segunda-feira, 27 de julho de 2015

" ERA O TINTO, MEU BEM ERA O TINTO !!! "




Sabem aqueles dias, que não se "salvam" de nenhuma forma ?
Sabem aqueles dias, em que dizemos: "não deveríamos ter saído da cama" ?
E aqueles em que temos a sensação que, em desespero de causa, só os salvaremos, fazendo uma asneira monumental ??!! Porque, perdido por um, pedido por mil ???.... ihihih

Pois é ! O meu dia de hoje, foi mais um, "destes"... valha-me a santa !

Chegada a casa, depois de uma perda de horas sem tamanho, que devo cumprir, por inerências familiares, e em que me desdobro a inventar algo interessante que mas ocupe, e em que o estado de espírito em que mergulho, não propicia sequer fazer alguma coisa de que goste ( como ler, escrever ... não  exactamente  contar,  mas  ouvir  música  por  exemplo ... ) ...
Horas essas em que o melhorzinho que consigo, é olhar perdidamente a paisagem, que é muito tranquilizante e bela, mas sempre a mesma, todos os dias ...
Consultar o relógio de meia em meia hora ( para constatar como certo e determinado tempo custa a passar !... )
E esfalfar-me a apanhar sol ( o que também não é muito ortodoxo, porque estamos em Julho, porque os dias estão quentíssimos ... e por todas as razões  que conhecemos, desfavoráveis à saúde, ) ...
uma sensação de vazio e tempo perdido, preenche-me.

Compensações procuradas, em desvario, pelos armários, lembram-me que :
as cerejas já acabaram, desgraçadamente ...
nem um chocolate esquecido, habita esta casa ...
nem um biscoito, quiçá um bolo, por aqui se perdeu ...  O máximo de que disponho, é um triste pacote de bolachas  de água e sal, desenxabidas e desconfortantes ... ( maldita mania das dietas !!! Agora é que vejo !...) Até  como  sucedâneo,  o  meu  espírito  as  enjeita !...
batatas fritas de pacote, também não há !
nem uma goma ... talvez uma pastilha elástica .... Nada !...

Espero que conheçam, este "desespero", este "destempero", esta "aflição" surreal, talvez tipicamente femininos ... não sei ?!

Bolas, que desassossego ! Parece castigo imerecido, creio ... punição do além !...

Desalentada, mexo e remexo no esconso dos miolos, na busca de uma qualquer outra ideia luminosa, que me solucione este problema existencial ...

Numa das dez idas ao frigorífico ( parece que acredito em milagres ... :), deparei-me com uma tímida garrafa de tinto alentejano, reserva especial, colocada meio adormecida, numa prateleira, à espera de melhores dias !
Não acredito em coincidências ... mas, talvez a dita estivesse ali para salva os restinhos do meu dia !...

Acho que os meus olhinhos, que primeiro constataram, depois analisaram, e depois ainda reflectiram ... piscaram e sorriram malandros e felizes ... com aquele ar debochado, de menino prevaricador ...
Tenho a certeza que se eu fosse um boneco animado, era a altura exacta em que uma lâmpadazinha sugestiva, se acenderia sobre a minha cabeça !...

"Eureka" ... Aqui está o x da questão " !... - foi o que pensei !

Cálice de pé alto, vidro fino ao melhor estilo ... e, olhem ... já vou no segundo copo !!! ihihih

Um único senão : isto com uma companhia boa, é que era !!!!  ihihih

Ah..... Uma última informação : juro que, em momento tão solene,  não me trajei tão a preceito, quanto documenta a foto que acoplei ao meu texto  !!!! ihihihih

Anamar

domingo, 26 de julho de 2015

" DEVANEIOS "




Aqui donde estou, eu vejo o mar ...

Vejo-o, sempre que fecho os olhos.  Vejo-o, sempre que olho o céu aqui por cima.
Depois, caminho mais além, derrubo as serras, os montes, afasto a cortina do arvoredo cerrado, e de repente, lá está ele ... no fim daquela encosta sobranceira .
Está calmo ou agitado, conforme o olho.  Não começa, nem acaba nunca.  É de mil tons. Tem as cores do arco-íris ... mais todas aquelas que ainda não inventaram !...

A mata de pinheiro manso termina no topo da falésia, a vegetação rasteira, de solo arenoso, forra a rocha agreste por ali abaixo.
As flores silvestres, que não pedem para nascer, pintalgam aqui e além, com tufos coloridos.
As amoras bravas adocicam os viajantes, e o sol aquece, envolve e embala ...

