segunda-feira, 14 de Abril de 2014

" MIL COISAS ..."




Mil coisas para fazer ...

Ao que parece, Manuel Forjaz tinha mil coisas para fazer, por dia.  Fazia listas exaustivas de actividades, programava a vida, a mil à hora ...

Deixei de "ter coisas para fazer" por dia, e acomodei-me a amodorrar-me no meu canto, a esperar o dia cair lá fora, a olhar o sol  a  descer nas nuvens ou no céu limpo, azul ou róseo, até tombar na linha que determina estar na hora de fechar as cortinas ...
Indiferentizei-me quase, com o passar das horas,  num desperdício injusto e  aterrador.
Insensibilizei-me, numa espécie de espera de vida a correr.
E como um doce requentado, fora de prazo, vou azedando aos poucos.  Como uma maçã bichada, esquecida na cesta, vou apodrecendo aos poucos ...  Como o atleta esgotado que atira a toalha ao tapete, desisto todos os dias um bocadinho ...

E não faz sentido, não é lógico, não é justo !...
Caracoleta que estou, vou morrer de preguiça  de  me mexer, me agilizar, me interessar, lutar, ou pelo menos esbracejar ... acordar ... viver !!!

E vivo no escuro, no lusco-fusco, na penumbra ... no crepúsculo interior.
E vivo de pescadinha de rabo na boca, em círculos concêntricos e herméticos, sobre si mesmos, sem porta de saída ...
Acordo, olho a paisagem lá fora, vejo o filme a passar, película igual todos os dias ... e não saio da plateia ... não abandono a sala ... nunca ...

Faltam-me razões.  Razões de acordar, razões de rir, razões de sonhar, razões de querer e de crer, também.
Faltam-me  forças para serrar as grades que me prendem por detrás dos jardins, que me enjaulam em gaiola de cansaços ...
Faltam-me motivos que justifiquem que eu espere ... a Páscoa, o Verão ... o Inverno outra vez ...
Faltam-me justificações para que me sobressalte, me surpreenda, me agite, me encante, me emocione ... Justificações para que chore ...
Chore ... choro de vontade, choro de avalanche que rebente diques, choro de excesso, choro de exagero ...
Porque sempre fui uma mulher de excessos.  A minha alma não vive regada apenas ... só vive inundada.
Não  vive  morna ... só  vive  a  queimar.  Não  vive  de  mais  ou menos ... necessita de tudo.  Tudo, até esgotar !...

Não consigo viver de dias pardos.  Ou quero dias de escuridão absoluta, com borrasca demolidora por sobre a cabeça ... ou dias em que o sol me cegue os olhos.
Em que os azuis, os verdes e os prateados do mar, me ofusquem .
Dias,  em  que as cores das  flores  desabrochadas, ganhem  às  cores do  arco-íris,  porque ainda mais belas e variadas ...
Dias em que as borboletas acenam liberdade,  em volteios azougados
Dias em que os cheiros, não cheirem só ...  Mas me sufoquem de aromas entorpecentes ...
Dias  de  conversar  com  os  pássaros, dias  de  adormecer  no  batuque  dos  tambores  na  savana  de  África, dias  de  me  largar  louca, com  os  cabelos  empurrados  pela  brisa  da  tarde ...

Eu tenho urgência !

Urgência de ter mil coisas a fazer por dia, mil sonhos a sonhar por noite, mil palavras a dizer a mil ouvidos de escutar, de ter mãos para agarrar, braços para prender,  boca para sugar ... de ter futuro para alcançar, de ter vida para viver ...
Urgência de renascer, urgência de trilho para andar, ar para respirar, praias para naufragar, montanhas para escalar ... todas as cores para pintar ... qualquer coisa ... qualquer coisa ... mil coisas ...

Porque eu tenho urgência mesmo !!!...

Anamar

domingo, 13 de Abril de 2014

" AQUELA DANADINHA !!!... "



A   minha mãe completou  93 anos.

Ela pede a um e um, costuma dizer.  Ultimamente, acho que já só pede sazonalmente.
Se chegar ao Natal, desejaria chegar à Páscoa.  Chegando à  Páscoa, desejaria chegar ao Verão ... e assim vai vivendo.

