sexta-feira, 27 de março de 2026

" A SOLIDÃO DOS SILENCIOSOS "




Durante muitos anos, desde que vivo só, mantive o ritual de tomar o pequeno almoço num café que existia perto de minha casa, um verdadeiro ex-libris da minha cidade, dada a longevidade do mesmo.
Era um espaço amplo, chegou a ter mesas de bilhar que já não lembro com clareza, pois a prática do jogo como pretexto para juntar amigos, vem duma época anterior á minha fruição do espaço.
Do meu tempo mesmo, existia a zona de café / pastelaria, com balcão para quem estava de passagem apenas, e mesas como pequenos núcleos individuais, chamemos-lhe assim, para grupos de amigos, uns aqui, outros ali, que a certa altura, como a assiduidade era diária, já se cumprimentavam, miscigenavam, independentemente de os ligar algum interesse comum.
O café era simpático, as pessoas que não se conheciam passavam a sê-lo, a certa altura já se circulava entre mesas, já se falava de um ou outro tema candente, já se perguntava pelos ausentes ... já era quase uma família que sem combinar, se "combinava" estar ali àquela hora, diariamente ...

Eu ia todos os dias. Aprimorava a minha toilette, calçava o meu sapatinho de salto agulha, maquilhava-me, pois era então impensável para mim ir para a rua de qualquer forma.  Eventualmente, se era o caso de estar em meio de leitura, pegava no livro em causa, além do monte de papéis de rascunho que sempre fazia parte do meu "enxoval intelectual", porque o Pigalle ( assim se chamava o café ) era, foi, por muitos e muitos anos, local dos meus escritos, das minhas reflexões, dos meus pensamentos, de preocupações, dúvidas e interrogações inoportunas muitas vezes, para que as partilhasse mesmo com os mais próximos.
Muito lá escrevi, muito lá falei ... muito lá silenciei também ...
Brincavam, dizendo que se me quisessem encontrar, era passar pelo "meu escritório" àquela hora, pois era certeiro que na mesa do cantinho, lá estaria eu ... e quase nunca se enganavam !
Havia quem tivesse a gentileza de me libertar essa mesa, por conhecer o meu particular apreço pela discrição daquela localização, o que, aliás, me deixava um pouco atrapalhada face a esse particular gesto de delicadeza e simpatia !

Chegou 2019 e esse famigerado Fevereiro trouxe-nos a maldição da Covid e com ela toda a revolução social acontecida.  Vieram os isolamentos, imperativos uns, prifilácticos outros, veio o medo, vieram os espaços fechados, toda a descaracterização das vidas face a cuidados rigorosos a ter no convívio ... os hábitos desapareceram, as ruas esvaziaram, o mundo ensombrou e entristeceu.  
Alguns foram mesmo embora para a terra lá no  interior, onde usufruíam de espaços de férias que se tornaram definitivos, outros confinaram-se às habitações de todos os dias que pareciam redutos seguros, outros ... bem, outros ... muitos ... demais, partiram para todo o sempre, porque o destino para eles estava ali marcado ...

Hoje penso em tantos que me vêm à ideia, rostos que me eram quase família, histórias interrompidas, episódios inacabados !...

E nunca mais retomei a rotina que sem dúvida me dava alma, me dava vida, me fazia sentir viva !
Agora o meu café da manhã é atamancado aqui, na cozinha, descabelada, quase sempre ainda sem banho tomado ... eu e só eu !
Os gatos, a essa hora já zanzam pela casa, as flores às vezes lá me sorriem com mais um botãozinho aberto ... e silêncio, nada mais além de silêncio !...
A Covid remeteu-me ao uso do conforto de ténis nas caminhadas que fazia, deixando para um nunca mais o equilíbrio do saltinho agulha.  O Pigalle e outros cafés ( sem nenhum carisma, é verdade ), nem pra recurso são motivadores.  Os grupos desfizeram-se pelas mais variadas razões que contei, os rostos que cruzo na rua são genuinamente anónimos, e normalmente nunca portadores de notícias alegres...
Também já não levo nenhum livro debaixo do braço e papéis de rascunho são de pouca serventia, obviamente ...

Pouco saio de casa.  Para onde iria ?  O ontem foi já ontem, o amanhã não o adivinho ...
Agora até escrevo ( quando o faço ), directamente no computador ... Deixei de ter projectos, planos, ou sequer sonhos, de produzir o que quer que seja ...
Entristeci.
Resta-me o sol a iluminar-me o recanto da secretária em dias como hoje em que perdeu a vergonha e resolveu tomar tino lembrando que a Primavera até já chegou ...
Restam-me os telhados que jamais me emparedarão, porque o meu horizonte não tem horizonte ... o azul vai até onde eu o olhar ... e o meu olhar é longo, é mesmo infinito, já que vive de vasculhar todas as minhas histórias sem fim ... e são muitas... são tantas !!!

Vivo da solidão dos silenciosos ...
Vou explicar o que isto significa e porque me ocupou hoje o espírito, aparentemente com um saudosismo estranho e sem nexo, na procura de um entendimento:
Ontem, um homem que nunca conheci nem conhecerei, com três filhos de tenra idade, pulou de um sétimo andar, para a rua, talvez acreditando ter asas... asas que o levassem por certo, do mundo que eu imagino silencioso, mergulhado numa solidão que deve ter um nome, embora o não saibamos.
E é esta solidão silenciosa que mina muitos de nós até às fímbrias da alma, que corrói, que não tem som porque não tem voz, que só a sente quem tem a coragem de saltar de um sétimo andar para a rua !

Anamar

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