Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

" E ESTAMOS ASSIM ... "






A tarde estava ventosa, endiabradamente ventosa.

Na rua, as pessoas vestidas de Verão, de um Verão que se recusa, circulavam encolhidas com frio, abanando a cabeça desaprovadora, a cada rajada de vento que soprava.

O café, não obstante, colocara na mesma, a esplanada na rua.  Os chapéus de sol, as mesas e as cadeiras, esperavam vazios, algum cliente mais intrépido.
Eu passei em passo estugado.  Afinal o sol nem se sentia, sequer.

Ouvi ... porque  inicialmente  nem  vi  donde  vinha,  a  frase  a  meia  voz : " Cada vez estou mais farto de mim e deste país " !

Olhei para trás, para ver quem desabafara daquela forma.
Tratava-se de um homem de meia idade, vestido modestamente, com um boné na cabeça, o único ocupante da esplanada do café.
Não tinha nada na mesa à sua frente ... parecia indiferente à tarde desagradável, ensimesmado "na dele" ... desalentado, derrotado, talvez revoltado ...

Momentos antes eu recebera uma sms de alguém próximo, que me dizia : "Estou cansada, sem ânimo, amargurada e sem forças.  Não sei o que fazer à minha vida " !...

Duas pessoas anónimas, , duas vozes apenas, a darem voz ao coro de vozes desta terra, que diriam exactamente a mesma coisa ;  a darem eco à turba de gente, que em encruzilhadas confusas, em ruas de volta atrás, em rotundas imparáveis, entontecem, sem se libertarem e saírem do mesmo lugar.
Gente que já não encontra horizonte esperançoso, escapatória salvadora, objectivo por que lutar ...
E a estagnação a que está condenada, destrói, desespera, tira as forças, e em última análise, mata, porque derrota, vai aniquilando aos poucos, como um verme silencioso e persistente, a corroer a carne sã.

E as pessoas morrem todos os dias um bocadinho, as famílias desestruturam-se, as relações claudicam, e os indivíduos estão cada vez mais sós, mais amargos, mais agressivos, em células sociais insatisfatórias, incapazes de os acolher com o mínimo de conforto afectivo, ou laços que os espaldem contra a imtempérie da vida, que os escudem contra marés alterosas e os reveses diários.

Hoje, quando chegou a hora de me levantar, e sem ânimo para o fazer, dei por mim a dizer para "dentro", uma outra vez : "mais um dia de luta" !...
Porque eu também tenho a minha luta, a minha angústia de vida, a incerteza do depois, a impotência face à tempestade que não se contém, porque não se pode conter ... que são minhas, mas que assimilam em si as dos que me estão perto, de coração, e a quem não posso valer.
E diariamente carrego um peso angustiante, exactamente por não saber o que fazer, como fazer, não ter soluções para nada.
E como sou muito pouco pragmática e racional, emocional e psicologicamente sinto-me acoada, desequilibrada, em pânico, quase sempre ...

Ontem, o primeiro impulso que senti quando ouvi aquela frase largada ao vento, por um desconhecido, foi de me sentar na sua mesa vazia, olhá-lo, e dizer-lhe : " Olhe, não está só !  Aqui e agora, eu sinto exactamente o mesmo " !...

Mesmo sabendo que de nada adiantaria ...
Tal  como  de  nada  adiantou  a  resposta  ao  sms, que  levei  tempos  a articular ( eu, que até escrevo com alguma facilidade ),  porque não encontrava  palavras  adequadas ( penso que simplesmente não existem, se perderam ...)

Ou, porque todas as palavras e frases que eu escolhia, eram "feitas", ocas, vazias, sem convicção ou consistência ... Apenas porque não consegui sentir em mim a mínima credibilidade no discurso, ( por eu própria nele não acreditar ... )

Porque nenhuma capacidade persuasiva, promissora de soluções ou saídas, eu fui capaz de transmitir, por forma a acalmar o receptor da minha mensagem, ou pelo menos de lhe incutir algum ânimo ou fé em melhores dias ...

E estamos assim !...

Os suicídios aumentam, o desespero leva à loucura, e cada vez temos mais gente a viver marginalmente à sociedade, em franjas de subsistência, ou sobrevivência indescritíveis ...

Entretanto o Benfica jogou em Amsterdão, e perdeu tão importante prova.
"N" autocarros lotados, deslocaram adeptos ferrenhos, membros  do  governo,  e  gente  que  deveria  estar a  trabalhar  ao  serviço  do  povo ( porque fora um dia útil ), e que à nossa conta, e sem o mínimo pudor, não abdicou de ir.
Por cá, os outros, muitos dos outros, alienaram-se, fizeram de conta que a vida é mansa, entorpecendo-se com a transmissão, vomitada por várias estações de televisão.
E vibraram, e esqueceram ...

