Escrevo pouco. Não consigo impor-me uma disciplina de trabalho. O problema é que de facto para mim, a escrita nunca foi e agora é-o menos ainda, um acto de trabalho. Aliás sempre me confundiu como os escritores, escritores a sério, contam que acordam cedo, criteriosamente cedo, escrevem até ao almoço, de tarde repegam e à noite, frequentemente também ... ou seja, respeitam sérias rotinas.
Em primeiro lugar louvo tanta inspiração, invejo tanta disciplina, e admiro a dedicação que os leva, sem desvios ou distrações a não perderem as personagens (que direi as histórias concebidas), pelo caminho !...E não acredito, piamente não acredito, os que garantem que o livro se vai escrevendo a si próprio, quase sempre sem uma prévia linha condutora, sequer uma arquitectura mental pré-concebida ...
Devo ser eu que serei muito anormal a brincar com estas coisas, e tendo tanto às vezes entupido dentro de mim, não abro comportas nem sob um "drone balístico" a fazer-me pontaria ...
Também me é frequente, que quando a água jorra das minhas entranhas... quando tanto e tão claro tenho para dizer, não esteja em momento, ocasião, lugar, para que o papel receba os meus silêncios profundos, para que as letras alinhem palavras que façam o sentido daquilo que a alma balbucia baixinho.
Verdadeiramente a minha vida, no formato actual, tem um interesse completamente desenxabido, insípido e maçante. Saio muito pouco e falta-me a paciência. Penso em muitos dos que já a compuseram, quando ela ainda tinha histórias para contar, quando valia a pena eu "escrever" pelo menos um episódio por dia ...
Hoje estou, digamos assim ... nem de Inverno nem de Verão ! Gosto de coisas tórridas, sempre gostei ... ou gosto do gelo da neve que tem um branco que é a mistura de todas as cores ...
As meias tintas ou tonalidades pastel sempre me entediaram.
Se era para dar, dava tudo, a cem por cento, até esgotar o manancial...
Se era pra chorar, chorava, descabelava-me, espremia lenços saturados até às bainhas !
A felicidade era vivida por inteiro e a mágoa e a dor era até ficar em carne viva ...
Pequenos flashes /grandes flashes do que foi, de como foi, de como era, de como ansiava, sonhava ou desejava, imagens de cores, de cheiros, de sons, vêm-me sobretudo nas madrugadas em que fico cobardemente quieta para ver se repego o "filme" que estava a viver, depois duma insónia brava de duas ou três horas ... e o sacana não volta, os intérpretes fugiram, já não há figurantes, já não há sequer enredo, embora ( e não deixa de ser engraçado ), sem os ver, eu saiba exactamente quem andou por ali ...
É então que não me quero, é então que odeio o espelho, o tempo e a memória. É então que odeio as palavras, os lugares... e até a voz do vento me atormenta a alma ...
E já não me vou encontrando nas esquinas das vielas. Já não me acho nas alcárcovas da vida ...
Entretanto, olhando atrás, o tempo percorrido parece um naperon que de tão antigo, está esburacado sem conserto. Partiram tantos, mas tantos dos que constituíam o enredo da história, sei lá para onde, só sei que desfiguraram a minha realidade, a realidade que eu conhecia ... que até acho que ir também começa a fazer sentido !
E pergunto-me, às vezes surpreendida, como é que me deixei distrair tanto, que pouco já conheço dos que me rodeiam, e pouco entendo do contexto circundante ?!
Sinto-me assim uma espécie de estrangeira num país onde só consigo arranhar e mal, a língua dos que por cá habitam ...
Pareço uma apátrida de pé descalço e mochila às costas, numa metrópole que desconheço.
Sinto-me assim meio entontecida, como se curtisse a ressaca duma boa e bela bebedeira ... e só me irrita "sentir" apenas, sem que tenha o proveito doce da prevaricação !.... Isso é que era !!!....
Anamar
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