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domingo, 14 de junho de 2015

" VÓMITO "





Aquilo que vou escrever é absolutamente chocante, controverso ... se calhar revoltante.
Sobretudo para quem o leia pela rama, se ligue à leitura superficial do texto, se prenda ao significado simplista das frases .

Não importa !
Como afirmo na apresentação deste blogue, escrevo-o fundamentalmente para mim, coerentemente com o meu pensar e sentir.
Imune  a  preocupações de censura, ou a opiniões dissonantes ( até porque as pessoas que a ele acedem, quase nunca, ou nunca, fazem comentários sobre o que lêem ... ).  Sequer ainda, a  juízos de valor.

Estou mergulhada num processo irremediavelmente destrutivo  e sem outro tipo de solução, alternativa, ou saída.
Costuma dizer-se que "o que não tem remédio, remediado está" !  É um pouco assim de facto, embora pelo menos, o direito aos sentimentos e às emoções, qualquer ser humano tenha.

Tenho a minha mãe, com 94 anos, semi-acamada, sem mobilidade, com demência progressiva, e com um coração que "preso por arames", parece aguentar tudo ...
Tenho à minha frente, todos os dias e /ou noites, um quadro terrífico de alucinação, de descompensação cerebral, de descomando do resto da racionalidade que aquela cabeça determina.
A minha mãe ... aquela que o foi, obviamente que há muito aqui não está.
E esta, a que raramente me conhece, mas sobre quem lança a raiva de por mim ser "controlada", é uma caricatura triste, é uma figura patética, é um esgar de ser humano ... é uma tristeza ... num "espectáculo" de vida, a que ninguém deveria ter obrigação de assistir.

A impotência que sinto, face à sua destruição como pessoa, a raiva que sinto contra uma degradação irreversível, a mágoa e a dor que me assolam face a um "apodrecimento" incontrolável, deixam-me em desespero, em ódio e em revolta,  vivem comigo de dia, e pernoitam comigo na almofada que não consegue conciliar-me o sono ...
Porque "viver", não é apenas acordar, respirar, e adormecer de novo.
Porque viver não deveria rimar com sofrimento, com dor ... com piedade e comiseração ... com solidão de alma ...

E digo para mim mesma : " eu não quero acabar assim ... eu não posso acabar assim !!!"
Nenhum ser humano deveria ... ninguém mereceria ... NÃO  É  JUSTO OU POSSÍVEL !!!

Que é feito da dignidade, que é feito da essência, que é feito da "vida", centelha da luz que distingue o Homem dos outros seres irracionais ?

Neste momento, dou por mim a olhar os velhos com quem me cruzo.  Olho-os, além de vê-los.
Não consigo olhá-los, que as lágrimas me não caiam.
A velhice é de facto feia, parda, cinzenta ... descolorida !
A velhice não comporta risos, esperança, futuro ... amanhãs ...
A  velhice  é  uma  partida  de  mau  gosto ... é  uma  piada  jocosa  de  humor  negro  e  desrespeitoso !
Os rostos pregueados, romanticamente conotados com "histórias de vida" ... podem, na verdade, não ser motivo de orgulho ... mas tão somente, sinais de uma inevitabilidade desesperada, que tem que se carregar.
Os velhos olham perdidamente o vazio, porque não descortinam nada mais para ver. Param os olhos, muito para além do que os rodeia.  Escarafuncham na vida, quando era vida e não morte !
O olhar opacizado vagueia ... entre o passado e um não-futuro ...
Fogem do sol, e buscam a penumbra ... porque estão a recolher-se ao útero telúrico donde saíram .
Procuram o silêncio, porque o "ruído" com que a vida se veste, é excessivo e descontextualizado do estadio que habitam.
A velhice "fede". Tristemente "fede" ...
É um grito amordaçado em gargantas que já não ousam fazer-se ouvir.
É um cansaço arrastado, que se quer parar, e não é possível.  É um pedido lancinante de arrego, é uma ânsia do colo que não se alcança mais ... é o estertor de quem sufoca no coração e na mente, quando a crueldade de alguns momentos de lucidez lhes devolve a "imagem"...

É duro ler isto ... é duro ouvir isto ... é duro escrever isto ...
Sobretudo quando convivemos impotentemente com esta realidade, exactamente  num "romance" sem fim à vista, um romance que não podemos rescrever, aligeirar, modificar ... que sabemos sem fiabilidade, sem futuro, sem esperança ... sem "happy end" possível !!!...

É isto, o destino ?
É esta "tragédia", o corolário da vida do Homem ?  É isto, o que lhe é concedido ?  É isto, tudo a que tem direito na saga que calcorreou, arrastando seguramente correntes e grilhetas, num percurso esforçado, cansado ... penitente ?

A minha garganta sufoca um grito tão grande, que ultrapassa o além !
A minha garganta queima, com o vómito de fogo que me sobe das entranhas, me entorpece a mente e me cega os olhos ...
O meu coração não se compadece desta realidade crua e dura ... Não consigo !!!


Estarei a ficar louca ???!!!...

Anamar

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

" OLHANDO P'RA DENTRO DE MIM ..."



E o céu lá longe,  fechou com uma estranha sobreposição de nuvens, como frente de rebentação  no areal deserto.   Por detrás daquela abstracta imensidão, um fogacho laranja iluminava ainda o firmamento  no estertor final do dia !

Era mais um dia de Novembro, deste Novembro pardo, que sempre se veste de  ocres queimados, de vermelhos envelhecidos, ou de verdes  recolhidos,  em tons de musgos beirando o Natal.
As montanhas no firmamento pariam água, água e mais água, neste nosso desconforto de desesperança !
Frio ... já algum frio, que me parece mais interior, ainda assim .
A menos que a solidão seja gelada ... Acho que a solidão é gelada, sim !...

Não há sobre o que escrever, a não ser que eu devasse  janelas que se iluminam, penetre nos espaços de aconchego, me deixe embrulhar em sonhos que sempre voejam por aqui, que não são meus,  mas são levados nas asas estendidas das gaivotas que recuaram.
Desistiram de mar, desistiram de escarpas empoleiradas, desistiram de inventar praias de maré baixa ... e o seu grasnido ecoa em agudos estrepitantes, pelos céus.
Lá de cima, já se deve ver o Natal, a progredir em  passadas largas.  Os azevinhos engalanados enrubescem,  e pingam as bagas encorpadas, ao longo dos caules espinhosos.

Daqui "vejo"  a mata. Vejo a serra penumbrenta, a cheirar a terra molhada, parideira de frutos e tímidas flores de Inverno.  Cheira a carqueja, cheira a lareiras distantes, e cheira à humidade que amarinha pelas pedras e pelos troncos ...  As clareiras escureceram, neste dia apagado há tempo já ...
Os castanheiros bravos deixaram de cuidar dos seus ouriços  entreabertos, que espreguiçaram  as castanhas, a esmo,  pela terra fria ...

Daqui "vejo" o mar. Vejo as falésias e as gargantas profundas das arribas, a contorcerem-se, no açoite impiedoso da rebentação ...
Vejo  o  verde  das  rochas,  tapadas  e  destapadas  pelo  impudor  das  marés.
E vejo o véu deixado na areia molhada, pelo noivado permanente das águas, que sempre chegam e sempre partem ...
Como tudo na vida ...

E chega-me o cheiro.  O cheiro doce e salgado das maresias ancestrais.  O cheiro do pilriteiro maduro, das urzes e das estevas do bosque,  Dos cedros, dos abetos, do gilbardeiro e das roseiras bravas.  E todos os cheiros que eu quiser, porque sou livre de os inventar ...

E chegam-me todas as emoções adormecidas no meu eu.  Reúno os escombros dos sonhos sonhados, e fecho os olhos, numa dolência de recolhimento, de entorpecimento da alma ...  de  cansaço indiferente,  que  já  não  se  subleva,  porque  não  tem  força  para  se  erguer ...

Chega-me  tudo ... tudo  o  que  estranhamente  duvido  ter  sido ... porque  parece  que  nunca  foi .
Chega-me a palidez de sépias antigas, o sombrio de memórias que tiveram cor, e luz, e cheiros e risos ... e murcharam no pé , como um botão de camélia que não teve força para abrir ...
E sinto-me a fenecer, como o sol precário desta tarde, a desistir ...


Anamar

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

" QUERO VOLTAR ... "





O avião deixou a Portela, e rumou ... Rumou céus fora, já a noite se abatia sobre Lisboa.

Ela partira ... e ela, ficara.  Não entrou no aeroporto a despedir-se. Odiava despedidas ! Esta, em particular.
Largou-a ainda na rua, de mala de rodinhas deslizando na calçada. Tratou de engolir com força o nó que se lhe apossara da alma, tratou de opacizar os olhos para não perceber que afinal chovia ... meteu a primeira, no carro que não desligara, e seguiu .

Afastou-se dali, rápido.  E enquanto a segunda circular se lhe desenrolava  indiferente, mais indiferente ainda, mais distante da chuva, das luzes, das buzinas, ela se sentia.
Havia uma espécie de amputação no ar.  Uma orfandade definida.  Sentia a opressão que uma violência gratuita e arbitrária, instala no coração.

" É ... não tens a noção desta cidade ... É um amor-ódio que experimento em cada segundo ... não pára nunca !
Sempre um barulho de fundo ... A única semelhança entre as pessoas, é terem braços e pernas ...
Suja e arranjada ao mesmo tempo ... linda e feia ao mesmo tempo ... tanta gente, e tudo tão sozinho !...
Homens lindos e homens horríveis ... Caríssima ... Talvez venhas a gostar de passar temporadas, aqui comigo ... um dia ... Museus lindos, que precisam uma semana para se verem ...
Não !  Não tens a noção do que te falo !...  Multiculturalidade ... Cosmopolitismo ... Nas pessoas, não encontras uma fisionomia semelhante ... Tudo coexiste ... ninguém repara em ti ... Podes morrer, que ninguém dá por falta !... "

As primeiras mensagens, a trazerem o frio e o abandono, de lá ...
As mensagens de resposta, a levarem o cheiro da terra molhada da serra, o azul do céu, os raios do sol que é só nosso ... o verde da esperança e do ânimo ... ainda que a saudade, essa coisa tão próxima, não desentranhe nunca, e mortifique, a cada dia que nasce mais vazio ...
A incerteza, a dúvida, a angústia ! A inevitabilidade , que como todas, não é escolhida, impõe-se...
E depois, há aquela paixão que não se suspeitava. Aquela Lisboa que afinal é muito mais bela, que tem regaço de mãe, e braços de embalar ... Que tem colo, que é ninho, cúmplice e aconchegante ...
Há a gaivota no rio, e o vento que empurra a vela ... há o crepúsculo em Sintra, e há um Outono doce, dourado de plátanos a despirem-se, enquanto o cheirinho das castanhas no assador, sobe, e nos fala da casa ali ... do refúgio a esperar-nos, ali tão perto ...
E há o riso dos amigos, a força dos afectos ... as cumplicidades partilhadas com a mãe, com irmãos, com avós... com crianças ... Com família, que teve de desprender as amarras e deixar-nos  partir ...  
E há até o fado, que é frase feita, mas que é verdadeira.  Bate, e carrega em cada nota o que é ser português, e percebê-lo, por vezes tardiamente, quando nos escorraçam da nossa terra ...
E há o mar salgado ... com as lágrimas de Portugal a encherem-lhe as marés ...
A  nostalgia, é então a única coisa palpável,  que pinta o céu cinzento, lá longe !...

