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sexta-feira, 18 de julho de 2014

" MENINO DO BAIRRO NEGRO "



Encerrando as minhas dissertações sobre a recente estada em S.Tomé e Ilhéu das Rolas, e não querendo repetir-me ou enfatizar excessivamente, verdades e sentimentos experimentados, faço aqui uma espécie de resenha e conclusão final, sobre tudo o que lá vivenciei.

Tudo foi visto e experimentado por mim, pelos meus sentidos, coração e alma ...
Como tal, terá a subjectividade inerente e incontornável, obviamente.
Contudo, suponho ter sido justa, isenta, realista, face a uma realidade que muitas vezes mais pareceu ficcionada, pela beleza natural esmagadora, pela dureza e rudeza da vida, pelo mix de sofrimento e alegria de todos os santomenses .

A eles deixo o meu agradecimento, a eles presto a minha homenagem !
Em particular, aos MENINOS de S: TOMÉ, a quem presenteio com este "Menino do Bairro Negro" tão a propósito, e tão sabiamente cantado pelo nosso Zeca Afonso !

Espero que tenham gostado de viajar comigo !


Um recuo no tempo, retorna-me a S. Tomé.

S.Tomé e a sua ilha satélite, o Ilhéu Gago Coutinho, conhecido por Ilhéu das Rolas,  foram mais uma aprendizagem humana, enriquecedora do meu eu.
Como tudo o que é natural, primitivo, não trabalhado pelo Homem, este destino encerra a ingenuidade, a pureza e a autenticidade de um local onde a nossa mão ainda não fez estrago.
Como tal, um local de verdade !

Olhando atrás, se quisesse ressaltar aquilo que efectivamente mais me tocou, teria seguramente grandes dificuldades em fazê-lo.
Contudo, sem grande dúvida, duas coisas, deixaram claramente marcas de ternura no meu coração :
por um lado, a beleza natural pujante e avassaladora por todos os cantos, num excesso louco de cores, de sons e de cheiros ... por outro, a doçura e a espontaneidade das suas crianças, os tais "bandos de pardais à solta" que nos rodeiam, nos envolvem, nos tocam, e nos amam de imediato !...

São meninos sem nada, absolutamente nada ...
Não têm alimentação de qualidade, ou sequer alimentação ( poder-se-á dizer ), não têm medicamentos, não têm brinquedos, não têm roupa, além dos andrajos rotos e sujos que vestem, não têm livros, jogos, objectos escolares, higiene ou sequer possibilidade de a ela aceder.
Têm escassa assistência médica, dependente sobretudo, do voluntariado generoso do pessoal da AMI, Médicos Sem Fronteiras ou Médicos do Mundo.
Vivem numa sociedade em que o salário médio é de sessenta euros !!!...
Não têm nada, mesmo !!!

Têm-se uns aos outros, nas brincadeiras infinitas, na aldeia, na mata, na terra, nas pedras, nos rios, nas praias.

Têm os mais novos para olhar, os bébés para cuidar, para carregar, como os filhos que terão mal cresçam, e já adolescentes iniciem famílias numerosas, com uma dimensão absurda, numa sociedade culturalmente poligâmica e pomíscua, que como tal, tenho o pudor de valorizar, menos ainda julgar.
Existe uma desinformação doída, na população  ( ainda se acredita que a pílula do dia seguinte passa por uma lavagem na água do mar, após as relações sexuais ).

Têm de sobra, uma dádiva carinhosa para quem deles se aproxima ...

Têm uma alegria ímpar e contagiante, e expressões de doçura infinita !

São meninos que gostam do toque, que nos dão as mãos e nos guiam nas caminhadas pelo meio das suas aldeias.
São meninos que querem mais e mais fotografias, e ao verem-se nelas, exprimem uma felicidade ímpar, saltam, riem, batem palmas ...
São meninos que nos mexem no cabelo, com fascínio, e com ele nos fazem tranças ... E sempre nos acham bonitos ... " a amiga é bonita" !...
São meninos que querem os nossos beijos, nos rostinhos sujos e empoeirados e correm ao nosso lado, disputando o melhor lugar junto de nós ... que acabaram de conhecer ...

Deixam-nos assim com uma emoção pesada no coração, pois nos confrontam com a aleatoriedade perfeita da existência , com a efectiva e real dimensão da penalização das assimetrias sociais.
Quase nos culpabilizamos de uma sorte que não pedimos para ter, de um privilégio que nos coube, e nada fizemos por ele, a não ser pertencermos ao outro lado do Mundo ...

E sentimos a magoada impotência pela incapacidade de revirar o destino, impotência face à distribuição de  uma qualquer justiça social que deveria ser equitativa entre todos os cidadãos, indistintamente do continente a que pertencem, do chão em que nasceram, da sociedade em que foram criados ... sobretudo quando se trata de crianças !

S.Tomé e o Ilhéu das Rolas foi também uma dolorosa e séria lição de vida, foi uma história narrada com personagens reais, bem frente aos meus olhos, foi uma aprendizagem e um abanão na acomodação instalada que possuímos, e de que ainda assim, sempre reclamamos ...

