sábado, 10 de janeiro de 2015

" A ESTAFETA "



Ainda não eram oito.
Oito horas da manhã, e o dia, de pestana fechada, decidia se abriria radioso e iluminado, azul e translúcido.
Ouvi-as.  Andavam por aqui.
Os seus grasnidos atravessavam os céus, e penetravam-me o resto do sono.
Não entendo estas gaivotas do betão, reféns da lixeira, oportunistas e estúpidas .  Afinal, gaivota que se preze, deveria sempre olhar para baixo e ver mar, deveria sempre ser salpicada pela espuma, nos rochedos, deveria patinhar na babugem da rebentação no areal deserto ... ou mesmo adormecer no embalo das marés, em tempos de mar "flat" ...

E logo elas, que têm asas !
Braços estendidos que as levam num baile molenga, ao sabor dos golpes de vento, as levam a cavalgar a aragem salgada, a verem o mundo de cima ...
Um mundo sem horizontes como é o mar, um mundo de nasceres e pores de sol, de mansidões e tormentas ...

Pudesse eu !...

Mas eu não tenho asas.  Tenho raízes.  Raízes que me prendem a um chão que nem é meu !...
Estou aqui, a morrer aos poucos, neste cubinho empoleirado em seis outros cubinhos, ao lado de sete cubinhos, frente a dez cubinhos ... num desenho atamancado em 3D.
Uma floresta de cogumelos mal nascidos !!!

Só o meu sonho, o pensamento e o coração podem voar.  Só eles são livres !
E vão, porque eu sei que para lá do que vejo, há muito mais.  Porque eu sei que além, onde a bola de fogo adormece todos os dias, quando a penumbra e a escuridão descem até mim, fica ele.
Esse mar que é sempre mágico, indomado, e berço de sonhos que às vezes nem se confessam ... que não aceita muros ou fronteiras, rédeas ou arnês ... lá longe !...

Eu já tive uma gaivota.
Mas essa, era uma gaivota a sério, não era uma gaivota mercenária.  Era livre e solta, e não era louca. Era garbosa, altiva, elegante ... bico empinado ... Tinha "pose" !
Vinha por aqui, rasava-me a janela, grasnava, encarrapitada na esquina do terraço sobranceiro.
Piscava os olhinhos miúdos, meneava a cabeça e olhava-me.
Eu sei muito bem que ela me olhava com comiseração.  Olhava as minhas raízes  fundas inevitáveis, cravadas na terra, perscrutava os meus olhos de olhar comprido, lânguido e sonhador ... e escutava o meu espírito intranquilo que baloiçava ... baloiçava ...

Fizemos um trato.

Ela vinha e contava-me das falésias, das areias e das algas.  Falava-me dos rochedos, cama de pancada das ondas impiedosas.  Descrevia-me a renda que o recuo da maré, por cada dia, deixava na areia, como um fino véu de noiva ou brocado de festa ...
E quando partia, a tempos de não perder o festim do repouso do "rei", carregava consigo as minhas emoções, era mensageira dos meus sonhos, cúmplice dos meus desejos, portadora das minhas inquietações e mágoas ... estafeta de pedaços do meu eu ...
E levava-os para lá da terra, para lá das nuvens, para lá das encostas ... para além ... onde o silêncio  se  embrenha  na  noite  e  onde  as  lágrimas  ficam  mais  salgadas  ainda ... No  mar !...

Há tempos que a   não vejo !...



Anamar

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

" APONTAMENTO - II "




Numa mesa em frente, um homem idoso de cabelo branco e sobretudo escuro, acomodou-se e pediu uma sopa.
"É só a sopa" ? - inquiriu a empregada.
" É só a sopa " ! - confirmou o homem, sozinho, com ar distante.
Percebo que vai dizendo umas coisas cá e lá, a meia voz.  Penso que está, e não está neste café, o único aberto nas imediações, em dia dito de "Ano Novo".

Mais uma ou outra pessoa, das do costume, e o café está praticamente vazio.
São sobretudo homens avulsos e velhos ;  a maioria já portadores de enfermidades visíveis, inerentes à idade, e à vida ... talvez.
E solidão ... muita solidão espreita por aqui !

Afinal, o  que leva um homem idoso, a um café quase deserto, sombrio, desconfortável, iluminado pela luz fria das fluorescentes no tecto, um espaço incaracterístico, feio, angustiante mesmo ... a pedir uma sopa, na inutilidade deste dia que promete sonhos, esperança, calor humano, aos que têm gente em casa à espera ??...
E lá fora, um sol lindo num céu azul, diáfano  e imaculado, e uma temperatura, eu diria amena, a lembrar aqueles dias beirando a Primavera !...