Abençoado futebol, que enquanto render, esquecer-se-á o crédito atrasado da casa, as despesas escolares dos filhos, a prestação do electrodoméstico já vencida, e os parcos tostões na algibeira, que dificilmente fazem face ao sustento, que diariamente há que pôr na mesa ...

Anamar

Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

" A PROPÓSITO DE UMA CANÇÃO "



Eric Clapton lança no ar aqueles acordes meio dolentes, meio mágicos, de "Tears in Heaven"...

As canções, algumas canções, marcam as vidas das pessoas, por esta ou aquela razão.
Na  M80 dizem : "Se a sua vida tem uma canção, ela passa aqui, na M80" ! - um spot publicitário da estação de rádio, repetido vezes sem fim !

Eu acho que não se tem "uma canção" na vida ... Têm-se algumas canções, na vida.
De repente, estamos no café, no Metro, na rua, e escutamos esta ou aquela, que se solta do ruído de fundo, e nos alcança os ouvidos...
E sorrimos, quase sempre sorrimos com o coração, e sentimo-nos "quentinhos" por dentro, como se uma nesga do cobertor da vida, nos tivesse aninhado.
Sim, porque nem sempre a vida nos estende esse abrigo, em horas de maior frio e desamparo !...

São quase sempre temas, que obviamente já passaram, que são "passado", essa fatia do destino, a única, que conhecemos bem demais !
Como um cometa que corta os céus, o rasto de luz nas nossas histórias é o que fica para trás, meio difuso, meio obscurecido já, meio prestes a apagar-se ... mas sempre para trás.
À frente, no céu a desbravar, só existe escuridão desconhecida, misteriosa e imprevisível.
O que ficou para trás, foi certo , bom ou mau, doído ou feliz, doce ou agreste, lá ficou.  Já o vivemos, e nunca, nunca mais voltará, porque se escoou juntamente com os segundos do tempo, implacavelmente imparáveis.
E tem por destino, apenas o esbater das cores e das emoções, como a redução do volume do tema musical.
Até porque os nossos ouvidos também reduzem a acuidade, na percepção das notas, e a canção acaba por se perder por aí ... como a Vida !

Às vezes, as canções da nossa vida, conseguem retransportar-nos a dias bem ensolarados, a céus luminosos e transparentes, a montanhas verdejantes, a mar azul e profundo.  Conseguem levar-nos a gargalhadas despreocupadas, a vida que ri, e é leve ...
Outras vezes, levam-nos ao crepitar de lenha que arde em noites escuras, com chuva a bater nas vidraças, e vento que sacode as ruas desertas ...
E a uma cama desfeita, que espera horas que virão, e corpos que se fundem, perdendo identidades ...
Outras ainda, é o mar a bramir nos rochedos lá em baixo, é a brisa mansa que com particular doçura desalinha os cabelos, afaga os rostos, acaricia os corpos.  E há um entrosamento tal, uma unidade tão absoluta e tão magistralmente desenhada, que nos emociona e faz rolar uma lágrima, agora ... à distância ... só de lembrar !...

E as canções vão passando, indiferentes, tocadas na vitrola dos dias, dos anos ... das épocas ...

E as flores adormecem, porque as Primaveras se recolhem, os animais regressam às tocas, as aves migram, as borboletas morrem pelo chão das alamedas dos jardins, o sol chama a lua p'ra dançar, e as estrelas espalham-se num dossel azul escuro, por cima de todo o planeta ...

A canção pára, termina ...
Como tudo, afinal ... Porque ao que parece, tudo o que começa tem esse desígnio ... terminar mais cedo ou mais tarde, como os sonhos, como a Vida, que apenas nos deixa as canções, nada mais !!!...

Anamar

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

" NAQUELE TEMPO ... "


 
Nesta semana que passou, viveu-se  o "Dia da Espiga", ou a comemoração religiosa da Ascensão de Jesus aos céus, quarenta dias depois da Ressurreição Pascal ... se ainda me lembro.
Fora as raízes católicas que já perdi nos meandros do tempo, lembro a quinta-feira "da espiga", vivida em miúda, no Alentejo, claro, e que só pode ser privilégio de quem viva no interior rural, ou perto dele.

Na altura eu vivia em Évora, era menina de tranças e vestidinhos rodados.
As meninas à época, ao contrário de hoje, não vestiam calças nem calções, no dia a dia.  Quando muito, isso era traje da época balnear.
Não obstante, lembro de ter tido umas calças e camisa, em vermelho liso e risquinhas condicentes, "à pirata", que é como quem diz, as nossas "bermudas" de hoje, feitas pela costureira que ia quase semanalmente a casa, fazer os arranjos e roupas simples.
As de maior responsabilidade, ou mais elaboradas, iam para a D. Soledade, a modista da classe "fina" de Évora ... senhora bem apetrechada de figurinos, onde a minha mãe escolhia criteriosamente os modelitos.