Voltarei !
Gostaria de voltar, sim, a olhar os rostinhos sujos, de ranho à boca, dos meninos dos caracóis e trancinhas, de olhos impressionantemente meigos e desarmados, e escutar outra vez aquela palavra-senha, na correria louca, desenfreada atrás do carro que se afasta : " Doce, doce, doce !... "


Esta, a minha sentida homenagem de gratidão a todas as crianças com quem me cruzei, nesta minha digressão por terras de S.Tomé e das Rolas.

OBRIGADA !


ZECA AFONSO

Menino do Bairro Negro


Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Anamar

quinta-feira, 17 de julho de 2014

" UMA ANÁLISE FRIA E OBJECTIVA "


Os mercados são a mais genuína expressão de um povo, creio.
Por eles desfilam múltiplos perfis humanos, por eles passa  toda uma miscigenação de raças, de rostos, de cores, de vozes e de cheiros. Eles são uma mostra extraordinariamente rica, de um  multiculturalismo evidenciado.
São o pulsar e  o  fervilhar de gente,  são o ritmo cardíaco  que nos desafia  a  um mergulho ao âmago da alma e do coração de um país ...
Eu diria que eles são imbuídos de um espírito ritualista e mágico ...

Em África, em especial, há todo um "colorido" peculiar.
As frutas que sempre são variadas, misturam-se com os legumes, nas bancas, no chão e nas cestas.  Têm cores e formas inenarráveis e curiosas.
Confundem-se com a cor dos panos que envolvem as mulheres da cabeça aos pés, desde os turbantes, aos que à cintura suportam os bébés nas costas.
O peixe, fresco ou seco, de todos os tamanhos, cores e formas, de espécies que desconhecemos muitas vezes, aguarda em baldes, aguarda no chão, ao sol, às moscas, à poeira ...
O "brouhaha" é ensurdecedor. Os decibéis vão muito acima do normal ... e há uma azáfama qualquer, e uma qualquer alegria contagiante, no ar !...
Mas é assim !
Tudo isso é "normal".  A realidade nada tem a ver com a nossa, os ritmos de vida também não !

Com as suas particularidades, há contudo sempre muito de semelhante nos mercados.
Eles são ponto de encontro diário e de estadia em permanência de horas, dos vendedores, que por isso já são uma família, acredito.
As mulheres permanecem acocoradas, sentadas por ali ;  as crianças, quase nascem, e já ocupam posto no mercado.
Dentro de caixas de cartão, à sombra de chapéus de sol que mal protegem do calor abrasador de África, iniciam as suas vidas ... gerações dos que serão os putos livres e soltos que parecem eclodir do nada, em cada esquina das aldeias, em cada canto da mata, em cada beira de estrada ...

E depois há o âmbar da pele  nos corpos expostos, suados mas cheirosos ...
Há o branco luminoso de dentes impressionantemente regulares e saudáveis ...
Há o requebro e o dengue lento, de ancas roliças que passam, lentamente, preguiçosamente, com algum erotismo nas curvas e no olhar ...
Há os rostos lavados e sem artifícios, das crioulas ... e há os sorrisos rasgados, ou as gargalhadas trocadas, entre quem está e quem circula ...

Sempre que visito um país estrangeiro, procuro não falhar o mercado local.
Procuro não falhar, observo, "bebo", tomo o pulso, analiso, aprendo ... registo, se puder e tal me for consentido.
Nunca utilizo a câmara fotográfica com humanos, sem que o requeira, sem que isso me seja previamente autorizado. Sempre respeito o direito à privacidade e à imagem individual.
Foi assim em Bali, em Zanzibar, em Samaná, em Cuba, Costa Rica, Tailândia ... por aí ... em tantos outros sítios desse mundão !...
Foi também assim  em S.Tomé.

As crises sociais e as assimetrias, amargam os povos.
Na maior carência, as pessoas desesperam e perdem os louváveis valores que as norteariam.
As raivas e os ódios recrudescem.  A miséria  sempre é má conselheira, e desencava "machados de guerra".
Ela traz à tona o que de pior o ser humano alberga no coração.  O Homem cega, e assume posturas selváticas inexplicáveis.  Acredito que em qualquer lugar do planeta, e mesmo em qualquer civilização ...

Experimentei, estranha e surpreendentemente, este estado de coisas em S.Tomé.
No meio de um povo que beneficia de uma Natureza generosa, pródiga e espectacular, um povo que tem as crianças mais doces do mundo, um povo cujas raízes afinal cruzam as nossas, as portuguesas, experimentei  tristemente, pela primeira vez na vida, atitudes odiosas de rejeição, racismo e xenofobia .
Só porque aos olhos dessas pessoas, eu era turista, eu teria dinheiro ... e eles, o povo, ostentava bem, a miséria em que sobrevive, o sofrimento em que arrasta as suas vidas !!!...

Obviamente  não  faço  juízos  de  valor.  Obviamente  relativizo,  porque  obviamente  até  entendo !...
Apenas lamento.  Não por mim, mas pelos santomenses  mesmo, já que este país, sem recursos, pobre e largado ao seu destino ( estamos em África, é bom não esquecer ... ) apenas terá como futuro, a meu ver, a aposta  no café e no cacau, em exportação devidamente dinamizada e implementada, em grande escala ( o que ainda não acontece ), e evidentemente, o turismo, fonte promissora de receitas, graças a  todo o potencial natural de que dispõe.

Mas claro que não a qualquer preço ... E é pena !...

Anamar

quarta-feira, 16 de julho de 2014

" O PREÇO DA INSULARIDADE - aquele embarcadouro ... "



Estamos na  " gravana " ou estação seca, aqui em S. Tomé.