"Angústia... sim ...  Angustiada, vivo ... Talvez  a  confrontar-me em definitivo, com a injustiça de  ter que deixar o meu chão !..."



Anamar

quinta-feira, 31 de julho de 2014

" TANTO TEMPO JÁ !... "




Pensava eu com os meus botões, olhando o insípido cinzento do dia, num Verão nem carne nem peixe :  faz hoje vinte e dois anos que a vida me deu uma rasteira daquelas !
Faz hoje vinte e dois anos que o meu pai me deixou ... E com ele, partiu aquela ingenuidade e bonomia com que acreditamos as coisas certas da vida .
Como se a vida tivesse "coisas certas" !...

Foi o primeiro grande revés, assim uma espécie de experiência em proveta, para ensaios futuros.
A gente balança, a gente degusta o sabor azedo do abandono, a gente experiencia mesmo a doer, uma orfandade estranha, como o menino sozinho que no deserto  olha as areias monotonamente iguais, a perder de vista, sem caminhos ou nortes ... e não sabe para onde há-de ir ...
E zanzamos por ali, sem atinar muito bem se apanhamos os cacos, se reconstruímos o puzzle, se somos capazes de seguir adiante, apesar daquela injustiça contra-natura  e mortal.

Depois, recomeçamos.
E recomeçamos com novos códigos, novas formas de sobrevivência, novos acreditares, novos empenhos ...
Porque o ser humano tem inata em si, a capacidade regeneradora.

Recomeçamos ano após ano, mês após mês, dia após dia, por cada nascer e cada por de sol.
Por cada alegria ou cada tristeza, por cada insucesso ou cada vitória, por cada riso ou por cada lágrima !
Esgravatamos cada pedra coberta de musgo, e com dedos sangrando, progredimos na encosta ... quando quase já não acreditamos !

Renascemos com cada filho que se aninha no nosso colo, com cada neto que nos conta a sua história, com mãe velha, sequiosa de mimos ...
Reerguemo-nos com cada amor que pinta de arco-íris o nosso céu ... ainda que o arco-íris seja passageiro, e sirva só de trampolim às estrelas ... e nós o saibamos ...
Amarinhamos até ao pico da montanha, sempre que precisamos ver o céu azul, quando as forças ficam falhas ... uma e outra vez ... E não sossobramos ...
Olhamos as flores, e deixamos que os colibris bebam as nossas lágrimas teimosas, que às vezes ficam cegas frente ao universo, complacente e generoso ... E ajoelhamos, que é o primeiro degrau  para  a humildade do percurso ...

E recomeçamos, com as bengalas dos que nos amam, depondo armas de mágoa, deixando raivas e ódios pelos atalhos e veredas.
Aprendemos a perdoar, porque queremos e somos capazes ... E um coração sem dores impressas, pesa-nos menos na jornada !
Perdoamos, mas não esquecemos ...
As páginas do livro foram escritas, e sempre as folheamos, quando nos faz falta ...

E recomeçamos, quando parece que já não há muito para recomeçar.
Mas sempre há !   Porque todos os dias têm alvoradas,  e todas as manhãs acordam de uma noite.
E se hoje choramos, amanhã iremos seguramente gargalhar ... porque a roda é isto... voltar ao princípio, todas as vezes que se fechou o ciclo !

Há vinte e dois anos que fiquei mais pobre ... Ilusoriamente mais pobre, apenas !
O meu pai partiu, só porque tinha que partir ... Era a hora, urgia cumprir o decidido.

Deixou-me  uma nuvem de afecto, à qual só eu tenho acesso. Da qual só eu conheço a chave de entrada.
E ganhei um querubim de olhos verdes, gestos doces e asas protectoras, que me toca ao acordar, que me embala ao adormecer, e que conversa comigo à surrelfa, quando ninguém está por perto, na nossa linguagem  única, nos nossos diálogos de silêncio, e eu o "alugo", com  as  minhas  dúvidas, as  minhas ansiedades,  as  minhas  inquietações  e  os  meus  medos ...

É com ele que renasço, quando ofego de cansada ...
É com ele que recomeço, quando penso que já não vale a pena !...

Anamar

domingo, 11 de maio de 2014

" AMEM-ME OU DEIXEM-ME ! "



Até parece que estive fora.  Até parece que fui de férias.
Não tenho memória de um afastamento tão longo, aqui deste meu espaço !
Mesmo quando viajo, sempre vou artilhada de todos os necessários, para escrever apontamentos, crónicas de viagem, relatos dos locais por onde me perco.

Pois é !
Só que desta feita, estou por aqui, estive por aqui, não saí do mesmo lugar.
Apenas houve alguma coisa que de mim se distanciou, à minha revelia : a vontade, a necessidade, o desejo, o interesse, e até o gosto por debitar o que quer que fosse ... e a valorização reconhecida do que pudesse escrever.   Como  consequência,  a  sua  injustificação !

Escrever sobre mim, incomoda-me, e presumo que incomode os outros.
Aferem-me, analisam-me de lupa, perscrutam-me com olho clínico e crítico.  Os mais próximos acham-me tontinha, olham-me com aquele olhar complacente, com que brindamos os irremediáveis de espírito.
Entendem-me como ingrata face ao destino e à vida, porque afinal,  de acordo com os seus parâmetros avaliadores de pessoas com vida normal ( se se considerar como normal, esta coisa que não se entende bem, mas que se cumpre diariamente ), eu tenho tudo, tudo o que para eles é a visão da felicidade absoluta : eu tenho tempo, eu não tenho limitações de nada, abstractamente falando, eu funciono à minha vontade, com o meu livre arbítrio, fazendo as minhas escolhas a cada momento.
O que se pode querer mais ?
A minha existência é na verdade, o "el dourado", é o desiderato que todos ansiariam alcançar, configura o que todos pediriam a Deus, usufruir.

E portanto, não a aproveitar, não a valorizar, e, blasfémia suprema,  dela me queixar e nela  me sentir infeliz, é uma injustiça e uma ingratidão sem tamanho ... ou é coisa de doidos !
Só os maluquinhos perdem a noção da relatividade das coisas ;  só os supra-egoístas não têm capacidade de enxergar além do seu umbigo e do seu pequeno mundinho ;  afinal, só os comodistas, os incapazes de análises isentas e objectivas, os incapazes de se transcenderem, ou tão simplesmente de irem à luta ... em última análise, só os privilegiados dados a vitimizações balofas, é que se queixam, de barriga cheia !

Talvez !
É  possível que eu seja tudo isso.  É possível que não consiga alterar nada disso, apesar de me degladiar numa dialéctica interior, insana.
É possível que não tenha sucesso, e que me estafe, numa busca serôdia de outra personalidade, ou de outra capacidade de enxergar o mundo com olhos diferentes, que não aqueles em que me forjei.

E não sei  fazer melhor.  De facto, começando por mim própria ( que seria a principal beneficiada ), não encontro bússola que me troque os pólos da mente, que ponha o meu globo a rodar ao contrário, que me inverta os sentimentos aqui dentro do peito, que me projecte outro filme no écran, que me acabe com os "dramas", para os quais "já não há paciência" !...
Não encontro !

E  estou  cansada,  de  facto,  muito  cansada.  E  proporcionalmente  desistente ... existencial  e  mortalmente infeliz !

E como nada muda, e como não mudo nada, e como o tempo passa, corre, some ... e porque como os burros, continuo empancada no mesmo ponto ... e porque nada tenho de interessante para escrever, e porque falar de mim, deste obsessivo pântano donde não saio, é entediante, desinteressante e chato ...
é esgotante, é execrável e inglório ... em suma, é um nojo ...
... e como de tudo o que é entediante, desinteressante e chato, a gente tende a afastar-se, a gente tende a evitar, a gente não é obrigado a aguentar ...

... amem-me ou odeiem-me ... mas deixem-me em paz !!!...

Anamar

terça-feira, 1 de abril de 2014

" FUGAS "



À medida que os anos passam, à medida que já andei mais do que tenho para andar, mais me afasto do ser humano e mais me aproximo da Natureza, e de tudo o que ela nos disponibiliza.

Neste momento da minha vida, há duas coisas que não só aprecio, como valorizo primordialmente, e me são imprescindíveis : por um lado, desde logo, poder usufruir de uma conversa amena, sem pressas, em paz, bem tranquila, com alguém que me interesse vivamente ... por outro, poder mergulhar na quietude que a Natureza pródiga e generosa nos oferece ainda, em pequenos retalhos deste nosso conturbado mundo !

De facto, poder estar junto de alguém com quem sinta afinidade, conversando de tudo e de nada, como uma personagem nua em cena, sem limitações, sem preocupações de retoques ou artificialismos,  quer na presença,  quer na palavra, quer no gesto ...

Poder mergulhar numa partilha de opiniões, de pensamentos, preocupações, ansiedades ... ou alegrias, ou novidades, ou dúvidas, ou projectos ... ou mesmo sonhos ... ( aquelas pequenas / grandes coisas que nos afloram à cabeça, com ou sem relevância, mas que são a nossa vida em cada momento ) ...

Poder sentir gente com coração, calor e cumplicidade ... aquela coisa invisível que passa e nos aquece a alma, nos sustenta o espírito ... numa identidade perfeita, na identidade que se reconhece, quando do outro lado, ao nosso lado, está alguém que amamos, seja o filho, o amigo, o amor ... alguém a quem dizemos tudo, sem receios das nossas fragilidades, porque não nos julga, apenas nos ouve ... e nos aluga o coração gratuitamente ...
em suma ... alguém que fala a nossa língua ...