Eu vivia então, na Av. dos Combatentes, que ficava num extremo da cidade .  Esta avenida terminava na estação dos caminhos de ferro, e atravessando as linhas férreas, do outro lado, continuava numa estrada que cortava os campos, até ao Bairro de Almeirim.
Era um caminho quase sem trânsito, ladeado por campos cultivados, com searas a perder de vista.
Era montado de sobreiros e azinheiras, e olival com azeitona a formar-se ;
Eram "jardins" de papoilas, malmequeres e flores roxas ... de urzes, estevas e giestas ;
Eram postes de alta-tensão, com os ninhos das cegonhas empoleirados a desníveis ;
Eram varas de porcos, ou rebanhos adormecidos por ali, quando o calor apertava, e o convite, era a sesta para o gado e para quem o pastoreava ;
Era o pipilar dos pássaros pela seara ... os cucos, os melros, os tordos, as alvéolas ... as andorinhas rasantes, em bandos volteadores ...
Era o cantar dos grilos à desgarrada, e a melopeia dormente das cigarras ...
Eram os cheiros adocicados trazidos pela brisa mansa, dos cereais de espiga a formar-se, e dos pólens, a darem-se ao zumbido dos zângãos e das abelhas atarefadas, do meu Alentejo !...
Era o chocalhar lá longe, de quando em quando, dos badalos das vacas, que se misturava ( ao crepúsculo ), com o sino de alguma igreja da cidade, nas "Avésmarias" ...
Era o céu azul de uma Primavera quase Verão, nas terras quentes ...
E era eu, menina, sem saber, sem imaginar, sem sequer sonhar o que a Vida é ...

Apanhava-se o "ramo da espiga", garante de pão na mesa, azeite, "luz", paz e alegria na casa, por todo o ano.
Para isso, deveria ser formado por espigas de trigo ( pão ), um raminho de oliveira ( azeite e paz ) ... e flores, todas as flores dos campos, e de todas as cores que pudéssemos apanhar ( os malmequeres amarelos e brancos simbolizando respectivamente o ouro e a prata,  e  as papoilas, o amor e a vida ).
Era atado com uma guita, e dependurado na despensa ou na cozinha, até ao ano seguinte, até à próxima  "5ª Feira da Espiga", para que o "clima" fosse favorável a um ano de abundância, paz e felicidade na família.

Hoje, na cidade ( sinal dos tempos ), também há "ramos de espiga", onde a contrafacção já chegou.
Longe de searas à séria, o lisboeta que quer fazer uns trocos, vende ramos atamancados, em que as espigas são praganas, apanhadas nos baldios que bordejam os grandes centros.
O resto, bom, o resto é mais fácil de encontrar.  Sempre há umas oliveiras aqui ou ali, meio adormecidas e tristes, fora do "seu" olival ... e flores ...
Desde as papoilas e macelas, a todas as flores selvagens e coloridas, a Natureza não regateia generosamente oferecê-las, em qualquer canto, mesmo agreste.

Ainda que o silêncio dos espaços não impere, ainda que o ar seja poluído, ainda que o chilreio das aves  não se faça ouvir por todo o ruído envolvente ...
Ainda que não haja cegonhas encarrapitadas nos postes de alta-tensão  ...
Ainda  que eu já não seja a menina das calças "à pirata", vermelhas ... e também já não tenha tranças ...

... ainda  que eu já tenha "descoberto" o que a Vida é ... continuará a existir a "Quinta-feira da espiga" !!!...


Anamar


EM JEITO INFORMATIVO :

Consultei este artigo que infra-cito, a propósito, e que achei muito interessante.


  • O Dia da Espiga
     ( Informação recolhida junto do Município de Évora - Núcleo da Cultura )
Coincidente com a Quinta-feira da Ascensão


