segunda-feira, 6 de março de 2017

" EM JEITO DE BALANÇO ..."




Folheei em retroespectiva as páginas do primeiro volume deste blogue.
Datam de 2007, ano em que de repente, brincando, tacteando, experimentando, dei os primeiros passos neste mundo da blogosfera.
De quando em vez gosto de reler os meus escritos à época, até porque através deles consigo visionar o que eu era, como era a minha realidade, quais os meus anseios, inquietudes, angústias e assomos de felicidade.
Porque eu sou assim, e sempre deixo escorrer através das minhas letras, os meus estados de alma, sem preocupações, maquilhagens, disfarces, máscaras ...
Eu sou de facto assim, e "dispo-me" sem reticências, sem receios de valorações, sem preocupações do socialmente correcto ou incorrecto.

Se de alguma coisa eu sou dona, neste mundo, é das minhas escolhas, decisões, sentires... e livre arbítrio, também ... sem sustos ou pudores.
A idade entretanto vai-me conferindo independência, despreocupação, "estatuto" ... O tal estatuto que eu acredito ser de facto "um posto",  nesta vida.

Já vou em quinze volumes das postagens que aqui deixo.  Passei todas as publicações, comentários e afins, a suporte de papel ( sou da velha guarda, não esqueçam ... e esta coisa da net, da "cloud", "Dropbox", "OneDrive", pouca confiança me dá, dados os "cataclismos" por vezes ocorridos neste mundo virtual ), e com eles elaborei ano após ano, uns livritos que "enfeitam" a minha estante ...

Será herança patrimonial para quem cá ficar e os queira.  Valem o que valem, poderão interessar ou não, aos meus continuadores ... Um dia terão um fim previsível, creio !

Uma das coisas que me chamou a atenção, nesta romagem à que eu era então, foi a hora a que debitava quase sempre, os meus textos. Verifiquei que varava a noite com toda a displicência, que escrevia preferencialmente na calada da madrugada.
Três da manhã, nessa época, era início de serão para mim.  Refiro com frequência que "sono nem vê-lo", e parece ser verdade que a concentração, a paz e o recolhimento eram requisitos acontecidos, potenciais produtores dos meus relatos.
Parece-me também, ser eu então possuidora de um discurso algo esperançoso, interessado, entusiasmado e entusiasmante, frequentemente.  Sinto em mim, olhando hoje o espelho que me reflecte, que aquele estava imbuído de uma postura de crença face ao futuro, de alguma determinação, expectativa doce, de alguma combatividade.
Eu era alguém com garra, convicção, aposta ... vontade !
Eu acho que acreditava mesmo, que a coisa iria adiante, que eu ainda teria muita história p'ra viver e contar ...

Passaram quase dez anos ... Como a tirania do tempo nos confina mais e mais à realidade, e nos corta as asas do sonho !...

Hoje, já constitui um sacrifício ... ou pelo menos uma desaposta, o esticar da noite madrugada fora.
Hoje, o meu discurso remete-me quase sempre, para uma introspecção reflexiva e algo doída, da minha existência.
As minhas palavras parecem ser mais azedas, mais cansadas, menos confiantes e esperançosas. Mais acomodadas, talvez !
Nos meus textos detecta-se, creio, o enrugado de marcas indeléveis e sem remissão, deixadas pelas intempéries da vida, sem perdão ou piedade.
Sinto uma mornidão que me exaspera e desanima.  Sinto falta da loucura, da adrenalina, do riso, da alegria e da "pedalada" que me norteavam então.
Sinto falta daquele valer a pena que insuflava  o meu espírito e velejava no meu coração.
E pergunto-me : pode uma década ser tão carrasca e impiedosa na nossa saúde física e mental ?
Podem os reveses e as desilusões, os sonhos derrubados e incumpridos, deixar tantas marcas, estragos e destroços numa vida ?!...
Podem os anos, confinar-nos a Invernos sem Primaveras que os sucedam ?!...
Podemos deixar que uma desistência instalada nos tome conta, nos avassale e nos adormeça nos anseios legítimos de quem ainda está vivo ???!!!...

