quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

" O BOM SAMARITANO "

 

                                 SIMBA

Os gatos da mata têm um anjo da guarda protector dos seus destinos!  
O senhor Sérgio, é o "bombeiro", o socorrista, o colo, o amigo, o amparo, o malabarista na busca de soluções, o milagreiro na resolução das dificuldades ... o que está ali para eles, o que lhes dispensa o seu tempo duma forma incondicional, numa disponibilidade quase total, de manhã e ao fim do dia, numa amizade, entrega e dedicação únicas ...
O senhor Sérgio miscigena-se com eles ... é quase um patudo também !

Frequento a mata nas caminhadas semanais há pra mais de dez anos.
Existe naquele espaço uma espécie de santuário de gatos desvalidos há mais tempo do que aquele em que os percebi na sua "aldeia".  Não sei como começou, sei que existe e que infelizmente cresceu por força da maldade do ser humano que abandona, renega e larga inescrupulosamente ao seu destino, aqueles que foram companheiros das suas vidas.
Chego a invejá-los nos Verões quentes e doces, nos tempos do céu azul e dos espreguiçamentos ao sol. 
São mansos, meigos, quase sempre sociáveis com quem passa, quase sempre meigos com quem lhes leva mimos, aceitando carinhos, sempre com a cauda no ar em jeito de satisfação.
Há-os de todas as cores, há-os de todos os géneros, há os que já lá nasceram e os que lá foram deixar ...
Nos Invernos, com os rigores insensíveis das chuvas copiosas, do frio às vezes gélido e dos ventos assustadores, ou até das trovoadas ameaçadoras, a dureza pesa, pois tal como ao ser humano, não basta a comida assegurada e a água disponibilizada pelo ribeiro que então corre cheio e perigoso, para que a vida lhes corra mansa.
Aí entra o senhor Sérgio que de tudo faz para lhes aligeirar a cruz.
Além da garantia do alimento, proporcionou-lhes abrigos, inicialmente inventados a partir dos recursos de que dispunha, depois a sua dedicação conseguiu mobilizar corações, e casinhas impermeáveis começaram a "desenhar" a "aldeia" que agora habitam !
Com mantinhas quentes nos seus interiores, conseguiu minimizar as condições adversas do exterior, e, se quentes não estiverem verdadeiramente, pelo menos não estão expostos directamente à intempérie.
De manhã e ao fim da tarde ouve-se o assobio que lhes lança anunciando a sua chegada.  No Verão, perto da hora que eles identificam pelo relógio dos corações, espalham-se ali pelo caminho, no meio da erva, e aguardam.  
O Sr. Sérgio não falha.  Não tem dia que não possa, não tem doença que o impeça, não tem preguiça que o limite.  Com chuva ou com sol, ele sabe que os seus amigos o esperam.
Se algum mostra não estar bem, o Sr. Sérgio faz de João Semana e administra-lhes alguns medicamentos necessários às feridas, às maleitas, às infeções se vierem a ocorrer.  Se a situação agrava, busca ajuda e recorre a quem de direito.
O senhor Sérgio vive do seu trabalho, creio.  Não tem recursos especiais.  Mas tem um coração do tamanho do mundo.  Ele sabe que tem "gente" à espera ...
Ele sabe que lá estarão o Simba, a Bernardete, o Menino, o Gorila, a Maluca, a Pipoca, a Pequenota e outros cujo nome não me ocorre ... mas que ele sabe de cor.
Fala com eles, sofre com eles, partilha-se com eles ...

Um destes dias, quando vier o tempo quente e a mata nos acolha com amabilidade, hei-de pedir-lhe que me conte a verdadeira história da "terra dos gatos" ... como eles semearam no seu coração uma semente que frutificou para toda a vida !...

Anamar

" LOBOS COM PELE DE CORDEIROS "



Acabei de publicar um post que fora escrito há já alguns razoáveis dias.
Esqueci simplesmente de o publicar ... Estarei a ficar senil ??  Vá-se lá saber ...😀
O tema abordado nesse post tem muito a ver com o que aqui vou tentar hoje abordar, dispondo entretanto de outros dados, de novas informações que certamente enriquecerão o conteúdo que vou tentar analisar neste meu escrito de hoje.

Não gosto de política.  É um assunto que me entedia, me cansa e sobretudo me enoja quase sempre.
Contudo, todo o Homem é um animal político e todos os seus actos são obviamente políticos.
Nasci em pleno fascismo, numa sociedade cinzenta e opaca, num regime ditatorial, em que só os audazes se atreviam e onde era melhor não metermos "o bedelho", para nossa tranquilidade.
Em minha casa não se abordava o tema, não se questionavam os acontecimentos que quer internamente quer no mundo que nos rodeava, iam acontecendo.
O meu pai comprava o jornal diário, mas nem eu nem a minha mãe tínhamos apetite ou curiosidade para o ler.  Eu estudava mas de certo modo vivia numa bolha proteccionista, onde o silêncio sobre o que se desenrolava no mundo e no país em particular, era a postura mais avisada para nos proteger de dissabores.
Havia a PIDE, toda uma máquina repressiva bem montada, havia a guerra do Ultramar, os presos políticos, as deserções na fuga à mobilização dos jovens face à guerra colonial ... havia um país onde a pobreza e o conveniente analfabetismo "encarneiravam" ao silêncio, a generalidade da população de menos recursos, que dessa forma era mais facilmente controlada.
Aliás, sempre a ignorância e a desinformação, eram / são armas de tranquilidade para quem regia os destinos deste país.  Alguma contestação que se verificasse, facilmente era controlada e desincentivada.

Mas, claro, cresci, fiz-me mulher, estudei, criei uma família sobre a qual tinha obviamente responsabilidades inerentes, aprendi a ler a realidade que me cercava e comecei a perceber o avesso do direito que me mostravam.  Comecei a pensar pela minha cabeça, comecei a separar o trigo do joio, a observar com muita e cuidada atenção, o que era terreno firme e o que era chão movediço debaixo dos pés.
Aprendi a analisar, a escalpelizar a realidade no país em que vivia e no mundo que me cercava, deitei fora muita da ingenuidade com que até então olhava os acontecimentos e trabalhei juízos de valor sobre a teia social e política que se desenrolava ao meu redor.
As novas tecnologias que entretanto se foram desenvolvendo, permitiram que a cultura e a comunicação disponibilizada se tornassem mais acessíveis e me fornecessem armas para tomadas de consciência menos erráticas, mais críticas e mais assertivas sobre a realidade. 

Este é um resumo nada exaustivo sobre a pessoa em que me tornei, no normal processo de vida, até aos dias de hoje.
Sinto-me contudo sempre uma ignorante na percepção e entendimento das teias inóspitas que norteiam e ditam os posicionamentos do ponto de vista social e político quer interna, quer externamente, das personagens que se mexem sempre com muito à-vontade, no palco e nos esconsos dos destinos sócio-políticos.
As pontas soltas das decisões, baralham ainda mais o nosso espírito, quando percebemos que sempre são tudo menos inocentes e constatamos a ausência de escrúpulos na escolha dos caminhos.
É essa faceta de mentira, manipulação e desonestidade que me assusta à medida que cresce gradualmente a qualquer custo, e por cima de pessoas e valores, na busca desenfreada de interesses ínvios e finalidades óbvias.  
Parece que já não há em quem confiar, a desonestidade mostra sempre lobos com pele de cordeiros, e quase nunca nada é o que realmente parece, numa sociedade cada vez mais enferma de falta de valores de verticalidade, honestidade, transparência e seriedade.

Bom, neste momento em Portugal, estamos em meio de uma eleição para escolha do Presidente da República. Digo em meio, já que houve que recorrer a uma segunda volta, para a decisão final.
Os candidatos respeitam a quadrantes políticos bem distintos, sendo um de convicções centro-esquerda socialistas e o outro de facção ultra-direita nacionalista.
Conclui-se que  o primeiro é um indivíduo moderado, com um passado político equilibrado e sério e o segundo um banha da cobra, tendencioso, da direita radical, populista e inerentemente desonesto.
Um indivíduo perigoso, sem escrúpulos, fomentador do fascismo, que incentiva ao ódio racial e perseguidor dos imigrantes, tem o dom da palavra e sopra aos ouvidos dos incautos aquilo que eles querem ouvir, com a sua maviosa mensagem de salvador da pátria.

Para mim, não tem dúvida, trata-se duma disputa entre a ditadura e a democracia, uma disputa entre o equilíbrio e uma demagogia violenta que usa dos truques mais sórdidos para convencer as correntes mais desinformadas, explorando a fragilidade de pessoas na maioria pertencentes às franjas sociais mais desfavorecidas, logo mais expostas, mais susceptíveis, mais crédulas e mais desprotegidas, com menos capacidade de defesa e mais facilmente emaranháveis nas teias do oportunismo e da desonestidade.

