Será um blogue escrito com a aleatoriedade da aleatoriedade das emoções de cada momento... É de mim, para todos, mas também para ninguém... É feito de amor, com o amor que nutro pela escrita...

terça-feira, 30 de janeiro de 2024
" EU NÃO DEIXO O VELHO ENTRAR !... "
domingo, 21 de maio de 2023
" É isto assim ... "
sexta-feira, 21 de outubro de 2022
" NESTE CINZENTO DA TARDE ..."
segunda-feira, 29 de novembro de 2021
" OUTONICES "
domingo, 28 de fevereiro de 2021
" NO TEMPO DOS NINHOS ..."
A Primavera anuncia-se pelos quatro cantos da mata. Os dias solarengos, de um sol doce e manso, têm aquecido, e tudo quanto é planta acordou do sono letárgico do Inverno e começou a abrir os pequenos borbotos verdes que numa espécie de passe de mágica, desenham incipientes os primeiros projectos de folhagem.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
" BALANÇO "
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
" SÓ O TEMPO ... "
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
" DESFRALDANDO MEMÓRIAS "
Já não escrevo há muito tempo. Por um lado, tenho estado dedicada a uma tarefa que aprecio particularmente - a correcção visual das fotografias tiradas na viagem aos Açores, já lá vai mais de um mês ( o tempo voa !... ), por outro porque me sinto meio seca por dentro, atrofiada mesmo, sem absolutamente nada para dizer, ainda que rumine o tempo todo, saltando de estados de alma em estados de alma, de emoção em emoção, de sentimento em sentimento ... ingloriamente !
domingo, 20 de setembro de 2020
" DIVAGANDO ... "
O Outono está a chegar ...
De mansinho bate-nos à janela, e entrará pela porta principal dentro de três dias. O equinócio de Outono, ao virar da esquina, fez-se já manifestamente presente nestes últimos dias ... A chuva chegou com ameaça de borrasca considerável, as temperaturas desceram, o céu cobriu-se de nuvens e o sol amarelou na tonalidade, amansou e tornou-se doce e envolvente, como só este sol de fim de estação o sabe ser ...
terça-feira, 16 de junho de 2020
" MAIS UM DIA SEM HISTÓRIA "
Dia sem história, modorrento e arrastado. Dia daqueles que não levedam, que não levantam, quais claras em castelo sem fôlego.
Ontem, dia de aniversários. Dia destinado a festa, alegria e disposição. Jantar mascarado, naquele ritual fantasmagórico de chegada ao restaurante. Cumprimentos de longe, de leve, sem compromisso, sem beijos ou abraços. Resta a bebé, que dorme o sono dos justos sem saber que colo ou que peito a aninha ...
Tudo estranho, eufemisticamente desenhado como jantar de família, porque o calendário mandou ... a vontade não tanto !
Hoje, esbarro em mim própria, embrulho-me nas pernas, por astenia de vontade. Encalho nas letras que se negam a formar palavras, menos ainda frases, ideias e histórias ...
Desperdiço tempo. Levo os dias a desperdiçar os dias, neste arrastar de tempo sempre igual.
Tempo engelhado, enrugado, enrodilhado, envelhecido de esperado, tempo cansado de sonhado em vão. Tempo sem história já ! Maculado do ranço acumulado ou dos sonhos vazios ...
Tempo escrito com histórias reinventadas, para ver se é menos inglória a jornada ...
Mais um dia com o sol a disparar rumo ao horizonte ... com pressa de chegar, porque a travessia de oriente a ocidente, é longa e desesperançosa. Daqui a pouco é noite !
Já não há histórias que pintem de azul os dias, e de estrelas as noites.
A caminhada é insípida e sinuosa. Labiríntica e sem rumo, como as estradas no deserto que rumam a lugar nenhum, embora sempre haja um oásis na cabeça de cada homem !
Puro engano ! Atrás de cada duna, há só mais uma duna, e nunca se chega ao fim da eternidade, e as miragens sempre atentam nas esquinas das areias ...
Cansaço. Canseira. Saturação. Tempo inóspito rumo ao Verão, que se abeira sem água que nos dessedente.
