segunda-feira, 31 de outubro de 2016

" ORAÇÃO VESPERTINA"




O último pássaro atravessou este céu empalidecido.
Ia sozinho, decidido, rumando ao horizonte, em recorte esfíngico , contra as pinceladas laranja desenhadas num azul diáfano, diluído ... líquido, eu diria ... deste fim de dia.
É um céu de paz e serenidade, este que se desenha frente à minha janela.
É um recolhimento absoluto, esta hora de dormir, em que a Natureza emudece e se apazigua.
Não há perturbação, não há ruído ... é uma hora de privilegiado comprazimento. É uma hora de intimismo perfeito.  De equilíbrio e harmonia.
Em que a beleza que não se descreve é um louvor que se eleva ao infinito.
É uma oração celestial de gratidão pela arquitectura perfeita que nos envolve.
É um enlevo que nos emociona, por tão insignificantes, merecermos tanto !...

Sempre silencio, no recolhimento de claustro de abadia ... nem sei explicar o quanto !
Pareço não querer tocar o que vejo, o que sinto, o que perscruto.  Porque tocando, perturbaria este milagre que se me desenrola perante o olhar ...
Breve, Vénus, a primeira "estrela" do firmamento, se acende, na guarda do rebanho que aí vem, à medida que a escuridão desce.
E uma poalha generosa ponteia e pinta, como nenhum pintor o sabe fazer, esta abóboda de veludo aqui por cima.

Fim de mais um dia que nos foi dado viver ...

Anamar

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

" EU TORNEI-ME GAIVOTA ... "


O bando dá em passar por aqui, nestes fins de dia.
Quando as luzes do céu já se fecharam, quando o cinzento que se estende até onde a vista alcança prenuncia borrasca pela noite que se avizinha, elas passam pressurosas numa urgência lida, de busca de poiso para a pernoita.
Seguem na mesma direcção ... todas ... muitas, ordenadamente, como quem voa sem dúvidas no itinerário ou sequer no destino a alcançar.
Vão determinadas.  Conhecem o objectivo ... e têm urgência.
Afinal a noite aproxima-se, o mar está longe ... e a tempestade anuncia-se ...

São elas, as gaivotas, sobre quem tanto sempre escrevo.

Olho-as, "sigo-as", projecto-me através delas na liberdade de todo um firmamento por minha conta.
De todo um  mundo sem barreiras ou limites que o definam.
As gaivotas despertam-me desejos do que só adivinho e que está para lá do que alcança a mente humana.
Falam-me das asas que não tenho, transportam-me as saudades que me pesam no coração, levam-me recados sem endereço ou morada ...
São estafetas dos sonhos que me moram na alma.  Falam-me dos horizontes sem horizonte da vontade indomável que me habita ...
E dizem-me do mar, morada eterna de meu repouso e sono.
Dele, contam-me os seus segredos salgados e embalam-me na melopeia das ondas que adivinho num desmantelo ... lá longe !
E mostram-me o vento que lhes despenteia as penas, e sempre me desafiam a partir ... embora eu só as veja por detrás da vidraça que  me torna refém de mim mesma ...
Tenho a certeza que passam aqui p'ra me justificarem a imaginação e o devaneio. Para me acicatarem a vontade... p'ra me confrontarem sem remédio, com as minhas raízes e escoras ao chão que habito ...

E contemplo-as longamente ... melancolicamente ... persigo-as com o olhar, até onde a vista mo permite e me espicaça ...
É uma nostalgia errante a que me aperta aqui por dentro, por vê-las partir ...
É uma orfandade doída, a que me deixam no peito quando me percebo, injustamente, mais só ainda ...

E acabo indo ...
E parto no bando, lado a lado, aprendendo a contornar os golpes de ar, aprendendo a preguiçar na orla das nuvens, aprendendo a brincar nos volteios da ventania, desbravando as estradas do céu, saboreando os salpicos das marés, equilibrando-me  no pico das escarpas altaneiras ... e sendo dona dos areais  infinitos, agora que as praias ficaram vazias ...

De repente eu aprendi um caminho, eu rescrevi a minha história ... eu ganhei asas ... eu tornei-me gaivota !!!

Anamar

sábado, 15 de outubro de 2016

" A IRRELEVÂNCIA DO EXISTIR "




Não escrevo ... faz tempo que não escrevo !  Nem consigo achar que valesse a pena fazê-lo.
Parece que já disse tudo o que tinha a dizer.  Parece que secou em mim a cascata que me extravasava, me inundava e me transbordava, abençoadamente, quando punha as letras no papel, quando o coração jorrava e a alma se despia, em alívio ...
Tudo parece ter deixado de fazer sentido !  Tudo ficou  desconhecido !  Eu passei a desconhecer-me, mais e mais ...

Estou a viver uns tempos absolutamente estranhos na minha vida.  Sinto-me como que dormente, amodorrada, adormecida..
Pareço esperar um qualquer nada que não defino.  Pareço esperar uma qualquer esquina, que dobrada, me mostrasse um caminho, uma estrada, um rumo ... um horizonte.
Um horizonte que me definisse vistas ou perspectiva, que daqui, deste ponto onde me encontro não enxergo, não alcanço, não diviso.

Como se pode viver apenas respirando, acordando, dormindo, realizando as mínimas funções vitais ?
As mínimas, garantes apenas da sobrevivência ... Porque viver não pode ser apenas isto, tenho a certeza !
Não experimento emoções, não toco a esperança, não me entusiasmo ou preencho com projectos, futuros, sonhos, ilusões ...
Parece que já esqueci o que é tudo isso !
Apenas sinto um cansaço e um abandono de ser desistente e incrédulo.
E pergunto-me quanto tempo alguém é capaz de se arrastar assim ?!
Estou cansada, brutalmente cansada  sem ânimo ou força para continuar.  Tudo parece ser irrelevante na minha existência. Indiferentemente irrelevante !...
Como se um vento destruidor  de tempestade alterosa, me tivesse pegado em remoinho de dia invernoso, e como folha arremessada, me jogasse num vórtice impiedoso ... E me açoitasse, e me sacudisse, e me atirasse pelas alamedas de jardim esquecido onde ninguém passa ... em rodopio entontecido !...
Qual folha amarelecida de Outono , ignorada numa esquina de ventania.  Varrida pela ignorância da tempestade, com a indiferença absoluta do desconhecido.

Pouco importa quem sou, o que sou, como estou ...
Quem se importa com a folha seca, desprendida daquela árvore que se despiu na aproximação do desabrigo que aí vem ?
Quem sequer sabe que eu ainda existo, só porque ainda estou por aqui ?

Exausta ...
Numa espécie de fim de linha, de volta de estrada ... de fim de caminho !
Vazio ... só vazio à minha volta.  Silêncio absoluto.  Descolorido de fim de dia ...

Mais um.
Apenas mais um a encerrar as portas.
Mais um que jamais poderá retornar e voltar a ser vivido !
Mais um que nunca mais poderá ser reinventado na minha vida !...

Anamar

sábado, 8 de outubro de 2016

" FIM "




Estranhos estes fins de tarde ... Estranhos estes fins de estação ...Estranhos os fins de vida !...

Os dias anoitecem bem mais cedo.  Alaranjam lá ao fundo, escurecem os contornos que se tornam mágicos ... e partem.
A mornidão ainda prevalece, doce, embaladora, envolvida nas cores anoitecidas e dolentes de um Outono recém chegado.
Os silêncios descem, como se a Natureza entoasse uma canção de ninar, de fim de dia.

Junto de mim, Énya lança acordes celestiais, aqui neste meu quarto de solidão e paz.  Por alguma razão a busco, no aconchego da quietude que me rodeia.
Ela "fala-me" na medida certeira do meu estado de espírito.  Ela afaga-me a alma, e aquece-me o coração, com os seus sons de melodia de outra dimensão !.
São assim estes tempos de penumbra, como claustro de abadia.
Silenciosos, dormentes, com a luz velada a coar-se pelas frinchas ...