Poder tudo isto, é sem dúvida, verdadeiro luxo da existência, privilégio da vida, que nos faz sentir ricos e sortudos ...

Por outro lado, confundir-me com a Natureza, miscigenar-me com a assombrosa generosidade com que nos surpreende diariamente, mês após mês, estação após estação, olhá-la simplesmente, ou mergulhar apenas no seu silêncio, é retemperador de forças, é equilibrante para a alma, e é uma alegria sem limites para o nosso ser !...

De facto, cada vez mais me afasto das aglomerações de gente, dos eventos sociais normalmente desinteressantes, entediantes, frívolos e vazios.
Lugares de arrebique e ostentação de "plumagem", de arroubos narcísicos e carícias para os egos enfunados, infelizmente.
Não passam quase nunca, de feiras de vaidades, despojadas de conteúdo de valer a pena.
São quase sempre, verdadeiras perdas de tempo !...

E refugio-me então, em espaços tanto mais interessantes, quanto menos foram sujeitos à intervenção humana. 
Os  locais mais selvagens, mais inóspitos, menos "trabalhados", são sem dúvida os mais gratificantes, preenchedores e enriquecedores.
O homem sempre estraga, sempre adultera alegando alindar, ordenar, disciplinar.
Como se a Natureza carecesse de disciplina, e não tivesse a sua, a própria, a harmonia ditada pelo Artesão que a arquitectou, jamais inigualável ou substituível !...

Por isso, sempre que posso, fujo da babilónia em que o Homem vive,  fujo do labirinto de betão, onde quase sempre o sol tem que pedir licença para entrar, onde o verde é regateado ou plastificado, onde o azul do céu se espreita "à surrelfa" por entre muros, onde os sons têm a agressividade do matraquear humano e do motor das máquinas, onde o ar tem o peso dos escapes poluidores, onde não há pássaros, não há insectos, não há o embalo manso da brisa no arvoredo, não há o aroma adocicado das flores espontâneas e coloridas ... muito menos o cheiro a terra molhada ...

... e procuro um pouco de tudo isto, e submerjo no cerrado da serra, atravesso os córregos da planície, subo ao alto das escarpas, e converso com a claridade esbanjadora do astro-rei, e sorrio com os farrapos brancos da espuma nos rochedos verdes, e sugo e deixo que a aragem se me entranhe até ao mais recôndito de mim mesma, e tactuo-me com as estrelas do firmamento escuro,  onde a lua altiva, impera ...

... para não definhar, entristecer ... morrer ...
Para ter a certeza que, apesar dos pesares, ainda estou viva !!!...

Anamar

sexta-feira, 7 de março de 2014

" ÀS MINHAS TRÊS GERAÇÕES DE MULHERES "



Amanhã, celebra-se mais um Dia Internacional da Mulher .
Mais uma efeméride "vendida", para obviamente vender ...

Não sei o que é ser mulher !
Sei que  há diferenças notórias, substanciais e visíveis, entre os géneros, ou pelo menos, entre  o  arquétipo de cada um dos géneros.
É teórico que o Homem seja tido como racional, mais distante, pragmático, na colocação prioritária dos seus interesses, centrado funcionalmente, emotivamente mais volúvel, já que o Homem é reconhecido como fundamentalmente "visual" ( como se diz ), nas suas relações afectivas ... e  a  Mulher, como "emocional" ... menos "cabeça" e mais "coração" !

A mulher de hoje, é multifuncional,  e penso que isto lhe foi determinado pela necessidade vital de se distribuir, com competência, e em simultâneo , por meios familiares, profissionais e sociais.
A mulher é sensitiva  ( não é em vão que se fala no seu sexto sentido ) .
É abnegada, esquece e limita-se a si mesma, em função da sua realidade envolvente, e dos que dela precisam, convive e é,  com frequência, sustentáculo de dificuldades sérias, na sua própria estrutura familiar.
E supera-se, funcionando como esteio,  dessa mesma célula, inventando e reinventando, um "modus vivendi", suportável.
Tende  a  ser  uma  boa  profissional,  de  excelência  às  vezes,  embora,  estou  certa,  nunca  a  família ( mormente os filhos ), seja preterida, em função da profissão.
Porque isso é biológico, e genético.
Como tal, a exigência que faz à sua pessoa, para cumprir esse desiderato, traduz-se num sacrifício, globalmente acrescido, e numa transcendência de si própria .

Quando ama, a mulher dá-se, rende-se, entrega-se com satisfação, e pode mesmo, apenas exigir o mínimo retorno.
E nada do que lhe é pedido, constitui uma carga ou uma impossibilidade.
A mulher chega a ter o mérito, de segurar um amor incondicional, por um homem que não lhe corresponde em idêntica proporção ...
Mas não desiste ... desdobra-se,  frustra-se com  frequência, dói-se, morre aos poucos ... mas  continua  lá ( quantas  vezes,  analisando-se  com  frieza ... estúpida  e  injustamente ... Esta a  única palavra que nos ocorre ... ) !

E chora ... A mulher chora muito ...
Mas chora no seu silêncio, no seu canto ... isola-se p'ra chorar.
Porque, muitas vezes, tira das lágrimas que lhe assomam, risos de fazer de conta ...
Colhe na ausência de esperança, uma poalha de luar, para seguir no seu caminho ...
Pinta na escuridão que desce, sírios estelares, que lhe iluminem o trilho a percorrer ...
Transforma os espinhos em tapetes mansos de musgos e erva verde, fofa e macia, para que, quem venha atrás, sinta o andar atapetado ...
Abre os braços, como asas protectoras, como ninho, onde os ventos de borrasca não derrubam os seus ...
Busca no desespero, força, mordendo os lábios até sangrarem,  ditando um compasso de espera  ao coração, para que ele adormeça e se aquiete ... até que a paz o invada !

É simultaneamente, uma fortaleza inexpugnável, e o aconchego duns braços, doce e macio, onde acolhe o Homem, enquanto filho, enquanto irmão, enquanto amante, e mesmo enquanto pai, velho e alquebrado, sendo  ombro e bengala ... ajudando-o  a transpor a derradeira  ponte da sua vida !

Sou charneira, entre três gerações de mulheres.
Atrás de mim, fica-me a minha mãe, que é tudo isto, foi tudo isto ... nos seus noventa e três anos de vida.
Geração forjada na dureza da terra que a viu nascer,  com  a  força e  a  perseverança, que  aquele  Alentejo  ( pouco generoso às vezes ), lhe conferiu !
Foi / é, uma combatente, uma resistente, uma sobrevivente ... uma Mulher !...

Depois de mim, tenho duas outras Mulheres, que na idade que já têm, ombreiam comigo, nos percalços, nas dificuldades, nas alegrias, nos momentos bons, mas também nos menos bons, desta nossa existência !
Já me couberam no cólo, já as guiei pelas mãos, com elas já ri...por elas, já chorei muito !
Continuarão comigo, se o Destino assim o quiser, até que sejam elas que chorem comigo, riam comigo, me alinhem os cabelos prateados dos tempos, me dêem as mãos, para que  um dia, em passo titubeante, eu possa ainda chegar à janela, eu possa ainda, perder-me a olhar o sol, descendo no ocaso !...

Mais  à  frente,  está  alguém,  que  nos  seus  nove  anos, começa  agora  a dar os  primeiros  "passos" ...
Alguém que vai saber, forçosamente, aos poucos e poucos, qual o seu real lugar no Mundo ...
Alguém que vai perceber em si, este privilégio não partilhado,  único,  insubstituível, incomparável, de dar a vida, e de dar a sua própria vida, junto ...
O privilégio de ter nascido Mulher !...
À Vitória,  particularmente,  eu  saúdo !  Que  ela  albergue  em  si,  sempre, um  coração  bem  feminino ! Que nele, ela encontre sempre, uma fonte de generosidade, de amor e transcendência !

Eu, bem ... Eu devo ser um misto destas raízes, um enxerto destes caules, a frutificação, do antes e do depois de mim,  nestas formas  imperfeitas, de se ser Mulher !...

Anamar

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

" TAMBÉM É AMOR ..." ( a propósito do dia de S.Valentim )



No último post abordei os "muitos rostos" do amor, a partir de  "rostos" com que me cruzo, que observo com frequência, que analiso, rostos cujas histórias conheço, a minha experiência pessoal, enfim, expus o meu entendimento a propósito.

Calhou ser esse o assunto.   Calhou simplesmente, já que, como sabem, e constitui nota introdutória a este meu espaço, ele foca temas de forma aleatória, de conteúdo aleatório, e que surgem por isto, por aquilo, ou por nada, às vezes.
Acontece com alguma frequência começar num "rumo", e mudá-lo à medida que vou escrevendo.

Contudo, hoje, 14 de Fevereiro, é mais uma efeméride das tais que nos calendarizaram, importada não há muitos anos.
Quando eu era adolescente, na tal idade dos grandes e inflamados amores, nem se ouvia falar dele.
O S.Valentim, neste momento, está suficientemente "comercializado", suficientemente "plastificado", e adesivado aos corações que se vestem de vermelho, nem que seja só hoje, porque o vermelho é a cor da paixão, dizem ...
Todos os anos tenho abordado o assunto, por este ou por aquele ângulo, por forma a estar ciente de já o ter feito exaustivamente, por todos os ângulos possíveis e inventados.
Por isso, este ano, esgotado que está no meu espírito o tema, e procurando evitar redundâncias, recorrências, carência de originalidades, os tais lugares comuns que todos conhecemos, decreto um S.Valentim à minha maneira !...

Não deixa de ser na mesma o "rosto do amor", a celebração do amor, mas de uma certa forma de amor.
Não o amor homem-mulher, o amor-namorado, o amor recriado ( nem que seja só por um dia, por "decreto", e no qual não sei se vale a pena acreditar muito ), mas vou falar de um amor muito mais incondicional, muito mais despojado, muito mais autêntico por isso, puro, fiel, seguro e certo, sempre !  Afinal, um amor para toda a vida ...

Só podia mesmo estar a falar do amor pelos animais, sobretudo e em especial ( é justo que realce ) , a transmissão unilateral, deles para o ser humano, mais ainda do que a dedicação e o afecto, que o ser humano é capaz de lhes retribuir.