As rosas já floresceram. Os jacarandás pintalgam de lilás e mel as pedras da calçada. E tudo foi em vão, porque a cidade não se acendeu com a alegria de sempre.
As vozes que nos povoam as noites desertas já não falam do amor embrulhado em laço de fita, as gaivotas que voam por aqui, já perderam o rumo das falésias distantes ...
E só há uma imensa e pesada solidão !...
Anamar
quarta-feira, 10 de junho de 2020
" TEMPO DE RECUAR "
Hoje foi dia de recuar no tempo ... e voltar no tempo, nunca dá coisa boa !
Sentia-me totalmente desocupada, num daqueles dias que cirandamos sem destino, nem que seja no habitual périplo caseiro, mexendo aqui, abrindo ali, olhando acolá, com todo o tempo do mundo à nossa frente.
Depois de mais uma noite mal dormida, quase uma noite não dormida, mercê do disco partido que adquiri, e que dá pelo nome de "gata surda a miar pela casa fora, ininterruptamente pela madrugada" ... fui caminhar com sacrifício acrescido, pois parecia-me antes, estar a cumprir uma penitência e não propriamente a usufruir de um tempo lúdico ... tal o estado "desgraçado" a que me sentia votada.
O meu rumar lá atrás começara já durante a noite, num dos "intervalos" em que até consegui sonhar ... Os sonhos, é sabido, umas vezes lembramos, outras não ... desta vez fiquei com farrapos na memória.
Ainda assim, era um sonho meio baralhado ( como aliás convém a qualquer sonho que se preza ... 😃😃😃 ), pois remontando a factos pertencentes a quinze, dezasseis anos atrás, incluía anacronicamente a minha gata no enredo ...
Percebe-se claramente porquê. É que enquanto eu tentava dormir e até mesmo sonhar, ela continuava a "serenata" no corredor, paredes meias comigo ... Só pode ter sido isso !!!
Almocei e vim dar volta a uma gaveta cujo conteúdo precisava reavaliar. De lá pingaram então memórias, em que há muito não mexia e que já nem lembrava estarem por ali. Documentos escritos, fotografias ... enfim, algumas das coisas que sou perita em manter comigo.
Quando um dia eu for em viagem de ida, muito trabalho terá quem cá fica para "encaminhar" para o "arquivo morto", como diz a Lena, o tanto que guardo em caixas e caixinhas, sacos e dossiers que na verdade só a mim respeitam ...
Ou então tenho que me cultivar o sentido do desapego, atempadamente, para ainda de cabeça feita, conseguir cortar os laços afectivos e emocionais que me prendem a tão valiosas e inestimáveis insignificâncias na minha vida ... e dar-lhes eu, o destino que então entender !
Não será fácil, conhecendo-me como me conheço ...
Essas incursões pelos idos de dois mil e pouco, mais não foram do que uma espécie de reencontro com aquela de quem tenho uma infinita saudade, e com tempos que nostalgicamente me assomam à mente e ao coração : a que eu era então, a vida que eu detinha e as histórias da minha história, nesses anos transactos !
Ultimamente dou por mim ( nesta escorrência temporal que parece ter-nos estagnado as existências ) em romagens absurdas, em buscas inglórias da minha silhueta, da energia criativa de que dispunha, dos sonhos que me invadiam e me faziam sentir viva, da força impulsionadora que me guiava ... até do meu sorriso ...
Ultimamente, nesta vida atordoada que é a nossa realidade actual, arrasto dias insipidamente iguais, sou uma sombra descolada de um corpo, que meio vivo meio morto, vai percorrendo tempos sem definição, rumo ou norte. Sinto-me pardacenta, baça, sem luz e sem brilho no caminho. Sinto-me sem vontade ou decisão, como as palavras que não saem de línguas entarameladas ...
Olham-se as fotos, perscrutam-se os olhares, avaliam-se os sorrisos ... relembra-se este e aquele episódio, fazemos rewind das histórias, reabrimos as emoções ... e parece que repegamos o passado e o arrastamos ao presente, nem que seja por brincadeira, por saudosismo ... apenas por pirraça, como se isso pudesse consolar-nos, acrescentar-nos ou compensar-nos, pelo menos !
