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quinta-feira, 27 de março de 2025

"MAS O QUE É ISTO ?! ... "



Eu já não pertenço bem a este mundo ...

Voltei a reiterar esta ideia quando fui confrontada na comunicação social, com mais uma notícia escabrosa,  referente  a  um  crime  hediondo  levado  a cabo por  três adolescentes ( entre os 17 e os 19 anos ), sobre uma vítima também ela adolescente e menor ( 16 anos ), aqui num concelho perto de onde vivo.

A adolescente, uma rapariga, frequentadora das redes sociais, terá sido atraída a um encontro pressupostamente com um dos elementos do grupo de três rapazes, que seguia na internet... um "influencer digital" ou em português, um "influenciador" social , um espécime recente, fruto da nomenclatura digital que nos assola diariamente. 
Para resumir e encurtar a notícia, o que se passou foi a armação de uma ratoeira em que a jovem caíu, tendo sido vítima de violação pelo grupo, que não satisfeito, filmou toda a performance exibida e posteriormente a publicou, "heroicamente", na referida rede social ...

Bom, até aqui, infelizmente a repetição nojenta de outras situações de que damos conta vezes demais no nosso quotidiano.
Tenho netos por essas idades e que caminham para lá.  
Assusta-me tremendamente o caminho que é trilhado por uma juventude que atravessa tempos muito complicados a nível familiar, social, escolar e mesmo profissional.
São tempos confusos, tempos de pais ausentes, famílias desestruturadas e disfuncionais tantas vezes, tempos em que os valores, os princípios, as balizas e os limites não são com frequência muito claros, e sendo a adolescência só por si, um período interiormente conflituoso, muitos jovens buscam reconhecimento, aconchego e aceitação junto de amigos, colegas ou só conhecidos, extra-muros.
Os pais não dominam, muitas vezes nem sonham, que tipologia de companhias os seus filhos frequentam.  Não há tempo para tudo, numa sociedade em que a concorrência feroz e a "escravidão" profissional têm contornos esbatidos e a exigência é absolutamente determinante e consequentemente priorizada.

A fuga, quase sempre tornada avassaladoramente buscada, como um vício que se interioriza, são os meios digitais de comunicação ... verdadeiras portas abertas para um mundo que os jovens se enganam, pensando que dominam e controlam ...
Aí aparecem então figuras pardas, caçadores sem escrúpulos que sabem perfeitamente como atingir os seus objectivos e concretizar os seus desígnios ...

"Influencers"... "criadores de conteúdos"... ?? O que é isso? - perguntava eu há dias a alguém, jovem também, que tentou explicar-me esta "habilitação" recentemente chegada ao meu vocabulário.

Quando eu era jovem, de acordo com os valores e parâmetros de normalidade social, um "influenciador" seria alguém que, pela conduta, pelo exemplo, por provas dadas, por correcção de caminho trilhado, era merecedor e tinha a responsabilidade séria de interagir socialmente pelo exemplo, pela afirmação, pela conduta impoluta. 
Era alguém merecedor de ser um exemplo positivamente apontado.  
Seguramente, nunca seria alguém que arrebata multidões de seguidores, pensando tornar-se "ilustre" pela mediocridade, pela marginalidade de posturas, por pertencer à franja negra do "bas fond" social.
Esses, a sociedade expurgava, varria, aniquilava ...
Agora, a admiração por esses energúmenos arrebatadores de incautos, por esses desviadores à solta, parece crescer exponencialmente com a gravidade dos actos que praticam.  Quanto pior, melhor ! 
A perigosíssima vacuidade instalada numa sociedade de aparências, ostentação e desinformação, que não sabe pensar com a sua cabeça e como tal precisa de modelos, arquétipos, guias e bengalas de "lobos vestidos de cordeiros" para alcançar os seus objectivos, haveria de remeter-nos Historicamente a ensinamentos dos quais deveríamos retirar alguma coisa ...

Seguramente já não pertenço bem a este mundo !... 
Tanta coisa que não decifro, não entendo e não consigo assimilar nesta Terra de incoerências, de loucura transversal, de tempos assustadores e altamente preocupantes !...

Anamar

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

" O MUNDO DE PERNAS PARA O AR "

 

Já tinha dado o meio dia quando pus os pés no chão.

O dia prestava-se, com um céu totalmente fechado e cinzento de borrasca e chuva ininterrupta e forte a desabar.  Sem ninguém à minha espera, sem nenhum tipo de obrigações a desempenhar em relação a nada em particular, com o silêncio total na casa e no prédio, fui ficando, ficando, naquele registo nem acordada nem a dormir, em que a cama quentinha é um ninho que parece proteger-nos, esconder-nos de tudo o que está para lá destas quatro paredes.

Continuo sem me sentir psicologicamente equilibrada, tendo feito o desmame da medicação que tomava, por achar que tudo dependeria de mim, que eu teria força emocional para andar para a frente, independente de químicos.
Não tomava nada de especial, diga-se.  Um anti-depressivo ao levantar e um ansiolítico ao deitar, não fazem milagres.  Aliás, nada dessa natureza os faz, se por nós o não conseguirmos fazer.
Sou infelizmente veterana de depressões, mais fortes, mais leves ... 
Desde químicos até sessões de psico-terapia, por anos e anos ( enquanto pude economicamente suportar ), de tudo vou tentando, toda uma mentalização, reflexão continuada, meditação em que me encaro e tento encontrar-me comigo mesma faço, numa tentativa de auto-centrar-me e buscar a paz interior que me escapa ...

Desta feita, o abanão foi aos limites, limites a sério, com a doença inesperada, impensada, inimaginada, da minha filha, que, apesar de aparentemente tudo se ter encadeado no bom sentido, me retirou sem remédio, a tranquilidade, o equilíbrio, a confiança e a fé em que a página se tenha virado.
Vivo pisando ovos, sinto um mau estar e um desconforto permanentes, que me envolvem de manhã à noite, motivados pela incerteza, a insegurança com a exigência da espera ... espera que os anos que vão passando não tragam demais sobressaltos e que o caminho aponte no sentido do total controle da ameaça instalada, de recidivas poderem aparecer, derrubam-me e tiram-me as forças.
Por isso refugio-me mais e mais no sono, no silêncio, no isolamento.  Fujo das pessoas, para as quais não reúno o mínimo de paciência, nem para ouvir, nem para falar.
Os temas, na minha faixa etária são quase sempre os mesmos ... temas tristes, doenças, mortes, pois parece que a vida já não nos guarda um quinhão, por pequeno que fosse, de emoção no bom sentido da alegria, da realização, do sonho, dos projectos, de focos ... de metas a alcançar.  
Metas coloridas, estradas atapetadas das flores de Primavera que sempre despontam cheias de força e beleza ... nada !

E por isso, a angústia dos meus dias é tormentosa, retira-me toda a vontade de os viver ...

Também, este mundo está irreconhecível, ou talvez mais irreconhecível do que alguma vez o senti.  Pareço um ET que desceu de outro planeta e por aqui aterrou !
Não percebo a linguagem, não sei ler as condutas, não me entendo com o que me rodeia ...

Desde as atrocidades loucas das guerras, onde tudo é possível e nada importa, em sociedades sem rei nem roque, onde um alucinado presidente de uma das maiores potências mundiais, quer tornar a faixa de Gaza num resort de luxo, onde ele é obviamente a figura central, num desrespeito total e aviltante.  Em que essa "brincadeirinha" sem ter pelo menos pudor, desconsidera os mortos, os sem tecto nem chão, os que têm a vida destruída para todo o sempre ... 
Ou que, do outro lado do planeta  malévola e hipocritamente pilha aleatoriamente a massacrada Ucrânia, um país soberano, destruindo ainda mais o que já já está destruído, matando indiscriminadamente militares e civis, velhos, mulheres, crianças, enquanto ele e o louco do seu amigo a quem nem a inteligência artificial seria capaz de alinhar, se divertem com insofismável e intocável cinismo ... em nome dos milhões de dólares que aferrolham em seu benefício ... onde até a democracia, no país da Liberdade, parece perigar ...

E tudo isto passa a ser normalizado.  Tão normalizado que até o elegem de novo para gerir os destinos de uma nação, de um continente ... do Mundo ...

Estarei a ver bem ou também já tenho o cérebro toldado ?!

Há um ano, aqui na cidade que habito um cidadão que dispenso classificar, "influencer" de profissão, ( seja lá isso o que for ), profissão certamente muito "digna e honrada" das redes sociais ... sinal dos tempos ... um cidadão, dizia eu, de trinta e poucos anos, ao volante do seu BM, com telemóvel no ouvido, em dia de chuva e penso que sobre a noite, atropelou, numa passagem de peões, uma jovem, e fugiu, sem se preocupar com o que deixara feito, e sem prestar o devido socorro e auxílio.
A jovem ficou bastante maltratada, e decorrido um ano ainda não pode trabalhar ...
A polícia não conseguira identificar até hoje o autor da façanha, não fora o autor da mesma, com a mais profunda "inteligência", desfaçatez, ironia e loucura ( diria eu ), ter contado a um amigo, com todos os pormenores, na busca de um protagonismo miserável, num vídeocast nas redes sociais, rindo e gozando com a situação.
"Vi que atropelara uma pessoa, estava no telemóvel e não dei por ela atempadamente, e "oh abre !...  fui-me embora"... E ri, ri muito !!! Atontadamente ri-se ... coitado ...

