segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

" ENCERRARAM-NOS O SONHO ... "



Ontem cometeu-se um crime em Sintra.

Porque um crime pode ser tão somente um atentado ao nosso património cultural, um assalto às nossas memórias colectivas, um roubo dos nossos sonhos, um margear compulsivo do nosso imaginário.
Um crime é tudo aquilo que nos vede a criatividade, defraude a fantasia, nos cerceie a vastidão da "viagem", nos erga muros ao "passeio" da mente e do coração ... nos ampute a ilusão, de pelo menos por um par de horas, nos sentirmos crianças outra vez ...

O Museu do Brinquedo em Sintra, sem acordo possível entre o proprietário ( já que de uma colecção particular se trata )  e a autarquia, encerrou em definitivo as suas portas e janelas, pelas seis da tarde deste 31 de Agosto de 2014, numa tarde quente e ensolarada, com a vila do romantismo pejada de visitantes, portugueses e estrangeiros, adultos e crianças.
Havia alegria no ar, havia boa disposição, e aquela displicência de quem usufrui o que quer que seja, sem pressas, degustando cada instante.

Desloquei-me intencionalmente a Sintra, inclusive não estando em perfeitas condições de saúde.  Mas fi-lo numa espécie de despedida devida a um espaço, que durante dezassete anos prestou um serviço público absolutamente  ímpar, estou certa.
Isso se percebia claramente pelos rostos, e pelas expressões de apreço e de alegria incontida das muitas crianças que por lá circulavam, encantadas, agradavelmente surpreendidas, a deleitarem-se numa realidade lúdica que não é seguramente a sua  na actualidade, e com uma curiosidade  insaciável e atenta, de ouvirem as histórias e as explicações dos adultos que as acompanhavam.
Esses sim, misturavam numa indefinição de sentimentos,  algo que se percebia doído, emocionado, saudosista, fascinado ... com estupefacção, mágoa e revolta.
No ar pairava uma pergunta indignada : " Porquê ?! "  "Por que não foi possível chegar-se a um consenso e acerto entre as partes implicadas, por forma a que, como acontece em muitos países estrangeiros, se pudesse ter mantido entre nós, um lugar tão peculiar, um serviço público de tanta valia, com um acervo amplamente divulgador da cultura de um povo, das suas raízes, costumes, memórias e histórias ... Tudo o que constitui também  afinal, a nossa identidade cultural ?!
E bem assim,  possuidor  ainda, de um espólio valioso, de peças de origem internacional, com igual importância" !

Por que é que este país tem uma estranha vocação para perder, para se empobrecer, para não se dar valor, para não se cuidar ?!...

Não ouviremos mais, exclamações  encantadas  face a um pião, a um livrinho de histórias, a uma mini tábua de engomar, um servicinho de loiça, um carrinho de bombeiros, um comboio no emaranhado dos  carris, um batalhão de soldadinhos de chumbo, um "Jogo da Glória" de tantas tardes sonolentas, ou um pequeno balde de folha, companheiro de areais perdidos : " oh ... eu brinquei com um exactamente igual !... "  "olha ... eu tive um destes !..."
E o puto a indagar insistente, sobre o paradeiro da dita peça ... e o pai a responder : " deve estar lá para casa da avó !..."

Não ouviremos mais as explicações detalhadas e cuidadosamente possíveis, dos adultos, perante os rostos sedentos da criançada, sobre o que eram as trincheiras da 1ª Grande Guerra, ou sobre os hospitais de campanha, ou o desfile das tropas alemãs pelas ruas de Berlim, com a suástica estampada nos carros de guerra, e a saudação nazi exibida por cada soldado ...  para se ouvir logo a seguir, um puto esperto e informado, argumentar : " olha, olha mãe ... o Hitler !  Vai lá à frente, naquele jipe !..."
... ou o adiar para melhores horas,  do esclarecimento complicado sobre a "múmia" que repousava na vitrina !!!...

Enfim, uma ternura sem tamanho, tudo isto !...

Dei por mim a sorrir.
Dei por mim a recuar no tempo, e a passear-me pelas lembranças doces e distantes da minha meninice.
Do tempo em que a Lolinha, a minha primeira boneca de porcelana, de caracóis  loiros  e olhos azuis, que chorava quando embalada, e que "vive" comigo até hoje ... me entrou pela vida adentro, pela mão do meu pai !...

Outros tempos, outros sonhos, outra vida ...   Outra que eu era !...

Ontem cometeu-se um crime em Sintra.
O Museu do Brinquedo encerrou definitiva e injustamente, numa tarde quente, luminosa, aparentemente indiferente ...  E com ele, encerraram-nos também o sonho !...

Mas a curiosidade das nossas crianças, as recordações dos nossos velhos, e obviamente a memória saudosa de todos nós, não o mereciam !!!...



Anamar

sábado, 30 de Agosto de 2014

" COM AGOSTO NOS VAMOS ... "



Comecei a viajar para fora do país, já a caminho dos 47 anos.  Era assim na altura, creio.
Pelo menos, para as pessoas da minha classe sócio-económica, uma classe média sem outros proventos significativos que não adviessem do seu trabalho.
As viagens para o estrangeiro não estavam por isso vulgarizadas, quase banalizadas como acontece hoje em dia.