A sua principal limitação, prende-se com a mobilidade.  É por aqui que começamos quase sempre a claudicar.  A cabeça, tendo em conta a idade, funciona ... e funciona muito bem !
A minha mãe continua praticamente autónoma, continua na posse das suas vontades e decisões.
Aliás, continua como nos bons velhos tempos, como sempre digo, a fazer só o que  quer.

Tem contudo muitos dias tristes, em que chora.  Espantosamente chora, porque, pasme-se, não consegue fazer as coisas de casa, ao ritmo que gostaria.  Não se mexe com a destreza de outrora, não tem a força de preensão necessária, e deixa cair muitos objectos.  Vê muito mal, ouve pior.
A sua conexão com o Mundo que a rodeia, sai portanto truncada, o que a magoa mortalmente.
Esse, o preço da longevidade !!

Depois, também já viu partir quase todos da família, neste momento reduzida.
Além de nós, a família próxima  ( eu, netas e bisnetos ), só existem já, um irmão e uma sobrinha, contudo também já envelhecidos e doentes.
Falam-se telefonicamente com frequência, não mais.

Amigas, a minha mãe nunca teve.  Teve conhecidas, de circunstância.
Aquelas pessoas do dia a dia, encontros de compras, vizinhos de rua ... só !  A sua vida desenhou-se ao sabor da sua maneira de ser.  Sempre viveu para o núcleo familiar, bem reduzido aliás ( eu e o meu pai, quase sempre ausente por razões profissionais ), e para o espaço familiar ( a casa, que era imperioso sempre estar a brilhar em qualquer momento, naqueles acessos de incontrolável mania de limpeza, provindos  das suas raízes alentejanas ).
Vida própria, não me recordo de a minha mãe cultivar. A sua vida girou, em última análise, em torno do bem estar dos seus ...

Convive mal com o avanço dos anos. Aliás, esse assunto é recorrente no seu discurso.
Eu, que considero ter pouco dos seus genes, foi seguramente a ela que fui buscar também, essa insatisfação permanente, essa inevitável questão, com que brigo diariamente ... a insurreição contra o envelhecimento inevitável e progressivo.

Bom,  mas a minha mãe tem uma disciplina de vida, verdadeiramente invejável.   Uma força de vontade tenaz, e um espírito de sacrifício espantoso.  Aquilo que se propõe fazer, faz, custe o que custar !
Não há quem a faça desistir.
É uma velhota danadinha, mais difícil de controlar que o Quico, de seis anos !...

Contudo, noventa e três anos, é quase um século, e num século a Terra roda cem vezes em torno do sol ...
E na Terra, a vida roda milhares de vezes, em cambalhotas imprevisíveis ...
Particularmente, os avanços, as mudanças, as mutações dos estilos e formas de vida nestes cem anos, corresponderam a reviravoltas impensáveis, de cento e oitenta graus.
A  todos os níveis, os  desenvolvimentos havidos, foram de tal envergadura, que parece terem-se vivido cinco dias, por cada um que passou ...
Por isso, a minha mãe sente-se já com os pés numa terra que não é  bem a sua,  como se largada tivesse sido, num lugar que já não entende muito bem, e cujos valores, normas, costumes e linguagem, desconhece ... ou estranha ...
Uma espécie de extra-terrestre,  no planeta onde nasceu ...
E é penoso, cansativo, defraudante, complexo, desconfortável  e ininteligível, viver assim ...
O preço da longevidade !!...

Ainda assim, a velhinha que ela é hoje, é para mim, um enternecedor milagre de vida, um hino à capacidade de resistência ... representa  uma  heróica  sobrevivente  numa carapaça encarquilhadinha, tentando manter-se à tona, em águas excessivamente profundas ... avançando  titubeantemente, aos trancos e barrancos, numa estrada demasiado sinuosa, escura e pedregosa ... com cautelas, teimosias, e  infinitas dificuldades,  mas sem nunca pensar em desistir !!!...

Anamar

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

" NÃO SE DISTRAIAM DA VIDA "



Num intervalo de vinte e quatro horas,  morreram duas individualidades  que  não conheci, com quem  nunca falei, mas que pertenciam ao mediatismo,  que os órgãos de comunicação social confere a alguns.
Coincidentemente, ambas pessoas  relativamente jovens ainda, e ambas, figuras cujo desaparecimento me deixou  a pensar ...

