sábado, 16 de julho de 2016

" E VOU POR AÍ ..."




Chega uma altura em que parece que não há remédio ...
E acho mesmo que se não fosse de outro modo, seguramente me nasceriam asas nas costas, e ainda assim, eu partiria !

Tenho uma alma por demais inquieta, tenho um espírito desassossegado, e as grades de gaiola não são para mim !
Coisa de genes, já o referi vezes sem conta.
O meu pai começou a morrer aos poucos, quando deixou de se poder perder por esses caminhos errantes, na sua profissão de viajante.
Ele era muito mais que um caixeiro-viajante.  Ele era um pardal saltitante por essas ramagens sem dono, livre e solto como a sua alma !

Eu herdei essa coisa de saltimbanco do destino. De insatisfeita de Vida !
E quando o sufoco se me apodera do coração, me tolda a mente e me perturba o sono ... eu sei que chegou a hora.  E sei também que há uma improbabilidade absoluta de continuar por aqui ...

E vou ali, e já venho !

Cerro as janelas, desligo o computador, despeço-me do sol e do céu que por aqui ficam, beijo angustiada o Jonas e o Chico que comigo dividem as vidas todo o ano ... penitencio-me por ter de o fazer, e peço-lhes que me aguardem ... Voltarei da rua num belo dia, e tenho a certeza que me saberão, mal o elevador pouse no patamar !..

E carrego comigo os sonhos sonhados, os desejos formulados, a imperiosa necessidade de ir por aí .
Carrego o sorriso rasgado da  menina a quem deram um presente.  Carrego o sabor de uma liberdade que me acaricia o coração.  Carrego a leveza da aventura adivinhada.
Parto de alma lavada e espírito desarmado.  Aberta a tudo o que os meus olhos possam enxergar, os meus ouvidos escutar ... mais do que respirando, sorvendo todos os cheiros, embriagando-me com todas as cores, extasiando-me com a luz, os sons e os sabores que a Natureza me possa oferecer !

Quero jogar o meu corpo nas águas cálidas e mansas.
Quero mergulhar na sombra da mata.
Quero perder-me nos pores-de-sol em fogo.
Quero silenciar-me no luar prateado de uma lua cheia que é sempre imensa, como imenso é o firmamento negro, pintalgado de todas as estrelas do universo.
Quero escutar o vai-vem das ondas que não chegam a sê-lo, e são apenas uma babugem rendilhada de véu de noiva, na areia branca.
Quero ouvir os pássaros no dealbar de cada dia e devassar-me com o adocicado gratuito de todas as flores e todos os frutos ...
E quero olhar o riso das crianças.  Afinal elas são todas iguais e todas diferentes, em todos os lugares do mundo !

Deixo a minha realidade quotidiana, por cá.
Deixo as minhas rotinas.  Os lugares que por serem de sempre, me sufocam.
Deixo os meus, de coração.  Com uma ansiedade enorme, é certo ... mas que terei que dissipar.
E vou  recarregar as energias, que nesta altura da minha vida, por todas as razões, estão exauridas.
Vou consertar o coração, porque também ele, o carece há muito.
Vou costurar a alma, esfarrapada que está, há tempo de mais.

E votarei. Breve voltarei !
Afinal, o  tempo não passa ... escoa como a areia por entre os dedos. Voa, como a brisa da tarde, que nunca se deixa prender ... foge, como o rasto da ave que perpassa rumo ao arvoredo !...

Deixo o meu beijo para todos.
Por cá, fiquem em paz, com tudo de bom nas vossas vidas !  E ... ATÉ  BREVE !...

Anamar

quarta-feira, 13 de julho de 2016

" HINO "





Caminhar ...

Caminhar sem rumo ou definição, caminhar só porque sim, perseguindo as asas da borboleta que caminha, voando ... é uma ânsia ancestral, que me coexiste, ou talvez me preexista, desde o útero materno.
O meu pai foi um caminheiro de destino. Por obrigação, por profissão, porque tinha que ser assim !
Eu, caminho no coração e na mente desde quando o dia me começa  a raiar, até que durma num firmamento adocicado de cores amortecidas.
E porque o betão me sufoca, os cogumelos dos Homens me violentam, as grades que eles lhes colocam me aprisionam, os trovões que ribombam  pelas ruas e pelas estradas me ensurdecem ... eu não sou feliz !