O fim de qualquer coisa, sempre é estranho.
É um despir do espírito e é uma preparação para outra realidade, com uma roupagem nova.
É uma hora de passagem.  É uma hora de mudança. É uma hora de transição.
Nem sempre queremos deixar o que já foi.  Nem sempre estamos desarmados para receber o que chega.
Há uma violentação do Homem ... se mais não for ... sê-lo-á por inércia a ser vencida.

O Outono da vida é igual.
Encaminha-nos a passos largos e pressurosos para o Inverno que há-de vir.
As luzes da alma reduzem.  Os silêncios prevalecem.  O espírito amodorra.  O corpo cede.  O cansaço providencial avança.
Os comutadores da "grande máquina"  redimensionam as capacidades.  A apatia instala-se.  Há uma resignação latente, no cansaço prevalecente.

Vou-me confrontando mais e mais com tudo isto.  Diariamente.  Com uma violência atroz.  Demasiado longa ...
Para se viver não basta acordar, respirar, comer ... dormir, outra vez.

A minha mãe assim mo lembra, por cada dia em que nos falamos.
E quem sou eu p'ra lhe dizer que terá que entender que a realidade é aquela que a confina a um sofá, uma cadeira de rodas ... uma cama ?
Que autoridade tenho eu, que entro, que saio, que corro, que vou e que venho , para lhe dizer a ela que está frente a uma parede cujos desenhos do papel que a revestem, já sabe de cor e já contou mil vezes ... que tem que aceitar, e ... conformar-se, talvez ?
De que audácia disponho, para lhe falar em pessoas bem novas, reduzidas a um vegetar em vida ? Como se isso a compensasse da sua ... que não o é ?!
Para lhe apelar que pense em tantos quantos, bem ao nosso lado, vivem a conformação da inalterabilidade de uma morte lenta e dolorosa ?
Que atrevimento me toma para lhe dizer, às vezes já cansada e agastada, que deve tentar distrair-se com uma televisão que desliga ... porque está farta?
E que devo responder-lhe quando me diz que todas as noites pede p'ra "se lembrarem dela", porque não quer este fim de uma vida tão longa, a custos tão elevados ?

O fim de qualquer coisa, sempre é estranho..

Por que, ao longo das nossas vidas temos que conviver com sucessivos epílogos, sem remédio ou justiça?
Por que nos confrontamos, tendo que aceitá-los e ultrapassá-los com toda uma resiliência de que nem sequer dispomos, tentando minorar-lhe os danos colaterais ?
Por que nos lança a existência, sucessivos desafios de perda e devastação irremediável ?

E há que seguir.
Há que continuar, remediando as escoriações, reunindo os cacos, suturando os rasgões, embora saibamos que não mais seremos os mesmos.
O caminho é longo e pedregoso, os pés retalham-se ao percorrê-lo ... a alma dilacera-se ... o coração sangra ...

O fim de qualquer coisa, sempre é demasiado estranho !  Irremediavelmente estranho !...

Anamar

domingo, 2 de outubro de 2016

" OUTONO OUTRA VEZ ! "




Anoitece mais cedo.  Sente-se bem que os dias encurtaram.  O sol busca o horizonte bem antes do que há escasso tempo atrás.
A sua luz já não é igual.  É uma luz mais doce, mais dormida ... mais mansa.
Parece convidar a um regresso a casa, desvenda o segredo dos primeiros fins de tarde outonais.  E tem a cor desses fins de dia.  Tem os seus silêncios, a sua cumplicidade, a sua interioridade...
É um sol que me fala de saudade, que me fala de solidão, que me fala de abandono.
E do cansaço que me invade, também.
E eu tenho infinita saudade ... de tanta coisa que foi e não é mais.  Saudade de tudo ... indistintamente.  Saudade de mim !...

Eu pensava que depois de se morrer, não se podia morrer mais.
Mas pode !
Pode morrer-se e ir-se morrendo aos poucos outra vez ... Todos os dias um pouquinho.

Aqui por cima, uma gaivota sozinha, aproveita os golpes da aragem na demanda do poiso de pernoita.
Sozinha ... não voa, deambula em balanço de jeito de maré.
É a hora da passagem.  O dia cede lugar à noite, a luz à escuridão, os sons ao silêncio.

Saudade ... esse tormento de passado que se quer tornar presente, em vão !
Esse tumulto de labareda e chama desgovernada !
Essa espada que se enterra indiferente, mais e mais, dilacerando, despedaçando, cortando.  Até às fímbrias da alma ... insensível, distante ... surda !
Essa coisa desobediente e carrasca que não obedece à lógica, à sensatez, ao pragmatismo.  E nos fragiliza e desfaz por dentro.  E mata ... outra e outra vez !

Entretanto o Outono chegou.
Sinto-o, mas acho que já não o descrevo.
Há muitas emoções que percebo indizíveis em mim.  Como se me tivessem embotado o coração.
A vida endurece as pessoas.  Insensibiliza-as.  Amorfiza-as.

Lá longe adivinho a serra, nos verdes-musgo, nos ocres, nos vermelhos e nos castanhos de partida.
Sei-a e cheiro-a, como se lhe calcorreasse as veredas, de novo.  A caruma espalha perfume pelos córregos.
Os ouriços dos castanheiros bravos, dependuram-se, e abandonam o recheio.  Breve, as castanhas a assar,  voltarão a trazer-nos a intimidade de dias conhecidos.

Lá longe ... no fim do meu sonho, está aquela casinha que inventei.  Vejo-a, nas résteas de sol de fim de dia ...
Uma porta, duas janelas, uma lareira que haverá de fumegar, uma cancela de aldraba ferrugenta ... trepadeiras que já não florescem, em fim de estação ... margaridas em bordadura de beira de caminho ... e o areão que estraleja debaixo dos pés ... estrada abaixo ... sobre a arriba ...
E o interior ... ah, o interior também o vejo, pejado de sonhos, de emoções e de afectos ... entre palavras ditas e palavras apenas adivinhadas, em sussurro.  Entupido de esperança e de paz !...
E oiço claramente os acordes de Beethoven,  nas teclas do piano imaginado, nas noites de silêncio !
Porque eu sou livre de inventar ... e uma inveterada sonhadora !...
E aos loucos sempre se perdoa tudo ...

Lá longe ... depois da serra, o mar  braveja em areais que não pisei.
As rendas deixadas na areia, são véus largados que se fazem e desfazem, no capricho das marés.
A brisa que volteia traz histórias de marinheiros ausentes, e as gaivotas brincam de nostalgia de fim de Verão.

Mas tenho a certeza que agora é que se preparam p’ra serem felizes.  As praias ficam desertas, a mansidão dos mares da estação finda dará lugar às borrascas desafiadoras,  o silêncio irá imperar ... e vão restar-lhes as falésias.
E as gaivotas amam as falésias, amam roçagar a crista alterosa das ondas endiabradas, amam o desafio tentador dos ventos desgovernados que aí vêm ...  E amam ser donas das areias vazias e dos céus sem limites ... livres ... mais livres do que nunca !

É assim o Outono !

Sempre me mexe e remexe.  Sempre me envolve numa melancolia adocicada e morna ... como um agasalho promissor que me desse ninho !

Anamar

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

" SETEMBRO "



Lá longe, ao cair da tarde
uma paz me invade
me pega e me embala ...
e cala
os tormentos da vida ...
Como em despedida,
os silêncios meus
se pintam de sombras,
de cores de doçura,
de sonho e candura,
e sobem aos céus
dizendo um adeus
ao dia que parte ...
no cair da tarde ...

Tempo generoso
de fruta e de pão,
ninho e aconchego,
meu sono e sossego,
fechando o Verão !

É assim Setembro ...
é assim que eu lembro
os dias de então !
Dourados momentos
felizes,  plenos ...
quando a quietude me invadia a alma,
o coração esperançoso sorria,
e a mágoa partia ...

Hoje,                                    
o peito cansado e doído,
na tarde se acalma
ao lembrar o que era ...
Era assim Setembro,
no meu coração,
uma Primavera !...

Anamar

terça-feira, 30 de agosto de 2016

" BEM HAJAM ! "



Atingi as 50000 entradas, aqui no meu blogue, e não posso obviamente ficar indiferente a isso.

