quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

" O MUNDO DE PERNAS PARA O AR "

 

Já tinha dado o meio dia quando pus os pés no chão.

O dia prestava-se, com um céu totalmente fechado e cinzento de borrasca e chuva ininterrupta e forte a desabar.  Sem ninguém à minha espera, sem nenhum tipo de obrigações a desempenhar em relação a nada em particular, com o silêncio total na casa e no prédio, fui ficando, ficando, naquele registo nem acordada nem a dormir, em que a cama quentinha é um ninho que parece proteger-nos, esconder-nos de tudo o que está para lá destas quatro paredes.

Continuo sem me sentir psicologicamente equilibrada, tendo feito o desmame da medicação que tomava, por achar que tudo dependeria de mim, que eu teria força emocional para andar para a frente, independente de químicos.
Não tomava nada de especial, diga-se.  Um anti-depressivo ao levantar e um ansiolítico ao deitar, não fazem milagres.  Aliás, nada dessa natureza os faz, se por nós o não conseguirmos fazer.
Sou infelizmente veterana de depressões, mais fortes, mais leves ... 
Desde químicos até sessões de psico-terapia, por anos e anos ( enquanto pude economicamente suportar ), de tudo vou tentando, toda uma mentalização, reflexão continuada, meditação em que me encaro e tento encontrar-me comigo mesma faço, numa tentativa de auto-centrar-me e buscar a paz interior que me escapa ...

Desta feita, o abanão foi aos limites, limites a sério, com a doença inesperada, impensada, inimaginada, da minha filha, que, apesar de aparentemente tudo se ter encadeado no bom sentido, me retirou sem remédio, a tranquilidade, o equilíbrio, a confiança e a fé em que a página se tenha virado.
Vivo pisando ovos, sinto um mau estar e um desconforto permanentes, que me envolvem de manhã à noite, motivados pela incerteza, a insegurança com a exigência da espera ... espera que os anos que vão passando não tragam demais sobressaltos e que o caminho aponte no sentido do total controle da ameaça instalada, de recidivas poderem aparecer, derrubam-me e tiram-me as forças.
Por isso refugio-me mais e mais no sono, no silêncio, no isolamento.  Fujo das pessoas, para as quais não reúno o mínimo de paciência, nem para ouvir, nem para falar.
Os temas, na minha faixa etária são quase sempre os mesmos ... temas tristes, doenças, mortes, pois parece que a vida já não nos guarda um quinhão, por pequeno que fosse, de emoção no bom sentido da alegria, da realização, do sonho, dos projectos, de focos ... de metas a alcançar.  
Metas coloridas, estradas atapetadas das flores de Primavera que sempre despontam cheias de força e beleza ... nada !

E por isso, a angústia dos meus dias é tormentosa, retira-me toda a vontade de os viver ...

Também, este mundo está irreconhecível, ou talvez mais irreconhecível do que alguma vez o senti.  Pareço um ET que desceu de outro planeta e por aqui aterrou !
Não percebo a linguagem, não sei ler as condutas, não me entendo com o que me rodeia ...

Desde as atrocidades loucas das guerras, onde tudo é possível e nada importa, em sociedades sem rei nem roque, onde um alucinado presidente de uma das maiores potências mundiais, quer tornar a faixa de Gaza num resort de luxo, onde ele é obviamente a figura central, num desrespeito total e aviltante.  Em que essa "brincadeirinha" sem ter pelo menos pudor, desconsidera os mortos, os sem tecto nem chão, os que têm a vida destruída para todo o sempre ... 
Ou que, do outro lado do planeta  malévola e hipocritamente pilha aleatoriamente a massacrada Ucrânia, um país soberano, destruindo ainda mais o que já já está destruído, matando indiscriminadamente militares e civis, velhos, mulheres, crianças, enquanto ele e o louco do seu amigo a quem nem a inteligência artificial seria capaz de alinhar, se divertem com insofismável e intocável cinismo ... em nome dos milhões de dólares que aferrolham em seu benefício ... onde até a democracia, no país da Liberdade, parece perigar ...

E tudo isto passa a ser normalizado.  Tão normalizado que até o elegem de novo para gerir os destinos de uma nação, de um continente ... do Mundo ...

Estarei a ver bem ou também já tenho o cérebro toldado ?!

Há um ano, aqui na cidade que habito um cidadão que dispenso classificar, "influencer" de profissão, ( seja lá isso o que for ), profissão certamente muito "digna e honrada" das redes sociais ... sinal dos tempos ... um cidadão, dizia eu, de trinta e poucos anos, ao volante do seu BM, com telemóvel no ouvido, em dia de chuva e penso que sobre a noite, atropelou, numa passagem de peões, uma jovem, e fugiu, sem se preocupar com o que deixara feito, e sem prestar o devido socorro e auxílio.
A jovem ficou bastante maltratada, e decorrido um ano ainda não pode trabalhar ...
A polícia não conseguira identificar até hoje o autor da façanha, não fora o autor da mesma, com a mais profunda "inteligência", desfaçatez, ironia e loucura ( diria eu ), ter contado a um amigo, com todos os pormenores, na busca de um protagonismo miserável, num vídeocast nas redes sociais, rindo e gozando com a situação.
"Vi que atropelara uma pessoa, estava no telemóvel e não dei por ela atempadamente, e "oh abre !...  fui-me embora"... E ri, ri muito !!! Atontadamente ri-se ... coitado ...