E nós assistimos a isto, e fica assim ??  Agora, "por segurança" como diz, foi uns tempos para fora, antes que fosse "dentro" ... e antes que lhe limpem o sebo face às ameaças de que está a ser alvo, segundo ele.  Apanhou o aviãozinho e pirou-se ... para onde, para onde?? Para Angola, "passar uns dias de férias" !
Como a inteligência é o seu forte, fez um novo vídeo, já do avião, classe executiva, aponta para a área económica e com o mesmo ar debochado com que narrara o seu feito rodoviário, diz : " Ali é a zona dos reles ..." 
E posta de novo nas redes sociais, Tiktoks, Instagrams, Youtube ... !

Uma pérola, isto tudo !!!
Tudo isto dispensa comentários, claro !!! 

A postura deste fulano obriga-me a compará-lo por exemplo aos tão atacados imigrados no nosso país, que, por exemplo, ao volante dum TVDE, para ganharem uns parcos tostões, começam de madrugada, com chuva, sol, frio ou calor, a "vergarem a coluna", para que economicamente lhes valha minimamente a pena, o dia de trabalho.
Sem condições, quase sempre vivendo nas fímbrias da sociedade, alguns mal falando a nossa língua, chegaram de países distantes, Índia, Paquistão, Sri Lanka, Brasil, etc, tendo posteriormente muitos deles, trazido a família, numa precariedade de vida,  transportando  pessoas,  géneros  alimentares  e outros,  na  perseguição  dum  sonho  e  de  um  direito ... VIVER !
São acusados, perseguidos, ostracizados, maltratados, alguns roubados e agredidos.
Viajo com alguma frequência nestes transportes, e por sorte, ou talvez não, sempre encontrei pessoas com educação, gentis e prestáveis.
O Tiago Grila, nome do energúmeno psicopata, precisava era saber o que custa, na verdade, a vida.  Mas a vida de verdade, não a que ele vive na brincadeirinha !
Nojo é o que sinto por estas personalidades, e um castigo justo é o que espero da nossa justiça !

Entretanto, o Papa Francisco tem estado entre a vida e a morte, e continua reservado o seu prognóstico ainda que apresente algumas melhoras.
Tem 88 anos e uma saúde débil.  Eu não sou católica, mas isso ainda me faz respeitar e admirar mais este Papa, que em tempos socialmente tão difíceis, sempre marcou a sua posição e nunca se demarcou dos conflitos e injustiças mundiais, defendendo e estando sempre ao lado dos mais injuriados desta Terra, das minorias, trabalhando para criar pontes até entre as diferentes religiões.
E nesta altura, historicamente tão complicada para a Humanidade, se a sua voz se calar, isso poderá considerar-se uma injustiça divina !
Defensor dos direitos humanos, os direitos dos imigrantes, os mais desfavorecidos e estropiados pela vida, a defesa do ambiente, sempre se posicionou como alguém presente e foi interventivo, assumindo posições críticas contra a postura dos governos prepotentes e ditadores, como a Rússia, a Venezuela, entre outros, apelando ao bom senso dos dirigentes israelitas no conflito do Médio Oriente, ao governo italiano com Giorgia Meloni a encabeçar uma postura de rejeição face aos migrantes que morrem aos milhares na travessia do Mediterrâneo numa tentativa de chegarem à Europa buscando um lampejo de esperança ... 
O Papa Francisco, agora é que não pode ir embora !!!...

E pronto ... extensíssimo este post!  Nele transparece a minha insatisfação e inaceitação do mundo em que vivemos, no qual já não me sei mexer, no qual quase já não me identifico, e que neste momento é verdadeiramente um mundo de pernas para o ar !...

Anamar

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

" O HOMEM E A OBRA "


Estou a ler um livro muito interessante, uma biografia do Professor Doutor Sobrinho Simões, da autoria de Luís Osório, um jornalista, um comunicador radiofónico, mas sobretudo um cronista de referência, um escritor cuja escrita aprecio particularmente. 

O livro divide-se em capítulos com abordagens distintas sobre a vida desta figura pública, médico conceituado da cidade do Porto, e foi escrito ao longo de largas e demoradas conversas com o Professor.
Sobrinho Simões, filho, neto e bisneto de médicos, com uma irmã e dois filhos igualmente médicos, figura incontornável na área da oncologia, em particular da tiróide, e que aceitou falar de si, do seu percurso, das suas aspirações, dos seus medos, das suas dúvidas e certezas.
Com setenta e oito anos, está obviamente jubilado, foi anatomopatologista, especializado em diagnóstico e investigação em doenças oncológicas, foi catedrático de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina do Porto, fez um pós-doutoramento no Instituto de Cancro da Noruega, em Oslo, entre outros caminhos que perseguiu ao longo da vida, com brilhantismo, genialidade e maestria.
Este livro intitula-se "A última lição de Manuel Sobrinho Simões".

Do que já li, sinto-o um homem muito "gente", com as angústias, as inseguranças, os medos mas também a determinação e a busca incessante de respostas assertivas, de soluções fundamentadas, de rotas sustentadas numa busca interminável de soluções.
A vida, mas também a morte, povoam-lhe o quotidiano. A certeza de que "nunca houve um animal tão eficiente e simultaneamente tão desgraçado quanto o Homem", convive com a sua realidade. "Tem medo de animais e adora plantas porque "não chateiam", não se relaciona com Deus mas é quase crente, tem mais medo do cancro do que de outras doenças ... receia o sofrimento e a solidão ... tem medo de tudo , admite".
Define como sentido para a vida , " genes, ambiente e sorte, mais nada " !...

Fala no elitismo absurdo incentivado, clivando distanciamentos entre médicos e enfermeiros, e da falta de proximidade de médicos formados com notas teoricamente imbatíveis, mas em que a humanização imprescindível e indispensável do toque para com o paciente, é praticamente inexistente, é um "non sense" intolerável e inaceitável, numa sociedade cada vez mais desumanizada e indiferente. 

Fala de tantas coisas que nos passam também pela cabeça...  
É uma personagem intrinsecamente humilde, como sempre o são os grandes Homens.  É um homem de partilha do saber, da criação de pontes, de trabalho de equipa, sempre incentivando os benefícios do trabalho grupal na esfera do conhecimento. Um afrontador do individualismo, da competição no que ela possa ter de mais negativo e um feroz defensor da dialéctica, da partilha de conhecimento, da profundidade analítica na corrida pela solução de um dos maiores monstros em termos de saúde que o ser humano encara, nos tempos actuais : o cancro !!!

Neste momento, embora não tenha a menor formação científica nessa área, embora seja mera espectadora da realidade social vivida na esfera da saúde, tento, como simples aprendiz, perceber como, nos dias de hoje, além de todo o conhecimento e especialização, além de todo o desenvolvimento tecnológico que é uma ferramenta privilegiada ao serviço dos especialistas, além de todas as armas impensáveis de que dispõem, é ... foram e serão indubitavelmente todo o trabalho e dedicação como foco de vida em prol do ser humano, os únicos capazes de forjar os grandes "arquitectos" e os grandes ícones que ficarão para sempre na história da Humanidade !

Anamar 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

" A NORMALIZAÇÃO DO INORMALIZÁVEL "... "

 


Estamos uma vez mais no ritual anual da despedida do ano velho e da saudação do ano novo. 
As famílias ou simplesmente os amigos reúnem-se à volta de uma mesa que continua os despautérios gastronómicos que já vêm do Natal, e em que o avanço da faixa etária vai determinando os que ainda estão e os que já não ... Menos um, menos um, menos um ...

É por isso a altura então de os lembrar por este ou aquele motivo, por esta ou  aquela aventura, normalmente, as gargalhadas das historietas lembradas, animam o serão até que as doze badaladas toquem a reunir. São as passas, o champanhe, a afobação dos brindes, dos abraços, dos beijos ... são os votos e os desejos só pensados e não verbalizados enquanto o relógio dá as doze badaladas.
Nas ruas e nas janelas, a euforia do momento justifica a batida das tampas , das panelas, o estralejar do fogo de artifício, os apitos, as cornetas ... enfim, qualquer coisa que faça barulho e queira transmitir o que se entenda por alegria, graça, felicidade, animação.
E desejo... um desejo incomensurável de abraçar o mundo e que esse abraço, ao menos uma vez na vida a paz a fraternidade, a saúde e o amor com a sua chave secreta, pudesse trazer um resquício que fosse, de felicidade para todo o ser vivente ...