Começado há uns anos, meio a brincar, meio a sério, tem mantido até hoje as características que intrinsecamente  sempre o nortearam : é fundamentalmente um espaço intimista, um espaço privilegiado de diálogo comigo mesma, de reflexão ... também de escape.

Nesta vida de individualismo feroz e indiferente, de falta de tempo e disponibilidade para partilhas e encontros, de egoísmo e desumanização, a solidão deixa as pessoas mais e mais confinadas a células anónimas, isoladas e esquecidas.  Ilhas no meio de multidões !
Vive-se, sobretudo na cidade grande, num abandono infinitamente maior ao experimentado nas aldeias mais inóspitas e perdidas.
Porque aí, as comunidades, independentemente da sua dimensão, são gregárias, são familiares, são de dimensão afectiva.

Aqui, vive-se o silêncio, o esquecimento e o abandono.
Aqui, sobrevive-se ...

Por isso, este espaço é também um espaço de afectos. Assim o pressinto e assim o entendo.
Os afectos sem rosto, nome ou rótulo que se expressam por todos quantos, anonimamente o buscam, o lêem, com ele talvez se identifiquem.
Resta-me pois registá-lo, congratular-me e agradecer !

Tenho produzido muito pouco nos últimos tempos.
Parece que estou a desaprender a escrever ...
A vida e eu, há largo tempo, não estamos a falar a mesma linguagem ...  A desesperança e o cansaço instalam-se.
Tempos difíceis estes ...

Reitero assim os meus agradecimentos a todos vocês, aí desse lado, nesse universo anónimo do virtual, vocês que por momentos vão cruzando as vossas vidas com a minha, neste destino que se faz e que se cumpre !

BEM  HAJAM !!!

Anamar

sábado, 20 de agosto de 2016

" AQUELE MENINO "




O Kiko fecha o ciclo agosteiro de aniversários, por cada ano.

Há nove anos que está connosco, e é o terceiro de três irmãos em escadinha de três anos, como já contei muitas vezes.
Chamei-lhe uma vez, um "menino light".  De facto, não encontro outro vocábulo que melhor o defina.
O Kiko acorda a sorrir, vive a sorrir, não há o que o apoquente ou faça mudar de humor.
Conversador permanente, inquisitivo, extrovertido, defensor das suas ideias, tem uma preocupação constante em ser pormenorizadamente claro no que expõe.
Reúne e cerca-se de um fã-clube interminável, de adultos a crianças.
Amigos dos pais, amigos dos irmãos, amigos seus, do colégio, do desporto, de todo o lado ... Ninguém consegue ficar indiferente à simpatia cativante daquela criança !
Desinibido, interessado, participativo, é o produto final da "escola" recebida de dois irmãos mais velhos.

Tudo tem sido simples, na educação do Kiko.
Afinal, é o terceiro filho, e os pais, nestas circunstâncias, já "descomprimiram" das ansiedades e obsessões excessivas, com que normalmente educam os primeiros.
Também, a experiência acumulada com as primeiras crianças, mais alguns anos que já passaram entretanto, um acréscimo de maturidade e sabedoria, normalmente facilitam as coisas, e desanuviam esta nova experiência.
Quem beneficia são, em primeira linha, obviamente os miúdos, mas também os pais e a relação de convivência existente entre todos.

Penso por isso, que de alguma forma, o Kiko é possuidor de um certo "know-how" facilitador, por ter sido criado mais solto, por ser chamado a resolver-se, resolvendo as situações, por ter percebido desde sempre, que a divisão de tarefas, a interajuda, a colaboração participativa de todos e a responsabilidade individual, são a chave da felicidade e de uma vida mais simples, equilibrada e inteligente !...

Este ano, no regresso das minhas férias, tinha o Kiko à minha espera, no aeroporto.
Ele a irmã correram a dependurar-se do meu pescoço ... e de imediato, esqueci o cansaço da viagem !!!

O Kiko trazia debaixo do braço, um jornal desportivo, e resolveu aproveitar o meu regresso a casa, para me actualizar sobre as "últimas" do seu Sporting : as transferências de jogadores importantes do plantel do clube, ora a decorrerem ... Mais me informou, de uma forma exaustiva, das suas preocupações com as inerentes conseqências,  monopolizando a minha atenção para o que reportava como muito importante !!!...
Era quase um homenzinho a falar !!!...

Este é o Kiko ... o puto mais bem disposto que conheço, o menino de sorriso franco e aberto, face a tudo o que o rodeia !

Hoje é o seu dia.
Que seja mais um dia feliz, na senda de todos os que a vida lhe reservar ... é o que daqui, embora longe, lhe desejo e vaticino !

UM  BEIJÃO, meu amor !

Anamar

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

" PARTIDA " - dedicado à Lena ... talvez a minha melhor amiga






"Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir, 
porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende ...
Amigo, a gente sente ! "

                                  Machado de Assis



Olhei p'ra ti, e pensei
que num dia que eu não sei,
tu vais estar à minha beira ...
E "irmãs" que fomos em vida,
nessa hora de partida
vais velar-me a cabeceira ...
Nos caminhos deste mundo,
tanto desgosto profundo
ajudaste a suportar
E tacteando o destino,
como a um eterno peregrino,
deste a mão no caminhar ...

Os amigos que se escolhem
são irmãos de coração...
companheiros de caminhada
círios a iluminar a estrada,
sempre nos erguem do chão !
São esteios que a vida nos dá
São faróis e são abrigos
São ombros e são bordões
São risos e são canções ...
Simplesmente ... são AMIGOS !...

E o dia será igual ...
Terá céu e terá mar ...
as estrelas irão subir,
a lua deita a dormir,
nunca nada irá mudar !...
E a gente ri, ou chora
com a indiferença da hora ...
Não será essa a razão
que a possa deixar mais triste ...
Não sabe sequer que existe
de partida, um coração !

Anamar

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

" A DESCIDA ÀS PROFUNDEZAS "




Os mistérios insondáveis da  memória humana são algo que me assusta  mais e mais, à medida que a vida se desenrola.
É perturbador mergulharmos nela, como um espeleólogo que busca a profundidade, neste caso, da alma.
Surge como um túnel mal iluminado, que se aprofunda e agiganta.  Surge como uma passagem entre pontos de acesso quase inatingíveis.

Se recuarmos no tempo e tentarmos escalpelizar os lugares que buscamos, com o avanço dos anos, uma cortina entretecida em teia opacizada, vai inviabilizando progressivamente, esse desiderato.
Refiro-me a memórias de passados recentes, porque persistem sobretudo apenas, os mecanismos da memória longínqua, explicáveis à luz da ciência.
A medicina sabe claramente, por que as memórias mais recentes se apagam, e de uma forma aparentemente ilógica, as memórias distantes emergem com uma nitidez e clareza que confundem.

A minha mãe caminha para os noventa e seis anos.
Este fim de semana ficámos juntas.  Conversámos longamente.
Tem demências pontuais.  Tem confusionismo, obscuridade no conhecimento e na linguagem, a acentuarem-se em progressão.
Procuro situá-la, pela conversa.  Procuro referenciá-la, buscando pessoas, lugares, acontecimentos significantes, que vivenciou e lhe foram importantes.
Procuro "escavar"  no seu cérebro, momentos, ocasiões, factos, coisas, emoções, afectos ... lugares.
E como um escafandrista, trazê-los à tona da sua memória, tentando envolvê-la nos resquícios dos registos que possam existir.
Tento deitar-lhe laços, bóias, cordões que a reabilitassem, aqui e agora.

A minha mãe fala com uma nitidez e uma clareza impressionantes, sobre realidades da sua infância e juventude.
Projecta-as na actualidade, indistintamente, sem balizas ou impedimentos, sem triagens ou capacidades interpretativas.
Faz um "mix" desconexo e doloroso, que toma como real e actual.  Uma espécie de filme em rewind.
Sem noção de tempo ou espaço.  Sem noção de passado ou presente.

Em contrapartida, as suas experiências recentes, memórias de um passado próximo, estão totalmente deletadas na sua cabeça.

