos de miséria e infortúnio.  De doença, de provação e de dor ...
E sabemos das cidades agrilhoadas mesmo no coração da "civilização", pelo medo dos fantasmas  da ameaçadora violência sempre iminente, demasiado iminente ...
E sabemos da lotaria que é a vida de quem conta tostões nas contas magras, em meses demasiado compridos ...
E sabemos do frio e do silêncio, em lares de costas voltadas, quando as pessoas já só se desconhecem ...
E de velhos ... centenas de velhos ... largados  na solidão desesperante de hospitais e instituições, e onde a demência é uma aliada e uma misericórdia ...
E sabemos de todos os sozinhos, silenciosos e escuros na alma, com horizontes de sol posto ... numa orfandade de afectos e calor ...

Sabemos tudo isso e ainda assim acreditamos neste Natal !...
Afinal, simplesmente, o Natal do nosso triste descontentamento !!!...

Anamar

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

" DOENÇA DOS TEMPOS "




As pessoas morrem aos poucos, um bocadinho de cada vez.
A solidão em que uma imensa faixa da população vive, o isolamento a que é votada  mercê do ciclo da vida, marginaliza, obstaculiza e segrega da felicidade muito ser vivente.
As grandes cidades, com o anonimato de que somos vítimas ombro a ombro com as multidões que cruzamos, o ostracismo em células que muitas vezes já foram familiares e hoje pertencem apenas aos que restaram, as torres, os edifícios de muitos fogos com gente circunscrita a espaços demasiado restritos, desapoiada e confinada a mundos demasiado limitados, propiciam estados de alma deteriorantes e destruidores do ser humano.

A vida, com todas as dificuldades reais e exigências inerentes, com todas as angústias desencadeadas pela imposição do cumprimento de necessidades básicas, mesmo que só de sobrevivência ...
A vida, insatisfatória e com penalizações  frequentemente de uma violência desumana, entristece, desmotiva, cansa e angustia todos quantos a atravessam enfrentando os mais dolorosos escolhos ...
As dificuldades e as verdadeiras barreiras quase intransponíveis que se verificam no entendimento das linguagens, na comunicação entre gerações que criaram valores, convicções e formas de sentir totalmente diversas ...
A indisponibilidade que quase todos ostentam, num corre corre, numa lufa-lufa indiferente aos problemas de cada um, aos seus sentires e inquietações ...
A insensibilidade face ao outro, num egoísmo social, num egocentrismo monstruoso e sem tamanho ...
As frequentes desagregações familiares, as clivagens sociais, a progressão dos anos que também arrasta consigo limitações sérias e crescentes, a nível de resistência e de saúde ...
As incertezas em futuros que já se não afiguram tão distantes assim, e que se mostram preocupantes e com prenúncios de tempestades ...
... mergulham em si - em vórtices ciclópicos, em labirintos estonteantes e demenciais - as pessoas, já de si fragilizadas e desgastadas pela verdadeira epopeia que é viver e resistir no dia a dia.

Depois, surge também a dor da solidão afectiva.
Há cada vez mais pessoas que sofrem consigo mesmas.  Pessoas compelidas à sua solidão e ao seu isolamento emocional e afectivo, num processo contranatura, já que o Homem é um ser gregário, um ser de matilha e clã.
Ou por moto próprio, ou mercê de circunstâncias da vida, num desajuste com ela ... os órfãos do amor, do afecto, do amparo, do cólo de que não dispõem, do calor do abraço que anseiam ... são cada vez em maior número, alastrando uma epidemia social de gente sofredora da ausência de carinho e de afecto.
O aumento exponencial de divórcios e separações, a viuvez prematura entre pessoas ainda com invejável qualidade de vida ( mercê do acréscimo da esperança de vida  numa sociedade mais cuidada e com acesso a mais recursos em termos de cuidados de saúde) ... lançam na sociedade uma significativa franja de pessoas avulsas e sós, que, dependendo obviamente das suas personalidades e exigências perante a vida, a aceitam melhor ou pior, mais ou menos pacificamente e a vivem de uma forma mais ou menos feliz ... mormente com infortúnio e insatisfação, constato!

Não se encontram sucedâneos que colmatem esses buracos existenciais.
Não se compra afecto, partilha, cumplicidade, nas lojas que nos vendem quase tudo ...
Não se "encomendam" realizações e finais felizes,  para sonhos ainda tantas vezes sonhados.  Não se amanhece dizendo : "hoje encontro novos caminhos e vislumbro novas estradas !  Hoje, se chorar, vou ter quem pacientemente me seque as lágrimas, me devolva a esperança e a fé em novos e mais generosos horizontes !... "

E ss pessoas vão morrendo aos poucos, um bocadinho de cada vez .
Pelo menos até que ainda tenham um sopro de "vida" no coração e um derradeiro fôlego na alma ...

Mas,  os pôres de sol vão empalidecendo ... Esquecemos como é dançar na chuva ... O olhar opaciza, cansado de se alongar pelos montes, e o ouvido endurece ao canto das aves de outras vidas ...
A debilidade anímica abate-se sobre nós, a força do crer e do querer esvai-se, exaurindo a capacidade do avanço, perdida a aposta no valer a pena ...