Convém que a História não seja esquecida, já que o ser humano prima muitas vezes por ter memória curta.
E que tal como digo no título, saibamos arrancar atempadamente a pele aos lobos, por forma a desmascará-los, não esquecendo que, Historicamente falando, o pior que o Homem pode fazer, está escrito em tudo o que ele já fez !  
Saibamos ler os sinais !...

Anamar

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

" A ÚNICA PISTA ... "

 



"  A única pista para sabermos o que o Homem pode vir a fazer, é o que o Homem já fez !"

Com esta frase termina o fantástico filme ora em exibição nos cinemas, "Nuremberg", e deve-se a R. G. Collingwood, filósofo,  historiador e arqueólogo britânico falecido em 1943 com 53 anos.

O filme, magistralmente conseguido reporta-se historicamente, aos julgamentos do Tribunal Internacional de Nuremberg, pós-segunda Guerra Mundial (39-45), em que foram julgados e incriminados os indivíduos mentores e executores da barbárie levada a cabo por Hitler e seus apaniguados, contra os judeus e outros cidadãos.
Os métodos utilizados de perseguição e detenção gratuita, configurados em crimes de guerra contra a humanidade, crimes hediondos, de extermínio e eliminação da raça, levaram ao genocídio milhares e milhares  de judeus, nos campos de concentração, localizados maioritária e sigilosamente criados por toda a Alemanha ou  pela Polónia ocupada durante o Holocausto e que se estendiam igualmente a outros territórios europeus, como por exemplo a Áustria.
Lá, os judeus, indistintamente homens, mulheres e crianças, eram barbaramente sujeitos às mais variadas sevícias, acabando "grosso modo" nas câmaras de morte, submetidos à inalação de gás tóxico.
Em pouco mais de quatro anos e meio, a Alemanha nazi, executou sistematicamente pelo menos, 1,1 milhão de pessoas, só em Auschwitz-Birkenau, campo construído no sul da Polónia.  
Além dos judeus a serem erradicados da Europa, também polacos, negros, comunistas, ciganos, prisioneiros de guerra russos e homossexuais, ali perderam as suas vidas. Hitler e os seus cúmplices, pretendiam o "apuramento da raça" a qualquer custo, numa loucura de extermínio sem contenção.

Em Janeiro de 1945, o Exército Vermelho que finalmente conseguiu cautelosamente entrar em Auschwitz, onde já só restavam cerca de 7 mil prisioneiros, deparou-se igualmente com cadáveres decompostos, barracões arruinados e os poucos vivos, que em situação e estado super-precário, ainda resistiam...

Esses crimes cometidos contra a humanidade, essa sanha de perseguição e morte, a destruição de famílias, cujos membros nunca mais se encontraram, a busca do que foi chamada a "solução final ", colocou a Europa frente à loucura de um homem e seus apaniguados, que a História jamais esquecerá ou poderá ignorar.

Nuremberg foi a cidade escolhida como sede do tribunal, com carácter simbólico, por ter sido a cidade onde Hitler havia promulgado as primeiras leis antissemitas.
Foi um tribunal preparado para julgar crimes de guerra e crimes contra a humanidade, cometidos pelos nazis, à luz do direito internacional.
Finda a guerra, os aliados Reino Unido, Estados Unidos, França e União Soviética uniram-se em torno da constituição deste tribunal, um marco no Direito Penal Internacional.  
Nele foram julgados os principais agentes do genocídio acontecido, tais como Hitler, Göring, Rudolf Hess, Gobbels, entre outros. 
Dos 24 acusados, 22 foram condenados. Alguns não chegaram a ser julgados porque praticaram suicídio. 

Como pôde acontecer tudo isto, perguntamo-nos ?  
O filme pretende que jamais tal volte a acontecer, é um abre-olhos para todos, mesmo as gerações mais novas e distanciadas do horror vivido e é um instrumento que fornece ferramentas para que a História de facto não venha a esquecer.

Dizem que a História não se repete ... Tenho sérias dúvidas quanto a isso.  
Bem ao contrário, fazendo uma retrospectiva e colocando-a em paralelo com a sociedade em que vivemos hoje, pode perceber-se claramente que nem tudo são meras coincidências, nem tudo acontece por aleatoriedade das questões, e o perigo vivido no fim da Segunda Grande Guerra, talvez não esteja tão longínquo como se poderá imaginar.
Afinal, novos Hitleres campeiam bem mais do que poderíamos supor, diabolizando os nossos destinos !!!  
E sim, o "déjà vu" não surge tão distante como sendo apenas um sonho ruim ... 

Anamar

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

" O DESTINO MARCA A HORA ...

 


Sem dúvida, os destinos cumprem-se !  Estejamos onde estivermos se tiver chegado a hora, nós estaremos lá !
A minha mãe dizia que ninguém erra o caminho, numa espécie de convicção de que se estiverem  determinadas as coordenadas do nosso destino final, não lhe escaparemos !

Esta certeza absoluta sempre me assustou um pouco.  É lúgubre demais.  Mas há acontecimentos que efectivamente nos fazem pensar.
Explico : 
Quando o meu neto que estuda nos Estados Unidos chegou de férias no passado dia 15 de Dezembro, promovi na minha casa, com os três mais velhos, um almoço para matar saudades e conversarmos um pouco, o que nem sempre é fácil na rotina de jovens entre os 18 e os 24 anos.  Costumo dizer que eles têm mais que fazer que estar a aturar a avó.
Perguntei-lhes então, qual o programa de cada um deles, para a quadra natalícia.
O António, o mais velho, passaria o Natal este ano, na Beira Litoral onde os avós paternos têm uma casa, porque o pai estaria por cá, vindo da Suiça onde vive com a família lá constituída.  Acontece que o pai do António aniversaria na véspera de Natal e dessa forma reuniriam toda a família paterna junto do avô, com condições já muito precárias de saúde.
"Ah, ok ... então este ano passas cá o Natal e o Ano Novo também, este, com a tua mãe e irmãos !"
Fiquei a saber que não.  " Uma vez que o meu pai regressa à Suiça após o Natal, nós ( entenda-se ele e a namorada ), vamos lá fazer a passagem de ano na neve ."

Até aqui nada de novo.  Afinal, com os pais separados, desde muito pequeno já o António viajava para a Suiça entregue à tripulação da TAP, ao cuidado dos comissários de bordo.
O pai vive em Genebra, e possui, ao que parece, uma segunda habitação na montanha.  O António esquia desde sempre, e este ano iria fazer uns dias com a namorada, praticando esse desporto.

Tudo bem, até aqui.  No último dia do ano durante a tarde, enviei-lhes uma mensagem com os meus votos de excelente Ano Novo, desejando que se divertissem.  O António respondeu, agradecendo e retribuindo os meus desejos .

O 31 dobrou para o 1, desta feita já de Janeiro e já de um novo ano... 2026 já nos batera à porta e se anunciara.
Acordei tarde no primeiro do ano e tarde abri o computador.  Quando o fiz, fui surpreendida com uma  notícia de última hora sobre a tragédia ocorrida nessa noite, nos festejos da entrada do novo ano, no Cantão de Valais, na Suiça, mais concretamente em Crans-Montana, famosa estância de esqui, onde na loucura das festividades, num bar-discoteca, frequentado maioritariamente por adolescentes e jovens, deflagrara um incêndio seguido de explosões, estimando-se já em mais de quarenta os mortos e mais de cem os feridos em estado grave.  
As imagens, o drama, o caos em torno do acontecido, sem grandes dados ainda sobre a identificação das vítimas, o desnorte das famílias na procura dos que sabiam estar por lá e de quem haviam deixado de ter notícias ... gelaram-me totalmente.
Acho que o coração parara de bater e a cabeça rodopiava sem parar.  
Na véspera, o António deixara imagens no Instagram, de todo o enquadramento fantástico da beleza da estância de esqui onde afinal se encontravam.  As fotos faziam a geo-localização : Crans-Montana ...
Estariam também eles no Bar-Discoteca Le Constellation ?
Como jovens que são, em gozo de férias, num destino de sonho e envolvidos pela paixão dos vinte anos, teriam decidido fazer a meia noite ali, na vila onde estavam alojados ? 

Não podia ser !  A vida não poderia permiti-lo ! Não ... por favor, não ! ( dizia eu tremendo, enquanto digitava no telemóvel uma mensagem ) : "António, vocês estão bem ?  Responde-me por favor ! ", enquanto as lágrimas desciam sem comando possível.

O António respondeu passado poucos minutos.  "Sim avó, estamos bem.  Não fomos, já estávamos deitados e fomos despertos pelo som das explosões, aqui na vila ! "...

ACASO  ou  DESTINO ??

Não era ali, que o destino haveria de cumprir-se, porque feliz e simplesmente não era ali que a hora estava marcada !...