Até lá, também à semelhança das pessoas que eu conhecia, fazia-se normalmente,  sobretudo  enquanto as crianças eram pequenas,  o périplo de Algarve ou Costa Alentejana, onde as praias na altura tradicionalmente quentes e mansas, nos esperavam, esperavam famílias inteiras, de chapéu de sol, lancheira com o aviamento, toalhas e brinquedos da pequenada.
Diariamente faziam-se as sandwiches, coziam-se os ovos, lavava-se e cortava-se a fruta para os tupperweres, tiravam-se as bebidas frescas do frigorífico, os iogurtes ... repetidamente dia após dia, na semana ou vá lá, nos quinze dias em que por lá se estava. O mês inteiro, era de facto, para os "sortudos" !
Normalmente, casas alugadas juntavam por vezes mais do que um casal.
Amigos juntavam os orçamentos, as vontades e a amizade, e tornavam assim, as férias menos perdulárias e muito mais agradáveis e felizes.
Juntavam-se as crianças que  se divertiam muito mais, juntavam-se as longas e serenas conversas sem pressa, pelas tardes, à sombra dos chapéus de sol  que para isso também juntavam estrategicamente as suas sombras ... juntavam-se  as  cumplicidades femininas, em horas palmilhadas no areal, na babugem da rebentação ... juntavam-se as gargalhadas, os jogos, os passeios e as fotografias, para mais tarde recordar ...

As minhas férias de Algarve começaram em casas alugadas, com refeições que aí se confeccionavam.  Eu costumava dizer que mudava de tachos e de panelas, mudava o cenário ... e a peça era a mesma.
Mas enfim, os ares sempre eram diferentes, o passeiozinho pela fresca das noites algarvias era algo fora da rotina do ano todo, o D. Rodrigo que se comia, o café que se tomava pós-jantar, o sentar numa esplanada a ver os veraneantes circularem, já dava p'ra quebrar o "cardápio" que conhecíamos sobejamente.
Comecei no sotavento algarvio, e fui avançando em anos sucessivos, rumo ao barlavento.
Comecei em Vila Real ( ainda só tinha uma filha bebé ) e terminei muitos anos depois, em Lagos. Deambulara então por Albufeira, Oura,  Vila Moura, Portimão e Lagos.   Seguiram-se depois uns anos de Porto Covo, em férias de que guardo gratas e saudosas memórias.
Ilha do Pessegueiro ao fundo, o "Quadrado", a fortaleza, a Praia dos Búzios, a Praia do Samouqueiro, a dos Pescadores ... tudo muito selvagem, tudo muito natural ainda, nada "estragado" por imposições de turismo "civilizado" ... tudo simples, genuíno ... Alentejo a molhar o pezinho no Atlântico !...

Três famílias amigas, a que se juntavam por vezes ainda mais uns "apêndices", ou conhecidos  de circunstância, muita criançada, amigos do peito mesmo ... quase família única, quase irmãos ...
A vida viria a desmembrá-las.  Uns partiram cedo de mais, e sem aviso, outros separaram-se na vida, e finalmente a vida separou todos !
As crianças tornaram-se por sua vez, mães de crianças, e também, injustamente, vá-se lá saber porquê, se perderam no destino ...

É certo que posso considerar-me uma privilegiada, porque já na infância, contra o que de facto  não era muito comum naquela altura, eu fazia praia em Albufeira, durante um mês, ou  em Vila Nova de Mil Fontes,  ainda sem luz eléctrica ( ! ), ou mesmo  em  Sesimbra ou Sines.  Férias com a minha mãe só, ou com familiares chegados, que tinham a pachorra e a generosidade de me levar.
E depois, durante alguns anos largos, beneficiei de uma esticadinha até ao Minho, para termas que os meus pais faziam por razões de saúde.
Lembro que não eram propriamente emocionantes esses dias, dada a tipicidade da frequência desse local.
Mas ao tempo, os putos não davam palpites nestas coisas !

O tempo passou, e como disse, comecei a fazer férias no exterior, beirando os cinquenta anos.
Timidamente, começaram por passeios de carro, por alguns, poucos dias ... Picos da Europa,  Sevilha, Madrid, Toledo, León ... coisa pouca !
Arriscámos mais tarde a República Dominicana ( um dos destinos paradisíacos muito em voga na altura ), que nos acenava com  o sonho das praias adornadas de coqueiros, águas mornas,  turquesa e transparentes, corais e peixes multicoloridos,  no calor prometido dos trópicos ...  Depois Cuba, Brasil, Países Nórdicos, países da Europa Central ...

Posteriormente, já noutra realidade familiar, permiti-me destinos mais longínquos : Jamaica, Maldivas, Tailândia,  Sta. Lucia...ou ainda  Costa Rica,  Bali,  Maurícias, Samaná,  Zanzibar, e mais recentemente o sonho antigo de S.Tomé e Príncipe.

Enfim, as viagens começaram a vulgarizar-se à medida que o poder económico dos cidadãos disparou.
Não esqueçamos o período mais "endinheirado" do país, face  aos  proventos  "fáceis" da Comunidade Europeia. Foi uma época de ouro,  e de muita inconsciência também, em que o português começou a "sair" com facilidade, e frequência.
Viajar para o estrangeiro passou a ser uma espécie de direito adquirido, por cada Agosto, e havia mesmo quem se endividasse,  em financiamento para a almejada viagem de férias ...