Só comecei a conviver com animais, a analisá-los, a apreciá-los, a entendê-los, e a sentir-me por isso, sortuda e gratificada, não há muitos anos.
E cumpre-me dizer, que devo isso a uma das minhas filhas, essa sim, dedicada afectivamente sempre, apaixonada sempre, fascinada sempre, por eles, sejam gatos, sejam cães, que de facto são aqueles que mais interagem com o ser humano, não excluindo contudo, qualquer outro animal.
Enquanto criança, os meus pais não estavam despertos ou sensibilizados para a questão, e como tal, fui criada sem que existissem animais domésticos, junto de mim.
Quando ia ao Alentejo, a casa dos meus avós, o máximo que conseguia, era levar diariamente o Carocho, o burrico lá de casa, a dessedentar-se ao chafariz.  E como isso me fazia feliz !
Em nossa casa existia um canário, que eu encarava mais como um objecto decorativo, do que como outra coisa.  Não havia qualquer interacção, entre mim e ele.

Casei com um homem, que embora oriundo da província, vivendo mesmo numa zona rural, convivia com animais, encarando-os numa perspectiva muito particular.  Para ele, bois, vacas, galinhas, coelhos, ovelhas, porcos ... e mesmo os gatos e os cães, eram vistos, não como companheiros do homem, mas, alguns como fonte de sustento familiar, quer pelo seu consumo, quer pela sua venda, outros, meros guardas das propriedades, sendo que os gatos eram vadios ... apareciam por ali ...
Isto, quando à nascença, não os metiam num saco e os afogavam no rio ...

De todas as formas, os animais, indistintamente, existiam para viverem na rua , e nunca dentro de casa.
Assim sendo, sempre se opôs, apesar das várias investidas da filha, a que houvesse animais no nosso apartamento.
Ela, contudo, nunca desistia, e inteligentemente foi esticando a "corda", introduzindo subrepticiamente, à vez, os que menos se faziam notar, e por isso, menos perturbavam.
Começámos com peixes, inicialmente de água fria, num modesto aquário de balão, que permanecia no seu quarto.  Depois, um aquário de água quente ( com todos os pertences adequados à criação das espécies que contemplava longamente, com fascínio) Esse, já teve honras de sala.  Uma tartaruga, posteriormente um hamster, viveiros de canários e periquitos de todas as cores possíveis, bicos de lacre ... e finalmente, quando eu fiz 44 anos e havia perdido o meu pai recentemente, o que me remetera para uma profunda depressão, apareceu-me, como presente de aniversário, com quinze centímetros de um gato peludo e fofinho, de olhos ainda azuis, enfiado num cestinho, com fita e laço a compor ...

Era p'ra me ajudar a ultrapassar a perda, e me chamar de novo à vida ... dizia ela !

Já aqui contei, algures num post, algures num ano lá para trás, a história, pelo caricato de que ela se revestiu.
Perante o facto consumado, daquela coisinha que me caíu nos braços,  como prenda do meu aniversário, eu não tinha como negar, e nem vontade tinha de fazê-lo ...
O meu marido saíu de casa.
Segundo  ele,  ou  ele,  ou  o  "animal" ( como  fazia  questão  de  afirmar ) !
Bom, esteve a " curtir a fossa", e a medir forças comigo, durante mais de um mês, findo o qual, percebeu lindamente, que o Óscar viera para ficar, e que o melhor era esquecer o acontecimento.
Quem nunca esqueceu a rejeição, foi o Óscar, que lho lembrava sempre que podia ...
Os animais são um espanto !

Assim, o Óscar foi o meu primeiro companheiro patudinho.
Era "mau como as cobras", como "soi dizer-se", mas a mim, elegeu como dona, contra tudo e contra todos.
O Óscar partiu há mais de quatro anos, ao fim de talvez uns catorze, passados junto de mim.
Depois, e simultaneamente ao Óscar, entrou a Rita, gato com nome de gata, por aqueles equívocos do destino ...
Aí, o meu marido já não ousou fazer birra., Afinal, um ou dois, era quase irrelevante ...
E a Rita, um europeu cinzento e preto, doce que só ele, acompanhou-me até há um ano atrás, em que também me deixou.
A Rita não era um gato, era uma criança.  Dormia comigo no interior da cama, como um bébé, bem juntinha ao meu corpo.
Nunca a Rita  me arranhou, nunca a Rita me mordeu.
Adormeceu, mansamente nos meus braços, a olhar ainda confiante, para mim ...

O Nico era um cão castanho, rafeiro, médio, desvalido da sorte, a degradar-se de dia para dia, nas ruas da minha cidade.
O Nico era um animal muito doente. O seu corpo era uma chaga total, pela sarna que o apodrecia em vida .
Tinha doenças muito graves, do foro auto-imune, e psico-motor.
Viveu com a minha filha, devotando-se mutuamente um amor sem limites e uma dedicação extrema, contra todas as previsões, para cima de dez anos.

Depois veio o Gaspar, outro rafeiro, reguila das ruas, e de doçura e gratidão extremas, com a minha mãe, para cuja casa foi.
O Gaspar e a minha mãe, muito velhinha já, entendiam-se claramente, com diálogos que partilhavam.
"Só lhe falta falar" ... dizia ela.
O Gaspar partiu há cinco anos, e a minha mãe sente até hoje, a ausência de um familiar, e beija a fotografia do Gaspar, que tem junto à cama, antes de dormir ...

Depois entraram duas gatas persas, a Cuca e a Concha, depois entrou uma cadela, a Nicas, depois o Sansão e a Dalila ( um casal de gatos ), por fim o Jonas e o Chico, dois gatos que coabitam comigo, e cuja companhia, eu não trocaria por a de nenhum humano ...

S. Valentim, a festa do amor ...
Do amor indistinto, porque para mim, o amor é simplesmente o "AMOR" ...

E o amor que os animais devotam aos donos, ou simplesmente a quem lhes estende uma mão, é a representação suprema, creio, do que deverá ser este sentimento :  puro, desinteressado, fiel, constante, grato, sem restrições ou limites, incondicional e por isso, autêntico, como disse ...

É um amor de Vida, e por vezes, muito além da Vida !...


Anamar 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

" UMA VIDA SUSPENSA "



O estado mais próximo do que eu considero ser uma hibernação, é a minha vida actual.
Com uma só diferença : durante a hibernação, e mercê dela, os animais perdem peso, que advém do consumo da gordura acumulada para o efeito, antes desse período letárgico.

E eu, ao contrário, mercê da minha "hibernação" actual, acho que acumulo gordura desgraçadamente, como compensação desta vida suspensa, que vivencio...

Efectivamente, venho a sentir-me de há já algum razoável tempo a esta parte, como o urso polar, que na época adequada ( e nisso a Natureza é absolutamente sábia, porque lhe prepara as condições para esse período ), recolhe à toca ... e adormece.
Desliga o comutador, faz o clique de apagar as "luzes" ... não está p'ra nada nem ninguém, e simplesmente fica num estado catatónico que me agrada bastante.

No Homem este estado associa-se à esquizofrenia ... mas palavrões àparte, parece-me muito abençoado, que quando a vida fica igual ao dia de hoje, por exemplo ... nós possamos recolher-nos, e fechar para "balanço".

Convém  dizer,  que  o  dia  de  hoje está  atmosfericamente  indescritível !
Todo o céu está por igual, cinzento tempestuoso, o vento desabrido e gélido, açoita para cima de nós uma chuva forte e ininterrupta, não há uma única frestazinha lá fora que nos anime, não há aves nos céus ( nem as gaivotas tão habituadas às intempéries marinhas, por aqui aparecem ), os animais sem abrigo bramem,  perante um desconforto tão impiedoso !...
São cinco da tarde e a noite aproxima-se a passos largos.

A minha vida está exactamente assim.
Não enxergo nada, mas mesmo nada, que me leve a deitar a cabeça de fora, que é como quem diz, que me motive a viver cada dia.
Tudo igual, tudo cinzento, tudo de borrasca, tudo cansativo ... tudo sem a mínima graça !
Dou por mim, diariamente, a sentir que o período mais feliz, confortável, e de maior fruição nos meus dias, é aquele que começa, no momento em que também eu, embora não sendo ursa ( tanto quanto sei ... apesar de às vezes duvidar ... ), entro na toca, desligo do mundo, esqueço essas trivialidades chatas que tanto maçam o ser humano, e "hiberno"... se desligar, é hibernar, de facto ...

E em cada dia que passa, mergulho nesta catalepsia, mais e mais cedo.
Passo a explicar : cinco da tarde, corro cortinas, porque entretanto anoiteceu acentuadamente ;  daí até às oito da noite, pairo, com mais ou menos paciência pelo computador, pela escrita ( quando se justifica ... o que está sintomaticamente a rarear ), ou leio um pouco, com os pés devidamente confortáveis, na abençoada escalfeta, que em boa hora adquiri, porque a verba para pagar à EDP, diminui na razão inversa do gasto da energia necessária a aquecer-me, neste Inverno tão frio ...

Às oito da noite, faço uma ponte com o Mundo, através do telejornal, que "grosso modo" me consegue deixar mais mal disposta, inquieta, penalizada, angustiada ... quiçá aflita, com as notícias que veicula.
Terminado o dito, inicio a preparação da toca, que é como quem diz, abro a cama com os adoráveis, macios, fofos e quentes, lençóis térmicos.
Faço então o saco da água quente, e aqueço a maior caneca que tenho, com leite, que ao longo do serão, será bebido aos poucos, passando portanto de quente, a natural ...
Visa ele substituir, na maior parte das vezes, o jantar que não me apeteceu comer, e simultaneamente  propiciar a conciliação ( dizem ) do sono.

O silêncio impera no meu quarto, os gatos já estão disciplinados de que acabou a hora do recreio, a televisão aos pés da cama passa só o que me interessa, e eu tapo-me até ao pescoço, tipo tartaruga debaixo da carapaça.

E este ritual está a acontecer, de dia para dia, cada vez mais cedo. Tem dias / noites em que dou por mim, a transpor a "porta do paraíso", às nove da noite ...

Claro que o dia seguinte, que se me inicia às onze da manhã ( ! ), é curto, convenientemente curto, para que eu não consciencialize por demais, esta preocupante indiferença perante a vida.
Quanto mais durmo, menos estou acordada logicamente, menos penso neste arrastar de dias, nesta solidão sem nada que me alicie, me sacuda ou me empurre.
Hoje, nada de diferente tenho de ontem ... nada de diferente espero de amanhã ...
Tenho portanto, uma vida suspensa !...

Quem me conhece minimamente, sabe que este marasmo, este arrastar, esta indiferença, me mata aos poucos.
Isto, porque p'ra que eu me sinta viva, tenho que ter um objectivo traçado, uma luta iniciada, obstáculos a vencer, projectos com que sonhar, esperanças a prometerem-se-me ... e sentir adrenalina nas veias, suficiente para me colorir a realidade.
Daí que, o cinzentismo da alma, à semelhança do cinzentismo deste céu que tenho especado bem frente à minha janela, é um estertor de um ser que preferiu adormecer, hibernar, recolher-se, como o lobo, ou o urso, ao covil, quando os tempos são adversos ...

