Eu sei exactamente como isto termina, como aliás sei exactamente o momento em que tudo começou ...
Quase todos os começos, são auspiciosos, sorridentes, ensolarados. É o tempo em que se aposta tudo naquela qualquer coisa que começa. É uma espécie de rebuçado que se desembrulha lentamente, saboreando cada pedacinho, degustando cada sabor ...
E depois, a vida faz-se com as histórias que vão ficando. O correr impressivo dos dias acompanha-nos, escreve o nosso destino. E a gente acredita, desacredita, sonha, confirma, e vai vivendo num êxtase do tamanho do sonho que sonhámos.
Só que os anos passam e os amanheceres deixam de ter as cores do antigamente, e os pôres de sol já não nos arrancam aquele suspiro embalador de antes. As realidades começam a ter outros formatos, surgem caminhos diversos ao lado da estrada que vamos trilhando, as forças com que carregávamos a vida enfraquece, os olhos com que a vimos obrigam-nos a titubear no caminho que percorremos.
As pessoas perdem-se em veredas que desconhecíamos, as distâncias, antes curtas, alongam em trilhos que parecem não ter fim ... E por vezes deixamos de as distinguir nos horizontes cada vez mais longínquos ...
O cansaço agiganta-se e quando buscamos os alguéns que nos entendiam, também já não sabemos onde ...
Cada um foi à sua vida e foi dobrando esquinas e voltas de estrada.
É então que nos percebemos infinitamente sós. Já não há quem trilhava connosco o código de vida comum, quem percebia com fantástica clareza o que diriamos ainda antes de o dizermos, quem sentia o que sentiríamos antes de o sentirmos ...
E o tempo sempre a caminhar mais e mais, roubando a significância dos nossos sentires, vai-nos orfanando cada dia um bocadinho mais, até que nos percebemos noutros mundos paralelos, onde nem entendemos, nem nos entendem. Onde os nossos pares desapareceram em definitivo.
A quem explicar como era o tombar daquele sol profundamente laranja ? Como aquele momento mágico de silêncio e cumplicidade nos fazia sentir mais vivos e mais doces no coração ?
Quem se interessa ou sequer percebe a vibração das palavras não ditas mas só sentidas ? Ou o significado de uma única palavra que em si transportava o mundo ?
Quem perceberia o significado daquela frase deixada no guardanapo do café naquele dia, ou do graveto colhido naquela tarde mansa, quando o mundo ainda era nosso ?
Não há quem nem há como...
E por isso busco a minha toca onde hiberno um sono profundo, porque lá fora, já ninguém me conhece e não conheço ninguém. Lá fora, sou simplesmente estrangeira entregue à minha sorte, e um dia alguém dará conta que eu apenas parti em busca daquele arco-íris que se desenhou no meu céu, ou segui o rumo da minha gaivota que nunca desistiu de me trazer notícias de lá longe, onde o mar e a terra se miscigenam e o vento dança com as estrelas em noites de lua cheia !...
E aquele espaço deixado vazio já não interessa a ninguém ... sequer falta, porque apenas o silêncio impera ...
Por isso eu sei exactamente como tudo termina ... É assim, esta coisa a que chamam vida !...
Anamar

1 comentário:
Escrever é uma atitude de sanidade mental.
O tema deste post é interessante
Jonas
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