Anamar 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

" FIM DE PÁGINA "

 



Detesto esta quadra.  Detesto particularmente o dia de hoje, o famigerado 31 de Dezembro de cada ano!

Inevitavelmente sucumbimos a ele e a tudo o que lhe está associado, por mais que garantamos ser imunes ao espírito predominante.  ´
É o dia da "virada", é o dia em que queiramos ou não determinaram que mais um ano cessa e mais um ano começa, feito carta fechada que vá-se lá saber como nos irá surpreender ...
Consequentemente aí estamos nós arrastados para o vórtice dos balanços, do que fizemos e talvez não devêssemos ter feito, ou do que não fizemos e não era por aí o caminho ...
É um desatino, com o acréscimo de uma correria absurda para a concretização a gosto, do local  das festividades e as presenças a fazerem-se presentes, a preparação por simples que seja, da mesa do evento, das vitualhas e os pormenores de última hora a não serem esquecidos.
Como se de repente o mundo fosse acabar !...
As badaladas vão dar o ok, mais que comer, engolem-se as passas previamente contadas, o telefone toca ou são as últimas mensagens a expedir ... é o champanhe, as felicitações aos presentes ... e, como se tudo não fosse meramente a continuação do que ficou para trás há escassos instantes !...

Eu não sou ou estou diferente só porque ... tu não és ou estás diferente, só porque ... já que magias ou milagres que te bafejem, não existem !...

Verdadeiramente nunca fui muito chegada a esta epopeia.
Em miúda e já adolescente, nunca tive passagens de ano especiais ou particulares.  Animação nunca houve, sobretudo a partir da época em que vim viver para Lisboa.  Afinal éramos apenas três "gatos pingados"... eu, a minha mãe e o meu pai, quase sempre com um desertor que não estava disposto a esperar pela meia-noite.
A "animação" era por conta do programa televisivo a ser transmitido ... não mais.
Quando vivíamos em Évora e as férias do Natal eram passadas na casa dos meus avós, aí sim, havia um bailarico com pompa e circunstância, na Sociedade Recreativa local, com música ao vivo, que eu tinha direito a participar graças à bonomia de uma tia que não tendo filhos, tinha a pachorra de nos acompanhar, para que os pais não vetassem o evento.  O baile era uma forma de convívio e coscuvilhice, como esperado numa terrinha pequena do Alentejo profundo, e a minha tia tirava obviamente os dividendos do "sacrifício" a que se propusera.

Com o passar dos anos, cada vez mais estas celebrações ditadas pelo calendário dos Homens, se despem de significado ou justificação, além de pretexto para juntar dois ou três amigos, e ponto.
A partir de uma certa altura então, o chamamento da caminha quente, do silêncio da casa já recolhida, e a ausência de motivos que verdadeiramente me interessem, tornam penoso o arrastar da noite até que as badaladas se anunciem.  
Como dizia o meu pai que tinha um espírito bem envelhecido, "já não corro a foguetes !"...
Hoje, a passagem de ano resume-se à lembrança mais viva ainda, dos que já partiram das mais variadas formas e razões, à constatação dos lugares devolutos à mesa, à incerteza do que nos esperará nos futuros próximos e longínquos, às dúvidas e preocupações inerentes à vida tão mas tão conturbada no nosso pequeno mundo e às expectativas incomensuravelmente conturbadas no "grande" mundo por esse mundo fora !...
Nada de bom se avizinha, a paz nega-se a chegar a este nosso planeta, a fome, a guerra, a miséria, a violência e a dor inerente, obrigam-nos a perceber com nostalgia e medo que uma porta se fechou e uma nova se abrirá, sem que consigamos perceber como é o tempo lá fora ...

E o misto de sentimentos que nos afloram, aquele aperto no peito, aquela dolência sentida, aquela esperança que assoma, apesar dos pesares, fazem-nos quase sempre rolar uma lágrima incontida e teimosa que escorre sem que a possamos deter !...

VOTOS DE EXCELENTE 2026 !

Anamar

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

" TERGIVERSANDO "

 

O dia está quase a fechar .  Fecha cedo agora que o Inverno já nos faz companhia há alguns dias.
Hoje o sol, fraquinho fraquinho, espreitou de vez em quando por detrás de algumas nuvens esparsas, o suficiente para fazer sorrir o céu mesclado.
Ao meio dia, o bando não falhou, como não falha, incompreensivelmente, nunca.  São dezenas e dezenas de gaivotas que irrompem do nada e se pavoneiam aqui por cima, rodopiando na aragem. Volteiam como se sem norte ou objectivo, bailando apenas numa dança doce em passes de "prima donna", airosos e leves.
Depois, passados alguns minutos, conforme chegaram, partem e um muro de um terraço de um prédio alto, lá longe,  dá-lhes poleiro. Lá ficam por tempo não determinado, cuja explicação não descortino, e somem ... com a garantia que no outro meio dia, voltarão aos meus céus ...
O "bando do meio dia" como o denominei, começa a coabitar comigo, e já o espero diariamente do alto do meu sétimo andar, quase ao nível das aves que esvoaçam mais baixo.  
Depois acompanho-as com o olhar alongado até ao limite do horizonte. Bem espio as suas intenções, mas em vão as consigo decifrar.  Talvez um dia ...

Eu bem sei que o mar ainda está longe, eu bem sei que já não me trazem novas lá de Sintra, onde as escarpas descem às águas, onde as ondas rendilham as espumas nas areias, agora desertas e frias.
Mas por que diabo se vêm meter comigo aqui à minha janela, coitada que sou sem asas, sonhos ou vontades ??
Elas não sabem por certo que agrilhoada estou ao chão que assoma metros e metros lá em baixo ... e quem tem âncoras nos pés, não adianta ter sonhos no coração !...

Ao meu lado, Enya, canta, naquela sonoridade celestial que me transporta ao intimismo, ao silêncio e à paz que adivinho povoar as vidas dos que escolheram o branco da neve e do gelo, o verde, menos verde e mais branco das latitudes setentrionais, as casas aconchegantes de madeira, onde as chaminés fumegam das lareiras que iluminam e aquecem. 
O silêncio que se espalha, o frio cá fora e o calor lá dentro ... os pores de sol laranja, sobre as planícies geladas, os abetos, ciprestes e pinheiros esfíngicos no recorte na alvura da paisagem, o chocolate quente tomado dentro das cabanas protegidas do frio com um fogaréu permanentemente aceso no interior ... ou o negrume do céu onde as estrelas brilham mais e com sorte as auroras boreais nos visitam ... são uma espécie de sonho que vivo com os olhos bem abertos.
Conheço alguns países nórdicos, Noruega, Finlândia, Islândia, bem juntinhos do círculo polar ártico ou mesmo atravessados por ele, e invejo a paz, pelo menos a paz, a simplicidade e o silêncio que tanto me apetecia vivenciar, justo nesta fase da vida !

E mais um Natal já foi, um Natal urbano pautado pelo desvirtuamento do essencial e imbuído das "obrigações" que conseguem retirar-lhe a autenticidade e a verdade que o deveria emoldurar.  Um Natal muito vazio, muito "plástico", muito tecnológico, muito digital, muito não vivido e pouco sentido ...
Enfim ... mais um, do punhado mais ou menos generoso que ainda nos possa ser consentido pela vida ... com o tempo a escoar-se como ampulheta em contagem decrescente ou areia pelo meio dos dedos da mão !...

Fiquem bem!


                                

Anamar

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

" PERAMBULANDO NO PENSAR ... "



Limpei hoje a jarra de flores com o ramo que os meus netos me ofereceram há praticamente um mês.
Mudara-lhe a água umas duas vezes, no sentido de manter a saúde daquele bouquet de margaridas amarelas e brancas, com vivaz a compor.
Adoro margaridas, pela singeleza e despretensão, mais ainda se forem amarelas e brancas.  Foi o caso.  Pretendiam festejar o meu aniversário, este ano particularmente referenciável, não só pelo número, mas pelo cúmulo de circunstâncias ocorridas na minha vida nos últimos tempos, que tornaram a data mais sensível e sentida.

Olhei para as flores, agora já meio murchas, olhei para o dia lá fora, ameaçador, climatericamente.  Nuvens encasteladas e bem escuras anunciavam o previsível ... mau tempo.
Lá estou eu a falar como sempre, no tempo que faz, na imagem que esta minha janela me dá, no espaço amplo, quase sem horizonte que o limite.  Ainda gostava de interpretar esta minha necessidade de parecer querer escudar-me no bom ou mau tempo, no sol ou na chuva, na intempérie ou tempo de feição, como se quisesse justificar o meu desalento ou a minha bonomia, com a natureza que me envolve, com as suas marés altas ou baixas...

