terça-feira, 17 de março de 2026

" ESTÁ RESOLVIDO ..."

 


Resolvi que não mudo de casa !
Venha chuva, vento, tempestade ou trovoada, venham sismos, venham cataclismos de alma, decidi que, se moro aqui há cinquenta e dois anos, é aqui que vou morrer !
A vista continua a estender-se até onde quero, e se quiser mais, é só lembrar-me como era para detrás do sol posto ...
Os telhados continuam a ser os mesmos e não há como construírem outros mais, intencionalmente lixados capazes de lixar o que de melhor tenho... um céu ora azul se bem disposto, cinzento de cenho carregado com ar de respeito, ou cheio de promessas de chuva lá pela madrugada ...
Depois tenho os pores de sol que invejam muita gente... Vão desde o transparente prometedor de tempo amigo, ao laranja quase vermelho, que sem eu pedir sequer, me levam às savanas de África ... que ficam lá longe mas que ainda hei-de visitar mais uma vezinha só, antes de morrer.
Acho que esta estranha ligação simbiótica entre mim e o continente que nos fica aos pés no desenho do  globo terrestre, só pode vir porque o meu Alentejo ficou a meio caminho do Kilimanjaro, em milhas, quilómetros ou simplesmente sonhos ...

Esta terra é horrível.  Desinteressante, sem um nada que nos prenda a ela.
Os cafés, aqueles que foram da nossa juventude inexistem.  As portas fechadas "ad eternum" em mudanças de ramo, são o pão nosso de cada dia.  Pessoas, também cada vez há menos.  Menos, daquelas que nos paravam... "como vai ? Como vai a mãezinha"  Não tem calhado a encontrarmo-nos ..."
Agora, pessoas há muitas. Demasiadas, talvez... Não as conheço. Falam outras línguas, têm outras histórias, outros sofreres estampados nos rostos ...

Também já não há aquela coisa de "os filhos já acabaram? Ainda ontem fui ao liceu consultar a pauta de exames "... 

Nem o liceu já é o mesmo, já arrasaram com os crochets nos intervalos, nos pontos de cruz em bordados partilhados ...  Já foi tudo !  "Onde pensa que vai ? A senhora não pode entrar por aí !"...
"Ah ... desculpe. Fui cá professora a vida toda. Se calhar a senhora ainda nem tinha nascido !"...

A Lisete, o Sr. Raul, o Sr. Rocha e a D.Matilde ... a D.Henriqueta, a Fernanda do Bar a Joaquina, as Amélias ... a D.Álea e todos, todos, os que faziam esta terra !

"Até amanhã, mãe. "
Ela e o Gaspar, e a janela e as sete da tarde, adeus...vá para dentro... crianças brincando ainda na relva do parque infantil das traseiras ...

Tudo diferente. Tudo doídamente diferente !!!...

O que me resta, então ?  O "bando do meio dia", as minhas gaivotas que me gritam aqui por cima.  Os periquitos de colar que sempre viajam apressados, sem que eu saiba porquê. Os pombos de bom feitio, que em qualquer lado se aninham.  Os vizinhos, que incaracterizam este meu ponto de passagem.
Os "meus", os verdadeiramente "meus", cumpriram já oito décadas. Viemos para aqui, com as mulheres embuchadas, com crianças pequenas, com provocadora felicidade ...
Todos com a vida à frente... sabíamos lá que vida !... 

Hoje, já não acho no mapa esta minha terra.  No mapa do coração ainda existe, à má fila ... mas esbate-se, todos os dias se esbate mais um bocadinho ...

Decidi que morro aqui. 
Afinal sou uma imperfeita pertença a este sítio a que chamaram terra, e que não é de ninguém ... não é mesmo de ninguém ...
Só as raízes, vellhas e turrentas, teimam em lembrar-me tantas coisas de aqui. Não as compro, não as vendo, estão nos baús das memórias.  E posso dar-me por sortuda por ter baús de memórias.  Muitos passam por cá e como naqueles filmes chatos, se nos perguntarem se valeu a pena ... nem as pipocas salvaram a coisa !!!

Anamar

" O MUNDO É DOS LOUCOS ! ... "

 


Escrevo pouco.  Não consigo impor-me uma disciplina de trabalho.  O problema é que de facto para mim, a escrita nunca foi e agora é-o menos ainda, um acto de trabalho.  Aliás sempre me confundiu como os escritores, escritores a sério, contam que acordam cedo, criteriosamente cedo, escrevem até ao almoço, de tarde repegam e à noite, frequentemente também ... ou seja, respeitam sérias rotinas.

Em primeiro lugar louvo tanta inspiração, invejo tanta disciplina, e admiro a dedicação que os leva, sem desvios ou distrações a não perderem as personagens (que direi as histórias concebidas), pelo caminho !...E não acredito, piamente não acredito, os que garantem que o livro se vai escrevendo a si próprio, quase sempre sem uma prévia linha condutora, sequer uma arquitectura mental pré-concebida ...
Devo ser eu que serei muito anormal a brincar com estas coisas, e tendo tanto às vezes entupido dentro de mim, não abro comportas nem sob um "drone balístico" a fazer-me pontaria ...
Também me é frequente, que quando a água jorra das minhas entranhas... quando tanto e tão claro tenho para dizer, não esteja em momento, ocasião, lugar, para que o papel receba os meus silêncios profundos, para que as letras alinhem palavras que façam o sentido daquilo que a alma balbucia baixinho.

Verdadeiramente a minha vida, no formato actual, tem um interesse completamente desenxabido, insípido e maçante. Saio muito pouco e falta-me a paciência. Penso em muitos dos que já a compuseram, quando ela ainda tinha histórias para contar, quando valia a pena eu "escrever" pelo menos um episódio por dia ...
Hoje estou, digamos assim ... nem de Inverno nem de Verão ! Gosto de coisas tórridas, sempre gostei ... ou gosto do gelo da neve que tem um branco que é a mistura de todas as cores ...
As meias tintas ou tonalidades pastel sempre me entediaram.
Se era para dar, dava tudo, a cem por cento, até esgotar o manancial...
Se era pra chorar, chorava, descabelava-me, espremia lenços saturados até às bainhas !
A felicidade era vivida por inteiro e a mágoa e a dor era até ficar em carne viva ...

Pequenos flashes /grandes flashes do que foi, de como foi, de como era, de como ansiava, sonhava ou desejava, imagens de cores, de cheiros, de sons, vêm-me sobretudo nas madrugadas em que fico cobardemente quieta para ver se repego o "filme" que estava a viver, depois duma insónia brava de duas ou três horas ... e o sacana não volta, os intérpretes fugiram, já não há figurantes, já não há sequer enredo, embora ( e não deixa de ser engraçado ), sem os ver, eu saiba exactamente quem andou por ali ...
É então que não me quero, é então que odeio o espelho, o tempo e a memória.  É então que odeio as palavras, os lugares... e até a voz do vento me atormenta a alma ...
E já não me vou encontrando nas esquinas das vielas.  Já não me acho nas alcárcovas da vida ...
Entretanto, olhando atrás, o tempo percorrido parece um naperon que de tão antigo, está esburacado sem conserto.  Partiram tantos, mas tantos dos que constituíam o enredo da história, sei lá para onde, só sei que desfiguraram a minha realidade, a realidade que eu conhecia ... que até acho que ir também começa a fazer sentido !

E pergunto-me, às vezes surpreendida, como é que me deixei distrair tanto, que pouco já conheço dos que me rodeiam, e pouco entendo do contexto circundante ?!
Sinto-me assim uma espécie de estrangeira num país onde só consigo arranhar e mal, a língua dos que por cá habitam ...
Pareço uma apátrida de pé descalço e mochila às costas, numa metrópole que desconheço.
Sinto-me assim meio entontecida, como se curtisse a ressaca duma boa e bela bebedeira ... e só me irrita "sentir" apenas, sem que tenha o proveito doce da prevaricação !.... Isso é que era !!!....

Anamar

segunda-feira, 16 de março de 2026

" HISTÓRIAS DAS VIDAS ... DELES ..."

