Chico e Jonas Rita ( a primeira )
Rita ( actual )
O Jonas vive comigo há catorze anos. Quase os que tem de vida, já que me entrou casa adentro, com alguns, poucos meses.
O problema dos animais que vêm das ruas, de destinos incertos, é exactamente ser tudo ou quase tudo estimado por palpite.
Existia a Rita, ainda, já velhinha e que viria a partir em 2013. O seu único companheiro que também já havia partido, fora o Óscar, tanto de lindo quanto de mauzinho. A Rita, que foi então o animal mais dócil que tive até ao "reinado" do Jonas, habituada que estava ao monopólio de quase tudo aqui por casa, acho que entristeceu com a entrada deste amiguinho que podia bem ser filho dela.
Reguila, imparável, brincalhão, provocador como o são todos os gatos bebés, acabou com o sossego da sua vida.
Ela queria paz e descanso e usufruir apenas, penso eu, das mordomias séniores de quem já viveu e conheceu muito do que haveria a conhecer na vida de um gato ...
O Jonas não percebia, nem podia perceber que a companheira dos seus dias preferisse passá-los ao sol, pelas nesgas largadas nos tapetes em janelas semi-abertas, nem que as horas de sono a que sucumbia, a tornassem num imprestável brinquedo, nem entendia sequr que ela não corresse atrás de bolas e bolinhas ou mesmo da própria cauda, numa postura insana ...
O Jonas não podia perceber ...
A Rita adoptou então, a estratégia do isolamento, procurou destinos mais discretos, aproveitou roupeiros meio fechados ou até o abrigo do assento de uma cadeira passou a servir de escudo protector daquele endemoninhado com energia pra dar e vender ...
O tempo passou, não muito ... Escassos meses escoaram no calendário até que o stress duma vida tumultuada em excesso, já no seu declínio, antecipou ( hoje estou certa disso ) o dia em que a Rita desistiu e resolveu ir embora.
Carrego esse peso de consciência, porque acredito que, à semelhança dos humanos, também os nossos companheiros de quatro patas encaram as exigências da idade sénior com as inerentes características ... a paz, o sossego, o privilégio de momentos de silêncio...
A Rita foi embora deixando uma saudade sem limites, ela que criou comigo uma relação de afecto e companheirismo inimagináveis para mim, entre um animal e um ser humano. Faltava apenas falar a minha linguagem ... porque a sua, eu percebia com toda a clareza ...
O Jonas foi crescendo, obviamente, tomando conta do "pedaço", sentindo-se senhor e dono, até de mim, que apanhou frágil e saudosa.
Começou a "aprender" a conversar comigo, começou a desenvolver um amor de reciprocidade com a minha existência muito só e silenciosa, a dormir por opção em "conchinha" no calor do meu édredon, a entender as minhas regras, a ser a minha sombra ...
Mas eis que chega um pedido de adopção para um bonacheirão, preto retinto com gravatinha branca, farfalhudo e simpático, cujos donos regressaram ao Brasil, depois de uma vida sem sucesso por cá.
Assim me chegou o Chico, já baptizado e pronto para fazer companhia ao Jonas.
Não foi difícil, o Chico era mesmo bonzinho, de boa índole e sem impor nunca em diferendo, a sua compleição física. O Chico era um gato XXL, face ao minorca irreverente que já cá estava.
Tinham os dois sensivelmente a mesma idade, rondando os dez/onze anos, quando também o Chico foi embora. Adquiriu uma diabetes que acompanhada de outras patologias, não me deu margem de escolha.
E ficou o Jonas de novo só ... ele e eu, claro !
Quem perde um destes companheiros fica tão mas tão mal, que jura não voltar a ter mais nenhum. No dia da eutanásia do Chico, quando entre lágrimas eu dizia à veterinária que acabava ali a "geração", ela disse-me ( bem sabia ela o que a experiência lhe havia ensinado )... "nunca diga isso !..."