Na mesa ao lado, outro homem que já esteve, e já saíu, volta a estar ...
Já o conheço de outros dias.  É magro, macilento, barba por fazer, sempre enverga a mesma roupa. Cachecol ao pescoço, sem casaco, ar pobre e postura de pardalito aos saltos .
Por cada vez que chega, passa pelo balcão, enche um copo com água e senta-se.  Bebe a água gole a gole, degustando-a, como se de um verdadeiro néctar se tratasse, e fixa com um olhar baço  mas aparentemente interessado, um televisor que repete incansavelmente, as passagens de ano pelo Mundo.
Tem um grau de demência acentuado.  Não sossega na mesa.  Tem um fácies inconscientemente alegre.  A alegria e a ingenuidade dos que estão do outro lado, possivelmente delirantes, a observarem o lado de cá.  O lado da "normalidade" ...

Dirigiu-se a mim, rindo sempre, e entregou-me um pequeno rectângulo de papel, rasgado de um qualquer rascunho que encontrou, presumo.
Segundo ele, uma "mensagem do Menino Jesus" para mim.

Um texto sem sentido, rabiscado em letra de imprensa, dois pequenos corações e um desenho infantil, completavam o escrito.
Interessante início de ano, de facto !...

A  ternura deste gesto, assim do nada, das mãos de um desconhecido, um pacífico e simpático atontado, neste café escuro quase deserto, foi inesperadamente, a minha mensagem possível de Ano Novo !...
Será ela portadora de alguma premonição ???...

Anamar

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

" APONTAMENTO - I "




Que chatice a ditadura do tempo !
Que chatice, que por mais que o tentemos, nunca o conseguimos driblar.  Sempre achamos que não lhe damos grande importância, que por ele vamos passando  ou ele passando por nós,  com  alguma  superioridade  e  distanciamento,  com  alguma  sobranceria  ou  displicência ...
Mas é mentira !

Ano vai, ano vem.  Sempre me angustio com isto, apesar de me pensar fortalhaça.
Gostava de ter herdado o pragmatismo do meu pai.  Esse aí, foi efectivamente imune a épocas, a datas, a marcas temporais mais ou menos invasivas na vida das pessoas.
Já eu, não chego lá !

Sai-se de casa, e estes votos de "Bom Ano" que saltam como uma mola, das bocas, são verdadeiros petardos a atingir o alvo.  Não há conversa que se preze que não termine  ou mesmo não se resuma simplesmente, ao bendito " Bom Ano".
Mesmo que não se pare, que mais nada seja dito, basta que o nosso olhar bata em algum rosto conhecido ...

E somos confrontados com este "fatiamento" do tempo, como uma fita que se corta em bocadinhos, a denunciar etapas vencidas.
Menos um, menos um ... mais um no chão, aos nossos pés, a engordar o monte de pedaços de fita, abandonados e inúteis ...
Esta contagem é uma condenação anunciada.  É uma visão apocalíptica da insignificância das nossas vidas.
É o cadafalso a descer em requinte sádico, milímetro a milímetro, sobre as nossas cabeças ... é o declínio  inevitável, indiferente  e silencioso da Torre de Pisa, com a lentidão das eras.
É a ampulheta colocada sobre a mesa, à nossa frente, a vazar a areia, grão a grão, imparável e inexoravelmente aos nossos olhos ...
E é isto de que o Homem dispõe.  Alguns metros de fita para ir cortando !...

Tão mais fácil não pensar !  Tão mais simples não ter a noção do tempo !...

Percebo a minha mãe.  Eu vou ser como ela, mais tarde.  Eu já sou como ela, agora ...
E ralho-lhe hoje, pelo dramatismo.  E debito pragmatismos e filosofias baratas, e verdades inconsistentes.  Teorias falaciosas para espantar fantasmas ... apenas isso.  "Xô-xô"!...

Quem dera ser como os povos indígenas do interior do planeta, das matas cerradas inóspitas, das florestas virgem inexpugnáveis ...
Lá, onde o Homem nasce e morre ao sabor da Natureza, como o sol que se levanta e se deita todos os dias, sem perguntar por que o faz ... como as marés que avançam e recuam fascinadas pelo chamamento da lua ...
Lá, onde o Homem vive sem questionar a razão, o motivo, o desígnio, o porquê ... o antes e o depois.
Sem ânsias, sem angústias, sem dúvidas ou sobressaltos.
Assim ... simplesmente assim ...