E está tudo lá, que eu sei.  Nos mesmos sítios.
Os muros com  as pedras empoleiradas, os caminhos tímidos e o verde matizado.
As gargalhadas e as palavras que por lá esqueci ...

Por que não posso eu ver o mar, daqui ... ora essa ?!
Eu sei que os meus olhos já não enxergam direito.  Eu sei que os contornos nítidos, já só são coisa da minha mente e do meu coração ...
Tudo, porque o tempo anda a brincar comigo !
Mas o meu querer manda no sonho.  E eu sonho sempre que quero.

Basta que cerre os olhos, ou que olhe o céu aqui por cima ...

E  também  invento  gaivotas ...  E  oiço-as  nos  voos  planos  que  fazem,  bailando  na  aragem ...
E sorvo o cheiro intenso da maresia, porque essa, eu transporto no bolso da alma, na caixinha dos segredos.
E escuto, nítido, o vai-vem das marés que nunca cansam, que nunca dormem, mesmo quando os Homens repousam no cólo das mães .
Sou salpicada pela espuma que rendilha a beira do mar ...
Abro a porta à brisa da tarde, e deixo-a ir, solta e leve, bênção e paz de corações atormentados ...
Como eu, ela vai sempre mais além.  Como eu, ela rompe distâncias, busca caminhos, procura destinos.
Não há correntes que a prendam.  Não há prisões que a amarrem.  Não há cansaços que a demovam ...
Ela vai sempre mais além !...

Eu quero dormir no mar! 
Tem que ser o mar, o meu berço de eternidade ... Onde mais ?!
A  minha  terra  tem  mares  de trigo, a minha mente tem mares de sonhos, o meu sonho tem mares de infinito !...

Um dia, eu quero dormir no mar !!!...

Anamar

sexta-feira, 24 de julho de 2015

" NÃO HÁ VOLTA A DAR ... "




A gente não gosta de confessar que vive em solidão.  E não gosta, por muitas razões.

A solidão pode ser uma mera circunstância do destino, mas admiti-lo, pode também ser o reconhecimento de uma incapacidade pessoal : a inabilidade para "reter" junto de si, laços afectivos, empatias ou afinidades, ao longo da vida.

De alguma forma, quem se ama nunca se separa verdadeiramente, quem tem empatia ou reconhece afinidade com alguém, normalmente não se afasta desse alguém, porque com linguagens próximas, interesses similares ou gostos idênticos, o eco emocional que retorna da partilha, é gratificante e ajuda a viver.

Poder reflectir junto, sonhar junto, olhar na mesma direcção com alguém ... fazer planos, arquitectar futuros, ou simplesmente não dizer nada e apenas "sentir-se" ... aliviam a carga que nos é destinada diariamente, atapetam caminhos difíceis, amaciam veredas sinuosas, dão-nos vitaminas para a alma ... devolvem-nos a esperança !
 A divisão do fardo, alivia esse mesmo fardo, enquanto que a partilha de uma emoção cúmplice, potencia essa mesma emoção !...

E por isso, o aceitar-se que não se alcançou esse desiderato, o colocarmo-nos alvo de alguma comiseração ou "simpatia solidária", de alguma forma inibe e fragiliza, porque estigmatiza socialmente.
E o Homem silencia em si, a mágoa dessa incapacidade !

Neste momento, calculo que a solidão seja uma das maiores "pragas" à superfície da Terra.
Nos grandes centros populacionais, é mesmo gritante.
A grande metrópole cria muros, nunca pontes, entre os indivíduos.  As pessoas cada vez vivem mais sós, em verdadeiros guetos, entrincheiradas nas suas colmeias, reduzidas à célula quase anónima das suas casas.
O ser humano vive embiocado em "construções de lego", impessoais e descaracterizadas, e com um bocadinho de jeito, não conhece sequer os que partilham consigo o seu espaço próximo.
Pode estar feliz, pode sorrir, pode chorar, pode desabar entre as suas quatro paredes ... pode sofrer ... pode morrer ...
Dificilmente alguém o pressentirá ... dificilmente alguém o saberá.  Pelo menos, atempadamente ...

Na generalidade, o mundo é de indisponibilidades.
O Homem, nesta época de tecnocracia exacerbada, da sociedade massificada, da competição desenfreada, da formação para o sucesso fácil, da ascensão a qualquer preço, da valorização do supérfluo em detrimento do essencial ... o "salve-se quem puder", num egocentrismo sem tamanho, a ausência de escrúpulos e de solidariedade  ... isolam as pessoas, centram as pessoas em si mesmas  e nos seus interesses, e privilegiam a solidão.
A correria da vida actual, as necessidades prementes, impostas por uma estrutura social excessivamente musculada, que não se condói, promovem o afastamento progressivo, por reais incompatibilidades de figurinos ajustáveis, semeando uma solidão muitas vezes acompanhada, mas real !