Mas não é nada disso.
As bombas, os mísseis, os raides aéreos destruidores ... a fome, o frio, a miséria, a solidão continuam indiferentes às intenções momentâneas da bonomia do coração de muitos ... e a seguir encolhemos os ombros ... tudo isso já está assimilado na vida do cidadão comum. Seja a Ucrânia, Gaza, Síria, Líbia, Palestina ... sejam os países da América Latina e por aí fora ...

Infelizmente tudo isto são já lugares comuns, tudo isto são realidades demasiado conhecidas, tão conhecidas que quase indoloridas. É sempre assim, temos à frente barbaridades tão impensáveis e incomensuráveis que acabam quase invisíveis, de tão normalizadas se tornam no dia a dia que vamos vivendo. 
Até porque, sobretudo então os rostos das crianças que são permanentes acusações legítimas, os olhos cansados e doídos dos velhos empurrados daqui para ali, sem tecto que os abrigue, são  qualquer coisa de que fujo, cobardemente, eu sei, mas a resistência humana também tem limites. 
 
Costumo dizer que já não pertenço aqui. Este mundo sufoca-me de ininteligível. As angústias, as incertezas, os medos, as ameaças constantes que nos pairam sobre as cabeças, conseguem sempre ser superados por algo ainda mais ameaçador, mais injusto, mais impensável.  Nada é suficientemente  mau que chegue, frente às atrocidades levadas a cabo dia após dia ...

E por tudo isto e muito mais, cada vez menos valorizo dias de calendário, cumprimento de rituais só porque sim, protocolos inventados nas linhas dos show off, em que se exibe tudo menos o que genuinamente se sente. 
Procuro sentimentos, tento auscultar sentires, busco valorizar a simplicidade do que deveria ser e não é mais ... e não tenho p'ra onde fugir ... 
Este mundo já não é para mim ... semeia-me um desconforto que dói, e por tudo isso isolo-me na segurança do meu quarto, qual bunker protector, onde conto com os sóis a porem-se no laranja do infinito,  onde conto com a chuva tamborilante quando é dia dela e onde uma família de dezenas e dezenas de gaivotas aqui por cima, se anuncia como querendo tirar-me da cama a horas normais ...  

Anamar

quinta-feira, 4 de julho de 2024

" TALVEZ SEJA URGENTE ... "


Dia 2 de Junho passado, foi, ao que consta, o último dia em que postei algo por aqui.  Mais de um mês entretanto decorreu.

Tenho tido um problema de saúde que pareceu mais grave do que afinal será, contudo trata-se de uma questão algo incapacitante na medida em que é limitativa da locomoção, além das dores que transmite.
Contudo o meu maior receio, que seria a existência de uma hérnia discal, dissipou-se, e as dores têm-se atenuado com as tomas sistemáticas e ininterruptas de analgésicos e anti-inflamatórios. 
No fundo trata-se apenas de um problema de comprometimento a nível da coluna, afinal apenas típico da idade, fruto dos maus tratos que ao longo da vida infligimos a nós mesmos e que nem sempre acautelamos ou valorizamos.
Toda essa situação me tem retirado ainda mais a disponibilidade física e emocional durante as últimas semanas, e se o meu estado de espírito nos últimos tempos não tem facilitado ou propiciado a minha vinda a este espaço, nestas circunstâncias, obviamente menos ainda.
O malfadado PDI, com que brincamos tantas vezes, mas que com o avanço do tempo, mais e mais se acentua na nossa realidade de vida !

Entretanto deixei também de fazer as caminhadas mais ou menos programadas na minha rotina semanal, o que não ajuda nem física nem psicologicamente a vivência de um percurso saudável .
A natureza, o ar livre, a mobilidade que activa todas as funções orgânicas e que durante a pandemia da Covid 19 consegui manter e respeitar integralmente, desapareceram, e se eu já atravessava um período propenso ao isolamento, à ausência de convívio, ao confinamento doentio entre as paredes desta casa, à falta de paciência  para ouvir mas também para falar ... agora tudo se agravou.
Exaspero-me facilmente com as conversas, diminuí drasticamente a tolerância aos diálogos e busco no sono o conforto de uma tão almejada quanto doentia paz.
Cada dia me levanto mais tarde, o que reduz os dias a um acordar seguido quase de um deitar, vingo-me e busco arrego numa alimentação desregrada, pois a compensação e o conforto vêm duma procura insana e desenfreada, sobretudo de doces ...
Sejam bolachas, sejam gelados, sejam sobremesas nas refeições, tudo o que for doce me aconchega e conforta ... 
Depois vêm os problemas de auto-análise, de auto-censura, de raiva pela inércia, pela  incapacidade absurda de ausência de reacção, como se me estivesse nas tintas pela falta de controle, de resistência e de lucidez face a um cavalgar de descalabro nos meus posicionamentos.
O peso mostra-se descontrolado, o desgosto face à devolução da imagem por parte dos espelhos, o desamor por mim própria, remetem-me a uma espécie de política de terra queimada em que até pareço castigar-me voluntária e masoquistamente, em que pareço querer punir-me selvaticamente de uma culpa fantasmagórica qualquer ...

E vivo triste, num crescendo de uma desistência face à vida, como se nada já me valesse a pena.  Apenas esperar que se cumpra o que me estiver destinado, num descrédito e num desapreço face a este pântano fétido onde me sinto mergulhada.
Nada me motiva, os sonhos inexistem, a esperança que nos ergue todos os dias sossobrou também, vivo como em hibernação, como se nada valesse a pena começar, porque já não tenho tempo útil de qualidade para o usufruir.
Espero, portanto ...
Os meus dias são assim, descoloridos, sem encanto ou fé ! Amanheço e anoiteço ... não faço quase nada além de deixar rodar os ponteiros do relógio.  Vivo estritamente de emoções passadas, de memórias e de mágoas também ...
Ah ... e de medos, como se um ameaçador monstro perverso me aguarde e me mostre que garantidamente, sempre será pior ... 

E assim arrasto os meus dias em silêncio, neste abandono doentio e assustador, com uma incapacidade sentida de conseguir driblar este percurso anunciado ...

Sei que estou doente.  Este calvário é muito meu conhecido, infelizmente, só que agora abate-se no caminhar do Inverno da vida, onde a escuridão já se instala, onde a via sacra ainda é mais dura de percorrer e as forças também já faltam ...

Terei que lançar um grito de socorro ... talvez seja urgente !...

Anamar

domingo, 2 de junho de 2024

" HOJE O DIA É DELES ... "

 




Junho apresentou-se hoje no calendário, ou seja, o mês que vai dobrar o ano de novo ao meio, iniciou-se com um tempo absolutamente estival.
Temperaturas acima dos trinta em vários pontos do país, céu limpo, ausência de qualquer perturbação atmosférica, lembram que apesar de ainda ser Primavera, o Verão está a espreitar à distância de três semanas.

Dia 1 de Junho é uma efeméride mais, no calendário dos Homens ... a comemoração do Dia Mundial da Criança.
Como sabemos, as Nações Unidas aprovaram a 20 de Novembro de 1959 a Declaração dos Direitos da Criança, proclamando-os mundialmente.
Assim, este dia tem por objectivo centralizar a reflexão na criança e nos problemas que exponencialmente, creio, afectam muitas delas em todo o Mundo.
Insere uma obrigatoriedade de pelo menos hoje, repensarmos estes seres que serão a continuidade, o caminho, o futuro !...

Quando eu era menina, pelo menos no meu núcleo familiar, este dia não era assinalado de nenhuma forma.  Não era mencionado, festejado, menos ainda beneficiado com as actuais prendinhas que hoje em dia se tornaram "obrigatórias ".
Já na geração seguinte, sou eu, que sendo adulta e já mãe, acorro a providenciar  a comemoração da data, sem grandes festejos, mas sem dúvida, não a ignorando.
Depois vieram os netos, as escolas lembram, se nós esquecêssemos o dia, a sociedade fomenta e lucra como com todas as datas propagandeadas em benefício próprio, e a tradição continua.
Pelo menos até que os mais novos comecem a olhar para a própria sombra, que é como quem diz, se comecem, com a pressa habitual dos jovens, a achar "gente muito crescida" ... e desvalorizem então a causa.  Se calhar, só até que eles próprios venham a ser directos intervenientes, agora já noutra condição.

Hoje, com 4 netos respectivamente com idades de 23, 20, 17 e 7 anos, na realidade só escapa a benjamim, e suspeito que talvez já não por muito tempo, tal o ar, os jeitos e mesmo a maturidade , que exibe, pouco espectável para a idade ...
Significa isto que a "calha" impiedosa do tempo avança, nesta " linha de montagem" que não se compadece com quem vai ficando pelos apeadeiros da vida !...
E apercebemo-nos que na realidade, o nosso protagonismo enquanto avós, já foi chão que deu uvas ...
Cada um segue os seus rumos, os seus sonhos, os seus projectos.  
As células familiares que habitam, quase sempre longe fisicamente das residências dos avós, não facilitam acompanhamentos regulares, presença expressiva, partilha em tempo real, da maioria dos acontecimentos das suas histórias.
Eles têm pouco tempo, a nós sobra-nos muito ... eles têm energia, força, vontade, sonhos ... nós estamos noutro timing ... eles vêem os projectos, os destinos que perseguem, a busca do amanhã, com os olhos e a fé  de quem acredita e tem um imenso amanhã ao dobrar da esquina ... O nosso amanhã já não é bem esse !...
Quase sempre me sinto / julgo dispensável ... quase sempre me sinto carta fora do baralho, quase sempre me sinto sem janela, balcão ou camarim donde possa assistir em privilégio, ao desenrolar das suas vidas ... quase sempre me sinto a "estorvar" ... 