Uma delas,  actor da ficção brasileira, entrou pela minha casa adentro, há  largas décadas, nos tempos em que  Gabriela Cravo e Canela,  enfeitiçou muitos  portugueses,  na novidade que era  então, o formato novelesco em televisão, e em que o Brasil, adocicado em linguagem e gestos, nos cativou quase a todos.

Era o tempo em que se  abreviavam os afazeres,  para que na hora da novela, dela pudéssemos usufruir religiosamente, já  descontraídos e relaxados no sofá, e em que a  história e as personagens se nos colavam à vida.
Ríamos, discutíamos o enredo, e sonhávamos também, com as mirabolantes aventuras e desventuras, tramas e romance, com que Sónia Braga, Nívea Maria, António Fagundes, Ary Fontoura, Paulo Gracindo (o temível cacique local, coronel Ramiro), José Wilker, o galã  Dr.Mundinho ... e tantos outros, , nos brindavam, capítulo após capítulo, numa história já tão familiar, que não quereríamos acabar mais ... de tal forma já fazia parte das nossas histórias também ...

Corriam então os anos setenta ...

O Dr. Mundinho, um galã de voz grave e morna, com todo o seu charme, era um bonitão que envolvia a mulherada da época ...
Pois, José Wilker, a ele exactamente me refiro, deixou-nos  repentinamente e sem  que nada o fizesse prever, aos 66 Anos.
De posse de toda a sua  plena forma física e intelectual, com todas as  suas características pessoais e profissionais de actor de excelência, intocadas, partiu, assim do nada ... apenas porque estava vivo! ...
Não teve tempo de conjecturas, determinações, reflexões, suspeitas  sequer, sobre o que num instante, o surpreenderia.
Não teve tempo de arrumar a vida, arquivar sonhos,  preparar-se para  a  viagem ...


Manuel Forjaz, cinquenta anos, uma personalidade que se tornou conhecida do grande público, pela sua coragem, o seu posicionamento, a sua alegria nunca derrotada, a sua luta estóica e denodada, contra o cancro que o vinha  afectando desde  há cinco anos . .. partiu também.
Segundo ele, morreria de um cancro que nunca o mataria !!! ...

Foi  incapaz de se submeter ao seu  determinismo, e  provocadoramente, nunca abdicou de viver um só dia como quis, com toda a plenitude possível, com toda a aposta de fazer valer a pena ...
Jamais permitiu que a sua vida ficasse ensombrada pelo fantasma da doença, jamais permitiu que esta lhe impusesse timings e limitações, e preocupou-se em aproveitar toda esta energia e positividade que reservava, face à "sentença" ditada, para exercer uma espécie de apostolado junto de todos os doentes cancerosos, como ele.

" Don't  believing", foi o tema musical que escolheu para acompanhar o seu próprio funeral ... " Não se distraiam da vida", o título do livro que publicou,  poucos dias antes do seu passamento.
Um livro de auto-ajuda, com uma abordagem pedagógica e didáctica, destinado a quem necessite de uma verdadeira lição de vida, destinado a todos aqueles, para quem a vida deixa de fazer sentido, perdidas a coragem, a fé e a esperança, face a um diagnóstico terminal.

Com uma abordagem pragmática, realista e sobretudo interventiva, pugnou sempre por agir junto daqueles que se negam a continuar, ao longo dos dias que ainda lhes estão destinados.


Entretanto ... as flores rosa e lilás, na segunda fornada da floração primaveril, começaram a despontar na mata. A  beleza  das glicínias,  nos seus  cachos diáfanos de gotas de chuva, já  espalham  o  seu  aroma  por aí ...
Até  porque  o sol  brilha de novo ...

Afinal, de facto a Vida continua sempre ...  E tantas vezes eu me distraio dela! ...


Anamar

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

" UM DIA ISTO TINHA QUE ACONTECER "

Hoje fala por mim, um homem que admiro, na formação pessoal e literária .

Mia Couto é quase sempre claro, objectivo, assertivo, realista ... e espeta-nos bem o dedo, no meio das feridas, daquelas que transportamos de trás, daquelas com que não estamos a saber conviver, daquelas cuja existência é uma pústula fétida e mal cheirosa, na inabilidade com que conduzimos a gestão do futuro, da geração que temos aí, e sobre a qual, Mia Couto diz TUDO !!!