Chegámos aos dias de hoje.
A economia do país, mercê da crise que vivemos há demasiado tempo, fechou os cordões à bolsa de quase todos.  Penalizou  o desejo de muitos, sobretudo dos que têm na alma o espírito inquieto de viajantes, os que são saltimbancos de sonhos, os que têm uma alma vadia e curiosa ...

E neste fim de Agosto, neste encerramento da quadra  estival, quase afirmaria sem erro, que a velha lancheira e o chapéu de sol, se reabilitaram à luz do dia,  e a  este sol  pouco convicto ... que parece, também ele, regatear  a  sua  presença  nesta  nesguinha de areia à beira-mar plantada ...
Quiçá  talvez  face ao  valor do "cachet"  modesto, por aqui  oferecido ! ... Afinal, estamos em Portugal !!!...



Anamar

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

" QUE BONS SOMOS A INVENTAR ! "



Na vida não se reedita nada !

Só os livros se multiplicam, criando edições sucessivas de acordo com a satisfação dos leitores.
O ser humano vive, vira a página e anda para a frente. Esgotou !
Gostou ?  Queria alongar ?  Temos pena, não é possível !
Nem comprando novo bilhete como no cinema, poderíamos visualizar o mesmo filme !
Não gostou ?  Não se amofine, pois também já passou !  Aquela sessão terminou, e não há reprise, felizmente !

Então,  inventámos aquela coisa a que chamamos de "saudade", que é algo perturbador, como o é a comida requentada.
Faz mal.  Passou do prazo.  Ficou estragada.
É algo que acabou, e não deixamos que acabe. Que não existe, mas não desgruda.
A saudade é exactamente assim.  Mata o coração, inunda os olhos, aperta o peito, provoca cataclismos na alma.

E depois, se não bastasse, a saudade é ilusoriamente adocicada, bem safada e mazinha ...
Parece aquecer-nos por dentro, parece adoçar-nos o desencanto, parece embalar-nos a existência.
E enquanto a sentimos, volta-nos tudo aquilo que a despertou, e parece que o reeditamos ... Mas não !.
Tudo não passa de uma masturbação das emoções, com um clímax nunca alcançado.  Porque não passa disso mesmo ... de uma satisfação insatisfeita, quase quase real, mas que sempre nos defrauda, sempre nos deixa outra vez de mãos dolorosamente mais vazias, e o coração mais dorido ainda.
Não passa de um truque, um analgésico para doença crónica !...

E inventámos também uma coisa chamada "sonho" , que consiste em projectar na luz do dia, o que só é possível viver ( quando desligados do real ),  vogamos pelo mundo onírico .
Porque o sonho e a realidade não casam de nenhuma forma !  E por isso os sonhos  reais, aqueles que arquitectamos com os cinco sentidos bem despertos, são tão mentirosos como os outros !
Nós é que pensamos que não.  E vamos acalentando ao longo da vida, o tão maquiavélico quanto patético projecto de realizá-los.

E por isso nos degladiamos, para isso consumimos  todas as energias que conseguimos arregimentar dentro de nós ;  reunimos todas as forças e convicções possíveis, e usamos um argumento forte, para nós mesmos :
aquilo a que se chama "esperança",  de que nunca abrimos mão,  e que  garantimos ser a última que morre, ou seja, que sempre irá  além da vida !
Sem ela na linha do horizonte, torna-se difícil progredir.  Ela funciona como catalizador ... assim  como  uma espécie  de  braseiro  de  sol,  de  dia,  e  de  farol  nas  escarpas,  pelas  noites ...

Ela empurra-nos, quando queremos amodorrar, hibernar, desistir ... puft ... sumir no espaço !
Ela é o complexo vitamínico que acode a situações de déficit orgânico ...
É o balão de oxigénio que impede a asfixia eminente ...
É a transfusão  abençoada, que evita o progresso da astenia anunciada ...
Mas actua pontualmente.   Não se tomam vitaminas todo o ano !!!...

E assim, entre a saudade, o sonho e a esperança, o ser humano vai acreditando na reedição possível  de excertos da sua vida, exactamente aqueles que quereria preservar, re-experienciar .
Extirpando do coração mágoas destruidoras, vai pintando quadros de renovação alcançável, vai tropeçando e esgrimindo com as dificuldades, as tormentas e os vendavais ...

E não se rende, porque apesar de tudo, o Homem é sempre um ser de fé, mesmo que ela não tenha rótulo, e o seja apenas na sua essência de herói e resistente, enquanto Homem que é !!!...


Anamar

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

" A CORDA DOS SONHOS "



Sempre suspensa, este estupor desta vida !
Suspensa entre o que foi e já não é, entre o que podia ser e também não, e entre o hoje e o que se sonha por noite, embiocados na almofada adormecida ...

Suspensa  pois ... num raio de uma estrada sem sinaléctica de orientação, sem sol ou estrelas lá por cima que dessem uma mãozinha, logo a mim, que nem tenho GPS !
É uma maldade mesmo, de quem goza com esta insatisfação de maçã que cai do galho antes do tempo, misturada com a esperança de florir no pé ...
Hoje, p'ra semana, no Outono, tempo de colheitas ... ou quem sabe na próxima Primavera, com as primeiras águas de Março ?!...