Contudo, não quero / gostaria de ser injusta nas análises, tendenciosa nas conclusões.  Se calhar não será bem assim ... mas é o que sinto.
Precisaria ou gostaria de saber como é com os outros.  Gostaria de perceber até que ponto cometo erros de análise ou injustiças não cabíveis.  Mas fecho-me, isolo-me, silencio-me.
Cada vez mais reduzo os meus desgostos aos meus silêncios.  Não busco responsáveis ou culpados de nada.  Talvez os erros me sejam imputados exclusivamente a mim, que não semeei o necessário ... logo, não colhi o suficiente !...
Às vezes, muitas vezes, penso e repenso tudo isto, nas minhas insónias das cinco da manhã ...
No entanto penso também que não posso ser demasiado carrasca comigo mesma, demasiado intolerante com os meus erros, as minhas omissões ou os meus mal-feitos ... Afinal a vida tem tantos meandros, tantos vectores que convergem e determinam resultados dolorosos e imperfeitos ...

Bom, mas este post não ficaria completo para mim, ou não se justificaria, se nele eu não lembrasse as crianças de todo o mundo, particularmente aquelas para quem o melhor presente do dia de hoje, seja a concessão da vida, por mais um dia...
Refiro-me obviamente aos filhos sem pais, àqueles cuja realidade é o troar das bombas, dos explosivos, dos aviões que sobrevoam, dos mísseis que caem nos prédios que desabam...
Refiro os que lutam, tão pequeninos ainda, nas filas para a compaixão de umas conchas de sopa na lata que transportam ...
Refiro os que convivem com a morte, com a "normalidade" de caminhos sem rumo, com a dor da orfandade, da perda, do abandono, da solidão ...
Refiro os meninos que sonham em voltar às escolas que ficaram lá atrás ... os meninos que desenham sóis, arco-íris, flores e borboletas em pedaços de papel ... onde os aviões são transformados em pássaros livres e soltos ...
Ou apenas os meninos maltratados, violentados, negligenciados, abusados ... esquecidos, por uma sociedade sem amor, indiferente, de violência, miséria e sofrimento ...

E afinal, todos são crianças num mundo hipócrita, num mundo de faz de conta, cruel e quase sempre indiferente !... 





Anamar

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

" A MARCHA DOS DIAS "


" Quem nos faz novos, são os velhos ... e quem nos torna velhos, são os que vão partindo"... 

Mais ou menos foi esta a frase ou pelo menos o sentido da ideia que li, algures, escrito também por alguém cuja autoria já não consigo reportar.

A correcção do pensamento exposto é duma assertividade absoluta que contudo escapa quase sempre à nossa reflexão.  Poucas vezes, ou nenhumas, pensamos que nas nossas vidas nos sentíamos jovens, novos, esperançosos e com horizonte, enquanto tínhamos uma "linha da frente" que ocupava a prioridade dos lugares de partida.
De facto, enquanto a fila à nossa frente, largamente recheada ia caminhando com a lentidão desejável, não nos sentíamos "em perigo". Afinal, porque desígnios absurdos do destino haveríamos de saltar lugares, desrespeitar a ordenação ditada, antecipar ilogicamente o expectável ??!!
Éramos então jovens, quando os pais, os tios, os avós, às vezes até os bisavós, respondiam à chamada por aqui.  Éramos novos, não cabia nas nossas conjecturas sequer, a suposição que poderia ser subvertida a chamada "ordem natural" das coisas ...

E o futuro ... porque existia muito futuro então, com mais de dois terços para andar contra apenas um terço já percorrido ... espreitava risonho, sem demais sustos, medos ou mesmo preocupações.
Era o tempo dos sonhos, dos projectos, das ideias fantásticas em apostas de caminhos bem sucedidos.  
É o tempo dos amores, das emoções avassaladoras, da entrega sem restrições, em dádiva total, acreditando, sem nuvens a escurecer o céu ...
Era o tempo do valer a pena, o tempo em que a energia e a disposição nos emolduram os dias, os tempos em que para cada preocupação ou dificuldade, parece existir ao virar da esquina uma solução satisfatória, e em que o cansaço não nos desarma ... nunca !
Somos novos, o timing é agora, a esperança ilumina-nos a alma e somos craques no salto de obstáculos ...
Acreditamos que tudo tem solução, tudo se ultrapassa ... claro que com mais ou menos trabalho e dedicação obviamente, mas em que nada nos parará ...

É a Primavera da vida.  Manhãs radiosas, promissoras, em que de tudo somos capazes, em que parece haver uma possibilidade ilimitada para as realizações que perseguimos, pessoais, familiares, profissionais e outras ... Em que acreditamos ... fácil, fácil ... claro que somos capazes ... porquê não ??

E assim, com aquele ímpeto, aquela aposta, aquela alegria com que despertamos em cada manhã, saltamos da cama com a determinação de vencer mais uma etapa, mais uma prova ... Não é hoje, é amanhã ... não é agora, será mais tarde ... mas lá chegaremos, afinal há tanto chão para andar !...

Só que os dias passam céleres, os anos correm depressa demais, a fila que era compacta começa a desfalcar-se ... para desgosto nosso.  Partem os avós, partem os tios, depois os primos mais velhos ... partem os pais ... partem os primeiros amigos, os vizinhos que nos compunham o quadro relacional diário.
Começa a haver demasiadas ausências de resposta à chamada ... demasiados lugares vazios ...
"Mau ... o que é isto "? Como não demos por isso, distraídos que estávamos ?!...
Por cada um que sai, outro dá um passo em frente ... E lá vamos nós, continuando na engrenagem ...

A casa envelhece, as pessoas que cruzamos envelheceram, os corpos, os cabelos, os olhos, os ouvidos, os dentes ... até as mãos, as benditas mãos que eram esguias, elegantes, sensuais no que faziam e no que tocavam, deram em se pintalgar sobre a flacidez que se acentua ... tudo, de um dia para o outro parece, deu em nos fazer negaças e sinais de luzes ... Atenção, confiram o lugar na fila ... analisem os espaços devolutos já, à frente dos vossos pés !!!

E deixámos de ser novos.  Os que partiram encarregaram-se de nos projectar adiante !
Se dúvidas tivéssemos, aí estão as dores, as limitações, o caminhar com esforço, o arfar se o caminho se encomprida, as insónias que se tornam companheiras inseparáveis ... 
Aí está a solidão, a mágoa pelo percebido, o cansaço, a falta de paciência para nos suportarmos e suportarmos os outros ...
E progride um recolhimento interior e uma desmotivação, mesmo pelas coisas que nos mobilizavam, com as quais vibrávamos, nos levavam a sorrir, empolgados quase sempre, não há assim tanto tempo atrás ... parece ...
E percebemos que envelhecemos definitivamente quando já não temos mais ninguém por quem chorar ...

Não será assim com todos, eu sei.  Há pessoas que, felizmente para elas, sempre vêem o "copo meio cheio", plenas de uma positividade permanente, face mesmo às contrariedades. Abençoadas maneiras de ser e sentir !
Eu sou uma pessoa extremamente negativa, dificilmente ultrapasso as barreiras sem um desânimo e um sofrimento atroz.  Reconheço que talvez exorbitando a dimensão dos obstáculos.  Antecipando-os mesmo, o que nada de saudável tem.  Fui demasiado protegida talvez. Tive os caminhos demasiado acolchoados também, o que indiciaria um golpe de sorte no destino. 
Engano.  Bem ao contrário, quem me quis ajudar, ou facilitar a marcha, acabou retirando-me as armas e os mecanismos para a luta e para a confrontação na selva diária que é a vida.  Acabo com menos capacidades a todos os níveis, do que quem aprende a esbracejar, a cair e a levantar, a não sucumbir.
Olho as minhas filhas, artilhadas até aos dentes para enfrentarem com denodo aquilo que lhes boicota os caminhos, que nem sequer têm sido de brisa e água fresca ...
E elas lá vão ... Tem dias que me pergunto como ?!

E assim vamos.  Assim vou... Penitencio-me pelo que escrevo.  Reconheço serem "uma seca" estes desabafos cansativos, enjoados e saturantes, como aquelas pessoas que encontramos na rua e sempre e só puxam do cardápio das doenças e só delas falam ... 
Eu sei que é assim, mas estou "atolada" em sentimentos negativos, colados à pele, os quais não consigo sacudir da alma e do coração, que me esgotam e exaurem inapelavelmente.
Afinal é esta a marcha dos dias ...