E é dolorosíssimo, destruidor, aterrador mesmo, assistir ao esforço supremo que exercita, para pescar tudo o que lhe ficou num mar de profundidade inalcançável.
É duma violência sem tamanho o seu "esgaravatar" mental, para tentar alcançar de novo o significado de coisas que lhe foram perfeitamente familiares e queridas.
É desesperador assistir à incapacidade de afastar as cortinas tenebrosas que inapelavelmente lhe cerram a memória, e lhe barram o caminho de acesso aos recônditos da mesma !

A minha mãe sempre amou e sempre se rodeou de plantas e flores, muitas delas, por si plantadas.
Tratava-as, acarinhava-as, desvelava-as com um esmero sem tamanho.
Em cada palmo de terra, dispunha uma sardinheira.  Em cada canto cuidava uma buganvília, uma glicínia, um hibisco ...
Nos últimos anos viveu numa casa com jardim, onde podia para felicidade sua, desfrutar de uma qualidade de vida que a preenchia plenamente.
Lá, a minha mãe apenas lembra que foi feliz.  Como um sabor impreciso que fica, de uma iguaria que já engolimos ...
De lá, tem imagens ténues e esbatidas, como manhãs de nevoeiro, que por mais esforço que façamos, nos impedem de divisar mais além ... com definição ...
Apenas isso !
E quando tento que recue e desencave  uma centelha da felicidade que experimentou, quando tento que abra uma pequena fresta que lhe permita espreitar lá atrás ( como uma cortina que pudesse correr, deixando livre o olhar e deixando a memória saltitar ) ... perde os olhos no vácuo, fecha o rosto para lá da distância, afasta-se ... à medida que as lágrimas lhe escorrem ...

"Tenho tanta pena de não me lembrar !" ... diz.

E eu fico perplexa.  Sinto uma revolta sem tamanho face à injustiça da vida.  Sinto um pavor que me tolhe e domina ...
Será que eu também vou perder as minhas memórias ?
Será que eu também vou perder a minha identidade ?...
Sim, porque nós somos as nossas memórias !
Como é, caminhar de olhos vendados ?  Como é, ter que progredir no escuro, sem norte,  bússola,  estrelas ?   Como  é,  estar  largado,  sem  referências,  sem  rumos,  nortes,  sentidos ???!!!!

Tudo isto me consome.  Todas estas interrogações me atormentam.  Todos estes medos, me povoam.

Os pais partem,  E é quando sentimos a proximidade desse desfecho, que concretizamos que nós mesmos estamos caminhando logo ali atrás, tomando simplesmente lugar na calha que avança ... inexoravelmente !!!

Anamar

sábado, 13 de agosto de 2016

" ESTE INESQUECÍVEL MÊS DE AGOSTO "




Foi um Agosto tão quente quanto o que ora se vive.

Lembro que por esta altura, eu já não me mexia, arrastava-me.  Na cama, não me voltava ... rebolava. Tinha um "barrigão" daqueles, que para olhos sabedores, vaticinava a chegada de um rapagão.
Barriga de primeira gravidez, numa altura em que o controlo do peso não parecia ser coisa preocupante.  Comer por dois ... era ainda o lema !

Ecografias não existiam. O sexo da criança haveria tempo de saber-se.
Menina era o que eu queria ... menino, o que as pessoas afiançavam iria ser.
Pelo sim pelo não, roupinhas em defensiva ..
Nada de muitos rosas ou azul-bébé comprometedores.  Uma coisa assim mais para os azuis escuros, vermelhos, amarelo pintainho que eu detestava, ou mesmo verde, o que era pior ainda !...

E Agosto contemplou o meu desejo.  Uma rapariga com quase três quilos e meio, caíu-me no colo !
Uma menina de porcelana, de cachos loiros e olhos verdes. Uma boneca, para os meus vinte e dois anos ...

Muitos anos já passaram entretanto ...
Esta história já contei vezes de mais !  Mas sempre me enterneço ao relembrá-la ...
Agora ela aí está, mãe por três vezes ... duas delas em Agosto !

Somos uma família mínima, hoje em dia.  Sete pessoas apenas, que se ligam estreitamente por laços de sangue ... Três, a aniversariar em Agosto !

O António, o primogénito da escadinha dos três, não foi de modas.  Escolheu o dia do aniversário da própria mãe, para também ele, conhecer este mundo.
Assim, o 13 de Agosto traz-me o "pack" duplo !

Quando o relógio marca   00 : 00 , sempre  telefono. É tradição cultivada .
A mãe diz-me : " Já são muitos, mãe !"...
O António surge-me do outro lado, com a voz totalmente mudada, nos seus quinze anos.
Voz de homem num rapazinho de corpo espigado, quieto, de poucas palavras.  
" Obrigada, avó" ... em escala de graves... ( rsrsrs )
Idade complicada esta !...

Fiquei meio sem jeito.
Onde está o menino que eu adormeci, para quem tocava os discos infantis, o menino também ele loirinho, em fotocópia impressionante da mãe ??!!!
Por onde ficou aquela criança que me povoa a memória e que não consigo já sobrepor a este jovem, que tenho à frente ???!!!

O tempo !...
O tempo vai contando as histórias, vai fazendo as vidas, vai-nos deixando assim, meio perplexos, atontados, gostosamente estupefactos e enternecidos, como se de repente, sem que o tivéssemos percebido, os caminhos se tivessem desenrolado  à nossa frente, embora à nossa revelia ...

Parabéns Cláudia !  Parabéns António !
Prometo ficar mais atenta, para que não me cresças assim, como se eu não desse por isso, e nem sequer tivesse sido convocada para esse milagre !!!
Dia imensamente FELIZ para os dois !

Anamar

domingo, 7 de agosto de 2016

" CONFISSÃO "




Hoje
Preciso de uma festa urgente ...
Eu preciso de um abraço
preciso de um beijo doce
de um macio toque de pele
de repousar num regaço !
Preciso de um ombro forte
de palavras que me aninhem
de ouvidos que me escutem
de calor que me renasça
de braços que me acarinhem ...

Hoje ...
Preciso de alguém que me mate
a dor desta solidão,
preciso quem me transporte
de novo à vida,
e dê norte ...
me aquiete o coração ...
Preciso de quem me ampare
e reerga da canseira,
quem oriente no escuro
o meu caminho sem rumo ...
Quem se deite à minha beira
e me ame
e me proteja ...
Quem dê colo
e quem dê ninho ao meu coração partido
Me fale outra vez de amor,
p'ra que eu volte a acreditar
que a vida tem um sentido !

Hoje ...
Quero quem me traga uma rosa
orvalhada, do jardim ...
quem me adoce este amargor ...
À minha dor dê um fim
e silencie o meu grito,
ao beijar os lábios meus ...
Quero quem deite na alvorada
a cabeça repousada
e comigo suba aos céus
p'ra catar estrelas e luas,
apanhar sóis e cometas
receber a lua cheia
com tímbalos, aulos,  trombetas ...
Quem comigo ouvir o rio
ou a água da nascente,
quem souber olhar o sol,
a tombar pelo poente ...
Quem desça comigo ao mar
a visitar as marés
Quem comigo naufragar
sem sequer o lamentar,
tendo por guia os meus pés ...
Quero quem fale a minha língua ...
( a das aves lá da serra ... )
quem saiba sujar os pés
com a  poeira da terra ...
e ame só por amar
e bendiga o amor meu ...
Eu preciso quem agarre
a criança que há em mim
e me leve a caminhar
nesta estrada sem ter fim ...
Porque

Hoje ...
Estou exausta
estou sem força
estou sem caminho
e sem chão ...
Preciso de um beijo doce,
de me embalar num regaço ...
de um macio toque de pele
que me acalme o coração ...
preciso de uma festa urgente ...

eu preciso de um ABRAÇO !...

Anamar

" O MENINO QUE ( NÃO ) VENDIA COCOS



Fernando é um menino de 15 anos.  O "maior" de cinco irmãos que vivem "lá longe" .

