sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

"QUEREM MAIOR CLARIVIDÊNCIA??..."



"Encontrei" um sósia mental...
Eu explico: um sósia mental meu, é alguém que pensa, sente, interpreta as realidades, os sofrimentos, a vida, igualzinho, igualzinho a mim....
E digo "encontrei", porque me veio parar às mãos, um texto seu, que me fez exactamente...parar!
Até a linha um pouco sarcástica e clarividente, de analisar e de exprimir o que nos povoa a alma e nos lança inquietudes no espírito, é muito "colada" à forma como eu  sinto, exponho, entendo.
O sabor agridoce da sua interpretação da vida, até me deixou um pouco mais tranquila...e agora, a dúvida existencial que se me coloca, é se estou mais para ET, como referia no último post, ou se mais para louca, desinserida, "outsider", como um girassol que tivesse nascido vermelho-papoila, num campo "normal" de girassóis amarelos-sol!!...

Como o "meu sósia mental" tinha um nome que não me dizia nada (seguramente ignorância atroz da minha parte), fui indagar na NET e sei agora, tratar-se de um psicanalista, teólogo, filósofo, escritor (tanto em prosa como em poesia), brasileiro, do Estado de Minas Gerais, com 76 anos.
É ele Rubem Alves...um psicanalista heterodoxo como se auto denomina, um "mergulhador" na alma humana, diria eu...

Girassóis amarelos..."normais"...
"Normal"...mas o que verdadeiramente é o normal?

"Toda a pessoa com saúde mental aparente, é um psicopata latente"...

Esta frase de clarividência e desassombro totais, é um desafio à tomada de consciência de uma convicção absoluta generalizada e acomodada, de que o ser humano para se enquadrar, deve posicionar-se nos figurinos e nos arquétipos pré-determinados.

Rubem Alves é a "pedrada no charco", é a "contra-corrente", é a coragem de assumir o diferente, é a força e a frontalidade de dizer "não"...
Tanto haveria para ser dito...Eu fiquei fascinada com a polivalência de uma mente sã e um espírito genuíno!

Não resisti a passar-vos dois textos seus, que dispensam, creio, demais comentários...

"SAÚDE MENTAL"
Fui convidado a fazer uma prelecção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski.
E logo me assustei.
Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? 
Saúde mental, essa condição em que as ideias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.


Pensar é uma coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. 
Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. 
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. 

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interacção de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio".
O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades " espirituais"-símbolos que formam os programas e são gravados nas disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurónios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória.
Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.
Nós também.
Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou.
Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fendas. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele.
Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas. 

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo,é sensível às coisas que o seu software produz.


Pois não é isso que acontece connosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o gira-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. 
Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias: Opte por um software modesto.
Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.
Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram...

Autor: Rubem Alves



"A GENTE É VELHO"
A gente é velho quando, para descer uma escada, segura firme no corrimão. E os olhos olham para baixo para medir o tamanho dos degraus e a posição dos pés.

Quando eu era moço, não era assim.
Não segurava no corrimão e não media degraus e pés. Descia os dois lances de escada do sobrado do meu avô com a mesma fúria com que um pianista toca o prelúdio 16, de Chopin. Ele, pianista, não pensa. Se pensasse, não conseguiria tocar, porque o pensamento não consegue seguir a velocidade das notas. Toca porque seus dedos sabem sem que a cabeça saiba. O pianista se abandona ao saber do corpo.

Assim descia eu as escadas do sobradão do meu avô. Mas no dia em que o pé começou a tropeçar, a cabeça compreendeu que eles, os pés, já não sabiam como sabiam antes. Agora é preciso o corrimão. Depois virão as bengalas, corrimãos portáteis que se leva por onde se vai.

A gente é velho quando, no restaurante, é preciso cuidado ao se levantar. Moço, as pernas sabem medir as distâncias que há debaixo da mesa. Mas, agora, é preciso olhar para medir a distância que há entre o pé da mesa e o bico do sapato. Há sempre o perigo de que o bico do sapato esbarre no pé da mesa e o pé da mesa lhe dê uma rasteira, você se estatelando no chão. 
Quando se é velho, até uma pequena queda pode se transformar em catástrofe. Há sempre o perigo de uma fractura.