Sempre fico na esquina, de tocaia, tocando o silêncio mais absoluto de que sou capaz, como puto reguila que não quer denunciar a maldade ... à espera que ela, a vida, se solte da corda, abrindo as molas, em dia de vento ... E deixe de estar suspensa a baloiçar !
Mais hoje, mais amanhã ... talvez sábado que é bom dia... ou domingo, em que a alma se veste de festa !...

Mas não !
Converso com os raios de sol que passam pelas frinchas, escuto os silêncios das paredes errantes, avalio os segredos dos rostos espalhados aqui e ali ... e busco no tempo, a ponta da linha p'ra tricotar um futuro parecido a presente ...
Presente,  presente  de laço e de fita ... Não este presente, o outro, porque este me atormenta por falta de originalidade e incómodo !...

Quero um presente da vida !
Bolas, p'ra chatice já basta ela estar suspensa !
P'ra maçada já chega ela não se colorir ... e devia !  Porque nós nunca sabemos se aquele dia é o "tal" dia ... o que sempre esperamos no virar das esquinas.  E por isso devemos estar sempre no nosso melhor ...

Mas eu estou cansada desta espera de paragem de trem.  Desta estação de azulejos azuis, onde o meu passado amodorrou, como as searas de trigo maduro que se embalam  na brisa da tarde, na canícula de Verões alentejanos ...
Tão longe ficaram  eles, os Verões daquela terra !
Depois, tive que me habituar a ser deserdada de destinos, a ser apátrida, em searas de betão com cogumelos a roubar-me o sol ... que passou a entrar só por frinchas na minha vida !

E sobem  marés a acariciar praias desertas, e vem o vento que decidiu desmanchar-me os cabelos .
E passa gente, e voam gaivotas, e escuto vozes, e oiço risos e gargalhadas em compassos certos.
E sorrio, e falo, e digo ... e arranjo pretextos para esperar  acordada ainda, a próxima alvorada, como se ela, na fresca da madrugada, no orvalhar das ervas, no acordar da neblina, me trouxesse então, o presente pedido naquela carta de letra rabiscada, esquecida  à lareira na bota de Natal !...
Talvez ... quem sabe ?!...

O tal presente de laço e de fita !...

E quando a manhã clareia, percebo que afinal deslizei toda a noite num baile de máscaras, de braços de sonho p'ra braços de sonho, percebo que estou entontecida pelos volteios ciclópicos das melodias, sinto  a cabeça ensandecida e exausta pelo torpor dos ritmos com que me atordoei, em mentiras quase verdades, só porque no meu sono eu acreditei que seria assim !..

E abrindo os olhos, no soltar do bocejo da noite finda, vejo-me esgotada, bêbeda de exaustão, ébria de desalento, defraudada do crer, olhando o estupor da vida, que com um esgar  indiferente e insensível, escarnece e diverte-se, no balancé  de corda de roupa !!!
Igualzinha ... desafiadoramente igual !!!...

Anamar

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

" FECHADOS EM CASA, MAS EXPOSTOS AO MUNDO "








Este, o quarto artigo do jornal "Público", subordinado ao tema "As diferentes Gerações", que tenho vindo a publicitar aqui, neste meu espaço.

Espero que, tal como eu, o achem interessante.


   Anamar


Os que nasceram desde 1995 têm uma existência de paradoxos, são os mais protegidos e os mais vulneráveis, são aqueles por quem não se dá nada e de quem se espera tudo.

Este é o quarto de cinco textos sobre as diferentes gerações.