Porque afinal nada mais somos que o animal selvagem e livre, errante na savana, obedecendo aos ciclos da vida, nada além da chuva que cai quando tem que cair, nada além da nuvem que passa quando tem que passar, além das folhas que tombam nas clareiras, encerrando uma etapa de existência, para que outra se reinicie logo de seguida ... nesse exacto momento, uma outra vez !!!...
Nada mais ...

Anamar

domingo, 28 de dezembro de 2014

" COM MÚSICA NO CORAÇÃO "



O Natal esgotou-se.  Esgotou-se com tudo o que tem de bom e de mau, de magia e realidade, de desejado e imposto, de sonho e de pesadelo.
Porque efectivamente o Natal tem quase sempre mais de pesadelo, que de sonho... ( Isto, sou eu a pensar alto !... )
Sobretudo o Natal que "impõe" as pessoas umas às outras, mesmo que não tenham afinidades visíveis, linguagens próximas, formas de sentir, ou mesmo filosofias de vida semelhantes.
Natais que o calendário determina, entre gentes desestruturadas, gentes de costas voltadas, gentes com corações desencantados, almas desalentadas, famílias imperfeitas, feitas de pessoas imperfeitas ... especialmente imperfeitas !

Porque na verdade, o ser humano é cada vez mais intolerante, menos disponível, mais estratificado e fossilizado em formas de ser e estar ... e as famílias, a gente não escolhe, de facto.
Não se fazem sob medida, de acordo com figurino, ao sabor dos nossos anseios, das nossas expectativas, do que gostaríamos que fossem.
As famílias coexistem connosco, nós nascemos dentro delas, desta e não daquela, sem vontade própria ... aleatoriamente ... Vá-se lá saber porquê !...

Há os Natais que se sonham ... "familiarmente correctos", como mandam as leis da Santa Madre Igreja.  Natais tão doces, quanto os sonhos que se compram para os rechear.  Natais tão bem "esculpidos" na massa humana, tão "santos", que o amor escorreria  por todas as costuras, os sorrisos fraternos iluminariam  os rostos, a generosidade de corações disponíveis extravasaria, e os homens de boa vontade uniriam  esforços, entendimento e magnanimidade, para que essa  fosse "a noite", em torno da tribo ou do clã !...
São verdadeiramente Natais improváveis ... virtuais !

E depois, há os outros ... os Natais "reais" !
O ser humano, mercê da vida de que dispõe, melhor dizendo, da fraca qualidade de vida de que dispõe, ostraciza-se, talvez por defesa, não sei, em células cada vez mais confinadas ao seu "eu", às suas verdades e às suas convicções.
As pessoas estão cansadas, stressadas, talvez angustiadas, talvez de mal com o que as cerca.
As pessoas estão mais e mais autistas, as pessoas estranham-se, as pessoas são dominadas e possuídas por agressividades latentes, prontas a "chispalhar" ao primeiro clique, ao décimo incómodo ... à terceira contrariedade... 
Os valores do afecto, do amor, do respeito, da partilha e da cumplicidade, os tais propagandisticamente  inalienáveis, deveriam ser presentes e persistir sempre, sobrepondo-se a tudo o que vá acontecendo ao longo dos 365 dias que permeiam dois Natais.
Ao longo mesmo, das divergências, dos sentimentos menores ... Ao longo mesmo de mazelas que a vida vá semeando nos caminhos individuais ... num espírito superior, altruísta, de união e comunhão entre aqueles que se amam ...

Mas isso são utopias e idealismos que o calendário impiedosamente julga poder resolver ... só porque se chegou outra vez ao dia 25 de mais um mês de Dezembro ...

E por isso é que eu detesto o Natal !

É que ele quase sempre tem a capacidade de trazer ao de cima as "nódoas" a que fomos fechando os olhos ao longo dos dias, o lixo que fomos varrendo para debaixo dos tapetes ... os "ódios de estimação", recalcados em realidades mal resolvidas, tantas vezes !
E as pessoas não conseguem transcender-se  na verdade . O Homem é por natureza egoísta, comodista, egocêntrico mesmo.  E não se transcende em prol do outro... em prol de ninguém !  Nunca se transcende, de facto !...