A maior volta que dou, é ao redor de mim própria.
A  maior viagem que faço, é nas rotundas da minha vida.
A maior aventura que vivo, é quando corro pressurosa, atrás dos sonhos.
O maior caminho que percorro é o que faço cavalgando a crista da onda que vai e que vem, e que sempre virá e irá pelos destinos perdidos da minha imaginação ...
O maior desafio que enfrento é a busca permanente da esperança, para alimento do meu ser ...

Os meus pés são de caminhante que recusa horizontes, mas a minha alma é a de pássaro que não conhece gaiola.
O meu coração salta de ramagem em ramagem, em qualquer pedacinho de terra que abrigue uma sombra.  E voa, alto e longe, livre e solto, como o condor dos penhascos.
E a sede que me sufoca, mendiga a paz de água das fontes ...

E vou andando, triste e definhante .  Mas sei que não pertenço a este chão !

E chega um momento em que devo partir.
Chega um instante em que sufoco, se continuar por aqui.

É quando o silêncio me é razão de vida.  É quando o sol ao despedir-se lá longe, me sussurra segredos de outros céus, outros ocasos, outras brisas que percorrem outras matas, de outras paragens ...
É quando o nariz me reclama cheiro a terra molhada.  Maresia de mares sem fim.
Quando luas cheias de firmamentos escuros, pontilhados de luzes tremeluzentes, se tornam imprescindíveis ...
É quando a melopeia dolente de mares infinitos, me ecoa trazida no cântico dos búzios e das sereias, pelas madrugadas ...
É quando os sons únicos,  são os da Terra, que acariciam e não regateiam ...
É quando me procuro, na ânsia de me encontrar ... É quando tropeço mas recuso cair, e soergo-me num desafio incessante de me superar ...

E lanço-me do ninho, como andorinha nascida, que intenta o primeiro voar.
Lanço-me no espaço, como a borboleta que desembaraça as asas ao deixar a crisálida.
Ergo-me, como o cervo titubeante largado da placenta, nas terras de África ... Porque acredita.
Faço-me à estrada ... pé ante pé ... apalpando o terreno, na dúvida do desconhecido.

Faço-me gente, e caminho. Esqueço o cansaço e as agruras. Seco as lágrimas e a dor.  Mato a fome com o sabor da paz ... E parto !

Porque não importa o caminho ... importa sim, caminhar !...

Anamar

segunda-feira, 11 de julho de 2016

" O SONHO COMANDA A VIDA "




O país deitou de verde e vermelho ... amanheceu de verde e vermelho ... aliás, eu nem sei se houve noite !

Esqueceram-se as dores, esqueceram-se as mágoas, os anseios, as dúvidas e as incertezas ...
O país abriu um parêntesis, e suspendeu-se por um tempo.
Este, o sortilégio do futebol !...
Ou melhor ... este o sortilégio da concretização de um sonho sonhado, que parecia inalcançável, e afinal, o não foi !
E era um sonho tão imenso, tão acarinhado nos nossos corações, que teve a dimensão do seu tamanho ... ou seja ... infinito !

As pessoas mobilizaram-se em redor da nossa esperança.  As pessoas uniram-se em torno do que merecíamos.  As pessoas reacreditaram, como se reacredita em causas nobres ... aquelas que o coração alberga ...
Parecia legítimo que um pequeno rectângulo aqui esquecido nesta Europa de Deus,  uma pequena terra engenhosamente tratada como enteada dos privilegiados ... um pequeno país, ardilosamente segregado pelos donos de tudo ... parecia justo, dizia, que erguesse a cabeça, se mostrasse ao mundo, com a cara e a coragem de quem lhe deu a História!
E Portugal, com a humildade que nos talhou, com a força e a determinação de quem nos forjou e com a coragem e a fé do sangue que indistintamente nos corre nas veias, acreditou, perseverou, alcançou !
Lutou, agigantou-se e valorizou-se, sem baixar a cabeça e sem se acobardar, frente ao favoritismo dos que são favoritos, só porque o são, mesmo que o mérito lhes possa não corresponder.

E mostrando uma vez mais que querer é poder e que um sonho que se sonha junto, vai muito além da força do simples crer, fomos adiante e cumprimos uma vez mais, o destino !
E a História voltou a fazer-se com a mesma tenacidade, arrostando marés adversas, ventos de temporal, e tocaias plantadas no caminho...