André Agante divertiu-se muito este Verão com os primos e amigos. Passaram horas na piscina, fizeram pizza, jogaram ao toca-e-foge, soltaram as galinhas e correram atrás delas. “Anteontem, eram dez a brincar”, diz ele. É grande a casa dos avós nos arredores de Aveiro. Quando a mãe era menina, também ali recebia primos e amigos. Nas férias, havia pelo menos três crianças a saltar de um lado para outro e ninguém colocou cancelas de segurança nos quatro lances de escadas. Quando André nasceu, cancelas nas escadas, protectores nas tomadas.
Nunca houve tanta preocupação com a segurança infantil. Há até pais que põem capacetes de esponja aos filhos antes de os soltarem dentro de casa. “Até que ponto este excesso não está a criar miúdos menos autónomos?”, pergunta a mãe de André, Catarina Ribeiro, co-fundadora da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Criança Abusada e Negligenciada. Quando André entrou no pré-escolar, aos três anos, queixavam-se os educadores que alguns nunca tinham subido escadas.
Ninguém conhece infância tão protegida como os que nasceram no final do século passado ou já neste – a chamada geração Z ou geração digital. E, no entanto, nunca houve tanta percepção de vulnerabilidade. Parafraseando um texto que o sociólogo Manuel Sarmento co-assina com Natália Fernandes e Catarina Tomás, essa é uma das muitas contradições de um país que pode orgulhar-se de ter uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil e um dos mais elevados níveis de segurança urbana do mundo e ainda leva puxões de orelhas pelo maltrato intrafamiliar e pelo abandono escolar.
É recente o reconhecimento das crianças como sujeitos de direitos. A Convenção dos Direitos da Criança, adoptada pelas Nações Unidas em 1989, foi ratificada por Portugal em 1990. Em 2001, num apelo à participação da comunidade, o país começou a criar comissões de promoção e protecção de crianças e jovens. Um ano depois, ficava perplexo com uma reportagem do semanário Expresso sobre abusos sexuais de rapazes à guarda da Casa Pia de Lisboa. 
Foi notícia até à náusea o processo Casa Pia. Era, interpreta Manuel Sarmento, o país a confrontar-se com a infância como tragédia, com a criança como vítima de uma sociedade que a desrespeita, que não a protege. Nada daquilo encaixava no ideal de criatura bela, inocente e espontânea que se propagava – o imaginário do “bom selvagem” herdado de Jean-Jacques Rousseau. Chocado, parte do país precipitava-se para uma preocupação nalguns casos excessiva.
O jornalista Tiago Freitas sente a preocupação ao criar uma filha de quatro anos e um filho de seis com a mulher no Funchal. “Estão habituados a que 'exista' tudo. Se passa uma nova série animada na TV, se um filme é lançado no grande ecrã, pedem o jogo. Após uma googlada, fatalmente aparecem inúmeras possibilidades de jogar. O principal desafio é saber onde ter a rédea, que é mais curta por um lado (brincar fora de casa, estar fora do alcance visual dos pais, andar sozinho na rua, ir ao mar desacompanhado) e mais solta por outro (mais respondões, menos obedientes, vida dos pais muito dependente da agenda deles)”.
Nenhuma geração cresceu tanto entre portas. Com a rua elevada à categoria de território predatório, isto é, a espaço onde qualquer estranho pode pôr a criança em risco, muitos pais tratam de enquadrar todas as horas dos filhos. As consolas, os leitores de DVD, os MP3, os computadores, os tablets e os telemóveis são os seus grandes aliados. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), 98% dos menores de 15 anos já usava computador, 93% possuía telemóvel e 95% acedia à Internet em 2012. Mas através da Internet a criança enfrenta outros riscos.
André Agante conta nove anos. Tem regras claras para usar a Net: não pode fornecer dados pessoais, revelar as palavras-passe, conversar com desconhecidos. Pode usar o computador que está no escritório ou o IPhone ou o IPad dos pais. E anda a construir uma cidade de dragões, já constituiu uma equipa de futebol e criou uma página no Facebook em nome da sua tartaruga.
“É importante que as crianças corram riscos num ambiente protegido para se poderem desenvolver de forma autónoma”, sustenta Catarina Ribeiro, psicóloga, perita do Instituto Nacional de Medicina Legal. “Crianças superprotegidas ficam muito mais ansiosas perante a adversidade. A adversidade pode ser pôr os pés na areia, mexer num animal ou apanhar chuva na cara.”
A percentagem de crianças na população residente está a cair, de modo consistente, desde o início da década de 1980 – entre 1981 e 2011 o país “perdeu” 936 mil crianças, segundo o INE. A democratização e a europeização impulsionaram transformações profundas. Há mais crianças a nascer fora do casamento ou a crescer numa família monoparental, recomposta, multiétnica ou de orientação sexual diversa. Nunca houve tantos filhos únicos. De acordo com o INE, 45,6% das crianças vivem em famílias sem outras crianças.