Esta implacável "doença dos tempos" alastra e submete, trucida e desmantela !...

Anamar

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

" REZA, AMÉRICA !... "





" Um privilegiado de recorte fascista a liderar o descontentamento popular e a transformá-lo em poder pessoal.  Se precisávamos de mais sinais, este foi o último.  É para aqui que o mundo ocidental se está a dirigir " -  Daniel Oliveira

" Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade.  Eles são muitos ! "  - Nélson Rodrigues


Estas, são apenas duas citações que a madrugada de ontem suscitou, depois de divulgada a notícia bombástica da vitória de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos da América.
O mundo acordou estupefacto, recusando acreditar estar perante a concretização de algo que parecia impensável.
A América amanheceu com uma espécie de outro 11 / 9  neste certamente inesquecível  9 / 11 !
A apreensão instalou-se de ocidente a oriente.  De certa forma, o mundo vivia o início do que poderá tornar-se um pesadelo futuro ...

Odeio a política, os seus meandros sujos e ignóbeis.  Odeio aquilo que a move, aquilo que alimenta os mais torpes desígnios dos que a fazem.
É um campo mal cheiroso e nojento.
Também não venho aqui tecer nenhum considerando novo.  Aliás, quem sou eu para me sentir com autoridade para opinar abalizadamente, a propósito ?
Sei contudo que na vida, queiramos ou não, somos seres forçosamente políticos e que tendo cabeça para pensar, também não fará sentido demitirmo-nos de pelo menos reflectirmos, analisarmos e termos opiniões pessoais sobre os acontecimentos e os assuntos que nos rodeiam e que determinam os desígnios do ser humano neste planeta que habita.
Sei também que tudo já foi destrinçado à exaustão, por todos, que todas as "armas" já foram esgrimidas neste contexto em todos os meios de comunicação social, que todas as análises já foram minuciosamente escalpelizadas e todos os cenários desenhados.
Portanto, trazer à colação este tema, talvez possa parecer pretensioso, redundante e excessivo.
Ainda assim, vou referir algumas questões que me preocupam, algumas interrogações que se me colocam, algumas dúvidas que me angustiam.

Basta ter seguido com alguma atenção a campanha havida para a presidência dos EU, para percebermos que estávamos perante dois candidatos que não seriam solução.  Entre Hillary Clinton e Trump, a escolha configurava-se difícil.
Nunca se trataria de uma escolha perfeita, num país dividido, em partidos também internamente esfrangalhados, mas sim de escolher entre dois males, o que menor fosse.
Nessa conjuntura, Trump deveria então ser assisada e prudentemente banido.
Um candidato notoriamente impreparado, um indivíduo de uma linha assustadoramente radical e extremista, com intuitos xenófobos, persecutórios, inescrupuloso no respeito pelos direitos humanos de que faz tábua rasa, misógino, provocador, louco e inconsequente ... representará seguramente um campo minado, com imprevisíveis consequências em termos futuros.

Como pode um indivíduo que assumiu posturas boçais inqualificáveis e abjectas, de um machismo aviltante e nauseabundo, ser reconhecido como idóneo na chefia de uma nação ?!

Como pode alguém que não reconhece e descredibiliza a luta séria e inadiável a ser travada num esforço colectivo por todos os povos na salvaguarda dos problemas ambientais do planeta, ser designado para chefe superior de uma super potência, com responsabilidades por isso, acrescidas, colocando à frente do direito à vida e à qualidade da existência do ser humano, os interesses do capital e dos lobbies económicos ?!

Como pode alguém assumidamente racista, extremado e emocionalmente intempestivo e desequilibrado - que fala em deportações massivas, que fala na criação de muros entre povos e países, quando o Homem deverá empenhar-se sim, em derrubá-los, numa luta para a integração, a aproximação e a assimilação do seu semelhante - ser colocado à frente dos destinos de um país como a América, com óbvias implicações em todo o equilíbrio e pacificação mundiais ?!

Como pode ter sido investido de poderes de chefe de estado, alguém com uma nem sequer disfarçável proximidade com linhas políticas e sociais suspeitas, perigosas e preocupantes - haja em vista o regozijo e o apoio exuberante pela sua eleição, provenientes de sectores, facções e países que sem dificuldade reconhecemos ?!

Bom, não pretendo alongar-me mais.
Estas foram apenas algumas reflexões que traduzem naturalmente inquietações que serão minhas e seguramente de muitos mais.

Pergunto-me : foi tão ardiloso Donald Trump que se aproveitou da ingenuidade do povo americano ?!
Foi tão perfeitamente artista no vestir dissimulado da pele de cordeiro, mascarando o lobo que ainda não se mostrou ?!
Jogou tão maquiavelicamente com a insatisfação popular, lançando eflúvios entorpecentes sobre todos os que irão acordar forçosa e irremediavelmente tarde ?!

Resta-nos aguardar e continuar atentos  para percebermos o desenvolvimento desta novela de mau gosto.
Até lá, se fosse católica diria : " REZA,  AMÉRICA ! "

Anamar

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

" A DESCIDA ÀS PROFUNDEZAS "




Os mistérios insondáveis da  memória humana são algo que me assusta  mais e mais, à medida que a vida se desenrola.
É perturbador mergulharmos nela, como um espeleólogo que busca a profundidade, neste caso, da alma.
Surge como um túnel mal iluminado, que se aprofunda e agiganta.  Surge como uma passagem entre pontos de acesso quase inatingíveis.