O Dia da Espiga

O Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-feira da Ascensão, é uma data móvel que segue o calendário litúrgico cristão.
Mas, se actualmente poucas são as pessoas que ainda vão ao campo nessa quinta-feira, abandonando as suas obrigações, para apanhar a espiga, ou que se deslocam às igrejas para participar nos preceitos religiosos próprios da data, tempos houve em que, de norte a sul do país, esta foi uma data faustosa, das mais festivas do ano, repleta de cerimónias sagradas e profanas, que em muitas zonas implicava mesmo a paragem laboral. A antiga expressão “no Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos” deriva dessa tradição.
A origem gaudiosa deste dia é, contudo, muito anterior à era cristã. Este dia é um herdeiro directo de rituais gentios, realizados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais, de intensos cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza.
Para os povos arcaicos, esta data, tal como todos os momentos de transição, era mágica e de sublime importância. Nela se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, e a esperança nas novas colheitas.
A Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, cristianiza depois a data e esta atravessa os tempos com uma dupla acepção: como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, como o nome indica, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias; e como Dia da Espiga, ou Quinta-feira da Espiga, esta traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.
O Dia da Espiga é então o dia em que as pessoas vão ao campo apanhar a espiga, a qual não é apenas um viçoso ramo de várias plantas - cuja composição, número e significado de cada uma, varia de região para região –, guardado durante um ano, mas é também um poderoso e multifacetado amuleto, que é pendurado, por norma, na parede da cozinha ou da sala, para trazer a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Em muitas terras, quando faz trovoada, por exemplo, arde-se à lareira um dos pés do ramo da espiga para afastar a tormenta.
Não obstante as variações locais, de um modo geral, o ramo de espiga é composto por pés de trigo e de outros cereais, como centeio, cevada ou aveia, de oliveira, videira, papoilas, malmequeres ou outras flores campestres. E a simbologia de cada planta, comumente aceite, é a seguinte: o trigo representa o pão; o malmequer o ouro e a prata; a papoila o amor e vida; a oliveira o azeite e a paz; a videira o vinho e a alegria; e o alecrim a saúde e a força.
Além destas associações basilares ao pão e ao azeite, a espiga surge também conotada com o leite, com as proibições do trabalho e ainda com o poder da Hora, isto é, com o período de tempo que decorre entre o meio-dia e a uma hora da tarde, tomando mesmo, nalguns sítios do país a designação de Dia da Hora. Nas localidades em que assim é entendida esta quinta-feira, acredita-se que neste período do dia se manifestam os mais sagrados e encantatórios poderes da data e nas igrejas realiza-se um serviço religioso de Adoração, após o qual toca o sino. Diz a voz popular que nessa hora “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam” . Nalgumas povoações era também do meio-dia à uma que se colhia a espiga.
Noutras regiões ainda, esta data é dedicada ao cerimonial do leite. Na aldeia da Esperança, no concelho de Arronches, este é aliás o “Dia do Leite” e os produtores de queijo ordenham o seu gado e oferecem o leite a quem o quiser. Também em Guimarães, e em muitas freguesias do concelho de Pinhel, o leite ordenhado neste dia é oferecido ao pároco. Em Santa Eulália, no concelho de Elvas, esse leite é dado aos pobres, acreditando-se assim que a sarna não atingirá as cabras.
Nas zonas onde esta data é associada à abstenção laboral, cessam-se muitas actividades como a cozedura do pão ou a realização de negócios. Na Lousada, em Penafiel, não se cose nem se remenda e há quem deixe comida feita de véspera para não ter de cozinhar neste dia.
No que diz respeito ao sul do país, e sobretudo na actualidade, a maioria das tradições do Dia de Espiga resume-se à apanha do ramo da espiga, ao qual, em muitos sítios, se adiciona também uma fatia de pão, para que durante todo o ano não falte este alimento em casa.



Consultei ainda informação, que diz deverem ser em número de cinco, cada uma das espécies presentes no ramo, e outra que afiança que duas espigas de trigo, duas papoilas, dois malmequeres brancos e outros tantos amarelos, e uma haste de oliveira em flor, são a quantidade certa para "não ser demais nem de menos" ...
Há também zonas do país, em que se junta videira ( simbolizando o vinho e a alegria ) e alecrim ou rosmaninho ( simbolizando a saúde e a força ).

Acredita-se que este costume associado à recolha da "Espiga", e que prevalece primordialmente no Centro e Sul do país, teve origem num antigo ritual cristão, que era uma bênção dos primeiros frutos.
No entanto, tendo tanta ligação à Natureza, supõe-se que vem bem mais de trás no tempo, talvez das antigas tradições pagãs, associadas às festas da deusa Flora, que aconteciam por esta altura, e às quais se prendem também as tradições dos Maios e das Maias.

Há zonas de Portugal em que por cada ano, o ramo velho, digamos, é queimado numa fogueira no dia de S. João.

Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

" ENTRE PARÊNTESIS" - uma curta metragem ...



Repentinamente, aqui, nesta  mesa  de café,  tive  umas  saudades  loucas  da  minha  vida,  ou  de  pedaços  da minha  vida ... assim  é  que  é !...
Repentinamente, a minha cabeça viajou lá atrás, percorreu outros tempos, vasculhou outra época, dobrou esquinas, seguiu túneis ... outra vez.

