quarta-feira, 21 de outubro de 2026

" A VIDA LOUCA "

 


Busco a mata para as minhas caminhadas ... já o repeti vezes sem conta.  E como me sinto lá bem, sobretudo se, pela hora pouco adequada, não encontro ninguém !
É como se a natureza à minha volta me envolvesse, me abraçasse, me embalasse mesmo, em mim mesma, nas minhas histórias, nos pedaços da minha vida, nas minhas dúvidas, medos, sofrimentos ou alegrias ...
O equilíbrio do que me rodeia, a perfeição daquelas veredas contornadas por ervas de ninguém, por trepadeiras que ninguém plantou, por árvores que adormecem os pássaros em hora de descanso, a genuinidade dos silêncios ou o trinado dos senhores dos céus, repousam-me, escutam-me e nunca me enjeitam ...
Na mata falo sozinha, acarinho os gatos donos da liberdade, escuto o gorgolejar da água da ribeira entre pedras, olho as abelhas, sigo as borboletas, espreito o sol pelo meio das ramagens ou despeço-me dos seus últimos raios que pintam de laranja o horizonte descortinável, até que um novo dia acorde ... daqui a algumas horas ... amanhã bem cedinho ... se eu ainda for merecedora de o recepcionar, mais um dia.
Sim, porque é mesmo apenas mais um dia, de cada vez !

O mundo está de facto a tornar-se um lugar estranho, demasiado vazio e abandonado.
As figuras de referência das nossas vidas, aquelas que compunham a nossa realidade e preenchiam as nossas existências, estão a ir embora, desertificando o nosso existir.
Hoje partiu Joaquim Letria, figura de referência nas letras e na comunicação ao longo dos anos em que me sei gente. Há dias foi Jorge Palma que esvaziou o panorama musical dos que cantavam a liberdade neste país. Luís Represas, Lobo Antunes, Clara Pinto Correia e mais um punhado deles parecem ter achado que isto por cá já deu o que havia a dar, e foram indo ...
O cansaço e a desmotivação tomam-nos, na proporção dos dias desesperançosos que nos rodeiam.  Olhando à volta pareço ter perdido todas as referências que davam significância à vida, Parecem ter desaparecido as bóias ou as âncoras que nos garantiam a segurança de portos seguros que nos acoitavam em marés adversas.
Sabemos o ontem, o hoje aturde-nos e o amanhã apavora-nos !

É quando penso nos que cá deixarei, na incerteza total de mar de tormenta que se agiganta de dia para dia, numa borrasca que parece nunca conhecer calmaria, que estou certa como irei ter saudades da perfeição daquela natureza  que parece bordada em ponto cruz.
Lá fora parece que o mundo enlouqueceu e o desfecho dessa loucura é o arame sem rede por onde caminhamos ...

Anamar 

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