Se recuarmos no tempo e tentarmos escalpelizar os lugares que buscamos, com o avanço dos anos, uma cortina entretecida em teia opacizada, vai inviabilizando progressivamente, esse desiderato.
Refiro-me a memórias de passados recentes, porque persistem sobretudo apenas, os mecanismos da memória longínqua, explicáveis à luz da ciência.
A medicina sabe claramente, por que as memórias mais recentes se apagam, e de uma forma aparentemente ilógica, as memórias distantes emergem com uma nitidez e clareza que confundem.

A minha mãe caminha para os noventa e seis anos.
Este fim de semana ficámos juntas.  Conversámos longamente.
Tem demências pontuais.  Tem confusionismo, obscuridade no conhecimento e na linguagem, a acentuarem-se em progressão.
Procuro situá-la, pela conversa.  Procuro referenciá-la, buscando pessoas, lugares, acontecimentos significantes, que vivenciou e lhe foram importantes.
Procuro "escavar"  no seu cérebro, momentos, ocasiões, factos, coisas, emoções, afectos ... lugares.
E como um escafandrista, trazê-los à tona da sua memória, tentando envolvê-la nos resquícios dos registos que possam existir.
Tento deitar-lhe laços, bóias, cordões que a reabilitassem, aqui e agora.

A minha mãe fala com uma nitidez e uma clareza impressionantes, sobre realidades da sua infância e juventude.
Projecta-as na actualidade, indistintamente, sem balizas ou impedimentos, sem triagens ou capacidades interpretativas.
Faz um "mix" desconexo e doloroso, que toma como real e actual.  Uma espécie de filme em rewind.
Sem noção de tempo ou espaço.  Sem noção de passado ou presente.

Em contrapartida, as suas experiências recentes, memórias de um passado próximo, estão totalmente deletadas na sua cabeça.

E é dolorosíssimo, destruidor, aterrador mesmo, assistir ao esforço supremo que exercita, para pescar tudo o que lhe ficou num mar de profundidade inalcançável.
É duma violência sem tamanho o seu "esgaravatar" mental, para tentar alcançar de novo o significado de coisas que lhe foram perfeitamente familiares e queridas.
É desesperador assistir à incapacidade de afastar as cortinas tenebrosas que inapelavelmente lhe cerram a memória, e lhe barram o caminho de acesso aos recônditos da mesma !

A minha mãe sempre amou e sempre se rodeou de plantas e flores, muitas delas, por si plantadas.
Tratava-as, acarinhava-as, desvelava-as com um esmero sem tamanho.
Em cada palmo de terra, dispunha uma sardinheira.  Em cada canto cuidava uma buganvília, uma glicínia, um hibisco ...
Nos últimos anos viveu numa casa com jardim, onde podia para felicidade sua, desfrutar de uma qualidade de vida que a preenchia plenamente.
Lá, a minha mãe apenas lembra que foi feliz.  Como um sabor impreciso que fica, de uma iguaria que já engolimos ...
De lá, tem imagens ténues e esbatidas, como manhãs de nevoeiro, que por mais esforço que façamos, nos impedem de divisar mais além ... com definição ...
Apenas isso !
E quando tento que recue e desencave  uma centelha da felicidade que experimentou, quando tento que abra uma pequena fresta que lhe permita espreitar lá atrás ( como uma cortina que pudesse correr, deixando livre o olhar e deixando a memória saltitar ) ... perde os olhos no vácuo, fecha o rosto para lá da distância, afasta-se ... à medida que as lágrimas lhe escorrem ...

"Tenho tanta pena de não me lembrar !" ... diz.

E eu fico perplexa.  Sinto uma revolta sem tamanho face à injustiça da vida.  Sinto um pavor que me tolhe e domina ...
Será que eu também vou perder as minhas memórias ?
Será que eu também vou perder a minha identidade ?...
Sim, porque nós somos as nossas memórias !
Como é, caminhar de olhos vendados ?  Como é, ter que progredir no escuro, sem norte,  bússola,  estrelas ?   Como  é,  estar  largado,  sem  referências,  sem  rumos,  nortes,  sentidos ???!!!!

Tudo isto me consome.  Todas estas interrogações me atormentam.  Todos estes medos, me povoam.

Os pais partem,  E é quando sentimos a proximidade desse desfecho, que concretizamos que nós mesmos estamos caminhando logo ali atrás, tomando simplesmente lugar na calha que avança ... inexoravelmente !!!

Anamar

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

" E TANTO SOL LÁ FORA ... "



Chegada de fresco há poucos dias, fui "recepcionada" p'la mais inusitada cabotinice da actualidade, neste mundo que alucinou de vez ...
Mais um "fenómeno" social que a minha mente não abarca : a "caça"  de Pokémons !