Por outro lado, também o avanço da faixa etária tende obviamente a instalá-la.
Numa fase da vida em que muito do melhor que possuíamos nos vai sendo sonegado, em que já perdemos fisicamente muitos dos nossos afectos, em que a pujança, a robustez e a frescura nos falham, em que os sonhos começam a assombrar-se com a realidade objectiva, em que o crer e o querer também claudicam face às naturais e irreversíveis leis biológicas, a solidão será então a mais devastadora, injusta e dolorosa pena, que algum ser humano poderá em cúmulo, sofrer !!!...

A gente não gosta de confessar que vive em solidão, por muitas razões ...
Mas na verdade, se mais não for, como seres gregários que somos, jamais nos habituaremos a conviver com ela !!!...

Anamar

segunda-feira, 20 de julho de 2015

" QUASE SEMPRE VOU ... "





Todos os dias eu vou.

Vou para qualquer lugar ... onde o pensamento me leva.  Onde o coração me conduz.  Onde o sonho me transporta ...  aonde a saudade me desencaminha ...

Bato asas, olho o galho onde poiso, e lanço-me no azul.
E voo na brisa da tarde, além, além, e mais além.  Há muito que não tenho horizontes que me limitem.  Não tenho muros, paredes ou barreiras que me tolham.
Nem os caminhos sem sinais que os orientem, me constrangem.
Não tenho desertos, sequer dunas ociosas  com veleidades de prisão, que me demovam ...

Basta-me o ramo da cerejeira ... porque de lá vejo o Mundo.  E o Mundo passa a ser meu, refém da minha vontade, submisso ao meu desejo, escravo daquilo que invento.
E invento todos os dias.  E espero todas as horas.  E respiro esta ânsia marinheira de barco sem amarra, cada minuto !
Sou viajante de destinos sem destino, que desenho na mente, que imprimo no espírito, tactuo na pele e grito no vento !

Os meus pés pesam infernos.  Praguejaram-me raízes fundas, que tentam em vão prender-me na rocha ...
Cortaram-me as asas, pensando que me esqueciam o caminho ...
Cerraram-me os olhos, julgando que me faziam desistir da emoção da viagem ...
Taparam-me a boca, achando que me sufocariam o grasnido solto de gaivota livre na aragem ...
Ataram-me os braços, para que desistisse do abraço quente, do universo infinito ...
Esfacelaram-me o coração, não sabendo que ele continuaria a pulsar sangue quente, nas minhas veias ...

Mas até os caramujos são livres, e em cada onda que os afaga, enviam recados de esperança ...
Até as algas que pernoitam as marés, devassam os fundos e passeiam à bolina, pelo mar de Deus ...
Até as árvores milenares não se condenam ...
Silenciosamente, sobem acima de todas as copas, na floresta fechada ...
Corajosamente, engrossam troncos de vontade, e espreitam o sol, garante de vidas que ainda hão-de viver ...

Esqueceram-se que me reinvento.  Esqueceram-se que tenho mil vidas numa só ...
Esqueceram-se que sonho ...

E que todos os dias vou ... Vou para qualquer lugar !!!...

Anamar

quarta-feira, 15 de julho de 2015

" O DESFAZER DO NINHO ... "




Que sensação estranha, esta que experimento !...

Desde o afastamento definitivo da sua casa ( por razões irreversíveis de saúde ), da minha mãe, que eu passei a ir lá, com a mínima frequência possível.  Apenas o indispensável à retirada do correio, e ao regar das plantas que enfeitavam a cozinha.
Não consegui abandonar  flores que sempre cuidou com esmero, gosto, e muito carinho.  Eram para ela, "companheiras" da vida, como fazia questão de dizer.  Havia pois, que tratá-las !

E era de facto um "jardim" lindo, o que existia junto à janela larga, de parede a parede, naquele apartamento de rés-do-chão, sempre estranhamente obscurecido, à excepção daquele espaço.
Ali, a luz que entrava a jorros, propiciava plantas saudáveis, verdejantes, denotando um "astral" muito positivo.
Sempre invejei aquele "verde", eu, que não tenho o condão de conservar junto de mim, plantas felizes ...
"Carecem de uma conversa, de uma carícia ... " - dizem.  Eu não sou muito dada a essas coisas ...