Pode viver-se assim ?
Chama-se a isto ... "viver-se" ?
Que desfecho  tem  um  trilho tão sinuoso, enviesado e sem horizonte, que justifique o cansaço de o percorrer ?...

Se alguém souber ... que me responda !

Anamar

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

" TRINTA MIL ..."




Não escrevo, faz tempo.
Direi mesmo que há um ano !  Encerrei os meus escritos no fim de 2013.
Janeiro de 2014 iniciou-se, a vida regressou ao ritmo normal, com um tempo atmosférico arrasador, não só no país, como em todo o norte da Europa, Canadá e Estados Unidos, com manifestações naturais e atmosféricas, nítida e assustadoramente indiciadoras de uma mudança clara do clima, que já se detecta com uma nitidez, que não deixa margem para dúvidas, e que assusta !

O Homem, neste momento, é cada vez mais o artesão da sua própria desgraça, e da antecipação da finitude do planeta que habita.
As catástrofes que estão a fazer-se sentir, mostram-nos um domínio descontrolado da Natureza, com uma dimensão não vista antes, com consequências apocalípticas imprevisíveis ...
Ventos fortíssimos, temperaturas anormalmente gélidas, ondas até dezasseis metros, varrem e engolem tudo o que lhes aparece pela frente !
Lembro o tsunami de má memória, em 2004, na Tailândia e não só, com cicatrizes irrecuperáveis na devastação deixada, material e humana, numa zona já tão desfavorecida da Terra ...

Por cá, num país que está roto por todos os lados, só nos faltava que também o clima, sempre tão generoso, se tornasse carrasco, e espalhasse ainda mais, a miséria que já nos assola e nos deixa a viver em condições extremas, maioritariamente.

Bom, o início  deste post, parece um comunicado da Protecção Civil, ou um relato noticioso da metereologia ...
Efectivamente, ando exactamente como o céu que nos amanhece cinzento-chumbo, uniforme e ameaçador, com borrasca à vista !
As gaivotas corroboram a previsão, pois recolheram definitivamente a terra.
Nem elas, campeãs das ondas e das praias, se atrevem a desafiar as condições tão adversas.  Volteiam ao sabor da aragem, oportunisticamente aproveitam os golpes de vento, e de asas esticadas, passeiam-se por aqui, bem perto da minha janela !
E não é raro acordar com os seus grasnidos, o que me informa de imediato, quais as condições atmosféricas que me esperam !...

E não escrevo, faz imenso tempo, como dizia ...
Sinto que não tenho nada, de que valha a pena falar.
Entretanto, este meu espaço, registou  trinta mil entradas de leitores, o que não deixa de me espantar.
Não é um "sítio" divulgado, tem características de abordagens pontuais, específicas, são crónicas do imediato na maior parte das vezes, tem este ou aquele assunto que me "mexe" de alguma forma, artigos mais ou menos intimistas, mas ... nada de novo !...

Contudo, creio que tendo iniciado este blogue em 2008, atingi em 2013, vinte mil, e ainda em 2013, trinta mil acessos, de alguém que perdeu o seu tempo, lendo irrelevâncias, coisas comuns, meras formas pessoais e muito particulares na focagem dos assuntos ...
Afinal, um olhar, simplesmente ... o meu ... que vale o que vale !...
E sinto-me tão pequenina e tão insignificante, quando penso que me atrevo a escrever, face a "monstros" da escrita, com publicações empolgantes, geniais e brilhantes !

Li  recentemente dois livros que me preencheram, como há muito não acontecia ...
Duas obras de arte, seria assim que os classificaria ... Aquilo, sim, é que é escrever !
Perante eles, os meus trinta mil leitores, mesmo que tivessem acedido uma única vez, já constituem para mim, um deslumbramento, uma gratidão, e uma empolgação dos diabos !!!...
De repente, sinto-me uma "estrelinha" aos meus próprios olhos, sinto-me qualquer "coisita" no universo da literatura, sinto que terei semeado alguma coisa, por aí ...
E como já fiz um filho, já plantei uma árvore, e já tenho doze volumes, da reprodução em suporte de papel deste meu blogue, cumpri os desígnios do Homem, ao passar pelo planeta ...
E como trinta mil  "qualquer coisa ", é um valor que mentalmente custo a conceber, até parece que fiz o jackpot do euro-milhões !!!...

Só que  tenho um profundo "contragosto" :  Eu, que sou uma mulher de diálogo, de dialéctica, de partilha de emoções, pareço falar sozinha, como se pregasse no deserto ... porque são pouquíssimos os comentários que recebo às minhas opiniões, e até parece que não falo para ninguém ...

Dará assim tanto trabalho às pessoas que acedem, exporem-se, convergirem, divergirem, opinarem, positiva ou negativamente, face ao que exponho ??!!
Como sabem, podem fazê-lo sob pseudónimo, ou mesmo, anonimamente.
Com isso, eu sentir-me-ia mais estimulada, incentivada, desafiada mesmo, a escrever mais, talvez melhor, a superar-me ... em suma, até mesmo a ver o mundo com outros olhos !!!

Mas ainda assim, comentando ou não, não posso deixar de agradecer a todos quantos vêm espreitar, quantos passam por aqui, voltem ou não !!!

O meu  "MUITO OBRIGADA" !!!


Anamar

sábado, 21 de dezembro de 2013

A "TERRA"...



Costuma dizer-se, que quem nasceu em Lisboa, não tem terra .
Isto, porque a capital é um puzzle de peças, de todo o país.  Foi portanto trazida à cidade, uma multiculturalidade tão diversa, que penso que verdadeiramente sua, em tradições e costumes, é inexistente.

Estou a pensar na quadra que atravessamos, o Natal, que como exemplo, continua a levar as pessoas " à terra " para o passarem, porque lá encontram os seus, as suas raízes, tradições, as vivências que os terão acompanhado ao longo da vida.
A " terra" ... aquele torrão onde nasceram, que as viu crescer, onde se perceberam gente, um dia, e onde estão enterrados os que já partiram, onde as coisas e as memórias lhes fazem sentido.
Os cheiros são nossos, as cores são nossas, os sons também são nossos, e sempre se opera um milagre de uma tão grande fusão, que nos aquece por dentro !

Vêm os emigrantes, chegam os migrantes, busca-se um sentido de vida, apelativo a partilha, sobretudo, e muita cumplicidade ... porque há uma linguagem, uma qualquer corrente emocional e afectiva, comum a todos, que nunca nos deixam  indiferentes.
Essa, a razão de uma urgência na viagem, uma pressa de chegada, uma alegria interior que nos põe o coração aos pulinhos.
Há um entrosamento que não passa por religião, por evento social, pela exigência de calendário, pela hipocrisia que se vive na cidade grande, tão anónima, indiferente e "fria" !
A " terra ", a bendita terra, ainda guarda a ingenuidade, a pureza, e a autenticidade das coisas simples, para receber quem a busca.

Eu sou alentejana, logo, teoricamente, eu tenho " terra ".
Apenas, tristemente, nessa terra que agora me surge lá tão longe, resta-me um único familiar.
Todos os outros, são memórias, são fotografias, são vozes que ainda se escutam, são hábitos  que ainda se  recordam ... são  sítios,  apenas !
As casas estão lá, embora agora pareçam "fantasmas" nas nossas vidas.  Aquelas casas descaracterizadas, fecharam as portas que tantas vezes atravessámos, desde meninos, ao longo dos tempos;  imaginamo-las deserdadas de todo o recheio que tocávamos, inodoras dos petiscos da avó e das tias mais velhas ou mais novas, órfãs de todas as canções de Natal, partilhadas então à lareira, geladas, porque o calor dos corações já não pulsa naqueles espaços, e as alegrias já não têm veias para circularem ...

E sentimo-nos repentinamente espoliados, roubados injustamente.  Parece que o justo, seria que tudo aquilo continuasse a ser nosso, tivesse sido nosso "ad eternum" , fosse pertença intocável ... as coisas, os sentimentos, as vivências, mas sobretudo as pessoas ... E que tudo o mais, não faz sentido !...

Já não vou portanto, à "terra" ...

Agora, como filhós de contrafacção, como rabanadas atamancadas pelo fabrico em série, sonhos, que muitas vezes, de tão enzeitados, viram pesadelos, azevias a fingir que são as " nossas ", roubadas no recheio de grão, e que eram feitas por aquelas mãos sábias, que se foram .
E mesmo o bolo-rei, que ainda tinha prenda e fava, e que lá não existia, começa agora aqui, a ser já enteado na mesa da consoada ... Ninguém lhe pega !...

Aqui, é frequente o bacalhau comprar-se já empratado, porque não há tempo para confecções ( as pessoas trabalham no próprio dia da consoada ), e também já não é com as couves, as batatas e os ovos, regado com o bom azeite alentejano ( o  que  já  não  garante,  obviamente,  a  almejada  "roupa velha"  no  dia seguinte ) ... mas sim um "rafiné" bacalhau "à qualquer coisa" ... ;
o perú chega-nos feito também, e com um bocadinho de jeito, até fatiado mesmo, porque é muito mais prático ser só aquecê-lo no forno, em cima da hora ;
os doces, serão três ou quatro, e não a prodigalidade que decorava aquelas mesas gulosas, de antanho.
Não incluem seguramente o arroz doce, bordado desmesuradamente  com canela, pela avó, nem a aletria, nem o leite-creme, que serão substituídos por algo menos "prosaico", e consequentemente mais criativo e "requintado" ...

O cheiro da caruma a crepitar não se ouve já, os fumos a saírem das chaminés na noite gelada, também não se vêem mais ...
O aquecimento central, de muitos apartamentos de hoje em dia, pretendem substituir as "nossas" cúmplices lareiras, são confortáveis, impecavelmente "clean", e adequados ao requinte da casa ...
Por isso tudo,  fica aquela coisa "desasada", desenxabida, insossa, do Natal das pessoas sem "terra" !!!...

Bom, mas depois há ( e são cada vez mais ), os que têm por tecto, as estrelas quando brilham, qualquer portada mais resguardada ( onde os deixem ficar ) como cama, os cartões e alguns cobertores com que se cobrem, os andrajos que nunca despem, e o gelo da noite que nunca perdoa ...
E  ... que pelo menos o sono misericordioso os invada, e os proteja de pensarem ou recordarem, a " terra ", e o Natal que um dia tiveram, ou não !!!...