E o mundo em desvario, numa correria louca e desenfreada, em torno de mais uma aplicação virtual, lançada numa realidade de vida , cada vez mais virtual também, menos verdadeira e essencial, de facto.
Manobras de diversão, intencionalidade garantida, gente por detrás a ganhá-lo, como sempre ...
Enfim, talvez nada de novo, e a turba humana envolvida até ao tutano, numa palermada universal !

Uma brincadeira, um jogo ... garantem-me.  Totalmente inofensivo e ingénuo ... não creio.

Dou por mim a pensar :  " Enquanto isso, os problemas reais que nos afectam objectivamente, a confinarem-se a uma área difusa de disponibilidade mental ...
As dificuldades gritantes que enfrentamos no dia a dia, anestesiadas, desvalorizadas, alienadas ...
O pessoal, se possível, ainda mais obcecado com os dispositivos electrónicos, desviado intencionalmente de tempos úteis de saudável diversão, de lazeres construtivos, arredado de boas leituras, de convívio gratificante ...
Os nossos jovens, uma outra vez, canalizados para interesses absurdos, para entretenimentos idiotas, em desvalorização de tantas alternativas válidas e adequadas à sua idade e necessária formação ! "

Enquanto isso, tanto sol e tanto mar a serem olhados, uma natureza abençoada à nossa volta, e um céu tão azul por cima das nossas cabeças, que teimam em deixar-se aprisionar nos monitores, nos tablets, nos plasmas dos telemóveis ...

E é tudo tão sem nexo e estranho, que, enquanto isso, no entanto, dou por mim a questionar-me se não estarei eu, simplesmente a ficar velha e desajustada de mais ?!
Se não estarei a incorporar  um "velho do Restelo" demasiado inflexível, intolerante  e excessivo ?!
Se esta minha relutância na aceitação destas facécias que considero idiotas, não será sinónimo de uma qualquer fossilização pessoal ?!
Se esta minha resistência, incompreensão e não adaptação a estas "ondas" aparentemente leves e lúdicas da vida, não advirão de, de facto, a encarar quase sempre de uma forma bem séria, definitiva e determinante em demasia ?!
Ou será simplesmente que as minhas "aguarelas" estão a descolorir na pintura da existência, e eu começo a enxergar a realidade que me cabe, redutoramente  a preto e branco ?!
Enquanto isso, começo a sentir-me "outsider" e marginal no meio de valores que não entendo, pautando-me por cartilhas se calhar "demodées", desajustada de um mundo e uma realidade que já não percebo, não entendo e onde me começo a mexer mal ...

Enquanto isso tudo, começo a ficar preocupada  !!! ... ( rsrsrs )

Anamar

segunda-feira, 4 de julho de 2016

" QUANDO ELES PARTEM ... "





Fica estranho quando as nossas relações começam a partir.
Ficamos com a certeza dura de que somos mesmo "muito mortais", vulneráveis, bem frágeis afinal.

Em crianças "desconhecemos" a morte, e sempre tentam suprimir-nos ao seu confronto.
Alguma que outra referência a ela, investe-a de um poder fantasmagórico assustador, que logo afastamos no instante seguinte.  É uma entidade perturbadora, felizmente pouco consistente nos nossos espíritos infantis, que contudo nos aterroriza.
Mesmo a mera conjectura de uma futura orfandade inevitável, deixa-nos à beira de uma desprotecção que raia o pavor.  O vislumbrar dessa hipotética situação  amedronta-nos, e por defesa sempre a tentamos alienar da nossa mente.
Quando nos assalta as noites, vira um pesadelo sem tamanho que nos desperta em lágrimas e soluços.

A adolescência, depois a juventude, começam a mostrar-nos uma realidade mais crua, ou melhor, começam simplesmente a familiarizar-nos com a Vida.
Começamos a tomar pulso ao efémero da mesma, à sua precariedade, à sua insegurança, à lotaria ou roleta russa que ela representa.
Percebemos que para morrer basta estar vivo, que a rota vai encurtando por cada dia que vivemos, que as hipóteses se vão delapidando, e que talvez não seja exactamente essa coisa sonhada  de muito destino adiante, de muito sonho a sonhar-se, de muita estrada ... quase infinita estrada, a fazer-se ...
Contudo, à semelhança daquelas férias de Verão da nossa juventude, que não acabavam nunca, ainda assim, parecemos convictos de que ... meu Deus ... tanta Vida dispomos à nossa frente !...

É uma fase da nossa existência que nos confina a um estado de graça que quase nos imortaliza.
É uma fase em que tudo podemos, em tudo acreditamos, até mesmo na fé de que nenhuma injustiça existencial nos atingirá !
É a fase da luta por tudo o que de merecedor a Vida nos reservará, seguramente.
É a fase da construção  promissora, em que a obra nasce e cresce, empolgadamente, como tudo o que se inicia  e floresce ...
É a fase da Primavera da Vida !...
A morte é um acidente desconfortável nos nossos percursos.  Para quê deixar que nos atormente ou se faça presente nas nossas realidades ?!...