Mas nada disso é verdade. Nada disso acrescenta, afinal, um pingo que seja de sonho, à inevitabilidade do transcurso inexorável do destino de cada um ...
... simplesmente porque o tempo não recua nunca !!!
Anamar
domingo, 23 de fevereiro de 2020
" POR AÍ ... "
Tarde ensolarada de mais um Carnaval ...
Aí está uma época do ano e uma efeméride que sempre detestei. No meu senso de humor não encaixa ter que me "divertir" quando o calendário assim o decide.
Mas hoje o dia foi absolutamente generoso com os foliões, com temperaturas de franca Primavera, embora ainda tenhamos um mês de Inverno pela frente.
O Carnaval é sobretudo para as crianças que, seja qual for a fatiota que lhes inventem, ficam felizes e eufóricas, na magia de uma personagem encantada.
Relembrei inevitavelmente os anos aqui em casa, com duas para mascarar, nos tempos em que ainda não existia a panóplia de oferta extremamente variada, criativa e baratinha, propiciada pelas lojas dos chineses e afins.
Os fatos de então, eram confeccionados ( o que era uma bela de uma chatice ), ou alugados, o que obviamente não era para todos os bolsos.
A escolha não tinha muita margem de variação ( sempre se tentava que no ano seguinte se retomassem os modelitos já passados, com a inerente resistência por parte de quem os envergaria ... 😃😃😃 ).
Havia que rentabilizar o mais possível o trabalho e o capital ... ( rsrsrs ). Assim, a minhota, a sevilhana e as fadas, eram coisa certa e segura ...
Depois passava-se à epopeia de vestir, de pentear adequadamente e de maquilhar.
Enquanto que uma das minhas filhas desejava, suportava e participava mesmo, na "construção" da figurinha, não reclamando e prestando-se a todas as facécias necessárias (cabelos ripados, palha de aço na cabeleira para segurar a peiñeta, e imobilidade quase total para que a pintura saísse a preceito ), a outra quase tinha que ser manietada para lhe conseguir fazer qualquer coisa. Fugia, não queria, esquivava-se o mais que podia. Era um cansaço e uma prova de esforço, conseguir sair incólume de tal odisseia !
Hoje, tem uma filha com idade para as mesmas tropelias.
E também a mãe "corta um dobrado" para a convencer, quase ingloriamente, a deixar pôr a bendita fatiota e prender as asas de borboleta, ou a bandolete das antenas no alto do cocuruto ... o máximo permitido ... ( rsrsrs )
Nessa altura, o Carnaval ainda tinha sabor a vida, a brincadeira, a boa disposição.
O tempo passou. Os mais velhos ignoram as palhaçadas da época. Dezoito, quinze e doze anos conferem-lhes o "estatuto" de gente muito crescida e séria ...
Resta a "pitorrinha" de pouco mais de dois anos e meio, com quem, como disse, o sucesso não parece ser muito !!!
Eu agora ando assim. Não sei se serei só eu ( penso que não ), para quem a vida se norteia por revivalismos de tempos passados, ou por uma afobação sentida e urgente, de esgotar tudo aquilo que ainda possa, enquanto possa.
Uma vida feita "às pressas", como se fosse acabar-se amanhã ... e uma vida de lembranças e recordações, boas e más ... sempre gratificantes, porque o são da minha história.
A fragilidade da existência, a efemeridade da mesma, a precariedade dos tempos e a corrida vertiginosa dos dias, assustam-me e pressionam-me. As vinte e quatro horas voam, literalmente. Levanto-me tarde, é certo, o que consequentemente as encurta. Mal tenho aqui o sol a inundar-me, frente à janela, já daqui a pouco estou a descer os estores, porque o céu laranja lá longe no horizonte, me anuncia que mais um dia está a findar ...
Nada disto é obviamente saudável. Nada disto deveria ser condicionante das nossas vivências diárias. Afinal a vida segue indiferente, angustiemo-nos ou não. E tudo será o que tiver que ser, quando tiver que ser !...
O mundo é cada vez mais um lugar perigoso de se viver. Viver, é cada vez mais uma condição humana, exponencialmente de risco elevado...