A gente é velho quando é objecto de humilhações bondosas. Como aquela que aconteceu comigo 25 anos atrás. O metro estava cheio. Jovem, segurei-me num balaustre. Notei então que uma jovem de uns 25 anos me olhava com um olhar amoroso. Olhei para ela. E houve um momento de suspensão romântica. Minha cabeça e meu coração se alegraram. Até o momento em que ela se levantou com um sorriso e me ofereceu o seu lugar. Foi um gesto de bondade. Com o seu gesto ela me dizia: "O senhor me trás memórias ternas do meu avô..."

A gente é velho quando entra no polibain do chuveiro com passos medrosos e cuidadosos. Há sempre o perigo de um escorregão. Por via das dúvidas, mandei instalar no polibain da minha casa, uma daquelas barras metálicas horizontais que funcionam como corrimão.

A gente é velho quando começa a ter medo dos tapetes. Os tapetes são perigosos de duas maneiras. Há os pequenos tapetes de fundo liso, que escorregam. E há os grandes tapetes que ficam com as pontas levantadas e que fazem ondas. O pé dos velhos movimenta-se no arrasto e tropeça na ponta levantada do tapete ou na armadilha da onda.

A gente é velho quando começa a ter medo dos fotógrafos. Fugir das fotos de perfil porque nelas as barbelas de nelore aparecem. Nelore é um boi branco. Os pastos estão cheios deles, vivos, e as mesas também, sob o disfarce de bifes. E eles têm uma papada balançante, as barbelas, que vai da ponta do queixo (boi tem queixo?) até ao peito. 
Velhice é quando as barbelas de nelore começam a aparecer. Aí vem a humilhação conclusiva. Prontas as fotos, eles nos mostram e dizem: "Como você está bem!"

A gente é velho quando, tendo de subir ao palco para dar uma palestra, tem sempre uma jovem simpática que nos oferece a mão, temendo que a gente se desequilibre e caia. A gente aceita o oferecimento com um sorriso. Nunca se sabe...

A gente é velho quando perde a vergonha e se desnuda, fazendo as confissões que acabei de fazer...
Autor: Rubem Alves


Anamar


quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

"SEREI UM ET??..."

Tenho esta crónica escrita há dias...
Já a li vezes sem conta...Leio-a e enjoo-me. Leio-a e fico com ganas de a pôr directo no lixo. Só me apetece pô-la aqui, porque haverá olhos que me lêem que nunca me viram nem verão, e assim sempre tenho uma espécie de buraco na areia p'ra falar lá p'ra dentro...

Esta coisa dos blogues, da exposição pessoal e autêntica, a gentes que nos conhecem, falam connosco, convivem connosco, tem destas situações: ou não se é genuíno a escrever e mais vale estar quieto, eu acho, ou estamos a escrever, quantas vezes por necessidade, como única forma de extravasar o que pesa quilos em cima de nós...e aí parece que "ouvimos" vozes, que tantas vezes, sem entenderem nada, levianamente tecem juízos de valor, nem sempre certos ou sequer aproximados...
E fica assim aquela sensação desconfortante de estarmos nus no meio da rua...

Bem...lá vai...

Li há dias numa daquelas noticiazinhas da "home-page" no PC, a referência a um estranho medo ou fobia, de Angelina Jolie.
A actriz, catapultada com uma imagem social de mulher a quem facilmente não se atribuiria um medo ou uma inquietação, tal o seu percurso divulgado e acompanhado a par e passo pelos media, afinal padece de facto, de uma estranha e talvez inexplicável fobia.
É teoricamente uma mulher de sucesso pessoal (beneficiada até na beleza física, que lhe foi pródiga), na relação afectiva que conquistou aparentemente de uma forma vitoriosa (embora nestas coisas nunca se saiba muito bem), profissionalmente ( o seu trabalho é disputado e reconhecido sem margem de erro), social e humanamente, desde o seu empenhamento em causas de ordem humanitária, não só favorecendo com a sua presença e ajuda, eventos dessa índole (como embaixadora da boa vontade), como ainda pela adopção indiscriminada de crianças de países desfavorecidos, lado a lado com os seus filhos biológicos.