Anamar

domingo, 24 de dezembro de 2023

" OUTRA VEZ NATAL "



Ontem 22 de Dezembro, o Inverno chegou.  
Por aqui eu diria que mais parece ter chegado a Primavera, tão risonhos andam os dias, lindos, solarengos, claros.  O céu insiste no azul, um azul diáfano, quase transparente e luminoso, as temperaturas não são severas e a aragem que esvoaça, apenas esvoaça, vaporosamente.
A mata apresenta-se totalmente verde com todos os cambiantes da cor, como se um talentoso pintor tivesse ido por ali aguarelá-la.  As azedas, descaradamente já pintalgam todos os tufos nos cantos e recantos dos caminhos, e os pássaros, lembrando Março, pipilam pelas copas, como se já estivéssemos no mês dos ninhos.  A natureza continua totalmente baralhada ... como não, os animais e nós próprios ?!

Entretanto o Natal espreita.  Vinte e quatro horas nos separam da noite da Consoada.
No ano que agora finda fui passá-la no sul do país com parte da minha família.  Este ano conto passá-la aqui por casa mesmo.  Prevejo uma noite muito pouco animada, pois os três que se sentarão juntos na mesa de Natal têm poucos motivos para festejar. Estamos todos numa faixa etária já meio descolorida.  Depois, as doenças que atormentam uns e os desgostos recentes que atormentam outros, fazem prever uma relativa boa disposição apenas, para o convívio.  Acho que no próximo ano vou implementar uma reviravolta neste estado de coisas, pois isto parece estar mais para velório que para uma confraternização que nos deixasse animaditos.
Ou então vou para o quente da cama, como se nada fosse, e faz de conta que estou encerrada para balanço ...
Afinal, como dizia o meu pai, parece ser um dia igual  aos outros todos ... 
Em viagem profissional, viajante que era, se estivesse mais afastado, por esse Alentejo fora numa época em que as ligações e os transportes não eram fáceis, chegou a passá-lo onde quer que estivesse, não vindo sequer a casa ... Outros tempos ... outras épocas !...
Hoje nada disto parece fazer sentido, pois tudo fica ao virar da esquina.

Com os dias conturbados que se vivem por esse mundo fora em que o Homem parece ter apenas como objectivo de vida exterminar o seu semelhante, eu diria que o Natal já só faz sentido para a criançada, a quem o Pai Natal, cortando os céus no seu trenó, de saco às costas com os ansiados presentes, ainda consegue criar uma ambiência onírica nas suas cabecinhas.
O planeta Terra tão mal cuidado, tão agredido, tão negligenciado, só pode mesmo queixar-se dos atropelos de que é vítima, num crescendo incontrolável. Apesar das pseudo-intenções de contenção dos desvarios provocados, em cimeiras, conferências, encontros, plataformas, movimentos cívicos, etc, envolvendo as altas esferas responsáveis das maiores potências mundiais, o sucesso alcançado nas negociações, é diminuto ou quase nulo.
Sempre, vergonhosamente os interesses económicos, os lobbies financeiros gananciosos e incontroláveis, se sobrepõem às intenções, aos alertas e às tentativas de reposição da sensatez nos posicionamentos mundiais.
A Covid seguida de uma inesperada guerra às portas da Europa, numa Ucrânia tão devastada já, uma nova guerra de desfecho imprevisível no Médio Oriente, mergulhada numa sanha sanguinária como já não esperaríamos ver em pleno século XXI, culminando num genocídio de populações encurraladas pela insanidade dos beligerantes ... atrocidades pelo mundo fora, crimes cometidos aleatoriamente duma forma inesperada sobre inocentes apanhados de surpresa, extremismos e fanatismos religiosos descontrolados levando a ódios e vinganças ... subtraem-nos toda a convicção que ainda pudéssemos ter de acreditar nos valores desta quadra e consequentemente na pureza de coração e na humanidade dos nossos semelhantes.

E este cocktail desalentador e "explosivo", culmina internamente, com um país esfrangalhado, mergulhado em acontecimentos políticos inqualificáveis, uma espécie de  barco  que  perdesse  o  leme e  que  navega  em  mar  alteroso  sem  rota  ou  porto  que  se  aviste ...
Um cansaço !!!

Com todos estes "retalhos" demasiado lúgubres e pesados, me despeço.  Afinal, hoje já é Natal outra vez !! ...

Anamar

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

" INDEFINIÇÕES ..."

 


Quase em tudo na minha vida, queimei etapas, atropelei timings, acelerei processos.  Ou seja, quase em tudo na minha vida, meti as mãos pelos pés numa pressa e numa ânsia de rapidamente virar esquinas e ver mais além, de chegar rapidamente aos horizontes, só para ter mais horizontes, para que o tempo não se gastasse antes dos meus sonhos se consumirem.
Corro atrás do tempo, sempre, sou escravizada por ele, tenho a angústia da falta dele para cumprir os desígnios que persegui e persigo.
Por sorte do destino, ou dos acasos de vida, não me tenho dado mal.  Pergunto-me às vezes, como ?

Sou uma incoerência nata, sou uma utopia além da conta.
Agarro o tempo, mas não aproveito o tempo !  Estranho, isto !...
Nunca usufruo o momento.  Nele, já me angustio com o que vem a seguir, nele, eu já sinto saudade do que ainda não foi ...

Guardo contudo, religiosamente, as sobras, que é como quem diz, as memórias.  Essas já não têm para onde se perder.  Pertencem ao arquivo indelével da mente e do coração.
Nelas me espanejo em dias de repouso, quando o cansaço é muito e a tristeza me toma conta.  Então, entro nelas, como se de um "país de maravilhas" se tratasse, no espanto e no êxtase.  Percorro-as de frente para trás e de trás para a frente, num deleite único e inalienável.  É como se entrasse num mar sem ondas, doce e quente, como as águas de lá longe que busco quando posso ...
São espaços de interioridade, vedados, privados e únicos.  E re-experimento as emoções, as angústias e as mágoas, mas também as alegrias, as conquistas e as realizações.
Mas depois farto-me.  Termino a visita, saio pé ante pé e fecho a porta de novo, até uma próxima, até que um outro dia me amanheça a vontade louca de descer às caves das lembranças e verifique, com alívio, que elas ainda por lá estão.
Às vezes quero remexê-las, tirar-lhes o pó, mudá-las de prateleira, segundo a vontade de lhes pegar ou não.  Outras, abro e franqueio a entrada, simplesmente ... espreito pela talisca da porta entreaberta e nada mais.

E o tempo continua.  Sempre continua ...

E de igual forma me envelheço a correr.  Dei por mim, sem remédio, de um dia para o outro, entre momentos que não preciso, a ficar definitivamente envelhecida.  E espanto-me como não me apercebi, como de repente morreu uma e no seu lugar nasceu outra, que é, de certa forma, uma estranha em mim.  Não sei como foi, não sei quão distraída ou dispersa eu estava que não enxerguei a mutação a ocorrer.
Deve ter sido nos tempos em que deixei empoeirar os sonhos por já não valerem a pena, em que deixei de acreditar em estrelas, nasceres e pôres de sol no meu céu, em que perdi a inocência das grandes descobertas, e em que perdi a vontade de ter vontade de sorrir ...
Possivelmente foi isto.  E nisto, não se volta atrás, nunca se volta atrás, pois o caminho de regresso perdeu-se no nevoeiro.

O desconforto toma-me.  É como se vivesse dentro dum fato que não é meu, dentro duma pele que não me pertence, dentro de uma entidade que não me assenta e desconheço.
Olho-me no espelho e pouco identifico da que fui, busco no avesso e não encontro o rascunho.
E zango-me.  Zango-me com o espelho por não me ter avisado, e garanto a mim própria não voltar a cruzar quem integrou a película que chegou ao fim.
Adoro pessoas resolvidas.  Vou morrer sem o ser.  Mas há pessoas que vivem com certezas, que sabem exactamente com toda a tranquilidade as escolhas que devem fazer, que certificam com igual tranquilidade os caminhos que já pisaram, as lutas que dirimiram. 
Adoro gente sem equívocos, esclarecida, decidida, clarividente ...
Logo eu que sou um poço de interrogações, uma montanha de dúvidas, um trabalho por terminar, uma reflexão por fazer !...
E insatisfaço-me comigo mesma,
Para quando uma pausa no conflito de histórias sem epílogo ?!
Para quando a paz que o fim da turbulência que me assola, me transmitiria ?!
Para quando o fim da inquietude da obra inacabada que eu sou ?! 