Quero horizontes !  Preciso de pôres, seguidos de nasceres de mais sóis e luas  !  Preciso de pintar, outra vez, o céu com estrelas !
Preciso de refrescar a minha capacidade de deslumbre. A minha capacidade de emoção.
Preciso de recolorir o verde da minha esperança !
Preciso ganhar outra vez asas e sabedoria de voo.  Preciso redescobrir as coordenadas de viagem !

Preciso amar outra vez !  Rebentar de paixão !  Rir loucamente e insanamente soltando a criança, a jovem ... a mulher madura que já fui !
Preciso desgrenhar os cabelos no vento, abraçar o azul embalador do mar, conjugar outra vez convictamente, os verbos "querer", "acreditar", "apostar" e ... "VENCER" ...

Meu Deus ... como preciso !!!...

Anamar

quinta-feira, 2 de março de 2017

" OS NINHOS "






"Os ninhos "

Os passarinhos tão engraçados,
Fazem os ninhos com mil cuidados
São para os filhinhos que estão para ter
Que os passarinhos os vão fazer !

Nos bicos trazem coisas pequenas,
e os ninhos fazem de musgo e penas
Depois, lá têm os seus meninos,
Tão pequeninos ao pé da mãe.

Nunca se faça mal a um ninho,
À linda graça de um passarinho !
Que nos lembremos sempre também
Do pai que temos, da nossa mãe !

                               Afonso Lopes Vieira


As andorinhas iniciaram a sua faina no beiral  lá de casa ... contei ontem.
Revimo-las com sorrisos nos rostos e enternecida admiração.  Afinal, auspiciam tempos felizes e promissores aos lares hospedeiros que escolhem.

A minha mãe, com 96 anos à beira de serem cumpridos, tem uma idade mental quase permanente, talvez de uns 5 ou 6.  A demência progressiva que lhe tolda a mente e o raciocínio, transformou aquela mulher decidida, capaz, viva e independente, num simulacro de gente.
Transformou-a numa criança de tenra idade.
Neste momento, a minha mãe adora os patos da lagoa, fala e trata indistintamente os animais com a pieguice e a ingenuidade protectora de uma criança, infantiliza todas as suas posturas e todas as suas conversas.

Já me martirizei demais por tudo isso. Já me angustiei e rebelei demais contra o destino.
Mas como p'ra tudo o que é irremediável, e que ainda por cima se arrasta temporalmente, devemos encontrar estratégias de convivência  por forma  a defendermo-nos psicologicamente, também eu deixei de chorar, de me amarfanhar, de me revoltar, até mesmo de querer entender.

É simplesmente assim, nada se pode fazer além de lhe falar com a máxima doçura, aceitação e paciência.
Os diálogos parecem tirados de um jardim infantil.
Por isso lhe conto vezes sem conta quem é quem, na nossa família tão pequenina.  Por isso lhe repito os nomes de cada um, desde os pais, ao marido, às netas, bisnetos ... ao meu próprio, e lhe reavivo quem ainda vive, quem já partiu e todos os pormenores referentes à sua vida actual e pregressa.
Por isso lhe fiz, a seu pedido, um esquema  com todas as personagens que a atormentam, quando não consegue lembrar ...
E ri, quando diz que "já fez o trabalho de casa" ao ler e reler essa folha ...
E ri, quando me pergunta : "Filha, então tu és o quê, meu ?"... E fica eufórica  quando a esclareço.
"Ah.... agora já sei que és minha filha !  Já não me engano mais !"....

Também se fascinou com a chegada das andorinhas.
Dizia-me hoje que elas haviam voltado porque sabiam que ali iam encontrar as suas casinhas.
Adora ir, na cadeira de rodas, ao terraço ver as sardinheiras em flor ( que a extasiam ), e o avanço dos ninhos em laboriosa construção.