Pois é...Angelina Jolie não consegue abraçar ou ser abraçada estreitamente por ninguém que não lhe seja bem próximo, e não atina com a razão para esta atitude comportamental que a acompanha de longa data.

Obviamente que à boa maneira destes "círculos", logo o psicoterapeuta Jenn Berman, a pedido ou não, opinou à revista britânica Stylist, que "pessoas que não gostam de abraços, habitualmente cresceram sem os afectos e o aconchego de um lar"...
Sobre isto não me pronuncio, apesar de adorar enfiar-me pelos meandros do ser humano, e de ter uma costela de psicóloga de trazer por casa, tipo detective Colombo, com aquele seu ar "negligé" de "quem não quer nada"...até porque não conheço efectivamente o que está para trás na vida de Angelina, e depois, mesmo que algo me fizesse sentido..."não deve ir o sapateiro além da chinela"...

Bom, é claro que não foi a Angelina, os seus medos ou sucessos, que me fizeram abordar este tema.

O ser humano é o vector resultante de muitos vectores que começam bem lá atrás a produzir os seus efeitos, eu diria que muitos têm mesmo a  sua matriz na ordem genética, e quanto a isso nada há a fazer.
Depois temos toda a súmula objectiva de "informação", códigos bons e maus, espécie de "chips" que vão chegando, sinalizando, gravando...e também quanto a isso, aquilo que ficamos a saber, é o resultado prático consequente disso mesmo, posteriormente...às vezes muito posteriormente...

Eu tive uma infância de filha única, rodeada de afectos, os mais variados, numa família, pelo menos teoricamente estruturada, em que eu sempre constituí o seu centro, e em que em torno de mim gravitava o Mundo...aquele Mundo que me quiseram mostrar, aquele atapetado de relva verde e fofa, malmequeres amarelos, um sol aconchegante sempre por cima, ou uma lua cheia, cúmplice, ali ao meu lado, a dividir comigo segredos de pseudo-mulher...
E esse mundo foi um "aquário" claustrofóbico e enganador, onde só passavam filmes de "happy-ends" em que acreditei, e para os quais fui programada; um aquário habitado por uma vida que não era nada disso, onde eu não tinha asas, não tinha vontades, não tinha quereres, em nome de uma protecção, de um afecto, de um amor sufocante e desmedido, donde nunca me disseram que um dia eu tinha que sair e encontrar-me só, absolutamente só, como uma criança de cinco anos, largada no meio da multidão, numa grande cidade...

Não me disseram que os pedregulhos que eu pisaria, não tinham nada a ver com relva verde, que os escolhos iriam ferir-me os pés, as mágoas dilacerar-me o coração, a incapacidade de ser gente, tornar-me-ia isso mesmo, "não gente", um espécime que se mexe muito mal, no meio de parâmetros que nunca lhe foram ensinados, que se defende muito mal, por excesso ou por defeito, às surpresas do virar de cada esquina; alguém que paga até hoje uma factura excessiva, alguém que não gosta de si, cuja auto-estima não pratica nem estima, que se sente muitas e muitas vezes tremendamente infeliz, desinserida, carregando sempre o peso de um Mundo ignóbil...enfim, um verdadeiro caso patológico...

E assim, sem ter a fobia do abraço da Angelina, tenho ao contrário, um "saco roto de afecto", como alguém sabedor já me disse; tenho uma inépcia e uma ânsia de ser aceite, entendida; lido mal com o fracasso e a rejeição, sofro por a insegurança me dominar, e guardo bem dentro de mim, sem volta a dar, uma raiva e um ódio, porque considero que a vida jamais saldará a tal dívida, e que o máximo que levarei daqui, um dia, será um monte de erros, mágoas, tristezas...e ver-me-ei só, porque ninguém "curte", ou tem pachorra para estar perto de quem só carrega fardos excessivos nas costas, amargo na boca e desilusão na alma...