E hoje, as ruas, as praças, os viadutos, as pontes, tudo quanto era uma nesguinha de chão, um pedacinho de terra, o topo de uma estátua ... ao sol ou à sombra, sentados, ou em pé, horas perdidas desde a madrugada ... havia um português presente de corpo e alma, agradecido àquela gente que deu o suor, o esforço, e o sangue por uma causa que cresceu, que avassalou, que unificou, que varreu e que se tornou a onda gigante e incontrolável de nos sabermos felizes !

A onda que fez de cada um de nós, amigo do desconhecido ao nosso lado...
Que nos fez rir do nada, que nos tornou crianças irreverentes nos saltos e nos gritos, que nos uniu nos cânticos, nos slogans, no Hino ...
A mesma onda que foi uníssono no Brasil, em Timor, em Cabo Verde, em Angola ... em todos os países onde as nossas raízes nunca deixaram de dar flores e frutos ... nas bocas de todos os emigrantes que ponteiam o mundo de pedacinhos de Portugal ...
A onda que nos envolveu na bandeira da nossa vontade ...
A onda que nos prendeu uns aos outros com os cachecóis do nosso contentamento, que nos pintou e iluminou com as mesmas cores ... o verde, o vermelho e o amarelo dos nossos castelos, uma vez mais inexpugnáveis!...

E este pequeno país periférico, este sul de uma Europa chauvinista e xenófoba, este nosso torrão natal ... "lá bas", para uma França que teve que nos engolir ... mostrou de novo a sua raça, acordou de novo os seus brios, fez da dor uma força sem tamanho ... e encheu-nos  os corações, com uma alegria sem medida !
E Portugal fez-se presente na Europa, fez-se Gente no mundo, fez-se desígnio do destino !

Não vou acrescentar mais nada a tanto quanto tem sido dito, contado, falado, dissecado .  Todos vivemos tudo, bem de perto.  Todos sabemos exactamente de tudo.  Todos sofremos, rimos, chorámos, barafustámos, apoiámos os nossos putos !

Eu, fico com uma dívida de gratidão acrescida, a esta vitória :  a minha mãe que caminha para os 96 anos, viveu um dos dias mais felizes da sua vida.
E ela que com grandes períodos conturbados de demência, atravessa agora um privilegiado tempo de alguma acalmia mental, diz-me que já pode morrer em paz ... e não importa que daqui a quatro anos já não possa assistir ao novo Campeonato, já que este lhe deixou o coração pleno de felicidade !...

Anamar

segunda-feira, 4 de julho de 2016

" QUANDO ELES PARTEM ... "





Fica estranho quando as nossas relações começam a partir.
Ficamos com a certeza dura de que somos mesmo "muito mortais", vulneráveis, bem frágeis afinal.

Em crianças "desconhecemos" a morte, e sempre tentam suprimir-nos ao seu confronto.
Alguma que outra referência a ela, investe-a de um poder fantasmagórico assustador, que logo afastamos no instante seguinte.  É uma entidade perturbadora, felizmente pouco consistente nos nossos espíritos infantis, que contudo nos aterroriza.
Mesmo a mera conjectura de uma futura orfandade inevitável, deixa-nos à beira de uma desprotecção que raia o pavor.  O vislumbrar dessa hipotética situação  amedronta-nos, e por defesa sempre a tentamos alienar da nossa mente.
Quando nos assalta as noites, vira um pesadelo sem tamanho que nos desperta em lágrimas e soluços.

A adolescência, depois a juventude, começam a mostrar-nos uma realidade mais crua, ou melhor, começam simplesmente a familiarizar-nos com a Vida.
Começamos a tomar pulso ao efémero da mesma, à sua precariedade, à sua insegurança, à lotaria ou roleta russa que ela representa.
Percebemos que para morrer basta estar vivo, que a rota vai encurtando por cada dia que vivemos, que as hipóteses se vão delapidando, e que talvez não seja exactamente essa coisa sonhada  de muito destino adiante, de muito sonho a sonhar-se, de muita estrada ... quase infinita estrada, a fazer-se ...
Contudo, à semelhança daquelas férias de Verão da nossa juventude, que não acabavam nunca, ainda assim, parecemos convictos de que ... meu Deus ... tanta Vida dispomos à nossa frente !...