E assim,  tenho para mim, já com alguma tolerância e ingenuidade,  que o Natal deveria ser apenas uma comemoração "sub-dez", digamos que vivenciado apenas até à idade da consciência.
Enquanto crianças, os sentimentos são puros, as mentes  não guardam animosidades, rancores, raivas ou mágoas.
A inocência sempre mostra alvoradas iluminadas, os corações são magnânimos e desarmados.
A disponibilidade e a generosidade  são incondicionais e têm o tamanho do Mundo.
A tolerância e o afecto distribuem-se indistintamente, com a grandeza de almas fraternas.
O ser humano, incólume, ainda não foi vergastado pela vida, destruído pelos tempos, trucidado pela sorte, armadilhado pelo destino !

É por essa razão, que o Natal sempre persiste ao longo dos tempos e das vidas, quase exclusivamente como herança terna do imaginário infantil de cada um de nós, nas memórias doces e inesquecíveis dos nossos primeiros anos !!!

Também por isso, ou apenas por isso, numa espécie de compensação para a alma, numa espécie de presente para mim mesma, o meu dia de Natal este ano,  precisou terminar embalando-me no sonho e na doçura do inesquecível e intemporal "Música no coração", que teve o mérito  indefectível de me remeter à magia de  uma realidade quase perfeita !...


Anamar

sábado, 13 de dezembro de 2014

" O NEXO DA FALTA DE NEXO ... "



O dia amanheceu mergulhado em "nieblas".
Uma cerração desgraçada, adivinhava que o sol não se levantaria.  Temperatura a baixar abissalmente, um frio de Natal a instalar-se.
Na rua, as pessoas circulam apressadas. Golas levantadas, narizes vermelhos, ofegantes, passo estugado na tentativa de enganarem o ar gélido.  Das bocas, aquele fuminho denunciador de uma humidade brava, espalha-se, como  se de uma chaminé se tratasse.

Foi o primeiro dia, deste Outono beirando o Inverno, que efectivamente puxou dos "galões" e mostrou claramente que o tempo atmosférico até agora, tem andado a brincar a uma coisa que não é nem deixa de ser.  Hoje sim, temos um daqueles genuínos dias coerentes com o calendário.
Os faróis dos carros, neste lusco-fusco de noite às cinco da tarde, projectam um  cone de luz tremeluzente, no asfalto molhado.

E choveu toda a noite.
Os pingos das gotas de chuva nas vidraças da janela, o pingue-pingue metálico na calha do estore da vizinha de baixo, foi-me lembrando ao longo das horas de silêncio, que estaria  desagradável lá fora.
O gato preto ... onde andará ?
Continuo a entrevê-lo através dos estendais, prédio abaixo. Estendais agora vazios de roupa, em tempo de borrasca. Sobrevive no terraço, em completa solidão.
Onde se acoitará da água ?  Sim, porque do frio, não há lugar razoavelmente protector.

Os pingos ...
"Estás constipada ?" - perguntaram-me ao telefone.
"Não ! Estou apenas a pingar !" - respondi, justificando o fungar perceptível.
A gente pinga, de quando em quando.  Pingam os olhos, pinga o nariz, ao sabor do pingar do coração. Porque é aí que tudo começa !
Será que se pode ter saudades do futuro ?  Ou melhor, de um futuro que ainda o não foi, e apenas se idealizou ?
Será que se pode ter saudades de alguma coisa que não se viveu, só se adivinhou no coração ?
Porque saudades do passado, é fácil.  E lógico.  As saudades são os restos que ainda não partiram.

Sou capaz de olhar um galho adormecido, e cheirar o verde húmido da mata, quando foi apanhado...
Sou capaz de olhar um calhau rolado  das areias distantes, e inebriar a alma com a  maresia que dele se desprende ...
Sou capaz de ouvir os chocalhos do rebanho no pastoreio, e as badaladas da torre sineira ... ritmadas, cadenciadas, ecoando no silêncio, como então ...
Escuto com precisão o grasnido da gaivota planante, antes de repousar no alto daquele poste lá ...
E  escuto  também  as  exactas  palavras  ditas, os  risos  largados, os sorrisos  subentendidos ...
E oiço o Natal, e o ano vizinho ... e cheiro a intimidade da sala, e o calor da cama cúmplice...

Tudo ontem ...

E amanhã ?
Amanhã, é uma manhã como a de hoje, mergulhada em "nieblas".  É um vendaval  de chuva cerrada, que não deixa ver através das vidraças embaciadas.  É uma espécie de vereda que caminha  na ravina  e  termina lá ao fundo, subitamente ...  num penhasco  em garganta rasgada sobre o mar ...
Amanhã ... é uma manhã cinzenta de um Outono beirando o Inverno.
Amanhã é uma interrogação sem resposta.  É um futuro de  fé sem esperança ...
Amanhã é a ausência de nexo, numa história que desconhece o seu significado !...