Cerca de duas mil e quinhentas pessoas morreram já, com a pandemia que se alastra indiferente, neste barco de casco disfarçadamente roto, que é o planeta. O medo instala-se e grassa.
Não adianta, dizem. Sabemo-lo bem ! Afinal, como estancar ou refrear num mundo de globalização, a circulação permanente, incontida e fácil das pessoas e dos contactos ?!
Assim, a juntar às incertezas que se vivem, inerentes às dificuldades experimentadas por todas as realidades existentes a nível pessoal, familiar e social ... a juntar ao horror dos conflitos generalizados, das guerras instaladas, dos ódios, da fome e das perseguições ... a juntar às mais disfarçadas agressões a que o ser humano é sujeito em permanência ... à constatação angustiante indiferente e doída da degradação do planeta, vítima do descaso e da loucura de alguns ... a juntar a tudo isto, digo, como se um castigo viesse redimir tanta ignomínia, como se se fizesse um qualquer acerto de contas no Universo ... como que um cerco se fecha, e as doenças acrescidas àquelas que já nos fustigam, amarguram-me, intranquilizam-me, assustam-me, e apavoram mesmo os meus dias ...
Não será preciso tanto, dirão. Afinal, para se morrer basta estar vivo ! - Velhíssima máxima ...
Nos últimos dias têm partido figuras públicas que, por o serem, não nos passam despercebidas. Indivíduos que também escreveram, à sua maneira, a História do nosso país. E, apesar de para mim representarem apenas isso ... o facto de deterem em si, o protagonismo do enriquecimento da nossa realidade nas mais variadas áreas, culturais, sociais e políticas, com o contributo que nos legaram ... sempre me sinto empobrecida, nostálgica e interrogativa com o seu desaparecimento ... como se o mesmo fosse um processo contra-natura, despropositado e ilógico ...
Afinal foram meus contemporâneos, são meus "conterrâneos" e responsáveis também, por um acréscimo e uma valorização integral dos meus conhecimentos, da minha personalidade ... da minha individualidade enquanto gente, aqui e agora nesta Terra !...
Bom, não alongarei mais a escorrência dos meus estados de alma ...
Hoje tratou-se tão somente disso mesmo ... um mix aleatório, um fluir solto, desconstruído, sem elaboração prévia ... sem linha ou estrada previamente decidida.
Simplesmente uma torrente a esmo pelo meio dos escolhos que me atormentam, das interrogações que me coloco, das perguntas insolúveis, das respostas silentes às dúvidas audíveis ... Exactamente como me foram chegando ...
Por aí ...
Não mais ...
Anamar
domingo, 16 de fevereiro de 2020
" REGRESSO ÀS ORIGENS "
Fui ao Alentejo.
E o Alentejo está lindo neste fim de Inverno, início de uma Primavera que já se apruma a chegar.
Tem chovido alguma coisa e a Natureza que é frugal, desponta em força, exuberantemente verde, prometendo para breve, o multicolorido das flores que começam a anunciar-se pelos campos fora.
Os pássaros chilreiam, em tempos de acasalamento. E volteiam, em afobação de ninho.
A vida brota, o ciclo reinicia-se e aquele chão generoso não se esquiva nunca.
As cegonhas empoleiram-se, geração após geração, no ninho que as viu nascer, agora que notoriamente já não emigram para o norte de África. O clima, a garantia de satisfação das necessidades alimentares e uma segurança nas vidas, fixa-as na paz de habitações colectivas, em verdadeiros "condomínios" pelos postes de alta tensão acima, à beira das estradas.
Depois, o gado pastoreia placidamente e é uma paz para a alma ouvir-lhe os chocalhos, o balido das ovelhas, o ladrar dos cães ... a brisa que perpassa leve e solta pela charneca ...
e os sinos dos campanários longínquos, dando as horas numa lentidão arrastada, numa paz modorrenta, como as sombras doces e longas, projectadas por um sol manso e também ele meio dormente ...
E o silêncio ... aquele silêncio que é e não é, que se se escuta e adormece, em cumplicidade com as memórias e com a presença "ainda", dos que já partiram mas que sempre estão por ali ...