E então do nada, surpreendentemente, com ar de menina levada de bibe e ardósia, começou a declamar-me, sem erro, as primeiras estrofes deste enternecedor poema de Afonso Lopes Vieira, que aprendera na escola, que fazia parte do seu Livro de Leitura e que por momentos a transportou a um passado longínquo e difuso, espantosamente claro, que a deixou tão feliz !

E eu nem sei bem descrever o misto de sentimentos que me tomou ... Estupefacção, ternura, alegria e tristeza ...
Como a mente humana é insondável e como os mecanismos mentais que norteiam o Homem ao longo da sua existência, fogem ao domínio da nossa compreensão e capacidade de entendimento !
É como se houvesse sempre dentro de nós, um eco que persiste e nos coexiste através dos tempos, rumo à Eternidade !

Por momentos,  a minha mãe  voltou a ser menina outra vez !

Anamar

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

" E ASSIM SERÁ ... "




As andorinhas voltaram ...
E se voltaram é porque a Natureza outra vez milagrou.  Se voltaram, é porque a imortalidade do tempo permanece intocada .

Vi-as em volteios determinados na aragem fria que por ora se sente, esperando uma Primavera anunciada com a brevidade do calendário. Rumam aos ninhos que ainda outro dia deixaram, emancipadas que foram, quando, pressurosas e guiadas pelos pais, fugiam do Inverno desconfortante que se aproximava, e norteavam a África, na sua primeira viagem migratória.
Trazem sorte e felicidade aos beirais que escolhem ... diz-se.  Talvez por ser auspiciosa a sua chegada, mostrando que a renovação não cessa, a esperança não morre ...

É sempre um deslumbre e uma emoção, confrontar-me com os mistérios perfeitamente insondáveis e que não se explicam, das leis da sobrevivência natural.
O "código genético" é poderoso e absolutamente imperativo. E quando pensamos que seres infinitamente pequenos e desapetrechados  quando comparados ao ser humano, respondem com uma inquestionável capacidade e uma eficácia espantosa e precisa, ao que a Biologia define para as suas vidas, temos que forçosamente nos sentir mínimos, insignificantes, fascinados !

Olhei-as na afobação da construção de novas "casas" e na reconstrução das já existentes. Olhei-as, na azáfama de projectos decididos, numa alegria de viagens, chilreios, deambulações apressadas, nos golpes de vento da tarde.
Como seriam as histórias que carregam ?  Como serão as lembranças do oceano, do deserto, dos dias e das noites estreladas, das luas e do sol quente e tórrido das terras lá longe ?  Como será esta liberdade de andorinha que vai e que vem, e sempre e só responde à chamada do destino ?

Por aqui, as mimosas começam a engalanar-se do amarelo esperançoso e promissor, simplesmente porque também elas sentem o apelo da continuidade da Vida.  E por cada canto, por cada nesga generosa de verde e terra tudo eclode numa cascata de cores, de cheiros e de sons ...
E assim será, ano após ano nas existências de cada ser. E assim será, numa renovação prometida, até à eternidade dos tempos.

A vida de cada um é a vida de cada um. É a fatia de contemporaneidade que por aqui partilhamos com tudo o que é vivente.  Mas também com tudo o que nos pré-existiu e existirá depois da nossa passagem.
Estamos em trânsito.
Não somos mais que andorinhas arribadoras.  Não passamos de mimosas que floriram, nas suas Primaveras ... ou sopro de brisa fugaz que perpassa pela copa dos pinhais ...
Mas o privilégio de que dispomos pelo facto de ainda continuarmos a cumprir os nossos desígnios por cada dia que nasce e adormece à tardinha, é uma bênção sem tamanho, é um êxtase e um deslumbramento agradecido à Natureza, mãe embaladora, útero generoso, regaço doce e repousante !

