Hoje deu-me em lembrar o Chico. O Chico, aquele amiguinho de quatro patas que esteve comigo algum tempo da vida dele, e parte imprevisível da minha ...
O Chico terá nascido numa ninhada que uma gata imprevidente pariu, à revelia de quem de direito, numa fábrica, nao sei exactamente de quê, ali para os lados do Cacém.
Foi assim ... quando deram por isso, a bicharada já cá estava fora, e como as operárias eram de bom coração, tentaram que cada coisinha minúscula daquelas que chiava a cada barriga vazia, viesse a ter um lugar neste planeta a que toos têm direito e sempre há lugar para mais um. Haja compaixão e boa vontade !...
Distribuídos pelas artesãs, suponho, o Chico, assim baptizado, foi parar a uma família brasileira que viera tentar sorte no nosso país e que morava por ali. Pai, mãe e dois filhos proporcionaram, creio, boa vida ao Chico até aos seus oito meses mais coisa menos coisa.
A vida complicou, primeiro foi embora o pai e depois de regresso ao Brasil seguir-se-iam a mãe com os putos.
E agora ? Que fazer ao Chico, se o dinheiro era curto até mesmo só para a a família ?
O Facebook !... O Facebook é por vezes a salvação pra muita coisa. Não custa tentar !
O Chico era um senhor gato, ali com bosque norueguês pelo meio, com aquele seu pelo comprido e reluzente, gato e meio em tamanho, totalmente preto, apenas com uma gravatinha branca sob o queixo.
Tinha tanto de bonito como de pachorrento e molengão. Afinal ele não estava ali pra criar problemas a ninguém ...
Vi-o, olhei-o, lembrei uma vez mais que sempre desejara ter um gato preto e candidatei-me.
E desta forma o Chico veio fazer companhia ao Jonas meio tristinho por ter perdido a Rita, falecida em Março, o Jonas chegara em Dezembro e o Chico viria a entrar em Maio com os tais oito meses de existência.
E pronto, ficou, ficámos todos felizes, pois tirando o raio da mania que tinha de sempre afiar as unhas no mesmo lugar da coberta da minha cama apesar da existência de um arranhador, nada de preocupante viria a passar-se. A vida corria, portanto, mansa e sem sobressaltos ...
E assim se passavam os anos.
Quando eu me ausentava uns dias, o Jonas amuava e não vinha recepcionar-me à porta, no regresso, mas o Chico, com aquele rabo de raposa, tipo pluma bem alçado, era o primeiro a confirmar se era mesmo eu que aí vinha, como prometera.
Se me descuidava o Chico atrevia-se escada abaixo, de andar em andar, cheirando os tapetes da vizinhança ou mesmo neles afiando as unhas. Uma vez não me apercebi, fechei a porta e passado algum tempo tinha o Chico, do lado de fora a miar-me e a arranhar a porta para entrar.
Deu uma de "rufia" dessa vez ... mas não errou de endereço !...
Passado alguns anos apercebi-me que o Chico bebia continuadamente água, perdeu um pouco o apetite, vomitava com alguma frequência e ficou ainda menos activo do que já era. Veterinário, exames, etc, etc, etc ... o Chico foi diagnosticado com diabetes.
Insulina duas vezes ao dia, alimentação especial, ir gerindo o melhor que soube. Havia o risco da glicose se desgovernar, entrar em hipoglicémia, que seria fatal.
Naquele dia, com diagnósticos também de pancreatite e já alguma falência renal, o Chico deixou de comer, de beber água, de ir à areia, remetendo-se apenas à sua caminha, tentando passar desperebido.
Eu trazia-lhe ingloriamente a água à boca, a comida, desejando que chegassem as horas de o injectar com a insulina. Para mim ele teria tido uma subida no açúcar.
Eu não sabia mais que isso, ninguém nunca me havia alertado para uma emergência contária.
E dei-lhe, às onze da noite a injecção da insulina, como sempre.
Dizem que os gatos quando pressentem a morte, o fazem com dignidade, isolam-se o mais possível, se puderem, escondem-se mesmo, como se não quisessem incomodar ...
O Chico ficou o mais inerte que pôde, ficou indiferente, alheou-se de tudo apesar de eu nunca ter saído de perto dele. O Chico piorava a olhos vistos. Telefonei para o serviço de urgência do hospital veternário, expus a situação. Era uma hora da manhã ... o Chico entrara em hipoglicémia. O médico de plantão disse-me que a situação era muito grave. Eu ainda agravara mais a situação clínica do Chico, por desconhecimento e ignorância ... fizera tudo ao contrário ...
Dei-lhe uma pequena colher de mel e assim que começou a clarear o dia 24 de Julho de 2023 rumámos em desespero à urgência onde viria, no meu cólo, a terminar o tempo que desde sempre lhe estaria destinado, pelas quatro da tarde ...
Viveu comigo dez anos, o Chico. E até hoje sinto a culpa da sua morte ...
Hoje, deu-me em lembrar o Chico. Sei lá porquê ! Talvez porque o Jonas que já tem catorze anos, e é o meu companheiro de todas as horas, me entende e só não sabe falar a minha linguagem, qualquer dia, num dia que nem quero saber onde fica no calendário, ( pela lei natural das coisas... é assim que se costuma dizer ... ) irá fazer companhia ao Chico, mas também à Rita, ao Óscar, ao Gaspar, à Dalila e ao Sansão, ao Nico e à Nicas ... enfim, a tantos quantos por lá estão já à minha espera ...
E nesse dia ... não sei o que será de mim !...
Anamar
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