Anamar

sábado, 7 de dezembro de 2013

" AQUELA HISTÓRIA "



Há mil histórias iguais, mas aquela história, era "aquela" história !...

Do outro lado da rua, sentado na calçada, com as pernas cruzadas e a cabeça entre as mãos, estava aquele jovem.
Não olhava nada, nem ninguém, não erguia sequer a cabeça à passagem dos transeuntes, que o ignoravam e seguiam apressados.
Era magro, pobremente vestido, e tinha uma mochila nas costas.
A seu lado, sobre a calçada, estavam algumas moedas, ( poucas ), a maioria, de cêntimos, e pelo menos uma tablete de chocolate ( não sei se teria mais ... ), vi depois.

Eu passava em frente, do outro lado.  Olhei, e pareceu-me alguém que estivesse a sentir-se mal, que não estivesse bem, e para não cair, talvez se tivesse sentado ali, naquele sítio.
À distância, só vi um jovem esquálido, com as mãos a cobrirem-lhe o rosto ... desalentado, talvez em todos os locais do mundo, menos naquele ... quem saberia ?...

Hesitei.  Fazer o quê ?  Continuar o meu caminho ?
Mas ... pode ser alguém a precisar de ajuda, de socorro, alguém subitamente doente ...
E resolvi atravessar a rua.

Ao chegar junto dele, percebi que afinal chorava.
E nem à minha aproximação, levantou a cabeça.
Quando lhe perguntei se estava a sentir-se bem, se não precisava de nada, ergueu os olhos para mim, e disse : " Não, minha senhora. Apenas estou humilhado, muito humilhado ...  De vez em quando, tem que se chorar para aliviar a pressão, senão, sai-se por aí a cometer uma desgraça " !...

Era brasileiro, talvez vinte e poucos anos.
Disse-me que lhe custava muito, esmolar, porque não era dinheiro que queria, mas sim um trabalho que pedia.  Ele queria um trabalho, porque o dinheiro, por muito que lhe dessem, gasta-se, e um trabalho garantir-lhe-ia a sobrevivência.
Estava há quatro meses em Portugal, onde demandara só com a mãe, em busca da "vida" que a sua terra lhes negara.
Era neto de portugueses, embora já não tivesse família por cá.
Viviam na rua, segundo ele, e era maltratado e humilhado frequentemente, por aqueles a quem pedia trabalho, ou a quem tentava vender as tabletes de chocolate.

E dizia-me : " Não é preciso isso, pois não ?...  Uma  pessoa  tem  que  chorar, para  aliviar  a  pressão interior "!...

Tentei dizer-lhe meia dúzia de "tretas" de circunstância, daquelas coisas que se dizem sem convicção, que não servem para nada, que nos constrangem, apertam o coração, e de que temos a perfeita noção da irrelevância.
De qualquer forma, o Douglas ( era o seu nome ), estava emocionado porque alguém parara perto, e se preocupara com ele.
Dizia que ninguém tinha um minuto sequer, para o ouvir ...
Olhou-me e perguntou : " Você é psicóloga "?
Sorri e retorqui-lhe : " Não ! Eu fui professora ... e sou mãe "!...
"Ah ... por isso você me "viu", e teve tempo para me escutar "!...

Era quase uma criança que eu tinha à minha frente.  Uma criança sem sonhos, sem esperança, sem fé ...
Uma criança derrotada, a quem tinham roubado, cedo demais, a inocência !...

Dei-lhe algum dinheiro.
O ser humano sempre tenta resolver tudo com dinheiro, não é ?
Dar-lhe-ia muito mais, se pudesse ... dar-lhe-ia um trabalho, dar-lhe-ia esperança, devolver-lhe-ia um sorriso ao rosto macerado pelo desespero, dar-lhe-ia colo e embalo ...

Assim, disse-lhe apenas : "Não desista, lute, não chore perto da sua mãe, mas sobretudo, NUNCA se deixe humilhar !  NUNCA aceite da parte de ninguém, um mau trato gratuito !  Nenhum ser humano merece isso !
Posso dar-lhe um beijo" ?

Ele deixou-se beijar na testa.
Perguntou o meu nome, e sorriu, por ser o mesmo de uma sua bisavó.
Esboçou uma expressão triste e magoada, e disse-me : " Posso dar-lhe também um beijo na testa ?"
"Claro Douglas, claro que sim, e sobretudo não esqueça  o que eu lhe disse hoje, aqui !  Boa sorte, e não desista nunca !
A juventude e o coração ninguém lhe pode roubar "!...

Acenei-lhe, e em jeito de agradecimento pelo que lhe dera, ainda me disse : " Fique com isto !" - e estendeu-me o chocolate, que tinha para vender...
"Não ... É seu "!...

Atravessei a rua de novo, agora em sentido contrário, sem olhar mais para trás.
Não consegui.
Fiquei esvaída de forças, senti-me a mais impotente das criaturas viventes, fiquei com o estômago embrulhado, fiquei com um aperto no peito, e uma escuridão atroz na alma ... que nem consigo descrever ...

Há  mil  histórias  iguais,  mas  aquela  história,  foi  "aquela"  história !!!...

Anamar

sábado, 19 de outubro de 2013

" RED OCTOBER "



Tenho um "parti pris" com as boninas.
Decidi para mim,  que as boninas são uma espécie de miosótis, tipo campainhas dependuradas em fileira pelos galhos.
Depois,  disseram-me  que  boninas  eram  uma  criação  poética,  simplesmente .
Garantiram-me  mais  tarde, que  no  pórtico  axial  dos  Jerónimos, existem  por  lá  umas  quantas, "plantadas"  no  calcário  de  lióz.
E a Wikipédia, afiança que elas são uma sorte de margaridas ...
Eu  sabia  que  era  tema  tão  polémico,  que  de  facto, eu  só  podia  mesmo  ter  um  "parti pris" em relação a elas ...

Entretanto, a tarde apagou a luz mais cedo, graças ao cinzento plúmbeo,  uniforme e respeitável que cobriu tudo, impedindo-nos de sequer termos horizonte.
Logo hoje, que é noite de lua cheia !...
Estou em crer que com a crise instalada, nem a lua resiste, e faz como nós quereríamos fazer : sumiu !...

Pelos nossos olhos, a borrasca social desfila, amedrontadora, à semelhança da borrasca que brame lá fora, duma Natureza incomplacente, que despeja rios de água dos céus, e ventos tão desgovernados e destruidores, como os tempos que vivemos.

A incidência de situações dramáticas de vidas, a incidência de denúncias públicas de fraudes e corrupção, o desvendar de injustiças sociais na distribuição de bens e regalias, no igual acesso a oportunidades, a ausência de escrúpulos na prestação cívica e de cidadania, os privilégios gritantes de alguns ... a exclusão social de tantos ... avolumam-se ...
Avolumam-se a ponto de nos retirarem até, a pouca saúde de que se vai dispondo.  Mesmo a saúde do corpo, porque a da mente, menos obediente a vontades, prudências e lógicas, sempre nos desautoriza, e claudica inapelavelmente.
A tristeza sente-se no ar que se respira, e nos rostos carregados que olhamos ;  o desnorte desorienta-nos as vidas, por cada dia ;  o medo, ou melhor, o pavor de animal acossado, atormenta-nos o espírito ...
Os que ainda esperam, fazem ouvir os seus gritos da revolta, da raiva, e da fome, por este Portugal fora, em eco de desespero, em estertor de moribundo ...
Neste Outubro vermelho, ainda há quem acredite !...

Mas o cansaço toma-nos conta, e gera a indiferença álgida, de quem luta com forças desproporcionadas, a forças titânicas que nos transmitem a impotência do não valer a pena, da desistência e da desesperança ...
E é um lusco-fusco na alma, de candeias apagadas, é um anoitecer de corações que não encontram mais alegria ... sequer justificação de vida !

E vai-se andando, em filas de penitência não devida, cumprindo penas não merecidas, arrastando grilhetas nos pés, com o peso do imobilismo da alma que sangra, e com a insensibilidade duma pústula que gangrenou de tal forma, que já quase nem dói ...

E a alvorada que nunca mais chega !!!

E o frio do Inverno a aquietar-nos os últimos lampejos da energia que se nos escoa, nas madrugadas sem fim ...
E o mar, e o temporal incessantes, a açoitarem o Mundo lá fora ...
E a lua que se esconde, no nosso céu negro, que não abre  ...

E até as boninas, que sejam lá o que forem, não florescem mais aos meus olhos, apesar do "parti pris" que tenho com elas !!!...



Anamar

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

" NEVOEIRO "



A Sandra lançou-se do terceiro andar da escada do prédio onde vivia, p'ra morrer no patamar cá em baixo, às oito da noite ... noite escura já ...
Era jovem, sozinha, perdera pai e mãe.  Não tinha ninguém.  Vivia com quatro gatos e uma periquita branca.
Estudara, conhecera  vida folgada.  Licenciara-se em Direito.
Após o falecimento dos seus, entrara em depressão.  Diagnosticaram-lhe bipolaridade, foi impedida, pela Ordem, de exercer actividade, e reformaram-na por invalidez, com uma pensão, de que metade ia para a renda  do  andar  miserável,  que  habitava, aqui,  na  minha  cidade ... paredes  meias  com  o  meu  chão e o meu ar ...

A  Sandra já não tinha água nem luz em casa, por incumprimento nos pagamentos.  Não tinha dinheiro para alimentar os  seus bichos, talvez os únicos companheiros até ao fim ...
Naquele dia,  tentou uma vez mais que a ajudassem, na loja de animais.  Recusaram, por falta de pagamento de dívida anterior.
Subiu ao seu terceiro andar, e jogou-se do alto, como um trapezista no circo ... só que sem rede ...
As suas últimas palavras, foram para o primeiro vizinho que dela se abeirou : "Trate dos meus gatos " !...
E  partiu ...

A Madalena vive sozinha com oito gatos, um cão, e tenta ajudar outros animais em desgraça, nas ruas. .
É jovem também.  Tem trabalho, modesto.
Foi fiadora de alguém que não pagou, numa dívida de cerca de dois mil euros.  A Madalena tem o vencimento em parte, penhorado, e não tem cerca de dois mil euros.
Já teve que deixar a casa onde vivia, para outra  mais modesta ainda.  Deixará de ter frigorífico, e outros "necessários", de início ... mas "lá se arranjará", diz.
Deitou mão a alguns trabalhos de bricolage, que tenta vender pela Internet, porque "não irá desistir" ... também diz.
A Madalena tem mais de trinta anos, e uns olhos grandes, tristes, mas inocentes, das crianças que ainda acreditam ...