                            

                                                                      Chico e Jonas

                                                                      Rita ( a primeira )
                                                                        Rita ( actual )

O Jonas vive comigo há catorze anos.  Quase os que tem de vida, já que me entrou casa adentro, com alguns, poucos meses.
O problema dos animais que vêm das ruas, de destinos incertos, é exactamente ser tudo ou quase tudo estimado por palpite.
Existia a Rita, ainda, já velhinha e que viria a partir em 2013.  O seu único companheiro que também já havia partido, fora o Óscar, tanto de lindo quanto de mauzinho.  A Rita, que foi então o animal mais dócil que tive até ao "reinado" do Jonas, habituada que estava ao monopólio de quase tudo aqui por casa, acho que entristeceu com a entrada deste amiguinho que podia bem ser filho dela.  
Reguila, imparável, brincalhão, provocador como o são todos os gatos bebés, acabou com o sossego da sua vida.
Ela queria paz e descanso e usufruir apenas, penso eu, das mordomias séniores de quem já viveu e conheceu muito do que haveria a conhecer na vida de um gato ...
O Jonas não percebia, nem podia perceber que a companheira dos seus dias preferisse passá-los ao sol, pelas nesgas largadas nos tapetes em janelas semi-abertas, nem que as horas de sono a que sucumbia, a tornassem num imprestável brinquedo, nem entendia sequr que ela não corresse atrás de bolas e bolinhas ou mesmo da própria cauda, numa postura insana ...
O Jonas não podia perceber ...

A Rita adoptou então, a estratégia do isolamento, procurou destinos mais discretos, aproveitou roupeiros meio fechados ou até o abrigo do assento de uma cadeira passou a servir de escudo protector daquele endemoninhado com energia pra dar e vender ...

O tempo passou, não muito ... Escassos meses escoaram no calendário até que o stress duma vida tumultuada em excesso, já no seu declínio, antecipou ( hoje estou certa disso ) o dia em que a Rita desistiu e resolveu ir embora.
Carrego esse peso de consciência, porque acredito que, à semelhança dos humanos, também os nossos companheiros de quatro patas encaram as exigências da idade sénior com as inerentes características ... a paz, o sossego, o privilégio de momentos de silêncio...
A Rita foi embora deixando uma saudade sem limites, ela que criou comigo uma relação de afecto e companheirismo inimagináveis para mim, entre um animal e um ser humano.  Faltava apenas falar a minha linguagem ... porque a sua, eu percebia com toda a clareza ...

O Jonas foi crescendo, obviamente, tomando conta do "pedaço", sentindo-se senhor e dono, até de mim, que apanhou frágil e saudosa.
Começou a "aprender" a conversar comigo, começou a desenvolver um amor de reciprocidade com a minha existência muito só e silenciosa, a dormir por opção em "conchinha" no calor do meu édredon, a entender as minhas regras, a ser a minha sombra ...
Mas eis que chega um pedido de adopção para um bonacheirão, preto retinto com gravatinha branca, farfalhudo e simpático, cujos donos regressaram ao Brasil, depois de uma vida sem sucesso por cá.
Assim me chegou o Chico, já baptizado e pronto para fazer companhia ao Jonas. 
Não foi difícil, o Chico era mesmo bonzinho, de boa índole e sem impor nunca em diferendo, a sua compleição física.  O Chico era um gato XXL, face ao minorca irreverente que já cá estava.

Tinham os dois sensivelmente a mesma idade, rondando os dez/onze anos, quando também o Chico foi embora.  Adquiriu uma diabetes que acompanhada de outras patologias, não me deu margem de escolha.
E ficou o Jonas de novo só ... ele e eu, claro !

Quem perde um destes companheiros fica tão mas tão mal, que jura não voltar a ter mais nenhum.  No dia da eutanásia do Chico, quando entre lágrimas eu dizia à veterinária que acabava ali a "geração", ela disse-me ( bem sabia ela o que a experiência lhe havia ensinado )... "nunca diga isso !..."
Mas sim, era essa a minha genuína intenção !
Mas, como o povo diz, "o Homem põe e Deus dispõe)...

Passados alguns dias, na mata onde caminho, uma das gatinhas da colónia que ali vive, aparecera com uma ferida numa pata. Mordidela de cão, rasgão das silvas ??? O que se teria passado ?!
A ferida, apesar do tratamento possível providenciado pelo Sr.Sérgio que é o benfeitor da bicharada que por lá anda entregue à sua sorte, foi infectando progressivamente.  A gatinha, que tem tanto de pequenina como de medrosa de tudo, já andava com a patinha no ar, não a assentando no chão.
Havia que recorrer mesmo ao veterinário.  Foi intervencionada, esteve hospitalizada uns dias, melhorou e ... como seria de esperar, teve alta !
E agora ?? Vai devolver-se num pós-operatório a uma mata correndo os riscos inerentes a um agravamento da situação ?  Deixará tratar-se, ou vai esconder-se entre os arbustos numa situação vulnerável e complicada ?

Facebook , mails, posts, instagram, telefonemas para amigos de amigos de outros amigos, para sensibilizar alguém que pudesse recolher a pobre de Cristo, ingloriamente ...
Portanto, eu não poderia dormir descansada se no pico do Inverno ( Fevereiro de 2024), a nova Rita ( por ser fisicamente idêntica à anterior ), voltasse para a mata ... E não voltou !
Reside comigo e com o Jonas exactamente há dois anos.  Tem cerca de metade da idade deste. Estima-se que a Rita ande agora pelos 7/8 anos.

E o filme repete-se.  Agora é o Jonas que quer sopas e descanso, que já não brinca, que namora as résteas de sol, que me persegue para onde quer que eu vá ... que fala e responde às minhas conversas ... enquanto a Rita desencanta as bolinhas, as tampinhas das garrafas, mas  também à noite, triparte comigo e o Jonas, o calorzinho do nosso aconchego nocturno ...

Qualquer dia o Jonas também partirá.  Sem ele não sei como encarar a vida e o vazio desta casa ...

Mas na mata, existe outra doçura lá abandonada há pouco, na companhia de uma irmã da mesma ninhada e que é a única referência afectiva que possui ... ainda. 
Porque a Nina, a irmã, está muito doente, internada com pneumonia e insuficiência renal, a Pipoca espera, espera, espera por ela, todos os dias, com tempo agreste ou tempo de feição.
E apesar de só pedir festas e colo, de dar turrinhas e lambidelas, de ser uma dor olhar para ela, voltar-lhe as costas enquanto ela encomprida o olhar à medida que nos afastamos, e percebe que tem que ficar,...não posso obviamente diminuir-lhe o sofrimento, porque de todas as vivências que acumulei das "vidas deles", percebo agora que a entrada de um novo elemento estranho em casa, corresponderia a um pico de stress a que não tenho o direito de sujeitar neste caso, o Jonas ...

Resta-me, depois de toda esta narrativa, perguntar a todos os amigos e amigas ... se alguém se condói e pode acolher a Pipoca ??? É que nesta altura das nossas vidas bem percebemos que o amor mais são, mais genuíno e desinteressado ... aquele amor que não falha nunca, não é o humano ... é o dos animais ... seguramente !...

                                                                                Jonas

Tenho que acrescentar sem qualquer rebuço, que a história afinal não termina aqui ... 
Apesar de infrutiferamente tentarmos acolhimento, casa, carinho e Vida ... apesar de a Pipoca continuar à espera, sem saber que a irmã não voltará mais, o milagre operou-se, e alguém que tendo tido uma gatinha cega e esta ter partido recentemente deixando um lugar que parecia inocupável, deixou o coração falar mais alto, e a Pipoca, acabou de ser adoptada num lar onde certamente o amor chegará para a compensar das agruras pelas quais já passou nesta vida ...
É que, afinal às vezes milagres cumprem-se !... 

Anamar

quinta-feira, 5 de março de 2026

" O TEMPO ... SEMPRE O TEMPO ! ..."

 


Morreu António Lobo Antunes.

A sua apresentação é totalmente desnecessária no panorama cultural do país, vezes demais pobre e redutor.
Abriu uma escrita, um sentir, uma forma livre e despretensiosa na análise do então nosso contemporâneo.
Lembro-me de ainda em Angola ter, como muitos da minha geração, começado pela "Memória de Elefante" e com ele ter-me flagrado com uma escrita nova, desassombrada, inquietante.  Uma escrita que surpreende e retém, como quem abre um baú e anseia conhecer-lhe os interiores ...

Lobo Antunes era um disciplinado indisciplinado, um provocador que apenas não retém o politicamente adequado, um sonhador que conta o que tiver que contar, um homem aparentemente desligado, mas profundamente mergulhado e preso pelas raízes do sonho.
Quem o ouve, percebe um ser mascarado de dureza, de indiferença, de convicções.  E no entanto, o seu olhar límpido, denuncia uma particular sensibilidade, uma certitude em relação às coisas, e a simplicidade de quem já pensou sobejamente nelas.
Eu diria que ele já tocou o céu e o inferno, e já sabe claramente donde vai e para onde vai ...