É uma fase da nossa existência que nos confina a um estado de graça que quase nos imortaliza.
É uma fase em que tudo podemos, em tudo acreditamos, até mesmo na fé de que nenhuma injustiça existencial nos atingirá !
É a fase da luta por tudo o que de merecedor a Vida nos reservará, seguramente.
É a fase da construção  promissora, em que a obra nasce e cresce, empolgadamente, como tudo o que se inicia  e floresce ...
É a fase da Primavera da Vida !...
A morte é um acidente desconfortável nos nossos percursos.  Para quê deixar que nos atormente ou se faça presente nas nossas realidades ?!...

O tempo segue inexorável, e dobramos então uma esquina em que consciencializamos claramente estarmos a percorrer e a saborear a última fatia de um percurso ainda de qualidade.
Um percurso saboreado com a maturidade de percalços transpostos, de sobressaltos vencidos, de turbulência ultrapassada.  Uma adultícia usufruída, que seguramente nos será devida ...
Pelo menos assim deveria / deverá ser.
Não conjecturamos desvios atrevidos da Vida.  Não "aceitamos" partidas ou pirraças dos anos.
Queremos, e achamo-nos no direito de vivê-los sem demais atropelos. Com a paz e a serenidade de uma recta plácida, suave ... a ser percorrida com um sorriso ainda iluminado no rosto !

À medida que o transcurso temporal se faz ... e porque nunca ele nos dá uma "colher de chá" ... sabemo-nos na "calha" da existência.
Afinal, "começamos a morrer no momento em que nascemos" ... ( Marcus Manilium )
Vemos partir os nossos ascendentes ... e inevitavelmente  nos sabemos ocupando o lugar seguinte da fila.

Começamos a perder conhecidos, vizinhos, gente de todos os dias ...
Começamos a deixar escoar pelos dedos, familiares, colegas ... Começamos a ver partir os primeiros amigos ... os companheiros de viagem ...

E aí, o soco no estômago deixa-nos meio estranhos.  A bordoada na cabeça deixa-nos meio atordoados.  O golpe no coração deixa-nos exangues, sufocados e amputados na alma ...
Sentimo-nos desconfortáveis.  Percebemos uma nova realidade e uma nova "arrumação" no nosso tabuleiro de vida.  Faltam peças, há lugares vazios que exigem uma nova ordem, uma nova habituação à existência !...

E não há nada a fazer !

Eles partem, simplesmente ... Resta-nos lembrar quem foram, o que nos foram, sentir o rasto da memória que nos deixaram ... Perceber simplesmente a inevitabilidade ... a orfandade dos afectos, a fragilidade do ser-se !
É um pouco contra-natura.  É um pouco arbitrário.  É um pouco violento.  É violentamente injusto, sempre achamos !
Mas é assim !...
Que raios ! Afinal, para os que ficam, urge continuar !...

E a ampulheta, mansamente continua a esvaziar.

A velhice instala-se em definitivo. E arrasta-se mais ou menos no tempo, de acordo com o destino de cada um.
E aí, grotescamente estabelece-se uma nova relação com a morte.  Desenha-se uma nova filosofia que respeita simplesmente ao sentido primário da sobrevivência do ser humano.
Há por  assim dizer, um sentido meramente egocêntrico face à existência. A biologia gera, por protecção, acredito, uma insensibilidade que parece desumana, face ao seu semelhante. Gera alguma desumanidade aos nossos olhos, parecendo desapiedar-se dos que tiveram a má sorte de tomar a dianteira ...
"Eles vão indo ... mas EU ainda cá estou" !...
Sobrevivência pura, tenho a certeza ! Alienação abençoada da realidade !  Coisa de fim de vida !

E pronto !
Esta, a reflexão que me ocorreu hoje, com toda a pertinácia que me confere o choque que senti  pela manhã, ao saber-me mais órfã, mais pobre, mais só neste mundo de Deus ... onde mais uma colega de toda uma vida de trabalho se adiantou e resolveu partir, silenciosamente, sem protestos talvez, na aceitação simples da determinação do seu destino !

Anamar

segunda-feira, 20 de junho de 2016

" TWO LIVES "



Está um laranja tão suave ao fundo, no firmamento !...
O sol já se deitou faz tempo.  Sempre o acompanho no seu percurso, até que mergulha nuns arbustos esparsos, lá longe !
É uma hora de recolhimento, mística, silente.
Invariavelmente, sempre sou acudida pelo mesmo pensamento : Quantos dos que o vêem dormir hoje, já não têm o privilégio de o ver abrir a pestana, espreguiçar e reiniciar uma outra jornada, amanhã ?!
Sabendo que sempre, desde os tempos imemoriais que a prosápia humana julga conhecer, sem falta, sem omissão, sem desvio ... ele cumpre o mesmo ritual ... o seu ritual de vida ! Todos os dias !