Entretanto estou a ler um livro que me está a fascinar, coisa que há tempos não me acontecia, pelo menos na área da leitura.  "A breve vida das flores" de Valérie Perrin, é uma história muito bem urdida, uma narrativa originalmente fora do comum que me está a deixar agarrada a cada capítulo.
A história gira "grosso modo" em torno duma personagem invulgar, num ambiente também inédito, um cemitério e a guarda do mesmo, uma mulher com uma vida profundamente sofrida.
Violette, a protagonista que vive dentro de um espaço que poderíamos considerar mórbido, faz do mesmo um ambiente que cativa e prende quem lê a história, porque dada a sua dedicação e amor ao que faz, transforma um espaço de morte, num espaço de vida, com identidade própria, vivida e criada à custa das histórias dos "seus" mortos e do jardim em que o seu desvelo consegue tornar o que verdadeiramente seria uma ambiência lúgubre e doída. 
Desde as flores que alindam as campas, à pequena horta que ela criou e cuida, nas traseiras da sua casa, há toda uma ternura e uma afeição perscrutada e familiar.
Violette, relaciona-se melhor, atrever-me-ia a dizer, com o mundo dos que partiram do que com o mundo real em que vive ...

Talvez a finitude daquele bouquet de flores que tanto significado teve para mim, talvez a finitude particularmente rápida dos dias, sobretudo quando nos assomam escuros e tempestuosos, talvez afinal a finitude do ser humano, façam na minha mente um mix de mágoa cinzenta e informe que me contagia e  desmantela devagarzinho por dentro.  
Ultimamente sou muito, mas mesmo muito assaltada por um espírito insalubre de morte anunciada.  Parece que a sinto, parece que a adivinho, parece que ela me condiciona e me paralisa, e com isso desce em mim um imobilismo, um desinteresse e uma desaposta em quase tudo, como o que sentimos olhando o relógio e constatando que a programação que havíamos feito já não tem tempo útil, hoje, para se cumprir ...
Talvez amanhã, talvez um destes dias, quem sabe ...

Deve ser o isolamento !  Ou simplesmente talvez eu esteja realmente doente ... outra vez !

Anamar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

" OUTRA VEZ NATAL !... "

 

Dezembro é também aquele mês que se eu pudesse, saltava no calendário.
É de  novo mais um mês que forçosamente nos atira para balanços.  Balanços de tudo, do que se fez e não fez, das expectativas e das desilusões, das esperanças e dos fracassos inerentes, dos risos e das lágrimas, do ânimo que às vezes se levanta connosco e do desânimo que progressivamente toma conta de nós ao longo do dia ...
Balanços e mais balanços, e o peso de havermos carregado mais um ano que às vezes foi excessivo face à capacidade que as nossas costas anunciavam aguentar ...

2024 havia sido um ano muito difícil em muitos aspectos, mas 2025 não aliviou muito a carga dependurada do coração.
E depois há aqueles dias a atravessar... o Natal, que para mim se tem transformado numa travessia do deserto.  Cada vez são menos os que se sentarão àquela mesa.  Já só menos de meia mesa, terá  confraternizantes, e cada vez mais aquilo que cada um exibe, se transformará numa performance mal ensaiada, menos credível, mais esvaziada de reais sentimentos.
Prevejo que seremos quatro à mesa, com a alegria que conseguirmos coleccionar, com a boa disposição afivelada nos rostos, até porque está uma criança e ela não tem idade p'ra perceber, sequer suspeitar qual a cor do coração que cada um de nós tem guardado no peito.

Ao longo da minha vida, os meus Natais poderiam ocupar prateleiras bem diversificadas umas das outras.  Parece que eles se caracterizam e definem muito bem, e cada um deles pertence claramente a um dossier que poderia facilmente ser catalogado.

Os primeiros Natais que recordo, os mais gratificantes e doces, foram, como já contei em posts lá para trás, os Natais da minha meninice, os Natais de família à séria, os Natais alentejanos, os Natais inevitavelmente inesquecíveis.
Eram os tempos de acreditar no Menino Jesus, sim porque era Ele que se aprontava a marcar presença, nas gélidas noites de Missa do Galo na Igreja da Saúde na terra que era muito mais minha que aquela onde na realidade nasci.  Noite quase sempre escura e estrelada, noite de avó a caminho da igreja, no seu xaile quentinho e lenço na cabeça, de uma igreja que nunca mais me saíu da mente, clara e iluminada, com a talha dourada ainda mais refulgente, os círios acesos e o cheiro das velas ardidas, e a fila que aguardava p'ra beijar o pezinho ao Menino no fim da cerimónia, que o padre pegava e limpava com uma toalha de linho após cada osculação ...
Em casa, enquanto os homens se aqueciam no madeiro imenso, a arder na lareira de parede a parede daquela cozinha velha, as mulheres, tias, primas, mais novas ou mais velhas, preparavam a consoada com as iguarias de sempre.  Haveríamos de as degustar para aquecermos o espírito, à chegada do frio da noite ...
É um lugar comum, creio, para a maioria de nós guardarmos carinhosamente, e por todas as razões, os nossos Natais de infância ... os mais doces deles todos !

Depois vieram os Natais da Beira.  Outra realidade, outras pessoas ... contudo sempre família.
Esses, foram os Natais da infância das minhas filhas.
Outra casa, outros amigos, outros cheiros e sabores, mas contudo ainda éramos alguns, os dedos das duas mãos chegariam para os contar, mas havia vida a pulsar também, nos adultos e na criançada.
Havia a árvore e o presépio, tudo colhido nas matas, havia risos e gargalhadas, o bacalhau e a "roupa velha" no dia seguinte ...
Depois ... bom, depois foram indo ... Uns para a terra de ninguém ( esses só nos repousam nas memórias e nas imagens dos vídeos que ainda hoje nos fazem sorrir ), outros apenas tomaram novos rumos, novos trilhos ... outros destinos !
Gostava de poder espreitar aquela mesa, na noite da consoada, e espicaçar o lume, como o fazia, para minorar o frio que sempre tenho ... Gostava, mas não posso ... a vida é assim !

Hoje, bem, hoje por enquanto talvez sejamos três, à mesa.  E de todos os Natais, estes que tenho vivido nos últimos tempos, são os mais incaracterísticos, aqueles de que menos memórias guardarei, aqueles em que os lugares vazios estão mais vazios do que nunca, aqueles em que a solidão e um silêncio interior ( que talvez só eu pressinta ), mais se fazem sentir.
É um misto confuso de sentimentos, é um ruído e uma turbulência tonitruante, é uma ausência e uma escuridão absoluta, numa sala ainda assim iluminada, numa mesa onde ainda assim haverá conversas, onde vamos todos fazer de conta que por ali passa uma qualquer felicidade e alegria que afinal não se deixam mascarar, e que lá bem no fundo, não enganam ninguém ...

Feliz Natal !...



Anamar

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

" NEM SEMPRE O AMOR CURA "

 


Vivo há mais de cinquenta anos nesta casa, neste andar desta praceta, num nascente poente que me inunda de sol de manhã à noite.

Para aqui vim em início de vida, tinha vinte e três anos de idade, ainda só uma filha, vida profissional a iniciar-se, quilos de sonhos a cumprir.  E por cá vivi, com os altos e baixos, provavelmente normais a todas as vidas.  Nasceu outra filha, escreveram-se páginas e páginas de histórias, realizações ou não, alegrias ou não, coisas boas a recordar e outras nem tanto.
Afinal as histórias do ser humano serão todas um pouco parecidas e infinitamente diferentes também !

Leccionei na escola aqui do burgo, e por mim passaram gerações e gerações cada uma com as suas idiossincrasias, das quais guardo até hoje, rostos, nomes, guardo memórias quase sempre felizes.
E constato que a reciprocidade dos afectos perdurou pelos tempos ... apesar de hoje já sermos outros !
Afinal, uma das características da memória é ir colher lá atrás, com grande grau de precisão, exactamente essas lembranças que ainda hoje aquecem o coração !

A minha casa é pertinho do céu e sobranceira a um casario descaracterizado, desordenado... eu diria, caótico.
Resta-me o céu azul ou carregado de nuvens ameaçadoras, se o tempo não está de feição, resta-me a lembrança da Pena lá longe, na linha do horizonte antes de terem construído um intrometido edifício de seis ou sete pisos que a cobriu do meu ângulo de visão, restam-me os pombos que decoram qualquer ambiente urbano neste momento, os periquitos de colar que atravessam aqui por cima, quase sempre apressados e que se anunciam pelo seu piado  característico e finalmente as gaivotas, em bandos desordenados ou espanejadas na aragem que passa, como se encetassem apenas um bailado e não tivessem rumo ou norte. 
E finalmente restam-me os pôres de sol inigualáveis e por isso mesmo, inesquecíveis, que me são presenteados a partir desta minha janela privilegiada, fechando os dias, virada que está a poente, com Sintra lá ao fundo, bem longe e bem saudosa ...