Nunca pensei que no Equador pudesse haver frio, e dias infindáveis sem que o sol rompa a abóbada cinza carregada, aqui por cima das cabeças.  Um capacete denso, de nuvens persistentes e espessas consegue pintar de tons pardos e escurecidos, o multicolorido desta ilha, que para mim era o paradigma eterno  da luminosidade, da cor, do brilho e da alegria.
Criei essa fantasia baseada em informação deficiente, seguramente, ou simplesmente porque ainda que melhor documentada estivesse, creio que nunca acreditaria que pudesse ser diferente.
Mas o facto é que já aqui estou há quatro dias, e ainda não vi o sol, a temperatura ambiente é desconfortável ( até porque vim desprevenida para termómetros mais baixos ),  há algum vento, e banho de mar, também é mentira, já que as correntes e as marés são muito fortes e perigosas.

As cores deste maravilhoso ilhéu estão obviamente prejudicadas, não obstante a beleza esmagadora oferecida por uma Natureza excessiva, rica, luxuriante e esfuziante também ...
Assim, parece que perambulo num cenário fora de contexto, ou que contemplo um postal ilustrado a preto e branco.
O dia tomba repentinamente cedo.  Pelas seis da tarde é mais que lusco-fusco, e se quando amanhece o rosto do dia se anunciasse mais magnânimo e promissor, com sol a raiar, céu azul e temperatura morna, apeteceria sair da cama, vir para o exterior, absorver os cheiros, os sons, extasiar-me, deixar-me simplesmente envolver.
Assim, durmo até mais tarde, e experimento uma sensação de desperdício de  tempo.

Mas é assim !
A época seca caracteriza-se climatericamente desta forma, e não há nada a fazer ... A não ser, claro, regressar na época das chuvas, do sol forte e do calor impiedoso ... ( rsrsrs )

A lancha que liga o ilhéu a S. Tomé, vai e vem  três ou quatro vezes por dia.  Carrega quem trabalha do lado oposto àquele em que vive, e os turistas que chegam e que partem.
A insularidade tem o seu preço, de facto !

No pequeno cais de encosto da embarcação, juntam-se os autóctones :  as mulheres em desocupação de fim de tarde, a criançada no terreiro da Igreja, paredes meias com o embarcadouro, indiferente, nas brincadeiras sem fim, os rapazes da ilha lançando conversa fora e graçolas de circunstância, actualizam notícias da Ilha do Chocolate.
Aqui, é local de encontro e de lazer.  As notícias vão e vêm, as boas e más novidades também.
Eu diria que é o ponto mais importante do ilhéu.  É uma janela que se abre ao mundo, ao mundo que está do lado de lá, nem que o lado de lá seja  tão simplesmente a ilha-mãe, S. Tomé !
É a única ponte que têm.
Por ela seguem os doentes em busca de auxílio na capital, seguem as crianças para a escola, sonhando com outros futuros ... seguem os mortos, a caminho de S. João dos Angolares ...
É  o local de despedidas e de chegadas, com todas as tristezas, incertezas e angústias, mas também todas as esperanças, ilusões e quiçá alegrias, dos que partem e dos que chegam.
Ali se despedem os que vão, em busca de trabalho, de sorte e de melhor destino, seja em Portugal, em Angola ou Cabo Verde ...
Para trás ficam os idosos, os familiares chegados, os amigos e os filhos, que dirão um adeus interminável, enquanto a  "João de Santarém" se afasta mar adiante, e até que a distância a reduz a um pontinho lá longe, perdido no meio do oceano, em direcção à Ponta da Baleia.
A dor e as lágrimas, a nostalgia e a saudade  ficarão afogadas na indiferença salgada das ondas, até ao dia em que de novo a embarcação se corporizará, quando as águas devolverem a casa, aqueles que haviam partido ...

Nas Rolas, contudo, tudo terá permanecido exactamente igual, como se o tempo tivesse adormecido, amodorrado na sombra do caroceiro  gigantesco do terreiro poeirento, paredes meias com a aldeia, paredes meias com a Igreja, paredes meias com o mar e o cais de embarque ... sempre com o chilreio da criançada descalça, suja e rota, em correrias, nos jogos de futebol, ou nas corridas dos carrinhos improvisados !!!...

Este, o preço da insularidade !!!...

Anamar

terça-feira, 15 de julho de 2014

" LEVE - LEVE ... "



Não sei se é leve esta vida ...

Esta gente não tem água em casa, não tem luz nem todos os outros bens que julgamos indispensáveis.
A roupa lava-se no tanque da aldeia, estende-se no chão, nos muros, nas pedras e sobre as plantas.
A água traz-se em latas ou contentores, aos ombros, desde cisterna ou poço.
Quer-se comer, planta-se a terra, faz-se a horta.  As frutas, são as árvores fruteiras da mata que dão. E são infinitas !
Derrubam-se os "caroços" do caroceiro, abrem-se com uma pedra, no chão, e de dentro, come-se o pinhão.
A fruta-pão, a papaia, a jaca, a carambola, a  castanha, a  cajamanga, o  sape sape, o maracujá, a  banana  ( sete variedades diferentes, na ilha ), a goiaba, a manga, o cacau ou o café ... espreitam a cada canto.
Os cocos aliviam a sede.  Caídos aos milhares por todo o lado, abrem-se de qualquer jeito.  Ou com uma catana certeira de gente experiente, o que ainda assim arrepia o coração de quem vê e nunca fez, ou simplesmente sob o impacto de um pedregulho valente.
Depois, é só beber ... A água é sempre fresca !