O seu discurso actual, mostra a isenção de quem nada tem que provar a ninguém, mostra a paz de quem já vive descomprometido com a vida e a morte, com Deus e o diabo, com o paraíso e o inferno e com o amor das coisas belas que por cá deixou e que ainda conseguiu ver até ao último suspiro !

Mais um dos grandes partiu e com ele ficámos todos mais pobres ...



Anamar

domingo, 15 de fevereiro de 2026

" POIS É ... HOJE É DIA ..."


Hoje é 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados ... lembrei-me agora ... Bom, ainda me lembrei, ainda é dia ...
Engraçado que já dediquei este dia a gente de carne e osso, dediquei eu, porque o inverso quase nunca se verificou. Sempre tive namorados, amores mais ou menos inflamados que desgraçadamente diziam nunca valorizar este evento. E eu, romântica, jovem e apaixonada, cruzava-me na rua com aqueles que de rosinhas nas mãos, certamente iriam ter um resto de dia daqueles ... daqueles que eu imaginava, sempre imaginava ...
Quando estava casada, o meu ex-marido, um ano, um só ano não sei o que lhe deu, lá me ofereceu um objecto que ainda detenho, obviamente, de péssimo gosto ... fazer o quê?!  Fiquei muito agradecida, claro, até hoje não sei a razão da oferta ...
Num outro S,Valentim, o Carlos cruzou-se acidentalmente comigo ( nem ele nem eu sabíamos que àquela hora estaríamos ambos na 5 de Outubro, ele de regresso a casa, com um livro devidamente embrulhado para oferta, eu em direcção a uma consulta médica.  Eu, extasiada, encantada, emocionada ( lembrou-se, que querido ), "Então, aqui a esta hora ? ... " E ele, "Toma, é para ti "... E eu, derretida... 
" A erva do diabo " acho que era esse o livro. Está algures ali na estante. Porquê ele, naquele ano se lembrou quando apregoava não dar valor a essas datas, o que aliás sempre confirmou? O livro não era para mim, é a convicção que tenho até hoje ... E dói ... dói até mesmo a sua lembrança ...

Enfim, amores e desamores, anos das vidas já vividos, lá atrás.
Alguns deixam memórias, outros nostalgias, outros remetem-nos simplesmente ao que foi, ao que éramos ...

Fui jovem, adolescente, sonhei, como todas as crianças metidas a mulheres.  Aos dezanove anos estava casada.  Casada mas não apaixonada.  Tudo muito cinzento, nada colorido.  Sem culpas, todos as temos, ninguém as tem...
Chegaram tempos, vieram épocas... sumiram sonhos, êxtases românticos... criança... quase sempre fui criança, vejo agora.  Criança grande, cada vez menos criança, creio ...

Amores, decretados por calendário, técnicas de marketing tão só.  Dia disto, daquilo e de aqueloutro.  Razões para negócio, dinheiro ... sempre o malfadado dinheiro !
Uma simples flor roubada num muro, uma margarida silvestre nascida nas arribas, qualquer coisa desse estilo me cheiraria mais a amor, a sentimento, a entrega, do que elaborados bouquets de floristas preparadas intencionalmente ...

E no entanto, amores há-os de todas as formas, sentidos e expressões.
Há esses, os tais, deixados em fotos de álbuns, há os outros deixados nas fímbrias da alma e que doem no coração ... e há os amores dos filhos, excrescências de nós mesmos, perpetuações desses tais amores. Pelo menos assim acreditamos ...

E depois há os amores que na recta final nos ronronam à cabeceira, nos acordam sem relógio, imperterivelmente à mesma hora, amores que nos esperam, nos sorriem de bigodes adocicados e não nos perguntam nem exigem saber o porquê de tanto os amarmos ...
E são tão curtos esses amores !
A quantos São Valentins resistirão nas nossas vidas ?

Enfim ... este já passou ... prefiro esquecê-lo a olhar, ler ou ouvir o que doídamente faz parte de outras histórias ...

Anamar

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"SOU UMA SORTUDA ..."

 




O dia lá fora está de um desabrigo total.  Cinzento emborrascado, com aquele uniforme ar de que vai desabar em chuva a qualquer momento.
As gaivotas, as tais minhas conhecidas do bando do meio-dia não esqueceram o paradeiro e tempestade por tempestade, vivem-na em terra em vez de desafiarem a fúria das ondas alterosas e ameaçadoras.  Andam contudo meio baratinadas por aqui, voando num desmantelo total, num baile em que parecem atropelar-se a cada volteio.

Atravessamos a impiedade deste tempo há demasiados dias.  A deslocação do anti-ciclone dos Açores mais para sul do seu posicionamento atmosférico protector, abriu um corredor franco, como quem escancara um livre trânsito às superfícies frontais, vulgo depressões tropicais vindas do outro lado do Atlântico, das zonas quentes, carregadas de vapor de água e engrossadas por um oceano que, mercê das alterações climáticas está cada vez mais quente, e condensa toda a sua água sobre o primeiro obstáculo que lhe faz frente ... as Ilhas dos Açores e posteriormente, a Península Ibérica, onde despeja como baldes de água sobre as nossas cabeças ...
A catástrofe que se abate sem parança, há tempo demais sobre solos totalmente saturados, sobre rios de caudais incontroláveis cujos leitos já se não definem, sobre barragens no vermelho e sem alternativa além de descargas sucessivas ... além de ventos ciclónicos em que 100 Km/h já é quase "aceitável" ... martirizou o nosso país de uma forma avassaladora, em que a paisagem totalmente destruída, configura mais um cenário bélico, bem longe do que alguma vez poderíamos conceptualizar ...
As casas sem tecto, as famílias desalojadas, a ausência de energia eléctrica, de água, de comunicações,  destruição total de bens materiais, de empresas, de culturas, de vidas ... inviabilizam uma recuperação , uma mini recuperação que fosse, em tempo útil, apesar dos esforços desenvolvidos dia e noite no terreno, pelas estruturas adequadas e pela solidariedade de todo um povo no acolhimento dos desamparados.
Criaram-se verdadeiros quartéis generais no apoio em géneros e bens essenciais, roupas e alimentos, lonas, materiais de construção e outros, que pudessem minorar as faltas existentes a todos os níveis e praticamente em todo o país.

Mas os olhos de desespero de muitos, de desânimo de outros, a dor da perda da vida e dos sacrifícios feitos, não esconde quase sempre a sensação de impotência, de desnorte, de ausência de rumo, de descrédito num futuro que parece já não existir outra vez !!!

E os velhos?  Aqueles que ficaram mais ignorados, por isolados em aldeias inóspitas no meio das serras ... sem luz, sem calor, sem saberem dos seus e sem que deles saibam ?!
" Como uma merenda e vou para a cama "... É só o que podem fazer, dia após dia até que chegue a sua vez de serem socorridos ...

E depois há os que sobem aos telhados, porque sim... porque por qualquer forma têm que cobrir os tectos, a céu aberto ... e não há obviamente quem possa acorrer a tudo.  E quantos, desses, acabaram com as vidas por acidentes em quedas e desequilíbrios com tudo totalmente molhado e escorregadio ...
E há os que inalaram monóxido de carbono, dos geradores, únicos recursos às baixas temperaturas que se têm feito sentir e igualmente perderam ingloriamente as vidas para as tempestades insensíveis que nos atropelam umas depois das outras !...

Estou triste.  Muito triste, embora em privilégio.  Afinal, além dos guardados na arrecadação do terraço, mais ou menos encharcada, apenas na minha sala, pinga.  Apenas não durmo quando o vento sopra.  Apenas esvaziei parte da casa, mais exposta ao vento atroz.  Apenas durmo e vivo com ansiolíticos ... apenas... apenas ...
Tudo o mais, eu tenho.  Até os meus gatos têm tecto, comida e calor.  Sou uma sortuda !...

Anamar

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

" O BOM SAMARITANO "

 

                                 SIMBA

Os gatos da mata têm um anjo da guarda protector dos seus destinos!  
O senhor Sérgio, é o "bombeiro", o socorrista, o colo, o amigo, o amparo, o malabarista na busca de soluções, o milagreiro na resolução das dificuldades ... o que está ali para eles, o que lhes dispensa o seu tempo duma forma incondicional, numa disponibilidade quase total, de manhã e ao fim do dia, numa amizade, entrega e dedicação únicas ...
O senhor Sérgio miscigena-se com eles ... é quase um patudo também !