E pronto, a minha casa, que tem de tudo um pouco, já com uma vetusta idade, encerra o espólio da minha existência.
Cada peça que a compõe, é um tesouro para mim.  Cada uma tem um valor que não é material, mas incondicionalmente afectivo. Se tivesse que as escolher em função da dedicação que lhes tenho, seria uma tarefa hercúlea.
A minha vida gira dentro desta casa, como ninho de protecção e conforto.  Por maneira de ser nunca fui dada a muitos e variados convívios.  Sou uma pessoa de fácil relacionamento mas preferencialmente escolho o isolamento no meu "buraco"... Não é por mal, talvez seja assim por ter um carácter reservado, que foi sendo lapidado ao longo do meu percurso de vida, mercê do "figurino" desenhado desde a infância, numa vida vivida praticamente a sós com a minha mãe.  Mas, sendo curto o meu núcleo de relações, sinto que sou estimada pelas pessoas ... acho que posso dizer isso.
O facto de há já mais de vinte anos viver só, porque me divorciei, a Covid que também condicionou o convívio entre as pessoas e em última mas não despicienda razão do avanço da idade, vivo cada vez mais confinada a este reduto só meu.
Meu e dos meus gatos, um casal que divide as vidas dia e noite, com a minha ...

"Os anos tudo trazem e tudo levam" ... era uma velha máxima que a minha mãe usava e abusava, coisa que me irritava profundamente, quando parecia que eu afinal tinha a vida toda para viver... o mundo todo para conquistar ...
Hoje, ver a vida do patamar onde já me encontro, permite-me perceber quão verdadeira e adequada aquela era...
Hoje, a minha filha mais nova, que cuidou da avó até ela nos deixar, antecipa novamente o cenário que me espera ... 
A minha filha é doente oncológica de há um ano a esta parte. Eu digo "é", porque quem tem a desdita de contrair esta doença, por mais benigna que esta o seja, o que parece ter sido o quadro para ela diagnosticado dentro da panóplia de hipóteses com que poderia ter sido "sorteada", é-o para toda o sempre.  É um quadro clínico que não tem certezas, é traiçoeiro e surpreende.  Demasiadas vezes surpreende!
Acresce, que ela é sozinha e tem quase inteiramente a seu cargo uma criança de apenas oito anos.
Vive na margem sul, é enfermeira também num dos hospitais dessa localização, e tem toda a logística de vida dela e da filha, instalada naquelas bandas.
Como se imagina, o meu equilíbrio emocional virou da noite para o dia, complicando ainda mais o mundo caótico que sempre é o meu espírito.  
Assim, fui confrontada com talvez a necessidade ( vou chamar-lhe assim ), de nos aproximarmos em termos habitacionais, que é como quem diz, eu ir viver para mais perto delas as duas. 
Eu avanço na idade, logo nas exigências inerentes a essa situação, o futuro dela em termos sanitários sobretudo, é imprevisível, bem como o são, as capacidades que venha a ter futuramente e a impossibilidade dos nossos poderes adivinhatórios vislumbrarem o futuro que nos espera.
Sem dúvida o tempo urge e a partilha entre nós, é escassa.

E vou ter que resolver.
Nunca sequer imaginei vir a ter que passar por uma situação destas, porque vender a minha casa está longe de ser uma mera transação financeira; envolve um lado emocional profundo e uma sensação de despedida.
Fechar esta porta é um virar de página, é um encerrar de um enorme capítulo da minha vida, num período desta em que a resistência emocional e afectiva é mais vulnerável do que nunca.  É um desafio à minha capacidade de superação de sentimentos intensos de nostalgia, de apego e de incertezas.
É um desafio à capacidade de que consiga dispor, de pragmatismo, frieza, objectividade, pressão emocional ...
Ainda não parti e já tenho saudades, ainda não parti e já lido com sentimentos contraditórios do que classifico de egoísmo, desumanidade, falta de amor ... se optar por ficar ...
A minha filha pensa nela, mas também pensa em mim se quando eu precisar dela me não puder ajudar como fez com a avó...
Sem dúvida é uma duplicidade de sentimentos que me atormentam, é uma mescla de amor e de dor, como se no coração me estivessem a roubar as memórias, as histórias, a vida !...

E em contínuo, pelas madrugadas de insónias, vejo e revejo o filme dos cinquenta anos em que, bem ou mal, a rir ou a chorar por aqui estive ...

Lá fora, hoje, as gaivotas dançam na aragem fria do vento que corre, enquanto que um laranja doce escurece aos poucos na linha do horizonte, lá para os lados de Sintra ... anunciando que mais um dia chegou ao fim !

Anamar 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

" CANSAÇO "

 


Júlio Machado Vaz no seu último livro Outonecer que entre muitos outros aspectos incide na temática do envelhecimento ( referindo o "peso" psicológico que nos toma exactamente com a entrada no Outono da vida ), descreve que como nenhuma outra idade, os três quartos de século completados no ano passado, o mexeram por dentro. 
Até então, as décadas anteriores foram vivenciadas com um olhar de normalidade, de aceitação, de pouca ou nenhuma perturbação emocional.
Mas completando setenta e cinco, percebeu objectivamente aquilo a que verdadeiramente chamamos de "o peso dos anos".
Li o seu livro há pouco tempo e é verdade que JMV me mostrou nesse seu livro uma faceta de melancolia e até talvez de um entristecimento que nunca lhe havia sentido até então, como se de repente ele se tivesse voltado mais para o seu eu interior, e desligasse do mundo fora desse casulo ...

Eu sou absolutamente contemporânea do professor.  Eu também completei ontem três quartos de século de vida.  Não três quartos da jornada que me coube ou caberá. Afinal, o caminho percorrido encurta cada vez mais o que está por percorrer ... 
Contudo, também, tal como ao professor, este outonecer, ou até mais ... este invernar da vida, me magoou, feriu, atingiu, como se tivesse sido surpreendida à má fila, pelo transcurso do tempo.  
É como se não me tivessem avisado... é como se me tivessem apanhado distraída ... sem que ninguém acendesse para mim, pelo menos, o semáforo amarelo !!!

Sou muito introspectiva.  Muito negativa, muito derrotista, pouco esperançosa ... sempre com o copo meio vazio na mão.  É característica personalística, infelizmente.  E por mais que psicologicamente eu "trabalhe" em mim esta forma errónea de encarar a vida, não consigo alterar, com argumentos nenhuns, esta malvada forma de a enfrentar e de sentir ...
Muita coisa aconteceu e acontece na minha vida, nos últimos tempos ... e não forçosamente coisas felizes.  Experimento ou uma sensação de desistência com a praia à vista, ou sinto um abandono que me faz encarar os dias como em fim de caminho.
É uma sensação de não valer a pena isto ou aquilo, não valer a pena pôr a mesa da vida, porque já não ocorrerá nenhum banquete mais, não valer a pena desarrumar nada porque seria uma perfeita inutilidade fazê-lo, parece estar tudo em fase de acabar e não de recomeçar ...
Não tenho um foco, um objectivo, uma meta, algo por que me esforçar, algo que justifique continuar a esbracejar no meio da tempestade, algo que me faça sonhar, algo que afaste de mim este mofar que parece circundar-me e apodrecer-me aos poucos ...
Detesto-me, estou exausta, sinto-me um peso morto, algo de fétido ... uma merda !
Não me reconheço ! Perdi-me totalmente nas encruzilhadas da vida ... esqueci o caminho e o nevoeiro adensa-se ao meu redor.  Pouco já se divisa, pouco se enxerga, um negrume está a descer mais e mais ...
Veremos até onde e quando suportarei a tempestade ...
Veremos até onde terei olhos para a sempre beleza do crepúsculo ...

Anamar

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

" E O INFERNO ALI TÃO PERTO ... "



"Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita e na Terra iluminada, quantos anjos há no céu, protejam as nossas almas"... ou " Santa Bárbara afastai a trovoada para onde não haja eira nem beira, nem raminho de oliveira, nem fiapinho de lã, nem alminha cristã " ... ou ainda " abrem montes, se abrirão ... oh Virgem Pura amparai-nos, salvai-nos Senhor São Manuel, salvai-nos Senhor, salvai-nos !"...
Sendo que este Sr. São Manuel, não sei bem porque é para aqui chamado, já que pesquisei o mais que pude mas não me elucidei sobre os seus poderes divinos.

O que garanto é que quando "a coisa estava preta", ou seja, quando o céu se encrespava com uma negritude assustadora, as nuvens tormentosas e carregadas já vinham em nossa direção, tudo se irava lá por cima e os primeiros trovões ainda distantes já ribombavam no firmamento, a minha mãe começava com estas ladainhas, paralisava de medo e as orações eram a salvação que se lhe afigurava no momento em apreço.

E porque fui eu buscar a Sta. Bárbara e restantes ajudantes, neste momento ?