Realmente, "um dia isto tinha que acontecer " ... e acontece-nos todos os dias, pais que somos duma camada de jovens ainda, muito frequentemente sem norte, muito frequentemente sem couraças, ambições, exigências, com valores mal colocados ... frívolos e vazios !
E arrogantes ! Maioritariamente arrogantes, também !

Li este texto, e como digo, Mia Couto fala por mim.
Pareço ler em voz alta a minha mente, e não haveria sequer uma vírgula, que carecesse ser acrescentada.

Assim sendo, reporto como muito importante, a  sua  divulgação, aqui, neste meu espaço.

De tudo isto, e esgaravatando no mais recôndito de mim mesma, apenas consigo encontrar um só argumento atenuante, da azia e do mau estar que estas reflexões me provocaram :  por um lado, todos sabemos  que os filhos não traziam  "livro de instruções" consigo ... por outro, aos pais, também nenhuma universidade de vida, deu regras claras e correctas de "know-how",  nas formas educativas adequadas !

Assim, cada um tacteou por conta e risco, o melhor que pôde ... cada um "desengomou-se" como soube, errando, julgando muitas vezes acertar ... cada um imbuíu-se do seu melhor saber, tacto e bom senso ... e navegou nessas águas !

A boa intenção é que conta, "quem dá o que tem, a mais não seria obrigado" .... Mas foi curto, foi manifestamente insuficiente ... subverteram-se os métodos correctos, em nome de muitos sentimentos, medos e valores nossos, erráticos !!!
E obviamente, um dia, isto tinha que acontecer !!!...

Estas, as nossas únicas justificações possíveis, porque a penitência, bem amarga e doída ... essa, estamos sem piedade a cumpri-la todos os dias, em todos os dias das nossas vidas !!!!...


Um Dia Isto Tinha Que Acontecer.


(por Mia Couto)

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. 
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. 
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?


Anamar

terça-feira, 1 de Abril de 2014

" FUGAS "



À medida que os anos passam, à medida que já andei mais do que tenho para andar, mais me afasto do ser humano e mais me aproximo da Natureza, e de tudo o que ela nos disponibiliza.

Neste momento da minha vida, há duas coisas que não só aprecio, como valorizo primordialmente, e me são imprescindíveis : por um lado, desde logo, poder usufruir de uma conversa amena, sem pressas, em paz, bem tranquila, com alguém que me interesse vivamente ... por outro, poder mergulhar na quietude que a Natureza pródiga e generosa nos oferece ainda, em pequenos retalhos deste nosso conturbado mundo !

De facto, poder estar junto de alguém com quem sinta afinidade, conversando de tudo e de nada, como uma personagem nua em cena, sem limitações, sem preocupações de retoques ou artificialismos,  quer na presença,  quer na palavra, quer no gesto ...

Poder mergulhar numa partilha de opiniões, de pensamentos, preocupações, ansiedades ... ou alegrias, ou novidades, ou dúvidas, ou projectos ... ou mesmo sonhos ... ( aquelas pequenas / grandes coisas que nos afloram à cabeça, com ou sem relevância, mas que são a nossa vida em cada momento ) ...

Poder sentir gente com coração, calor e cumplicidade ... aquela coisa invisível que passa e nos aquece a alma, nos sustenta o espírito ... numa identidade perfeita, na identidade que se reconhece, quando do outro lado, ao nosso lado, está alguém que amamos, seja o filho, o amigo, o amor ... alguém a quem dizemos tudo, sem receios das nossas fragilidades, porque não nos julga, apenas nos ouve ... e nos aluga o coração gratuitamente ...
em suma ... alguém que fala a nossa língua ...

Poder tudo isto, é sem dúvida, verdadeiro luxo da existência, privilégio da vida, que nos faz sentir ricos e sortudos ...

Por outro lado, confundir-me com a Natureza, miscigenar-me com a assombrosa generosidade com que nos surpreende diariamente, mês após mês, estação após estação, olhá-la simplesmente, ou mergulhar apenas no seu silêncio, é retemperador de forças, é equilibrante para a alma, e é uma alegria sem limites para o nosso ser !...