E nós assistimos a isto, e fica assim ??  Agora, "por segurança" como diz, foi uns tempos para fora, antes que fosse "dentro" ... e antes que lhe limpem o sebo face às ameaças de que está a ser alvo, segundo ele.  Apanhou o aviãozinho e pirou-se ... para onde, para onde?? Para Angola, "passar uns dias de férias" !
Como a inteligência é o seu forte, fez um novo vídeo, já do avião, classe executiva, aponta para a área económica e com o mesmo ar debochado com que narrara o seu feito rodoviário, diz : " Ali é a zona dos reles ..." 
E posta de novo nas redes sociais, Tiktoks, Instagrams, Youtube ... !

Uma pérola, isto tudo !!!
Tudo isto dispensa comentários, claro !!! 

A postura deste fulano obriga-me a compará-lo por exemplo aos tão atacados imigrados no nosso país, que, por exemplo, ao volante dum TVDE, para ganharem uns parcos tostões, começam de madrugada, com chuva, sol, frio ou calor, a "vergarem a coluna", para que economicamente lhes valha minimamente a pena, o dia de trabalho.
Sem condições, quase sempre vivendo nas fímbrias da sociedade, alguns mal falando a nossa língua, chegaram de países distantes, Índia, Paquistão, Sri Lanka, Brasil, etc, tendo posteriormente muitos deles, trazido a família, numa precariedade de vida,  transportando  pessoas,  géneros  alimentares  e outros,  na  perseguição  dum  sonho  e  de  um  direito ... VIVER !
São acusados, perseguidos, ostracizados, maltratados, alguns roubados e agredidos.
Viajo com alguma frequência nestes transportes, e por sorte, ou talvez não, sempre encontrei pessoas com educação, gentis e prestáveis.
O Tiago Grila, nome do energúmeno psicopata, precisava era saber o que custa, na verdade, a vida.  Mas a vida de verdade, não a que ele vive na brincadeirinha !
Nojo é o que sinto por estas personalidades, e um castigo justo é o que espero da nossa justiça !

Entretanto, o Papa Francisco tem estado entre a vida e a morte, e continua reservado o seu prognóstico ainda que apresente algumas melhoras.
Tem 88 anos e uma saúde débil.  Eu não sou católica, mas isso ainda me faz respeitar e admirar mais este Papa, que em tempos socialmente tão difíceis, sempre marcou a sua posição e nunca se demarcou dos conflitos e injustiças mundiais, defendendo e estando sempre ao lado dos mais injuriados desta Terra, das minorias, trabalhando para criar pontes até entre as diferentes religiões.
E nesta altura, historicamente tão complicada para a Humanidade, se a sua voz se calar, isso poderá considerar-se uma injustiça divina !
Defensor dos direitos humanos, os direitos dos imigrantes, os mais desfavorecidos e estropiados pela vida, a defesa do ambiente, sempre se posicionou como alguém presente e foi interventivo, assumindo posições críticas contra a postura dos governos prepotentes e ditadores, como a Rússia, a Venezuela, entre outros, apelando ao bom senso dos dirigentes israelitas no conflito do Médio Oriente, ao governo italiano com Giorgia Meloni a encabeçar uma postura de rejeição face aos migrantes que morrem aos milhares na travessia do Mediterrâneo numa tentativa de chegarem à Europa buscando um lampejo de esperança ... 
O Papa Francisco, agora é que não pode ir embora !!!...

E pronto ... extensíssimo este post!  Nele transparece a minha insatisfação e inaceitação do mundo em que vivemos, no qual já não me sei mexer, no qual quase já não me identifico, e que neste momento é verdadeiramente um mundo de pernas para o ar !...

Anamar

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

" COISAS DOS TEMPOS QUE CORREM ..."

 


A mata já está assim ... É uma profusão de azedas, num manto interminável por todo o lado.
O amarelo luminoso das corolas abertas ao sol ainda fraco, lembra que a Primavera anuncia a sua futura chegada, qualquer dia, um dia destes ...
A passarada entretanto também anda num rodopio lindo de se ver e ouvir.  Os melros de bico amarelo que escassearam nos rigores do Inverno, esvoaçam de ramo em ramo, pousam nos caminhos, trepam aos troncos mais altos das árvores, vivem paredes meias com os periquitos de colar ...
É a vida a manifestar-se através de uma natureza generosa que vai cumprindo o destino ano após ano !