Anamar

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

" A DÚVIDA METÓDICA "




Não escrevo faz tempo.
É assim a minha vida.  Altos, baixos, períodos de valer a pena, períodos de indiferença e distanciamento em relação a tudo.  Amorfismo face à realidade, encolher de ombros, fazer-me morta ... deixar correr.
Se calhar é assim a vida de toda a gente.  Afinal, não há carapaças de tartaruga para todos, apesar que me daria imenso jeito !

Ontem, um programa televisivo equacionando um tema assaz interessante : " Haverá ainda futuro para Deus ? "
Um espaço de reflexão, de opinião, de questionação.  Um espaço de interrogação.  Muitas perguntas, nenhuma conclusão.  Obviamente !

A existência de um deus nas nossas vidas, a busca de um significado para elas, numa sociedade ferida de tal desencanto e tão desprovida de soluções, que empurra mais e mais o ser humano para um afastamento do divino.
A ciência explica muitas dúvidas existenciais, daquelas com que nos confrontamos diariamente. Explica muitas, mas não todas.  Longe disso !

O Homem, na precariedade da sua existência, na insatisfação dos mundos em que mergulha, na orfandade das suas dúvidas, sem enxergar respostas, entregue aos seus medos, às suas angústias, face à  sua  pequenez e fragilidade, face a tanto desencanto e tantas perplexidades ... precisa na maior parte das vezes, de uma âncora, de um porto, de uma lógica, de um caminho.
E cria uma figura "paterna" maior, última, definitiva, em que dogmaticamente acredita, se recosta, se aninha.
Esse "mito", essa protecção que desconhece, mas sob a qual nada lhe acontecerá, esse arrego doce, esse colo embalador que não julga, sempre compreende e perdoa, restitui-lhe a tranquilidade que o aquieta, dá-lhe o norte e a significância para o caminho doído, ergue-o quando cai, dá-lhe forças na doença, ânimo no desespero  ... luz na escuridão ... repouso ... esperança numa salvação promissora, transcendental.
Essa figura que não se vê, não se palpa, contra a qual consequentemente o Homem não se pode rebelar, surge na sua vida como solução, saída, resposta final.
E o Homem que criou na sua mente essa figura parental,  vive assim mais em paz, mais confiante, mais submisso, mais humilde.
Não O questiona, ou raramente O questiona ( Se o fizer, sentir-se-á um ímpio, um ser desprezível e ingrato ), e aceita em conformismo,  o destino, a "cruz", a penitência.
Como peregrino em devoção e agradecimento, tenham as provações a dimensão que tiverem ...  ruma à salvação !

Assim vivem os crentes, e assim encontram uma razão para a sua existência.

E os não crentes ?  Aqueles que nunca, ou "ainda não" foram tocados por essa luz, ou não experienciaram esse "milagre" ?
Nesses, incluo-me eu.
De facto, agnóstica que sou, depois de um início de vida tradicional e deterministicamente religioso, encontro-me na encruzilhada da dúvida.
Com uma formação académica científica, com uma irreverência, e uma espécie de contrapoder atrevido, dentro de mim face à vida, sinto-me uma sedenta e estupefacta caminheira, com um pragmatismo desencantado, na beira da estrada, olhando, perscrutando, analisando, descodificando, interrogando e desgraçadamente não encontrando "outras" justificações ou respostas, para nada daquilo que segundo a segundo, vai desfilando neste carril aleatório e sem nexo.
Não encontrando  "outro" sentido ou significado, "outro" fio condutor lógico na percepção dos acontecimentos, não encontrando "outras" leituras credíveis, na aleatoriedade acidental ... olho cansativamente o papel em branco, no qual tenho que desenhar, momento a momento, a "estória" que com alguma liberdade arbitral vou vivendo.
Dramaticamente.  Angustiadamente.  Cepticamente.