De facto, cada vez mais me afasto das aglomerações de gente, dos eventos sociais normalmente desinteressantes, entediantes, frívolos e vazios.
Lugares de arrebique e ostentação de "plumagem", de arroubos narcísicos e carícias para os egos enfunados, infelizmente.
Não passam quase nunca, de feiras de vaidades, despojadas de conteúdo de valer a pena.
São quase sempre, verdadeiras perdas de tempo !...

E refugio-me então, em espaços tanto mais interessantes, quanto menos foram sujeitos à intervenção humana. 
Os  locais mais selvagens, mais inóspitos, menos "trabalhados", são sem dúvida os mais gratificantes, preenchedores e enriquecedores.
O homem sempre estraga, sempre adultera alegando alindar, ordenar, disciplinar.
Como se a Natureza carecesse de disciplina, e não tivesse a sua, a própria, a harmonia ditada pelo Artesão que a arquitectou, jamais inigualável ou substituível !...

Por isso, sempre que posso, fujo da babilónia em que o Homem vive,  fujo do labirinto de betão, onde quase sempre o sol tem que pedir licença para entrar, onde o verde é regateado ou plastificado, onde o azul do céu se espreita "à surrelfa" por entre muros, onde os sons têm a agressividade do matraquear humano e do motor das máquinas, onde o ar tem o peso dos escapes poluidores, onde não há pássaros, não há insectos, não há o embalo manso da brisa no arvoredo, não há o aroma adocicado das flores espontâneas e coloridas ... muito menos o cheiro a terra molhada ...

... e procuro um pouco de tudo isto, e submerjo no cerrado da serra, atravesso os córregos da planície, subo ao alto das escarpas, e converso com a claridade esbanjadora do astro-rei, e sorrio com os farrapos brancos da espuma nos rochedos verdes, e sugo e deixo que a aragem se me entranhe até ao mais recôndito de mim mesma, e tactuo-me com as estrelas do firmamento escuro,  onde a lua altiva, impera ...

... para não definhar, entristecer ... morrer ...
Para ter a certeza que, apesar dos pesares, ainda estou viva !!!...

Anamar

quarta-feira, 26 de Março de 2014

" ELES NÃO SABEM NEM SONHAM ... "


Chego a ter pena deles !...

Nasceram com um telemóvel na mão, cresceram rodeados de toda a panóplia de jogos electrónicos, vivem com as consolas de preços proibitivos, com os Ipads, os Iphones, os tablets, os mini-computadores, depois os computadores ...
Tratam por tu, e respiram os mecanismos da informática, usam as aplicações possíveis e impossíveis, desenham e pintam no monitor, fazem vídeos e colocam-nos no ciber-espaço, arquivam e tratam   fotos pessoais, mexem-se nas redes sociais ( vou acreditar que sempre com controle superior ... ) ... nas escolas não funcionam sem calculadoras de elevada sofisticação ... Enfim ...

Os meninos de hoje, vivem na sombra, nos redutos  fechados, que são os seus quartos, onde tudo acontece.
A brincadeira nos larguinhos e nos parques, ou à beira de casa, as corridas de bicicletas, as correrias infindáveis do agarra, ou a emoção das escondidas, não povoam os seus dias !

Os meninos cansam precocemente a vista, de a aplicarem horas a fio, nos pequenos écrans, sujeitos às radiações inerentes.
Respiram pouco oxigénio, porque os tempos  para caminhadas nas matas, a ida aos ninhos, ou os passeios à beira-mar, não fazem  parte dos seus esquemas de vida ...
Vivem encaixotados nas torres das cidades, preservados dos perigos da rua ... entregues aos perigos da Net mal controlada, ao desábito da leitura, que era potenciadora do sonho e da criatividade ... e vivem mergulhados em muita solidão !

Os seus amigos, são quase só os colegas de escola, que têm os mesmos horizontes que eles próprios ...
Não conhecem outras relações, de outros meios, de outras classes sociais.
Não convivem, como na minha infância, com o menino que tinha piolhos, ou com o menino que limpava o ranho à  fralda da camisola, com os meninos descalços, com fundilhos nas calças de suspensórios, ou com os joelhos a espreitarem no buraco dos calções !...
Não convivem com os meninos do bairro dos "ciganitos", lá do fim da vila, que vinham ao largo da minha avó, em busca de brincadeira e amizades fixes ...