E lá estão as gentes, as vozes cantadas, a solicitude nas respostas, se uma pergunta lhes é feita ... Sempre ... como sempre, ao longo dos tempos ...
Encontrei os mesmos velhos, na ociosidade da pirisca esquecida no canto dos lábios, nos bancos de pedra do largo da Matriz ...
Velhos do asilo, a maioria ... que procuram conforto no calor dos raios do sol, e paz na certeza do reencontro diário ...
Senti-lhes as mesmas conversas lentas ... as mesmas de há cem anos. As mesmas de toda a vida. De todas as vidas ...
E aquela terra, não nega que é a minha terra, deserdada que estou na cidade impessoal.
O sangue fervilha logo que os cheiros, os sons, as cores e o olhar ( que de repente ganha asas e espaço para se alargar além-horizontes ) descomanda e ciranda livre e solto, como eu o era, nos tempos de pai, mãe, avós, tios e primos ...
Todos já foram indo, abrindo caminho ao que há-de ser, quando for ...
E as pedras da calçada ainda falam de mim. Mesmo que as tranças já não existam. Mesmo que da casa mãe, só existam as paredes iguais, esvaziadas e silenciosas, sem alma ... porque são outras, as mãos que a detêm ...
E as histórias também, porque essas, são perenes, porque são histórias de Vida !
O largo, dos jogos da macaca, das brincadeiras de roda, da "linda falua", das covinhas dos berlindes ( tampas dos pirolitos mantidos no fresco do poço, revestido de avencas verdes e frondosas, para adoçar as refeições ) ... está lá, intocável, parece.
É um largo de memória e saudade !...
Da loja do Zé Marovas, com a exposição de tudo quanto lá se vendia pendurado em pregos, na rua, parede fora, desde as pás de lixo em zinco, às vassouras, aos alguidares de vários tamanhos, às panelas, às pequenas alfaias agrícolas, escadotes, canas e pincéis para a caiança, tintas, cal e tudo quanto a necessidade exigisse ... só existem os pregos, e portas e montras entaipadas há muito ... numa parede de velhice e solidão ...
A barbearia do Zé Francisco, lugar de amenidades, encontros e novidades da terra, também já foi.
A senhora Teresa, das miniaturas em barro para as brincadeiras da raparigada, partiu há muito.
As senhoras Capitoas, frente à casa da avó, onde os queijos frescos, de alavão pessoal, e o almeice que fazia as delícias da minha mãe ... são também uma lembrança distante, apenas.
A menina Sofia e a irmã, solteironas, austeras regentes escolares já então aposentadas, muito respeitadas e vivendo duas portas abaixo ... sempre paravam pela janela ou pelo postigo ... E havia que serem cumprimentadas, à passagem. A educação assim o impunha ...
A igreja da Saúde, igreja das missas do Galo pela mão da avó embiocada no xaile dos dias solenes, na gélida madrugada dos Natais ... continua a "desvendar-me" com nitidez, a luz clara do altar, o incenso do turíbulo, o som dos cânticos ecoando, e a imagem do Menino cujo pezinho beijaríamos à saída. "Vejo" tudo claramente ... enquanto a lembrança mo deixar ...
E as horas foram indo ...
Breve, a torre do castelo daria as horas do regresso. E deu.
Lá longe, a cidade de sempre, nos lugares de sempre, com as pessoas de sempre ... na vida quase sempre igual, requeria que eu voltasse ...
Anamar
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
" E A PRIMAVERA AINDA DEMORA A CHEGAR ... "

O ano começou há exactamente uma semana . É um recém-nascido peremptório, teimoso e cheio de artimanhas.
Veio carregadinho de vontades imperativas, sem dar cavaco a ninguém.
Prometo que não vou falar daquelas frases "kitsch", tipo "uma nova página a ser escrita", " vêm aí 366 novas oportunidades ", "o tempo passa sozinho, mas és tu que viras a página" ... " meta para 2020 : ser feliz! " ... e bla bla bla ... tipo receitas do Pantagruel ...
Irrita-me o vazio de frases feitas e irrita-me a bonomia de mão passada pela cabeça ... deixa lá, vai ser melhor, não desistas dos sonhos, depois da tempestade vem a bonança ... basta acreditar ... e etc, etc, etc ... Tudo lindinho, tudo fofo, tudo iluminado ... com os corações pseudo plenos de paz na Terra, amor e boa vontade !