Frequento a mata nas caminhadas semanais há pra mais de dez anos.
Existe naquele espaço uma espécie de santuário de gatos desvalidos há mais tempo do que aquele em que os percebi na sua "aldeia".  Não sei como começou, sei que existe e que infelizmente cresceu por força da maldade do ser humano que abandona, renega e larga inescrupulosamente ao seu destino, aqueles que foram companheiros das suas vidas.
Chego a invejá-los nos Verões quentes e doces, nos tempos do céu azul e dos espreguiçamentos ao sol. 
São mansos, meigos, quase sempre sociáveis com quem passa, quase sempre meigos com quem lhes leva mimos, aceitando carinhos, sempre com a cauda no ar em jeito de satisfação.
Há-os de todas as cores, há-os de todos os géneros, há os que já lá nasceram e os que lá foram deixar ...
Nos Invernos, com os rigores insensíveis das chuvas copiosas, do frio às vezes gélido e dos ventos assustadores, ou até das trovoadas ameaçadoras, a dureza pesa, pois tal como ao ser humano, não basta a comida assegurada e a água disponibilizada pelo ribeiro que então corre cheio e perigoso, para que a vida lhes corra mansa.
Aí entra o senhor Sérgio que de tudo faz para lhes aligeirar a cruz.
Além da garantia do alimento, proporcionou-lhes abrigos, inicialmente inventados a partir dos recursos de que dispunha, depois a sua dedicação conseguiu mobilizar corações, e casinhas impermeáveis começaram a "desenhar" a "aldeia" que agora habitam !
Com mantinhas quentes nos seus interiores, conseguiu minimizar as condições adversas do exterior, e, se quentes não estiverem verdadeiramente, pelo menos não estão expostos directamente à intempérie.
De manhã e ao fim da tarde ouve-se o assobio que lhes lança anunciando a sua chegada.  No Verão, perto da hora que eles identificam pelo relógio dos corações, espalham-se ali pelo caminho, no meio da erva, e aguardam.  
O Sr. Sérgio não falha.  Não tem dia que não possa, não tem doença que o impeça, não tem preguiça que o limite.  Com chuva ou com sol, ele sabe que os seus amigos o esperam.
Se algum mostra não estar bem, o Sr. Sérgio faz de João Semana e administra-lhes alguns medicamentos necessários às feridas, às maleitas, às infeções se vierem a ocorrer.  Se a situação agrava, busca ajuda e recorre a quem de direito.
O senhor Sérgio vive do seu trabalho, creio.  Não tem recursos especiais.  Mas tem um coração do tamanho do mundo.  Ele sabe que tem "gente" à espera ...
Ele sabe que lá estarão o Simba, a Bernardete, o Menino, o Gorila, a Maluca, a Pipoca, a Pequenota e outros cujo nome não me ocorre ... mas que ele sabe de cor.
Fala com eles, sofre com eles, partilha-se com eles ...

Um destes dias, quando vier o tempo quente e a mata nos acolha com amabilidade, hei-de pedir-lhe que me conte a verdadeira história da "terra dos gatos" ... como eles semearam no seu coração uma semente que frutificou para toda a vida !...

Anamar

" LOBOS COM PELE DE CORDEIROS "



Acabei de publicar um post que fora escrito há já alguns razoáveis dias.
Esqueci simplesmente de o publicar ... Estarei a ficar senil ??  Vá-se lá saber ...😀
O tema abordado nesse post tem muito a ver com o que aqui vou tentar hoje abordar, dispondo entretanto de outros dados, de novas informações que certamente enriquecerão o conteúdo que vou tentar analisar neste meu escrito de hoje.

Não gosto de política.  É um assunto que me entedia, me cansa e sobretudo me enoja quase sempre.
Contudo, todo o Homem é um animal político e todos os seus actos são obviamente políticos.
Nasci em pleno fascismo, numa sociedade cinzenta e opaca, num regime ditatorial, em que só os audazes se atreviam e onde era melhor não metermos "o bedelho", para nossa tranquilidade.
Em minha casa não se abordava o tema, não se questionavam os acontecimentos que quer internamente quer no mundo que nos rodeava, iam acontecendo.
O meu pai comprava o jornal diário, mas nem eu nem a minha mãe tínhamos apetite ou curiosidade para o ler.  Eu estudava mas de certo modo vivia numa bolha proteccionista, onde o silêncio sobre o que se desenrolava no mundo e no país em particular, era a postura mais avisada para nos proteger de dissabores.
Havia a PIDE, toda uma máquina repressiva bem montada, havia a guerra do Ultramar, os presos políticos, as deserções na fuga à mobilização dos jovens face à guerra colonial ... havia um país onde a pobreza e o conveniente analfabetismo "encarneiravam" ao silêncio, a generalidade da população de menos recursos, que dessa forma era mais facilmente controlada.
Aliás, sempre a ignorância e a desinformação, eram / são armas de tranquilidade para quem regia os destinos deste país.  Alguma contestação que se verificasse, facilmente era controlada e desincentivada.

Mas, claro, cresci, fiz-me mulher, estudei, criei uma família sobre a qual tinha obviamente responsabilidades inerentes, aprendi a ler a realidade que me cercava e comecei a perceber o avesso do direito que me mostravam.  Comecei a pensar pela minha cabeça, comecei a separar o trigo do joio, a observar com muita e cuidada atenção, o que era terreno firme e o que era chão movediço debaixo dos pés.
Aprendi a analisar, a escalpelizar a realidade no país em que vivia e no mundo que me cercava, deitei fora muita da ingenuidade com que até então olhava os acontecimentos e trabalhei juízos de valor sobre a teia social e política que se desenrolava ao meu redor.
As novas tecnologias que entretanto se foram desenvolvendo, permitiram que a cultura e a comunicação disponibilizada se tornassem mais acessíveis e me fornecessem armas para tomadas de consciência menos erráticas, mais críticas e mais assertivas sobre a realidade. 

Este é um resumo nada exaustivo sobre a pessoa em que me tornei, no normal processo de vida, até aos dias de hoje.
Sinto-me contudo sempre uma ignorante na percepção e entendimento das teias inóspitas que norteiam e ditam os posicionamentos do ponto de vista social e político quer interna, quer externamente, das personagens que se mexem sempre com muito à-vontade, no palco e nos esconsos dos destinos sócio-políticos.
As pontas soltas das decisões, baralham ainda mais o nosso espírito, quando percebemos que sempre são tudo menos inocentes e constatamos a ausência de escrúpulos na escolha dos caminhos.
É essa faceta de mentira, manipulação e desonestidade que me assusta à medida que cresce gradualmente a qualquer custo, e por cima de pessoas e valores, na busca desenfreada de interesses ínvios e finalidades óbvias.  
Parece que já não há em quem confiar, a desonestidade mostra sempre lobos com pele de cordeiros, e quase nunca nada é o que realmente parece, numa sociedade cada vez mais enferma de falta de valores de verticalidade, honestidade, transparência e seriedade.

Bom, neste momento em Portugal, estamos em meio de uma eleição para escolha do Presidente da República. Digo em meio, já que houve que recorrer a uma segunda volta, para a decisão final.
Os candidatos respeitam a quadrantes políticos bem distintos, sendo um de convicções centro-esquerda socialistas e o outro de facção ultra-direita nacionalista.
Conclui-se que  o primeiro é um indivíduo moderado, com um passado político equilibrado e sério e o segundo um banha da cobra, tendencioso, da direita radical, populista e inerentemente desonesto.
Um indivíduo perigoso, sem escrúpulos, fomentador do fascismo, que incentiva ao ódio racial e perseguidor dos imigrantes, tem o dom da palavra e sopra aos ouvidos dos incautos aquilo que eles querem ouvir, com a sua maviosa mensagem de salvador da pátria.

Para mim, não tem dúvida, trata-se duma disputa entre a ditadura e a democracia, uma disputa entre o equilíbrio e uma demagogia violenta que usa dos truques mais sórdidos para convencer as correntes mais desinformadas, explorando a fragilidade de pessoas na maioria pertencentes às franjas sociais mais desfavorecidas, logo mais expostas, mais susceptíveis, mais crédulas e mais desprotegidas, com menos capacidade de defesa e mais facilmente emaranháveis nas teias do oportunismo e da desonestidade.

