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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

" O CHICO "

 


Hoje deu-me em lembrar o Chico.  O Chico, aquele amiguinho de quatro patas que esteve comigo algum tempo da vida dele, e parte imprevisível da minha ...

O Chico terá nascido numa ninhada que uma gata imprevidente pariu, à revelia de quem de direito, numa fábrica, nao sei exactamente de quê, ali para os lados do Cacém.
Foi assim ... quando deram por isso, a bicharada já cá estava fora, e como as operárias eram de bom coração, tentaram que cada coisinha minúscula daquelas que chiava a cada barriga vazia, viesse a ter um lugar neste planeta a que toos têm direito e sempre há lugar para mais um.  Haja  compaixão e boa vontade !...
Distribuídos pelas artesãs, suponho, o Chico, assim baptizado, foi parar a uma família brasileira que viera tentar sorte no nosso país e que morava por ali.  Pai, mãe e dois filhos proporcionaram, creio, boa vida ao Chico até aos seus oito meses mais coisa menos coisa.
A vida complicou, primeiro foi embora o pai e depois de regresso ao Brasil seguir-se-iam a mãe com os putos.
E agora ? Que fazer ao Chico, se o dinheiro era curto até mesmo só para a a família ?

O Facebook !... O Facebook é por vezes a salvação pra muita coisa. Não custa tentar !
O Chico era um senhor gato, ali com bosque norueguês pelo meio, com aquele seu pelo comprido e reluzente, gato e meio em tamanho, totalmente preto, apenas com uma gravatinha branca sob o queixo.
Tinha tanto de bonito como de pachorrento e molengão.  Afinal ele não estava ali pra criar problemas a ninguém ...
Vi-o, olhei-o, lembrei uma vez mais que sempre desejara ter um gato preto e candidatei-me.
E desta forma o Chico veio fazer companhia ao Jonas meio tristinho por ter perdido a Rita, falecida em Março, o Jonas chegara em Dezembro e o Chico viria a entrar em Maio com os tais oito meses de existência.

E pronto, ficou, ficámos todos felizes, pois tirando o raio da mania que tinha de sempre afiar as unhas no mesmo lugar da coberta da minha cama apesar da existência de um arranhador, nada de preocupante viria a passar-se.  A vida corria, portanto, mansa e sem sobressaltos ...

E assim se passavam os anos.
Quando eu me ausentava uns dias, o Jonas amuava e não vinha recepcionar-me à porta, no regresso, mas o Chico, com aquele rabo de raposa, tipo pluma bem alçado, era o primeiro a confirmar se era mesmo eu que aí vinha, como prometera.
Se me descuidava o Chico atrevia-se escada abaixo, de andar em andar, cheirando os tapetes da vizinhança ou mesmo neles afiando as unhas.  Uma vez não me apercebi, fechei a porta e passado algum tempo tinha o Chico, do lado de fora a miar-me e a arranhar a porta para entrar.
Deu uma de "rufia" dessa vez ... mas não errou de endereço !...

Passado alguns anos apercebi-me que o Chico bebia continuadamente água, perdeu um pouco o apetite, vomitava com alguma frequência e ficou ainda menos activo do que já era.  Veterinário, exames, etc, etc, etc ... o Chico foi diagnosticado com diabetes.
Insulina duas vezes ao dia, alimentação especial, ir gerindo o melhor que soube.  Havia o risco da glicose se desgovernar, entrar em hipoglicémia, que seria fatal.

Naquele dia, com diagnósticos também de pancreatite e já alguma falência renal, o Chico deixou de comer, de beber água, de ir à areia, remetendo-se apenas à sua caminha, tentando passar desperebido.
Eu trazia-lhe ingloriamente a água à boca, a comida, desejando que chegassem as horas de o injectar com a insulina.  Para mim ele teria tido uma subida no açúcar.
Eu não sabia mais que isso, ninguém nunca me havia alertado para uma emergência contária.
E dei-lhe, às onze da noite a injecção da insulina, como sempre.

Dizem que os gatos quando pressentem a morte, o fazem com dignidade, isolam-se o mais possível, se puderem, escondem-se mesmo, como se não quisessem incomodar ...
O Chico ficou o mais inerte que pôde, ficou indiferente, alheou-se de tudo apesar de eu nunca ter saído de perto dele. O Chico piorava a olhos vistos. Telefonei para o serviço de urgência do hospital veternário, expus a situação.  Era uma hora da manhã ... o Chico entrara em hipoglicémia.  O médico de plantão disse-me que a situação era muito grave. Eu ainda agravara mais a situação clínica do Chico, por desconhecimento e ignorância ... fizera tudo ao contrário ...
Dei-lhe uma pequena colher de mel e assim que começou a clarear o dia 24 de Julho de 2023 rumámos em desespero à urgência onde viria, no meu cólo, a terminar o tempo que desde sempre lhe estaria destinado, pelas quatro da tarde ... 
Viveu comigo dez anos, o Chico. E até hoje sinto a culpa da sua morte ...