Lança-se a canoa ao mar, e traz-se peixe, ou mergulha-se e busca-se nas profundidades pródigas.
Põe-se a arma ao ombro e caçam-se rolas, ou morcegos.
Os animais andam soltos pela aldeia e pela floresta.
Por ali, cabras e cabritinhos, porcas e leitões, galinhas, patos, cães e gatos, deambulam e chafurdam por entre os humanos ... por conta própria e entregues ao destino !

Nos céus, os morcegos avistam-se. Vêm, ao cair do dia, de S. Tomé, dormir às Rolas, numa migração diária em busca de fruta madura. São frugívoros.
Andorinhas rasam as águas, mas são os falcões que imperam nos céus de S. Tomé.

O café colhe-se, torra-se e mói-se.  O cacau, também.
Toda a qualidade de plantas desta floresta luxuriante, se usa na alimentação, na higiene, e na cura ou prevenção de maleitas.
A erva-mosquito usa-se no "calulu" ( prato típico confeccionado com legumes, óleo de palma, peixe seco, ou mesmo  frango ), ou ainda no molho de fogo.
A mandioca, o coentro selvagem ( de sabor idêntico ao que conhecemos, numa planta com aspecto totalmente diferente ), o chuchu, o inhame, a pimenta, a cana de açúcar e tantas outras espécies vegetais, enriquecem o prato santomense.
O vinho de palma, colhido em bica instalada na própria palmeira, pelo colector nativo que escala o tronco em segundos ... trepa... por nós, se o provarmos ...
O micócó utiliza-se em omeletes, em sopa, estimula o apetite, purifica o organismo e potencia o desempenho sexual masculino, quando em chá.
A casca do mucumbli é usada num chá de efeitos gastro-intestinais, ou mesmo como analgésico.  Por isso, também se usa como banho aliviante das dores.
As folhas da goiaba e do abacate têm também o mesmo mérito.
Já as folhas frescas da salaconta, servem para confecção de chá, ou mesmo como bem-estar para as mulheres durante o período menstrual.
Das flores de ylang-ylang, a árvore do perfume, fazem-se essências de cheiro idêntico ao jasmim  misturado com amêndoas, ou simplesmente preparam-se  banhos agradáveis e cheirosos.
O Goji Berry, folhas de sabor ácido e toque áspero, mascadas ou esfregadas nos dentes, tornam-nos brancos.

Estes, alguns exemplos desta parafarmácia natural, à disposição, em que as medicinas alternativas têm passado de geração em geração, são prescritas pelos curandeiros, e constituem rico património cultural, mantido incólume desde tempos ancestrais.
Trata-se de um invejável repositório de saberes, transversal aos tempos.

A floresta de S.Tomé, equatorial, cerrada e quase impenetrável, possui as mais diversificadas espécies de madeiras.
As árvores, de corpulência esmagadora, dão sombra e dão a matéria-prima para a construção das embarcações.
Sobretudo as "okas", árvore que pode atingir 30 metros de altura, e com um diâmetro de tronco impressionante, associada a espíritos maléficos  da época da escravatura.  O seu abate carece de autorização governamental.
Das madeiras da floresta, num trabalho de maestria e criatividade, sai também o artesanato local.
É o caso da árvore-cinderela, que por ser bastante macia, permite a escultura de tudo o que possa imaginar-se.

As crianças da aldeia fazem a primária aqui nas Rolas.  Existe uma escolinha na aldeia de S. Francisco, que alberga a cerca de dúzia e meia  de crianças do ilhéu.
Estudam matemática, língua portuguesa e meio físico e social.  Só mais tarde, quando acedem às classes posteriores, estudam os seus dialectos ( crioulo fôrro de S.Tomé, lunguiê  do  Príncipe, e  angene -  dialecto da  zona  dos  angolares, também  na  ilha  de  S.Tomé ).
Por isso, diariamente se levantam às cinco horas da manhã, e com mar manso ou "grande", rumam, na lancha, até à capital.
Só regressam perto das cinco horas da tarde, na última viagem que faz a travessia diária para o ilhéu.

" Leve-leve" ... Tudo para eles é "leve-leve" ...
Com  ar  tímido, doce  e  sorridente,  garantem-no ao  visitante  incrédulo ... Repetem-no, em jeito de verdade !...

Não fiquei nada convencida !
Acho sim, que o coração dos santomenses é que é "leve-leve", na forma adocicada, generosa, afável e amiga, com que quase globalmente, nos acolhem indistintamente, e na grandiosidade dos sentimentos de alma, que partilham desinteressadamente.
Tão magnânimos, espontâneos e puros, quanto a simplicidade da sua terra, das suas vidas e da sua raça !...

Anamar


segunda-feira, 14 de julho de 2014

" UMA JANELA DE PRIVILÉGIO "




Um pé em cada lado da Terra, um olho espreitando cada nicho de céu estrelado, os braços abertos para que envolvam  o Mundo ... eis o centro do planeta ... eis o planisfério desenhado aos nossos pés ... e o privilégio de se ter uma "janela" na latitude zero, onde a estrela polar e o cruzeiro do sul  namoram, em noite de céu limpo !...