Não atiram pedradas uns aos outros, quando a brincadeira azeda... raramente dizem palavrões ( pelo menos, quando há adultos por perto )...
Os meninos têm uma pálida ideia, da adrenalina dos pequenos riscos corridos, em disputas acaloradas de bola, em pequenas rixas, que  ensinam os primeiros limites das hierarquias nos grupos ...
Esfolam pouco os joelhos, partem pouco os braços, e lenham pouco as cabeças ...
Dentro dos limites, sempre foi saudável !...

Os meninos experimentam desde cedo, a solidão de demasiadas horas sozinhas.
Os pais trabalham, chegam tarde, estão cansados, sem paciência ou vontade ... e os meninos, ou se entupiram, entretanto, de actividades extra-curriculares ( para lotarem horários ), ou inventaram, como souberam e puderam, como ocupar as horas, quase sempre demasiado e longamente vazias !
Aos  meninos,  não  sobraram  horas, de  serem  verdadeiramente  meninos,  de  serem  verdadeiramente crianças !...

Os meninos não jogam mais ao pião, à cabra-cega, não saltam mais à corda, não jogam à macaca, e os carrinhos de rolamentos, não sabem nem sonham, o que foram ...
Os meninos não trepam mais às árvores, não caçam borboletas, não fazem  as rodas da "linda-falua", ou o jogo do lencinho ...
Sequer têm abafadores, guardados no fundo dos bolsos rasgados das calças ... Porque já não há berlindes, e as calças de hoje, também já não se usam rasgadas nos bolsos !!!  Nas pernas, sim ... nos bolsos, seria de mau tom !
Os meninos nunca fizeram uma fisga, com um pauzinho talhado a canivete, e não apanharam grilos.
Com um bocadinho de jeito, nem lhes conhecem o canto ...
Não soltam papagaios, depois de horas a fazê-los, com canas, papel de seda, cola e cordéis. 
Por isso, não se deliciam a subir com eles, pelo firmamento, quando o vento da colina, os eleva, como sóis, e com eles transporta a sensação sem limites, da mais absoluta liberdade !!!...
Não saltam ao eixo ... aposto.  E as meninas, nunca jogaram ao ringue ...

Eles não sabem nem sonham, como foi viver então !....
Mas também não sabem nem sonham, o que estão a perder, por não viverem, como então !...

Chego a ter pena deles !!!!...



Anamar

terça-feira, 25 de Março de 2014

COM "PHOTOSHOP" DE VIDA ...



A velhice e as suas inerências, as suas limitações a nível físico e psicológico, a nível mental, ou simplesmente apenas a nível do aspecto que o "invólucro" exterior de cada um, exibe ... são devastadoras !

Eu  sei  que  isto,  é  mais  coisa  de  mulher,  mercê  da  exigência  que  esta  carrega  em  si,  como  símbolo  sexual que sempre ocupou e ocupa, na sociedade machista em que ainda vivemos.
Sei que para os homens, a beleza ou o desvanecer desta, as rugas, a gordura, o embranquecer do cabelo, não incomodam tanto, não angustiam, não são tão determinantes ... Os arquétipos sociais, são bem mais permissivos para eles .
Aceitam pacificamente o seu declínio, como óbvio e natural.
Por  outro  lado,   afecta-os  sim,  a  incapacitância   ou    a  quebra   de  vigor  físico , muscular  ou   sexual ( porque isso coloca em causa o seu perfil de macho dominante ), ou mesmo mental ( porque coloca em causa, o seu protagonismo enquanto líder, na célula social em que se inserem ) ...

Para mim, a velhice é um drama, já aqui o afirmei vezes sem conta.
A perda de todo o tipo de faculdades que me reconhecia há anos atrás, ou actualmente mesmo, incomoda-me, magoa-me, entristece-me, amargura-me ... atormenta-me ... aterroriza-me !
É uma causa perdida, eu sei, porque tudo o que tem a mão do tempo por detrás, é uma balança desequilibrada, é um jogo de cartas viciadas ...
E eu sinto o seu avanço, como uma medusa a estender tentáculos, que nada nem ninguém sustem !