Convém que a História não seja esquecida, já que o ser humano prima muitas vezes por ter memória curta.
E que tal como digo no título, saibamos arrancar atempadamente a pele aos lobos, por forma a desmascará-los, não esquecendo que, Historicamente falando, o pior que o Homem pode fazer, está escrito em tudo o que ele já fez !  
Saibamos ler os sinais !...

Anamar

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

" A ÚNICA PISTA ... "

 



"  A única pista para sabermos o que o Homem pode vir a fazer, é o que o Homem já fez !"

Com esta frase termina o fantástico filme ora em exibição nos cinemas, "Nuremberg", e deve-se a R. G. Collingwood, filósofo,  historiador e arqueólogo britânico falecido em 1943 com 53 anos.

O filme, magistralmente conseguido reporta-se historicamente, aos julgamentos do Tribunal Internacional de Nuremberg, pós-segunda Guerra Mundial (39-45), em que foram julgados e incriminados os indivíduos mentores e executores da barbárie levada a cabo por Hitler e seus apaniguados, contra os judeus e outros cidadãos.
Os métodos utilizados de perseguição e detenção gratuita, configurados em crimes de guerra contra a humanidade, crimes hediondos, de extermínio e eliminação da raça, levaram ao genocídio milhares e milhares  de judeus, nos campos de concentração, localizados maioritária e sigilosamente criados por toda a Alemanha ou  pela Polónia ocupada durante o Holocausto e que se estendiam igualmente a outros territórios europeus, como por exemplo a Áustria.
Lá, os judeus, indistintamente homens, mulheres e crianças, eram barbaramente sujeitos às mais variadas sevícias, acabando "grosso modo" nas câmaras de morte, submetidos à inalação de gás tóxico.
Em pouco mais de quatro anos e meio, a Alemanha nazi, executou sistematicamente pelo menos, 1,1 milhão de pessoas, só em Auschwitz-Birkenau, campo construído no sul da Polónia.  
Além dos judeus a serem erradicados da Europa, também polacos, negros, comunistas, ciganos, prisioneiros de guerra russos e homossexuais, ali perderam as suas vidas. Hitler e os seus cúmplices, pretendiam o "apuramento da raça" a qualquer custo, numa loucura de extermínio sem contenção.

Em Janeiro de 1945, o Exército Vermelho que finalmente conseguiu cautelosamente entrar em Auschwitz, onde já só restavam cerca de 7 mil prisioneiros, deparou-se igualmente com cadáveres decompostos, barracões arruinados e os poucos vivos, que em situação e estado super-precário, ainda resistiam...

Esses crimes cometidos contra a humanidade, essa sanha de perseguição e morte, a destruição de famílias, cujos membros nunca mais se encontraram, a busca do que foi chamada a "solução final ", colocou a Europa frente à loucura de um homem e seus apaniguados, que a História jamais esquecerá ou poderá ignorar.

Nuremberg foi a cidade escolhida como sede do tribunal, com carácter simbólico, por ter sido a cidade onde Hitler havia promulgado as primeiras leis antissemitas.
Foi um tribunal preparado para julgar crimes de guerra e crimes contra a humanidade, cometidos pelos nazis, à luz do direito internacional.
Finda a guerra, os aliados Reino Unido, Estados Unidos, França e União Soviética uniram-se em torno da constituição deste tribunal, um marco no Direito Penal Internacional.  
Nele foram julgados os principais agentes do genocídio acontecido, tais como Hitler, Göring, Rudolf Hess, Gobbels, entre outros. 
Dos 24 acusados, 22 foram condenados. Alguns não chegaram a ser julgados porque praticaram suicídio. 

Como pôde acontecer tudo isto, perguntamo-nos ?  
O filme pretende que jamais tal volte a acontecer, é um abre-olhos para todos, mesmo as gerações mais novas e distanciadas do horror vivido e é um instrumento que fornece ferramentas para que a História de facto não venha a esquecer.

Dizem que a História não se repete ... Tenho sérias dúvidas quanto a isso.  
Bem ao contrário, fazendo uma retrospectiva e colocando-a em paralelo com a sociedade em que vivemos hoje, pode perceber-se claramente que nem tudo são meras coincidências, nem tudo acontece por aleatoriedade das questões, e o perigo vivido no fim da Segunda Grande Guerra, talvez não esteja tão longínquo como se poderá imaginar.
Afinal, novos Hitleres campeiam bem mais do que poderíamos supor, diabolizando os nossos destinos !!!  
E sim, o "déjà vu" não surge tão distante como sendo apenas um sonho ruim ... 

Anamar

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

" O DESTINO MARCA A HORA ...

 


Sem dúvida, os destinos cumprem-se !  Estejamos onde estivermos se tiver chegado a hora, nós estaremos lá !
A minha mãe dizia que ninguém erra o caminho, numa espécie de convicção de que se estiverem  determinadas as coordenadas do nosso destino final, não lhe escaparemos !

Esta certeza absoluta sempre me assustou um pouco.  É lúgubre demais.  Mas há acontecimentos que efectivamente nos fazem pensar.
Explico : 
Quando o meu neto que estuda nos Estados Unidos chegou de férias no passado dia 15 de Dezembro, promovi na minha casa, com os três mais velhos, um almoço para matar saudades e conversarmos um pouco, o que nem sempre é fácil na rotina de jovens entre os 18 e os 24 anos.  Costumo dizer que eles têm mais que fazer que estar a aturar a avó.
Perguntei-lhes então, qual o programa de cada um deles, para a quadra natalícia.
O António, o mais velho, passaria o Natal este ano, na Beira Litoral onde os avós paternos têm uma casa, porque o pai estaria por cá, vindo da Suiça onde vive com a família lá constituída.  Acontece que o pai do António aniversaria na véspera de Natal e dessa forma reuniriam toda a família paterna junto do avô, com condições já muito precárias de saúde.
"Ah, ok ... então este ano passas cá o Natal e o Ano Novo também, este, com a tua mãe e irmãos !"
Fiquei a saber que não.  " Uma vez que o meu pai regressa à Suiça após o Natal, nós ( entenda-se ele e a namorada ), vamos lá fazer a passagem de ano na neve ."

Até aqui nada de novo.  Afinal, com os pais separados, desde muito pequeno já o António viajava para a Suiça entregue à tripulação da TAP, ao cuidado dos comissários de bordo.
O pai vive em Genebra, e possui, ao que parece, uma segunda habitação na montanha.  O António esquia desde sempre, e este ano iria fazer uns dias com a namorada, praticando esse desporto.

Tudo bem, até aqui.  No último dia do ano durante a tarde, enviei-lhes uma mensagem com os meus votos de excelente Ano Novo, desejando que se divertissem.  O António respondeu, agradecendo e retribuindo os meus desejos .

O 31 dobrou para o 1, desta feita já de Janeiro e já de um novo ano... 2026 já nos batera à porta e se anunciara.
Acordei tarde no primeiro do ano e tarde abri o computador.  Quando o fiz, fui surpreendida com uma  notícia de última hora sobre a tragédia ocorrida nessa noite, nos festejos da entrada do novo ano, no Cantão de Valais, na Suiça, mais concretamente em Crans-Montana, famosa estância de esqui, onde na loucura das festividades, num bar-discoteca, frequentado maioritariamente por adolescentes e jovens, deflagrara um incêndio seguido de explosões, estimando-se já em mais de quarenta os mortos e mais de cem os feridos em estado grave.  
As imagens, o drama, o caos em torno do acontecido, sem grandes dados ainda sobre a identificação das vítimas, o desnorte das famílias na procura dos que sabiam estar por lá e de quem haviam deixado de ter notícias ... gelaram-me totalmente.
Acho que o coração parara de bater e a cabeça rodopiava sem parar.  
Na véspera, o António deixara imagens no Instagram, de todo o enquadramento fantástico da beleza da estância de esqui onde afinal se encontravam.  As fotos faziam a geo-localização : Crans-Montana ...
Estariam também eles no Bar-Discoteca Le Constellation ?
Como jovens que são, em gozo de férias, num destino de sonho e envolvidos pela paixão dos vinte anos, teriam decidido fazer a meia noite ali, na vila onde estavam alojados ? 

Não podia ser !  A vida não poderia permiti-lo ! Não ... por favor, não ! ( dizia eu tremendo, enquanto digitava no telemóvel uma mensagem ) : "António, vocês estão bem ?  Responde-me por favor ! ", enquanto as lágrimas desciam sem comando possível.

O António respondeu passado poucos minutos.  "Sim avó, estamos bem.  Não fomos, já estávamos deitados e fomos despertos pelo som das explosões, aqui na vila ! "...

ACASO  ou  DESTINO ??