Mas sim, era essa a minha genuína intenção !
Mas, como o povo diz, "o Homem põe e Deus dispõe)...
Passados alguns dias, na mata onde caminho, uma das gatinhas da colónia que ali vive, aparecera com uma ferida numa pata. Mordidela de cão, rasgão das silvas ??? O que se teria passado ?!
A ferida, apesar do tratamento possível providenciado pelo Sr.Sérgio que é o benfeitor da bicharada que por lá anda entregue à sua sorte, foi infectando progressivamente. A gatinha, que tem tanto de pequenina como de medrosa de tudo, já andava com a patinha no ar, não a assentando no chão.
Havia que recorrer mesmo ao veterinário. Foi intervencionada, esteve hospitalizada uns dias, melhorou e ... como seria de esperar, teve alta !
E agora ?? Vai devolver-se num pós-operatório a uma mata correndo os riscos inerentes a um agravamento da situação ? Deixará tratar-se, ou vai esconder-se entre os arbustos numa situação vulnerável e complicada ?
Facebook , mails, posts, instagram, telefonemas para amigos de amigos de outros amigos, para sensibilizar alguém que pudesse recolher a pobre de Cristo, ingloriamente ...
Portanto, eu não poderia dormir descansada se no pico do Inverno ( Fevereiro de 2024), a nova Rita ( por ser fisicamente idêntica à anterior ), voltasse para a mata ... E não voltou !
Reside comigo e com o Jonas exactamente há dois anos. Tem cerca de metade da idade deste. Estima-se que a Rita ande agora pelos 7/8 anos.
E o filme repete-se. Agora é o Jonas que quer sopas e descanso, que já não brinca, que namora as résteas de sol, que me persegue para onde quer que eu vá ... que fala e responde às minhas conversas ... enquanto a Rita desencanta as bolinhas, as tampinhas das garrafas, mas também à noite, triparte comigo e o Jonas, o calorzinho do nosso aconchego nocturno ...
Qualquer dia o Jonas também partirá. Sem ele não sei como encarar a vida e o vazio desta casa ...
Mas na mata, existe outra doçura lá abandonada há pouco, na companhia de uma irmã da mesma ninhada e que é a única referência afectiva que possui ... ainda.
Porque a Nina, a irmã, está muito doente, internada com pneumonia e insuficiência renal, a Pipoca espera, espera, espera por ela, todos os dias, com tempo agreste ou tempo de feição.
E apesar de só pedir festas e colo, de dar turrinhas e lambidelas, de ser uma dor olhar para ela, voltar-lhe as costas enquanto ela encomprida o olhar à medida que nos afastamos, e percebe que tem que ficar,...não posso obviamente diminuir-lhe o sofrimento, porque de todas as vivências que acumulei das "vidas deles", percebo agora que a entrada de um novo elemento estranho em casa, corresponderia a um pico de stress a que não tenho o direito de sujeitar neste caso, o Jonas ...
Resta-me, depois de toda esta narrativa, perguntar a todos os amigos e amigas ... se alguém se condói e pode acolher a Pipoca ??? É que nesta altura das nossas vidas bem percebemos que o amor mais são, mais genuíno e desinteressado ... aquele amor que não falha nunca, não é o humano ... é o dos animais ... seguramente !...
Tenho que acrescentar sem qualquer rebuço, que a história afinal não termina aqui ...
Apesar de infrutiferamente tentarmos acolhimento, casa, carinho e Vida ... apesar de a Pipoca continuar à espera, sem saber que a irmã não voltará mais, o milagre operou-se, e alguém que tendo tido uma gatinha cega e esta ter partido recentemente deixando um lugar que parecia inocupável, deixou o coração falar mais alto, e a Pipoca, acabou de ser adoptada num lar onde certamente o amor chegará para a compensar das agruras pelas quais já passou nesta vida ...
É que, afinal às vezes milagres cumprem-se !...
Anamar


Sem comentários:
Enviar um comentário