terça-feira, 26 de maio de 2026

" DO QUE ME ATORMENTA ... "



A Rita chegou-me por acidente, já contei e não adianta repetir.
Era um gato de rua, dos esconsos da vida, dependente daqueles que quisessem tratá-la, aconchegá-la ... amá-la ...
Há gatos que se impõem, que parecem esfregar na cara dos humanos o seu direito à vida e no focinho dos outros gatos, em instituições ou em colónias, que também mandam de quando em vez, que têm direitos iguais, independentemente de serem menorzinhos, mais humildes ou silenciosos.
Há os que se sentem mais frágeis, fisicamente menos corpulentos, logo desfavorecidos, mais silenciosos, como se no mundo fossem apenas um complemento, sem lugar de direito em primeira ...
São aqueles que deixam primeiro comer os outros, são os que se aninham nos restos dos espacinhos e se aquecem, se sobrar cobertor ...

Conhecemo-los bem.  Afinal são parecidos a alguns seres humanos que não reivindicam... sempre viverão na submissão e no aceitamento .. nunca na exigência.

A Rita é uma gatinha dessas.  Um serzinho pequeno, que sempre parece em fuga ou desprotecção. Afinal a vida ensinou-lhe uma palavra a nunca esquecer : a guarda ou defesa.  Nunca a provocação ou o enfrentamento.
E assim foi crescendo, vivendo, mas nunca esquecendo o que a vida lhe foi ensinando.  E gratidão, também lhe ensinou essa palavra mágica ... a gratidão pelos que a mimam ou acarainham.
Com uma carinha abebezada, ainda desperta mais em nós, os que com ela convivem, uma maior necessidade de amor e proteccionismo.

Chega o tempo melhor, o sol faz-nos negaças  e o convite a uma que outra saída, impõe-se.  O tempo , sempre implacável avança, e lembra-nos que o canto do cisne é o último esgar de liberdade.
Tempos idos e já eu sentia formigueiro na sola dos pés pela ânsia das viagens que sonhava fazer, ainda não fizera e sabia-se lá se viria a fazer ...
Eu consultava meteorologias, eu listava o recheio da futura mala, eu elencava os sonhos que ainda se tornavam mais sonhos quando me enchiam de laivos de verdadeiras e inexpugnáveis aventuras.
E era mesmo uma festa já vivida meses antes, no desejo da celeridade do escoar do calendário.
A única coisa que me atormentava verdadeiramente era ter que fechar aquela porta, olhar para aqueles pares de olhinhos incrédulos que ficariam à minha espera, mesmo tendo-lhes garantido que "era só" um bocadinho ... que eu viria logo a seguir ...
E eles sempre esperavam, porque os gatos sempre esperam ... os animais sempre esperam ... só o ser humano é que não cumpre com os "compromissos" de afecto que os une ...

Também sei que de início a coisa corre solta, dia após dia, porque eles não entendem nada de calendários, e só se a ausência do aconchego prometido começasse a arrastar-se muito, aí sim ... "começavam a comer menos", dizia-me pelo telefone a D. Leonilde, a quem haviam ficado entregues.
Mas depois, num belo dia havia uma chave que corria a lingueta da fechadura e a sua indelével companheira chegava mesmo, à séria, para as festas na barriga, o conforto da conchinha altas horas da noite, e aquela meia dúzia de palavras que é o nosso código de afecto e amor.
E tudo voltava ao normal ... Assim com o Óscar, a Rita, o Chico, o Jonas e agora, de novo, outra Rita no meu destino !...
Com a Rita, não haveria razão pra ser diferente.  Tinha tudo pra dar certo, afinal !...

Só que desta feita a sua saúde está comprometida, e ter de deixá-la ou a favores de terceiros ou confiando que o destino há-de ajudar, mata-me por dentro.
Neste momento, precisando ir como do pão p'ra boca, cada ausência é um peso nas costas e uma aflição no coração.  Nada tem o rosto dos rostos passados. O sol não é mais o mesmo, o céu perdeu aquele azul ou dourado dos dias de estiagem... e é absolutamente estranho que eu sinta que já não me apetece. É absolutamente estranho que a empolgação de outros momentos tenha sumido ... aliás como tudo tem sumido na minha vida ...
Será que estou também morta por fora como estou por dentro e ninguém deu por isso ?!!