Não era ali, que o destino haveria de cumprir-se, porque feliz e simplesmente não era ali que a hora estava marcada !...




Anamar 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

" FIM DE PÁGINA "

 



Detesto esta quadra.  Detesto particularmente o dia de hoje, o famigerado 31 de Dezembro de cada ano!

Inevitavelmente sucumbimos a ele e a tudo o que lhe está associado, por mais que garantamos ser imunes ao espírito predominante.  ´
É o dia da "virada", é o dia em que queiramos ou não determinaram que mais um ano cessa e mais um ano começa, feito carta fechada que vá-se lá saber como nos irá surpreender ...
Consequentemente aí estamos nós arrastados para o vórtice dos balanços, do que fizemos e talvez não devêssemos ter feito, ou do que não fizemos e não era por aí o caminho ...
É um desatino, com o acréscimo de uma correria absurda para a concretização a gosto, do local  das festividades e as presenças a fazerem-se presentes, a preparação por simples que seja, da mesa do evento, das vitualhas e os pormenores de última hora a não serem esquecidos.
Como se de repente o mundo fosse acabar !...
As badaladas vão dar o ok, mais que comer, engolem-se as passas previamente contadas, o telefone toca ou são as últimas mensagens a expedir ... é o champanhe, as felicitações aos presentes ... e, como se tudo não fosse meramente a continuação do que ficou para trás há escassos instantes !...

Eu não sou ou estou diferente só porque ... tu não és ou estás diferente, só porque ... já que magias ou milagres que te bafejem, não existem !...

Verdadeiramente nunca fui muito chegada a esta epopeia.
Em miúda e já adolescente, nunca tive passagens de ano especiais ou particulares.  Animação nunca houve, sobretudo a partir da época em que vim viver para Lisboa.  Afinal éramos apenas três "gatos pingados"... eu, a minha mãe e o meu pai, quase sempre com um desertor que não estava disposto a esperar pela meia-noite.
A "animação" era por conta do programa televisivo a ser transmitido ... não mais.
Quando vivíamos em Évora e as férias do Natal eram passadas na casa dos meus avós, aí sim, havia um bailarico com pompa e circunstância, na Sociedade Recreativa local, com música ao vivo, que eu tinha direito a participar graças à bonomia de uma tia que não tendo filhos, tinha a pachorra de nos acompanhar, para que os pais não vetassem o evento.  O baile era uma forma de convívio e coscuvilhice, como esperado numa terrinha pequena do Alentejo profundo, e a minha tia tirava obviamente os dividendos do "sacrifício" a que se propusera.

Com o passar dos anos, cada vez mais estas celebrações ditadas pelo calendário dos Homens, se despem de significado ou justificação, além de pretexto para juntar dois ou três amigos, e ponto.
A partir de uma certa altura então, o chamamento da caminha quente, do silêncio da casa já recolhida, e a ausência de motivos que verdadeiramente me interessem, tornam penoso o arrastar da noite até que as badaladas se anunciem.  
Como dizia o meu pai que tinha um espírito bem envelhecido, "já não corro a foguetes !"...
Hoje, a passagem de ano resume-se à lembrança mais viva ainda, dos que já partiram das mais variadas formas e razões, à constatação dos lugares devolutos à mesa, à incerteza do que nos esperará nos futuros próximos e longínquos, às dúvidas e preocupações inerentes à vida tão mas tão conturbada no nosso pequeno mundo e às expectativas incomensuravelmente conturbadas no "grande" mundo por esse mundo fora !...
Nada de bom se avizinha, a paz nega-se a chegar a este nosso planeta, a fome, a guerra, a miséria, a violência e a dor inerente, obrigam-nos a perceber com nostalgia e medo que uma porta se fechou e uma nova se abrirá, sem que consigamos perceber como é o tempo lá fora ...

E o misto de sentimentos que nos afloram, aquele aperto no peito, aquela dolência sentida, aquela esperança que assoma, apesar dos pesares, fazem-nos quase sempre rolar uma lágrima incontida e teimosa que escorre sem que a possamos deter !...

VOTOS DE EXCELENTE 2026 !

Anamar

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

" TERGIVERSANDO "

 

O dia está quase a fechar .  Fecha cedo agora que o Inverno já nos faz companhia há alguns dias.
Hoje o sol, fraquinho fraquinho, espreitou de vez em quando por detrás de algumas nuvens esparsas, o suficiente para fazer sorrir o céu mesclado.
Ao meio dia, o bando não falhou, como não falha, incompreensivelmente, nunca.  São dezenas e dezenas de gaivotas que irrompem do nada e se pavoneiam aqui por cima, rodopiando na aragem. Volteiam como se sem norte ou objectivo, bailando apenas numa dança doce em passes de "prima donna", airosos e leves.
Depois, passados alguns minutos, conforme chegaram, partem e um muro de um terraço de um prédio alto, lá longe,  dá-lhes poleiro. Lá ficam por tempo não determinado, cuja explicação não descortino, e somem ... com a garantia que no outro meio dia, voltarão aos meus céus ...
O "bando do meio dia" como o denominei, começa a coabitar comigo, e já o espero diariamente do alto do meu sétimo andar, quase ao nível das aves que esvoaçam mais baixo.  
Depois acompanho-as com o olhar alongado até ao limite do horizonte. Bem espio as suas intenções, mas em vão as consigo decifrar.  Talvez um dia ...

Eu bem sei que o mar ainda está longe, eu bem sei que já não me trazem novas lá de Sintra, onde as escarpas descem às águas, onde as ondas rendilham as espumas nas areias, agora desertas e frias.
Mas por que diabo se vêm meter comigo aqui à minha janela, coitada que sou sem asas, sonhos ou vontades ??
Elas não sabem por certo que agrilhoada estou ao chão que assoma metros e metros lá em baixo ... e quem tem âncoras nos pés, não adianta ter sonhos no coração !...

Ao meu lado, Enya, canta, naquela sonoridade celestial que me transporta ao intimismo, ao silêncio e à paz que adivinho povoar as vidas dos que escolheram o branco da neve e do gelo, o verde, menos verde e mais branco das latitudes setentrionais, as casas aconchegantes de madeira, onde as chaminés fumegam das lareiras que iluminam e aquecem. 
O silêncio que se espalha, o frio cá fora e o calor lá dentro ... os pores de sol laranja, sobre as planícies geladas, os abetos, ciprestes e pinheiros esfíngicos no recorte na alvura da paisagem, o chocolate quente tomado dentro das cabanas protegidas do frio com um fogaréu permanentemente aceso no interior ... ou o negrume do céu onde as estrelas brilham mais e com sorte as auroras boreais nos visitam ... são uma espécie de sonho que vivo com os olhos bem abertos.
Conheço alguns países nórdicos, Noruega, Finlândia, Islândia, bem juntinhos do círculo polar ártico ou mesmo atravessados por ele, e invejo a paz, pelo menos a paz, a simplicidade e o silêncio que tanto me apetecia vivenciar, justo nesta fase da vida !

E mais um Natal já foi, um Natal urbano pautado pelo desvirtuamento do essencial e imbuído das "obrigações" que conseguem retirar-lhe a autenticidade e a verdade que o deveria emoldurar.  Um Natal muito vazio, muito "plástico", muito tecnológico, muito digital, muito não vivido e pouco sentido ...
Enfim ... mais um, do punhado mais ou menos generoso que ainda nos possa ser consentido pela vida ... com o tempo a escoar-se como ampulheta em contagem decrescente ou areia pelo meio dos dedos da mão !...

Fiquem bem!


                                

Anamar

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

" PERAMBULANDO NO PENSAR ... "



Limpei hoje a jarra de flores com o ramo que os meus netos me ofereceram há praticamente um mês.
Mudara-lhe a água umas duas vezes, no sentido de manter a saúde daquele bouquet de margaridas amarelas e brancas, com vivaz a compor.
Adoro margaridas, pela singeleza e despretensão, mais ainda se forem amarelas e brancas.  Foi o caso.  Pretendiam festejar o meu aniversário, este ano particularmente referenciável, não só pelo número, mas pelo cúmulo de circunstâncias ocorridas na minha vida nos últimos tempos, que tornaram a data mais sensível e sentida.

