Moro pertinho das nuvens. Olho os telhados, de cima. Sou espreitadora de inesquecíveis pôres de sol.
Não vivo propriamente num vigésimo ou trigésimo andar, como aqueles em que já dormi em hotéis no Japão, por exemplo, onde isso é vulgar e a construção de torres dessa envergadura, espalha-se como cogumelos até onde a vista alcança... Não, de facto moro apenas num sétimo andar de um prédio com mais de cinquenta anos, mas cada vez mais, aquilo que me aninhava e confortava aqui em casa, donde vejo o mundo um pouco do alto, aquilo que me deixava segura e protegida da vida lá fora, me assusta muito neste momento.
Explico : o planeta Terra parece estar zangado, e além dos conflitos, da destruição e do péssimo trato que lhe damos, à superfície, claro, parece ter resolvido mostrar-nos que o seu "miolo" interior também está instável e farto de ser desvalorizado.
Assim, os sismos por todo o mundo, de ocidente a oriente sucedem-se diariamente, matando e destruindo vidas, os vulcões cospem fogo deixando limitado o quotidiano das pessoas, não só com a destruição física de regiões habitáveis, como obrigando ao encerramento de aeroportos devido à ausência de visibilidade para o tráfego aéreo.
O calor anormalmente elevado com ondas mortíferas até em países sem histórico nessa área, contrastam com tempestades ferozes com ventos e cheias destruidoras, noutros pontos do planeta...
Os fogos alastram, castigam pessoas, animais, áreas de protecção de espécies, semeando dor e sofrimento...
As guerras sem fim à vista, gratuitas, absurdas e loucas, juntam-se à fome e às impedemias letais em países já por si carenciados, como se vivêssemos num mundo em desmando total, sem controle ou contenção ...
Sentimo-nos aleatoriamente governados, ou desgovernados, numa espécie de "roda livre" por gente sem escrúpulos, sequer sanidade mental ... enfim, ao Deus dará ...
E parece que acordar em cada dia é só por si uma espécie de jackpot ou primeiro prémio de uma lotaria jogada ao minuto, nunca se sabendo se no próximo cá estaremos ou não ...
Vivo aterrorizada. Na verdade parece que estou apenas à espera a cada momento, que aconteça alguma coisa que tomo como certa, já que ninguém é privilegiado neste mundo ...
E chego à noite, antes de dormir aninhada nos meus gatos, companheiros da minha vida, penso que nunca os deixaria entregues à sua sorte, acontecesse o que acontecesse, tento acreditar que não acordarei, como já aconteceu, com a cama a oscilar, engulo o ansiolítico e apago, tento simplesmente apagar ... ou seja, faço a última jogada do dia ...
A comunicação social tem um papel extremamente negativo no disseminar destas notícias. Difundem com um alarmismo quase sádico, imagens e dispensáveis pormenores que apenas aterrorizam e paralisam a quem os assiste.
Eu sei que é sinal do tempos, é o avanço das tecnologias ao minuto, é a difusão num piscar de olhos de tudo mas mesmo tudo o que ocorre do outro lado do mundo, mas ... a vida seria mais leve, menos assustadora e angustiante se pudéssemos viver com um menor peso nos ombros e aperto no coração, sobretudo em acontecimentos em relação aos quais não está ao nosso alcance nenhuma reversão das situações ...
Enfim ... dizem ser o "progresso" ...
Sinto que o meu prazo de validade já foi atingido, como se vivesso metida num fato que já me não serve, ou uns sapatos que já percorreram todas as léguas que poderiam ter percorrido ... e sinto-me cansada, cansada demais mesmo !!
Anamar
