domingo, 15 de fevereiro de 2026

" POIS É ... HOJE É DIA ..."


Hoje é 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados ... lembrei-me agora ... Bom, ainda me lembrei, ainda é dia ...
Engraçado que já dediquei este dia a gente de carne e osso, dediquei eu, porque o inverso quase nunca se verificou. Sempre tive namorados, amores mais ou menos inflamados que desgraçadamente diziam nunca valorizar este evento. E eu, romântica, jovem e apaixonada, cruzava-me na rua com aqueles que de rosinhas nas mãos, certamente iriam ter um resto de dia daqueles ... daqueles que eu imaginava, sempre imaginava ...
Quando estava casada, o meu ex-marido, um ano, um só ano não sei o que lhe deu, lá me ofereceu um objecto que ainda detenho, obviamente, de péssimo gosto ... fazer o quê?!  Fiquei muito agradecida, claro, até hoje não sei a razão da oferta ...
Num outro S,Valentim, o Carlos cruzou-se acidentalmente comigo ( nem ele nem eu sabíamos que àquela hora estaríamos ambos na 5 de Outubro, ele de regresso a casa, com um livro devidamente embrulhado para oferta, eu em direcção a uma consulta médica.  Eu, extasiada, encantada, emocionada ( lembrou-se, que querido ), "Então, aqui a esta hora ? ... " E ele, "Toma, é para ti "... E eu, derretida... 
" A erva do diabo " acho que era esse o livro. Está algures ali na estante. Porquê ele, naquele ano se lembrou quando apregoava não dar valor a essas datas, o que aliás sempre confirmou? O livro não era para mim, é a convicção que tenho até hoje ... E dói ... dói até mesmo a sua lembrança ...

Enfim, amores e desamores, anos das vidas já vividos, lá atrás.
Alguns deixam memórias, outros nostalgias, outros remetem-nos simplesmente ao que foi, ao que éramos ...

Fui jovem, adolescente, sonhei, como todas as crianças metidas a mulheres.  Aos dezanove anos estava casada.  Casada mas não apaixonada.  Tudo muito cinzento, nada colorido.  Sem culpas, todos as temos, ninguém as tem...
Chegaram tempos, vieram épocas... sumiram sonhos, êxtases românticos... criança... quase sempre fui criança, vejo agora.  Criança grande, cada vez menos criança, creio ...

Amores, decretados por calendário, técnicas de marketing tão só.  Dia disto, daquilo e de aqueloutro.  Razões para negócio, dinheiro ... sempre o malfadado dinheiro !
Uma simples flor roubada num muro, uma margarida silvestre nascida nas arribas, qualquer coisa desse estilo me cheiraria mais a amor, a sentimento, a entrega, do que elaborados bouquets de floristas preparadas intencionalmente ...

E no entanto, amores há-os de todas as formas, sentidos e expressões.
Há esses, os tais, deixados em fotos de álbuns, há os outros deixados nas fímbrias da alma e que doem no coração ... e há os amores dos filhos, excrescências de nós mesmos, perpetuações desses tais amores. Pelo menos assim acreditamos ...

E depois há os amores que na recta final nos ronronam à cabeceira, nos acordam sem relógio, imperterivelmente à mesma hora, amores que nos esperam, nos sorriem de bigodes adocicados e não nos perguntam nem exigem saber o porquê de tanto os amarmos ...
E são tão curtos esses amores !
A quantos São Valentins resistirão nas nossas vidas ?

Enfim ... este já passou ... prefiro esquecê-lo a olhar, ler ou ouvir o que doídamente faz parte de outras histórias ...

Anamar

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"SOU UMA SORTUDA ..."

 




O dia lá fora está de um desabrigo total.  Cinzento emborrascado, com aquele uniforme ar de que vai desabar em chuva a qualquer momento.
As gaivotas, as tais minhas conhecidas do bando do meio-dia não esqueceram o paradeiro e tempestade por tempestade, vivem-na em terra em vez de desafiarem a fúria das ondas alterosas e ameaçadoras.  Andam contudo meio baratinadas por aqui, voando num desmantelo total, num baile em que parecem atropelar-se a cada volteio.

Atravessamos a impiedade deste tempo há demasiados dias.  A deslocação do anti-ciclone dos Açores mais para sul do seu posicionamento atmosférico protector, abriu um corredor franco, como quem escancara um livre trânsito às superfícies frontais, vulgo depressões tropicais vindas do outro lado do Atlântico, das zonas quentes, carregadas de vapor de água e engrossadas por um oceano que, mercê das alterações climáticas está cada vez mais quente, e condensa toda a sua água sobre o primeiro obstáculo que lhe faz frente ... as Ilhas dos Açores e posteriormente, a Península Ibérica, onde despeja como baldes de água sobre as nossas cabeças ...
A catástrofe que se abate sem parança, há tempo demais sobre solos totalmente saturados, sobre rios de caudais incontroláveis cujos leitos já se não definem, sobre barragens no vermelho e sem alternativa além de descargas sucessivas ... além de ventos ciclónicos em que 100 Km/h já é quase "aceitável" ... martirizou o nosso país de uma forma avassaladora, em que a paisagem totalmente destruída, configura mais um cenário bélico, bem longe do que alguma vez poderíamos conceptualizar ...
As casas sem tecto, as famílias desalojadas, a ausência de energia eléctrica, de água, de comunicações,  destruição total de bens materiais, de empresas, de culturas, de vidas ... inviabilizam uma recuperação , uma mini recuperação que fosse, em tempo útil, apesar dos esforços desenvolvidos dia e noite no terreno, pelas estruturas adequadas e pela solidariedade de todo um povo no acolhimento dos desamparados.
Criaram-se verdadeiros quartéis generais no apoio em géneros e bens essenciais, roupas e alimentos, lonas, materiais de construção e outros, que pudessem minorar as faltas existentes a todos os níveis e praticamente em todo o país.

Mas os olhos de desespero de muitos, de desânimo de outros, a dor da perda da vida e dos sacrifícios feitos, não esconde quase sempre a sensação de impotência, de desnorte, de ausência de rumo, de descrédito num futuro que parece já não existir outra vez !!!

E os velhos?  Aqueles que ficaram mais ignorados, por isolados em aldeias inóspitas no meio das serras ... sem luz, sem calor, sem saberem dos seus e sem que deles saibam ?!
" Como uma merenda e vou para a cama "... É só o que podem fazer, dia após dia até que chegue a sua vez de serem socorridos ...

E depois há os que sobem aos telhados, porque sim... porque por qualquer forma têm que cobrir os tectos, a céu aberto ... e não há obviamente quem possa acorrer a tudo.  E quantos, desses, acabaram com as vidas por acidentes em quedas e desequilíbrios com tudo totalmente molhado e escorregadio ...
E há os que inalaram monóxido de carbono, dos geradores, únicos recursos às baixas temperaturas que se têm feito sentir e igualmente perderam ingloriamente as vidas para as tempestades insensíveis que nos atropelam umas depois das outras !...

Estou triste.  Muito triste, embora em privilégio.  Afinal, além dos guardados na arrecadação do terraço, mais ou menos encharcada, apenas na minha sala, pinga.  Apenas não durmo quando o vento sopra.  Apenas esvaziei parte da casa, mais exposta ao vento atroz.  Apenas durmo e vivo com ansiolíticos ... apenas... apenas ...
Tudo o mais, eu tenho.  Até os meus gatos têm tecto, comida e calor.  Sou uma sortuda !...

Anamar