Pois bem, nunca vi a minha mãe fugir de casa de avental, ou como  estivesse, me agarrasse pela mão, nos meus sete ou oito anos, e debandasse avenida acima, em busca do arrego de companhia para atravessar o pavor que sentia.  Era Junho, S. João em Évora, época de feira da cidade, a canícula que se sentia, impiedosa e as benditas trovoadas, "secas" como se dizia, isto é, sem alívio de um pingo de chuva que aligeirasse a ameaça, sempre carregavam na cidade.
E lá fomos... ela tartamudeando as ladainhas de Sta.Bárbara.
Lembro como se fosse hoje, estou-me a "ver", estou a "ver-nos",  a caminho da casa da Sra. D.Maria Capucho, a vizinha salvadora naquele aperto !

São tão engraçados estes mecanismos mentais do ser humano !...

Quase todas as noites sonho com a minha mãe.  Quase todos os dias a refiro, a propósito disto ou daquilo ...
Esta noite ela andou mesmo por aqui, invocando a Sta. Bárbara a pedido meu, que não sou católica nem nada.
Estivemos, estamos e vamos continuar a estar, meteorologicamente vítimas de um evento atmosférico assustador.  Chuva forte, ventos igualmente de consequências imprevisíveis e trovoadas, haviam sido o aviso do IPMA a partir da noite de ontem.
Eu vivo num sétimo andar, meio desacompanhado de outros prédios, a marquise do meu vizinho paredes meias, já voou totalmente, neste ano que passou, e eu vivo uma penitência quando as intempéries complicam.  Sinto-me apavorada, coloco o olho clínico para antever de que lado sopra a borrasca, vou à frente, venho atrás, desço praticamente duma forma integral, as persianas, mas não sossego.
As alterações climáticas cada vez mais imprevisíveis acentuam-se de ano para ano ( a tudo isso assistimos por imagens televisivas devastadoras, noutros países ), e eu, não tenho mais paz no coração !

Ontem, até à hora de desligar a luz e me desligar a mim e aos gatos para dormir, tudo parecia calmíssimo, apesar do céu algo carregado. Mas pensei ... "uma vez mais aqueles tipos meteram água ! Na ! ... A superfície frontal buscou um novo rumo !"
E fui dormir.
Eram exatamente 3,33 h da madrugada ( acho sempre piada à tendência que tenho para olhar para o relógio luminoso da cabeceira da cama, e demasiadas vezes encontrar coincidências sequenciais dos mesmos algarismos - ainda hei-de decifrar este inexplicável acontecimento ... ), levantei-me, resolvi o que tinha a resolver e remeti-me de novo ao édredon, onde o Jonas que não se mexera, continuava a dormir.
Convém explicar que faço tudo isto às escuras ... O caminho é meu muito conhecido  !
No quarto, a janela que é muito grande, divide-se em duas, digamos.  Numa delas eu, diariamente, desço totalmente a persiana. Na outra, exatamente a que está em frente a este lugar onde estou a escrever, fica diariamente um bom pedaço  com a persiana subida, pois gosto de aqui estar e ter paisagem diante de mim, sendo que não estou para ter o trabalho diário do sobe e desce da mesma.

Daí a pouco, apesar de ter os olhos fechados e não estando ainda de novo nos braços de Morfeu, comecei a sentir uns fogachos de luz que piscavam ininterruptamente, e me acendiam e apagavam o quarto.  Sabem aquela sensação que se consegue detectar apesar dos olhos não estarem abertos ?  Pois é ... era como se as luzes de uma árvore de Natal acendessem e apagassem sem parar.
"Que raio ?! O que é que deixei ligado ?!"- pensei.
No quarto há sempre luzinhas de presença que conheço bem, afinal o quarto é meio sala e escritório, além de dormitório. São luzes do computador, da aparelhagem musical, do modem, da televisão, enfim ... todas minhas habituais conhecidas !
Agora aquelas que me invadiam e iluminavam desbragadamente todo o espaço, é que não !

Comecei então, quase de imediato a ouvir a batida da chuva fortíssima, do vento ameaçador e o ribombar dos trovões.
Saltei da cama e vim à cozinha cujos vidros não têm protecção contra a luz exterior, e o que vi, deixou-me alucinada !
Todo o céu era uma massa espessa, carregada, como uma abóboda uniforme, faíscando, iluminando-se  ininterruptamente, de todos os lados. Eu nunca havia visto nada assim. Normalmente os raios desenham fantasmagoricamente o céu, percorrem-no quase sempre em direção à Terra, ao que se segue o estrépito mais ou menos demorado do trovão. Pois nada disto era o espetáculo assustador que eu tinha perante os meus olhos.  As frentes donde dimanavam os relâmpagos eram várias, em torno do meu horizonte visual, um "fogo de artifício" infernal ... era um céu a explodir de todos os lados, numa visão apocalíptica indescritível !

Foi então que a ladaínha da minha mãe me assaltou o espírito ... "Sta.Bárbara bendita ... Sr. S.Manuel,  ( seja lá quem tenha sido ), salvai-nos Senhor, salvai-nos !" ... 
Eu, que até sou agnóstica ... 😞😞





Anamar 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

" INEVITÁVEIS REFLEXÕES "

        


A vida é realmente muito complicada ! O ser humano é um emaranhado de vectores endógenos e exógenos, numa construção labiríntica quase sempre duma complexidade inalcançável, ininteligível e dificilmente reescrita ou corrigível.

Quando se forma uma família, cria-se, ao longo dos tempos, uma célula particular com regras próprias, definidoras daquilo que entendemos como o mais adequado, perfeito, equilibrado, que tomamos como o mais correcto e sensato.
Fazemo-lo no pressuposto de que estamos a percorrer o melhor caminho, o melhor que conseguimos e que tomamos como o certo e menos penalizante possível, de acordo com as ferramentas de que dispomos, dentro do contexto em que nos inserimos.
Cada família tem uma realidade própria e joga com muitas pedras no mesmo tabuleiro de xadrês.
À partida, os construtores da mesma, agirão com valores, princípios, convicções, por forma a que se forme algo harmonioso de que sempre nos possamos orgulhar e que valha a pena passar adiante, perpetuar no tempo.
Embora diferentes uns dos outros, embora com as suas idiossincrasias próprias, ninguém quererá intencionalmente prejudicar ninguém, denegrir ninguém, lesar ninguém, menos ainda ferir quem tenha sensibilidades diferentes, porque o respeito e a tolerância são vectores intocáveis.  
Nas famílias há disparidades normais e saudáveis, há diferenças óbvias, formas de estar e pensar diversas, mas quando há que "reunir as tropas" em prole de um qualquer elemento dessa família, a mesma funciona como um bloco que se auto-protege, se estima e valoriza, e seguramente  a inveja, o ciúme  e menos  ainda o ódio, lá  encontrarão  terreno p'ra grassar ...
Porque o bem de um, sê-lo-ia de todos e o sofrimento de um também pesará em todos os corações !

De acordo com a terminologia actual, essa será seguramente uma família "funcional", porque depois, nos tempos actuais não será seguramente esse, o padrão que ganha em maioria ..
Bem ao contrário parece haver sim uma sanha destruidora daquele equilíbrio, e estatisticamente quase me atrevo a dizer que são as famílias "disfuncionais" as que predominam numa sociedade doente, louca  e ferida de morte.
São irmãos que se hostilizam, detestam e quase odeiam, são filhos que questionam a educação e formação que receberam dos pais e as questionam em permanência, chegando ao ponto de além de extinguirem o diálogo entre si, cortarem mesmo a relação entre as pessoas... são casais desavindos com crianças no meio da linha de fogo, há ódios viscerais de estimação que parecem ter o requinte de se aprimorarem exponencialmente, cavando fossos que se tornam intransponíveis por mais que se tente chamar as pessoas à razão e ao diálogo ...

E no meio desta realidade faz-se o quê ?  É a sociedade que está podre? É o comodismo e o desinvestimento dos que deveriam ser os interessados que não abre portas, caminhos, luzes ?...

E a vida tão curta !!! E os momentos a fazerem-se e a desperdiçarem-se !!! 
E a impotência, a raiva, a mágoa e a dor, neste diálogo de surdos a baixar, a destruir e a corroer-nos por dentro ... até quando ??? Com a morte ali tão perto, a espreitar-nos no dobrar desta esquina ...

Restará alguma coisa ?? 
Conclusões que só se tirarão depois ... quando já não vale a pena, quando hipotecámos os sentimentos, corremos o ferrolho do coração e amordaçámos na garganta o que nunca fomos capazes de dizer ...
... e afinal, chegámos sem nada, digladiámo-nos para termos tudo ... e vamos embora de novo sem nada !!!...