Eu tinha menos anos, tinha uma garra imensa que não é a de hoje, queria acreditar sem acreditar mesmo, que tudo o que então vivia e tinha, era o enredo de uma "never ending story" ...

Comparo ( olhando para trás ), esses anos que percorri, com aquelas nesgas de sol que espreitam por vezes, quando num céu escuro, as nuvens se ajeitam, como que a mostrar-nos um "flashzinho" de esperança, lembrando que nem sempre haverá tempestade.

Costumo dizer que dava anos da minha vida, para tirar anos à minha vida, e adoraria ( como se toda a gente não adorasse também ...),  pôr a engrenagem a trabalhar em marcha-atrás, e o tempo em modo "rewind" !
Quando mergulhados nas coisas, raramente temos o distanciamento necessário, para as analisar e vivenciar com discernimento, com objectividade, desassombro, isenção e sabedoria.
Sempre colocamos a nossa vertente emocional, de permeio  à  racional, o que impede maior lucidez e clarividência, para análises, e entendimento de muitas coisas.
Depois, quando as emoções deixam de estar em campo, quando a distância permite ver de fora para dentro, quando o tempo esfria a cabeça ... normalmente desce uma luz, ou seja ... normalmente "faz-se" luz !

É então que "viajamos" às vezes, é então que revemos a "película", é então que somos transportados na máquina do tempo, e "baixamos" noutra realidade  que  já  foi  nossa, e  voltamos  a  vê-la, com um carinho particular, porque as mágoas e o sofrimento foram diluídos.

Eu, consigo desencavar com tanta nitidez, tudo o que já foi, que como uma verdadeira  "espeleóloga afectiva" , revisito com uma acuidade total, os cheiros, os sons, as imagens, as palavras, o vento ou a brisa, o calor tórrido de sol, ou a sua amenidade, dos dias escaldantes de mar e areia, ou dos dias serenos de picos e planícies ... numa perfeita reprise !...

E não amaldiçoo o que foi, apenas porque foi ...
... bendigo o que vivi, como um privilégio ... apenas porque me foi dado vivê-lo !!!...

Anamar

Terça-feira, 7 de Maio de 2013

" O CHICO "



À noite, chega a "hora das bruxas" ...

Quando as luzes se acendem e as sombras se projectam no chão, e mexem, o Chico fica louco.
E rodopia desvairado, na caça da sombra da sua cauda.  Nem é da própria cauda, como muitos gatos fazem ... é da sombra da mesma, desenhada no chão, que lhe saracoteia aos bigodes, provocando-o, e deixando-o confuso.
É essa, e todas as outras sombras que mexem !...
O Chico não aprecia bolinhas, ratinhos, e outros brinquedos demasiado vulgares.  O Chico, gosta mesmo é do domínio das sombras, que fazem e desfazem fantasminhas, no mármore do pavimento ... E que por não serem figuras fixas, lhe dão a adrenalina do que é e deixa de ser, no momento seguinte ... lhe dão a emoção do visível e do escondido, numa fracção de segundos ...
Isto, para um felídeo, é um desafio provocador à caça, por emboscada, quase sempre!

O Jonas olha para ele, com um ar surpreso e de comiseração, como quem diz : " Olha-me ... olha-me o marmanjo ( porque o Chico faz dois do Jonas, em tamanho ) ... Este gajo, passa-se "!...

Mas o Chico está na dele, e não liga a "mal vestidos" ...

Chegou a minha casa, envolvido num invejável casaco de pêlo negro e luzidio, com reflexos acobreados, quando o sol lhe dá.
É uma panterinha, em tamanho XS.
De pantera, só o aspecto, porque a doçura do Chico, não tem medida.
Habituada ao "bom feitio" do Óscar, que lembro com nitidez ainda, e do qual guardo gratas e indeléveis  "recordações" tactuadas nas pernas, pasmo, por neste momento ter dois doces felinos, a viver comigo !

O Chico já me chegou com cédula pessoal e tudo, que é como quem diz, com o devido registo de baptismo.
Ora bem ... para quê então, baralhar o neurónio de serviço do bicho, trocando-lhe o nome ??!!
Não carecia !
E Chico era, Chico ficou !
O veterinário acrescentou-lhe o "apelido", quando o viu, na primeira vez.  E o Chico, passou mais completamente, a chamar-se de "Chico Escuro", que aliás, tem tudo a ver ...

Tenho portanto, um gatalhão preto, que persegue as sombras, de uma forma um pouco endemoninhada.
E acresce que chegou, no passado dia 13 !!!
Com este cúmulo de coincidências interessantes, o Chico só pode ter entrado, finalmente, para ser portador de sorte, aqui para casa ... que bem precisa é !!!

