sexta-feira, 11 de setembro de 2026

" NUNCA FORAM APENAS CASAS ...


Sou alentejana dos quatro costados, como "soi dizer-se" e eu também já o disse vezes sem conta. Respeito e adoro o "meu chão", profundamente.  Aliás, dentro de mim estabelece-se um diálogo silencioso e muito particular qdo passo a ponte e rumo ao sul.  Um "diálogo" que só eu sinto e não sei nem quero explicar...

Contudo, há muitos anos, demasiados anos que lá não ia.  Estranhamente pareço procurar ingloriamente o que lá deixei.  O que deixei em coisas, em pessoas, em lugares, em cores, cheiros e sabores ... talvez simplesmente, eu ME busque, através das memórias que me preenchem o peito, tão só ...
E como nada já lá está, e como os vazios não foram nem nunca voltarão a ser preenchidos, talvez por isso apenas, eu não vou.
É como querer reencontrar-me com a menina das tranças e rabo de cavalo, dos berlindes, dos jogos do apanha, das rodas e das cegonhas em acasalamento no alto da chaminé de tijolos ...
É como querer reencontrar o meu pai subindo as escadas regressado da viagem em gozo de mais um fim de semana, ver a minha mãe a arear o fogão de petróleo naquela cozinha imensa ... ou a regar as sardinheiras da varanda, embora eu saiba de cór e de olhos fechados, como era, como foi, embora eu saiba de cór os nomes das calçadas, das pedras das ruas, dos jardins e da mata ...
E não vou ...

Esta semana aceitei ir, embora eu soubesse ou adivinhasse que tudo aquilo se transformaria numa espécie de romagem da saudade, tão triste e desconsoladora que o coração se me espremeu vezes sem conta ...
O cemitério onde as campas albergam já há demasiados anos, os que foram indo, era ponto de honra desenhado na minha cabeça. Procurá-las e deixar-lhe sobre as pedras junto às fotos desbotadas, as rosas brancas que levara comigo, era coisa assente, já que, agora sim, seguramente não voltarei.
Ainda assim, num esquema labiríntico, aquele campo sagrado não foi generoso comigo, e sob um sol abrasador de mais de quarenta graus, não me permitiu localizar alguns de quem não cheguei a despedir-me no momento ... porque foi assim ... porque a vida é o que é ... impiedosa quase sempre, mesmo simbolicamente ...

Depois, decidira que desta feita, convicta que estou, ser a última, jurara que tentaria abordar o proprietário actual da casa dos meus avós, para que num gesto de alguma compreensão e piedade, me facultasse ( nem que por breves momentos ) o acesso àquele chão impregnado de todos quantos por ali  andaram a vida toda, o acesso onde, num passe de mágica eu me visse menina de bonecas, de cantareiras, de pirolitos geladinhos do poço com as avencas nas rochas submersas, ou donde eu, levada pelas mãos da minha avó, ia à Missa do Galo nos gélidos Invernos, na Igreja da Saúde enquanto a consoada nos esperava perto do madeiro que ardia de parede a parede na cozinha que então eu via enorme... e onde o Menino Jesus viria nessa madrugada, com os promissores chocolatinhos ... 
Um chão de mim própria adolescente, como se num espelho eu pudesse assomar e olhar bem lá para o fundo ... tão longe ... tão distante que nunca nem eu nem ninguém o conseguiríamos alcançar ...com as memórias trucidadas pelo tempo, que só me aparecem visíveis, vívidas, reais, nos sonhos em que aí sim, percorro de ponta a ponta todos os espaços, oiço todas as vozes, todos os chamamentos, todos os risos ... 
Estarei a ficar louca ??
 
Entrei. Antes não o fizesse. A casa, totalmente destruída é um amontoado de entulho. Debaixo das pedras está tudo e lá ficará tudo !
Saí apressada ... Porquê a vida nos trata assim ?!

A seguir viria uma outra casa, a de Évora onde vivi treze anos e de novo outra carrada de injustas memórias.  Em frente, onde o Fomento me presenteava por cada ano com o casal de cegonhas progenitoras, no topo da chaminé de tijolo, o local onde haviam nascido no ano anterior, um ginásio enorme, acompanha a modernidade e as preocupações das gerações actuais, trouxe-me dos meus três, quatro, treze anos aos dias de hoje ...
Acordei. 
Não valeria por certo a pena ir incomodar a dona da casa para a permissão da minha entrada. Afinal eu também sei de cór esta casa e palmilho-a divisão a divisão, ouvindo a voz da minha mãe ...
Nem as árvores da avenida são sequer as mesmas ...

Eu também não ...

Ficaria aqui sem conseguir trazer do meu eu interior ao dia de hoje, o que foi a minha vida ... As lágrimas assaltaram-me vezes sem conta, mas as pessoas não entendem hoje, como é isso possivel...

É que não conseguem perceber o que são na verdade, as casas da nossa vida !!!...

Anamar

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