terça-feira, 22 de setembro de 2026

" PEDAÇOS ..."

 


Assisti há pouco a um podcast com o Professor Doutor Sobrinho Simões.

Muito interessante, obviamente, tendo como seria de esperar, o foco no cancro, que dizima  a actualidade, sobretudo, inquietantemente, a faixa etária dos jovens adultos.
É sempre um gosto ouvir determinadas pessoas, com relevância reconhecida e consolidada pela sociedade, sobretudo pessoas que, apesar do seu mérito próprio, sempre souberam e sabem ser figuras discretas, sem pretensão ou deslumbramento face ao relevo científico que lhes é inegável.
São normalmente pessoas simples, sem egos estupidamente inflados, pessoas assertivas, próximas de quem os escuta, claros na linguagem, que até mesmo o comum dos mortais, inclusive quem não possua conhecimento específico na área, escuta atentamente e com leveza esclarecedora.

Outro cientista, professor, pedagogo, embora duma área totalmente diversa, que gosto de ler, acompanhar, reflectir e se possível aprender alguma coisa, é o Professor Doutor Eduardo Sá, psicólogo clínico, psicanalista e psicoterapeuta, dedicado e conhecido sobretudo pela vertente abrangente da infância e adolescência.

Tenho uma filha, enfermeira especialista em ginecologia e obstetrícia, que por sua vez tem uma filha, agora com nove anos.
A minha filha foi diagnosticada há dois anos com cancro de mama.  A minha neta é filha de pais separados, sendo que o pai passa alternadamente em trabalho, períodos no estrangeiro e em Portugal.
Eu, sendo felizmente saudável, tenho já alguma idade potencialmente provocadora de possível preocupação e /ou, insegurança, até porque vivo só e ambas as minhas filhas ( tenho portanto outra ), não residem na terra em que vivo.
Acresce que as respectivas vidas são de alta responsabilidade o que as torna extremamente muito ocupadas, razão pela qual, sempre "está tudo bem", quando falamos telefonicamente.
Essa, a estratégia que utilizo na comunicação. Afinal, para quê, outra ?...

Mas o que me aflige particularmente não é sequer esta realidade.  É certo que de há alguns anos a esta parte, face às vicissitudes da vida, fui reduzindo e afunilando a minha existência, ao reduto caseiro.
Pouco saio, constato que não tenho paciência com a trivialidade de assuntos com que as pessoas ocupam os seus dias, consequentemente as evito sabendo embora que esta postura é melindrosa e potencialmente perigosa. De facto vivo mergulhada num universo cada vez mais redutor, fechado,  desinteressante, num imobilismo que me arrasta numa vida sem objectivos, igual, cansativamente igual todos os dias, o que potencia como se sabe, condições para o agudizar de patologias do foro mental ...

Mas pronto, não era sobre mim que este post recai, mas sim, sobre a minha preocupação com a saúde mental da minha filha.
Neste  momento, a partir da altura em que a doença se lhe declarou e apesar de controlada, diria mesmo extirpada fruto da intervenção cirúrgica radical a que se sujeitou, além de ter alterado bem radicalmente o seu tipo de vida e preocupações, vive obcecada com todos os artigos, informações, metodologias, posturas, etc, como se em permanência corresse atrás de um prejuízo inalcanável.
Ela lê, segue os artigos, as correntes de opinião, os colóquios, os debates ... enfim, parece mais uma postura doentia para a minha idade e não para a dela...  
Depois, como profissionalmente mergulha diariamente na área da saúde, costumo tentar desmistificar os dramas que vive, brincando ao dizer-lhe que só fala em doenças, e isso é coisa de velhos ... !😀
Aqui para nós, é assustador o número de casos com um final bem triste, ocorridos com amigos, colegas dos vários locais por onde passou ou com quem trabalhou, que eu acho a deixam sem chão constantemente ... Tento contudo aligeirar as situações tanto quanto posso, mas não sinto a minha filha feliz !

Vive uma preocupação excessiva com a educação e a vida da filha.  Parece querer proporcionar-lhe em permanência, objectivos que a tornem feliz, como se não houvesse amanhã !... Persegue em permanência uma preocupação de que a vida não moleste muito a Teresa, contorna as dificuldades, atapetando-lhe o caminho, com uma pressa que por vezes me parece recear não ter tempo para a preparar para o futuro !
Eu sinto isso e parece-me raiar em si um comportamento algo patológico e pouco saudável, que não sei explicar mas que muito me angustia.

E todo este conjunto de vectores díspares, difíceis e controversos, são uma mistura explosiva a que não consigo responder.  Bem ao contrário, fico cada vez mais e mais, inerte, como que atolada numa corrente lamacenta, não me mexo, só sinto conforto numa fuga desesperada para a frente, em noites sucessivamente mais longas, no silêncio, no desinvestimento, no desinteresse, em que nada me faz sentido ou me vale a pena, num cansaço profundo e sem fim, numa total e absoluta ausência de foco !...
Estou saturada de mim mesma e não enxergo sequer um lampejo de sol que pelo menos guiasse o meu destino !

Anamar

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