Anamar


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

" PARA ALGUÉM QUE AINDA NÃO NASCEU "




( Dedicado à minha neta que virá )

Não sei o teu rosto, no entanto adivinho
que virás com um norte, um rumo e missão
de amparar quem cansado percorre o caminho,
de ajudar a erguer quem se sente no chão ...

E levas em frente a história começada
És uma semente que a vida plantou
Uma árvore de sombra na beira da estrada,
Um sopro de esperança que algum deus soprou ...

És uma criança e já és o universo...
A luz de uma estrela para quem está perdido
A força do amor transportada num verso ...
Não sei o teu rosto e no entanto acredito
que tu vais vir
para as margens unir
em pontes lançadas ...
As estrelas te embalam
no céu escuro se calam,
pelas madrugadas !

E tão pequenina,
menina ladina,
como seiva vivaz
tens o mundo no peito,
qual  amor perfeito,
por favor, traz a paz !...

Anamar

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

" QUERIA ..."



Queria dizer não dizendo,
por preciso não ser mais ...
e que os ais deste lamento
voassem no firmamento
a outros céus e outros mares
Queria chorar não chorando,
por teus ouvidos ouvirem
e sentirem o meu pranto
para lá do universo,
nas galáxias de outro espanto...
Queria ver-te não te vendo,
porque leio a voz do vento
e entendo a canção do mar
que te trazia até mim
nas asas de um querubim,
sem precisar te chamar ...
Queria que o sonho lembrasse
o que há muito já esqueceu,
que o dia se levantasse
e a madrugada guardasse
todo o amor que já foi meu ...

Mas o tempo ... ai o tempo ...
carrasco, dono, verdugo,
um tirano e gozador
Vai levando e vai correndo,
brinca e ri do meu tormento,
indiferente à minha dor !

Anamar

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

" FESTEJANDO ... "




2016 terminou.  2017 abriu um sorriso prometedor e cúmplice...

Sempre assim !
Quando um ano se abeira do fim e já desvendou tudo o que tinha p'ra nos mostrar ... quando não acreditamos mais que algo nos venha ainda a surpreender nesse tempo rançoso que está a expirar e que provavelmente defraudou a expectativa que viemos carregando enquanto a ampulheta ia vasando ... ansiamos que um novo tempo espreite, que novos dias nos recarreguem a esperança, nos alimentem o sonho uma vez mais, nos voltem a dar razão p'ra continuar a viver .

Sempre assim !
Nesta "virada" que ontem se voltou a cumprir,  tenho razões acrescidas para festejar.
Aqui neste meu espaço, que como refiro na sua apresentação, é de intimismo e cumplicidade, é de mim para todos e para ninguém, que existe pela simples paixão da escrita, que carrego desde que me sei gente, atingi os  MIL POSTS partilhados com todos quantos me visitam, me lêem, me comentam.
Todos quantos disponibilizam o seu tempo, o seu carinho, o seu interesse ou mera curiosidade.

A caminhada tem sido longa, ultimamente lenta e sem ânimo  vezes demais, fruto dos tempos que atravesso.
Contudo, continuo a refugiar-me neste canto privilegiado, continuo a assomar-me nesta varanda de afectos, continuo a amparar-me em todos os que anonimamente ( quase sempre sem deixarem outro rasto que não o franquear da "porta" ) por aqui passam ...  e com isso continuo a reerguer-me, a reabilitar-me e a sentir-me viva de novo !

Para todos vós, portanto, também razão e destinatários da minha escrita, o meu OBRIGADA de coração !

Anamar

" CONTO DE NATAL "





Eu tinha um gato e uma gaivota ...  Já todos sabem.

