quarta-feira, 7 de setembro de 2016

" SETEMBRO "



Lá longe, ao cair da tarde
uma paz me invade
me pega e me embala ...
e cala
os tormentos da vida ...
Como em despedida,
os silêncios meus
se pintam de sombras,
de cores de doçura,
de sonho e candura,
e sobem aos céus
dizendo um adeus
ao dia que parte ...
no cair da tarde ...

Tempo generoso
de fruta e de pão,
ninho e aconchego,
meu sono e sossego,
fechando o Verão !

É assim Setembro ...
é assim que eu lembro
os dias de então !
Dourados momentos
felizes,  plenos ...
quando a quietude me invadia a alma,
o coração esperançoso sorria,
e a mágoa partia ...

Hoje,                                    
o peito cansado e doído,
na tarde se acalma
ao lembrar o que era ...
Era assim Setembro,
no meu coração,
uma Primavera !...

Anamar

terça-feira, 30 de agosto de 2016

" BEM HAJAM ! "



Atingi as 50000 entradas, aqui no meu blogue, e não posso obviamente ficar indiferente a isso.

Começado há uns anos, meio a brincar, meio a sério, tem mantido até hoje as características que intrinsecamente  sempre o nortearam : é fundamentalmente um espaço intimista, um espaço privilegiado de diálogo comigo mesma, de reflexão ... também de escape.

Nesta vida de individualismo feroz e indiferente, de falta de tempo e disponibilidade para partilhas e encontros, de egoísmo e desumanização, a solidão deixa as pessoas mais e mais confinadas a células anónimas, isoladas e esquecidas.  Ilhas no meio de multidões !
Vive-se, sobretudo na cidade grande, num abandono infinitamente maior ao experimentado nas aldeias mais inóspitas e perdidas.
Porque aí, as comunidades, independentemente da sua dimensão, são gregárias, são familiares, são de dimensão afectiva.

Aqui, vive-se o silêncio, o esquecimento e o abandono.
Aqui, sobrevive-se ...

Por isso, este espaço é também um espaço de afectos. Assim o pressinto e assim o entendo.
Os afectos sem rosto, nome ou rótulo que se expressam por todos quantos, anonimamente o buscam, o lêem, com ele talvez se identifiquem.
Resta-me pois registá-lo, congratular-me e agradecer !

Tenho produzido muito pouco nos últimos tempos.
Parece que estou a desaprender a escrever ...
A vida e eu, há largo tempo, não estamos a falar a mesma linguagem ...  A desesperança e o cansaço instalam-se.
Tempos difíceis estes ...

Reitero assim os meus agradecimentos a todos vocês, aí desse lado, nesse universo anónimo do virtual, vocês que por momentos vão cruzando as vossas vidas com a minha, neste destino que se faz e que se cumpre !

BEM  HAJAM !!!

Anamar

sábado, 20 de agosto de 2016

" AQUELE MENINO "




O Kiko fecha o ciclo agosteiro de aniversários, por cada ano.

Há nove anos que está connosco, e é o terceiro de três irmãos em escadinha de três anos, como já contei muitas vezes.
Chamei-lhe uma vez, um "menino light".  De facto, não encontro outro vocábulo que melhor o defina.
O Kiko acorda a sorrir, vive a sorrir, não há o que o apoquente ou faça mudar de humor.
Conversador permanente, inquisitivo, extrovertido, defensor das suas ideias, tem uma preocupação constante em ser pormenorizadamente claro no que expõe.
Reúne e cerca-se de um fã-clube interminável, de adultos a crianças.
Amigos dos pais, amigos dos irmãos, amigos seus, do colégio, do desporto, de todo o lado ... Ninguém consegue ficar indiferente à simpatia cativante daquela criança !
Desinibido, interessado, participativo, é o produto final da "escola" recebida de dois irmãos mais velhos.