Olhei para as flores, agora já meio murchas, olhei para o dia lá fora, ameaçador, climatericamente.  Nuvens encasteladas e bem escuras anunciavam o previsível ... mau tempo.
Lá estou eu a falar como sempre, no tempo que faz, na imagem que esta minha janela me dá, no espaço amplo, quase sem horizonte que o limite.  Ainda gostava de interpretar esta minha necessidade de parecer querer escudar-me no bom ou mau tempo, no sol ou na chuva, na intempérie ou tempo de feição, como se quisesse justificar o meu desalento ou a minha bonomia, com a natureza que me envolve, com as suas marés altas ou baixas...

Entretanto estou a ler um livro que me está a fascinar, coisa que há tempos não me acontecia, pelo menos na área da leitura.  "A breve vida das flores" de Valérie Perrin, é uma história muito bem urdida, uma narrativa originalmente fora do comum que me está a deixar agarrada a cada capítulo.
A história gira "grosso modo" em torno duma personagem invulgar, num ambiente também inédito, um cemitério e a guarda do mesmo, uma mulher com uma vida profundamente sofrida.
Violette, a protagonista que vive dentro de um espaço que poderíamos considerar mórbido, faz do mesmo um ambiente que cativa e prende quem lê a história, porque dada a sua dedicação e amor ao que faz, transforma um espaço de morte, num espaço de vida, com identidade própria, vivida e criada à custa das histórias dos "seus" mortos e do jardim em que o seu desvelo consegue tornar o que verdadeiramente seria uma ambiência lúgubre e doída. 
Desde as flores que alindam as campas, à pequena horta que ela criou e cuida, nas traseiras da sua casa, há toda uma ternura e uma afeição perscrutada e familiar.
Violette, relaciona-se melhor, atrever-me-ia a dizer, com o mundo dos que partiram do que com o mundo real em que vive ...

Talvez a finitude daquele bouquet de flores que tanto significado teve para mim, talvez a finitude particularmente rápida dos dias, sobretudo quando nos assomam escuros e tempestuosos, talvez afinal a finitude do ser humano, façam na minha mente um mix de mágoa cinzenta e informe que me contagia e  desmantela devagarzinho por dentro.  
Ultimamente sou muito, mas mesmo muito assaltada por um espírito insalubre de morte anunciada.  Parece que a sinto, parece que a adivinho, parece que ela me condiciona e me paralisa, e com isso desce em mim um imobilismo, um desinteresse e uma desaposta em quase tudo, como o que sentimos olhando o relógio e constatando que a programação que havíamos feito já não tem tempo útil, hoje, para se cumprir ...
Talvez amanhã, talvez um destes dias, quem sabe ...

Deve ser o isolamento !  Ou simplesmente talvez eu esteja realmente doente ... outra vez !

Anamar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

" OUTRA VEZ NATAL !... "

 

Dezembro é também aquele mês que se eu pudesse, saltava no calendário.
É de  novo mais um mês que forçosamente nos atira para balanços.  Balanços de tudo, do que se fez e não fez, das expectativas e das desilusões, das esperanças e dos fracassos inerentes, dos risos e das lágrimas, do ânimo que às vezes se levanta connosco e do desânimo que progressivamente toma conta de nós ao longo do dia ...
Balanços e mais balanços, e o peso de havermos carregado mais um ano que às vezes foi excessivo face à capacidade que as nossas costas anunciavam aguentar ...

2024 havia sido um ano muito difícil em muitos aspectos, mas 2025 não aliviou muito a carga dependurada do coração.
E depois há aqueles dias a atravessar... o Natal, que para mim se tem transformado numa travessia do deserto.  Cada vez são menos os que se sentarão àquela mesa.  Já só menos de meia mesa, terá  confraternizantes, e cada vez mais aquilo que cada um exibe, se transformará numa performance mal ensaiada, menos credível, mais esvaziada de reais sentimentos.
Prevejo que seremos quatro à mesa, com a alegria que conseguirmos coleccionar, com a boa disposição afivelada nos rostos, até porque está uma criança e ela não tem idade p'ra perceber, sequer suspeitar qual a cor do coração que cada um de nós tem guardado no peito.

Ao longo da minha vida, os meus Natais poderiam ocupar prateleiras bem diversificadas umas das outras.  Parece que eles se caracterizam e definem muito bem, e cada um deles pertence claramente a um dossier que poderia facilmente ser catalogado.

Os primeiros Natais que recordo, os mais gratificantes e doces, foram, como já contei em posts lá para trás, os Natais da minha meninice, os Natais de família à séria, os Natais alentejanos, os Natais inevitavelmente inesquecíveis.
Eram os tempos de acreditar no Menino Jesus, sim porque era Ele que se aprontava a marcar presença, nas gélidas noites de Missa do Galo na Igreja da Saúde na terra que era muito mais minha que aquela onde na realidade nasci.  Noite quase sempre escura e estrelada, noite de avó a caminho da igreja, no seu xaile quentinho e lenço na cabeça, de uma igreja que nunca mais me saíu da mente, clara e iluminada, com a talha dourada ainda mais refulgente, os círios acesos e o cheiro das velas ardidas, e a fila que aguardava p'ra beijar o pezinho ao Menino no fim da cerimónia, que o padre pegava e limpava com uma toalha de linho após cada osculação ...
Em casa, enquanto os homens se aqueciam no madeiro imenso, a arder na lareira de parede a parede daquela cozinha velha, as mulheres, tias, primas, mais novas ou mais velhas, preparavam a consoada com as iguarias de sempre.  Haveríamos de as degustar para aquecermos o espírito, à chegada do frio da noite ...
É um lugar comum, creio, para a maioria de nós guardarmos carinhosamente, e por todas as razões, os nossos Natais de infância ... os mais doces deles todos !

Depois vieram os Natais da Beira.  Outra realidade, outras pessoas ... contudo sempre família.
Esses, foram os Natais da infância das minhas filhas.
Outra casa, outros amigos, outros cheiros e sabores, mas contudo ainda éramos alguns, os dedos das duas mãos chegariam para os contar, mas havia vida a pulsar também, nos adultos e na criançada.
Havia a árvore e o presépio, tudo colhido nas matas, havia risos e gargalhadas, o bacalhau e a "roupa velha" no dia seguinte ...
Depois ... bom, depois foram indo ... Uns para a terra de ninguém ( esses só nos repousam nas memórias e nas imagens dos vídeos que ainda hoje nos fazem sorrir ), outros apenas tomaram novos rumos, novos trilhos ... outros destinos !
Gostava de poder espreitar aquela mesa, na noite da consoada, e espicaçar o lume, como o fazia, para minorar o frio que sempre tenho ... Gostava, mas não posso ... a vida é assim !

Hoje, bem, hoje por enquanto talvez sejamos três, à mesa.  E de todos os Natais, estes que tenho vivido nos últimos tempos, são os mais incaracterísticos, aqueles de que menos memórias guardarei, aqueles em que os lugares vazios estão mais vazios do que nunca, aqueles em que a solidão e um silêncio interior ( que talvez só eu pressinta ), mais se fazem sentir.
É um misto confuso de sentimentos, é um ruído e uma turbulência tonitruante, é uma ausência e uma escuridão absoluta, numa sala ainda assim iluminada, numa mesa onde ainda assim haverá conversas, onde vamos todos fazer de conta que por ali passa uma qualquer felicidade e alegria que afinal não se deixam mascarar, e que lá bem no fundo, não enganam ninguém ...

Feliz Natal !...



Anamar

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

" NEM SEMPRE O AMOR CURA "

 


Vivo há mais de cinquenta anos nesta casa, neste andar desta praceta, num nascente poente que me inunda de sol de manhã à noite.

Para aqui vim em início de vida, tinha vinte e três anos de idade, ainda só uma filha, vida profissional a iniciar-se, quilos de sonhos a cumprir.  E por cá vivi, com os altos e baixos, provavelmente normais a todas as vidas.  Nasceu outra filha, escreveram-se páginas e páginas de histórias, realizações ou não, alegrias ou não, coisas boas a recordar e outras nem tanto.
Afinal as histórias do ser humano serão todas um pouco parecidas e infinitamente diferentes também !

Leccionei na escola aqui do burgo, e por mim passaram gerações e gerações cada uma com as suas idiossincrasias, das quais guardo até hoje, rostos, nomes, guardo memórias quase sempre felizes.
E constato que a reciprocidade dos afectos perdurou pelos tempos ... apesar de hoje já sermos outros !
Afinal, uma das características da memória é ir colher lá atrás, com grande grau de precisão, exactamente essas lembranças que ainda hoje aquecem o coração !

