quinta-feira, 19 de março de 2026

" E PORQUE HOJE DIZEM SER UM DIA ESPECIAL ... "

 


Hoje é o Dia do Pai de acordo com o calendário religioso, neste caso Dia de S. José, pai adoptivo de Jesus, liturgicamente falando.

Não sou dada a estas efemérides.  Cada vez menos sou dada a festejar datas de calendário só porque sim.  Costumo dizer que tenho o meu calendário, esse sim que persigo, procurando não esquecer dias, momentos, ocasiões que por marcantes, justificarão para todo o sempre isto ou aquilo ... Essas sim, reais efemérides na minha vida.  E particularmente Dia de Pai, de Mãe, de Mulher, de Criança, bla bla bla ... para mim são-no apenas como pretexto para o comércio fazer mais umas coroas, nesta sociedade mercantilista, materialista ... demasiado oca e vazia !

Bom ... mas eu tive um pai, obviamente.  Era já entradote na idade quando eu nasci.  Tinha quarenta e oito anos e uma inclinação desmesurada muito mais para avô do que para pai.
O meu pai "padecia" claramente da "ternura dos quarenta" e daquilo que lembro, o seu papel junto de mim, foi sempre de protector, em excesso até, com uma preocupação exagerada com o meu bem estar, com as minhas necessidades, com a minha saúde, com a providência em permanência duma vida rodeada de tudo o que me faria e me não faria falta para viver.

Como vêem, falo dele com um distanciamento no mínimo estranho, como se na verdade estivesse a falar de uma personagem algo afastada do meu mundo.
Na verdade, costumo dizer que o meu pai passou na minha vida como alguém que não conheci. E isso foi exactamente assim ...

Já contei por aqui, algures num outro post, algures num outro tempo, que sou fruto de um segundo casamento do meu pai.  Do primeiro casamento extremamente curto temporalmente falando, nasceu um rapaz, cuja mãe teve uma vida fugaz com o meu pai.  Casaram, ela adoeceu com um problema à época muito grave, um problema pulmonar, tendo vivido apenas os seus dois ou três anos restantes de vida,  acompanhada de uma prima, nas Caldas de Monchique, lugar mais propício a uma melhora do seu estado de saúde.  
Acabou por falecer e do meu irmão ser criado com a generosidade de familiares, nem sequer directos, pois os avós quer paternos quer maternos, não reuniam condições para o fazer.
O meu pai que era viajante de uma firma de ferragens, palmilhava o sul do país, de terra em terra para angariar o sustento não só do filho, como também da família, pois sendo o mais velho de cinco, no Alentejo interior, foi ele que teve que se responsabilizar inclusive pelo futuro dos irmãos.  O meu avô, que não conheci, era pouco dado ao trabalho e aos sete, oito anos, como marçano de armazém, já era o meu pai que conseguia em parte matar a fome que certamente grassava. 
Estamos a falar no tempo anterior à Primeira Guerra Mundial,  estamos a falar do pão dormido na açorda, quando havia, e no tempo do pé descalço, em que para a maioria a escola era uma miragem.
Não sei sequer se o meu pai terá completado a quarta classe ... talvez não !

Foram seguramente tempos muito duros, tempos madrastos, tempos de silêncio e abandono ...

Já numa pré-adolescência do filho, o meu pai viria a casar com a minha mãe e nasci eu.  Aí sim, parecia a vida a compensar, a consertar-se.  Criaram um lar, reergueu-se a família ... ou parecia reerguer-se ...
Quando entrou na puberdade o meu irmão foi diagnosticado com uma doença mental, uma esquizofrenia que culminou, depois de muitas vicissitudes, num internamento que veio a estender-se por toda a sua vida.
Fiquei eu, ficou o carinho, o afecto, a preocupação do meu pai, focada em mim.  Em mim e só em mim!
O meu pai, como disse, viajava ... entrava e saía, oito, quinze dias depois. A minha mãe era a única timoneira da vida ...
Pouco lembro do meu pai, na relação familiar ... Dava-me beijinhos quando chegava, dava-me beijinhos quando partia ... trazia miminhos, como por exemplo fiambre para o pão, amêndoas de licor pela Páscoa, "deixa os livros, já chega  por hoje "... e o medo da repetição e o pavor do meu futuro, tudo guardado no silêncio que nele morava. Só silêncio !
Trabalhava, trabalha mais, não falava, pouco me perguntava ... aninhava-me a roupa da cama ao deitar ... e sofria ... eu acho que ele sofria ... muito, por certo !

O meu pai é uma figura parda, nebulosa, que me atravessou a vida.  Nunca o conheci verdadeiramente! 
Choraria ao estar só ?  Acalmaria os seus tormentos no silêncio dos seus dias ?  Eu era o seu único e total amor, tenho a certeza !  Talvez se tenha orgulhado de mim ... não sei. Se sim, nunca mo disse.  
Comprou-me a Lolinha única boneca de porcelana que chorava quando se embalava.  Chegou numa caixa com um papel de florzinhas azuis, e vive comigo até hoje.  
Noventa anos depois, de alguma forma, ela representa alguém a quem devo a vida mas que tão pouco conheci !...

Anamar

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