sexta-feira, 22 de novembro de 2024

" OUTUBRO ROSA"

 


 Para mim, sempre Outubro protagonizava a verdadeira mudança de estação.  É aquele mês em que nós dizemos :"pronto, o tempo já virou  de vez", e não erramos, seguramente.
Os laranjas, os castanhos e os desnudos das árvores exibem-se, o sol amortece na luminosidade, os dias parecem começar a encarquilhar rumo à estação que promete chegar mais à frente, o chão atapeta-se dos ocres rodopiantes na aragem, a anunciarem o sono e o silêncio que hão-de vir ...
Outubro sempre me cheirou a castanhas assadas, a "pão por Deus", a dias em que já apetecia vir pra casa mais cedo, a miúdos regressados das tarefas diárias, trabalhos escolares a cumprirem-se, até porque a hora mudada, levaria para a cama também mais cedo.
Era assim Outubro, antecedia o mês dos meus anos, o que também particularmente não me entusiasmava sobremaneira, para mim sempre teve uma cara tristonha, esteve sempre associado à partida de alguns familiares conforme ouvia a minha mãe contar ... mês do cair da folha ... em suma, nunca gostei de Outubro !

E confesso, seguramente por distracção, nunca me apercebera, nunca precisara perceber, que por ano, todos os anos havia um "Outubro rosa", rosa de menina, criança ... mulher ...
Rosa de rosas, rosa de perfume, rosa de doçura, de carinho e afecto ...
Rosa de mãe, de filha, de irmã ... Infinitamente, rosa de esperança !...
E esse Outubro justamente, feminino seguramente, é a campainha de alarme para que nós, as mulheres sejamos por isso e nesse momento pelo menos, levadas a pensar no flagelo que se abate sobre milhares de nós, sejamos filhas, mães, amigas, conhecidas apenas, assim, na constatação de uma máquina, que inesperadamente nos apresenta a "ele", a "isso", que sempre nos pareceu coisa distante, coisa que só acontece aos outros ...
E tenhamos vinte, trinta, quarenta ou setenta anos, e tenhamos adquirido mesmo uma certa tranquilidade de já não nos sentirmos ameaçadas, "ele" aí está, fotografado numa máquina gelada de emoções, indiferente e carrasca, que ignora aquilo que acabou de fazer, ameaçar, massacrar e destruir famílias para o resto da vida ...

Como pode ser rosa este Outubro ??
Como pode ter amenidades se até o sol desaparece, como que envergonhado, no nosso horizonte ?

"Piso -1", informaram-me. Mas não seria preciso, se por cima da porta de acesso ao serviço, as letras eram garrafais ...  Talvez as lágrimas mas embaciassem ...
Uma boutique específica no que vende ... alguns produtos farmacêuticos, lenços bonitos, toucas, gorros, turbantes apelativos ... 
Circulam pessoas que exibem cabeças e rostos totalmente despidos de cabelos que esperam p'ra crescer, na proporção da esperança que teima tanto em não se anunciar ...

Como pode ser rosa este Outubro, se quarenta e seis anos é apenas metade duma vida ?  Se sete anos são os anos que ainda pedem colo, se são os anos em que se aprende, duma forma doce e aconchegante, como poderá ser a vida que nos espera, se os alicerces que nos irão espaldar para o já tão difícil, ameaçam derrocada ??!

E porque já não consigo pintar Outubro com as cores que lhe assistem, porque já não consigo, por cada dia que começa, despir a capa do medo, um medo colossal com rosto de monstro que tem a mania de começar o dia comigo e abençoadamente comigo adormecer, graças aos comprimidos que me mantêm em pé, vivo em silêncio, evito escutar tudo o que generosamente me dizem e que eu sei ser o que diria também ... apenas porque ... não há absolutamente nada a dizer ...
Falo com os gatos, pouco desço à rua, silencio o telefone, saio tardíssimo da cama e recolho cedíssimo, além disso durmo, durmo, durmo ...
Esta noite a minha mãe insistiu nos sonhos. Não sei como foram, mas ela esteve lá.  Em todos, que eu sei.  Deve ser porque a massacro o tempo todo, pedindo-lhe a ajuda que lhe pediria se por aqui estivesse, pedindo-lhe  o colo que ainda hoje me falta.

Enfim ... estarei simplesmente a viver o que milhões de almas já viveram. Não sou mais nem menos que ninguém.  Todo o sempre disse ( quase sempre desinibidamente entre amigos ) : " se um dia tiver um diagnóstico de cancro, ele irá acompanhar-me até ao fim... não acredito na cura !"...
Ontem, ouvi da boca duma médica, neste momento também paciente da doença  ( e já o escutei muitas vezes ) ... "um doente oncológico é SEMPRE um doente oncológico. O cancro não se cura " !

Como pode Outubro ser rosa ??!!...

Anamar