Gosto de todos os animais.
Dos chamados "de estimação", já tive um pouco de tudo.
Começando com peixes de água fria, peixes de água quente, tartarugas, hamsters, canários e periquitos, até gatos e cães, hierarquicamente subindo na escala inteligente .
O meu voto vai, de facto, para os felinos.
Talvez porque eles sejam um pouco parecidos comigo, ou eu com eles, na forma de estar na vida.
Os felídeos são animais com uma independência invejável, que é coisa de sobrevivência mesmo.
São inteligentes, são curiosos, não se acobardam, são desafiadores, nunca subservientes ...
Mas sabem dar e partilhar afecto.  Claro que, quando querem, não, quando lho pedem !
Dispensam-no sem regateio, a quem elegem.  E uma vez eleito alguém, no seu coração, é amor p'ra todo o sempre !

"O gato escolhe o dono" ... sempre se ouviu dizer.  E o dono deixa-se escolher pelo gato, numa partilha inquestionável.
O gato, ao seu jeito, protege o dono.  Perante estranhos, assume comportamentos que indiciam a espécie de gente, que temos à frente.
Têm códigos de comunicação inteligíveis, para quem a  eles esteja atento.
E depois, para quem acredita, no domínio do oculto, possuem  mesmo, parece, uma capacidade de comunicação, com entidades que escapam à percepção dos humanos .
Dizem, que quando o gato parece olhar o vazio, ou fixa um determinado ponto  no espaço, onde aparentemente nada existe, essa inexistência, é isso mesmo ... "aparente", simplesmente ...

Bom, o meu Chico acaba portanto de ser socialmente apresentado.

E eu, que até aqui, tinha o fetiche inexplicado de possuir ainda na minha vida, um gato preto  ( tendo entretanto estabelecido uma cumplicidade já, com o meu "Farrusco do fiambre" dos terraços  das  traseiras - como já muito contei ), concretizei assim, o meu desiderato.
Tenho "à mão de semear", "ao pé de semear", e "ao cólo de semear", um Chico Escuro que faz as minhas delícias, e  que é um porreiraço de companhia !!!...

 Anamar

Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

" UMA ESPÉCIE DE LOUCURA "...



Passaram Verões, Invernos e Primaveras.
Passaram sonhos, esperanças, convicções.
Vieram sóis, e depois luas e mais luas ... E estrelas ... todas as noites, estrelas ...
Veio o céu escuro e os dias de luz, gloriosos ...

E o mar, esse, não veio, porque esse vem e vai.  Nunca fica.
Tal como o vento ...
Esse, só vai.  Só passa, e sempre me desalinha os cabelos.

Os sorrisos chegaram há muito tempo, e fugiram-me do rosto quando te perdi.
Ainda fui atrás, até àquela esquina. 
Mas  eles  eram  mais  ágeis,  e  foram.  Nem  se  voltaram ... para  sorrir ...
Para quê, se eles já eram sorrisos apagados ?!...

A vida ...  Essa, também foi com eles.
Esta coisa agora, que me levanta e me deita todos os dias, incessantemente, não é bem vida ...
É uma escorrência de tempo, simplesmente.
É um tempo que escorre ao contrário dos caminhos, que sempre têm princípio e fim.  O meu tempo, é um tempo de infinito, e sem norte ou rumo.
Nem eu sei para onde ele vai, sabendo embora donde ele vem ...

Não te alcanço por mais que porfie.  Não tenho passada para te agarrar.
E também já não te avisto, porque teimas em penetrar o nevoeiro.
E  o  nevoeiro  é  aquilo  que  nunca  conseguimos  agarrar,  entre  as  mãos ...
Bem tento afastar os seus fios gélidos e translúcidos, como cortinas de fumo ...  Em vão !...

Tal e qual como as sombras.  Só existem, enquanto o que as faz, continua lá, de costas p'ra luz.
Eu, continuo de costas p'ra luz.
Sempre estou do lado do crepúsculo, virada ao ocaso.  Por isso me anoitece tão cedo !...

Não entendo por que me deixaste seguir na maré, envolta nas franjas brancas das ondas !!...
Não entendo por que não esperaste que as alfazemas florissem, para me vestires de novo com elas, antes de eu partir !!...
Não entendo por que não bebeste comigo, o último cálice daquele vinho morno, para que também a nossa última gargalhada, se nos soltasse do peito, a brincar de felicidade !!...
Não entendo por que me cantaste canções de ninar, enquanto eu repousava a cabeça no teu cólo, e descia as  pálpebras,  mansamente,  julgando  que  o  Mundo  estava  na  minha  mão ... se  era  tudo  mentira !!...
Não entendo por que deixaste que eu acreditasse outra vez, que tinha tranças e saias de roda, e atasse na garganta um nó, com o espanto e a pureza de um amor virgem !!...

