terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"SOU UMA SORTUDA ..."

 




O dia lá fora está de um desabrigo total.  Cinzento emborrascado, com aquele uniforme ar de que vai desabar em chuva a qualquer momento.
As gaivotas, as tais minhas conhecidas do bando do meio-dia não esqueceram o paradeiro e tempestade por tempestade, vivem-na em terra em vez de desafiarem a fúria das ondas alterosas e ameaçadoras.  Andam contudo meio baratinadas por aqui, voando num desmantelo total, num baile em que parecem atropelar-se a cada volteio.

Atravessamos a impiedade deste tempo há demasiados dias.  A deslocação do anti-ciclone dos Açores mais para sul do seu posicionamento atmosférico protector, abriu um corredor franco, como quem escancara um livre trânsito às superfícies frontais, vulgo depressões tropicais vindas do outro lado do Atlântico, das zonas quentes, carregadas de vapor de água e engrossadas por um oceano que, mercê das alterações climáticas está cada vez mais quente, e condensa toda a sua água sobre o primeiro obstáculo que lhe faz frente ... as Ilhas dos Açores e posteriormente, a Península Ibérica, onde despeja como baldes de água sobre as nossas cabeças ...
A catástrofe que se abate sem parança, há tempo demais sobre solos totalmente saturados, sobre rios de caudais incontroláveis cujos leitos já se não definem, sobre barragens no vermelho e sem alternativa além de descargas sucessivas ... além de ventos ciclónicos em que 100 Km/h já é quase "aceitável" ... martirizou o nosso país de uma forma avassaladora, em que a paisagem totalmente destruída, configura mais um cenário bélico, bem longe do que alguma vez poderíamos conceptualizar ...
As casas sem tecto, as famílias desalojadas, a ausência de energia eléctrica, de água, de comunicações,  destruição total de bens materiais, de empresas, de culturas, de vidas ... inviabilizam uma recuperação , uma mini recuperação que fosse, em tempo útil, apesar dos esforços desenvolvidos dia e noite no terreno, pelas estruturas adequadas e pela solidariedade de todo um povo no acolhimento dos desamparados.
Criaram-se verdadeiros quartéis generais no apoio em géneros e bens essenciais, roupas e alimentos, lonas, materiais de construção e outros, que pudessem minorar as faltas existentes a todos os níveis e praticamente em todo o país.

Mas os olhos de desespero de muitos, de desânimo de outros, a dor da perda da vida e dos sacrifícios feitos, não esconde quase sempre a sensação de impotência, de desnorte, de ausência de rumo, de descrédito num futuro que parece já não existir outra vez !!!

E os velhos?  Aqueles que ficaram mais ignorados, por isolados em aldeias inóspitas no meio das serras ... sem luz, sem calor, sem saberem dos seus e sem que deles saibam ?!
" Como uma merenda e vou para a cama "... É só o que podem fazer, dia após dia até que chegue a sua vez de serem socorridos ...

E depois há os que sobem aos telhados, porque sim... porque por qualquer forma têm que cobrir os tectos, a céu aberto ... e não há obviamente quem possa acorrer a tudo.  E quantos, desses, acabaram com as vidas por acidentes em quedas e desequilíbrios com tudo totalmente molhado e escorregadio ...
E há os que inalaram monóxido de carbono, dos geradores, únicos recursos às baixas temperaturas que se têm feito sentir e igualmente perderam ingloriamente as vidas para as tempestades insensíveis que nos atropelam umas depois das outras !...

Estou triste.  Muito triste, embora em privilégio.  Afinal, além dos guardados na arrecadação do terraço, mais ou menos encharcada, apenas na minha sala, pinga.  Apenas não durmo quando o vento sopra.  Apenas esvaziei parte da casa, mais exposta ao vento atroz.  Apenas durmo e vivo com ansiolíticos ... apenas... apenas ...
Tudo o mais, eu tenho.  Até os meus gatos têm tecto, comida e calor.  Sou uma sortuda !...

Anamar