Como se tudo fosse exactamente assim ... como se a vida, o tempo, a nossa existência fossem exactamente bombons embrulhados em pratas coloridas ...
Acho que estou gradualmente a perder a capacidade do sonho. A capacidade do acreditar. A capacidade da esperança. E tudo isto é grave ... é mesmo muito grave !
A estrela do presépio não assomou por aqui. Não me ensinou caminhos, e o meu "deserto" está mergulhado na profunda escuridão de todos os desertos, onde só o firmamento vive ponteado de fogachos longínquos, alguns inexistentes, apagados e mortos ... à semelhança de muito, do tanto que inventamos.
A sua luz ficou lá atrás dos tempos e das eras ...
Entra ano, sai ano, correm horas, dias e meses, no desfiar implacável de amanheceres seguidos de ocasos. Ilusoriamente acredita-se que tudo será privilegiadamente diferente, só porque o calendário ( essa invenção de mau gosto ), deixou pingar a sua última página ...
Um Inverno, agora generosamente solarengo, pintalgado de azuis e laranjas, enfeita-nos os dias, promete-nos alvoreceres auspiciosos.
Não faço intencionalmente previsões. Não desenho metas ou pinto cenários, obviamente.
Vou só vivendo ... tão simplesmente. Vazia ... ou melhor, esvaziada de ilusões. Acho que essas, feneceram, tombaram quais folhas caducas, das árvores de finais felizes, que se despem impiedosamente, rumo ao sono retemperador e intimista da estação que vivemos.
E a Primavera que ainda demora a chegar ...
Anamar
domingo, 22 de dezembro de 2019
" NEM SÓ OS PÁSSAROS ... "

Só os pássaros passam as redes das escolas desertas, onde os risos soltos das crianças não ecoam, neste período de silêncios escolares ...
As portas estão cerradas, as relvas desabitadas e os bancos das merendas sozinhos e tristes ...
Os pássaros, nos seus voos de liberdade sempre passam fronteiras, sempre vencem distâncias e vão além dos muros.
As folhas dos Outonos que já foram, atapetam de ocres queimados o chão molhado das chuvas persistentes. As azedas, as macelas e outras vivazes, festejam em explosão de alegria os verdes das alcatifas com que a Natureza forrou as terras sedentas ainda há pouco. As águas derramadas dos céus encastelados foram bênção prazeirosa e potenciadora da floração das espécies de Inverno.
Na mata também só há silêncios. Os habitantes não se vêem. Só se ouvem. Continuam a saltar por entre os galhos. Abrigam-se da intempérie nas árvores de folha perene. Lá terão os ninhos, por certo.
A Natureza despiu-se. Só os musgos e os líquenes trepam os troncos, enquanto que os cogumelos selvagens ponteiam o chão, e as primeiras bagas começam a despontar ...
A solidão ... uma solidão, um abandono e um desconforto parecem pairar, e ombreiam com o meu sentir. Os silêncios estão-me por dentro e por fora, como se a alma e o corpo iniciassem uma hibernação providencial ...
E há uma paz. Só a busca daquela paz me leva para os caminhos enlameados. Me leva para as veredas desertas, na certeza de que nem vivalma anda por ali. As pessoas fogem do cinzento, das sombras, da escuridão mesmo, que fecha os dias antes de tempo. As pessoas fogem do silêncio ... do que parece ausência de vida ...
Eu, não. Eu vou por lá ganhar um banho de tranquilidade, de equilíbrio, de contemplação, como se fosse uma purga da civilização que se impõe. Como se fosse uma fuga ao que deve sentir-se e viver-se agora ... ainda que se não sinta ... Só porque é Dezembro, só porque é Natal ... e outro ano tudinho novo a escrever-se, abre o livro ...
Eu vou por lá beber, respirar, empanturrar-me de Natureza ... porque é a única fiável, certa e segura que me envolve. A única perfeição que nos coexiste, neste minúsculo ponto do Universo ...
