Em certos dias, por esta ou aquela razão, por esta ou aquela memória, sobe-me uma nostalgia do que fui, do que foi ... de como foi ... porque foi ...
Ontem, uma notícia que a televisão exibiu, do funeral de um soldado ucraniano, só mais um, anónimo para o mundo mas nunca para os seus, uma cegonha, ave símbólica, desde logo portadora de vida, da fertilidade, do nascimento, mas também da lealdade ( é um animal monogâmico ), do amor filial, entre outras simbologias, pareceu querer homenagear o falecido cujo féretro era acompanhado pelos populares ajoelhados na beira da estrada, perturbou-me profundamente.
Talvez a morte não seja o fim da vida, afinal !
Quando eu era miúda, também já contei, vivia na cidade de Évora, no meu Alentejo de coração, frente a uma fábrica que no alto da sua chaminé de tijolos, exibia um ninho de cegonhas.
Era nostálgica aquela imagem de ninho vazio durante as agruras do Inverno frio e onde África havia sido o seu destino, até que a Primavera renascia nos campos do meu Alentejo.
Por cada ano havia sempre um belo dia em que a minha mãe bem cedo, pelos primeiros raios de sol, me entrava pelo quarto dentro e dizia :
"Vem ver quem chegou outra vez, a casa !"
Eu saltava pressurosa da cama ainda quente, e já sabia o que a janela me iria revelar. Nada mais do que um casal de cegonhas que viria nidificar no local onde nascera no ano anterior...
E assim, ano após ano, a renovação, a vida, a continuação, fazia-se.
A cegonha da imagem de que falei e que profundamente me impressionou, remeteu-me à minha terra outra vez. À minha terra onde já ninguém dos meus existe, e onde apenas as memórias permanecem firmes e fiéis, como tactuadas no meu ser até ao fim.
E lembro ... lembro sobretudo a paz, o silêncio, lembro a solidão das velhas nas soleiras, lembro a pirisca meio apagada no canto dos lábios dos velhos nos bancos do jardim, ou mesmo as cadeiras de fundo de buinho onde as comadres se reencontravam pelos fins de tarde na canícula dos verões incomplacentes ...
Lembro os fins de dia, quando a fresca já corria, quando as andorinhas se afobavam pelos beirais, quando a chilreada da passarada rasava os campos verdes de erva farta, papoilas e malmequeres, quando os chocalhos do gado já acordado da sesta, ou os badalos das ovelhas nos rebanhos molengas despertavam ... lembro os sinos, às avés-marias ... mas sobretudo lembro o sussurro da brisa que amenizava a calorina das tardes dormentes ...
Era então que as cegonhas planavam, no transporte dos gravetos na reconstrução dos ninhos, ou mais tarde no transporte dos alimentos para os "cegonhitos" , como dizia a minha mãe.
É então que uma profunda saudade me toma, uma precisão daquela paz me faz sentir esburacada no peito, uma ânsia de liberdade me faz sentir órfã daquele ar, daquele chão, daquela terra enterroada, parideira de trigos, girassóis, estevas, maias, e todas as flores que sabemos ou não ...
É então que as cegonhas me fazem falta ... e como fazem !!!...
Anamar