O facto é que não consigo reverter um milímetro na resultante de tantos vectores "marados", que me reduziram à pessoa que eu sou hoje, sentindo todos os dias a inglória de nem ao menos poder ser compreendida...

Moral desta história de "terror" : uma fulana "chatérrima", uma fulana que se acoita no isolamento, uma fulana  egoísta, que se cansa cada vez mais de si própria....enfim...um ET com carinha de gente,  que perdeu o caminho de volta para o lugar que certamente lhe pertence de direito : o espaço dos "homenzinhos verdes", olhos esbugalhados, dedinho de pisca-pisca....
Lembrei-me agora: conhecem alguma nave que faça o transbordo, só com bilhete de ida, entre a Terra e um lugar melhorzinho para mim???!!!....

Anamar

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

"PARTIR É MORRER UM POUCO..."



Não gosto de fado.
Tirando uma ou outra excepção, nenhum fadista me conseguiu arregimentar para as suas hostes. De Amália a Mísia, Mafalda Arnault , Camané ou Mariza são intépretes que não valorizo, porque fundamentalmente o que não valorizo é a música...

De fado, já temos que chegue;  fado é tristemente uma das nossas imagens de marca, e aquele fatalismo a ele associado, lembra-me uma espécie de condenação que carregamos "sine die" tal como a esperança na chegada de D.Sebastião.
Bem aqui ao lado, dividindo uma fatia bem "piquinininha" de uma meseta que mal dá para um, quanto mais para dois, temos os "nuestros hermanos", que se recusam a ficar lânguida e perdidamente a olhar o mar, sabem lá o que é Fátima, fado... e futebol, agora bem se põem nos bicos dos pés à custa de um CR7, que afinal até foi parido por aqui...

Em adolescente, estudante, tempos de capa e batina, com todo o romantismo das tertúlias académicas coimbrãs, sempre narradas por quem as vivenciava, com o todo o mistério e aura adequados aos anos verdes, ingénuos e saudosos, aderi aos acordes das guitarras do Mondego, como se religiosamente, de sangue e alma,  estivesse lá, a partilhar o espírito, a tradição, a vida boémia do genuíno boémio estudante coimbrão.
E emocionava-me se assistia na noite escura, na escadaria da Sé Velha às serenatas, aos silêncios, à magia nostálgica, que era pertencer àquele todo único e irrepetível que passava pelos rostos apenas incendiados pela chama dos isqueiros que se acendiam.
A lua, num céu escuro, testemunhava a religiosidade daquele respeitoso silêncio, embuçado nas capas negras que uniam corações, esperanças e desígnios...

Cantava ao tempo em Lisboa, num recantinho de Alfama, um fadista  absolutamente particular e único, nos temas e interpretações. António dos Santos, nascido em 1913, tendo morrido em 94, gravou muito pouco, praticou aquilo que por direito se chama o "fado vadio", cantava e acompanhava-se, e fazia do seu espaço, mais um local de convívio, amizade e tertúlia, do que um local comercial.
A sua guitarra tinha uma sonoridade muito próxima da guitarra de Coimbra, e a dolência e nostalgia que imprimia a todas as interpretações, tornou-o único e ímpar através dos tempos...

Lembrei hoje António dos Santos, não sei bem porquê....
Lembrei um dos seus temas mais marcantes para mim...talvez porque o tenha sentido debaixo da pele e sobre ele tenha hoje reflectido ociosamente, com todo o vagar do Mundo, que alguns domingos nos concedem..."partir é morrer um pouco"...

Anamar

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

"OS OLHOS QUE VÊEM AS COISAS..."


Sempre associei bancos de avenidas, alamedas, jardins...a uma palavra : "solidão"...
Olhando estas fotos, de facto elas passam-me isso : abandono, miséria, velhice, dias sem horas, intermináveis, sem objectivos...fim de linha...

