sexta-feira, 9 de outubro de 2026

" O PRICÍPIO E O FIM "

 



Eu sei exactamente como isto termina, como aliás sei exactamente o momento em que tudo começou ...

Quase todos os começos, são auspiciosos, sorridentes, ensolarados.  É o tempo em que se aposta tudo naquela qualquer coisa que começa. É uma espécie de rebuçado que se desembrulha lentamente, saboreando cada pedacinho, degustando cada sabor ...
E depois, a vida faz-se com as histórias que vão ficando. O correr impressivo dos dias acompanha-nos, escreve o nosso destino. E a gente acredita, desacredita, sonha, confirma, e vai vivendo num êxtase do tamanho do sonho que sonhámos.

Só que os anos passam e os amanheceres deixam de ter as cores do antigamente, e os pôres de sol já não nos arrancam aquele suspiro embalador de antes.  As realidades começam a ter outros formatos, surgem caminhos diversos ao lado da estrada que vamos trilhando, as forças com que carregávamos a vida enfraquece, os olhos com que a vimos obrigam-nos a titubear no caminho que percorremos.
As pessoas perdem-se em veredas que desconhecíamos, as distâncias, antes curtas, alongam em trilhos que parecem não ter fim ... E por vezes deixamos de as distinguir nos horizontes cada vez mais longínquos ...
O cansaço agiganta-se e quando buscamos os alguéns que nos entendiam, também já não sabemos onde ...
Cada um foi à sua vida e foi dobrando esquinas e voltas de estrada.  
É então que nos percebemos infinitamente sós.  Já não há quem trilhava connosco o código de vida comum, quem percebia com fantástica clareza o que diriamos ainda antes de o dizermos, quem sentia o que sentiríamos antes de o sentirmos ...

E o tempo sempre a caminhar mais e mais, roubando a significância dos nossos sentires, vai-nos orfanando cada dia um bocadinho mais, até que nos percebemos noutros mundos paralelos, onde nem entendemos, nem nos entendem. Onde os nossos pares desapareceram em definitivo.

A quem explicar como era o tombar daquele sol profundamente laranja ?  Como aquele momento mágico de silêncio e cumplicidade nos fazia sentir mais vivos e mais doces no coração ?
Quem se interessa ou sequer percebe a vibração das palavras não ditas mas só sentidas ?  Ou o significado de uma única palavra que em si transportava o mundo ?
Quem perceberia o significado daquela frase deixada no guardanapo do café naquele dia, ou do graveto colhido naquela tarde mansa, quando o mundo ainda era nosso ?

Não há quem nem há como...
 
E por isso busco a minha toca onde hiberno um sono profundo, porque lá fora, já ninguém me conhece e não conheço ninguém.  Lá fora, sou simplesmente estrangeira entregue à minha sorte, e um dia alguém dará conta que eu apenas parti em busca daquele arco-íris que se desenhou no meu céu, ou segui o rumo da minha gaivota que nunca desistiu de me trazer notícias de lá longe, onde o mar e a terra se miscigenam e o vento dança com as estrelas em noites de lua cheia !...
E aquele espaço deixado vazio já não interessa a ninguém ... sequer falta, porque apenas o silêncio impera ...

Por isso eu sei exactamente como tudo termina ... É assim, esta coisa a que chamam vida !...

Anamar

1 comentário:

Anónimo disse...

Escrever é uma atitude de sanidade mental.
O tema deste post é interessante
Jonas