Não me fazia bem encarar a escuridão daquelas divisões fechadas, olhar a imobilidade daquele espaço inerte e silencioso, a acumular poeira, a denotar abandono, a transpirar solidão.
É um espaço adormecido, a morrer, também ele, aos poucos, como se o tempo lá tivesse parado,  como se apenas as recordações, as memórias, as imagens do passado, ali circulassem.
Como se apenas os fantasmas ainda ali vivessem ...

Foi uma casa de mais de cinquenta anos.
Para ali fui viver ainda menina.  Dali saí, casada ... menina ainda.
Ali, estudei madrugada adiante, na ciclópica empreitada das férias de ponto, nos exames.  Lembro os do quinto ano, que com matérias  a perder de vista, nos matavam a cabeça...
Ali, verti as primeiras e sentidas lágrimas, nos primeiros, e por isso "grandes" amores.
Ali, pintava os olhos com lápis de cor, às escondidas da minha mãe, antes de sair para o liceu, nos meus quinze aninhos de então ...
Para lá entrei com a minha filha mais velha nos braços, acabada de nascer.
Lá, ficava com a avó enquanto eu trabalhava.  Lá, almoçávamos diariamente, os petisquinhos da minha mãe.  As crianças chegadas da escola, eu, do liceu ... o meu pai presente ainda ... parando já muito por casa ...
Lá, tive o meu pai numa cama, dois anos, até que um dia nos deixou.
E tantas, tantas outras histórias, que mais não são do que a história de vidas, as vidas que por ali se fizeram, por ali se cruzaram ...
Se calhar, afinal como com toda a gente, se calhar como com todas as casas ...

Hoje, tenho em mãos a dolorosa e ingrata necessidade de desfazer aquela casa.

E o retirar das peças da sua impecável arrumação, o violar das gavetas e dos armários com recheios desconhecidos, o simples profanar daquele ar, são uma violência sem tamanho, na minha alma.
Entro, e fico parada, hirta, sem forças ... quase petrificada, tolhida, incapaz ...
Parece que procuro alguma coisa, sem encontrar.  Parece que saqueio.  Sinto-me um ladrão de sonhos, de emoções, um salteador de vida vivida ...
Sinto-me numa viagem inglória, de regresso ao passado, sem o resgatar, num presente demasiado doído.  Sinto o peso da tristeza ali instalada ... e "vejo" as janelas abertas, a luz a entrar ...
Escuto os sons, as vozes, as conversas, os risos e até as discussões de antanho ...
Oiço os bifes da minha mãe a frigirem na cozinha, e o seu cheirinho denunciador, a alcançar a escada ...
Lembro a surpresa das farófias no frigorífico, ou a taça da salada de fruta ...
E lembro o meu pai, agastado com a correria das netas em torno da mesa, perigando as benditas "jarras" ( que sempre achei horríveis, mas que ele amava ), sobre o aparador ...

Não sei como será, passar por lá, um dia destes, percebendo outras vidas naquele espaço, outra gente naquelas janelas, adivinhando-a a deambular naquele chão ... secando roupa naqueles estendais, atravessando a soleira daquela porta ... Não sei !...
A casa dos meus avós, tornou-se já "lenda" na minha história.
A dos meus pais, breve será uma memória sangrante !...

Hoje, é já um pesadelo ir àquela casa.
É um desencavar de tudo o que já não existe há muito, é um vasculhar nas sombras idas, é um perturbar a quietude dos silêncios, é um chamado longínquo às lembranças distantes, é um acordar dos que partiram ... é o arrastar do peso monstruoso de mais uma perda na minha existência !...

Afinal, nada mais é do que o derradeiro voo da ave, que abandona para sempre, o ninho desfeito !!!

Anamar

sexta-feira, 10 de julho de 2015

" MORRE-SE ... "




Morre-se um pouco quando se perde alguém.
Seja alguém que nos deixa fisicamente, seja alguém que a vida nos rouba, por muitas e quase sempre injustas razões.

E as pessoas morrem-nos talvez mais doídamente em vida, do que partindo pela inevitabilidade da mesma.
Para isso, acho que estamos mais preparados, pois afinal esse é o destino a que ninguém escapa.
Esse é o destino que a todos espera, pelo simples facto de termos nascido.

Contudo, perder pessoas pelo caminho, perder pessoas que desviaram da nossa rota, porque fizeram encruzilhadas em sentidos diversos ... porque mercê de tantas circunstâncias não puderam ou quiseram seguir-nos lado a lado no mesmo trilho ... ou ainda, perder pessoas que nos morreram nas "mãos", nos morreram no coração e acabaram secando na nossa alma ... é excessivo, é monstruoso ... é quase insuperável !

