segunda-feira, 24 de agosto de 2026

" AQUELE SONHO ... "

 


Como sempre hoje acordei sem querer acordar.  Ou melhor, obriguei-me a acordar ...Afinal eram horas em que a razoabilidade e o "socialmente" correcto me empurravam já, da cama para fora.

Sabem aquelas remotas ocasiões em que sonhamos um daqueles sonhos tão profundos, tão impressivos e tão vívidos que parecem estar mesmo a acontecer, e que não queremos de forma nenhuma que termine, que nos orfanize sem pedir licença ?
Pois é ... eu sabia que me iria sentir tão vulnerável, tão defraudada, tão só e vazia, quando ele terminasse, que não queria largá-lo de nenhuma forma ...

Era um daqueles sonhos em que não definimos exactamente os rostos das pessoas mas em que sabemos com total clareza quem elas são. Era um sonho em que estava lá tudo, as vozes, os gestos, os sentimentos, as emoções, nós e os outros, os momentos que não podiam voltar a perder-se e que sabia iriam deixar-me, quando abrisse os olhos a este mundo que me esperava além daqueles lençóis.
Em suma, era um sonho tão necessário à minha necessidade de preencher este vazio aqui no peito, como uma tigela de água num deserto sufocante !

Estou a terminar a leitura de um livro fantástico, que me transmite algo que não sei definir, mas que  faz eco aqui dentro de mim.  Não consigo explicar, mas é um livro que além da emoção com que me toma, parece passar-me um recado, uma mensagem, uma sensação, um misto de sentimentos que me mexem e que talvez saiba ou não, porquê ...

"Lobos" de Tania Ganho, é para mim, uma obra de arte.  Algo que me fala, capítulo a capítulo, algo que me desperta deste marasmo em que vivo, algo que me sacode, me abana, me sacoleja por dentro, e me deixa assim, como estou ... fragilizada, doída, sofrida ... sangrante !
É um livro que me obriga a contemplar o meu eu, aqui dentro e aqui fora.  É um livro que me mergulha em mim mesma e simultaneamente me leva pra fora de mim.  É um livro onde sou e não sou, onde me vejo e revejo a cada parágrafo ... e ao mesmo tempo me encontro já lá tão longe, numa curva qualquer de estrada que me tapa a linha do horizonte.
É um livro que só podia ter sido escrito por uma mulher ...

O lobo, como real e simbólico nesta escrita ... O lobo, predador e companheiro, ameaçador e cúmplice,  ... digno e intrépido ... o lobo gregário, mas independente ... senhor único da sua vida e dos seus destinos ... ele, que ecoa na montanha em noites de lua cheia !...
Nem todos lhe entendem a linguagem ...

Anamar

sábado, 15 de agosto de 2026

" SOU HUMANA ... E ENTÃO ?! "

 

Moro pertinho das nuvens.  Olho os telhados, de cima. Sou espreitadora de inesquecíveis pôres de sol. 
Não vivo propriamente num vigésimo ou trigésimo andar, como aqueles em que já dormi em hotéis no Japão, por exemplo, onde isso é vulgar e a construção de torres dessa envergadura, espalha-se como cogumelos até onde a vista alcança...  Não, de facto moro apenas num sétimo andar de um prédio com mais de cinquenta anos, mas cada vez mais, aquilo que me aninhava e confortava aqui em casa, donde vejo o mundo um pouco do alto, aquilo que me deixava segura e protegida da vida lá fora, me assusta muito neste momento.
Explico :  o planeta Terra parece estar zangado, e além dos conflitos, da destruição e do péssimo trato que lhe damos, à superfície, claro, parece ter resolvido mostrar-nos que o seu "miolo" interior também está instável e farto de ser desvalorizado.  
Assim, os sismos por todo o mundo, de ocidente a oriente sucedem-se diariamente, matando e destruindo vidas, os vulcões cospem fogo deixando limitado o quotidiano das pessoas, não só com a destruição física de regiões habitáveis, como obrigando ao encerramento de aeroportos devido à ausência de visibilidade para o tráfego aéreo.
O calor anormalmente elevado com ondas mortíferas até em países sem histórico nessa área, contrastam com tempestades ferozes com ventos e cheias destruidoras, noutros pontos do planeta...
Os fogos alastram, castigam pessoas, animais, áreas de protecção de espécies, semeando dor e sofrimento... 
As guerras sem fim à vista, gratuitas, absurdas e loucas, juntam-se à fome e às impedemias letais em países já por si carenciados, como se vivêssemos num mundo em desmando total, sem controle ou contenção ...
Sentimo-nos aleatoriamente governados, ou desgovernados, numa espécie de "roda livre" por gente sem escrúpulos, sequer sanidade mental ... enfim, ao Deus dará ...

E parece que acordar em cada dia é só por si uma espécie de jackpot ou primeiro prémio de uma lotaria jogada ao minuto, nunca se sabendo se no próximo cá estaremos ou não ...

Vivo aterrorizada.  Na verdade parece que estou apenas à espera a cada momento, que aconteça alguma coisa que tomo como certa, já que ninguém é privilegiado neste mundo ...
E chego à noite, antes de dormir aninhada nos meus gatos, companheiros da minha vida, penso que nunca os deixaria entregues à sua sorte, acontecesse o que acontecesse, tento acreditar que não acordarei, como já aconteceu, com a cama a oscilar, engulo o ansiolítico e apago, tento simplesmente apagar ... ou seja, faço a última jogada do dia ...

A comunicação social tem um papel extremamente negativo no disseminar destas notícias.  Difundem com um alarmismo quase sádico, imagens e dispensáveis pormenores que apenas aterrorizam e paralisam a quem os assiste.
Eu sei que é sinal do tempos, é o avanço das tecnologias ao minuto, é a difusão num piscar de olhos de tudo mas mesmo tudo o que ocorre do outro lado do mundo, mas ... a vida seria mais leve, menos assustadora e angustiante se pudéssemos viver com um menor peso nos ombros e aperto no coração, sobretudo em acontecimentos em relação aos quais não está ao nosso alcance nenhuma reversão das situações ...

Enfim ... dizem ser o "progresso" ... 
Sinto que o meu prazo de validade já foi atingido, como se vivesso metida num fato que já me não serve, ou uns sapatos que já percorreram todas as léguas que poderiam ter percorrido ... e sinto-me cansada, cansada demais mesmo !!

Anamar