E o conforto que experimento não se descreve. É uma masturbação infinita na alma, e uma faxina retemperadora no coração !
Acho que estou a tornar-me eremita. O ser humano cansa-me mais e mais. A capacidade de emaravilhamento, de sonho, de identificação, de plenitude, de êxtase ... neste momento só a encontro no diálogo que estabeleço com os seres irracionais que me cercam.
Sinto-me feliz e em paz com a ternura dos gatos que vivem comigo. Sinto-me preenchida e leve, quando persigo o voo das gaivotas frente à minha janela. Respiro até ao âmago de mim mesma, no cimo de um penhasco, no alto de uma falésia. Converso com os ouriços dos castanheiros, e silencio ao escutar os avanços e os recuos das marés, nos areais açoitados pelas ondas alterosas ...
Escuto a brisa leve que perpassa, e respeito a força dos vendavais que ordenam ...
Fascino-me com os acordes da música que toca dolente aqui ao meu lado, com a doçura da tarde que se pôs ...
E aí sim ... sinto-me um pouco feliz !...
"Só os pássaros passam as redes das escolas desertas, onde os risos soltos das crianças não ecoam, neste período de silêncios escolares ..."
O meu pensamento livre voa com eles além das redes, além dos muros e das paredes, além das convenções, do certo e do errado, das memórias, da nostalgia que me toma ... numa troca muda de palavras com o silêncio do meu quarto !...

Anamar
sábado, 9 de novembro de 2019
" VOU "
Mais um Novembro no calendário.
Nasci nele e no entanto é um mês que me atormenta um pouco. Transmite-me um misto de emoções difíceis de descrever. Vira-me p'ra dentro de mim mesma, recolhe-me às cinco da tarde, como o dia que se encerra ...
E fala-me, fala-me de tempo e de passados. Que coisa chata !
Novembro tem datas e memórias que saltam da profundidade do existir e escarafuncham-me a alma. Ainda que eu não queira.
Plantam-se-me na cabeceira como um vaso de cardos a atormentarem-me o sono.
Como uma mosca impertinente e invasiva, Novembro não respeita o aqui e o agora. Sendo que o aqui e o agora é o que vem depois do existir, em tempos que foram meus ...
Agora tudo parece demasiado impessoal e distante ...
Há escorrências do coração que não se estancam. E quando nos pensamos apaziguados ... não é nada disso.
Novembro tem datas demais !
Novembro tem as saudades que tombam, tantas como as folhas do Outono que o aninham ...
E vou embora. De novo vou buscar lá fora, longe das rotinas das coisas e das pessoas, num anonimato ou clandestinidade cómodos, uma tranquilidade e um distanciamento que os lugares e as memórias me não permitem por aqui.
Esta demarcação temporal dos anos, neste corrupio vertiginoso sem parança, lembra-me a cada momento da efemeridade da condição humana. A celeridade com que os meses nos desfilam no calendário, a precariedade de certezas e seguranças, fazem-nos sentir a cada momento, com uma fragilidade sem tamanho, como se caminhássemos em arame sem rede protectora.
E a passagem dos anos, e as limitações que acarretam em termos de saúde física e mental, consciencializam-nos para a certeza de que os prazos de validade se nos escoam por entre os dedos, e de que estamos mesmo a cumprir simplesmente um ritual de passagem ...
Vou p'ra outro mundo, outras civilizações, outras gentes e outros costumes. Vou lá para os lados onde o sol nasce, onde os cheiros dos trópicos e o calor de dias com outras cores, nos afagam a alma.
Vou para uma terra com palavras que não conheço, com sabores que desconheço e com um desapego e uma espiritualidade que sempre me tocam.
Vou buscar silêncios ... talvez. Vou buscar ecos nesses silêncios. Vou ao encontro da genuinidade dentro da simplicidade.
Vou recarregar a alma, no conforto do reencontro comigo mesma, imergindo em multidões de seres.
Vou olhar as cores, beber a brisa adocicada das terras quentes, afundar a alma no azul transparente de águas mansas e escutar os sons.
Vou ... porque há tanto mundo a conhecer por aí ... e eu só tenho uma vida. Uma vida curta, mas uma ânsia desmedida !...
