Encontro-me na popa do navio. O "Serenade of the Seas" navega em alto mar, saído de Vancouver no Canadá, rumo ao Alasca.
Destino de férias, que englobava a realização deste cruzeiro de cerca de cinco dias.
Escolhi este local da embarcação, lá no finzinho deste colosso de treze andares, por ser, para mim, na maior parte do dia, uma espécie de refúgio, uma zona algo calma, privilegiada, mais silenciosa que qualquer outro espaço da embarcação, que fervilha de gentes e barulho a qualquer hora do dia ou da noite.
À minha frente, sentada que estou num dos variados sofás por aqui espalhados, tenho apenas toda uma parede arredondada, composta por painéis de vidro de ponta a ponta, e apenas o marzão onde a esteira deixada pela deslocação do barco, é o único apontamento desenhado nas águas por onde navegamos. De resto, por ora, não se vislumbra nenhuma costa, nem ilha, nem se alcança nenhum sinal de vida !
A estadia num cruzeiro é algo curioso. Chamo-lhe "curioso" como poderia atribuir-lhe uma outra série de qualificações mais ou menos bizarras.
Sempre disse que nunca faria um cruzeiro. Aliás, não me interessava e na realidade, não interessa.
Só que, desta vez, este apareceu-me integrado, como extensão de uma viagem que me entusiasmou na verdade. Tratava-se de um cruzeiro ao Alasca, só por si um destino desafiador, interessante e cobiçado, sobretudo por uma fatia particular de pessoas, para quem a natureza, a sua diversidade, beleza e magnificência são factores determinantes. Assim, uma viagem ao Canadá, Montanhas Rochosas, terminando no longínquo e misterioso Alasca, seria um prato cheio de emoções.
E cá estou, numa espécie de aquário, desta feita na posição de ser eu o habitante do interior do mesmo, numa espécie de bolha, olhando o mundo de dentro para fora.
A vida dentro no cruzeiro é deveras espantosa !...
Em primeiro lugar eu diria que há o cruzeiro dos ricos e o cruzeiro daqueles que contam os tostões, e que o fizeram com algum desconhecimento e algum grau de inconsciência, devo confessar.
Este destino em particular, maioritariamente sobrepovoado por uma "fauna" logo aqui do sul, proveniente de um país vizinho em que tudo se mede em dólares, onde tudo se compra, onde tudo é acessível ... torna ainda mais interessante e engraçado de analisar.
O barco em si, com treze andares, é uma metrópole em andamento. É um universo que reúne aqui dentro, um mundo mítico que parece tirado irrealisticamente do que ocorre lá fora.
As línguas escutadas são variadas, predominando obviamente o inglês, que além de ser a língua mundialmente universal, é a que se ouve pela quantidade de americanos que aqui estão.
É fácil identificá-los pela proeminência das barrigas, pelo ar de imbecilidade e alarvismo que na generalidade exibem, pelas figuras "bisônticas" assumidas, pelas montanhas de comida irracionalmente empilhada nos pratos "everésticos" que trazem para as mesas ao longo do dia e a qualquer hora do dia.
Desfilam genericamente com canecas XL de cerveja nas mãos, e levam o tempo nos bares do barco.
Apreciam a música ensurdecedora que invariavelmente invade todos os decks do paquete.
Aliás, por aqui não há um espacinho de silêncio, de sossego, ou pelo menos mais silenciosamente reconfortante. Quem os busque, desengane-se !
Aqui parece viver-se não propriamente em férias, em pausa, em alívio da tensão física e emocional que ocupa quase sempre os nossos dias, mas em ritmo diabolicamente alucinado, para esgotar as infindáveis e imparáveis actividades que em permanência ocorrem por todo o lado.
Há uma necessidade imperiosa de distrair com ou sem qualidade, as pessoas.
Ele é a música, como disse com a actuação de grupos, de intérpretes que mais gritam do que cantam, ele são as actividades no ginásio, no spa, o aprendizado dos ritmos trepidantes do Caribe ( já voltámos de novo à imortal "Macarena"com mais de trinta anos ... lembrando as praias de sol e coqueiros onde eu gostaria ( verdade seja dita ) de estar neste momento ... ), ele é o Bingo e outros concursos idiotas, sessões de teatro ou cinema com filmes sem qualidade, cabeleireiros e salões de embelezamento, as lojas caríssimas de griffe que bem conhecemos, restaurantes temáticos pagos a preços imorais, o casino onde o dinheiro rola, os whiskies que se consomem e os charutos que se fumam ... enfim, um pouco de tudo!
De tudo menos de alguma tranquilidade e repouso de espírito. Talvez no meu camarote, com a dimensão de casa de bonecas, eu o conseguisse ... Não experimentei !...
Este mundo gigante que rola sobre as águas do Pacífico rumo ao norte, garante seguramente uma memória inesquecível para estas quase três mil almas que o "habitam", e é de facto uma brutal máquina de fazer dinheiro fácil que me confunde e faz pensar...
Japoneses também há muitos por aqui e muçulmanos, idem. De resto, os funcionários profissionalíssimos em todo o desempenho e que garantem um funcionamento imaculado do "aquário", estão na base da pirâmide, como convém. São os filipinos, os tailandeses, os asiáticos de uma maneira geral, que na temporada conseguem garantir o sustento das famílias lá longe.
E pronto, neste marzão que amanheceu cinza, chuvoso e nevoento, salva-se o azul prateado que agora ostenta, porque o sol do Alasca decidiu-se finalmente a dar hoje, o ar da sua graça.
E enquanto esta popa me garantir paz e lugar ao sonho, continuarei a "perder-me", olhando-o simplesmente, e esquecendo o mundo lá fora !...
Anamar
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