Pareço exagerar no que descrevo, mas a impotência que experimento face ao problema que parece arrastar-se, o dinheiro que talvez precisasse ter para recorrer à não resposta do maior bem que todos possuímos e que é a saúde, ou talvez constatar simplesmente, que tal como nós, os humanos, há animais que parecem injustamente também ter nascido sem sorte, sem "estrelinha", na roleta russa que é a vida ... questionam-me, destroem-me e revoltam-me, colocando-me frente a frente com a precariedade e a fragilidade que é a existência ...

Anamar

segunda-feira, 4 de maio de 2026

" POR ESTA OU AQUELA RAZÃO ... coisas de sangue ... "


Em certos dias, por esta ou aquela razão, por esta ou aquela memória, sobe-me uma nostalgia do que fui, do que foi ... de como foi ... porque foi ...

Ontem, uma notícia que a televisão exibiu, do funeral de um soldado ucraniano, só mais um, anónimo para o mundo mas nunca para os seus, uma cegonha, ave símbólica, desde logo portadora de vida, da fertilidade, do nascimento, mas também da lealdade ( é um animal monogâmico ), do amor filial, entre outras simbologias, pareceu querer homenagear o falecido cujo féretro era acompanhado  pelos populares ajoelhados na beira da estrada, perturbou-me profundamente.
Talvez a morte não seja o fim da vida, afinal !

Quando eu era miúda, também já contei, vivia na cidade de Évora, no meu Alentejo de coração, frente a uma fábrica que no alto da sua chaminé de tijolos, exibia um ninho de cegonhas.
Era nostálgica aquela imagem de ninho vazio durante as agruras do Inverno frio e onde África havia sido o seu destino, até que a Primavera renascia nos campos do meu Alentejo.
Por cada ano havia sempre um belo dia em que a minha mãe bem cedo, pelos primeiros raios de sol, me entrava pelo quarto dentro e dizia :
"Vem ver quem chegou outra vez, a casa !"
Eu saltava pressurosa da cama ainda quente, e já sabia o que a janela me iria revelar.  Nada mais do que um casal de cegonhas que viria nidificar no local onde nascera no ano anterior...
E assim, ano após ano, a renovação, a vida, a continuação, fazia-se.

A cegonha da imagem de que falei e que profundamente me impressionou, remeteu-me à minha terra outra vez.  À minha terra onde já ninguém dos meus existe, e onde apenas as memórias permanecem firmes e fiéis, como tactuadas no meu ser até ao fim.

E lembro ... lembro sobretudo a paz, o silêncio, lembro a solidão das velhas nas soleiras, lembro a pirisca meio apagada no canto dos lábios dos velhos nos bancos do jardim, ou mesmo as cadeiras de fundo de buinho onde as comadres se reencontravam pelos fins de tarde na canícula dos verões incomplacentes ...
Lembro os fins de dia, quando a fresca já corria, quando as andorinhas se afobavam pelos beirais, quando a chilreada da passarada rasava os campos verdes de erva farta, papoilas e malmequeres, quando os chocalhos do gado já acordado da sesta, ou os badalos das ovelhas nos rebanhos molengas despertavam ... lembro os sinos, às avés-marias ... mas sobretudo lembro o sussurro da brisa que amenizava a calorina das tardes dormentes ...

Era então que as cegonhas planavam, no transporte dos gravetos na reconstrução dos ninhos, ou mais tarde no transporte dos alimentos para os "cegonhitos" , como dizia a minha mãe.

É então que uma profunda saudade me toma, uma precisão daquela paz me faz sentir esburacada no peito, uma ânsia de liberdade me faz sentir órfã daquele ar, daquele chão, daquela terra enterroada, parideira de trigos, girassóis, estevas, maias, e todas as flores que sabemos ou não ... 
É então que as cegonhas me fazem falta ... e como fazem !!!...



Anamar