E como o ser humano é, de facto, ínfimo, nesta grandiosidade de magnificência indescritível !

Nas nossas curtas existências, quase sempre desvalorizamos, esquecemos, distraímo-nos do seu desígnio.
Como se o que deixámos hoje, seguramente, repegássemos intocado, amanhã ...
Num desperdício atoleimado e inconsciente, quase atrevido e provocatório, desafiamos e enfrentamos as leis da Natureza.
Como se nada mudasse e a permanência fosse um garantido princípio de vida ...

Ilusório ...  Nada em cada instante é imutável.  E tudo o que desperdiçámos ou delapidámos, na nossa triste inconsciência, jamais será recuperado, vivido, guardado .

Esta é uma angústia existencial que me atormenta, pois tenho perfeita consciência de ser das piores e mais relapsas alunas da Vida.
Penitencio-me, reflicto, analiso ... oh meu Deus, como analiso !
Chego mesmo a dar-me  ultimatuns ... desenvolvo processos de intenção, sérios e sinceros ... mas ...
Sei exactamente que este laranja do firmamento adormecido, que me deixou há pouco, foi único, irrepetível, particular ... singular .  Poderá haver muitos mais, mas já serão "outros" e não este !
E essa que eu serei então, também será outra, e não esta que hoje o olhou do alto desta janela !
E as emoções, os sentires, as esperanças, as dúvidas, as angústias ... ou tão só os pensamentos particulares e simples que me invadiram ... distintos também !
Este momento, este minuto, este lapso de tempo, terá sido único e exclusivo na minha vida, e fugazmente se terá desvanecido, sem volta !...

E teria sido tão importante que o tivesse esgotado, sorvido, me tivesse entupido com ele, em êxtase total, sem pressas, afobações ... apenas vivendo-o, saboreando-o como algo raro, justo na hora !
Teria sido tão importante que me tivesse empanturrado, impregnando-me da dádiva que é, simplesmente estar viva !...

Mas não !
Dou por mim quase sempre a viver a destempo.  Dou por mim a adiar a vivência plena das coisas para melhores dias, para melhores ocasiões, para alturas mais propícias ... para depois.
Numa espécie de corrida insana atrás do momento que virá, depreciando o que tenho.

Guardo memórias para ver depois, olhar depois, deliciar-me depois.
Guardo fotos, porque um dia terei tempo para um deleite sem pressas.
Arquivo testemunhos antigos, porque chegará a vez de os usufruir com toda a disponibilidade emocional ... Um dia, seguramente !
Repousam no fundo das arcas, recordações escolares das minhas filhas, porque um dia ... sim, um dia então, sentar-me-ei junto delas para rever tudo outra vez ... tenho a certeza !
Os brinquedos aos quilos, ocupam e empoeiram na arrecadação, porque sempre esperaram melhores dias, dias adequados, para serem brincados ...
E não foram !...  As crianças já cresceram de mais, para os acarinharem e lhes darem vida de novo ...

E o tempo segue implacavelmente.
E um dia, quando eu conseguir olhar, enxergando ... quando eu conseguir reunir o discernimento e a força para me acordar ... finalmente ... já não terei tempo para a  emenda do rascunho que foi a minha vida.
Já não terei tempo útil para a passar a limpo ...
Já não conseguirei fazer-me sair do marasmo, do cansaço, da fraude, da insatisfação a que votei a minha existência ... Simplesmente porque a ampulheta esvaziou, e dramaticamente já não terei história p'ra contar !...
Já não terei oportunidade da tal segunda chance ... apesar de sempre a ter pressentido, e de sempre saber que na verdade, a chance de cada um, é apenas a única chance de cada um !...



Anamar

sábado, 18 de junho de 2016

" LIBERDADE OU SOLIDÃO ? "

O Homem é um animal gregário.  É bicho de alcateia, de clã ...
É  "contra-natura" a sua existência como ser isolado, sobretudo se esse isolamento lhe cai no colo, à revelia de opções suas.