A minha casa é pertinho do céu e sobranceira a um casario descaracterizado, desordenado... eu diria, caótico.
Resta-me o céu azul ou carregado de nuvens ameaçadoras, se o tempo não está de feição, resta-me a lembrança da Pena lá longe, na linha do horizonte antes de terem construído um intrometido edifício de seis ou sete pisos que a cobriu do meu ângulo de visão, restam-me os pombos que decoram qualquer ambiente urbano neste momento, os periquitos de colar que atravessam aqui por cima, quase sempre apressados e que se anunciam pelo seu piado  característico e finalmente as gaivotas, em bandos desordenados ou espanejadas na aragem que passa, como se encetassem apenas um bailado e não tivessem rumo ou norte. 
E finalmente restam-me os pôres de sol inigualáveis e por isso mesmo, inesquecíveis, que me são presenteados a partir desta minha janela privilegiada, fechando os dias, virada que está a poente, com Sintra lá ao fundo, bem longe e bem saudosa ...

E pronto, a minha casa, que tem de tudo um pouco, já com uma vetusta idade, encerra o espólio da minha existência.
Cada peça que a compõe, é um tesouro para mim.  Cada uma tem um valor que não é material, mas incondicionalmente afectivo. Se tivesse que as escolher em função da dedicação que lhes tenho, seria uma tarefa hercúlea.
A minha vida gira dentro desta casa, como ninho de protecção e conforto.  Por maneira de ser nunca fui dada a muitos e variados convívios.  Sou uma pessoa de fácil relacionamento mas preferencialmente escolho o isolamento no meu "buraco"... Não é por mal, talvez seja assim por ter um carácter reservado, que foi sendo lapidado ao longo do meu percurso de vida, mercê do "figurino" desenhado desde a infância, numa vida vivida praticamente a sós com a minha mãe.  Mas, sendo curto o meu núcleo de relações, sinto que sou estimada pelas pessoas ... acho que posso dizer isso.
O facto de há já mais de vinte anos viver só, porque me divorciei, a Covid que também condicionou o convívio entre as pessoas e em última mas não despicienda razão do avanço da idade, vivo cada vez mais confinada a este reduto só meu.
Meu e dos meus gatos, um casal que divide as vidas dia e noite, com a minha ...

"Os anos tudo trazem e tudo levam" ... era uma velha máxima que a minha mãe usava e abusava, coisa que me irritava profundamente, quando parecia que eu afinal tinha a vida toda para viver... o mundo todo para conquistar ...
Hoje, ver a vida do patamar onde já me encontro, permite-me perceber quão verdadeira e adequada aquela era...
Hoje, a minha filha mais nova, que cuidou da avó até ela nos deixar, antecipa novamente o cenário que me espera ... 
A minha filha é doente oncológica de há um ano a esta parte. Eu digo "é", porque quem tem a desdita de contrair esta doença, por mais benigna que esta o seja, o que parece ter sido o quadro para ela diagnosticado dentro da panóplia de hipóteses com que poderia ter sido "sorteada", é-o para toda o sempre.  É um quadro clínico que não tem certezas, é traiçoeiro e surpreende.  Demasiadas vezes surpreende!
Acresce, que ela é sozinha e tem quase inteiramente a seu cargo uma criança de apenas oito anos.
Vive na margem sul, é enfermeira também num dos hospitais dessa localização, e tem toda a logística de vida dela e da filha, instalada naquelas bandas.
Como se imagina, o meu equilíbrio emocional virou da noite para o dia, complicando ainda mais o mundo caótico que sempre é o meu espírito.  
Assim, fui confrontada com talvez a necessidade ( vou chamar-lhe assim ), de nos aproximarmos em termos habitacionais, que é como quem diz, eu ir viver para mais perto delas as duas. 
Eu avanço na idade, logo nas exigências inerentes a essa situação, o futuro dela em termos sanitários sobretudo, é imprevisível, bem como o são, as capacidades que venha a ter futuramente e a impossibilidade dos nossos poderes adivinhatórios vislumbrarem o futuro que nos espera.
Sem dúvida o tempo urge e a partilha entre nós, é escassa.

E vou ter que resolver.
Nunca sequer imaginei vir a ter que passar por uma situação destas, porque vender a minha casa está longe de ser uma mera transação financeira; envolve um lado emocional profundo e uma sensação de despedida.
Fechar esta porta é um virar de página, é um encerrar de um enorme capítulo da minha vida, num período desta em que a resistência emocional e afectiva é mais vulnerável do que nunca.  É um desafio à minha capacidade de superação de sentimentos intensos de nostalgia, de apego e de incertezas.
É um desafio à capacidade de que consiga dispor, de pragmatismo, frieza, objectividade, pressão emocional ...
Ainda não parti e já tenho saudades, ainda não parti e já lido com sentimentos contraditórios do que classifico de egoísmo, desumanidade, falta de amor ... se optar por ficar ...
A minha filha pensa nela, mas também pensa em mim se quando eu precisar dela me não puder ajudar como fez com a avó...
Sem dúvida é uma duplicidade de sentimentos que me atormentam, é uma mescla de amor e de dor, como se no coração me estivessem a roubar as memórias, as histórias, a vida !...

E em contínuo, pelas madrugadas de insónias, vejo e revejo o filme dos cinquenta anos em que, bem ou mal, a rir ou a chorar por aqui estive ...

Lá fora, hoje, as gaivotas dançam na aragem fria do vento que corre, enquanto que um laranja doce escurece aos poucos na linha do horizonte, lá para os lados de Sintra ... anunciando que mais um dia chegou ao fim !

Anamar 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

" CANSAÇO "

 


Júlio Machado Vaz no seu último livro Outonecer que entre muitos outros aspectos incide na temática do envelhecimento ( referindo o "peso" psicológico que nos toma exactamente com a entrada no Outono da vida ), descreve que como nenhuma outra idade, os três quartos de século completados no ano passado, o mexeram por dentro. 
Até então, as décadas anteriores foram vivenciadas com um olhar de normalidade, de aceitação, de pouca ou nenhuma perturbação emocional.
Mas completando setenta e cinco, percebeu objectivamente aquilo a que verdadeiramente chamamos de "o peso dos anos".
Li o seu livro há pouco tempo e é verdade que JMV me mostrou nesse seu livro uma faceta de melancolia e até talvez de um entristecimento que nunca lhe havia sentido até então, como se de repente ele se tivesse voltado mais para o seu eu interior, e desligasse do mundo fora desse casulo ...

Eu sou absolutamente contemporânea do professor.  Eu também completei ontem três quartos de século de vida.  Não três quartos da jornada que me coube ou caberá. Afinal, o caminho percorrido encurta cada vez mais o que está por percorrer ... 
Contudo, também, tal como ao professor, este outonecer, ou até mais ... este invernar da vida, me magoou, feriu, atingiu, como se tivesse sido surpreendida à má fila, pelo transcurso do tempo.  
É como se não me tivessem avisado... é como se me tivessem apanhado distraída ... sem que ninguém acendesse para mim, pelo menos, o semáforo amarelo !!!

Sou muito introspectiva.  Muito negativa, muito derrotista, pouco esperançosa ... sempre com o copo meio vazio na mão.  É característica personalística, infelizmente.  E por mais que psicologicamente eu "trabalhe" em mim esta forma errónea de encarar a vida, não consigo alterar, com argumentos nenhuns, esta malvada forma de a enfrentar e de sentir ...
Muita coisa aconteceu e acontece na minha vida, nos últimos tempos ... e não forçosamente coisas felizes.  Experimento ou uma sensação de desistência com a praia à vista, ou sinto um abandono que me faz encarar os dias como em fim de caminho.
É uma sensação de não valer a pena isto ou aquilo, não valer a pena pôr a mesa da vida, porque já não ocorrerá nenhum banquete mais, não valer a pena desarrumar nada porque seria uma perfeita inutilidade fazê-lo, parece estar tudo em fase de acabar e não de recomeçar ...
Não tenho um foco, um objectivo, uma meta, algo por que me esforçar, algo que justifique continuar a esbracejar no meio da tempestade, algo que me faça sonhar, algo que afaste de mim este mofar que parece circundar-me e apodrecer-me aos poucos ...
Detesto-me, estou exausta, sinto-me um peso morto, algo de fétido ... uma merda !
Não me reconheço ! Perdi-me totalmente nas encruzilhadas da vida ... esqueci o caminho e o nevoeiro adensa-se ao meu redor.  Pouco já se divisa, pouco se enxerga, um negrume está a descer mais e mais ...
Veremos até onde e quando suportarei a tempestade ...
Veremos até onde terei olhos para a sempre beleza do crepúsculo ...

Anamar