Todo o santo dia caminha para a praia onde se abriga do sol implacável, na sombra dos coqueiros e dos caroceiros que se espalham p'la orla .
A sua banca é uma grade vazia de garrafas, e o seu negócio são os cocos que vai apanhando no coqueiral.
Quando o sol abate um pouco, coloca-se na linha de passeio de quem busca a frescura das águas mansas, na linha da brisa doce que passa, na paz do silêncio da mata e espera ... só espera.

O Fernando quase não fala.  Está por ali, na esperança de vender um ou outro coco, que não vende ... raramente vende.

No primeiro dia que por lá passei, olhou-me e apontou para os cocos.
"Não gosto" ! - respondi.  E tentei continuar a caminhada.
Estendeu-me a mão em jeito esmolar.  "Não tenho dinheiro comigo" ! - voltei a responder.
Então, de uma forma meio imperceptível, pediu-me "comida" ... e apontou para a boca.
Um sorriso tímido aflorou-lhe o rosto.

Senti assim uma espécie de soco no estômago.  De facto, junto de si, dia após dia, percebi que o Fernando apenas tinha  um recipiente com água, e claro, os cocos ... que seriam para vender.
E contudo, ali ao lado, paredes meias com a sua solidão e abandono, um esbanjamento louco, num hotel onde há de tudo, sem tamanho nem medida ...

Comecei a parar, nos meus passeios diários.  Tentei saber um pouco mais daquele menino que tem a idade do António ... Inevitável associar ...
Não sabe ler, nem escrever, nem contar.  O peso do mundo cai-lhe nas costas ...
Passei a levar-lhe um lanche, diariamente.
O Fernando vive de silêncios.
Sorri timidamente, os olhos brilham-lhe quando me avista e repete apenas : "Gratias, gratias" !...

No dia do meu regresso a Portugal fui despedir-me dele. Dei-lhe um beijo, desejei-lhe a felicidade possível na sua vida ... Pensei incentivá-lo a ir para a escola, mas depois pensei quão absurdo seria fazê-lo !  Quase um atrevimento descabido, no contexto da vida de uma criança que vende cocos na praia, como forma de ajudar a família, ou quem sabe, simplesmente sobreviver ...

Pensamos que conhecemos tudo, que sabemos muita coisa, que já pouco nos pode surpreender.
Mas quando somos confrontados com uma realidade de contornos tão duros, violentos e injustos,  uma realidade tão desinserida, felizmente, das nossas vivências diárias de que reclamamos frequentemente, é que percebemos mais conscientemente a real dimensão das clivagens sociais, por este mundo fora, e como elas roubam indiscriminadamente os sonhos, os direitos e a vida até mesmo a um menino ...

O Fernando pouco terá de seu.  Tem contudo uma alma pura e um coração generoso, que eu sei.
Na concha da sua mão guardou meia dúzia de búzios pequeninos que apanhara na franja da beira mar. Fez questão de mos oferecer, como despedida.
Essa, a sua forma de me retribuir o pouco que com ele partilhei, em troca da sua imensa lição de vida !

Anamar

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

" E TANTO SOL LÁ FORA ... "



Chegada de fresco há poucos dias, fui "recepcionada" p'la mais inusitada cabotinice da actualidade, neste mundo que alucinou de vez ...
Mais um "fenómeno" social que a minha mente não abarca : a "caça"  de Pokémons !

E o mundo em desvario, numa correria louca e desenfreada, em torno de mais uma aplicação virtual, lançada numa realidade de vida , cada vez mais virtual também, menos verdadeira e essencial, de facto.
Manobras de diversão, intencionalidade garantida, gente por detrás a ganhá-lo, como sempre ...
Enfim, talvez nada de novo, e a turba humana envolvida até ao tutano, numa palermada universal !

Uma brincadeira, um jogo ... garantem-me.  Totalmente inofensivo e ingénuo ... não creio.

Dou por mim a pensar :  " Enquanto isso, os problemas reais que nos afectam objectivamente, a confinarem-se a uma área difusa de disponibilidade mental ...
As dificuldades gritantes que enfrentamos no dia a dia, anestesiadas, desvalorizadas, alienadas ...
O pessoal, se possível, ainda mais obcecado com os dispositivos electrónicos, desviado intencionalmente de tempos úteis de saudável diversão, de lazeres construtivos, arredado de boas leituras, de convívio gratificante ...
Os nossos jovens, uma outra vez, canalizados para interesses absurdos, para entretenimentos idiotas, em desvalorização de tantas alternativas válidas e adequadas à sua idade e necessária formação ! "

Enquanto isso, tanto sol e tanto mar a serem olhados, uma natureza abençoada à nossa volta, e um céu tão azul por cima das nossas cabeças, que teimam em deixar-se aprisionar nos monitores, nos tablets, nos plasmas dos telemóveis ...

E é tudo tão sem nexo e estranho, que, enquanto isso, no entanto, dou por mim a questionar-me se não estarei eu, simplesmente a ficar velha e desajustada de mais ?!
Se não estarei a incorporar  um "velho do Restelo" demasiado inflexível, intolerante  e excessivo ?!
Se esta minha relutância na aceitação destas facécias que considero idiotas, não será sinónimo de uma qualquer fossilização pessoal ?!
Se esta minha resistência, incompreensão e não adaptação a estas "ondas" aparentemente leves e lúdicas da vida, não advirão de, de facto, a encarar quase sempre de uma forma bem séria, definitiva e determinante em demasia ?!
Ou será simplesmente que as minhas "aguarelas" estão a descolorir na pintura da existência, e eu começo a enxergar a realidade que me cabe, redutoramente  a preto e branco ?!
Enquanto isso, começo a sentir-me "outsider" e marginal no meio de valores que não entendo, pautando-me por cartilhas se calhar "demodées", desajustada de um mundo e uma realidade que já não percebo, não entendo e onde me começo a mexer mal ...

Enquanto isso tudo, começo a ficar preocupada  !!! ... ( rsrsrs )

Anamar

sábado, 16 de julho de 2016

" E VOU POR AÍ ..."




Chega uma altura em que parece que não há remédio ...
E acho mesmo que se não fosse de outro modo, seguramente me nasceriam asas nas costas, e ainda assim, eu partiria !

Tenho uma alma por demais inquieta, tenho um espírito desassossegado, e as grades de gaiola não são para mim !
Coisa de genes, já o referi vezes sem conta.
O meu pai começou a morrer aos poucos, quando deixou de se poder perder por esses caminhos errantes, na sua profissão de viajante.
Ele era muito mais que um caixeiro-viajante.  Ele era um pardal saltitante por essas ramagens sem dono, livre e solto como a sua alma !

Eu herdei essa coisa de saltimbanco do destino. De insatisfeita de Vida !
E quando o sufoco se me apodera do coração, me tolda a mente e me perturba o sono ... eu sei que chegou a hora.  E sei também que há uma improbabilidade absoluta de continuar por aqui ...

E vou ali, e já venho !

Cerro as janelas, desligo o computador, despeço-me do sol e do céu que por aqui ficam, beijo angustiada o Jonas e o Chico que comigo dividem as vidas todo o ano ... penitencio-me por ter de o fazer, e peço-lhes que me aguardem ... Voltarei da rua num belo dia, e tenho a certeza que me saberão, mal o elevador pouse no patamar !..

E carrego comigo os sonhos sonhados, os desejos formulados, a imperiosa necessidade de ir por aí .
Carrego o sorriso rasgado da  menina a quem deram um presente.  Carrego o sabor de uma liberdade que me acaricia o coração.  Carrego a leveza da aventura adivinhada.
Parto de alma lavada e espírito desarmado.  Aberta a tudo o que os meus olhos possam enxergar, os meus ouvidos escutar ... mais do que respirando, sorvendo todos os cheiros, embriagando-me com todas as cores, extasiando-me com a luz, os sons e os sabores que a Natureza me possa oferecer !