Há para lá de tempo que eles povoam os domínios que o meu olhar alcança, encarrapitada que estou no alto deste sétimo andar.
Neste meu tempo de silêncios, de muros altos e horizontes distantes, neste tempo de muita gente e poucas pessoas ... habituei-me à janela.
Da janela eu sou dona do mundo!  Salto as casas, os telhados, as chaminés e os muros, que não me interessam nada, e voo lá para bem longe, onde as escarpas da serra se divisam, onde as nuvens se passeiam, onde o sol adormece e onde a lua sempre assoma, engalanada de festa.
Monto a cauda dos arco-íris, quando se desenham e participo das "raves" estelares, quando desbundam na agitação feliz dos solstícios.
Tenho a brisa que me afaga o cabelo, tenho o ouro e o vermelho do plátano que em rituais de adormecimento se despe, preparando o sono regenerador, neste Outono já Inverno.
Tenho o som do mar, ora tempestuoso ora doce, no bater e no estreitar dos rochedos com carícias atrevidas ...
Isto, já sem falar na canção dos búzios, que de lá me contam o vaivém das ondas ...
E tenho os cheiros dos musgos e das carumas, dos azevinhos e da humidade sombria que amarinha os troncos, o cheiro das heras e da folhagem tombada que atapeta os caminhos ... que eu não vejo, não escuto e nem cheiro, mas que adivinho, porque os tenho todos guardados na mente e no coração.
E eu sou livre de querer, de inventar ou só de lembrar !

E depois, tenho a minha gaivota que me liga aos céus, e o meu Farrusco preto lá de baixo, que me prende à terra .
E entre este céu e terra vou vivendo, rica de sonhos e de amores.

Só que ...
O meu Farrusco partiu !  Não sei dele faz tempo !
Bem me esgueiro da janela, bem tento variados e possíveis ângulos da vista o poder alcançar ... ingloriamente !
Se chove, esmiúço os recantos do terraço, cantos protectores e de guarida ... em vão !  Se faz sol, esmiúço os muros de espreguiçamento, os parapeitos de sestas ... em vão !
Eu sei que os gatos são aventureiros e independentes.  Nisso, somos bem iguais.  Eu sei que os gatos são irremissivelmente sonhadores, teimosos e livres.  Nisso, somos mais iguais ainda ...
Mas o Farrusco já há muito que é um gato ancião, que eu sei, e a sua provecta idade deveria contê-lo na aventura e no devaneio.  Seria prudente.

Depois, também não é justo que o Farrusco faça isto comigo em plena quadra natalícia ...
Deixar-me com o coração apertado, o olhar perdido e uma orfandade que me atormenta a alma ... não me parece bem, nem coisa adequada  ao coração generoso de gato !...

Não quero acreditar que ele partiu para a Terra do Nunca, sorrateiramente (com a discrição que só eles sabem ter ),  porque nunca vou poder aceitar que ele se cansou do meu terraço, da Terra dos Homens, dos frios Invernos, impiedosos para um gato cujo único tecto é o céu estrelado das noites escuras ... se cansou da barriga vazia e da incerteza dos restos deixados por uma que outra alma caridosa ... se cansou até do amor que cá de cima eu lhe devotava, em segredo ... sem que ele soubesse ...
Porque afinal, nós tínhamos um pacto silencioso de afecto.  Ele era " pertença " minha, há muito !

Hoje, eu vasculhava uma outra vez o terraço do Farrusco ...
Com um  céu escuro e indiferente, que se debulha em água cá para baixo, com o frio gélido do Inverno que resolveu fazer as honras, o desconchavo que nos envolve é total.  O desconforto impera .
As gaivotas, que há pouco deambulavam em voos incertos na aragem, desapareceram em busca de poiso, longe que lhes ficou o mar alteroso.

Desisti de o esperar...

Os gatos são filósofos, sonhadores e poetas ... que eu bem sei.
A esta hora o Farrusco já deve estar na dimensão dos que conversam com a lua, dos que escutam as estrelas e amam a imensidão do Universo !
A esta hora ele, a quem a dimensão do terraço não chegou, voa seguramente na liberdade do vento, trepa os telhados das madrugadas e espreita-me por entre as nesgas das nuvens ... quando elas, de "carneirinhos", esvoaçam lá longe, no limite do meu horizonte ... encarrapitada que estou no alto deste sétimo andar ...