Anamar 

domingo, 1 de outubro de 2023

" O CORDÃO UMBILICAL "

 




Não se pode viver a vida dos filhos ... não se pode viver a vida pelos filhos. 
O bendito cordão que cortamos à nascença, sempre vai marcando presença ao longo da vida, estou convicta que, verdadeiramente, na figura materna apenas.
Ouve-se dizer a propósito da relação entre pais e filhos, "mãe é mãe e pai é pai", exactamente reiterando essa ligação simbiótica e inapagável, tatuada pela biologia humana ao longo dos nove meses de gestação.
E tudo aquilo que partilhámos, essa chama vital que assegura a vida da criança até que fisicamente se separa da mãe, vai coexistir a vida toda transmitida por tantos outros cordões, tantas outros laços, tantas outras formas quase irracionalmente inexplicáveis.
A necessidade quase absurda de uma protecção constante que uma mãe sente em relação ao seu filho, o imperativo da sua presença cujas "asas" o defenderiam de todos os riscos, a ânsia de o poupar a todas as adversidades possíveis, chegam, em casos extremos roçando o patológico, a serem doentios.
Na natureza, as mães são defensoras e protectoras inabaláveis das suas crias.  
Assisti há poucos dias na minha viagem ao Quénia, à fúria de um bando de elefantes, encabeçado pela progenitora, na protecção de uma cria que estava ferida.
Racional ou apenas por razões biológicas, contra tudo e contra todos, viramos feras na protecção das nossas ... 

Hoje em dia, a desejada e desejável autonomia dos jovens em relação à casa paterna está objectivamente comprometida, consequência, além de outros factores sociais vividos neste momento, da crise que sobre todos se abate ... na qual ressalta a incapacidade material de se alcançar o legitimo direito à habitação.
É insustentável conseguir-se por aluguer ou compra, um espaço minimamente digno, ao alcance da maioria.  Se se faz face às despesas alimentares e outras do quotidiano, não se consegue de nenhuma forma ter acesso a uma renda especulativa ou à prestação bancária de um empréstimo, ainda que o mesmo tivesse sido alcançado.
Assim, é absolutamente dramático o que muitas e muitas pessoas singulares, ou famílias constituídas, estão a sentir, com o estrangulamento dos seus futuros.
As manifestações sociais multiplicam-se, as vidas hipotecam-se, não se seguem estudos superiores porque não há alojamentos compatíveis para os estudantes que da província acedem às Faculdades ... da noite para o dia, encurraladas e sufocadas, as pessoas caem na rua ...
Há dias, subindo a Av. Almirante Reis em Lisboa, deparei-me, para angústia minha, com sete ou oito tendas, só no espaço de um quarteirão, sob as arcadas de um prédio. Um verdadeiro acampamento em plena capital !... 
A tal, nunca ao longo das minhas já consideráveis décadas de vida, tinha assistido !
As televisões reportam situações idênticas, de pessoas que embora com empregos e respectivas remunerações, não conseguem suportar minimamente as responsabilidades diárias, e por isso dividem com outras em iguais condições, tendas aninhadas em parques ou espaços sem condições dignas de vida ... até que as deixem e não as escorracem para outros poisos. 
É o fim da linha pra muitos nossos concidadãos, é o que lhes sobrou num Estado e numa estrutura social que os marginaliza, os exclui ... porque simplesmente parece não haver mais caminho para andar.
Mães que acabam por entregar os filhos à guarda de instituições, porque o lugar de uma criança não pode ser uma tenda no meio duma rua ...

E depois há também os outros ... os que são despejados do caudal inestancável dos canais de emigração desde os países mais sofridos, e que buscam, numa Europa promissora, o sonho de um futuro, uma vida, subsistência, alguma dignidade e alguma paz ...
Vertidos das guerras, da violência, do vazio de horizontes, do abandono, da fome e da miséria, mais sós do que nunca, entregues à sua sorte, à exploração, às máfias e ao sofrimento, empilham-se às dezenas enlatados numa precariedade inimaginável, em quartos miseráveis, imundos, onde o sistema da "cama quente" é frequentemente o que têm ...
E são de facto uma fauna que pulula nas nossas cidades, bem aqui ao nosso lado, em olhares que a esperança há muito abandonou ...

Também  eles  têm  ou  tiveram  mães ... lá  longe,  numa  terra  que  já  só  deve  ser  uma  memória ...

Como aquele rapaz de vinte e oito anos, silencioso, de olhos tristes e vazios, que pediu para comer mas que teve vergonha de entrar no supermercado comigo, e preferiu esperar na rua.  O seu país, a família, a dor e a guerra, lá ... A dignidade também ...  
Cá, até o trabalho que tinha lhe falhou há um mês ... Tinha fome ...

A angústia é avassaladora.  Sabemos o hoje, nunca o amanhã foi tão incerto ! O viver tornou-se um pesadelo, e mesmo investidas do "super poder" milagroso das mães ... não podemos viver a vida dos filhos ... nem viver a dureza da existência pelos filhos !!...

Anamar

sábado, 12 de agosto de 2023

" LIVROS DE HISTÓRIAS ..."


A vida é um livro que, desfolhado, sempre conta uma história.  
É a história de vida de cada um, mais ou menos simpática, mais ou menos doída, mais interessante, mais difícil, com final feliz ou com um fim conturbado ... ou mesmo parecendo não ter fim, tanto o cansaço que arrasta ... tal qual o nosso livro de cabeceira, que umas vezes é lido na ânsia do conteúdo, outras vezes é "mastigado" e não nos sai das mãos, por enfadonho, cansativo, desinteressante ... chato !

A vida sempre começa pela infância, quase sempre os melhores anos, leves, despreocupados, em que os olhos se esbugalham face a tudo o que de novo se nos depara;  quase tudo é encantamento, porque é desconhecido, é experimentado, é história, é sonho ... quase tudo é feliz e alegre, como os contos, que o pai ou a mãe nos liam ao deitar.
Começamos a entender o mundo, começamos a olhar as coisas que nos cercam, começamos a experimentar, a registar, a observar, a saborear ... a concluir.  Dizem que as nossas primeiras memórias remontam aos quatro, cinco anos.
Costumam ser tempos felizes e promissores.  Deseja-se que de facto, o sejam !

Crescemos e as responsabilidades, as primeiras preocupações a sério, já as primeiras angústias, já as primeiras tristezas, crescem connosco.  
São os anos da aprendizagem, os anos dos bancos da escola, onde começamos a integrar-nos em grupo, onde as brincadeiras forjam reais amizades, onde convivemos e socializamos já com uma visão mais real e objectiva do mundo que nos cerca. 
Rumamos à adolescência e novos "mundos", novas realidades, novos caminhos, sonhos, objectivos e metas começam a desenhar-se. 
É período de outras descobertas, é o crescimento e suas dores, a tomada de consciência do nosso papel na sociedade, a maturidade a exigir-nos a seriedade inerente ao avanço dos anos.  Damos os primeiros passos p'ra valer, nas vidas profissionais, procuramos corresponder sem nos defraudarmos nem defraudarmos as expectativas em nós colocadas.
Na minha geração tacteavam-se os primeiros projectos familiares independentes.  Estudos terminados, iniciava-se a vida activa, e o encaminho sem fugir muito à regra, seria casar, ter filhos, continuar a senda ...
Fazia parte da engrenagem para que nos programavam, e não se questionava muito o porquê das coisas.  Era assim e ponto, na generalidade.
Eram poucas as pessoas, eram pouquíssimas as mulheres que "avistavam" novos horizontes e se permitiam ao voo.
Era a família que ficava, eram as idades do pai, da mãe a avançarem, e a separação era assim algo um pouco contra-natura, como se outro cordão umbilical se fosse de novo romper.
E se desse mesmo, ficávamos ... íamos ficando e encurtando o tamanho dos sonhos sonhados.  Afinal, era como que um pré-destino inevitável a cumprir ...

Tínhamos filhos ... claro, tínhamos filhos, e começava tudo de novo.  Agora em prol deles, sempre prioritários nas nossas vidas.
Passámos a sofrer as suas dificuldades, ficámos a viver os seus sucessos e os seus desaires, ficámos a projectar-nos nas suas vidas, literalmente "inchando" por cada êxito, chorando em silêncio por cada escolho dos seus caminhos, querendo que fossem mansos, tentando afastar-lhes os pedregulhos ...
Varremos quase sempre os nossos sonhos um pouco para baixo dos tapetes.  Às vezes, retirámo-nos mesmo o direito a sonhá-los ... Ficámos muitas vezes prisioneiros de solidões acompanhadas ...
E se o nosso percurso não teve acidentes de maior, estaria desenhado, eu diria, até ao fim das nossas vidas, no dia em que o tal livro dobrasse a última página !