Tudo tem sido simples, na educação do Kiko.
Afinal, é o terceiro filho, e os pais, nestas circunstâncias, já "descomprimiram" das ansiedades e obsessões excessivas, com que normalmente educam os primeiros.
Também, a experiência acumulada com as primeiras crianças, mais alguns anos que já passaram entretanto, um acréscimo de maturidade e sabedoria, normalmente facilitam as coisas, e desanuviam esta nova experiência.
Quem beneficia são, em primeira linha, obviamente os miúdos, mas também os pais e a relação de convivência existente entre todos.

Penso por isso, que de alguma forma, o Kiko é possuidor de um certo "know-how" facilitador, por ter sido criado mais solto, por ser chamado a resolver-se, resolvendo as situações, por ter percebido desde sempre, que a divisão de tarefas, a interajuda, a colaboração participativa de todos e a responsabilidade individual, são a chave da felicidade e de uma vida mais simples, equilibrada e inteligente !...

Este ano, no regresso das minhas férias, tinha o Kiko à minha espera, no aeroporto.
Ele a irmã correram a dependurar-se do meu pescoço ... e de imediato, esqueci o cansaço da viagem !!!

O Kiko trazia debaixo do braço, um jornal desportivo, e resolveu aproveitar o meu regresso a casa, para me actualizar sobre as "últimas" do seu Sporting : as transferências de jogadores importantes do plantel do clube, ora a decorrerem ... Mais me informou, de uma forma exaustiva, das suas preocupações com as inerentes conseqências,  monopolizando a minha atenção para o que reportava como muito importante !!!...
Era quase um homenzinho a falar !!!...

Este é o Kiko ... o puto mais bem disposto que conheço, o menino de sorriso franco e aberto, face a tudo o que o rodeia !

Hoje é o seu dia.
Que seja mais um dia feliz, na senda de todos os que a vida lhe reservar ... é o que daqui, embora longe, lhe desejo e vaticino !

UM  BEIJÃO, meu amor !

Anamar

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

" PARTIDA " - dedicado à Lena ... talvez a minha melhor amiga






"Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir, 
porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende ...
Amigo, a gente sente ! "

                                  Machado de Assis



Olhei p'ra ti, e pensei
que num dia que eu não sei,
tu vais estar à minha beira ...
E "irmãs" que fomos em vida,
nessa hora de partida
vais velar-me a cabeceira ...
Nos caminhos deste mundo,
tanto desgosto profundo
ajudaste a suportar
E tacteando o destino,
como a um eterno peregrino,
deste a mão no caminhar ...

Os amigos que se escolhem
são irmãos de coração...
companheiros de caminhada
círios a iluminar a estrada,
sempre nos erguem do chão !
São esteios que a vida nos dá
São faróis e são abrigos
São ombros e são bordões
São risos e são canções ...
Simplesmente ... são AMIGOS !...

E o dia será igual ...
Terá céu e terá mar ...
as estrelas irão subir,
a lua deita a dormir,
nunca nada irá mudar !...
E a gente ri, ou chora
com a indiferença da hora ...
Não será essa a razão
que a possa deixar mais triste ...
Não sabe sequer que existe
de partida, um coração !

Anamar

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

" A DESCIDA ÀS PROFUNDEZAS "




Os mistérios insondáveis da  memória humana são algo que me assusta  mais e mais, à medida que a vida se desenrola.
É perturbador mergulharmos nela, como um espeleólogo que busca a profundidade, neste caso, da alma.
Surge como um túnel mal iluminado, que se aprofunda e agiganta.  Surge como uma passagem entre pontos de acesso quase inatingíveis.

Se recuarmos no tempo e tentarmos escalpelizar os lugares que buscamos, com o avanço dos anos, uma cortina entretecida em teia opacizada, vai inviabilizando progressivamente, esse desiderato.
Refiro-me a memórias de passados recentes, porque persistem sobretudo apenas, os mecanismos da memória longínqua, explicáveis à luz da ciência.
A medicina sabe claramente, por que as memórias mais recentes se apagam, e de uma forma aparentemente ilógica, as memórias distantes emergem com uma nitidez e clareza que confundem.