O Equador a fazer-nos sentir míticos, quase religiosamente especiais, num silêncio que se nos impõe.
Silêncio de lugares solenes, como se não pudéssemos perturbar a magia que impera.
Aqui, até a floresta se cala, e o vento só sussurra ... não se atreve mais !...

Naquele mapa-mundo, Portugal bem pequenino na escala universal, ali está, numa cor destacada.
E o marco, o marco como preito de homenagem dos ilhéus a Gago Coutinho, lembra que foi ele que entre 1915 e 1918 ali pousou, numa missão geodésica, e confirmou, pelos estudos efectuados, que a linha zero de latitude, passava mesmo por ali, nas Rolas !

Essa linha imaginária parece sugerir-nos, que quem pisar aquele chão não mais ficará igual, porque ao alcance de um passo, estão-nos as duas metades da laranja, para onde a nossa varanda de privilégio assoma.

Os hemisférios beijam-se lúcubres, em luxúria tão natural e despudorada, quanto aquela com que a floresta beija o mar, descendo ravina abaixo, até às águas azul-turquesa, ou verde-esmeralda.
Os coqueiros e as palmeiras fazem equilíbrios de génio,  pelas rochas negras das encostas vulcânicas, sempre em vénia marítima.
E quando desistem, é no mar que os gigantes repousam e se aquietam, é nele que tombam os corpos, é a ele que se entregam, feito canoas errantes no sabor das marés ...

É assim S. Tomé, onde o sol, mesmo quando só promete  e a gravana nos deixa sequiosos, está lá, por detrás do dossel das nuvens espessas e uniformes ... S. Tomé,  onde a luz envolve, onde a brisa é mansa, e os cheiros são doces ... tão doces quanto a doçura incomensurável das suas gentes !!!...



Anamar

sábado, 28 de junho de 2014

" JÁ VENHO ... "



Estou de partida ... Parece que  finalmente estou de partida !

Sempre,  antes de qualquer viagem, bate uma ansiedade estranha.
É um misto de curiosidade pelo desconhecido que me espera, é um receio de que algo inesperado possa surgir lá e também cá, com tudo o que fica ...
E é também uma nostalgia, apesar do cansaço instalado, de tudo o que deixo ... pessoas, bichos, coisas ...
Porque afinal tudo isso, bom ou mau, é a minha realidade diária, é o aparentemente certo na minha vida, é a minha rotina.

O Homem é um animal de hábitos, e tendo embora um lado bem aventureiro de viajante, dentro de mim, uma ânsia da novidade, uma necessidade saudável de quebrar rotinas, que afinal penso ser inerente a quase todos ou todos os seres humanos, sempre se me aperta um nó no peito, na hora de fechar a porta de casa e olhar p'la última vez os meus gatos, que sem a noção do tempo ( espero ), continuarão a aguardar que eu volte da rua ... na hora de desligar o telemóvel, porque o avião já aquece os reactores ... no momento em que passo a ser eu, só eu, eu comigo mesma apenas, frente a todas as emoções, dúvidas, decisões, escolhas, com os olhos bem abertos, os ouvidos bem despertos, o coração bem disponível, vazio de tudo o que seja negativo e angustiante, se possível ...

E pronto !

O mais que eu vir, que eu viver, que eu experienciar, como uma infantil aprendiz de vida, totalmente desarmada, e vazia de pré-concepções e juízos, de alma lavada, coração receptivo e sequioso, e uma cabeça povoada de sonhos e fantasias ... contarei na volta, com o entusiasmo de todas as histórias plenas de ingenuidade, bonomia e pureza, sempre bebidas  em  deslumbramento, pelos  marinheiros  de primeira viagem !!!...

Por cá, fiquem em paz, com tudo de bom nas vossas vidas ... e, ATÉ  BREVE !!!...
Porque eu ... JÁ  VENHO !!!

Anamar

domingo, 22 de junho de 2014

" BREVE PARTIREI ..."



Cheirava a chuva, na mata, hoje ... Cheirava sobretudo a terra molhada, enquanto o ar desanuviado de poeiras estava leve, puro, fresco !
Tinha havido uma renovação, porque a água que tombou copiosa dos céus, neste segundo dia de Verão, fizera uma faxina por lá.

Passei e não encontrei vivalma, não obstante ser domingo, não obstante não ser fim de semana de praia ... Restaram-me os pássaros volteadores, os insectos batendo asas de queratina por entre o restolho ressequido aqui e ali, ou as borboletas em bailados diáfanos de elfos, na busca de pólens à discrição ...
Talvez as pessoas tivessem receado que as chuvas a destempo, mais que as orvalhassem ... as encharcassem mesmo.

Lembrei as abençoadas chuvas tropicais, lembrei o que são as borrascas em terra de calor a sério, e de chuva a sério também!
Já tomei grandes aguaceiros, estrondosamente fortes, curtos, saborosos.  Já apanhei com grandes trovoadas bem por cima da cabeça, enquanto me sentia privilegiada, e me deleitava por poder atravessar a tempestade ribombante, dentro daqueles mares cálidos de águas dormentes e preguiçosas, enquanto as luzes rasgavam o firmamento, desenhando lasers nunca igualados.