Quero jogar o meu corpo nas águas cálidas e mansas.
Quero mergulhar na sombra da mata.
Quero perder-me nos pores-de-sol em fogo.
Quero silenciar-me no luar prateado de uma lua cheia que é sempre imensa, como imenso é o firmamento negro, pintalgado de todas as estrelas do universo.
Quero escutar o vai-vem das ondas que não chegam a sê-lo, e são apenas uma babugem rendilhada de véu de noiva, na areia branca.
Quero ouvir os pássaros no dealbar de cada dia e devassar-me com o adocicado gratuito de todas as flores e todos os frutos ...
E quero olhar o riso das crianças.  Afinal elas são todas iguais e todas diferentes, em todos os lugares do mundo !

Deixo a minha realidade quotidiana, por cá.
Deixo as minhas rotinas.  Os lugares que por serem de sempre, me sufocam.
Deixo os meus, de coração.  Com uma ansiedade enorme, é certo ... mas que terei que dissipar.
E vou  recarregar as energias, que nesta altura da minha vida, por todas as razões, estão exauridas.
Vou consertar o coração, porque também ele, o carece há muito.
Vou costurar a alma, esfarrapada que está, há tempo de mais.

E votarei. Breve voltarei !
Afinal, o  tempo não passa ... escoa como a areia por entre os dedos. Voa, como a brisa da tarde, que nunca se deixa prender ... foge, como o rasto da ave que perpassa rumo ao arvoredo !...

Deixo o meu beijo para todos.
Por cá, fiquem em paz, com tudo de bom nas vossas vidas !  E ... ATÉ  BREVE !...

Anamar

quarta-feira, 13 de julho de 2016

" HINO "





Caminhar ...

Caminhar sem rumo ou definição, caminhar só porque sim, perseguindo as asas da borboleta que caminha, voando ... é uma ânsia ancestral, que me coexiste, ou talvez me preexista, desde o útero materno.
O meu pai foi um caminheiro de destino. Por obrigação, por profissão, porque tinha que ser assim !
Eu, caminho no coração e na mente desde quando o dia me começa  a raiar, até que durma num firmamento adocicado de cores amortecidas.
E porque o betão me sufoca, os cogumelos dos Homens me violentam, as grades que eles lhes colocam me aprisionam, os trovões que ribombam  pelas ruas e pelas estradas me ensurdecem ... eu não sou feliz !

A maior volta que dou, é ao redor de mim própria.
A  maior viagem que faço, é nas rotundas da minha vida.
A maior aventura que vivo, é quando corro pressurosa, atrás dos sonhos.
O maior caminho que percorro é o que faço cavalgando a crista da onda que vai e que vem, e que sempre virá e irá pelos destinos perdidos da minha imaginação ...
O maior desafio que enfrento é a busca permanente da esperança, para alimento do meu ser ...

Os meus pés são de caminhante que recusa horizontes, mas a minha alma é a de pássaro que não conhece gaiola.
O meu coração salta de ramagem em ramagem, em qualquer pedacinho de terra que abrigue uma sombra.  E voa, alto e longe, livre e solto, como o condor dos penhascos.
E a sede que me sufoca, mendiga a paz de água das fontes ...

E vou andando, triste e definhante .  Mas sei que não pertenço a este chão !

E chega um momento em que devo partir.
Chega um instante em que sufoco, se continuar por aqui.

É quando o silêncio me é razão de vida.  É quando o sol ao despedir-se lá longe, me sussurra segredos de outros céus, outros ocasos, outras brisas que percorrem outras matas, de outras paragens ...
É quando o nariz me reclama cheiro a terra molhada.  Maresia de mares sem fim.
Quando luas cheias de firmamentos escuros, pontilhados de luzes tremeluzentes, se tornam imprescindíveis ...
É quando a melopeia dolente de mares infinitos, me ecoa trazida no cântico dos búzios e das sereias, pelas madrugadas ...
É quando os sons únicos,  são os da Terra, que acariciam e não regateiam ...
É quando me procuro, na ânsia de me encontrar ... É quando tropeço mas recuso cair, e soergo-me num desafio incessante de me superar ...

E lanço-me do ninho, como andorinha nascida, que intenta o primeiro voar.
Lanço-me no espaço, como a borboleta que desembaraça as asas ao deixar a crisálida.
Ergo-me, como o cervo titubeante largado da placenta, nas terras de África ... Porque acredita.
Faço-me à estrada ... pé ante pé ... apalpando o terreno, na dúvida do desconhecido.

Faço-me gente, e caminho. Esqueço o cansaço e as agruras. Seco as lágrimas e a dor.  Mato a fome com o sabor da paz ... E parto !

Porque não importa o caminho ... importa sim, caminhar !...

Anamar

segunda-feira, 11 de julho de 2016

" O SONHO COMANDA A VIDA "




O país deitou de verde e vermelho ... amanheceu de verde e vermelho ... aliás, eu nem sei se houve noite !

Esqueceram-se as dores, esqueceram-se as mágoas, os anseios, as dúvidas e as incertezas ...
O país abriu um parêntesis, e suspendeu-se por um tempo.
Este, o sortilégio do futebol !...
Ou melhor ... este o sortilégio da concretização de um sonho sonhado, que parecia inalcançável, e afinal, o não foi !
E era um sonho tão imenso, tão acarinhado nos nossos corações, que teve a dimensão do seu tamanho ... ou seja ... infinito !

As pessoas mobilizaram-se em redor da nossa esperança.  As pessoas uniram-se em torno do que merecíamos.  As pessoas reacreditaram, como se reacredita em causas nobres ... aquelas que o coração alberga ...
Parecia legítimo que um pequeno rectângulo aqui esquecido nesta Europa de Deus,  uma pequena terra engenhosamente tratada como enteada dos privilegiados ... um pequeno país, ardilosamente segregado pelos donos de tudo ... parecia justo, dizia, que erguesse a cabeça, se mostrasse ao mundo, com a cara e a coragem de quem lhe deu a História!
E Portugal, com a humildade que nos talhou, com a força e a determinação de quem nos forjou e com a coragem e a fé do sangue que indistintamente nos corre nas veias, acreditou, perseverou, alcançou !
Lutou, agigantou-se e valorizou-se, sem baixar a cabeça e sem se acobardar, frente ao favoritismo dos que são favoritos, só porque o são, mesmo que o mérito lhes possa não corresponder.

E mostrando uma vez mais que querer é poder e que um sonho que se sonha junto, vai muito além da força do simples crer, fomos adiante e cumprimos uma vez mais, o destino !
E a História voltou a fazer-se com a mesma tenacidade, arrostando marés adversas, ventos de temporal, e tocaias plantadas no caminho...

E hoje, as ruas, as praças, os viadutos, as pontes, tudo quanto era uma nesguinha de chão, um pedacinho de terra, o topo de uma estátua ... ao sol ou à sombra, sentados, ou em pé, horas perdidas desde a madrugada ... havia um português presente de corpo e alma, agradecido àquela gente que deu o suor, o esforço, e o sangue por uma causa que cresceu, que avassalou, que unificou, que varreu e que se tornou a onda gigante e incontrolável de nos sabermos felizes !

A onda que fez de cada um de nós, amigo do desconhecido ao nosso lado...
Que nos fez rir do nada, que nos tornou crianças irreverentes nos saltos e nos gritos, que nos uniu nos cânticos, nos slogans, no Hino ...
A mesma onda que foi uníssono no Brasil, em Timor, em Cabo Verde, em Angola ... em todos os países onde as nossas raízes nunca deixaram de dar flores e frutos ... nas bocas de todos os emigrantes que ponteiam o mundo de pedacinhos de Portugal ...
A onda que nos envolveu na bandeira da nossa vontade ...
A onda que nos prendeu uns aos outros com os cachecóis do nosso contentamento, que nos pintou e iluminou com as mesmas cores ... o verde, o vermelho e o amarelo dos nossos castelos, uma vez mais inexpugnáveis!...

E este pequeno país periférico, este sul de uma Europa chauvinista e xenófoba, este nosso torrão natal ... "lá bas", para uma França que teve que nos engolir ... mostrou de novo a sua raça, acordou de novo os seus brios, fez da dor uma força sem tamanho ... e encheu-nos  os corações, com uma alegria sem medida !
E Portugal fez-se presente na Europa, fez-se Gente no mundo, fez-se desígnio do destino !