Questiono-me sempre, se viver assim, não  é só por si, uma  "tragédia" ?!
Se encarar o transcurso  do tempo, sem bengala, sem "antidepressivos" de alma, sem  "analgésicos" de coração, sem muletas emocionais ... apenas entregue à minha esperança e desesperança em todos os seres - que não passa por desígnios de salvação de alma -  entregue exclusivamente à minha fé particular e inabalável no ser humano, nas suas potencialidades e nas suas espantosas capacidades regenerativas, no seu poder de encontro e de renascimento constantes ...  questiono-me sempre, dizia, se estas minhas escolhas,  estas minhas convicções de caminho, não serão assumidos exercícios suicidas, de teimosia temerária, de inconsciência não acautelada, em que a minha vulnerabilidade, a minha pequenez, e a minha insignificância de peão de tabuleiro, são largadas em permanência,  no xadrês da vida ?!...
Lá ... onde dizem que Deus não joga !...

Mas eu sou inevitavelmente assim, e não consigo ( o que simplistamente talvez me adoçasse e pacificasse o percurso), ver a existência humana, de forma diferente !
Esta dialéctica é a minha verdade.   Esta estrada acidentada e pedregosa, o meu caminho.  Esta autenticidade muitas vezes titubeante, desoladora e sem colorido, a assumpção daquilo em que acredito ...
Porque eu "desconfio" muito seriamente, que depois de nada ... nada existe mesmo !!!


Anamar

domingo, 30 de novembro de 2014

" LAÇOS INVISÍVEIS "



O "farrusco do fiambre" perambula pelo terraço lá em baixo.  Afinal, ele é um residente !... Um residente e um resistente !
Verão após Verão, Inverno após Inverno, acumulando anos de vida, numa vida que não sei quantos anos já conta ... ele lá continua inabalável ... com as quatro patas firmes no lajeado, chova, faça sol, tempestade ou bom tempo.
Habitante único daquele terraço, não tenho a noção de como sobrevive.
Há tempos largos que o não espreitava. Cabeça demasiado preenchida, coisas a mais para a estrutura mental de que disponho, não me têm levado a espraiar as vistas  pela janela, preguiçosamente a olhar o tudo e o nada, por sobre os telhados a perder de vista, rumo a um horizonte verde, bem lá longe !

Hoje deitei o nariz de fora.  O ar estava liquefeito. O fim de tarde mostrava um céu diluído, um sol laranja, iluminado, distante ... farrapos de nuvens, como novelos de lã branca, espalhados lá por cima.
Nada grave !
E ele lá estava.  Entrevi-o entre o emaranhado de estendais, e de roupa colocada pressurosamente a secar, não vá chover amanhã ...
Era um recorte esfíngico, uma figura sonolenta, um "bibelot" de porcelana ... visto do alto do meu sétimo andar.

Quem também tenho pressentido por aqui, em passagens fugidias, em voos sonolentos e rasantes, é a "minha gaivota", que se anuncia com aqueles grasnidos que tão bem conhecemos, quando o mar encapelado apenas lhe permite que o sobrevoe ... em dias de tempestade anunciada.
Há tempos que não "conversamos".  Há tempos que não trocamos aquela promiscuidade  de "mulher para mulher" !...
Sempre costumava espreitar-me,  altaneira, do alto do terraço contíguo à minha tribuna, mirando-me de lado, olhos perscrutantes, argutos e  miudinhos ... Assim como quem me mede os humores ... Depois, deixou de vir.  A lixeira, super-mercado de Inverno, fica lá para trás da minha disponibilidade visual.
E também, ela frequenta-a no Inverno apenas, quando recua da orla costeira, porque o tempo madrasto,  lhe escasseia o peixe fresco na dieta.
Hoje, veio por aqui.

Coisa estranha esta, de me sentir órfã se os não vejo ... de me sentir acompanhada, se os vejo !
Coisa estranha esta, quando o ser humano se sente acompanhado por um gato e uma gaivota que só toca com o olhar, e que só acompanha com o pensamento !...

Às vezes, largo uma frase no espaço que nos separa ... convicta que a digo para quem a não escutará. Mas não importa, é assim uma espécie de código de coração, uma espécie de partilha de sentimentos, um diálogo surdo, mas generoso.
Uma cumplicidade de solidões ...
Eles não me conhecem, mas eu conheço-os e são por isso, um pouco "meus" ...
Porque como diz Saint-Exupéry, sempre "somos responsáveis por tudo o que cativamos".
E, cada um a seu modo, cada um à sua maneira, tornaram-se parte da minha vida, passaram a integrá-la.
Se mais não for, por  em dias como  hoje, em que me abeiro da vidraça em busca de vida lá fora,  a sua presença por perto, ser um afago na alma, que consegue trazer-me ao rosto um sorriso rasgado ...

Mesmo que o fim de tarde me não ofereça um sol laranja, iluminado ...

Anamar