Às vezes penso que esta raiva incontida, que não me leva rigorosamente a nada, obviamente advem de me sentir defraudada em termos de vivências, na minha vida passada.
Acho que, mercê da educação que recebi, da época em que vivi, de uma má administração, também por incapacidade minha, da vida ( certamente por inépcia e falta de inteligência ), não a conduzi de maneira a sentir-me plena,  hoje, tranquila e em paz, volvido o transcurso dos anos.
Creio que pulei etapas, sem as viver plenamente, creio que não esgotei até à exaustão, todas as experiências que me foram devidas, creio que me deixei condicionar excessivamente, por arquétipos sociais, por valores morais, por educação obsoleta e limitativa, contra os quais talvez me devesse ter rebelado, questionado, reagido ... face a condicionalismos que me abafaram, castraram e limitaram o percurso, contra os quais, hoje me insurjo.

Acho que me deixei embolar, desde demasiado cedo, num novelo crescente de exigências, responsabilidades, expectativas condicionantes  ( familiares, sociais, afectivas e outras ),  tendo embora um interior  pouco  submisso,  pouco  subjugável,  intranquilo  e  em  permanente  dialéctica  comigo,  e  com  os outros ...

E pronto, desemboquei num ser controverso, em  conflito  permanente, com um azedume persistente e idiotamente insatisfeito, contra alguma coisa, com um tamanho desajustado ao meu, alguma coisa que olha para o ser insignificante que eu sou, e sorri, num verdadeiro desafio  de forças, de  David contra Golias ...
Eu ... contra o avanço implacável, imparável e frenético dos tempos !!!

Bom, isto tudo, porque ontem assisti na televisão, a um programa sobre mulheres, de várias faixas etárias, que me fez reflectir.
Mulheres que envelhecem, dizia-se, "com classe e inteligência" ...
Mulheres belas em qualquer idade, mulheres em paz, equilibradas, na assunção plena das marcas inerentes à idade que já têm,  aos 47, 57 e 74 anos ...
Mulheres, que "sem truques ou batota", dizia-se também, esbanjavam beleza, irradiavam claridade, ostentavam conforto interior, equilíbrio  e alegria !...

Ex-modelo e empresária de sucesso, as duas primeiras ... A terceira, não sei ...

Não é difícil imaginar-se, o nível sócio-económico das personalidades entrevistadas.
Aliás, a reportagem mostrava-o claramente.  Casa "provocadoramente" sumptuosa ( Cascais / Sintra ... verde e mar ... ),  estatuto bem classe alta, luxo e requinte, a transbordarem  em todo o aparato que rodeava a reportagem ...  Tudo muito "clean", muito "asséptico", muito "adequado" ...

Neste contexto, talvez seja fácil, aceitar-se como uma mais valia, a sabedoria, a maturidade, a ausência de sobressaltos, que  cada  dia  acrescenta  a  estas  vidas ... no  acesso  a  uma  velhice, seguramente  cinco estrelas !...
Talvez seja fácil imaginar-se, que se não há dinheiro a contar, se não há noites mal dormidas com preocupações acrescidas, se não há desemprego por perto, se não há prestações a serem vencidas e sem se ter como, se não há angústias condicionantes sobre o futuro do futuro ( e o futuro pode ser logo, o dia seguinte ... ), talvez não seja difícil imaginar-se, dizia, que estas mulheres, possam de facto olhar o espelho e encararem o dia de amanhã, calmamente, orgulhosamente, sem perturbações, perplexidades e raivas ... mas com uma plenitude gratificante, com um colorido ainda promissor, de cores não empalidecidas... em suma, com expectativas valorizáveis e preenchedoras, dos respectivos egos.

"Assim, também eu !... " - diria o outro.  Qual o real mérito ?  Mulheres de sucesso, até na forma pragmática de encararem  a vida ...  a "custo zero" ???!!!...

Só que ... não são seguramente paradigmas de nada, estes exemplos. Não representam, nem se podem rever seguramente, em mulher nenhuma  REAL, neste país real em que vivemos  ...
Não são representantes, nem longinquamente, da mulher comum que nos cruza o caminho ...
Em suma ... de nenhuma mulher à séria, sem "photoshop" de vida !!!...


Anamar