A Carla é mãe solteira, do Rodrigo, que tem três anos.
Tem uma doença óssea, incapacitante. Não trabalha, já faz tempo.  Sobrevive, vá-se lá saber como ...
A Carla tem vergonha de pedir.  Tem "muita vergonha" de expor a sua situação, mas o Rodrigo pede-lhe leite e bolachas ... e ela não tem ...
E chora.  Chora muito, porque se perder o filho para uma instituição, então não lhe "valerá a pena, viver" !...

Enquanto isso, enquanto Portugal se nos desfila assim, à frente dos olhos, neste atoleiro de miséria e de infortúnio, nestas vidas gretadas de desertos silenciosos, o país foi a eleições, e eu, não sei se devo sequer festejar os resultados ...
Sinto que esta terra, morreu há muito ...
Sinto que as Sandras, as Madalenas e as Carlas, proliferam por aí, nos becos esconsos, nas casas de miséria, sujas e tristes, com prateleiras vazias, com bolsos vazios, com estômagos vazios, com gelo nas almas ...
Sei que são dedos apontados, silenciosamente, a  todos  nós, que  ainda  vamos  estando  deste  lado, que ainda  vamos  tendo  a  água  só  pelo  queixo ... mercê  da sorte, dos desígnios dos destinos, das vidas ....
Até quando ??!!...

Sei tanta gente a viver no limite, a sobreviver no limiar da maior e sinistra angústia ... um só dia de cada vez, porque a força e a coragem não chegam para mais ...

Sei de humanos a apodrecerem diariamente, porque a esperança e a luz no olhar, se apagaram faz tempo ...

Sei de velhos que desejam partir o quanto antes, porque esgotaram a capacidade de resistência, as pensões de miséria não chegam para a farmácia, e não podem ser tropeços na vida dos seus ... quando os têm ...

Sei de crianças que comem diariamente o que lhes é dado nas escolas ... e pouco mais ...

E de mães, peritas em malabarismos culinários, para tornarem principescos, repastos de desgraça ...

Enfim, sei de tudo isto.   Sabemos de tudo isto !!!...

E lá fora, o nevoeiro  agiganta-se e fecha-nos  a vista, limita o horizonte, entristece-nos o coração, ao sonegar-nos o azul do céu, que pelo menos é esperançoso ... e grátis ...

Igualzinho  ao  nevoeiro  que  temos  aqui  dentro,  nesta  impotência  atroz,  de  continuarmos  teimosamente  a  acreditar  que  vale  a  pena !!!...


Anamar

sábado, 28 de setembro de 2013

" NAVEGO À BOLINA "

 

Dia de Inverno , ou melhor, de um Outono zangado.
Sê-lo-ia integralmente, se esquecermos a temperatura, que continua para roupas leves, e a chuva que também não insiste, ainda.

Atravesso um dos períodos mais escurecidos da minha vida, da maior insatisfação que alguma vez já experimentei.  Insatisfação e indiferença, beirando a raia  de um amorfismo e cansaço, preocupantes.
Arrasto-me diariamente, acordando e dormindo, acordando e dormindo, sem uma só motivação que me faça abrir os olhos.
Plano por cima das coisas, que aliás não encontro, e por isso não agarro ;  vegeto numa dormência patológica, num arrastar de dias que me começam tarde, e que nesta altura do ano, acabam cedo.
Nada mos justifica, nada faz com que eles me valham a pena.
Sinto-me anestesiada perante a vida, que já não me entusiasma, encanta, deslumbra ou emociona.
Quase deixei de escrever.  Aliás, acho fazê-lo, irrelevante, desnecessário, entediante.
Passei a achar que na verdade, nada tenho a acrescentar a tanto de que já falei, e até para mim mesma, o que tenho a dizer, levo o dia a fazê-lo, numa dialéctica muda, em que o diapasão é o meu peito ... e nada mais.

"Seca", é o termo que me define !
O que seca não tem vida. Eu, não vivo, a bem dizer !...
Farta ...  estou farta !
Farta de romper dias iguais, de silêncios constantes, das solidões dos claustros das abadias.
No meu mundo, ouvem-se os meus passos, ouve-se a minha raiva, pressente-se o meu desespero, apalpa-se o meu cansaço ...
E depois, sou eu e eu ... quem mais ?...

Sonhos ?  Não, já os alienei faz tempo, ou melhor, fugiram de mim para paragens de Primaveras radiosas ...
As metas, as que existiram e as que eu inventei, já foram cortadas há muito, quase sempre longe dos melhores tempos, nos lugares de trás.  Ou simplesmente me deixei ficar a ver os outros ir ...
Foi assim !...

As velas do meu veleiro, recolhi-as.
Não há vento que o empurre.  Navego à bolina, no vaivém das ondas passantes.
Tenho comigo a incerteza do alto mar.
Perdi bússola, esqueci norte, e como estamos num Outono zangado, nem o sol nem as luas me visitam !
As estrelas também dormem, e só a cerração se baixa e me envolve, por pena ... p'ra me dar guarida e berço ...
O cais ... os cais da vida, ficaram tão longe, mas tão longe, que deles, a neblina não se compadece ... nem de mim, figura errante, recortada no nada .
Apenas a maresia se faz presente, cáustica, corrosiva ... ácida !
O gargalhar manso dos salpicos, nos cascos curtidos pelos tempos, é melopeia ... não é bem canção !
E uma gaivota, só uma - esculpida no indefinido, no abandono e no vazio -  não me deixou viajar sozinha ...
E comigo, tenho a ausência de esperança de um navegador à bolina, e a certeza de não chegar a lugar nenhum mais !...

Deve ser doce morrer no mar, assim, num dia de Outono zangado ...
Esfumar-se no cinzento fantasmagórico do desconhecido, como nos braços de um amante dedicado ...
Dissolver-se na lentidão dos silêncios das memórias, que ficaram ...
Adormecer  nos  esgares  de  todos  os  fantasmas,  das  histórias  vividas ...
Ou simplesmente errar, languidamente, vagueando pelas notas impressas pelo coração enquanto ainda bate, pelo sopro do vento enquanto ainda açoita as escarpas, pelos pingos da chuva a tamborilar, largados de infinitos ...

Deve ser doce ...

Anamar

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

" ESTE ESTRANHO DIA "



Hoje é aquele dia estranho ...

E por estranho que pareça, ano após ano, sempre sinto a mesma coisa, no dia de hoje.
O Homem é um animal de hábitos, o Homem interioriza o que repete.  E quando a repetição é de uma vida, as emoções instalam-se algures por aqui, e não há quem tire ...

Inicia-se mais um ano escolar.
Há quatro que me afastei da escola.
2009, foi o último ano da minha carreira, que abri e não fechei.
Iniciei-o, mal suspeitando que dois meses depois, estaria a encerrar portas, por razões de saúde.
Desde então, foi como se tivesse tomado um qualquer antídoto, que me imunizasse numa espécie de protecção quase irracional, contra mais de trinta e seis anos de ensino ... a minha vida !


Quem é, ou foi  professor, sabe bem que trinta e seis anos de ensino, correspondem a trinta e seis anos de vida, porque os tempos de entrega e dedicação, são nesta profissão, absolutamente integrais e absorventes. É seguramente maior, o cômputo horário passado na  e para a escola, do que o dispendido em casa, ou com a família.
Todos sabem isso, mesmo os que tentam escamoteá-lo.

Saí por razões de saúde, como disse, potenciadas e agudizadas, por todas as reformulações de má memória, implementadas pelos sucessivos  Ministérios, de uma forma arbitrária,  prepotente e cirúrgica , que não sossegaram  até que uma sangria de docentes, com ou sem condições de aposentação se iniciasse e se estendesse  até aos dias de hoje, numa liquidação liminar do Ensino Público.
Atropelo de medidas absurdas, de reformas arbitrárias, de leis idiotas, que burocratizaram inapelavelmente  a  docência,  reduzindo-lhe  qualidade,  retiraram  a  exequibilidade  da  concretização  e  avaliação  da  sua aplicabilidade,  criaram  conflitos  entre  os  pares ( estimulando, por sobrevivência, o pior que as pessoas tinham dentro de si ), descaracterizaram as escolas, que deixaram de ser as "nossas" escolas, e se tornaram impessoais e desumanizadas, quase locais de tortura !...

A insegurança e a incerteza dos futuros profissionais dos docentes, ano após ano, conferiram-lhes inerente cansaço,  desmotivação,   raiva,  tristeza,  desaposta ... estimularam-lhes  alguma  indiferença  ( porque  afinal, há  que  sobreviver ), e instalaram-lhes patologias das mais diversas naturezas.
O abandono desencadeado, e inevitável por parte de quem pôde, a qualquer preço, pegar uma bóia e saltar para a água, atingiu níveis inaceitáveis !

E aí temos nós, milhares e milhares de pessoas absolutamente válidas, experientes, sabedoras, dedicadas ... tristemente irradiadas por "moto próprio", indignamente tratadas socialmente, em condições economicamente débeis ( comparativamente a outros profissionais, em igualdade de competências ), a viverem o seu desencanto, a sua mágoa ... a sua saudade ... na busca do esquecimento, do apagar da vida, do virar da página, afinal !!!

E depois chegam dias como o de hoje !

Todos os anos há um dia igual a hoje ...
E queiramos ou não ( sei que não é seguramente exclusiva, esta sensação de desconforto e melancolia ), sente-se um remexer das entranhas, sente-se um subir da ansiedade no peito, um aperto na garganta, que não desce ... sente-se uma estranha afobação, uma espécie de premência horária, como se já fossem horas, como se já estivéssemos atrasados, como se nos esperassem ... alguém, algures ... e não pudéssemos faltar à chamada !
E bate uma saudade !...
Sim ... bate uma saudade !...

Já olhei com olhos distantes e nublados - distância de anos, distância de vida - a pasta dependurada ainda, na cadeira da sala, naquela última noite, e que eu nem adivinhava então ser a última, recheada com tudo o que continha, e que não desmanchei, porque me queima as mãos ... ou melhor, penso que me queima o coração ...
Juntamente com os dossiers, as borrachas, os lápis e as canetas, secas dos tempos, ela está pesada dos sonhos que foram, das esperanças alimentadas, dos afectos que por lá ficaram, das recordações que se recusam a morrer ...
Ela tem lá dentro, mais de metade de uma vida, a minha,  muito do melhor  de mim, todas as minhas vitórias, o meu esforço, as minhas tristezas, as alegrias e as frustrações também ... A realização pessoal que consegui alcançar.
E tem lá dentro, ainda, pedaços de muitas outras vidas, que o  destino determinou que haveriam de cruzar a minha ...
Com elas, desenhei o meu, compus a minha história, fiz-me a mulher que sou ... e a elas, por isso, sou profundamente grata, sou eternamente grata !!!...