O tempo segue inexorável, e dobramos então uma esquina em que consciencializamos claramente estarmos a percorrer e a saborear a última fatia de um percurso ainda de qualidade.
Um percurso saboreado com a maturidade de percalços transpostos, de sobressaltos vencidos, de turbulência ultrapassada.  Uma adultícia usufruída, que seguramente nos será devida ...
Pelo menos assim deveria / deverá ser.
Não conjecturamos desvios atrevidos da Vida.  Não "aceitamos" partidas ou pirraças dos anos.
Queremos, e achamo-nos no direito de vivê-los sem demais atropelos. Com a paz e a serenidade de uma recta plácida, suave ... a ser percorrida com um sorriso ainda iluminado no rosto !

À medida que o transcurso temporal se faz ... e porque nunca ele nos dá uma "colher de chá" ... sabemo-nos na "calha" da existência.
Afinal, "começamos a morrer no momento em que nascemos" ... ( Marcus Manilium )
Vemos partir os nossos ascendentes ... e inevitavelmente  nos sabemos ocupando o lugar seguinte da fila.

Começamos a perder conhecidos, vizinhos, gente de todos os dias ...
Começamos a deixar escoar pelos dedos, familiares, colegas ... Começamos a ver partir os primeiros amigos ... os companheiros de viagem ...

E aí, o soco no estômago deixa-nos meio estranhos.  A bordoada na cabeça deixa-nos meio atordoados.  O golpe no coração deixa-nos exangues, sufocados e amputados na alma ...
Sentimo-nos desconfortáveis.  Percebemos uma nova realidade e uma nova "arrumação" no nosso tabuleiro de vida.  Faltam peças, há lugares vazios que exigem uma nova ordem, uma nova habituação à existência !...

E não há nada a fazer !

Eles partem, simplesmente ... Resta-nos lembrar quem foram, o que nos foram, sentir o rasto da memória que nos deixaram ... Perceber simplesmente a inevitabilidade ... a orfandade dos afectos, a fragilidade do ser-se !
É um pouco contra-natura.  É um pouco arbitrário.  É um pouco violento.  É violentamente injusto, sempre achamos !
Mas é assim !...
Que raios ! Afinal, para os que ficam, urge continuar !...

E a ampulheta, mansamente continua a esvaziar.

A velhice instala-se em definitivo. E arrasta-se mais ou menos no tempo, de acordo com o destino de cada um.
E aí, grotescamente estabelece-se uma nova relação com a morte.  Desenha-se uma nova filosofia que respeita simplesmente ao sentido primário da sobrevivência do ser humano.
Há por  assim dizer, um sentido meramente egocêntrico face à existência. A biologia gera, por protecção, acredito, uma insensibilidade que parece desumana, face ao seu semelhante. Gera alguma desumanidade aos nossos olhos, parecendo desapiedar-se dos que tiveram a má sorte de tomar a dianteira ...
"Eles vão indo ... mas EU ainda cá estou" !...
Sobrevivência pura, tenho a certeza ! Alienação abençoada da realidade !  Coisa de fim de vida !

E pronto !
Esta, a reflexão que me ocorreu hoje, com toda a pertinácia que me confere o choque que senti  pela manhã, ao saber-me mais órfã, mais pobre, mais só neste mundo de Deus ... onde mais uma colega de toda uma vida de trabalho se adiantou e resolveu partir, silenciosamente, sem protestos talvez, na aceitação simples da determinação do seu destino !

Anamar

segunda-feira, 20 de junho de 2016

" TWO LIVES "



Está um laranja tão suave ao fundo, no firmamento !...
O sol já se deitou faz tempo.  Sempre o acompanho no seu percurso, até que mergulha nuns arbustos esparsos, lá longe !
É uma hora de recolhimento, mística, silente.
Invariavelmente, sempre sou acudida pelo mesmo pensamento : Quantos dos que o vêem dormir hoje, já não têm o privilégio de o ver abrir a pestana, espreguiçar e reiniciar uma outra jornada, amanhã ?!
Sabendo que sempre, desde os tempos imemoriais que a prosápia humana julga conhecer, sem falta, sem omissão, sem desvio ... ele cumpre o mesmo ritual ... o seu ritual de vida ! Todos os dias !

E como o ser humano é, de facto, ínfimo, nesta grandiosidade de magnificência indescritível !

Nas nossas curtas existências, quase sempre desvalorizamos, esquecemos, distraímo-nos do seu desígnio.
Como se o que deixámos hoje, seguramente, repegássemos intocado, amanhã ...
Num desperdício atoleimado e inconsciente, quase atrevido e provocatório, desafiamos e enfrentamos as leis da Natureza.
Como se nada mudasse e a permanência fosse um garantido princípio de vida ...

Ilusório ...  Nada em cada instante é imutável.  E tudo o que desperdiçámos ou delapidámos, na nossa triste inconsciência, jamais será recuperado, vivido, guardado .

Esta é uma angústia existencial que me atormenta, pois tenho perfeita consciência de ser das piores e mais relapsas alunas da Vida.
Penitencio-me, reflicto, analiso ... oh meu Deus, como analiso !
Chego mesmo a dar-me  ultimatuns ... desenvolvo processos de intenção, sérios e sinceros ... mas ...
Sei exactamente que este laranja do firmamento adormecido, que me deixou há pouco, foi único, irrepetível, particular ... singular .  Poderá haver muitos mais, mas já serão "outros" e não este !
E essa que eu serei então, também será outra, e não esta que hoje o olhou do alto desta janela !
E as emoções, os sentires, as esperanças, as dúvidas, as angústias ... ou tão só os pensamentos particulares e simples que me invadiram ... distintos também !
Este momento, este minuto, este lapso de tempo, terá sido único e exclusivo na minha vida, e fugazmente se terá desvanecido, sem volta !...