A sociedade valoriza mais as crianças, mas as pessoas estão cada vez menos dispostas a tê-las. Será uma característica típica do que o sociólogo alemão Ulrich Beck chama modernidade reflexiva. Se as relações de “curto prazo” são o paradigma, uma criança é um investimento a “longo prazo”. E isso pode ser visto como um estorvo, mas também como a derradeira possibilidade de estabelecer um laço eterno, uma certa forma de recuperar o “encanto com o mundo”.
Nenhum dos primos com que André se diverte em casa dos avós é de primeiro grau. É o único filho e o único neto. Não é daquelas crianças tiranas que o psicólogo espanhol Javier Urra descreve como desobedientes, desafiadoras, ávidas de atenção, capazes de dar ordens aos pais. É uma criança meiga e generosa. Os pais incitam-no a receber amigos e a partilhar o que é seu e ele partilha até o dinheiro que recebe no Natal e no aniversário. Chegado o Verão, a mãe pergunta-lhe quanto destinará às crianças pobres e ele faz um donativo para uma colónia de férias.
Professora da Universidade Católica do Porto e especialista em mediação familiar, Catarina vê muita gente viver em função dos filhos. “É importante que as crianças percebam que os pais têm direito a momentos em que elas não sejam o centro das atenções. Uma criança para crescer bem tem de ser sujeita a frustrações. Não a podemos proteger de tudo. Parte-se um brinquedo, chorou, não é preciso comprar outro a correr. Isso é pulsão compensatória. Os pais sentem culpa por estarem pouco presentes.”
Apesar de os homens participarem cada vez mais, a educação ainda assoberba mais as mulheres. E elas suportam uma das mais longas jornadas de trabalho e um dos mais baixos níveis salariais da União Europeia. Só em 2009 foi consagrada a universalidade da educação pré-escolar a partir dos cinco anos e alargada a escolaridade obrigatória até aos 18. Os equipamentos de apoio à família, diagnostica Manuel Sarmento, continuam insuficientes e as prestações sociais baixas.
“A sociedade não está organizada para os pais de hoje, que têm de aceitar todas as propostas de trabalho que aparecem”, entende a actriz, encenadora e dramaturga Marta Freitas, mãe de um rapaz de 11, Simão, e de uma rapariga de 9, Lucas. “Trabalho muito. Trabalho muitas vezes 15 horas por dia. Tenho de fazer uma gestão de tempo eficaz. Se sei que os meus filhos vão estar em casa ao final do dia, paro para estar com eles, nem que mal eles fechem os olhinhos eu volte para o computador.”
Simão e Lucas vivem entre a casa da mãe e do padrasto e a casa do pai, da madrasta e da meia-irmã, situada uma rua acima. Não lhes faz confusão. “As casas ficam perto”, diz o rapaz, escorregando no sofá. “Acho que é giro, é um tempo para um, um tempo para o outro”, achega a rapariga. “Com o pai vamos mais a concertos, com a mãe vamos mais ao teatro”, prossegue ela.
Frequentam o ensino integrado no Conservatório de Música do Porto. Ela passou para o 4.º ano, estuda violoncelo, ele para o 7.º, estuda piano. “Já têm uma carga horária muito grande”, considera a mãe. Ela e o ex-marido recusam-se a correr com eles de actividade em actividade. “Eles andaram ao sábado no atletismo. Problema: de 15 em 15 dias há competições. Isto de frequentemente transformar fins-de-semana em actividades é uma coisa que está fora de questão.” 
Gostam de ter tempo para estar com os amigos, para estar com os pais ou os avós, para estar consigo próprios – a ler, a ver televisão, a jogar, a brincar ou a nada fazer. “Gosto de ser criança”, diz Lucas. “Um adulto não liga aos amigos a dizer ‘Oh, vamos brincar!’ Nós ligamos. Às vezes, os adultos dizem que têm saudades de ser crianças, porque têm muita coisa para fazer.”
Hoje, observa o sociólogo Machado Pais, “uma criança necessita de se desconcentrar para ter a impressão de que está adquirindo experiências: joga um videojogo enquanto come pipocas, fala com a avó pelo telemóvel enquanto vê televisão e acaricia o cachorro com o pé. Tarefas múltiplas encarnam uma ideia nascente da experiência: uma presença ubíqua, uma desatenção permanente.”
Fazem todos parte da sociedade de consumo. “Boa parte pratica excessos que vão da comida calórica aos meios electrónicos”, torna Machado Pais. “Os horários de dormida nem sempre são respeitados. Muitos têm televisão e computador no quarto, divertindo-se, até altas horas da noite, com videojogos, programas televisivos ou visitas a sites nem sempre apropriados à sua idade. O sedentarismo, por sua vez, tende a aumentar as taxas de obesidade entre as crianças.”
Não é tudo igual. Portugal é um dos países mais desiguais do mundo e isso é óbvio na infância. Os dados do INE mostram que em 2013, 2,2% das crianças com menos de 15 anos pertenciam a famílias incapazes de lhes assegurar pelo menos uma refeição diária de carne ou peixe; 4,3% não podiam trocar roupa usada por nova; 2,4% não tinham dois pares de sapatos de tamanho certo; 5,4% não tinham livros adequados à idade; 7,4% não dispunham de espaço apropriado para estudar; 12,1% não podiam participar em eventos escolares não gratuitos; 24 % não podiam participar numa actividade extracurricular.
Rúben Malhadinhas tem 12 anos e uma energia imensa que esgotou a pedir um IPad à mãe. A mãe, 15 anos mais velha, disse-lhe que era impossível. Ele pediu-lhe que lhe desse então uma Playsation3. Ela tornou a dizer-lhe que não. Ele faz os trabalhos nos computadores da escola e na Qualificar Para Incluir (QPI), uma associação empenhada em travar a reprodução de pobreza. Usa o computador de casa para jogar. O computador é lento. “Está cansado”. E ele tem pressa. “Quero divertir-me, aproveitar a vida.” E fá-lo, sobretudo nos jogos electrónicos, no futebol e no skate. 
Dependentes das condições de vida dos adultos, as crianças sempre foram mais atingidas pela pobreza do que qualquer outro grupo etário. E tudo piorou com a crise, que se agudizou desde 2008. Lucas e Simão nem vêem noticiários. “Na maior parte das vezes, é só desgraças!”, diz ela. André vê: “Nós andamos a poupar e, quando temos alguma coisa de que não precisamos, damos.”
Não fosse a QPI, Rúben ficaria em casa as férias inteiras. Adora participar nas actividades que ocupam mais de cem miúdos em cada mês de Julho. Durante o mês de Agosto, a associação continua a assegurar uma refeição por dia à sua família. Andreia, a mãe, está desempregada. Mesmo com ajuda alimentar, vê-se aflita para comprar os medicamentos de asma para a irmã de Rúben, de cinco anos.
O que será a geração Z no futuro? “Há quem defenda que as nossas sociedades vivem, no domínio cultural, um processo de mutação protagonizado pelos bárbaros que existem à volta e dentro de cada um de nós”, comenta Machado Pais. “O que caracteriza esses bárbaros é a sua fugacidade, a sua capacidade de navegação rápida, o seu deleite em surfar as realidades à superfície, como se não quisessem perder tempo em descobrir-lhes as profundidades. Demanda-se o caminho mais curto e mais rápido para o prazer. Buscam-se conexões, mas as relações que se desenvolvem são marcadas pela fragilidade.”
Neste domínio como noutros, o imaginário nacional balança entre a crise a esperança. Esse paradoxo, explica Manuel Sarmento, faz-se do confronto com a criança-vítima (como aconteceu há pouco com um bebé morto num banho de água a ferver) e com a criança-problema (a da indisciplina, da violência nas escolas, da anorexia, da obesidade), mas também com a criança-rei (que começa a usar as novas tecnologias antes de falar, que apreende a escrever português quase ao mesmo tempo que inglês, que é vista como super-especial). O susto dos adultos com a suposta incapacidade de esta geração adquirir uma cultura de esforço convive com a crença de que resgatará o país do seu papel subalterno, até porque deverá ser a mais preparada de sempre.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