A minha mãe caminha para os noventa e seis anos.
Este fim de semana ficámos juntas.  Conversámos longamente.
Tem demências pontuais.  Tem confusionismo, obscuridade no conhecimento e na linguagem, a acentuarem-se em progressão.
Procuro situá-la, pela conversa.  Procuro referenciá-la, buscando pessoas, lugares, acontecimentos significantes, que vivenciou e lhe foram importantes.
Procuro "escavar"  no seu cérebro, momentos, ocasiões, factos, coisas, emoções, afectos ... lugares.
E como um escafandrista, trazê-los à tona da sua memória, tentando envolvê-la nos resquícios dos registos que possam existir.
Tento deitar-lhe laços, bóias, cordões que a reabilitassem, aqui e agora.

A minha mãe fala com uma nitidez e uma clareza impressionantes, sobre realidades da sua infância e juventude.
Projecta-as na actualidade, indistintamente, sem balizas ou impedimentos, sem triagens ou capacidades interpretativas.
Faz um "mix" desconexo e doloroso, que toma como real e actual.  Uma espécie de filme em rewind.
Sem noção de tempo ou espaço.  Sem noção de passado ou presente.

Em contrapartida, as suas experiências recentes, memórias de um passado próximo, estão totalmente deletadas na sua cabeça.

E é dolorosíssimo, destruidor, aterrador mesmo, assistir ao esforço supremo que exercita, para pescar tudo o que lhe ficou num mar de profundidade inalcançável.
É duma violência sem tamanho o seu "esgaravatar" mental, para tentar alcançar de novo o significado de coisas que lhe foram perfeitamente familiares e queridas.
É desesperador assistir à incapacidade de afastar as cortinas tenebrosas que inapelavelmente lhe cerram a memória, e lhe barram o caminho de acesso aos recônditos da mesma !

A minha mãe sempre amou e sempre se rodeou de plantas e flores, muitas delas, por si plantadas.
Tratava-as, acarinhava-as, desvelava-as com um esmero sem tamanho.
Em cada palmo de terra, dispunha uma sardinheira.  Em cada canto cuidava uma buganvília, uma glicínia, um hibisco ...
Nos últimos anos viveu numa casa com jardim, onde podia para felicidade sua, desfrutar de uma qualidade de vida que a preenchia plenamente.
Lá, a minha mãe apenas lembra que foi feliz.  Como um sabor impreciso que fica, de uma iguaria que já engolimos ...
De lá, tem imagens ténues e esbatidas, como manhãs de nevoeiro, que por mais esforço que façamos, nos impedem de divisar mais além ... com definição ...
Apenas isso !
E quando tento que recue e desencave  uma centelha da felicidade que experimentou, quando tento que abra uma pequena fresta que lhe permita espreitar lá atrás ( como uma cortina que pudesse correr, deixando livre o olhar e deixando a memória saltitar ) ... perde os olhos no vácuo, fecha o rosto para lá da distância, afasta-se ... à medida que as lágrimas lhe escorrem ...

"Tenho tanta pena de não me lembrar !" ... diz.

E eu fico perplexa.  Sinto uma revolta sem tamanho face à injustiça da vida.  Sinto um pavor que me tolhe e domina ...
Será que eu também vou perder as minhas memórias ?
Será que eu também vou perder a minha identidade ?...
Sim, porque nós somos as nossas memórias !
Como é, caminhar de olhos vendados ?  Como é, ter que progredir no escuro, sem norte,  bússola,  estrelas ?   Como  é,  estar  largado,  sem  referências,  sem  rumos,  nortes,  sentidos ???!!!!

Tudo isto me consome.  Todas estas interrogações me atormentam.  Todos estes medos, me povoam.

Os pais partem,  E é quando sentimos a proximidade desse desfecho, que concretizamos que nós mesmos estamos caminhando logo ali atrás, tomando simplesmente lugar na calha que avança ... inexoravelmente !!!

Anamar

sábado, 13 de agosto de 2016

" ESTE INESQUECÍVEL MÊS DE AGOSTO "




Foi um Agosto tão quente quanto o que ora se vive.