Morre-se ... embora eu não saiba bem, o que também parte de nós.
Não sei se é a saúde, a alegria, a vontade ... não sei se é a esperança, o sonho, o sorriso, a paz, a força de viver ...
Sei é que não voltamos a ser os mesmos.  Sei é que nos sentimos amputados em algum lado, e pela profundidade da dor lancinante, a ferida só pode ser no coração.
Lá, onde todo o repositório da nossa vida descansa ... nem sempre em sossego.

E fica-se assim ... vazio, exaurido ... com um buraco cavado no peito, com uma ausência na alma, como se de repente o único horizonte que nos resta, fosse um écran gigante, branco, totalmente branco e despido.  Um horizonte desesperançado que não convida ao caminho, à progressão e ao esforço.
Um horizonte que não tem sol a nascer nem a pôr-se ... que não tem estrelas ou luas brancas ...
Que nos remete a uma hibernação interior, que nos mergulha num estádio letárgico, que nos coloca a alma em quarentena, como um feto aninhado no útero materno.

E uma escuridão abate-se, uma cerração fecha-se, e só o sono é retemperador, só ele apazigua, só ele alimenta, só ele parece proteger.

E nele nos refugiamos.  Quando também ele não nos falta !...

E o mundo fica a preto e branco, e as cores esbatem, esbatem, até que indefinem os contornos e a luz dá lugar à sombra, em olhos que apenas estão abertos, só olham, mas não vêem mais ...
E um cansaço atroz desce, envolve, cerra, como se portadas de janela se fechassem, como se penumbra densa invadisse a sala e escurecesse a tarde, como se um crepúsculo antecipado, gélido e petrificante, caísse e findasse o dia ...

E então, mesmo as tais flores amarelas que por engano floriram no canteiro, não terão mais razão para sorrir !...

Anamar

terça-feira, 30 de junho de 2015

" POR AQUI ... "




Estou seca !
Seca de ideias, de emoções, de sentimentos ... vazia. Totalmente vazia !
Tão estilhaçada como aquele vaso de porcelana que tombou, e reconhecemos irremediavelmente perdido !
Tão esfiapada como o trapo velho, que desacreditamos  possa ter ainda algum préstimo !
Tão vazia quanto o pode estar o balão que acaba tombando no chão, por perda de todo o ar que o preenchia !

Passeio-me por aqui.  E até o pensar me cansa, e recuso.
Tento voltar esquinas perdidas, procurando no ontem, justificação para o hoje, esperanças  para o amanhã !
Procurando lógicas, fios condutores ... caminhos esquecidos, veredas ou atalhos que pudessem ter levado a algum lado.
Procurando erros, sentidos dúbios, avaliações mal calculadas,  raciocínios mal medidos, ideias mal desenhadas, esperanças infantis, ingenuidades absurdas ... culpas não encaradas ...
Procurando por onde andei lá atrás, que criança fui, que imaturidade me invadiu, que parece ter-me tolhido o crescimento ...  
Interrogando-me, por que razão tão mal me sei mexer sempre, neste percurso ?!
Procurando divisar justificações p'ra tanta inépcia perante a vida, tanta falta de habilidade para vivê-la, tanta incompetência e estupidez, ou burrice a encará-la ...

Em vão !

Não descortino nexos, sentidos, razões que justifiquem tão rápida, cruel e eficazmente, a destruição das perspectivas, das expectativas e das vontades, na vida de alguém ...
Sobretudo da vontade aniquilada, da ausência de capacidade, força ou inconformismo... que esse sim, seria motor impulsionador em cada dia.
Não !  Estou amodorrada, como velha encarquilhada à lareira.

E como  em terreno pantanoso, não me soergo.
Como em areia no deserto, não me desenterro e perco o horizonte.  As estrelas não me dão norte, e as dunas fazem-se e desfazem-se adiante de mim ...
Como em mar encapelado, não lanço mão de madeira à deriva ...

Não !  Sinto  que tudo  já fugiu ao meu controle.  Que tudo já ultrapassou a minha resiliência.  Que tudo atropelou até a minha vontade, a minha coragem e o último resquício do meu lado guerreiro.

Capitulei.  Depus as armas.  Não me rebelo, não me indigno, não me insurjo,  não me puno ... não me digladio ...
Não me surpreendo, não sorrio, não sonho, não luto ... não vivo !...

Estou cansada.  Só sei que estou profundamente cansada.  Desesperadamente cansada.  Doentiamente cansada !
E só !
Com a solidão do náufrago, que percebe que a  última onda possível ... acaba de passar, rumo à praia longínqua !...

Anamar