Mas às vezes não era tão linear assim.  Às vezes, instalava-se no nosso caminho, um cerrado de "nieblas" e mau tempo.  E dissipá-las e andar adiante, revelava-se uma estóica aventura.
Escolhi ficar só com mais de meio século vivido.  Entendi que este presente que me era oferecido por cada dia que se iniciava, agora era mesmo meu.
E foi como se me tivesse aventurado em terreno baldio e desconhecido, entregue exclusivamente à minha sorte, com todos os custos inerentes, tendo que pagar, se fosse o caso, o preço que me fosse devido.
E quase voltei às primeiras páginas do livro, reescrevendo agora uma outra história.
Agora as cores já só podem ter os cambiantes laranjas, amarelos e os ocres do Outono.  Os verdes risonhos, os azuis de céus límpidos e a mescla dos borbotos a despontar, são só desperdícios largados lá atrás...
Mas a saga continua e quando os tempos de mornidão pareceriam adequar-se, quando a paz almejada e esperada pareceria óbvia e legítima ... quando inevitavelmente pareceria não haver muito mais história a contar ... até porque o cansaço de fim de jornada já se anuncia, eis que outras páginas exigem letras e frases, e parágrafos e ideias ... e tudo se impõe e regressa ao princípio, só que agora já não sou eu a protagonista das histórias, e só que agora pouco já posso fazer para dar o rumo escolhido e o final desejado às histórias que fosse contando !...

Anamar 

terça-feira, 30 de maio de 2023

" DA VIDA E DA MEMÓRIA "

 


O dia foi de sol e calor.  Ironicamente, na véspera, terça-feira 23 fizera um tempo agreste, com chuva e trovoada.  Um tempo de recolhimento, diria eu.
Mas a quarta-feira, cinco dias depois que a Emília nos deixara para sempre, a manhã era azul, florida, radiante de luz.  O tempo parecia querer despedir-se dignamente de alguém que fora embora cedo demais. 
O tempo parecia querer prestar as honras devidas a quem, injustamente acabara de nos deixar .

Era um "ser de luz"... Seja isso o que for, sempre assim a recordarei.  Uma mulher que partilhou a sua vida profissional comigo, colegas da mesma escola para mais de trinta anos, embora em áreas programáticas diferentes.  A Emília leccionava História, eu, Física e Química.
Foi uma mulher de conciliação, de concórdia, de humanidade, com uma bonomia estampada no rosto, sempre iluminado, sorridente, feliz. Tinha a doçura de um sorriso para todos, e com todos.
Uma postura que sempre manteve, de educação, de simplicidade, de verticalidade, de isenção, de competência, fez dela uma "senhora", pessoal e profissionalmente reconhecida pelos seus pares e por toda a comunidade  escolar.  
Sendo, como dizíamos, da geração dos professores mais antigos da escola, sempre foi uma figura de referência, uma personalidade consensual.

A Emília nasceu no Brasil, em S.Paulo há setenta e seis anos acabados de completar.  Tendo-se licenciado em História pela Universidade de Coimbra, passou, como professora Coordenadora da Casa da Cultura Portuguesa na Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza no nordeste do Brasil, um período da sua vida que sempre, pela forma como o referia, se pressentia ter sido muito feliz, saudoso, e realizado.  
Os colegas e amigos com quem privou então, também o referenciam como "tempos fantásticos, irrepetíveis, de memórias indefectíveis".
Por essas paragens a Emília deixou família e amigos ímpares, a quem uniam laços de cumplicidade,  afecto e uma ternura que transpareciam das suas palavras e recordações.
A cultura brasileira, os seus escritores, poetas e artistas sempre a acompanharam ao longo da vida; a vida social e política da sua terra, nunca foram ignoradas nem a elas foi estranha, em circunstância alguma.
Coimbra, sua referência de juventude, mas também Itália que conhecia profundamente de norte a sul e que amava de coração, Grécia, Turquia e tantos outros destinos que privilegiava nas viagens que realizava, foram marcos na sua vida. 

É fácil elogiar-se quem já partiu ... quem já não existe no nosso plano terreno.  Costuma dizer-se que toda a gente passa a ser de excelência, se já nos tiver deixado.  Infelizmente o ser humano tende a pautar-se dessa forma na avaliação dos que já não têm voz...
Em nada disso a Emília se enquadra.  Por mérito, valor, prestação de vida, partilha, sentido de justiça ... humanidade, mas também humildade, disponibilidade e amor ao seu semelhante, fizeram dela um ser GRANDE ... e por tudo isso é da mais elementar justiça e não mais, que eu aqui lhe devote o meu profundo reconhecimento, a minha gratidão e reitere o privilégio que tive, por ter sido merecedora da sua amizade em vida, e pelo legado deixado pela sua memória !...

Até sempre Emília !  Talvez por aí nos voltemos a cruzar.  Até lá, descansa em paz !!!

Anamar

terça-feira, 11 de abril de 2023

" VIDA "


Tenho pra mim que normalmente não dá bom resultado chafurdar no que a vida foi plantando lá para trás.  Fotos, escritos, papéis, pequenos objectos ... enfim, tudo o que teve significância e não tem mais, ou pelo menos não tem aquela que teve. 
Contudo, remexer em tudo isso não é mais do que uma incursão no tempo, que quase sempre nos deixa a perder por representar na maior parte das vezes, épocas já desfocadas, descontextualizadas, de memórias inquinadas, creio, pela distância e pela erosão que esse mesmo tempo nos foi deixando na alma e no coração.
Quando tento este exercício insano e desaconselhado, quase sempre me arrependo depois,  amargamente.  É como aquela velha constatação de compararmos o nosso estado de espírito antes e depois da ida a algum lugar que amámos.  À ida tudo é promissor, é como se fôssemos reencontrar tudo o que deixámos, exactamente nos lugares e no contexto em que deixámos ... para depois acabarmos  percebendo a dor da fraude sentida pelo tamanho do equívoco em que embarcámos ... por tontice, ingenuidade ou mesmo insensatez !...
E de nada valeu a pena ... de nada valeu o estrago e o amargor deixado, afinal !

A Páscoa passou. Ontem foi o domingo que encerra as celebrações.
Hoje na mata tudo continuava igual.  Os pássaros que elaboram verdadeiros e emocionantes concertos de cantoria, ou não estivéssemos numa Primavera generosa de dias bonitos, temperaturas elevadas e flores ... miríades de flores engalanando os arbustos em profusão ... não sabem que a Páscoa passou, não sabem que ontem foi Domingo de Páscoa, ou sequer que foi domingo ...
O que interessaria a um pássaro saber qual o dia que vivencia ?  A natureza, a vida, a sequência simples dos dias e das noites, o nascer e o por do sol, o dormir e o acordar, o instinto apenas, a orientá-lo no caminho da sobrevivência, é quanto basta.  Ele chega, cumpre o destinado e parte.  O seu desígnio biológico justifica-lhe a estadia ... não mais !
E nós ?  Nós "somos" ... hoje.  Amanhã já só dirão que "fomos"...
Também nós chegamos, cumprimos o destinado e partimos.  Partimos com a indiferença do Universo.  Partimos sob a pequenez, a insignificância e a irrelevância da nossa dimensão ... menos que um grão de areia no contexto da existência ... Partimos com o silêncio indiferente de tudo o que nos rodeou e não rodeia mais  ...
E vamos ainda "viver" por uns tempos ... se as memórias forem longas.  Depois, "fomos" apenas ...
Fomos aquele rosto imobilizado e gravado na película que ficou na moldura daquela mesa ... fomos aquele texto que escrevemos e ficou perdido no fundo da gaveta, aquelas palavras que expressámos, cujo eco também se vai esbatendo ... fomos o riso que talvez alguns ainda lembrem por uns tempos, o dichote e o humor sarcástico que nos acompanhava ... 
Depois fomos o que fizemos ... se fizemos alguma coisa que ficasse ...
Não mais !...

A Teresa olha longa e pesarosamente o Chico, que se arrasta, cujas patas não suportam o peso ou os movimentos do corpo.  O Chico que come deitado e que permanece deitado todo o tempo, ainda que olhe cá de baixo, do chão, o céu azul que a vidraça acima dele lhe desvenda.  O Chico que já só salta para os lugares que eram seus, em memória ... em desejo ... em sonhos ... porque de seu, o Chico vai tendo cada vez menos !
O Chico agora mia quando está só.  Não quer afastar-se de mim.  Não era hábito.  E esconde-se numa caixa que, como uma toca dissimulada e escura, o aninha.  O Jonas cheira-o insistentemente.  Será que a morte tem cheiro ?! Não sei.  Mas a sua presença por aqui, anuncia-se e assusta ...
A Teresa olha longa e pesarosamente e diz : " O Chico está quase a ir para a estrelinha "...

Hoje também, há cinco anos atrás a minha mãe buscou outra dimensão .  Mais uma estrelinha  que enfeitou o nosso firmamento.  Também de lá a Teresa garante dialogar com ela ...
Só que, lamentavelmente, somos crianças por tão pouco tempo nas nossas vidas !...

Partiu, partiu discretamente como sempre foi a sua vida, partiu sem queixume ou estardalhaço no silêncio íntimo dos seus dias ... partiu com a noção absoluta do descaso com que o ciclo da existência nos trata ... uma simples e anónima partícula da poeira em que se transformou ... matéria física que somos ... 
Não mais !

E cada dia que passa me faz mais falta, cada dia que passa lhe sinto mais e mais a ausência, cada dia que passa a minha orfandade se torna mais e mais absoluta e gigantesca !  
Cada dia que passa o silêncio que deixou me fere ensurdecedoramente ...  