Efectivamente na nossa cidade, é o que espelham, na grande generalidade, os bancos e os seus utentes.
Um lar ao ar livre...como alguém me dizia outro dia...

Hoje, no Escudeiro, no primeiro almoço, falando meio a brincar meio a sério com o sr. Alexandre, a propósito de um casal, bem para cima dos oitenta, que lá almoça todos os dias e que custa a ajustar entre si a ementa, o vinho, se é branco, se é tinto, se é fresco, se à temperatura normal...eu referia que o meu pai, que faleceu com noventa anos, tinha como gosto especial, passar longas tardadas nos sofás do Montepio Geral, então (não sei se ainda), situado na Rua do Ouro.
Chegava, acomodava-se confortavelmente, apreciava a circulação de quem ao banco se dirigia, dormitava, acordava...voltava a sentir-se muito integrado e confortável, como quem assiste a um grande espectáculo...

Nunca lhe perguntei, mas aquilo devia dar-lhe um imenso gozo...

E diz-me hoje o sr. Alexandre, quando eu lhe dizia sempre ter conotado os bancos, os mais variados, com "solidão"...sobretudo os dos jardins, no meio da sarabanda das folhas amarelecidas jogadas no chão pelo vento que sopra : "Já pensou o que sentirá um velhote, na tal rampa descendente da vida, sentado, sem pressas ou ânsias de ir para lado nenhum, com uma réstea de sol a inundar-lhe a má circulação das pernas, ao ver passar de cá para lá, uma mulher bonita, uma jovem atraente...uma criança saltitona, vendendo saúde??...
Talvez esteja a tirar um partido de tudo aquilo, que nós nem imaginamos!..."

Fiquei surpresa...nunca tinha pensado daquela forma...
Tinha a minha verdade, aquela que os meus olhos "pintam" ao olhar, e que de absoluto, de facto, nada tem...achei-me tremenda e estupidamente redutora nas análises que provavelmente faço, e pensei que de facto, serão sempre tantas as verdades, quantos os olhos que vêem as coisas...

Anamar

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

"TALVEZ LOUCURA !"





Um dia estúpido de cinzento indefinido, "nem carne nem peixe" como eu costumo dizer.
Dia pesado, cabeça pesada, coração pesado...em suma, estou numa fossa que só visto, numa neura de doer!...

Vesti-me de manga curta, acreditando que punha Verão pintado cá dentro.
Na rua está frio, está um Outono finalmente declarado, já de cara destapada.
Não tenho aulas hoje...isso seria suficiente para me dar uma alma nova. Não...Inventei de ir à escola a pretexto de...nada. Fui e vim, nem meia hora levei...moro perto do liceu.
Procuro não sei o quê...pareço um autómato no meio de todos e de ninguém. Queria ver, falar com gente...mas não estou com paciência para as pessoas.
Pareço o Variações..."só estou bem aonde não estou..."
Depressão...não gosto da palavra, banaliza o que a gente sente...é a doença dos que parece não terem mais que inventar...
Mas eu conheço-a de há muito, de sempre...deito-me com ela, levanto-me com ela...Insatisfeita, doentiamente insatisfeita, inquieta, muito cansada cá por dentro...não por fora...
Cansada de doer, de pesar mesmo...quilos nas costas...

"Falta do que fazer"...diz um amigo meu que não tem tempo para nada disto...tem que sobreviver...
Deve ter razão...seguramente tem razão, não tem tempo para pensar...bom para ele...
Eu??...Fazer o quê??!!...

Vou tomar café daqui a pouco com um amigo, conhecido, aluno de há anos, bastantes anos mesmo.
Na altura tinha-me sido diagnosticado um linfoma. Linfoma, de operação, de quimio, de radioterapia...linfoma de eu deitar contas aos dias e pensar como iria ocupar os que me coubessem ainda...
Ele soube sempre as palavras para me dizer, o sorriso para me dar, aquela força que certos seres têm, que a gente não sabe donde vem, mas jorra lá de dentro e transforma-se em luz.