E teria sido tão importante que o tivesse esgotado, sorvido, me tivesse entupido com ele, em êxtase total, sem pressas, afobações ... apenas vivendo-o, saboreando-o como algo raro, justo na hora !
Teria sido tão importante que me tivesse empanturrado, impregnando-me da dádiva que é, simplesmente estar viva !...

Mas não !
Dou por mim quase sempre a viver a destempo.  Dou por mim a adiar a vivência plena das coisas para melhores dias, para melhores ocasiões, para alturas mais propícias ... para depois.
Numa espécie de corrida insana atrás do momento que virá, depreciando o que tenho.

Guardo memórias para ver depois, olhar depois, deliciar-me depois.
Guardo fotos, porque um dia terei tempo para um deleite sem pressas.
Arquivo testemunhos antigos, porque chegará a vez de os usufruir com toda a disponibilidade emocional ... Um dia, seguramente !
Repousam no fundo das arcas, recordações escolares das minhas filhas, porque um dia ... sim, um dia então, sentar-me-ei junto delas para rever tudo outra vez ... tenho a certeza !
Os brinquedos aos quilos, ocupam e empoeiram na arrecadação, porque sempre esperaram melhores dias, dias adequados, para serem brincados ...
E não foram !...  As crianças já cresceram de mais, para os acarinharem e lhes darem vida de novo ...

E o tempo segue implacavelmente.
E um dia, quando eu conseguir olhar, enxergando ... quando eu conseguir reunir o discernimento e a força para me acordar ... finalmente ... já não terei tempo para a  emenda do rascunho que foi a minha vida.
Já não terei tempo útil para a passar a limpo ...
Já não conseguirei fazer-me sair do marasmo, do cansaço, da fraude, da insatisfação a que votei a minha existência ... Simplesmente porque a ampulheta esvaziou, e dramaticamente já não terei história p'ra contar !...
Já não terei oportunidade da tal segunda chance ... apesar de sempre a ter pressentido, e de sempre saber que na verdade, a chance de cada um, é apenas a única chance de cada um !...



Anamar

sábado, 18 de junho de 2016

" LIBERDADE OU SOLIDÃO ? "

O Homem é um animal gregário.  É bicho de alcateia, de clã ...
É  "contra-natura" a sua existência como ser isolado, sobretudo se esse isolamento lhe cai no colo, à revelia de opções suas.

Todos nós, sós ou em companhia de uma ou mais pessoas, necessitamos dos nossos tempos pessoais.
São tempos fundamentais e imprescindíveis, de encontro e partilha connosco mesmos.  Eles são propícios à introspecção, à análise, à reflexão, à meditação ... à correcção.
São tempos equilibrantes ... devem ser tempos de crescimento e melhoria.
Esses tempos são nossos por direito, e assim vivenciados  nunca serão um fardo, ou sequer sentidos como solidão.

Podem simplesmente ser momentos, em que temos total liberdade de subverter, de desafiar limites, de luxar as nossas pequenas prevaricações ( tão simples quanto metermos a chave à porta a nosso belo prazer, sem sentir a obrigatoriedade de justificar, explicar ...  porque lá dentro, o silêncio desse momento, nos aquece a alma, nos aconchega ... nos convida ... nos fazia falta )
Ou o luxo de tomarmos o tal café no nosso sofá ... de passarmos a "nossa" música quantas vezes quisermos, à altura que quisermos ... de lermos o nosso jornal, sabendo que não teremos interrupções ... de comermos quando tivermos fome, de dormirmos, se o quisermos ... de andarmos nus, descalços, desgrenhados ... se for essa, de momento, a nossa vontade.

Isto é liberdade usufruída, saboreada, desejada, e nunca solidão !

A questão não é tão simplista assim.  Tudo na vida tem gradações. Como sabemos, nem tudo é completamente preto, nem tudo é completamente branco.
Também, com a análise destas questões.

Qualquer situação imposta, continuada ... recorrente, forçosamente violenta o ser humano.
Ninguém aprecia reiteradamente os mesmos sabores, as mesmas rotinas ... os mesmos hábitos.
E a questão coloca-se quando ela se arrasta temporalmente.
A experienciação de novas realidades, particularmente no caso de ligações afectivas que se dissolveram não importa porquê, deixando os intervenientes nas mesmas, face a outros figurinos, comunicam uma falsa sensação de liberdade, pelo menos nos tempos iniciais.
Se a situação finda  tiver então sido penosa, frustrante e traumatizante, somos invadidos por um deslumbramento, por uma descompressão, pela vontade louca de reinício.  Por uma Primavera de vida !
Um reinício que se nos apresenta como salvação pessoal, como desiderato de vida nova, como total libertação, como um direito nosso, afinal .
E vive-se assim, quase num êxtase conseguido, tempos que obviamente dependem também de outros vectores pessoais.
As componentes  personalísticas, familiares, sócio-culturais, profissionais e outras, têm determinação absoluta no encarar da realidade e no que ela nos passa a representar : liberdade ou solidão?