E  passaram  Verões,  Invernos  e  Primaveras,  e  a  estrada  percorrida  era  longa ... e  a  estrada  a percorrer,  curta ...
E o cansaço que eu carregava nas costas, era imenso ...
E a cerração que se abatia sobre mim, escurecia o caminho ...
E os olhos cegaram, e o coração parou ...
Nas minhas mãos, o bouquet das últimas rosas, dos últimos dias ...

... e uma curva no limite do horizonte, que não me desvenda, o que depois dela virá ...

Anamar

Domingo, 28 de Abril de 2013

" RELENDO ... "



Reler  Manuel  da  Fonseca  levou-me  Alentejo  fora,  até  àquele  casarão.
Aquele casarão que ficava no largo principal da vila, local de passagem dos veraneantes que quisessem seguir até Vila Viçosa, Alandroal, ou  simplesmente até ao alto da Serra, de seu nome "d'Ossa", tão fresca quanto a água nos cântaros de barro, onde se mantinha, tapada com um testo de madeira, ou um simples pires de loiça, quase sempre já "gatado" ...

O casarão era a casa dos meus avós, com paredes de meio metro de espessura, com tectos altos, chão  de tijoleira de barro, e janelas com portadas de madeira por dentro, mantendo a semi-obscuridade, garante da frescura, na canícula dos Verões alentejanos.
As janelas e as portas eram guarnecidas pelo azul-cobalto, das molduras típicas.
Havia todo um terreiro lateral à habitação, o quintal, que abria para o Largo, através de um portão grande, zincado, pintado a vermelho escuro.
Com chão de terra batida, acomodava, quando parados, os carros de muares dos hóspedes.
Isto, porque a casa dos meus avós era uma estalagem, aberta a hóspedes, que normalmente se faziam transportar à época, em carros puxados a "bestas".
Estas eram desatreladas, os carros ficavam adormecidos, no "descarregador", inclinados, com os varais pousados no chão ...
Faziam por isso, as minhas delícias, e dos meus primos, já que neles seguia, em viagens imaginárias, aos tirantes de mulas e burricos, por estradas inventadas, acomodada nos assentos do cocheiro, revestidos quase sempre, a pele, ou com mantas de Reguengos.

No quintal havia um poço, com rochas no fundo, onde as avencas cresciam, e onde o meu avô mantinha os pirolitos fresquinhos, dentro de um cesto, que fazia subir e descer à hora do almoço.
A água do poço, tirada com o caldeiro, dava de beber aos animais, que na cocheira, a "Quadra", como se chamava, repousavam da viagem, e onde nas manjedouras, a palha puxada do palheiro com a forquilha, lhes matava a fome.

O palheiro ... Lembro o palheiro de brincadeiras intermináveis, de saltos e cambalhotas.
Lembro do carregar das gorpelhas de palha, "torres" douradas enredadas, nos carros que as transportavam.
Lembro que a palha descia pela "manga", e era espalhada pelas manjedouras, frente à cabeça das "bestas".
As galinhas e os patos, que ciscavam soltos, colocavam os ovos "a salvo", no calor da palha.
E por isso, a criançada, em gozo de férias, tinha por incumbência recolhê-los, na cestinha que a avó nos enfiava no braço.

No palheiro, o meu avô, quando estava de "boa catadura", deixava pernoitar gratuitamente os malteses, que perambulavam pelas estradas, como pardais à solta, sem eira nem beira.
Figuras errantes, sem chão ou grilhetas que os prendessem a nada nem a ninguém, os malteses, na minha cabeça de criança, eram a perfeita imagem de liberdade, e só me lembravam as borboletas que volteiam de corola em corola.
A "Quadra" acoitava-os, e era vulgar, lá pela meia-noite, o meu avô abalar-se até eles, para verificar se não haveria "beatas" acesas, que lhe pusessem fogo ao palheiro, já que era o vinho que quase sempre os aquecia por dentro, e lhes apagava os desgostos das mentes ...

O largo da vila era de terra batida.
Dividia-se ao meio pela estrada, por onde à hora do almoço e ao fim do dia, passava a camioneta  "da carreira", que vinha de Évora, e trazia alguns, poucos passageiros.
Sempre corríamos em bando, a acenar-lhe !...
A estrada era ladeada por árvores frondosas, de folha perene, cuja sombra era uma bênção no Verão.
Por debaixo delas, no pavimento de terra, fazíamos as três covinhas alinhadas, do jogo do berlinde, com os calcanhares das botas ;  negociávamos os nossos "tesouros" de arco-íris, cautelosamente saídos de um saquinho de pano, exibíamos orgulhosamente o nosso "abafador" invencível, brincávamos de roda, à Cabra-Cega, à Linda-Falua, às Estátuas ... e claro, ao "agarra", que terminava quase sempre, com joelhos esfolados e sangrantes ...