Hoje, os meus três pequeninos rumaram de novo à escola.
A minha "turminha" de coração, nos seus 6, 9 e 12 anos, de uniforme vestido, mochila nas costas, muita alegria nos rostos, euforia, e entusiasmo, nos sonhos e espectativas que os norteiam ... como "bando de pardaia à solta" ... lá foi ...

Na fila de trás, bem cá atrás, a humilde "mestre escola" que eu fui, torce, para que os responsáveis deste País, se conscientizem da "matéria" delicada e sensível, que possuem nas suas mãos :  a  enorme, incontornável, e inalienável responsabilidade de serem os mentores sérios, do futuro destas gerações, e do futuro de um país, que  é  também o deles.

Em suma, de serem os norteadores de jovens que têm direito a um amanhã aqui,, no chão que os viu nascer, junto da sua gente que os ama, num Portugal que neles está a investir, e que neles revê a esperança de se agigantar outra vez !!!...

Anamar

domingo, 25 de agosto de 2013

" QUANDO A PALAVRA É SOLIDÃO ... "



Todos os dias, à mesma hora, oiço a mesma música, no mesmo café, com as mesmas  pessoas  presentes, quatro ou cinco ... com as mesmas histórias ... com as mesmas sensações a atropelarem-me .

Todos  os dias  faço "rewind"  no  mp3, para buscar exactamente os mesmos temas musicais, como uma espécie de ladainha ou terço, que devesse desfiar ... e  não sei porquê ...
Talvez  porque são acordes mansos, doces e magoados, como uma espécie de eco do meu eu interior ...
Porque são molduras perfeitas para o silêncio que me percorre ...
Porque são melodias como o som do vento no meu cabelo, quando me sento numa pedra e apenas olho o mar ... Passa, afaga-me, não me agride, não me exige, não me acorda ... só me embala ...

Todos os dias vejo os mesmos rostos, troco os mesmos olhares, devolvo as mesmas saudações, numa harmonia perfeita ... mais que perfeita ...

E por isso, quase adivinho o que vão dizer a seguir, qual a cor dos seus sorrisos, ou o porquê da circunspecção  dos seus semblantes ...

Todos os dias cruzo a minha história com histórias que não conheço, tranço a minha solidão com solidões vizinhas, pinto o meu  desamparo  com o vazio de desconhecidos, e falo, e conto e digo, apenas para dentro de mim, cem vezes, mil vezes ... um milhão de vezes ... digo tudo e digo nada ... só por dizer ...
E por isso, existe uma solidariedade institucional,  muda e secreta, entre mim e todos eles, aqueles anónimos que por ali pairam !...
E de repente, sinto ânsias de narrar àquele homem que se senta de costas na mesa seguinte, o meu  conto de vida, o que me estrangula a garganta e me sufoca o peito .... que não lhe interessaria, mas que eu não tenho com quem partilhar ...

Mas afinal, para quê ... se ele terá certamente outro, para trocar com o meu ?...
Outro igualmente desinteressante, injusto, descolorido, de silêncios e solidões também !...

E de repente, sinto urgência de abanar os que me cercam, e gritar-lhes : " porra ... estou aqui ...estou a passar por aqui, e ninguém me vê, ninguém me sabe, ninguém me sente ...
A minha vida é esta ... Eu sofro e choro e desespero-me, e morro ... morro um bocadinho em cada instante que passa !...  Nada disso interessa ... mas é a minha vida ... e eu ... sou gente " !...

Oh vã prosápia, arrogância desmedida ... oh tonteria absoluta ... oh loucura inconsciente !!!...
"Eu ... sou gente " !!!
Mas o que é isto ... "eu sou gente" ?  E isso lá é alguma coisa ? Isso tem alguma relevância ?
Menos que um grão de poeira no deserto ... menos que uma poalha estelar do Universo ...
Hoje, matéria ... amanhã, nada !
Que diferença faz a volatilidade da Vida, o fugaz da existência ?!
Nascemos condenados ao esquecimento, ao silêncio, ao nada !
Circulamos numa praça gigante, onde somos tantos que nem nos vimos, nem nos olhamos, nem nos falamos, apenas nos acotovelamos, nos esbarramos, nos atropelamos !
Somos desconhecidos até de nós mesmos.  Somos anónimos no meio de anónimos.  E circulamos como autómatos, como fantasmas, distantes, imateriais ... quase transparentes !
E quando um falta, o equilíbrio mantém-se inalterável, porque nenhum é suficientemente importante, nenhum é determinante, nenhum é suficientemente alguém, ou mais que nada ... apenas NADA !...

E quando (  porque  o tempo corre e se escoa na contabilidade temporal dos humanos ), partem, sinto-me estranhamente defraudada. Sinto-me lesada ... como se me tivessem deixado à deriva,  como se  tivessem  largado  uma criança na esquina de uma rua, desprotegida,  como  um  náufrago que perdesse o tronco salvador ... sozinha, mais sozinha ainda !...

E é quando percebo, que vou ter que enfrentar mais vinte e quatro horas,  para , à mesma hora, no mesmo café, ouvir a mesma música, com as mesmas pessoas presentes, com as mesmas históriias,  e povoada das mesmas sensações ...

E é quando realmente percebo, o que significa a palavra "solidão" !...

Anamar

domingo, 14 de julho de 2013

" QUASE JÁ ... "



Importa-te, se eu não me importo ...

Importa-te se me habituei a gostar do cinzento ... eu,  que mergulhava até à exaustão, nas cores da Vida, e esgotava todos os matizes da caixa das aguarelas disponíveis ... nos meus dias !

Preocupa-te se já não choro,
porque o choro me deitava as mágoas pelas portas da alma ...

Aflige-te com a minha indiferença,
já que a conformação, nunca foi meu princípio de existência ...

E se não esbracejo, se não me debato ...
é porque aceitei ser náufraga, e desisti de encontrar um rochedo ou um tronco, de arrumo para o coração ...

Pergunta-te por que já não elevo os olhos para o sol ... por que não corro a espreitar as estrelas ou o luar ... por que não colho mais braçadas das flores nossas, nos campos além ?!

Sabes ?

Isso era no tempo em que as gaivotas voavam livres,
as penedias da serra  falavam comigo, e a copa das mimosas nos aninhava em segredo ...

Isso era no tempo, em que nos contávamos histórias, nos desvendávamos os corações, dividíamos sonhos e amarguras ...
enquanto partilhávamos desejos, esperanças e projectos, com  vulcões de sentimentos e emoções ...

Era no tempo em que nos falávamos ... em que tu percebias a minha linguagem, e eu percebia os teus sentires !...

...ou eu pensava que era assim ... simplesmente !

Hoje ...
Hoje, estou sentada semi-morta, na beira do caminho ...
Estou sem o norte, que as estrelas ensinam no firmamento ...
Estou sem a vontade que faz existir o Homem, por cada dia em que acorda ...
Estou sem a luz do sorriso, no âmago do meu ser ...
Estou sem a fé que faz valer a pena ...

e não me importo ...
HOJE, eu já quase não me importo !!!...

Anamar

domingo, 9 de junho de 2013

" IRRELEVÂNCIA "




Há sonoridades, há dias, há cores ... iguais a palavras.

Por isso as palavras são dispensáveis.  As palavras quase sempre são dispensáveis, e não conheço nada mais precário, incompleto e desacertado que elas.
Nunca as palavras têm cheiro,  nem emoção, nem calor, nem luz, suficientes  para serem verdadeiras.
Por mais que as busquemos e rebusquemos.
Por mais que nos convençamos que achámos os vocábulos certos, ou pensemos que os inventámos, justo na hora ...
Nada disso.  Eles sempre são de menos.  Nunca carregam metade sequer, daquilo que eu quero dizer em cada momento.
Defraudam-me o coração, enfurecem-me a alma, ruborizam-me o rosto de raiva, pela impotência e pela imperfeição, ao transmitirem o que parecia tão óbvio e claro, dentro de mim.

Ao contrário ... quando escuto uma música, poderia emudecer, porque ela transporta um código indubitável.
Ela, só por si, é uma mensagem escrita sem texto, da minha emoção ao momento.  Por isso  escolho essa, e não  outra !
Ela fala por mim, ela suplica por mim, ela dá-se por mim, e confessa até, o que os meus lábios não ousam dizer ...

Também, as cores com que me envolvo e que me cobrem, que invento ao meu redor, para o meu mundo, falam ... também falam ...
Por isso, o sol mergulha na corola das flores amarelas sem nome, ou explode nas mimosas selvagens.
Por isso, o amor e a ternura  adormecem por entre as pétalas inebriantes, das rosas de Sta. Teresinha ...
Por isso, a paixão se veste do fogo das rosas vermelhas, e a paz se recosta docemente, nos ramos azuis da lavanda dos campos ...

Os sons então, são indizíveis !...
O resmalhar do vento na folhagem, ou o seu sibilo na falésia desnuda ... o açoite da rebentação nos rochedos, ou a canção do marulhar, da água mansa de um riacho ... a doçura de um sussurro apenas, quando se repousa a cabeça confiante no ombro amado, ou o soluço de uma mágoa que se escapa do peito ... dizem tudo, desvendam tudo ... e silenciosamente, são absolutamente fiéis e concisos.
São objectivos, não deixam dúvidas, não denunciam incertezas, nunca mentem ... porque não sabem mentir !...

Por tudo isso, os "Nocturnos de Chopin" que oiço e me embalam num berço de baloiço, são iguaizinhos ao dia de hoje no meu coração, são iguais ao modorrento pardo deste céu uniforme parado, e iguais ao cinzento vazio, assustadoramente vazio, deste nove de Junho, em que o Mundo parece ter parado por aqui ...

Ausência de vida, quietude absoluta ... silêncio entediante e fantasmagórico ... nostalgia de existência ...
Aqui, neste quarto, apenas há sombras, solidão, imagens que fogem, dias da minha vida que voam, como penas que fossem largadas pela janela, em dia de vento ...
pecinhas soltas de puzzle desajeitado, que teima em não se consertar ...
coisa doída que escorre, coisa corrosiva que mata, lenta e maquiavelicamente ... como o transcurso dos dias ... como a fuga de vida ...

Anamar