Anamar 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

" OUTRA VEZ OUTUBRO ... "



O dia amanheceu cinzento, chuvoso, bem outonal, como aliás vinha sendo previsto pela meteorologia.
Está um dia de semblante aconchegante, sobretudo pra quem não precisa ir para a rua, que é o meu caso.
Já Pessoa dizia que "um dia de chuva é tão belo quanto um dia de sol. Ambos existem; cada um como é "
E concordo totalmente porque embora eu seja uma incondicional "prisioneira" emocional do sol, o intimismo que hoje se sente lá fora, cria aqui dentro uma sensação inegável de ninho, o que nos ampara e embala a alma.

Porque raio tendo eu a começar tudo o que escrevo, a situacionar o meu discurso, nas condições atmosférica que me cercam ?!... Isso deve significar que elas são determinantes ao meu eu interior ... e porque o serão?? Talvez um bom psicólogo o soubesse explicar.
As minhas filhas riem e dizem : "Lá estás tu... se chove, se faz sol, se se aproxima uma tempestade ... se vai estar um mar de rosas ... nunca vi ninguém assim !"
Vou até confidenciar um pormenor que não lembraria ao diabo mais velho ... algo verdadeiramente caricatural ... mas real... o que posso fazer ?! 
Tenho viajado ao longo dos tempos quando, e se posso.  Sinto-me sempre uma itinerante que leva a vida a desenhar roteiros, lugares, terras, gentes, costumes, inacabáveis... visando sempre uma próxima viagem. E claro, achando que vou morrer tendo-me sobrado o mundo inteiro por conhecer ... E como o lamento !!! 
Pois bem... a propósito do sol, que quase sempre persigo,  como referi, cheguei a marcar muitas viagens de avião, pensando nos parâmetros de geolocalização da rota, e a marcar o lugar ( que é sempre junto à janela ), por forma a sentar-me do lado em que o sol me inunde, quer na ida, quer na vinda, se o percurso for obviamente diurno ... Ah, ah, ah ... já é coisa de doidos !!! 😕😏

Bom, mas já estou a afastar-me daquilo que efectivamente era o tema deste meu escrito .

Faz amanhã exactamente um ano, que a minha vida tomou um rumo inesperado, terrível, para o qual eu não estava nem de longe nem de perto, preparada.  Um soco no estômago, um gelo que me desceu às entranhas, um terror profundo que me tolheu, no teor do telefonema que recebi pelas dez da manhã.
Do outro lado, a minha filha mais nova, com quarenta e seis anos à altura, chorava e dizia-me entrecortadamente : "Mãe, tenho um nódulo na mama e há fortes suspeitas que possa vir a ser grave"

Exames de rotina, que no caso dela haviam sido feitos há pouco mais de um ano, cuidadosa que é, até porque profissionalmente está na área da saúde, apanharam, assim, do nada, na maior imprevisibilidade possível, uma situação que paralisa, desde logo momentâneamente, a vida de qualquer um.
Eu acho que numa fracção de segundos desfilam à nossa frente, hipóteses, medos assombrosos, dúvidas, mas também sonhos que parecem desfazer-se, esperança e talvez, imagino eu, aquela pergunta que revolta, mas que inevitavelmente nos cai frente aos olhos :"Porquê eu, se nem sequer existe um historial familiar que pudesse indiciar, um dia, quem sabe, a prevalência da possibilidade do surgimento deste fantasma ?"
Parece, mais que uma partida do destino, uma facada à má fila, feita cobardemente pelas costas, silenciosa e sádica ...

O dia 22 de Outubro de 2024, num Outubro Rosa, inesquecível para mim, mudou-me definitivamente por dentro. A minha vida nunca mais foi ou poderá ser a mesma. 
"Quem é doente oncológico, sê-lo-á enquanto viver ", afirmam os especialistas, os cientistas, todos os que dedicam à exaustão, as suas vidas a tentar uma escapatória, uma saída, uma cura ...
Abordo o menos insistentemente que consigo, com a minha filha, informações, esclarecimentos, dum tema que pra mim se tornou quase tabu, pelo medo com que me assola.
Vivo pendurada de datas de exames, que peço ela me informe e bem assim os respectivos resultados, vivo de "lupa" na mão sobre qualquer sintoma que, claro, logo tomo como suspeito disto e daquilo.
"Estás cansada ? Estás demasiado magra !  Dói-te alguma coisa em especial ?"

Sei que no interior dela também existe um looping de inquietações, de medos, de ansiedades e inquietudes.  Sei que existem, mas ambas somos parcimoniosas com o tema.
Por cima da minha cabeça, existe, em equilíbrio precário, uma espada ... e que cada dia, ou cada resultado tranquilizante, é uma vitória, é uma esperança que se volta a abrir, é o ar que consigo inspirar em maior profundidade ... 
Penso que ambas sentimos uma urgência maior em valorizar os períodos de acalmia, ambas parecemos, sobretudo ela, sorver cada momento, usufruir cada situação, cada experiência, cada dia de vida, com pressa, como se fossem precários e como se de um momento para o outro, esse período de abençoada paz possa terminar ... 

Adormeço por cada dia com tudo isto ... amanheço por cada dia com tudo isto !
A angústia e a insegurança vivem comigo, habitam em mim !...

Não sou nem mais nem menos do que milhões de outras pessoas, que talvez apenas não exteriorizem aquilo que sinto.
Resolvi hoje falar disto, convosco, partilhar talvez com outros, sentires iguais ao meu ... Talvez alivie um pouco !

Que Outubro, tantas e tantas vezes tão negro, possa tornar-se na vida de cada mulher num auspicioso e verdadeiro Outubro Rosa ... Esse, é o meu mais íntimo desejo para o resto dos meus dias por aqui !...

Anamar

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

" SINAL DOS TEMPOS ... "

 


Não sei muito bem por onde pegue neste amontoado de ideias, sensações, convicções ... e dúvidas, quilos de dúvidas que me assaltam o espírito.
Prevejo portanto que este meu post venha a ser um molho de brócolos, ao sabor do caos que me atormenta.

Hoje em dia a Psicologia, a Psicanálise, as linhas de ajuda, os livros que mexem e remexem nos nossos interiores, encabeçam a turbulência que nos arrasta num vórtice louco que chega a deixar-nos tontos.
A sociedade em que vivemos está doente, lembra-me aliás um mar tormentoso onde esbracejamos em desespero de encontrar fios condutores, uma bóia, uma âncora, um norte, uma bússola ... um farol !
As gerações sucedem-se, mas entre a minha e a imediatamente a seguir ( não preciso sequer de cavar nenhum fosso temporal mais extenso ), tudo mudou.  Os valores já não são os mesmos, sequer a validação de muitos deles já tem justificação, a correria é insana e o tempo para "viver", viver mesmo, com leveza, qualidade e sem fantasmas, parece inexistente.
Grande número de famílias é totalmente disfuncional, as pessoas ligaram-se vá-se lá saber porquê, no meio há crianças quase em roda livre, em esquemas parentais perfeitamente alucinantes.
Há patologias objectivamente instaladas, mercê das angústias, das preocupações, das dificuldades que se vivem diariamente, há medos objectivamente experienciados face à insegurança do dia a dia de cada um, mas depois há também, ( convicçção minha ) toda uma profusão exacerbada de sintomatologias que parecem criadas para "vender".

Poderei estar a proferir uma enormidade.  Seguramente estarei. Mas sou absolutamente céptica a uma demonização criada em torno de situações que ao longo de toda a minha vida foram aceites como naturais, e que hoje são tomadas como indiciadoras de comportamentos preocupantemente desviantes.
Explico melhor :  na minha infância sempre houve crianças mais mexidas, mais endiabradas, mais inquietas.  Questões personalísticas, formas de ser, às vezes linhas genéticas a manifestarem-se.
Até aqui, nada de novo, sempre as houve, azar dos pais que tinham que aguentar aqueles diabretezinhos!
O tempo resolveria ... e resolvia, quase sempre.
Hoje em dia, essa desconcentração, esse reboliço, esse quadro de "bichos carpinteiros " à solta, já é sintomatologia de uma patologia desviante a nível de desenvolvimento mental e cognitivo que eventualmente poderia ter sido diagnosticada já quando a criança tivesse 2 ou 3 anos ... já é hiperactividade e défice de atenção, uma patologia associada a um neurodesenvolvimento de avaliação subestimada.
E aí temos nós, pais angustiados, pais que voam de imediato para psicólogos, porque estão perdidos na orientação a tomar ...

De igual forma, as diferentes fases que as crianças atravessam, a teimosia, a negação e outras, são encaradas pelos progenitores carregando sobre si uma culpabilização sem precedentes .  
Não agiram bem, gritaram com os "anjinhos" quando ao fim de um dia esgotante de trabalho, não se policiaram devidamente nas atitudes a tomar, disseram o que não deveriam ter dito, agiram como é errado agir naquelas circunstâncias, discutiram entre si na presença dos filhos, devendo mesmo vir a pedir-lhes desculpas por o terem feito, traumatizaram para todo o sempre aqueles a quem têm que "bombeirar" vinte e quatro sobre vinte e quatro horas por dia ... etc, etc.
Se não, ter-se-á que recorrer ao psicólogo pra definir orientações, perdidos que estão os progenitores ...