Todos nós, sós ou em companhia de uma ou mais pessoas, necessitamos dos nossos tempos pessoais.
São tempos fundamentais e imprescindíveis, de encontro e partilha connosco mesmos.  Eles são propícios à introspecção, à análise, à reflexão, à meditação ... à correcção.
São tempos equilibrantes ... devem ser tempos de crescimento e melhoria.
Esses tempos são nossos por direito, e assim vivenciados  nunca serão um fardo, ou sequer sentidos como solidão.

Podem simplesmente ser momentos, em que temos total liberdade de subverter, de desafiar limites, de luxar as nossas pequenas prevaricações ( tão simples quanto metermos a chave à porta a nosso belo prazer, sem sentir a obrigatoriedade de justificar, explicar ...  porque lá dentro, o silêncio desse momento, nos aquece a alma, nos aconchega ... nos convida ... nos fazia falta )
Ou o luxo de tomarmos o tal café no nosso sofá ... de passarmos a "nossa" música quantas vezes quisermos, à altura que quisermos ... de lermos o nosso jornal, sabendo que não teremos interrupções ... de comermos quando tivermos fome, de dormirmos, se o quisermos ... de andarmos nus, descalços, desgrenhados ... se for essa, de momento, a nossa vontade.

Isto é liberdade usufruída, saboreada, desejada, e nunca solidão !

A questão não é tão simplista assim.  Tudo na vida tem gradações. Como sabemos, nem tudo é completamente preto, nem tudo é completamente branco.
Também, com a análise destas questões.

Qualquer situação imposta, continuada ... recorrente, forçosamente violenta o ser humano.
Ninguém aprecia reiteradamente os mesmos sabores, as mesmas rotinas ... os mesmos hábitos.
E a questão coloca-se quando ela se arrasta temporalmente.
A experienciação de novas realidades, particularmente no caso de ligações afectivas que se dissolveram não importa porquê, deixando os intervenientes nas mesmas, face a outros figurinos, comunicam uma falsa sensação de liberdade, pelo menos nos tempos iniciais.
Se a situação finda  tiver então sido penosa, frustrante e traumatizante, somos invadidos por um deslumbramento, por uma descompressão, pela vontade louca de reinício.  Por uma Primavera de vida !
Um reinício que se nos apresenta como salvação pessoal, como desiderato de vida nova, como total libertação, como um direito nosso, afinal .
E vive-se assim, quase num êxtase conseguido, tempos que obviamente dependem também de outros vectores pessoais.
As componentes  personalísticas, familiares, sócio-culturais, profissionais e outras, têm determinação absoluta no encarar da realidade e no que ela nos passa a representar : liberdade ou solidão?

Solidão, no duro, sem outra admissível classificação, é aquela que se impõe quando somos forçados a viver, o que tempos antes se nos afigurara como libertação, êxtase ... uma conquista dourada.
Porque, voltando ao início do meu texto, o Homem precisa partilhar e partilhar-se.
Precisa cumpliciar, dividir, usufruir-se enquanto ser emocional além de racional.
O Homem aprecia a dialéctica, depende dela, cresce com ela, aperfeiçoa-se na dúvida, na troca de formas de sentir e pensar.
O Homem gosta de sonhar junto, mas também de sofrer com apoio.

Se isso lhe for negado, a solidão instala-se, tenho a certeza.
Quando o silêncio não desejado permanece, quando a ausência de ombro, de colo, de ouvidos e boca se instalam ... quando as paredes da casa crescem ... quando as noites se tornam mais escuras e fantasmagóricas ... quando as lágrimas não têm quem as seque, além de nós mesmos ... quando passamos a falar-nos alto, para nos acompanharmos ... quando a angústia instalada amarinha e dói ... podem estar certos ... ISSO, é solidão, sem jeito !

O Homem  então, dependendo uma vez mais da sua própria forma de ser, da sua capacidade resiliente, da sua criatividade, da sua formação interior, enfim, de toda a sua componência  ... busca sucedâneos, porque afinal, precisa continuar a viver.
E cada um de  "per si"  contorna, por razões de sobrevivência, o melhor que sabe e consegue, a sua nova realidade, para que a suporte.

Em suma : as opiniões e perspectivas de cada um face a qualquer questão, são obviamente subjectivas, e valem o que valem.
Esta, a minha forma de análise  perante esta dualidade ou dicotomia que avassala as vidas humanas, mais do que concebemos, nos tempos actuais.