Lembro que por esta altura, eu já não me mexia, arrastava-me.  Na cama, não me voltava ... rebolava. Tinha um "barrigão" daqueles, que para olhos sabedores, vaticinava a chegada de um rapagão.
Barriga de primeira gravidez, numa altura em que o controlo do peso não parecia ser coisa preocupante.  Comer por dois ... era ainda o lema !

Ecografias não existiam. O sexo da criança haveria tempo de saber-se.
Menina era o que eu queria ... menino, o que as pessoas afiançavam iria ser.
Pelo sim pelo não, roupinhas em defensiva ..
Nada de muitos rosas ou azul-bébé comprometedores.  Uma coisa assim mais para os azuis escuros, vermelhos, amarelo pintainho que eu detestava, ou mesmo verde, o que era pior ainda !...

E Agosto contemplou o meu desejo.  Uma rapariga com quase três quilos e meio, caíu-me no colo !
Uma menina de porcelana, de cachos loiros e olhos verdes. Uma boneca, para os meus vinte e dois anos ...

Muitos anos já passaram entretanto ...
Esta história já contei vezes de mais !  Mas sempre me enterneço ao relembrá-la ...
Agora ela aí está, mãe por três vezes ... duas delas em Agosto !

Somos uma família mínima, hoje em dia.  Sete pessoas apenas, que se ligam estreitamente por laços de sangue ... Três, a aniversariar em Agosto !

O António, o primogénito da escadinha dos três, não foi de modas.  Escolheu o dia do aniversário da própria mãe, para também ele, conhecer este mundo.
Assim, o 13 de Agosto traz-me o "pack" duplo !

Quando o relógio marca   00 : 00 , sempre  telefono. É tradição cultivada .
A mãe diz-me : " Já são muitos, mãe !"...
O António surge-me do outro lado, com a voz totalmente mudada, nos seus quinze anos.
Voz de homem num rapazinho de corpo espigado, quieto, de poucas palavras.  
" Obrigada, avó" ... em escala de graves... ( rsrsrs )
Idade complicada esta !...

Fiquei meio sem jeito.
Onde está o menino que eu adormeci, para quem tocava os discos infantis, o menino também ele loirinho, em fotocópia impressionante da mãe ??!!!
Por onde ficou aquela criança que me povoa a memória e que não consigo já sobrepor a este jovem, que tenho à frente ???!!!

O tempo !...
O tempo vai contando as histórias, vai fazendo as vidas, vai-nos deixando assim, meio perplexos, atontados, gostosamente estupefactos e enternecidos, como se de repente, sem que o tivéssemos percebido, os caminhos se tivessem desenrolado  à nossa frente, embora à nossa revelia ...

Parabéns Cláudia !  Parabéns António !
Prometo ficar mais atenta, para que não me cresças assim, como se eu não desse por isso, e nem sequer tivesse sido convocada para esse milagre !!!
Dia imensamente FELIZ para os dois !

Anamar

domingo, 7 de agosto de 2016

" CONFISSÃO "




Hoje
Preciso de uma festa urgente ...
Eu preciso de um abraço
preciso de um beijo doce
de um macio toque de pele
de repousar num regaço !
Preciso de um ombro forte
de palavras que me aninhem
de ouvidos que me escutem
de calor que me renasça
de braços que me acarinhem ...

Hoje ...
Preciso de alguém que me mate
a dor desta solidão,
preciso quem me transporte
de novo à vida,
e dê norte ...
me aquiete o coração ...
Preciso de quem me ampare
e reerga da canseira,
quem oriente no escuro
o meu caminho sem rumo ...
Quem se deite à minha beira
e me ame
e me proteja ...
Quem dê colo
e quem dê ninho ao meu coração partido
Me fale outra vez de amor,
p'ra que eu volte a acreditar
que a vida tem um sentido !