Estranhamente também aí, as pessoas fogem, correm a abrigar-se não sei do quê, nem para quê ...
Do que afinal, sendo uma bênção da Natureza, apenas nos relembra o gosto que é, estarmos vivos !
E nas águas, que por reflectirem o céu  se tornam plúmbeas, me envolvi como em manto doce, me aninhei como em alcova de amante ... e absorvi até à alma, longamente, o cheiro salgado do mar ... o cheiro adocicado da terra úbere!...

Breve partirei ...
Breve procurarei as terras magnânimas ... uma vez mais.  Vou encontrar o centro da Terra, vou procurar aquela estrada invisível que corta oceanos, atravessa continentes, e fala uma única língua, a única que liga os mundos ... todos os mundos ... a universal !
Breve verei a multitude das cores da paleta do Mestre, breve me extasiarei com os verdes, os azuis, os ocres, os castanhos, os dourados e os prateados das orlas de vai-vem ...
Breve vou absorver todos os cheiros que não se descrevem, todos os sons e os silêncios, todos os cânticos e todas as vozes ...
E verei rostos que não conheço, mas que de repente ficam meus ... Olharei outros tantos sorrisos ladinos, de outras tantas crianças  como todas ... porque as crianças são todas iguais, e os seus sorrisos desarmados, são sempre de querubins !...
E verei os sóis a acordarem e a deitarem-se, entre os laranjas, os fúchsias e o recorte  negro das palmeiras esguias e dos coqueiros despenteados ... E a  lua, que em quartos ou  plena, torna o mar numa poalha de prata ...
As estrelas povoar-me-ão os sonos, porque ponteiam os céus escurecidos ... e os sentires, todos,  montam vigília e sentinela, para que nenhuma emoção se perca por lá, e para que a verdade e a autenticidade das terras do café, do cacau, dos escravos e das senzalas,  que ecoam pelas encostas e perpassam pela mata, me devassem, me penetrem e me preencham ... em plenitude !...

Puro hedonismo, no sonho, no desejo, na alma de viajante que transporto em mim ... porque "só existe um êxito : a capacidade de levar a vida que se quer" - Morley, Cristopher


QUEM SOMOS

O mar chama por nós, somos ilhéus
Trazemos nas mãos sal e espuma
cantamos nas canoas
dançamos na bruma

Somos pescadores-marinheiros

de marés vivas onde se escondem
a nossa alma ignota
o nosso povo ilhéu

A nossa ilha balouça ao sabor das vagas

e traz a espraiar-se no areal da História
a voz do gandu
na nossa memória ...

Somos a mestiçagem de um deus que quis mostrar

ao universo a nossa cor tisnada
resistimos à voragem do tempo
aos apelos do nada

Continuaremos a plantar café cacau

e a comer por gosto fruta-pão
filhos do sol e do mato
arrancados à dor da escravidão


OLINDA BEJA  ( poetisa natural de S.TOMÉ E PRÍNCIPE )


Anamar

quinta-feira, 22 de março de 2012

" CADA LOCAL, UMA MARCA "


Queria ser viajante do Mundo.  Sim, porque viajante dos sonhos, já sou há muito !

O meu pai foi viajante, viajante do burro à camioneta da carreira, da carruagem ao comboio que deitava fumo pela chaminé, e fazia "hu-hu" ... "pouca-terra" ... "pouca terra" ...
O meu pai foi viajante na época em que se faziam assaltos nas estradas, pelas madrugadas.  O cocheiro tinha que parar por emboscada, nessas estradas do Alentejo, que era ainda mais, de planícies sem fim.
E os pertences, sonegados.  Nada a fazer !

Hoje temos o Mundo todo aos nossos pés, com uma segurança quase total, com uma disponibilidade quase total, a oferecer-se em espanto, aos nossos olhos.
É um crime os nossos bolsos não o comportarem.  É um crime não se poder aterrar, para levantar a seguir, quase logo a seguir, de mala feita em perenidade ...
Porque o Mundo é imenso e os cantos e recantos, as cores e os cheiros, sempre estão lá à nossa espera ... e o tempo é curto.

O sol ou a chuva, os nevoeiros de golas altas ou a nudez dos corpos escaldantes, continuam nos mesmos lugares, à espera do nosso "flash" visual ;  porque as melhores fotografias são as que ficam nos olhos e na alma, e não as que se guardam nas gavetas, nos vídeos, nos DVDs, nas mesas das nossas salas, a quilómetros e quilómetros de distância.
Aquelas, espantosamente nunca perdem as cores, nunca esbatem os tons ;  os sorrisos nunca ficam amarelos, as neves nunca degelam nos picos, as flores nunca perdem o cheiro, nem sequer o mar silencia nas areias ;
as vacas nunca calam os chocalhos, nos picos dos Picos da Europa, nas pradarias junto aos lagos ... o gelado comido à ganância nas ruas de Estocolmo, também não derrete antes do tempo ...
O coração deixa fugir, vai deixando desgraçadamente fugir algumas / muitas coisas de então, mas se fizermos muita, muita força, conseguimos voltar a perscrutar, com nitidez bem aceitável e resolução razoável, muito do tanto que os dias tentam levar-nos, para o mundo das sombras.