Não sou portanto defensora de opiniões extremas e estratificadas.  Falo de experiência pessoal, de análise mais prática que teórica, de convicções que tenho para mim.
E como tal, defendo e defenderei sempre, penso, soluções intermédias.
Não perfilho a amputação da minha liberdade, como ser individual, e sempre que a deseje.
Não perco de norte, que quase sempre  a  maior solidão se experiencia frequentemente no meio de "multidões", que nada nos dizem ... mas também me rebelo e amarguro com a solidão imposta pela Vida !

Anamar

quinta-feira, 16 de junho de 2016

" O PESO DA SOLIDÃO "





Passei ontem e ele estava sentado num dos bancos da praceta.  Bancos procurados pelos velhos, pelos sozinhos, pelos que sem outros horizontes, se circunscrevem aos que a praceta lhes determina.

Passei hoje e ele continuava lá. Parecia que simplesmente ali permanecia desde a véspera, desde a antevéspera e desde todos os dias que o avistei, ainda que de longe.
A sua postura era desalentada, a barba crescera, o definhamento físico progredira, o rosto encovara ... os olhos emaciaram.  Uma figura esquálida e alheada.
Uma imagem tão angustiante para mim, que me retirara a coragem da aproximação.

O Luís ( vou chamar-lhe assim ), é meu conhecido há já largos anos. Ambos picávamos o ponto em bica de pequeno almoço tardio, no extinto Escudeiro ... café de uma vida.
Também ele sorvido pela voragem do tempo e da sorte.
Aquelas conversas de tertúlia de ocasião... Nada de importante ... tudo de importante, afinal, como são os assuntos de pessoas solitárias.

O  Luís já ao tempo era viúvo. Uma história de amor comovente, no seu passado.
Uma história de entrega, de partilha, de afecto incondicional.
A mulher, ainda jovem  partira, alguns, poucos anos atrás, vítima de uma doença prolongada, numa agonia que se estendeu aos limites do suportável.  O Luís cuidou e foi guardião daquela vida, enquanto ela não se extinguiu.
Ficou então absolutamente só.
E só continuou, sempre acompanhado da recordação inesquecível da companheira.

Há oito anos, na bica do pequeno almoço tardio ... ainda no Escudeiro ... o Luís, disse, assim do nada, que estava a viver uma história que conhecia demasiado bem.
Também ele contraíra a doença sem esperança ...

Desde então, tem-se debatido tenazmente com o algoz que o enfrenta diariamente.  Com lampejos de esperança  em períodos mais benevolentes, com um desânimo impiedoso em fases de regressão.
E tem sido heróica a luta, que sem desistências trava dia após dia.
O Luís continua absolutamente só,  mais só ainda, porque a ausência de forças, de coragem e mesmo de recursos económicos, o limitam aos bancos da praceta.
Por outro lado, o único neto que tem, que o ama e que devotamente ele ama acima de tudo nesta vida, vive afastado, e o estado de saúde do Luís, impossibilita sequer uma aproximação.
Esse miúdo, hoje com quinze anos sempre foi o único esteio na vida do avô.  Seu orgulho, pelo denodo nos estudos, pela personalidade forte e sã, pelo amor que lhe dedicou, era companheiro de passeios, de aventuras, de histórias, de ensinamentos, numa felicidade de tempos idos !

Hoje, quebrei a inibição que me tem adormentado, e abeirei-me do Luís.
Partilhámos o banco por algum tempo.  O suficiente para ver o seu rosto iluminar-se, para ver um sorriso ténue transfigurá-lo ... o suficiente para ver uma tíbia alegria invadi-lo ... juraria !...

Falou-me de solidão, e falou-me de como ela lhe dói, mesmo fisicamente.  De como ela o sufoca mais do que a falta de ar que o assalta, e o deixa mais e mais prostrado ...
Contou-me que lê alto, que fala alto, para se ouvir ... ouvir alguém ...
Contou-me que dialoga com o vazio da sua casa ... quando o desespero não tem tamanho e amarinha ...
Confidenciou-me que gostaria de acabar sem dar trabalho a ninguém ...
Falou-me de coisas que conheço, e de infinitas outras, que felizmente não conheço ...

Por quanto tempo mais, o Luís descerá à praceta ?
Por quanto tempo mais, as forças lhe manterão ainda o último fogacho de esperança ?
Por quanto tempo mais, conseguirá ganhar ainda, a sua luta desigual, por cada dia que passa?

Vida !...
As suas personagens ... as suas histórias ... cenas das existências de cada um,  em que  até a cidade grande, impessoal e distante, lhes é hostil !...

Anamar