Porque  nós  tínhamos  um  pacto  silencioso  de  afecto ... e  os GATOS  não  nos  faltam  nunca !...

Anamar

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

" E É ASSIM ... "




Mais um ano a findar.
Tempo de balanços sobre a vida, "impostos" pelo clima emocional que sempre nos rodeia nesta altura.
É estranha esta época !
Sem que demos por isso, mesmo os mais resistentes, que tentam distanciar-se de todo este circo de emoções em que mergulhamos, acabam capitulando e querendo ou não ... ( que droga !... ), sossobram e deixam que o contexto existencial os fragilize.

Assim sou eu.
E se o Natal é passado mais ou menos rodeado de luzes, barulho e confusão, rodeado de afectos e euforia da criançada ( já pouco criançada ... ) ... se o Natal me atordoa ou até anestesia, a passagem de um ano a outro, a viragem da página, o encerramento de mais um ciclo temporal é um mix incontrolável de estados de alma !
Assim que a descompressão do Natal se inicia e que entramos em contagem regressiva para as últimas badaladas, uma irracional angústia, talvez incoerente e incompreensível, uma melancolia doída começa a sufocar-me as entranhas, oprime-me o peito e aflora-me lágrimas a olhos desobedientes.
Procuro monitorizar as emoções, procuro racionalizar os pensamentos e arrefecer o coração ...
Quase sempre em vão.
Fico uma imprestável  florzinha de estufa, um galho de árvore indefeso abandonado na intempérie, uma concha rolada na maré ... sem remédio ou guarida ... numa solidão de doer, num abandono de comiseração ...
E um peso que não suporto, uma carga que me verga, uma escuridão de cerração compungida, toma-me conta, tolhe-me, derruba-me ... como dia que se abate, sem pôr de sol que o detenha ...

Inevitavelmente, tudo o que foi me visita.  Inevitavelmente, tudo o que é me angustia.  Inevitavelmente, tudo o que será me assusta.
Um céu turbulento de nuvens encasteladas, ameaçando borrasca, espreita-me.  Os raios de um sol tímido de Inverno, esperneiam no meio dos cinzas enegrecidos. O ar gélido açoita-me o rosto e desconforta-me o coração.
Queria fugir e não tenho para onde ... E não tenho como ...
Queria seguir para o sul, nas asas dos gansos selvagens, que têm rumo e destino.
Queria buscar a terra quente e um ninho manso.
Queria partir lá para onde se ouve a música do Universo, e os tempos são de esperança e de fé ...

Ou, pelo menos, queria dormir.
Dormir com a serenidade dos justos.  Dormir com a paz dos que não esperam amanhãs.  Dormir com a resignação do que me é destinado. Sem ambição ou sonho.  Com a certeza do nada, ansiando o tudo ... talvez  ...
E queria aturdir-me com o ruído insuportável do silêncio que me cerca.
Queria esquecer, esquecendo-me ... se o pudesse !
Queria partir na profundidade do sonho que não acorda ...
E seguir na estrada do tempo, colhendo braçadas das flores simples do caminho ... com auroras boreais no horizonte ... acreditando ser feliz !
Queria pintar os céus com todas as estrelas que vivem dentro de mim ... e brincar com as luas e as orvalhadas destas madrugadas de gelo ...

Queria tudo isto ...
Só não queria pensar na efemeridade da existência humana. No soluço sufocado que intermedeia o nascer e o morrer.  Na incapacidade tantas vezes sentida, frente a maré alterosa que derruba e destroça.  No vazio que nos fica nas mãos, quando a areia se nos escoa por entre os dedos ...

Só não queria pensar que a ampulheta esvaziou uma outra vez ...

Anamar