Resolvi que não mudo de casa !
Venha chuva, vento, tempestade ou trovoada, venham sismos, venham cataclismos de alma, decidi que, se moro aqui há cinquenta e dois anos, é aqui que vou morrer !
A vista continua a estender-se até onde quero, e se quiser mais, é só lembrar-me como era para detrás do sol posto ...
Os telhados continuam a ser os mesmos e não há como construírem outros mais, intencionalmente lixados capazes de lixar o que de melhor tenho... um céu ora azul se bem disposto, cinzento de cenho carregado com ar de respeito, ou cheio de promessas de chuva lá pela madrugada ...
Depois tenho os pores de sol que invejam muita gente... Vão desde o transparente prometedor de tempo amigo, ao laranja quase vermelho, que sem eu pedir sequer, me levam às savanas de África ... que ficam lá longe mas que ainda hei-de visitar mais uma vezinha só, antes de morrer.
Acho que esta estranha ligação simbiótica entre mim e o continente que nos fica aos pés no desenho do globo terrestre, só pode vir porque o meu Alentejo ficou a meio caminho do Kilimanjaro, em milhas, quilómetros ou simplesmente sonhos ...
Esta terra é horrível. Desinteressante, sem um nada que nos prenda a ela.
Os cafés, aqueles que foram da nossa juventude inexistem. As portas fechadas "ad eternum" em mudanças de ramo, são o pão nosso de cada dia. Pessoas, também cada vez há menos. Menos, daquelas que nos paravam... "como vai ? Como vai a mãezinha" Não tem calhado a encontrarmo-nos ..."
Agora, pessoas há muitas. Demasiadas, talvez... Não as conheço. Falam outras línguas, têm outras histórias, outros sofreres estampados nos rostos ...
Também já não há aquela coisa de "os filhos já acabaram? Ainda ontem fui ao liceu consultar a pauta de exames "...
Nem o liceu já é o mesmo, já arrasaram com os crochets nos intervalos, nos pontos de cruz em bordados partilhados ... Já foi tudo ! "Onde pensa que vai ? A senhora não pode entrar por aí !"...
"Ah ... desculpe. Fui cá professora a vida toda. Se calhar a senhora ainda nem tinha nascido !"...
A Lisete, o Sr. Raul, o Sr. Rocha e a D.Matilde ... a D.Henriqueta, a Fernanda do Bar a Joaquina, as Amélias ... a D.Álea e todos, todos, os que faziam esta terra !
"Até amanhã, mãe. "
Ela e o Gaspar, e a janela e as sete da tarde, adeus...vá para dentro... crianças brincando ainda na relva do parque infantil das traseiras ...
Tudo diferente. Tudo doídamente diferente !!!...
O que me resta, então ? O "bando do meio dia", as minhas gaivotas que me gritam aqui por cima. Os periquitos de colar que sempre viajam apressados, sem que eu saiba porquê. Os pombos de bom feitio, que em qualquer lado se aninham. Os vizinhos, que incaracterizam este meu ponto de passagem.
Os "meus", os verdadeiramente "meus", cumpriram já oito décadas. Viemos para aqui, com as mulheres embuchadas, com crianças pequenas, com provocadora felicidade ...
Todos com a vida à frente... sabíamos lá que vida !...
Hoje, já não acho no mapa esta minha terra. No mapa do coração ainda existe, à má fila ... mas esbate-se, todos os dias se esbate mais um bocadinho ...
Decidi que morro aqui.
Afinal sou uma imperfeita pertença a este sítio a que chamaram terra, e que não é de ninguém ... não é mesmo de ninguém ...
Só as raízes, vellhas e turrentas, teimam em lembrar-me tantas coisas de aqui. Não as compro, não as vendo, estão nos baús das memórias. E posso dar-me por sortuda por ter baús de memórias. Muitos passam por cá e como naqueles filmes chatos, se nos perguntarem se valeu a pena ... nem as pipocas salvaram a coisa !!!
Anamar
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