Hoje ...
Quero quem me traga uma rosa
orvalhada, do jardim ...
quem me adoce este amargor ...
À minha dor dê um fim
e silencie o meu grito,
ao beijar os lábios meus ...
Quero quem deite na alvorada
a cabeça repousada
e comigo suba aos céus
p'ra catar estrelas e luas,
apanhar sóis e cometas
receber a lua cheia
com tímbalos, aulos,  trombetas ...
Quem comigo ouvir o rio
ou a água da nascente,
quem souber olhar o sol,
a tombar pelo poente ...
Quem desça comigo ao mar
a visitar as marés
Quem comigo naufragar
sem sequer o lamentar,
tendo por guia os meus pés ...
Quero quem fale a minha língua ...
( a das aves lá da serra ... )
quem saiba sujar os pés
com a  poeira da terra ...
e ame só por amar
e bendiga o amor meu ...
Eu preciso quem agarre
a criança que há em mim
e me leve a caminhar
nesta estrada sem ter fim ...
Porque

Hoje ...
Estou exausta
estou sem força
estou sem caminho
e sem chão ...
Preciso de um beijo doce,
de me embalar num regaço ...
de um macio toque de pele
que me acalme o coração ...
preciso de uma festa urgente ...

eu preciso de um ABRAÇO !...

Anamar

" O MENINO QUE ( NÃO ) VENDIA COCOS



Fernando é um menino de 15 anos.  O "maior" de cinco irmãos que vivem "lá longe" .

Todo o santo dia caminha para a praia onde se abriga do sol implacável, na sombra dos coqueiros e dos caroceiros que se espalham p'la orla .
A sua banca é uma grade vazia de garrafas, e o seu negócio são os cocos que vai apanhando no coqueiral.
Quando o sol abate um pouco, coloca-se na linha de passeio de quem busca a frescura das águas mansas, na linha da brisa doce que passa, na paz do silêncio da mata e espera ... só espera.

O Fernando quase não fala.  Está por ali, na esperança de vender um ou outro coco, que não vende ... raramente vende.

No primeiro dia que por lá passei, olhou-me e apontou para os cocos.
"Não gosto" ! - respondi.  E tentei continuar a caminhada.
Estendeu-me a mão em jeito esmolar.  "Não tenho dinheiro comigo" ! - voltei a responder.
Então, de uma forma meio imperceptível, pediu-me "comida" ... e apontou para a boca.
Um sorriso tímido aflorou-lhe o rosto.

Senti assim uma espécie de soco no estômago.  De facto, junto de si, dia após dia, percebi que o Fernando apenas tinha  um recipiente com água, e claro, os cocos ... que seriam para vender.
E contudo, ali ao lado, paredes meias com a sua solidão e abandono, um esbanjamento louco, num hotel onde há de tudo, sem tamanho nem medida ...

Comecei a parar, nos meus passeios diários.  Tentei saber um pouco mais daquele menino que tem a idade do António ... Inevitável associar ...
Não sabe ler, nem escrever, nem contar.  O peso do mundo cai-lhe nas costas ...
Passei a levar-lhe um lanche, diariamente.
O Fernando vive de silêncios.
Sorri timidamente, os olhos brilham-lhe quando me avista e repete apenas : "Gratias, gratias" !...

No dia do meu regresso a Portugal fui despedir-me dele. Dei-lhe um beijo, desejei-lhe a felicidade possível na sua vida ... Pensei incentivá-lo a ir para a escola, mas depois pensei quão absurdo seria fazê-lo !  Quase um atrevimento descabido, no contexto da vida de uma criança que vende cocos na praia, como forma de ajudar a família, ou quem sabe, simplesmente sobreviver ...

Pensamos que conhecemos tudo, que sabemos muita coisa, que já pouco nos pode surpreender.
Mas quando somos confrontados com uma realidade de contornos tão duros, violentos e injustos,  uma realidade tão desinserida, felizmente, das nossas vivências diárias de que reclamamos frequentemente, é que percebemos mais conscientemente a real dimensão das clivagens sociais, por este mundo fora, e como elas roubam indiscriminadamente os sonhos, os direitos e a vida até mesmo a um menino ...

O Fernando pouco terá de seu.  Tem contudo uma alma pura e um coração generoso, que eu sei.
Na concha da sua mão guardou meia dúzia de búzios pequeninos que apanhara na franja da beira mar. Fez questão de mos oferecer, como despedida.
Essa, a sua forma de me retribuir o pouco que com ele partilhei, em troca da sua imensa lição de vida !

Anamar