Não vou acrescentar mais nada a tanto quanto tem sido dito, contado, falado, dissecado .  Todos vivemos tudo, bem de perto.  Todos sabemos exactamente de tudo.  Todos sofremos, rimos, chorámos, barafustámos, apoiámos os nossos putos !

Eu, fico com uma dívida de gratidão acrescida, a esta vitória :  a minha mãe que caminha para os 96 anos, viveu um dos dias mais felizes da sua vida.
E ela que com grandes períodos conturbados de demência, atravessa agora um privilegiado tempo de alguma acalmia mental, diz-me que já pode morrer em paz ... e não importa que daqui a quatro anos já não possa assistir ao novo Campeonato, já que este lhe deixou o coração pleno de felicidade !...

Anamar

segunda-feira, 4 de julho de 2016

" QUANDO ELES PARTEM ... "





Fica estranho quando as nossas relações começam a partir.
Ficamos com a certeza dura de que somos mesmo "muito mortais", vulneráveis, bem frágeis afinal.

Em crianças "desconhecemos" a morte, e sempre tentam suprimir-nos ao seu confronto.
Alguma que outra referência a ela, investe-a de um poder fantasmagórico assustador, que logo afastamos no instante seguinte.  É uma entidade perturbadora, felizmente pouco consistente nos nossos espíritos infantis, que contudo nos aterroriza.
Mesmo a mera conjectura de uma futura orfandade inevitável, deixa-nos à beira de uma desprotecção que raia o pavor.  O vislumbrar dessa hipotética situação  amedronta-nos, e por defesa sempre a tentamos alienar da nossa mente.
Quando nos assalta as noites, vira um pesadelo sem tamanho que nos desperta em lágrimas e soluços.

A adolescência, depois a juventude, começam a mostrar-nos uma realidade mais crua, ou melhor, começam simplesmente a familiarizar-nos com a Vida.
Começamos a tomar pulso ao efémero da mesma, à sua precariedade, à sua insegurança, à lotaria ou roleta russa que ela representa.
Percebemos que para morrer basta estar vivo, que a rota vai encurtando por cada dia que vivemos, que as hipóteses se vão delapidando, e que talvez não seja exactamente essa coisa sonhada  de muito destino adiante, de muito sonho a sonhar-se, de muita estrada ... quase infinita estrada, a fazer-se ...
Contudo, à semelhança daquelas férias de Verão da nossa juventude, que não acabavam nunca, ainda assim, parecemos convictos de que ... meu Deus ... tanta Vida dispomos à nossa frente !...

É uma fase da nossa existência que nos confina a um estado de graça que quase nos imortaliza.
É uma fase em que tudo podemos, em tudo acreditamos, até mesmo na fé de que nenhuma injustiça existencial nos atingirá !
É a fase da luta por tudo o que de merecedor a Vida nos reservará, seguramente.
É a fase da construção  promissora, em que a obra nasce e cresce, empolgadamente, como tudo o que se inicia  e floresce ...
É a fase da Primavera da Vida !...
A morte é um acidente desconfortável nos nossos percursos.  Para quê deixar que nos atormente ou se faça presente nas nossas realidades ?!...

O tempo segue inexorável, e dobramos então uma esquina em que consciencializamos claramente estarmos a percorrer e a saborear a última fatia de um percurso ainda de qualidade.
Um percurso saboreado com a maturidade de percalços transpostos, de sobressaltos vencidos, de turbulência ultrapassada.  Uma adultícia usufruída, que seguramente nos será devida ...
Pelo menos assim deveria / deverá ser.
Não conjecturamos desvios atrevidos da Vida.  Não "aceitamos" partidas ou pirraças dos anos.
Queremos, e achamo-nos no direito de vivê-los sem demais atropelos. Com a paz e a serenidade de uma recta plácida, suave ... a ser percorrida com um sorriso ainda iluminado no rosto !

À medida que o transcurso temporal se faz ... e porque nunca ele nos dá uma "colher de chá" ... sabemo-nos na "calha" da existência.
Afinal, "começamos a morrer no momento em que nascemos" ... ( Marcus Manilium )
Vemos partir os nossos ascendentes ... e inevitavelmente  nos sabemos ocupando o lugar seguinte da fila.

Começamos a perder conhecidos, vizinhos, gente de todos os dias ...
Começamos a deixar escoar pelos dedos, familiares, colegas ... Começamos a ver partir os primeiros amigos ... os companheiros de viagem ...

E aí, o soco no estômago deixa-nos meio estranhos.  A bordoada na cabeça deixa-nos meio atordoados.  O golpe no coração deixa-nos exangues, sufocados e amputados na alma ...
Sentimo-nos desconfortáveis.  Percebemos uma nova realidade e uma nova "arrumação" no nosso tabuleiro de vida.  Faltam peças, há lugares vazios que exigem uma nova ordem, uma nova habituação à existência !...

E não há nada a fazer !

Eles partem, simplesmente ... Resta-nos lembrar quem foram, o que nos foram, sentir o rasto da memória que nos deixaram ... Perceber simplesmente a inevitabilidade ... a orfandade dos afectos, a fragilidade do ser-se !
É um pouco contra-natura.  É um pouco arbitrário.  É um pouco violento.  É violentamente injusto, sempre achamos !
Mas é assim !...
Que raios ! Afinal, para os que ficam, urge continuar !...

E a ampulheta, mansamente continua a esvaziar.

A velhice instala-se em definitivo. E arrasta-se mais ou menos no tempo, de acordo com o destino de cada um.
E aí, grotescamente estabelece-se uma nova relação com a morte.  Desenha-se uma nova filosofia que respeita simplesmente ao sentido primário da sobrevivência do ser humano.
Há por  assim dizer, um sentido meramente egocêntrico face à existência. A biologia gera, por protecção, acredito, uma insensibilidade que parece desumana, face ao seu semelhante. Gera alguma desumanidade aos nossos olhos, parecendo desapiedar-se dos que tiveram a má sorte de tomar a dianteira ...
"Eles vão indo ... mas EU ainda cá estou" !...
Sobrevivência pura, tenho a certeza ! Alienação abençoada da realidade !  Coisa de fim de vida !

E pronto !
Esta, a reflexão que me ocorreu hoje, com toda a pertinácia que me confere o choque que senti  pela manhã, ao saber-me mais órfã, mais pobre, mais só neste mundo de Deus ... onde mais uma colega de toda uma vida de trabalho se adiantou e resolveu partir, silenciosamente, sem protestos talvez, na aceitação simples da determinação do seu destino !

Anamar

segunda-feira, 20 de junho de 2016

" TWO LIVES "



Está um laranja tão suave ao fundo, no firmamento !...
O sol já se deitou faz tempo.  Sempre o acompanho no seu percurso, até que mergulha nuns arbustos esparsos, lá longe !
É uma hora de recolhimento, mística, silente.
Invariavelmente, sempre sou acudida pelo mesmo pensamento : Quantos dos que o vêem dormir hoje, já não têm o privilégio de o ver abrir a pestana, espreguiçar e reiniciar uma outra jornada, amanhã ?!
Sabendo que sempre, desde os tempos imemoriais que a prosápia humana julga conhecer, sem falta, sem omissão, sem desvio ... ele cumpre o mesmo ritual ... o seu ritual de vida ! Todos os dias !

E como o ser humano é, de facto, ínfimo, nesta grandiosidade de magnificência indescritível !

Nas nossas curtas existências, quase sempre desvalorizamos, esquecemos, distraímo-nos do seu desígnio.
Como se o que deixámos hoje, seguramente, repegássemos intocado, amanhã ...
Num desperdício atoleimado e inconsciente, quase atrevido e provocatório, desafiamos e enfrentamos as leis da Natureza.
Como se nada mudasse e a permanência fosse um garantido princípio de vida ...

Ilusório ...  Nada em cada instante é imutável.  E tudo o que desperdiçámos ou delapidámos, na nossa triste inconsciência, jamais será recuperado, vivido, guardado .