Tenho pena das actuais gerações.  Acho que lhes estão a pedir uma prestação de "deuses" e não de pais !
Trabalham de manhã à noite para garantir muitas vezes a subsistência, levam e trazem os filhos para as escolas e posteriormente para as actividades extra-curriculares ( porque são absolutamente "imprescindíveis" ), fazem compras, programam as vidas, monitorizam os trabalhos a serem feitos em casa, têm e devem estar absolutamente "bem", em qualquer situação ... 
Terão tempo para respirar ... pergunto???

Considero que as consequências e a disrupção que estes distúrbios podem causar diariamente na vida das pessoas, deverão ser relativizadas para que sejam evitados sobre-diagnósticos e uma medicalização excessiva para questões que de patológico nada têm ...

Anamar 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

" E A VIDA SEGUE ... "


E depois Outubro vem assim na beiradinha de Novembro que é um mês que, pelas mais variadas e insuspeitas razões, eu detesto ...
Desde logo é o mês em que nasci, em que vou contando anos de vida ... ou descontando anos de vida, conforme a análise da questão.

Não tenho contudo muito de que me queixar.  A vida, com os seus trancos e barrancos, com os seus altos e baixos, com os seus caminhos atrofiados alternando com estradas largas e luminosas, no "lavar dos cestos" como soi dizer-se, ainda que abusando da minha mente e do meu coração, tem-me aligeirado, apesar de tudo, os sustos e os percalços que me coloca à frente .
O meu céu ora escurece de borrasca eminente, ora desanuvia e vai deixando o sol espreitar por detrás das nuvens ameaçadoras ... ano após ano.

Viver é um risco, ouve-se dizer com demasiada frequência.  Nada nos permite esquecer que vamos andando por aqui, passando pelos intervalos da chuva;  nada nos faz acreditar em futuros seguros, em dias de amanhã promissores, porque a incertitude de cada momento nos mostra em permanência que a imutabilidade não existe, e se hoje amanheceu uma linda manhã de Primavera, nada garante que o dia não fechará em forte tempestade ...

Mas nada disto seguramente diferenciará a minha vida da dos restantes mortais, a não serem características personalísticas com que não fui fadada.
Há pessoas que sempre olham o copo meio cheio, enquanto que o meu, miseravelmente, sempre me parece meio vazio ...
Advindo talvez seguramente da educação que tive, a minha paleta de cores, sempre é mais para os tons escurecidos.  Já sofro de véspera, sempre navego em águas de um cepticismo reconheço que exacerbado, espero sempre o pior, doentiamente, e quase sempre me maravilho face a desfechos diferentes dos antecipados !...
"Vês desgraças em todo o lado" ou ... "tudo é pesado, carregado, na tua vida" ... dizem-me com frequência, os próximos, sem sequer sonharem quanto sofro com isso ...

Tento domesticar este meu lado negativo.  Trabalho o meu eu interior no sentido de me chamar à razão, mas ... na realidade, caio, levanto-me ... mas sempre esfolo os joelhos !

Desde miúda que a vida me foi apresentada como ameaçadora, como tendo muito maior probabilidade de dar errado, do que certo.
Um peso e uma responsabilidade talvez excessivamente grandes, sempre me foram colocados sobre os ombros e reconheço, tiraram cor, alegria e leveza aos meus dias.  
Era o meu pai que quando eu nasci já tinha quarenta e oito anos e seguramente não viveria para "me criar", com o drama da minha mãe não usufruir proventos com que solucionar essa questão, era a aluna que deveria ser exemplar, sem contemporizações para pequenos desvios e insucessos, era a jovem desenhada e talhada para um casamento formal, enquadrado nos parâmetros da época, acontecesse o que acontecesse, a mãe que deveria abdicar de si própria em prole duma educação e encaminhamento criterioso dos filhos ... doesse a quem doesse ... em detrimento dos conceitos de felicidade, realização pessoal, perseguição dos sonhos ( talvez não muito sonhados ... ) ... e por aí fora !

Em suma, uma existência objectiva e realmente outonal, pesada, escurecida que me guiou e conduziu, deixando marcas, cicatrizes, desilusões, descrédito na vida e nas pessoas com quem fui coabitando cá por este mundo !

Hoje é o último dia de mais um Setembro, a três meses do Natal, em mais um ocaso do tempo...
Lá fora, a noite já se anuncia, os pássaros já recolheram, a aragem já esfria e sobrou o laranja na linha do horizonte ...
É quando o silêncio e a solidão pesam mais aqui, neste lugar de sempre, neste varandim sobranceiro a um espaço que nada me diz e onde as luzes da noite na cidade, que se vão acendendo aqui e ali, apressam as donas de casa de volta aos jantares das famílias.
Mais um dia chegou ao fim !...
Eu e os meus gatos continuamos por aqui, ao som deste tema doce, aconchegante e embalador ...

Anamar

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

" PEDAÇOS ... "


Os dias amarelaram. No céu, de um azul pouco convincente, fraquinho, fraquinho, nuvens esparsas vão seguindo viagem. Um vento desabrido pavoneia-se por aqui e arrepia-nos o corpo.  O Outono assoma.  Hoje já cá está.
Num banco da praceta, alguém que tem como protecção apenas um cobertor, aninhou-se.  Visto cá de cima é uma espécie de embrulho que alguém ali tivesse deixado.  Talvez já se prepare para a noite que chega a passos largos apesar da temperatura o não aconselhar.

Esta época do ano, estes dias melancólicos e de silêncio que parecem esconder uma sonolência triste da natureza, não me fazem bem nenhum.  Parece que tudo deitou para dormir.  Parece que tudo fechou os estores para uma hibernação de desamparo.
Do Outono eu adoro as cores da natureza.  A "caça" aos laranjas, amarelos, castanhos e  avermelhados ou até mesmo o início da queda da folhagem das árvores e arbustos que já completaram o ciclo anual de vida, leva-me a procurar nos programas turísticos, lugares por esta Europa fora onde os encontrasse no intimismo de paisagens inesquecíveis. E sonhar ...
Recordo imagens gravadas na mente, há muitos anos, num Setembro norueguês, onde a simplicidade da vida em meio a uma natureza doce e aconchegante, chamava a passeios pelos campos em busca das flores silvestres sazonais e das bagas dos frutos vermelhos a oferecerem-se às compotas da época ...
E era muito bonito mesmo, a paz que se respirava, os cheiros que nos impregnavam a alma, aquela pacatez no meio da floresta ... os abetos e as coníferas duma forma geral, ainda verdes, erectos na espera das primeiras neves que não demora, os enfeitariam ...

Estou a atravessar uma fase da vida em que a saturação do dia a dia e a vida numa cidade horrível, totalmente descaracterizada, sem absolutamente nada de interessante e que nada tem de semelhante com tempos idos, me deprimem ainda mais.
Com uma frequência nas ruas pouco recomendável, sem um espaço verde de valer a pena, sem uma esplanada de um café para ameno cavaqueio ... nada, absolutamente nada ... cada vez mais e mais me isolo em casa, 
A solução seria sair, ir embora, procurar outros espaços, o que só por si já limita qualquer interesse ou entusiasmo de o fazer. Ter que pegar no carro, fazer-me ao trânsito, à confusão das gentes, retiram-me qualquer vontade que possa existir.
Neste momento anseio apenas por paz, silêncio, natureza ... Neste momento adoraria viver fora daqui.
Sinto-me a adoecer ... a sério, sinto-me a ficar com a saúde mental seriamente afectada.

Este post, como o nome indica, aborda apenas pedaços de mim, nada de relevante que acrescente ou retire nada a ninguém ...
Afinal não há muita escolha no registo emocional para as pessoas que, como eu,  estando já profissionalmente libertas, pertencendo a uma determinada faixa etária, e em que as opções lúdicas propostas são pouco ou nada aliciantes ... além de escrever banalidades ou registos vazios de vida, pouco ou nada interessantes !
Não sei ou me interessa tricotar, nem tenho prendas domésticas, fujo das imagens aterrorizantes das guerras que grassam e dizimam os povos, fujo das notícias catastróficas de desgraças naturais quase sempre despoletadas pelas alterações climáticas trazidas pela mão do Homem, odeio as guerras políticas que devastam os países, os continentes, a nossa sanidade mental ... vou lendo, pouco, pela dificuldade de concentração, descreio cada vez mais no ser humano e nas suas reais intenções ... sobra-me o quê?!

A mata ... o único lugar onde ainda há verde, pássaros que pipilam, gatos sem dono ou casa ... e já nem patos bravos nadam nos tanques ... porque novamente o Homem se encarregou de lhes envenenar as águas ... 😓😓

Anamar