Hoje, deu-me em lembrar o Chico.  Sei lá porquê !  Talvez porque o Jonas que já tem catorze anos, e é o meu companheiro de todas as horas, me entende e só não sabe falar a minha linguagem, qualquer dia, num dia que nem quero saber onde fica no calendário, ( pela lei natural das coisas... é assim que se costuma dizer ... ) irá fazer companhia ao Chico, mas também à Rita, ao Óscar, ao Gaspar, à Dalila e ao Sansão, ao Nico e à Nicas ... enfim, a tantos quantos por lá estão já à minha espera ...
E nesse dia ... não sei o que será de mim !...

Anamar
 

sábado, 15 de agosto de 2026

" SOU HUMANA ... E ENTÃO ?! "

 

Moro pertinho das nuvens.  Olho os telhados, de cima. Sou espreitadora de inesquecíveis pôres de sol. 
Não vivo propriamente num vigésimo ou trigésimo andar, como aqueles em que já dormi em hotéis no Japão, por exemplo, onde isso é vulgar e a construção de torres dessa envergadura, espalha-se como cogumelos até onde a vista alcança...  Não, de facto moro apenas num sétimo andar de um prédio com mais de cinquenta anos, mas cada vez mais, aquilo que me aninhava e confortava aqui em casa, donde vejo o mundo um pouco do alto, aquilo que me deixava segura e protegida da vida lá fora, me assusta muito neste momento.
Explico :  o planeta Terra parece estar zangado, e além dos conflitos, da destruição e do péssimo trato que lhe damos, à superfície, claro, parece ter resolvido mostrar-nos que o seu "miolo" interior também está instável e farto de ser desvalorizado.  
Assim, os sismos por todo o mundo, de ocidente a oriente sucedem-se diariamente, matando e destruindo vidas, os vulcões cospem fogo deixando limitado o quotidiano das pessoas, não só com a destruição física de regiões habitáveis, como obrigando ao encerramento de aeroportos devido à ausência de visibilidade para o tráfego aéreo.
O calor anormalmente elevado com ondas mortíferas até em países sem histórico nessa área, contrastam com tempestades ferozes com ventos e cheias destruidoras, noutros pontos do planeta...
Os fogos alastram, castigam pessoas, animais, áreas de protecção de espécies, semeando dor e sofrimento... 
As guerras sem fim à vista, gratuitas, absurdas e loucas, juntam-se à fome e às impedemias letais em países já por si carenciados, como se vivêssemos num mundo em desmando total, sem controle ou contenção ...
Sentimo-nos aleatoriamente governados, ou desgovernados, numa espécie de "roda livre" por gente sem escrúpulos, sequer sanidade mental ... enfim, ao Deus dará ...

E parece que acordar em cada dia é só por si uma espécie de jackpot ou primeiro prémio de uma lotaria jogada ao minuto, nunca se sabendo se no próximo cá estaremos ou não ...

Vivo aterrorizada.  Na verdade parece que estou apenas à espera a cada momento, que aconteça alguma coisa que tomo como certa, já que ninguém é privilegiado neste mundo ...
E chego à noite, antes de dormir aninhada nos meus gatos, companheiros da minha vida, penso que nunca os deixaria entregues à sua sorte, acontecesse o que acontecesse, tento acreditar que não acordarei, como já aconteceu, com a cama a oscilar, engulo o ansiolítico e apago, tento simplesmente apagar ... ou seja, faço a última jogada do dia ...

A comunicação social tem um papel extremamente negativo no disseminar destas notícias.  Difundem com um alarmismo quase sádico, imagens e dispensáveis pormenores que apenas aterrorizam e paralisam a quem os assiste.
Eu sei que é sinal do tempos, é o avanço das tecnologias ao minuto, é a difusão num piscar de olhos de tudo mas mesmo tudo o que ocorre do outro lado do mundo, mas ... a vida seria mais leve, menos assustadora e angustiante se pudéssemos viver com um menor peso nos ombros e aperto no coração, sobretudo em acontecimentos em relação aos quais não está ao nosso alcance nenhuma reversão das situações ...

Enfim ... dizem ser o "progresso" ... 
Sinto que o meu prazo de validade já foi atingido, como se vivesso metida num fato que já me não serve, ou uns sapatos que já percorreram todas as léguas que poderiam ter percorrido ... e sinto-me cansada, cansada demais mesmo !!

Anamar

domingo, 20 de julho de 2025

" ALINHANDO APENAS PALAVRAS ..."


Quase não sei falar.  E com as letras no papel também muitas vezes não nos entendemos.
Passo o tempo neste único espaço, a minha casa, onde os dois gatos normalmente não me ligam muito. O Jonas lá vai entendendo muitas coisas e responde ao seu jeito ... afinal são doze anos de convívio ... Agora a outra, coitada, anda meio perdida por aqui, repetindo gestos que se tornaram hábitos sempre às mesmas horas, e dorme, vinga-se a dormir... Persegue a vontade que tenho de também o fazer, mas não faço.
Será que se lembra da mata?  Às vezes penitencio-me de a ter subtraído àquele seu espaço de perigos e sustos, de frio e desconforto, oferecendo-lhe em troca, esta gaiola dourada ...
Mas enfim, cada um cumpre o seu fadário ...