E a viagem do viajante faz-se de novo com a sua cabeça, com a continuação do que sonhou e foi só interrompido, com a memória dos registos que nunca serão apagados, com a liberdade que lhe é facultada pelas avenidas, pelas praças, pelo silêncio das catedrais, pelo repicar dos sinos esse mundo afora, pelos rostos de gente que se cruzou e não mais o fará, na sua vida ...  Enfim, pela sua história escrita e largada avulsa, pedacinho a pedacinho, aqui e ali.

Mas para se ser viajante é preciso ganhar por inteiro a palavra liberdade, e perder por inteiro a palavra saudade.
Ganhar a liberdade, que a aventura, a ânsia da descoberta, a vontade do saber nos transmitem ...
Perder a saudade que acontece bater-nos, só pelo facto de que lá é lá, e cá é cá ... e sempre o nosso "chão", num chamamento silencioso, nos  acelera às vezes, as batidas do coração !

Já fiz algumas viagens, ou melhor ... já fui a alguns lugares,  desses longes que nos acenam.
Todos me ficaram !...
Todos têm uma marca, um rótulo, uma tatuagem.  Se pensar em todos eles, há seguramente uma palavra, uma frase, uma ideia, uma imagem que os traduz ...
Assim sem grandes esforços, sem exageros, poderei dizer que a todos, está associada alguma coisa que se salvou, que ficou, que impregnou e que passou tão para debaixo da pele, tão para dentro de mim, que tenho a certeza, sempre mas sempre ( a menos que a Vida me apanhe em alguma curva mais desonesta do caminho ), completará a minha memória, o recheio da minha sacola de viandante ...

Luanda é a argila vermelha, a "boca da fornalha" ... as acácias em flor.  Mas também traineiras, com pencas de gaivotas rodopiantes, sobre o peixe fresco, na baía.

Caldelas, mais atrás, em menina,  pais em lazer de termas, "recupera-me" do "baú", os brinquedos de madeira, com que se faziam as tardes no Hotel.
Recupera-me as vacas barrosãs em manada, pela estrada, em busca da fonte para se dessedentarem.  Recupera-me as latadas de sombra abençoada, para passeios intermináveis, o cântico gorgolejante dos regatos, e os "barquinhos", feitos não de papel ( como são os barquinhos dos meninos nos riachos ), mas tão simplesmente das folhas das hortênsias que ladeavam os caminhos, e que me emocionavam as "regatas" ...

Caraíbas sempre são sol imenso, mar turqueza, areia branca e fina, e uma vida espreguiçada a render, a render ...
São cheiros adocicados e mornos, na exuberãncia das cores de tudo o que existe.
Bob Marley  e o "reggae" ... corpos bamboleantes e suados em ritmo ininterrupto, os pores-de-sol de fogo, e o cheiro da "erva" pelo espaço, noite adiante.
E uma vida que parece  correr mansa, porque corre despreocupada. Hoje é o hoje ... amanhã se verá !...  A despreocupação de quem pouco tem, e por isso, pouco ... se perder.
"Devagar, devagarinho ... parado ..." o registo de quem não se afoba, senão para sobreviver.

A Europa civilizada faz-me aportar a Estocolmo, leva-me aos cumes dos "igloos", nas terras dos samis, na gelada Lapónia, junto de glaciares que não se mexem, e leva-me aos gelados divinais, a substituirem almoços de arenque ou salmão fumado, que não "desciam" de nenhuma forma ...
Também me transporta à imponência e grandiosidade da ancestral Praga, e na Ponte Carlos, o pedido de sorte a Santo Nepomuceno, padroeiro da cidade ( tocando-lhe a estátua ) ... ao relógio astronómico frente à casa dos cristais da Bavária, e à feira de "bric-a-brac" na pracinha.

A Europa civilizada leva-me ao mundo de outro mundo dos fiordes, entre falésias abruptas ... leva-me aos abetos, aos pinheiros das florestas de coníferas, montanha acima.
Mas também às pradarias salpicadas de boninas, de mirtilos, de framboesas, de musgos e líquenes ... de toda uma multicor flora selvagem, e à presença sentida por perto, dos ursos polares, dos alces, dos veados, do lobo e da raposa do Ártico, na Noruega inesquecível !...

A Europa civilizada encaminha-me de novo à irrepreensível e sonhadora Viena, numa Áustria de Danúbio a correr lânguido, de concertos ao ar livre, com Strauss a dançar dentro de nós ...
Aos "edelweisses" de Salzburg, desenhada contra os picos do Tirol, da música de todos os corações, com sonatas de Mozart a enfunarem-nos a alma ...

E Peste, vista do alto de Buda, na Budapeste que não me sai da memória !
A Budapeste das águas em que se espelha, das dez pontes que enleiam, por sobre o Danúbio, as duas margens, fazendo uma só cidade, um só povo, uma só maravilha !...

Copenhaga tem o rosto do almoço saboreado rés-vés ao canal, e o cosmopolitismo de uma cidade com uma profusão e uma miscigenação de gentes, de cores, de línguas ... uma promiscuidade de civilizações !...

O Brasil sabe a Rio, sabe a Baía de Todos os Santos, com Jorge Amado por ali ;  sabe ao bondinho do Cristo Redentor, amarinhando quase até ao céu ;  sabe à Rocinha, paredes meias com o luxo e com a assimetria da injustiça social.
Tal como Natal sabe a dunas de areias incertas, a águas esmeralda, a "buggies" correndo soltos, de cabelo ao vento ...