QUICO, O MENINO "LIGHT" ...


O Quico, de seu nome Frederico, foi para mim, um menino "fora de horas".
Com isto quero dizer, que existindo já na vida da minha filha, um rapaz e uma rapariga, e tendo ela uma vida profissionalmente muito exigente, não conceptualizava eu, a vinda de um terceiro elemento, ainda por cima, face à situação sócio-económica que se atravessa.
Isto, como se os avós pudessem ter a ousadia de conjecturar o que quer que seja, sobre a vida dos filhos !

Dito e feito, faz hoje sete anos já, lá fui esperar o Quico pela hora de almoço, ao Hospital S. Francisco Xavier.
Estava um dia radioso de sol quente de Agosto.

Encerra ele, a escadinha de três putos, de que volta e meia aqui falo, o mais velho com treze anos acabados de fazer, sendo que ele é o benjamim da família.
Vindo no fim do "comboio", e como quase sempre acontece aos últimos filhos, o Frederico é o elemento mais desinibido, mais bem disposto e mais auto-suficiente dos três.
Nascido num núcleo bem assoberbado já a todos os níveis, com as responsabilidades, falta de disponibilidade, escassez de tempo e até paciência, com a correria louca e o cansaço do dia a dia, num esquema familiar com todas as exigências crescentes de uma vida difícil que os jovens pais hoje encaram,  cada criança que vem vindo, tem de arranjar armas pessoais de adaptação, de autonomia e de independência, já que a pieguice, a super-protecção, a sufocação, a ansiedade e até a inexperiência com que na generalidade os primeiros filhos são criados, deixa de fazer sentido.

E por isso, genericamente, a criança "mais sacrificada" em termos educacionais, é sempre a primeira, já que então os pais, marinheiros de primeira viagem, estão cheios de convicções pedagógicas, de cuidados e de preocupações doentias por exageradas, e com elas criam e educam o primeiro filho num espartilho convicto, projectando nele tudo o que teoricamente aprenderam e querem passar adiante, com veleidades de perfeição, de utopia, e de intransigência, exigindo dele a imagem do filho perfeito que inventaram, e revendo-se nele, como continuador dos seus próprios valores.

Eu fui assim ... acredito que muitos de nós ( não irei obviamente generalizar ), são assim ...

Depois, com a sucessiva chegada de outros elementos ao "ranchinho", abrandam-se as normas, relativizam-se as exigências, abre-se a tolerância, maleabilizam-se as relações inter-pessoais.
E essas  novas crianças são mais saudavelmente educadas, estou em crer, e serão seguramente mais felizes.
Sem sentirem sobre si, de forma tão decisiva e determinante, a responsabilidade injusta, penalizante e pesada  de terem que assumir um perfil de filho "ideal", são crianças mais soltas, mais livres, mais assertivas, menos angustiadas,  eu diria que mais personalizadas e seguras.  Enfim, mais capazes e artilhadas para a vida e para os desafios que as esperam.

Assim é o Quico, uma criança que até hoje nunca vi chorar, excepto se acidentalmente magoada numa brincadeira mais desastrada.
É um menino que acorda rindo, que é extrovertido, que cultiva e vive rodeado de amiguinhos, de fácil adaptação às diferentes situações e apostas com que a vida o desafia, um menino argumentativo, com uma linguagem clara e concisa, sem preocupações ou angústias ...
Em suma, um menino profundamente "light" !...
É o neto que primeiro acorre à porta para o abracinho, o que se pendura do pescoço, e que não tem papas na língua, a contar histórias e episódios "muito importantes" no seu quotidiano ...
Ah ... e é alegremente criativo também, com resposta e solução imediata em qualquer eventualidade.

Com pouco mais de seis anos talvez, aconteceu no colégio que, a pedido da professora,  teve que dirigir-se à sala onde leccionava um antigo professor do António.  Este, que o conhecia bem, face à sua desenvoltura, desinibição e ares despachados, disse-lhe :  "Ai Quico ... não te pareces nada com o teu irmão !..."
De imediato, e antes de sair, o Quico voltou-se para trás, e com ar sério e pragmático  respondeu escorreita e convictamente ao professor :  " É natural ... não somos filhos do mesmo pai !!!..." (rsrsrs)

Este é o Quico, o meu menino "light" que hoje completa os seus sete anos de vida !...