E a vida é isto.  Viver é mais ou menos isto ...
Não mais !...

Anamar

segunda-feira, 20 de março de 2023

" CURTAS ... "



Tanto me lembro da minha mãe ... a propósito de tudo e de nada ! Uma frase, um pensamento, um ditado, sim, porque a minha mãe era uma mulher de adágios.  Colocava-os nas ideias e nas frases, com toda a propriedade e como uma menina travessa, meio comprometida, como quem fez uma pirraça, ria e dizia a propósito :   " Vocês um dia vão lembrar-se muito de mim ! " 
E não é que me lembro mesmo ?!... Mais ... lembro o seu ar encabulado e dou por mim também a ser uma mulher de provérbios ...
Somos alentejanas, província de características muito próprias e particulares.  Com vivências únicas, acredito, com estares bem distintos, com sentires talvez diferentes ;  até na linguagem, além do sotaque e da  entoação cantada, se consegue pressentir essa singularidade.

Fisicamente reencontro no olhar que o espelho me devolve, a expressão dos olhos dela e tal como ela, nas últimas etapas da vida, as lágrimas se me soltam sem censura ou auto-controle.  Fácil, fácil, me emociono com qualquer coisa, sobretudo se forem coisas que não se explicam, só se vêem, sentem, percebem ... chegam e tomam-nos de assalto, do nada, num piscar de olhos.
É uma borboleta amarela que volteia à minha frente pela mata, como se me abrisse o caminho e me convidasse a segui-la ... é o olhar terno e desprotegido de um animal entregue ao seu destino, é o silêncio encantado duma vereda onde o sol faz negaças p'ra entrar ... é  o  chilreio, o  pipilar,  o  trinado e o  assobio  das  aves  que  demandam  poiso  nas  copas altaneiras, ou o grasnido das gaivotas que aqui  por  cima  bailam  na  aragem  que  corre ...
É o sol que se põe de novo, é o rasto do avião que risca o céu e conta histórias de lugares distantes ... é o  som  da  brisa  que  vai  e  que  vem,  ou o  som  do  ribeiro  que só vai,  já não vem ...
Enfim ... o coração parece ter-me subido aos olhos ou ao pé da boca, como soi dizer-se.  
Um inexplicável nó, pouco previsível e justificado aperta-me a garganta, a voz embarga-se e a emoção toma-me de jeito ... e pronto, lá vão as lágrimas que rolam rosto abaixo... tal como a ela ...
Estou frágil, sinto-me com as resistências tombadas, ameaço tombar junto com elas ...
E afasto-me de todos, isolo-me o quanto posso, fujo do convívio ... não tenho a mínima margem de capacidade, paciência ou sequer vontade para abrir a alma, para franquear o espírito, para escancarar o coração.  
Não vale a pena.  Cada ser humano tem só por si, cada vez mais nos tempos que correm, a difícil empreitada de gerir os seus próprios destinos, a tarefa hercúlea de desembaraçar o seu próprio novelo, tem o que chegue para se ocupar, afligir e enlouquecer com todas as pirraças e todas as jogadas do seu próprio tabuleiro de xadrês ... para que possa, nem por instantes desviar o seu próprio foco para as maleitas do vizinho.  As pessoas vivem perdidas nos seus redutos, já ninguém ouve ninguém ou é capaz de percepcionar a invernia que vai ali ao seu lado.
Não há partilha, não há entendimentos cúmplices, as linguagens são meras conversas de surdos ... E depois, não há tempo, obviamente não há tempo ... e também já nem adianta !
Fica um vazio tão doídamente grande quando a vida, o afastamento, o tempo ... as vicissitudes que nos atropelam, levam pessoas próximas a desconhecerem-se, a perderem-se pelas esquinas, a virarem páginas, a silenciarem tudo o que era, o que foi, a zerarem histórias, emoções, momentos, risos, afectos ... sentindo a total e absoluta incapacidade de reverter as vivências.
É como se, em vida, assistíssemos e vivêssemos infinitas e irreversíveis partidas.
Parece que a nossa vida é agora uma mera sobreposição de despedidas ... nada mais !  Nada já se recupera, porque nós mesmos já partimos do nosso caminho, faz tempo !

Dou por mim com uma saudade sem fim de realidades que foram.  Os tempos intermináveis da Covid foram insensíveis coveiros nas nossas existências.  Foi um pouco assim como o "day after" de
uma catástrofe acontecida, um terramoto, uma cheia, uma guerra ... em que a realidade que nos acolhia, num virar de página se descaracterizou completamente.  Os sítios já não são os mesmos, as pessoas já não estão lá, as rotinas dos momentos vividos esvaziaram de significado... Como se o mundo tivesse, num abrir e fechar de olhos, sofrido um varrimento inelutável e sem volta !
Foi como se tivéssemos desaprendido de viver, de falar, de estar.  Agora, aquilo que queremos parece ser apenas paz, silêncio, um canto para pousar a cabeça.  Tudo o mais é cansativo, não nos gratifica ou acrescenta ...

E pronto, este é o meu estado de espírito neste momento... uma espécie de marasmo, uma rotina entediante, uma coloração de cores mortas sem os tons quentes e provocadores dos momentos felizes ...
Um desinteressante e fastidioso desfolhar de horas, dias e meses ... cinzentão, chato e cansativo !...

Anamar

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

" BALANÇOS ... "

 

Balanços, balanços ...

Por que raio somos impelidos a fazê-los, só porque o ano termina, se afinal "ele nasce outra vez" ... como  diz aquela maravilhosa e eterna melodia natalícia que todos conhecemos ?!

O dia trinta e um de mais um Dezembro que como um sinal de trânsito determina o fim deste trajecto de trezentos e sessenta e cinco que por aqui se foram escoando, é simplesmente mais uma marca que o ser humano inventou, como se o tempo não fosse um todo contínuo que temos a mania de fatiar ... anos, meses, semanas, dias ... horas ...
E dessa forma contabilizamos a vida, dessa forma despejamos nos nossos corações baldes de angústias, de ansiedades, de dúvidas e incertezas !
Dessa forma, criamos metas nas nossas cabeças, espreitamos fins de linha, receamos a aproximação do destinado, baseados em lógicas de esperança de vida, de estatísticas, de inevitabilidades ...
Como se fosse assim tão linear, o destino de cada um !...

E chego exactamente aqui com uma sensação de novelo de lã embrulhado nas pontas que se desgrenharam, com a sensação dum coração mais esburacado que o coador do chá, e com o cansaço de quem arrasta grilhetas atrás de si, pelos caminhos da vida.  Chego com a exaustão dum vazio irremissível, com o peso irresolúvel desse mesmo vazio ... ( Quem disse que a ausência de matéria não pesa horrores ??? )...
Quando estamos na idade produtiva, quando os planos e os sonhos esbracejam para terem espaço, e falta tempo e condições sobretudo materiais para os concretizarmos, acreditamos convictamente ... e ansiamos ... que, lá mais para a frente, há-de sobrar tempo, há-de haver paz, disposição e vontade, há-de haver disponibilidade emocional para se cumprir um percurso sereno, tranquilo, despreocupado e despido de angústias, aflições e incertezas destruidoras ...
Lá mais para a frente, será o tempo de recolectar, de usufruir, de saborear sem sustos ou sobressaltos, a nova qualidade de vida que nos é devida, afinal.
O Outono, também da existência humana, deverá ser um período de acalmia, de benefício, de paz ... o período da colheita do semeado em altura própria ...
Pois bem, chego exactamente aqui, como disse, com a sensação de ter feito quase tudo errado na minha vida, com a sensação de ter sido uma péssima administradora da mesma, com a desconfortável angústia da incapacidade de conseguir passar quase sempre a minha mensagem, clarificar a minha linguagem, traduzir com transparência tudo aquilo que quis transmitir, mostrar-me na total nudez da minha essência ... Com todos ... filhos, amigos, amores ...

Enfim, chego exactamente aqui carregando uma frustração sem tamanho, um desmesurado amargor no coração, uma sensação de derrota, de erro, de perda de tempo, de ineficácia, de fracasso ...
Não fui, simplesmente, capaz, hábil, convincente ... Quase tudo terá, portanto, sido em vão !...

Balanços ...
Antes de começar a escrever, sem uma linha norteadora, sem um assunto previamente equacionado, sem um propósito perseguido  ( apenas com uma sensação de profundo desânimo, cansaço e tristeza dentro de mim ), havia-me dito que balanços, não !  Bastava a penitência que me atribuo de escalpelizar o meu caminho ... bastavam as mãos vazias em colheitas que não deram frutos ... bastava a perda da ilusão e da inocência face ao que poderia ter sido e não foi ...
E afinal ... acabei incontornavelmente presa ao emaranhado dos seus inevitáveis tentáculos, em mais um ano que se está a acabar dentro de poucas horas.
Os balanços, afinal, sempre acabam dominando a mente humana !

Anamar