E Tailândia sabe a misticismo, a recolhimento de templos, com paz que não se explica mas se sente.
O despojamento, o voto de pobreza, a meditação dos monges nos locais sagrados, inóspitos, empoleirados, de que só se divisam as cúpulas douradas no meio da vegetação, fazem-nos reequacionar a Vida, os valores e os princípios ocidentais.
Nada a ver !...
Tailândia, "terra de homens livres", sempre me traz à memória o silêncio daquela madrugada sobre o rio Kok, a acender-se no fogo dos laranjas no nascer do sol, nas águas repentinamente iluminadas, com os trinados dos primeiros pássaros acabados de despertar, e a brisa fresca duma manhã que me colheu sonhadora e meio adormecida, na varanda do meu quarto, bem no alto do hotel ...

E Óbidos ... leva-me uma e mil vezes, ao chouriço, ao queijo e ao pão caseiro, frente a um tinto de excelência, com remate a ginginha, uma e outra vez ...  Como o Gerês me traz a Caniçada, a bordar as terras do Agrinho ... como a Estrela me traz a "Casa do Burro" e aquela lareira cutucada pela noite fora ... e Monsanto me traz uma noite de gelo, em cama aquecida por corpos ... e Marvão, claro, Marvão sempre será o castelo, as águias, o gato preto e a noite de breu ....  Sempre será a varanda sobre o telhado, o corpo semi-despido, numa madrugada ardente, de um Alentejo igualmente abrasador ...

E Geia, entre serras, sempre será lareira até horas perdidas, sempre será Piódão, e uma paz de descoberta e ausência de horas e pressas ... sempre será os jantares no João Brandão ...

Bali ... apenas a Ilha dos Deuses, a Ilha das Flores ... a Ilha dos Amores ...
Não se passa por Bali sem lá viver uma grande paixão ... diz a lenda ...  Será??!!

Bom, recuso continuar ...

Os mecanismos humanos são estranhos, herméticos, inexplicáveis !!!...

Por que será que cada local é um "rosto" e não outro, cada vivência uma determinada "marca" e não outra, cada sítio um cheiro, uma cor, o timbre de uma voz??!!...

São essas marcas indeléveis, que não me desgrudam dos olhos, do coração e da alma, que me fazem eterna viajante do Mundo, mesmo que não saia do meu canto de sempre, mesmo que só tenha os telhados e o casario sem expressão, frente à minha janela ... e apenas a minha gaivota voe tão longe e tão livre, como os sonhos e as memórias que me povoam !!!...

Anamar

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"PROCURANDO OS MEUS TRILHOS..."


Constato que o sol anda mais baixo...

A esta hora, aqui na minha mesa do PC, bem frente à minha janela, como já sobejamente vos contei....não me bate nos olhos, nem me inunda, como há tempos atrás.
A minha janela é cúmplice com este casario, sem expressão nem graça, de uma terra atípica, triste, despersonalizada....sem alma!
Isto porque, são tantas as almas que aqui vêm só dormir e lhe voltam costas diariamente rumo a Lisboa, que sobram apenas os utentes desocupados, das pracetas da vida!

Não há espaços verdes, não há pormenores que alindem, não há raízes que prendam as pessoas.
Esta terra, é cada vez mais, uma terra de passagem!

A minha gaivota às vezes vinha....desafiar-me por aqui.
Agora, nem rasto. Acho que anda equivocada, pelas falésias de mares ainda serenos, a pensar que a época balnear está instalada.
Este pseudo-verão, ensandwichado no Outono, é o que faz!

Nós próprios levamos uns dias estranhos, como se vestíssemos uma fatiota que não é bem a nossa medida!

Eu estou numa de contar os dias.
Breve vou viajar, mulher que sou sem terra ou mundo. Vou outra vez tirar a respiração bem até ao fundo, vou outra vez lavar os olhos e a alma.
Ao contrário de Earl Grant no seu "The end" (que postei anteriormente), para mim, o fim duma viagem é já o começo de outra, como as ondas na praia que desenrolam noutras que se aproximam...
Diz ele que no fim dum caminho não há mais para onde ir.
Os meus caminhos, como leque ou concertina, vão abrindo, abrindo, abrindo.....e sempre surge uma vereda que me transporta mais além.

Seguramente não vou repetir o que vi, pela simples razão, que tudo é mutável a cada instante, e o que se viveu não é mais o que vai viver-se...
Mas a riqueza a armazenar na alma e no coração é por certo exponencial  ao entusiasmo que já me domina.

E conto os dias, neste tempo que parece ter abrandado a marcha, na recta final que me vai levar para os lados do sol nascente, que eu amo de paixão!

Aquilo lá, "fala" muito a minha língua...
Aquele desprendimento pelo material, pelo supérfluo, pelo  que nos é tão "imprescindível" por aqui, toca bem cá dentro, tange-nos no mais profundo de nós mesmos...faz-nos parar, faz-nos meditar, faz-nos reflectir!
A beleza que transpira pelo céu, pelo mar, pelo sol que nasce e  se põe em cerimónia fulgurante, os verdes e a cor dispersa  das flores, pelos cantos... a música que só perpassa nos nossos ouvidos, em tímbalos dolentes e harmoniosos, são vitamina para a mente, bênção para o espírito

Vem-se forçosamente um ser melhor, mais completo, mais purificado, das terras do oriente!

Anamar