Solidão, no duro, sem outra admissível classificação, é aquela que se impõe quando somos forçados a viver, o que tempos antes se nos afigurara como libertação, êxtase ... uma conquista dourada.
Porque, voltando ao início do meu texto, o Homem precisa partilhar e partilhar-se.
Precisa cumpliciar, dividir, usufruir-se enquanto ser emocional além de racional.
O Homem aprecia a dialéctica, depende dela, cresce com ela, aperfeiçoa-se na dúvida, na troca de formas de sentir e pensar.
O Homem gosta de sonhar junto, mas também de sofrer com apoio.

Se isso lhe for negado, a solidão instala-se, tenho a certeza.
Quando o silêncio não desejado permanece, quando a ausência de ombro, de colo, de ouvidos e boca se instalam ... quando as paredes da casa crescem ... quando as noites se tornam mais escuras e fantasmagóricas ... quando as lágrimas não têm quem as seque, além de nós mesmos ... quando passamos a falar-nos alto, para nos acompanharmos ... quando a angústia instalada amarinha e dói ... podem estar certos ... ISSO, é solidão, sem jeito !

O Homem  então, dependendo uma vez mais da sua própria forma de ser, da sua capacidade resiliente, da sua criatividade, da sua formação interior, enfim, de toda a sua componência  ... busca sucedâneos, porque afinal, precisa continuar a viver.
E cada um de  "per si"  contorna, por razões de sobrevivência, o melhor que sabe e consegue, a sua nova realidade, para que a suporte.

Em suma : as opiniões e perspectivas de cada um face a qualquer questão, são obviamente subjectivas, e valem o que valem.
Esta, a minha forma de análise  perante esta dualidade ou dicotomia que avassala as vidas humanas, mais do que concebemos, nos tempos actuais.

Não sou portanto defensora de opiniões extremas e estratificadas.  Falo de experiência pessoal, de análise mais prática que teórica, de convicções que tenho para mim.
E como tal, defendo e defenderei sempre, penso, soluções intermédias.
Não perfilho a amputação da minha liberdade, como ser individual, e sempre que a deseje.
Não perco de norte, que quase sempre  a  maior solidão se experiencia frequentemente no meio de "multidões", que nada nos dizem ... mas também me rebelo e amarguro com a solidão imposta pela Vida !

Anamar

sexta-feira, 1 de abril de 2016

" AS NOSSAS ESTAÇÕES "





Os primeiros farrapos verdes já assomam nas árvores e arbustos, com a doçura deste sol fraco da Primavera recém chegada.
Olhando de longe, ainda parecem despidos, com os ramos aparentemente nus, contra o céu, em contraste.  Mas olhando melhor, lá estão os brotos verdes, tenros e viçosos, promissores de cabeleira farta que se irá compor .
Mais um ciclo de vida a recomeçar, depois da sonolência do Inverno ...

Este renascimento que sempre acontece ano após ano, quando a Primavera ladeando a Páscoa promete a tal renovação da Natureza e do Homem, patenteia-se no mundo que nos rodeia e no coração do próprio ser humano.
Este, eclode  de um período sonolento, entorpecedor e escuro de um Inverno que nos hiberna, que nos introverte e de alguma forma, nos recolhe.
Foi um tempo de portas fechadas, de intimismo, de regresso, de reflexão e de silêncio ...

E depois, a explosão prometida anuncia-se, e há um deslumbramento generoso e excessivo, no mundo à nossa volta.
As  cores,  os  cheiros,  os  sons,  a  magnanimidade  de  tudo  denuncia-se,  mostra-se ... dá-se ...

Caminho pela mata, silenciosa e contidamente.
Maravilho os olhos, os ouvidos, o nariz, com a gratuidade da oferta em torno de mim.
A vida explode com a pujança de alma nova, com a irreverência de toda a juventude, com a força indomável das seivas revigoradas ... com o despudor de seios entumescidos ...
O "sangue" novo lateja, irrequieto e imparável.  A escorrência da perenidade exibe-se, cumprindo desígnios ...

Pensava para comigo : todo o ano o ciclo se repete !  A Natureza se concede uma nova chance.  A vida "emenda a mão".  A perfeição emerge do nada para a luz ... O caos e a ordem coexistem, na composição da realidade ... E a realidade se faz em milagre !...
Todo o ano, a árvore adormece, dorme e acorda.
Todo o ano se despe, para se engalanar outra vez, mais ricamente, se possível .
Todo o ano floresce, pomposa, frutifica, lança sementes na garantia da continuidade ...
Todo o ano atravessa Primaveras, Verões, Outonos e Invernos ... E recomeça, para voltar a atravessar mais ciclos de vida ... muitas e muitas vezes ainda ...
Não precisa ficar saudosa da Primavera que partiu.  Voltará uma outra, no próximo ano ...

O Homem não !