Dizia que quase não sei falar, e é verdade. O silêncio e a solidão por companhia, moldam as pessoas e eu, neste momento sinto-me um pouco farta de gente !

Deixei de conduzir, praticamente. Ganhei uma estranha fobia, e o carro dorme na garagem. Se o uso, ( só para pequenos trajectos ), faço-o super tensa.  Com outros ao volante, sou uma "pendura" desaconselhada, pois admito-me insuportável ...
Antes da Covid nos assolar, tinha ( reconheço-o agora ), um saudável hábito : diariamente tomava o meu pequeno almoço no café aqui perto de casa , que os amigos chamavam a brincar de "o meu escritório".
Como era um hábito que não falhava, criavam-se mesas de grupos que já se conheciam e cumprimentavam, quase sempre aparecia este ou aquele que se sentava para a laracha ... ou se não, eu aproveitava para escrever, ir escrevendo as minhas coisas .
O facto de ir ao Pigalle abrindo o dia, "obrigava-me" a vestir bem ( sempre fui um pouco vaidosa ), variando diariamente de toilette, maquilhava-me, enfim ... arranjava-me.
Pelo menos, nesse pedaço as pessoas viam-se, sabiam-se, quase se tornavam família ...

A Covid mutilou quase tudo nas nossas vidas.  Pessoas morreram, pessoas partiram para as terras de origem ( sobretudo os mais velhos, sem obrigações profissionais por aqui ), as pessoas não se aproximavam com receios fundamentados, pois como se lembrarão, sucederam-se várias "ondas" da doença.
Os espaços físicos das cidades alteraram-lhes os rostos, isto é, com o comércio em queda, muitos estabelecimentos encerraram portas ( alguns não reabriram até hoje ), e tudo mudou. Muita coisa ficou irreconhecível !
Passei a tomar o café da manhã em casa.  Para ir dez minutos à rua, não vale a pena nem sequer ensaiar "looks" variados. A roupa de fora dorme em cima da cama.  Despendurar outra, pra quê ?
Os sucessivos confinamentos apesar de irem sendo aligeirados à medida que a profilaxia medicinal foi dando sinais de estar a quebrar a pandemia, foram alterando tudo, tudo foi, em suma, afastando uns dos outros, isolando as pessoas e criando-lhes novas rotinas ... agora, de mais afastamento, logo mais solidão, logo, menos vontade !

Eu fui ficando mais e mais, eremita, tornei a minha casa, o bunker onde me refugio, nem sei bem de quê, mas que parece ser o único chão onde me aninho.
O Homem é um animal de hábitos. Dizem-me : "Sai ! Obriga-te ! Contraria essa letargia !" Mas eu, nada !
Cumpro algumas, as inevitáveis "obrigações" sociais. Se visito alguém porque esteja doente ou só, vou logo dizendo : " Olha, não demoro, vou aí só por meia hora" ... e não sossego enquanto não regresso.
Promovo de quando em quando umas pequenas reuniões de três ou quatro colegas do antigamente, do tempo do convívio profissional, para um chá e um pastel de nata ...😃😃, é assim que costumamos dizer, apenas porque a minha saúde mental periga, e eu percebo isso.  Nada mais.
As pessoas cansam-me, entediam-me, não me apetece falar nem de doenças, nem de problemas familiares, nem de nada, na verdade, pois além das notícias veiculadas nos telejornais que sempre mais nos inquietam do que nos animam, nem televisão assisto ...
As filhas pouco vejo ( cada uma tem a sua vida e os seus interesses ), aos netos, já adultos, pouco interessa a presença ou o convívio com a avó que quase sempre esteve longe ...
Circulo na casa, de nascente para poente, de poente para nascente, endireito este ou aquele bibelot, olho os pôres de sol, ... Reclamando, mas normalmente ao longo da semana refugiava-me em caminhadas "terapêuticas", pela mata ( ultimamente nem isso, por razões limitativas de saúde ). Restrinjo ao absolutamente indispensável as compras nos supermercados ( e tenho dois à porta de casa ), pouco leio, pouco escrevo, não arrumo nada porque tudo está nos sítios quase sempre, existem coisas que poderia fazer para me entreter, mas por preguiça não faço ... Enfim ... apenas a natureza me equilibra, me aconchega ... apenas o seu silêncio me entende !
Estou a tornar-me num ser anti-social ... e percebo ser este um caminho extremamente perigoso !

Volto-me para o que foi, o que passou, para as certezas que tive na minha vida, sobre o que vivi, com quem vivi, o que conheci ... 
Porque o passado a gente conhece ... o presente é isto ... o futuro, de nada adianta projectar ou sequer sonhar.  Sinto-me com uma quebra de fôlego nessa capacidade ... Acho que os sonhos estão a opacizar-se.  É a escorrência da vida !...

Bom, fico por aqui, são quase 3 h e também me recuso a cumprir regras . Costumo dizer que sou como os bichos ... como quando tenho fome, bebo quando tenho sede e durmo se me apetece ...
E ainda não almocei ...

Até breve !

Anamar