É... ele teve sempre luz para me iluminar o caminho que parecia muito, muito escuro na altura.
Pois hoje, ele tem um cancro de pulmão, muito adiantado já, os dois pulmões afectados. E aquele homem saudável, super positivo, a ver na vida, que sempre lhe foi madrasta, um manancial de convicções positivas, para quem as não tinha e as não tem, continuando com o mesmo sorriso, as mesmas palavras, a mesma luz.

E eu sem saber o que dizer; totalmente inapta, incapaz, inerte, apagada de luz e de força, porque desacreditada em convicções e esperanças...

No sábado, outro amigo deu-me a mesma notícia em relação a si próprio...E eu, a única coisa que consegui fazer, foi deixar correr as lágrimas pela cara abaixo, de raiva, por injustiça, por ódio...
De resto, a mesma inabilidade...

O que se diz a alguém, em cima de quem, o Mundo acabou de ruir?
Onde se vende o dicionário das palavras certas para essas horas erradas??

Tenho de perguntar urgentemente à Catarina. Ela trabalha nos paleativos, vive com a vida ( a esfumar-se ) e a morte a achegar-se...todos os dias...para todas as pessoas, de todas as idades, fé e convicções.
O que será que ela diz...ou será que não diz...nada...porque eu, só sei fazer isso...dizer...nada!...

O dia com o cinzento das nuvens a adensar-se no céu, está perfeitamente angustiante.
Ontem eu dizia, ao deparar-me com gente que sacudia tapetes, que estendia roupa, que a passava a ferro junto às janelas, que deixava fugir para o exterior o cheiro da cebolada da janta...eu dizia : "Que raio de vida é isto? O que há para contar nestas vidinhas, mais cinzentas que o acastelado do céu neste momento?"...

Um domingo, seguido de uma segunda feira, porta aberta a mais uma semana, semana a demarcar o aproximar do fim de mais um mês, de mais um ano, tudo em papel químico...

Vontade de fugir deste betão que me sufoca, destas caras que enjoo, destes sítios que vomito!
Vontade de cortar com todos os grilhões e amarras, corrente ou algema...e ir por aí, não sei por onde, mas ter direito a conhecer todas as "divisões" deste sítio que habito, deste micro-planeta à dimensão do asteróide do Principezinho!...

Chamem-me infantil...imatura...tonta...parva...utópica...estou-me nas tintas!
Chamem-me "dondoca", inconsequente, a que não cresceu mentalmente ou a que não conseguiu crescer...a super-protegida, a oca ou a vazia...não quero saber!...

Eu devo ser, de facto, tudo isso, mas a verdade é que isto tudo é muito pequeno para ser chamado de VIDA, isto tudo é pouco demais para constituir a história da existência de alguém, isto é um nada perto de um tudo que eu ainda ambicionava viver.

Mas realmente, eu tenho vergonha ao descrever todas estas desconexas ideias e sentires; eu tenho vergonha por parecer achar-me mais que muitos, mais que todos, ao debitar esta sequência de enormidades, eu tenho pudor de me dar ares de privilegiada, a troco de nada, a "rainha da cocada preta" (como dizem os brasileiros), por parecer reconhecer-me direitos idiotas, ter sonhos incoerentes e vontades visionárias...

Podia ser...mas de facto, não é!
Acho mesmo que é loucura, ou tão só, uma incapacidade inultrapassável de me "instalar" por aqui....

Anamar

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

"QUE RAIVA QUE ME DÁ!!!!!!........"

Já ia dormir.
Vi o correio, abri, gravei, reencaminhei, excluí...sei lá! E pensei : "isto já deu o que tinha a dar...perdi a pica por hoje!"
Mas eis senão quando, recebo na mail-box um convite (é assim que se chama), para me registar no Facebook, de que estou careca de ouvir falar, sem sequer perceber muito bem do que se trata.
Lá segui as démarches indicadas pelo meu anfitrião...(tudo com sucesso ao que parece), e cai-me em cima um "chorrilho" de nomes, caras ou não, possíveis ou prováveis "meus amigos" numa cadeia social em árvore, obviamente.