O Homem dispõe de uma única oportunidade.
O Homem usufrui de uma única vida, onde esgota sem retorno, todas as estações da existência.
E sempre sabe que a ordem que as sucede, jamais é subvertida.  E sempre sabe que esgotados os seus tempos, a inevitabilidade do mesmo, lhe impõe, sem volta, a que se segue.
E que a que partiu, partiu para sempre ...
O Homem sabe que tem ao seu dispor, um único ciclo ... e não mais.
Finda a sua Primavera, jamais "farrapos verdes" lhe brotarão de novo, no coração e na alma.
Jamais novos pássaros saltitarão nos seus galhos enfeitados.  Jamais novos ninhos habitarão as suas ramagens frescas.  As flores fenecidas não poderão eclodir outra vez, e os frutos maturados no pé, foram-no uma só vez na vida ...

Um ano ... um só ano nos é dispensado !...

Penso que tomamos consciência disso, frequentemente tarde de mais.
Penso que reflectimos pouco, a propósito.  Penso que esgotamos mal a vivência de cada "estação"...
Deveríamos sorvê-la à exaustão ... sabendo-a única ...
Deveríamos extasiar-nos sabendo-nos vivos, a atravessá-la ...
Deveríamos colher todas as braçadas de flores frescas, com que a Primavera nos prestigia ... todas as espigas das searas loiras dos nossos Verões ... todas as frutas maduras dos Outonos doces e pródigos ... e  toda  a  serenidade  e  paz  dos  rigores  dos  Invernos  destinados ...


Mas quase nunca o fazemos !...  Quase sempre o esquecemos !...

Anamar

quinta-feira, 10 de março de 2016

" TESTAMENTO VITAL "





Deve ser bom andar lá por cima !...

A tarde fechou com aquele céu cinzento uniforme, sem sol nem nuvens.  Apenas uma abóboda sem princípio nem fim.
Há um recolhimento íntimo na natureza ...
Elas andam bem por aqui.  É um bando displicente  de asas esticadas, bailando indiferente  ao sabor do vento.  Uma ronda de liberdade pelos céus fora, até onde a minha vista alcança.
E chove.  A chuva miúda tamborila na vidraça, a aragem desconfortável agita a folhagem das poucas árvores que se divisam, e o céu é um imenso oceano agitado com ondas incessantes, para cá e para lá.
Elas, as gaivotas, pequenos barcos sem leme nem velas ...

Algumas parecem rasar-me a janela.
Se errassem de rumo, tenho a certeza que viriam povoar este meu ninho de quatro paredes, que às vezes se alteiam, indiferentes à minha solidão.
Se percebessem como as invejo,  deixavam-me partir com elas num destino sem tamanho ou limite ... na medida  do que sonho ...
Iria ver o mundo de cima, cortaria os oceanos, pisaria as terras de sol quente e cheiros doces.
Olharia os infinitos que o não são, desceria vales e subiria montanhas . Pisaria as areias escaldantes dos desertos, porque também eles são espaços de liberdade, num abraço volúvel de dunas inconstantes .

Por enquanto, venho à janela ... Vejo-as por detrás dos vidros, espicho o olhar no desenho dos seus volteios, perco-me sonolenta no encantamento de estar viva e no sonho de voar no pensamento ...
Por enquanto, inspiro fundo o ar volátil e manso, ganho asas no coração e parto ... sempre parto ...
Destinos incertos ... são os meus !...

E sinto um reconforto na alma, porque ainda sou timoneira da minha própria embarcação.
Porque ainda me faço ao leme em mar flat ou alteroso.
Porque ainda me guio na estrela polar dos meus céus.
Porque acordo em cada manhã, acreditando que um sol claro iluminará o meu dia, ou que um céu cinzento mas pintalgado de gaivotas livres, encimará as minhas horas.
Porque me faço à vida no crédito das minhas forças, da minha coragem e da minha esperança ...

E sorrio ... interiormente sorrio, no beijo solto e leve com que toco o botão florido nessa noite.
Sorrio pelo privilégio do dia a despontar ...
Na carícia doce com que afago a gratidão que o coração me sopra, por existir, por me saber e por  me amar ...
E vejo-me abençoada, e vejo-me redimida e vejo-me solta, no desalinho das emoções ...

"Tenho saudades de andar" - dizia-me ela, cativa de uma cadeira de rodas ...
"Tenho saudades de ser" - soltava aquela voz encurralada numa cama de hospital.
Rosto macilento, esfíngico, olhos encovados, desesperança no silêncio doído . Tudo tão penumbrento quanto a luz coada pela janela púdica.  Vida suspensa de tubos, de agulhas ... de máscaras ...

E  tanta luz a jorrar além ...
E tanta música dos pássaros primaveris ...
E um exagero de cheiros, de cores, e deleites a exorbitarem nos sentidos !...
E tantas promessas veladas, desmascaradas na cabeceira dos sonhos !...
E a Vida provocadora no esbanjamento  dos corpos ...  E o insulto da morte demasiado perto e demasiado longe !...

Por enquanto, venho à janela ...
Por enquanto, velejo a minha própria embarcação ...
Por enquanto, vejo a chuva tamborilar pela vidraça ...
Por enquanto, tenho um céu pontilhado de gaivotas na aragem ... em ronda de liberdade !...
Por enquanto ...

Anamar