Que a sua feliz filosofia de vivê-la,  o acompanhe sempre, e possa tornar o seu futuro tão ensolarado e claro, como aquele 20 de Agosto que o viu chegar a este mundo !!!...

Anamar

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

" OS QUE APRENDERAM A TRANSFORMAR A NECESSIDADE EM VIRTUDE "




O terceiro artigo de o "Público" sobre as diferentes gerações, conforme prometi.

Anamar


João Queirós conhece bem o “discurso da ‘aventura’ e do ‘cosmopolitismo’ associado à emigração dita qualificada”. Sabe que lá fora há mais oportunidades para um doutorado em Sociologia. Já lhe passou pela cabeça ir, mas nunca tentou. “Não é resistência – não tenho qualquer sentimento patriótico nem preconizo qualquer ideal estóico. Prefiro ficar. E procuro assegurar que fico.”
Entre 2001 e 2011, Portugal perdeu quase meio milhão de jovens. Efeito da redução da natalidade e da emigração, que tantos angaria na chamada geração Y, também conhecida por geração millenium, geração internet, geração ioiô, a dos nascidos entre 1980 e 1994 – ou 99, conforme os estudiosos.
Para muitos, o espaço natural não se esgota no rectângulo ibérico. Não existiam ou eram demasiado pequenos quando Portugal assinou o tratado de adesão à então Comunidade Económica Europeia, a 12 de Junho de 1985. E quantos terão memória da assinatura do Acordo Relativo à Supressão Gradual dos Controlos nas Fronteiras Comuns, sim, Schengen, a 25 de Junho de 1991?
Cresceram num dos melhores momentos económicos da história de Portugal. Na Expo 98, João Queirós tinha 16 anos, olhava em volta e pensava que “as pessoas eram felizes”. Ébrio de fundos comunitários, o país gastava à grande. De repente, numa noite chuvosa, despertou da euforia do crédito e da retórica do bom aluno europeu. Era 4 de Março de 2001. A correnteza barrenta do Douro matou 59 pessoas e deixou a nu a debilidade dos alicerces da prosperidade nacional.
João lembra-se tão bem da ponte de Entre-os-Rios cair, de António Guterres renunciar, do novo primeiro-ministro, Durão Barroso, usar a expressão "Portugal de tanga". Para ele, a existência tem um antes e um depois da queda da ponte. “A partir daí sucedem-se crises cada vez de maior magnitude, achamos cada vez menos que nos vamos safar, vamos perdendo esperança, ganhando cinismo, ficando mais individualistas.” A sequência parece-lhe definidora: “Toda a minha vida adulta é de crise.”
O conceito de geração tem fortes limitações. Pessoas da mesma idade têm percepções diferentes consoante são do género masculino ou feminino, heterossexuais ou homossexuais, da cidade ou do campo, ricos ou pobres, pouco ou muito escolarizados, de esquerda ou de direita. E a juventude nunca foi tão diversa. Os sociólogos nunca tiveram tanta dificuldade em agregar modos de vida. Mantém-se o mainstream, mas multiplicaram-se as combinações possíveis.
Que terá então João Queirós, prestes a defender doutoramento na Universidade do Porto, em comum com Tiago Pinto, residente num dos bairros que ele estuda, com o 6ª ano de escolaridade, e a estacionar carros num restaurante de luxo?
Quando a ponte caiu, o sociólogo José Machado Pais já falava em “encruzilhadas labirínticas”, “trajectórias ioiô”, jovens presos a transitoriedades feitas de estágios, cursos, subempregos, aprendizagens, desempregos, retornos à escola. Especialista em juventude, foi vendo isso agravar-se, sobretudo a partir de 2011, ano em que em Portugal aterraram os representantes da troika – a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.
A precariedade entranhou-se. Não é só a taxa de desemprego entre menores de 30 anos que ultrapassa os 26%, quase o dobro da global. É o salário que está 23% abaixo do praticado entre trabalhadores por contra de outrem. Presos às transitoriedades, os jovens e os jovens adultos ficam em casa dos pais cada vez até mais tarde, casam-se cada vez mais tarde, têm filhos cada vez mais tarde.
João conta 32 anos e é professor convidado na Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto. Trabalha há 12 anos na sua área sem nunca ter tido um vínculo sólido. Começou como assistente de investigação. Desde então, passou recibos verdes, recebeu bolsas, assinou contratos a termo. Tinha 28 anos quando deixou a casa da mãe e foi morar com a namorada numa casa arrendada. Planeia o que quer investigar ou onde quer morar, mas não vai muito mais longe. “Não sei o que vou fazer profissionalmente para lá de Janeiro de 2015. Posso arriscar até Junho, depois não sei.”  
Tiago tem 19 anos e começou a trabalhar há quatro. Já esteve muitas vezes parado. Já foi ajudante de electricista, empregado de café, telefonista, carregador, trolha, rufia. Agora é vigilante. “Estou a fazer o Verão, depois logo se vê, não desconto nem nada.” Vive com a namorada em casa da família dela e dentro de dias há-de celebrar o primeiro ano de vida da primeira filha de ambos.