"Vi" lá as minhas filhas, mais um monte de gente conhecida, tudo calado, outros a parabenizarem-me pela adesão ao esquema, mais uns links super esquisitos e complicados...e, uma vez fechada a "janela", com a minha singular esperteza e "inteligência" informática, já percebi que nem mais lá sei ir ter!....

Ele é mails, ele é messenger, ele é facebook, ele é hi5, ele é twitter.......e eu pergunto : "para onde nos leva a loucura de uma sociedade anónima, de faz de conta e desesperadamente só??

Por exemplo, pasmo como é que a minha filha, mãe de três crianças em escadinha de três anos e em que o mais velho tem oito apenas, pode estar, com mais um dia de trabalho louco (imagina-se), pela frente, entre o profissional, o doméstico (pouco...) e o materno (a duzentos por cento...), como é que pode, pergunto, estar a esta hora nesta palermada??!!

Andei por ali, meio barata tonta, encontrei, como disse, caras conhecidas, mas continuei sempre a sentir-me um ET de dedinho luminoso....e perdida, muito perdida, vazia, mas sobretudo muito só.
Ocorreu-me uma frase lida algures e devida não sei a quem e que de premonitória, já passou a absolutamente fiável : " A solidão humana aumentará  na proporção directa do avanço nas formas de comunicação."

Para mim, isto é absolutamente óbvio.
Se tão difícil é já comunicar-se "face to face", se tão complicado é o estabelecimento de laços reais de entendimento e afecto entre as pessoas que se olham, que se falam, que se tocam, que riem e choram juntas....como é que alguém pode pensar que através duma pantalha "opacizada" de uma máquina que só transmite o que nós inventamos lá pôr, se pode gerar amizade, afecto, cumplicidade, amparo, ajuda, até amor se busca nesta droga de "laços humanos" minados e "bichados"??!!

Como é que se pode sentir "gente", quem se basta com o "calor" que não passa de cá para lá ou de lá para cá...ou acredita piamente que são de carne e osso as "entidades plastificadas", etéreas e imaginadas por nossa conta e risco, com as caras, as mãos, os lábios que lhes inventamos à medida das nossas necessidades??!!

Como é que pode dormir feliz, quem, depois de desligar o PC, acredita que não brincou de faz de conta todo o tempo, acredita que o que disse e lhe disseram era exactamente assim, ao contrário de se sentir pobre e desesperadamente vazio, gélido e defraudado...com uma terrífica solidão a povoar-lhe um destino cada vez mais e mais desumano??!!...

Anamar

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

"A MONTANHA SEMPRE IRÁ PARIR UM RATO"





Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro...uma máxima para lá de gasta, que traduz as três realizações consentâneas com a nossa passagem pela Terra.

Acho que não fujo muito a este princípio.
Já fiz não um, mas três filhos, plantar uma árvore...digamos que talvez me tenha ficado por algum arbusto e muitas, muitas plantinhas ornamentais de que gosto...resta-me escrever um livro, portanto...

Interessante como o ser humano tem em si uma ânsia de perenidade, de perpetuação da sua pessoa, de "trabalho feito", de rasto deixado...
Não sei se é narcisismo, não sei se é uma forma encapotada de agarrar o tempo e prendê-lo na lâmpada do Aladino, não sei se é vaidade mesmo, simplesmente, como se dissesse às gerações vindouras: "estive cá, existi, fui gente"...já que o vento que passa não transportará nunca as suas palavras adiante.

Eu gosto de escrever, eu alimento-me da escrita. Vivo dela em comunhão muito, muito estreita. Não a faço por obrigação, não a faço porque ache ou pense que talvez a faça razoavelmente.
Não, faço-a quando as "sinetas" interiores , me tocam, quando as ideias me jorram e me inundam, do nada, quando já me sinto desconfortável se a não consigo fazer.
Por isso acho que a respiro, acho que ela me completa como pessoa, e que a sua falta me amputa na alma...