E depois havia a vila, e depois havia o campo ...
O campo de horizontes perdidos, de searas que resmalhavam no roçar das espigas maduras.
Havia o pintalgado do vermelho das papoilas, do branco, do amarelo e do roxo, que são as cores das flores do Alentejo !

E havia as gentes ...
As mulheres,  geralmente  de escuro, embiocadas num lenço de cabeça, atrás dos postigos, ou sentadas pela tardinha, em cadeirinhas baixas, de fundos de buínho, junto das portas ... Os homens, pelas soleiras ou nos bancos da praça, junto à fonte, chapéu inclinado adiante, para sombrear os olhos, e queixo apoiado no cajado que lhes ajudava o andar já trôpego dos tempos, pareciam adormecidos no sossego  que pairava.
A "pirisca" do cigarro, era colocada atrás da orelha, para ser aproveitada até ao fim.  Quase sempre eram cigarrinhos enrolados pacientemente na mortalha, e que morriam no canto dos lábios, esquecidos ...

Por vezes, só os zumbidos de algum abelhão, ou de uma varejeira impertinente, quebravam o silêncio parado ali.
As ondas de calor junto ao solo, distinguiam-se no ar, com nitidez, e para amenizar, regava-se a rua, até que a fresca descia.
Só então, as andorinhas que faziam ninho nos beirais da Câmara, desciam em bandos rasantes, num bailado de prima-dona, e chilreios ensurdecedores.

Era Alentejo ... era a minha infância !...
Lembro bem !!!



 Anamar

" TERGIVERSANDO " ...


Postei ontem que tive um "acesso", um "surto", uma insanidade notória, uma maluqueira incontrolável ... e resolvi viajar, resolvi ir embora, voltar costas, tentar esquecer isto por aqui, numa operação de cosmética à minha vida ( pura cosmética , simplesmente ), numa manobra de faz de conta, numa brincadeirinha em que a menina acredita ser uma das princesas da Disney ...
Assim ... absurdamente, infantilmente, com a ingenuidade de quem acredita, não acreditando na verdade, numa  ânsia  absurda  de  que  com  isso,  conseguisse  mesmo  ir  embora  de  mim  própria,  isso  sim !...

Óbvio que eu adoro viajar.  Isso é indiscutível.
Mais do que todos os luxos imagináveis da vida, para mim, uma viagem é, por todas as razões, uma espécie de lavagem à alma, uma espécie de transmutação de mim própria em qualquer outro eu, uma anestesia a toda a insatisfação com que permanentemente vivo.

É um parêntesis nos meus dias ;  é exactamente a brincadeira em que se entra, em que nos travestimos livremente do que quisermos, em que tanto somos heróis como vilões, bonitos como feios, fadas como demónios ... assim ... num passe de mágica !
Como as crianças fazem, nos seus jogos oníricos.

Uma viagem, é para mim efectivamente, um sonho meu enquanto adulta ;  um sonho que inicio sem querer pensar que acaba, que vai terminar, como todos os sonhos ;  sem querer  consciencializar quanto tem de fugaz esse lapso de tempo, em que o  forço , exactamente a parar, a suspender-se ... como se eu fosse mágica e o pudesse manipular.

Mas também, não vale a pena fingir que não percebo que esta viagem, esta mais ainda que muitas outras, é uma fuga minha "para a frente", como "soi dizer-se".
É um fingir que acredito que se curam cancros com pensos rápidos, fingir que a felicidade é um dos prémios do euromilhões que pode sempre calhar, fingir que a salvação nacional só passa pela nossa vontade !

É a ilusão que se vive, quando na tela do cinema se projecta um enredo no qual mergulhamos, porque nos dá paz, nos faz sentir bem, nos aliena ... e nós gostamos ... e nós deixamos !...

Eu sei que é isso tudo, apenas isso tudo, e também sei que vou encontrar à chegada, a mesma que eu sou, e que simplesmente ficou em "marinada" temporal ...
Sei que vou voltar a vestir o casaco incómodo da minha vida, que deixei dependurado no cabide, atrás da porta, ao partir ...

E tudo inalterado,  seguramente !...
Só que já será dia outra vez, a noite terminou, e o sonho sonhado, também !...

Mas pelo menos ... FUI !...

Anamar