Vou ... talvez simplesmente, em busca de mim mesma !...
Anamar
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
" INSATISFAÇÃO "
Estou aqui em voltas e mais voltas, sem que jorre sequer um assunto, um tema, algo interessante para escrever.
Dispensei uma amiga com quem iria tomar café, na expectativa reconfortante de que, aqui no meu canto, seria seguramente bafejada com alguma ideia medianamente aceitável. Qual quê ... sinto-me vazia por dentro, ou melhor, sinto-me esvaziada de conteúdo.
Crise de criatividade, consciencialização da desimportância objectiva do que escrevo, ou desinteresse mesmo ?
E no entanto precisaria escrever, já que, fazê-lo, é uma catarse que me é vital.
Parece que já escrevi tudo o que tinha a escrever, nos tempos em que só me restava o espaço sufocante de permeio a estas quatro paredes, que por vezes se agigantavam. Aqui, no sossego e na solidão do meu quarto.
Nos tempos em que os meus gatos eram as figuras importantemente silenciosas na minha vida, em que a minha gaivota esvoaçava por aqui, pousava perto, e piscando os olhinhos, me trazia notícias lá de longe, da orla costeira onde as águas batiam nos rochedos na maré baixa, e em que o seu vai-vem embalava e adormecia a alma ... nos tempos em que cada por-de-sol, com toda a sua singularidade, me fazia sonhar, na nostalgia da partida ...
Nos tempos em que a música, doce e lenta, escorria incessantemente e me aconchegava ...
Parece que essa "eu", não existe mais. Parece que essas memórias estão a ser engolidas pelo tempo, parece que o mundo à minha volta se descaracterizou inapelável e doídamente ...
Chego a ter saudades desse tempo que foi. E no entanto, não era um tempo fácil ... não era sequer um tempo feliz !
Estranho tudo isto ! Estranho, o ser humano ... ou se calhar, simplesmente estranha apenas eu, nesta insatisfação magoante que me tortura e despeja por dentro.
Parece que então, havia um norte que eu perseguia, um objectivo que me motivava, um foco que me justificava a caminhada.
Nada disso percebo, neste momento. Nada disso percepciono neste timing da minha existência. Parece que não há muita coisa que me valha a pena, ou me preencha. Parece não existir de facto muita coisa que me dê asas, ou me sirva de bordão ...
É um marasmo que me inunda. É uma angústia que não explico, que me toma. É uma melancolia morna que me envolve ... São as cores outonais que me pintam o coração ...
Talvez nada importante. Não sei. Talvez nada que me "autorize" a sentir assim, nesta espécie de ingratidão com a vida. Afinal, continuo viva por aqui, continuo com saúde e com os problemas que eventualmente as pessoas encaram, sem excessiva preocupação, felizmente.
Olhando à minha volta, sei exactamente que poderei chamar-me e sentir-me privilegiada !
Mas, fazer o quê ?...
Não consigo, por mais que racionalize, fazer valer a pena a vida que detenho. Excesso de burrice, seguramente, utopia para a qual já não tenho idade, miopia formal face ao desenrolar dos dias ...
E sei-os a passar vertiginosamente. Sei que cada minuto desperdiçado e não valorizado, é um minuto inglória e irreversivelmente delapidado.
Há quase ano e meio que a minha mãe partiu. Incrível ! Parece ter sido ontem ...
Há quase dois anos e meio que a Teresa nasceu. Igualmente incrível ! E de tudo fala, e tudo conversa e interage de uma forma rica e desinibida.
Ainda ontem o António usava fraldas e dançava ao som da "Joana come a papa ", e já entrou para a Faculdade.
E daqui a pouco, aniversario. Um ano mais que não me interessa nada, e que vou procurar ignorar, longe daqui ...
E assim por diante !...
Como folha tombada num riacho serpenteante por entre as pedras, que vai encalhando pelo caminho ... como fiapo de algodão largado no vento que sopra ... como nuvem perdida no firmamento, que se faz e desfaz ... ou barco sem vela ou remo, longe do cais ... assim me sinto eu, sem rumo, bússola, norte ou motivo ... amodorrada que estou, numa onda pardacenta que não coa a luz !...
Anamar