Escrever, para mim, é reflectir, é comunicar com os outros, também é comunicar só comigo mesma, é sonhar, é transpor o meu próprio ser, sair de mim, transfigurar-me, encarnar personagens...outros "eus" de que se calhar me travisto ainda  que inconscientemente.
Escrever é encher-me até transbordar, de uma plenitude e de uma felicidade que não descrevo, é soltar sem espartilhos quem na verdade sou, no avesso, na ourela...é por-me nua, completamente nua numa praia deserta, onde só o mar e o sol me escutassem...

Às vezes estou seca, nas ideias, nas emoções, na verborreia...
Aí, não coloco uma só letra no papel; noutras, o meu cérebro pulula, torna-se inquieto, fervilha...faz-me saltar da cama a desoras, só porque a boca não sustém mais palavras lá dentro. É como se uma espécie de transfiguração ocorresse e não fosse mais eu, mas alguém dentro de mim que me comanda, me sussurra, me apazigua...e aí, escrevo, escrevo...loucamente escrevo...

Comecei um ensaio autobiográfico, que acredito, dada a "riqueza" incomensurável da minha vida, poderia vir a ser qualquer coisa interessante, ou pelo menos, curiosa...
Escrevo aleatoriamente pequenos apontamentos ou crónicas, aqui por estas "veredas"...com interesse, sem interesse...subjectivo...

Estou bem perto de passar por alterações significativas na minha vida profissional. Penso frequentemente como será o "depois"...
Não tenho maneira de ser para "crochetar", ler livros infantis, ver muita televisão, ou propor-me actividades impostas, só porque não posso ficar parada...
Gosto de me sentir livre, sem demais satisfações a terceiros, gosto de fazer o que me dá na bolha, sem hora nem dia, mesmo que possam conotar-me como um pouco irreverente demais, radical, vivendo num limbo provavelmente menos recomendável para o estatuto, faixa etária, conveniências sociais...gosto de ser um pouco louca mesmo, desafiando desassombrada e sem demais sobressaltos, tudo o que ainda tiver à frente, se calhar excentricamente, desajustadamente...
Atingi um estatuto que me dá algum "conforto" de vida, um estatuto que me permite ser isto tudo e não ter que explicar por que o sou...(que o diga a minha filha mais velha, que arvorada em minha mãe, reclama da "trabalheira" que lhe vou dando...)

E é nessa base, que por vezes penso que talvez chegue aí a oportunidade de, na encruzilhada de vida, escolher o meu caminho alternativo, e esse passaria seguramente pela escrita.
Mas também é nessa base que penso igualmente, que apesar de constatar a parafrenália de autores, editores e obras a sairem todos os dias das "fornadas" sucessivas e parece às vezes, que sem qualquer critério, aquilo que eu escrevo tem o valor que eu lhe dou e não mais.
Não é relevante, é banal, não acrescenta nada, não é notório, não vale a pena...não terá visibilidade...não se justificaria no nosso, ou em qualquer outro cenário literário...

É quando entristeço e desacredito, me acho imatura e tonta, utópica, fora do real...sonhadora...

Sempre ouvi  à minha mãe dizer ao longo da vida, que para se cantar, era preciso saber-se cantar, "ter voz", nascer-se com ela, à séria.
Pois bem, hoje em dia todos cantam, todos são modelos, todos são estrelas, todos são comentadores, jornalistas, opinadores, muitos "parem"  textos com pompa e circunstância, crivados de erros ortográficos e calinadas que levantariam das tumbas, tantos e tantos...e nada é requisito para nada...

Só que a "gaita" de tudo isto, é que o eco das palavras da minha mãe sempre se me impõe, como a sensatez que de onde em onde me falta...e tudo isto bem espremido, bem espremido...faz-me achar sem requisitos, necessários ou suficientes para coisa nenhuma, faz-me achar um "bluff", faz-me achar que comigo, "a montanha  sempre irá parir um rato"...

Anamar