Esta é uma angústia existencial que me atormenta, pois tenho perfeita consciência de ser das piores e mais relapsas alunas da Vida.
Penitencio-me, reflicto, analiso ... oh meu Deus, como analiso !
Chego mesmo a dar-me  ultimatuns ... desenvolvo processos de intenção, sérios e sinceros ... mas ...
Sei exactamente que este laranja do firmamento adormecido, que me deixou há pouco, foi único, irrepetível, particular ... singular .  Poderá haver muitos mais, mas já serão "outros" e não este !
E essa que eu serei então, também será outra, e não esta que hoje o olhou do alto desta janela !
E as emoções, os sentires, as esperanças, as dúvidas, as angústias ... ou tão só os pensamentos particulares e simples que me invadiram ... distintos também !
Este momento, este minuto, este lapso de tempo, terá sido único e exclusivo na minha vida, e fugazmente se terá desvanecido, sem volta !...

E teria sido tão importante que o tivesse esgotado, sorvido, me tivesse entupido com ele, em êxtase total, sem pressas, afobações ... apenas vivendo-o, saboreando-o como algo raro, justo na hora !
Teria sido tão importante que me tivesse empanturrado, impregnando-me da dádiva que é, simplesmente estar viva !...

Mas não !
Dou por mim quase sempre a viver a destempo.  Dou por mim a adiar a vivência plena das coisas para melhores dias, para melhores ocasiões, para alturas mais propícias ... para depois.
Numa espécie de corrida insana atrás do momento que virá, depreciando o que tenho.

Guardo memórias para ver depois, olhar depois, deliciar-me depois.
Guardo fotos, porque um dia terei tempo para um deleite sem pressas.
Arquivo testemunhos antigos, porque chegará a vez de os usufruir com toda a disponibilidade emocional ... Um dia, seguramente !
Repousam no fundo das arcas, recordações escolares das minhas filhas, porque um dia ... sim, um dia então, sentar-me-ei junto delas para rever tudo outra vez ... tenho a certeza !
Os brinquedos aos quilos, ocupam e empoeiram na arrecadação, porque sempre esperaram melhores dias, dias adequados, para serem brincados ...
E não foram !...  As crianças já cresceram de mais, para os acarinharem e lhes darem vida de novo ...

E o tempo segue implacavelmente.
E um dia, quando eu conseguir olhar, enxergando ... quando eu conseguir reunir o discernimento e a força para me acordar ... finalmente ... já não terei tempo para a  emenda do rascunho que foi a minha vida.
Já não terei tempo útil para a passar a limpo ...
Já não conseguirei fazer-me sair do marasmo, do cansaço, da fraude, da insatisfação a que votei a minha existência ... Simplesmente porque a ampulheta esvaziou, e dramaticamente já não terei história p'ra contar !...
Já não terei oportunidade da tal segunda chance ... apesar de sempre a ter pressentido, e de sempre saber que na verdade, a chance de cada um, é apenas a única chance de cada um !...



Anamar

sábado, 18 de junho de 2016

" LIBERDADE OU SOLIDÃO ? "

O Homem é um animal gregário.  É bicho de alcateia, de clã ...
É  "contra-natura" a sua existência como ser isolado, sobretudo se esse isolamento lhe cai no colo, à revelia de opções suas.

Todos nós, sós ou em companhia de uma ou mais pessoas, necessitamos dos nossos tempos pessoais.
São tempos fundamentais e imprescindíveis, de encontro e partilha connosco mesmos.  Eles são propícios à introspecção, à análise, à reflexão, à meditação ... à correcção.
São tempos equilibrantes ... devem ser tempos de crescimento e melhoria.
Esses tempos são nossos por direito, e assim vivenciados  nunca serão um fardo, ou sequer sentidos como solidão.

Podem simplesmente ser momentos, em que temos total liberdade de subverter, de desafiar limites, de luxar as nossas pequenas prevaricações ( tão simples quanto metermos a chave à porta a nosso belo prazer, sem sentir a obrigatoriedade de justificar, explicar ...  porque lá dentro, o silêncio desse momento, nos aquece a alma, nos aconchega ... nos convida ... nos fazia falta )
Ou o luxo de tomarmos o tal café no nosso sofá ... de passarmos a "nossa" música quantas vezes quisermos, à altura que quisermos ... de lermos o nosso jornal, sabendo que não teremos interrupções ... de comermos quando tivermos fome, de dormirmos, se o quisermos ... de andarmos nus, descalços, desgrenhados ... se for essa, de momento, a nossa vontade.

Isto é liberdade usufruída, saboreada, desejada, e nunca solidão !

A questão não é tão simplista assim.  Tudo na vida tem gradações. Como sabemos, nem tudo é completamente preto, nem tudo é completamente branco.
Também, com a análise destas questões.

Qualquer situação imposta, continuada ... recorrente, forçosamente violenta o ser humano.
Ninguém aprecia reiteradamente os mesmos sabores, as mesmas rotinas ... os mesmos hábitos.
E a questão coloca-se quando ela se arrasta temporalmente.
A experienciação de novas realidades, particularmente no caso de ligações afectivas que se dissolveram não importa porquê, deixando os intervenientes nas mesmas, face a outros figurinos, comunicam uma falsa sensação de liberdade, pelo menos nos tempos iniciais.
Se a situação finda  tiver então sido penosa, frustrante e traumatizante, somos invadidos por um deslumbramento, por uma descompressão, pela vontade louca de reinício.  Por uma Primavera de vida !
Um reinício que se nos apresenta como salvação pessoal, como desiderato de vida nova, como total libertação, como um direito nosso, afinal .
E vive-se assim, quase num êxtase conseguido, tempos que obviamente dependem também de outros vectores pessoais.
As componentes  personalísticas, familiares, sócio-culturais, profissionais e outras, têm determinação absoluta no encarar da realidade e no que ela nos passa a representar : liberdade ou solidão?

Solidão, no duro, sem outra admissível classificação, é aquela que se impõe quando somos forçados a viver, o que tempos antes se nos afigurara como libertação, êxtase ... uma conquista dourada.
Porque, voltando ao início do meu texto, o Homem precisa partilhar e partilhar-se.
Precisa cumpliciar, dividir, usufruir-se enquanto ser emocional além de racional.
O Homem aprecia a dialéctica, depende dela, cresce com ela, aperfeiçoa-se na dúvida, na troca de formas de sentir e pensar.
O Homem gosta de sonhar junto, mas também de sofrer com apoio.

Se isso lhe for negado, a solidão instala-se, tenho a certeza.
Quando o silêncio não desejado permanece, quando a ausência de ombro, de colo, de ouvidos e boca se instalam ... quando as paredes da casa crescem ... quando as noites se tornam mais escuras e fantasmagóricas ... quando as lágrimas não têm quem as seque, além de nós mesmos ... quando passamos a falar-nos alto, para nos acompanharmos ... quando a angústia instalada amarinha e dói ... podem estar certos ... ISSO, é solidão, sem jeito !

O Homem  então, dependendo uma vez mais da sua própria forma de ser, da sua capacidade resiliente, da sua criatividade, da sua formação interior, enfim, de toda a sua componência  ... busca sucedâneos, porque afinal, precisa continuar a viver.
E cada um de  "per si"  contorna, por razões de sobrevivência, o melhor que sabe e consegue, a sua nova realidade, para que a suporte.

Em suma : as opiniões e perspectivas de cada um face a qualquer questão, são obviamente subjectivas, e valem o que valem.
Esta, a minha forma de análise  perante esta dualidade ou dicotomia que avassala as vidas humanas, mais do que concebemos, nos tempos actuais.

Não sou portanto defensora de opiniões extremas e estratificadas.  Falo de experiência pessoal, de análise mais prática que teórica, de convicções que tenho para mim.
E como tal, defendo e defenderei sempre, penso, soluções intermédias.
Não perfilho a amputação da minha liberdade, como ser individual, e sempre que a deseje.
Não perco de norte, que quase sempre  a  maior solidão se experiencia frequentemente no meio de "multidões", que nada nos dizem ... mas também me rebelo e amarguro com a solidão imposta pela Vida !

Anamar