Aqui perto de mim, num terraço ao lado, ao nível de um oitavo andar, um casal de gaivotas prepara-se para nidificar.  Por certo descobriram algum recanto protegido e foram ficando. O mês da postura é Abril, e eu estou imensamente curiosa com o que dali sairá ...
 Eu costumo chamar às gaivotas dos meios urbanos, de mercenárias, pois aparentemente recuam do seu habitat natural, as ravinas e as falésias costeiras, cada vez mais para as cidades, onde parecem encontrar comida fácil.
Li que sendo aves oportunistas, aproveitam-se dos desperdícios que os humanos deixam ao Deus dará, com lixos a céu aberto e não protegidos, para se alimentarem sem grande trabalho de procura.
Estão a começar a tornar-se uma espécie de praga com os consequentes prejuízos inerentes à sua presença excessiva por aqui, e já há municípios que estudam a forma como deverão proceder para fazerem um controle equilibrado desta sua absurda escolha de vida.

Para mim a gaivota sempre se associou emocionalmente à definição de liberdade.  Para mim a gaivota sempre teve e tem uma conotação poética de sonho, independência, fantasia e da tal liberdade que liga distâncias, pessoas, destinos ...
Olho-as e sigo com elas pelos céus fora, invejando-as, viajando nas suas asas esticadas, em bailados preguiçosos na aragem que corre.  E com elas pareço ver o mundo de cima, com elas atravesso borrascas, cumes de serras, até à amplidão do mar, lá longe ... onde o fim não se divisa, e onde as escarpas altaneiras ou a babugem das marés rendilhadas nas areias desertas, guardam os gritos que lançam, e onde ecoam os grasnidos da linguagem que só elas decifram ...

Por isso, tenho pena das gaivotas das cidades.  Parecem peças retiradas de puzzles equilibrados, parecem figuras grotescas desinseridas, cumprindo pena num lugar que não o seu, ocupando de uma forma  bizarra a moldura de um casario incaracterístico, empoleiradas nos lugares mais  inapropriados, onde definitivamente não pertencem ...
E entristeço ao vê-las ... 

Em tempos "tive" uma gaivota, como costumo dizer.  Era atrevida, a sacaninha ... Rasava-me a janela, espreitava-me curiosa piscando os olhos afoita, dançava-me no vento, na brisa preguiçosa de céus cinzentos, bem aqui à minha frente.  E desafiava-me o sonho, espicaçava-me a ilusão, era estafeta dos meus pensamentos ... de cá para longe, onde eu acreditava haver quem os decifrasse ...
Deixou de vir. Tudo acaba nesta vida !...
Hoje tenho o bando disperso , como já contei um destes dias.  Mas um bando, não é uma gaivota ... aquela ... a "minha"... 😒

Tenho uma ternura especial para com as aves.  Acho que é inveja.  Inveja pura e dura, por não ter nascido com asas ...
Em tempos tive viveiros, bem sofisticados de canários e periquitos, construídos à medida, nos tempos maravilhosos da pequenada se deslumbrar com os caminhos da criação ao crescimento das famílias ... Era por uma boa intenção, mas, que grande malvada eu fui !... 
E eu lá percebi que pássaro, não é p'ra viver preso em cativeiro, mesmo que a prisão seja dourada ?!...

Em menina, nos saudosos tempos do Alentejo, na cidade que mais amo, Évora, vivia bem em frente ao Fomento, uma empresa que tinha uma  chaminé de tijolo, altaneira, desafiadora dos céus.  Acho que ainda lá está.
Todos anos, no dealbar dos tempos primaveris o topo da chaminé era habitado por uma família de cegonhas, ano após ano, onde acasalavam, nidificavam e procriavam ... sempre no retorno ao ninho antigo ...
No Inverno rigoroso do Alentejo, os hóspedes partiam em demanda do calor do norte de África, e o ninho esvaziava-se até ao ano seguinte ... E era triste vê-lo vazio, despedir-me das ingratas !...
Não sabíamos era exactamente quando voltariam.   Até que um belo dia, manhã cedo, a  minha  mãe entrava-me  quarto  adentro e  dizia-me :  " Anda, levanta-te, vem ver quem chegou !" 
E era uma epifania !...

Sempre assim ... Depois, cresci ... 😌😌




Anamar

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

" O HOMEM E A OBRA "


Estou a ler um livro muito interessante, uma biografia do Professor Doutor Sobrinho Simões, da autoria de Luís Osório, um jornalista, um comunicador radiofónico, mas sobretudo um cronista de referência, um escritor cuja escrita aprecio particularmente. 

O livro divide-se em capítulos com abordagens distintas sobre a vida desta figura pública, médico conceituado da cidade do Porto, e foi escrito ao longo de largas e demoradas conversas com o Professor.
Sobrinho Simões, filho, neto e bisneto de médicos, com uma irmã e dois filhos igualmente médicos, figura incontornável na área da oncologia, em particular da tiróide, e que aceitou falar de si, do seu percurso, das suas aspirações, dos seus medos, das suas dúvidas e certezas.
Com setenta e oito anos, está obviamente jubilado, foi anatomopatologista, especializado em diagnóstico e investigação em doenças oncológicas, foi catedrático de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina do Porto, fez um pós-doutoramento no Instituto de Cancro da Noruega, em Oslo, entre outros caminhos que perseguiu ao longo da vida, com brilhantismo, genialidade e maestria.
Este livro intitula-se "A última lição de Manuel Sobrinho Simões".

Do que já li, sinto-o um homem muito "gente", com as angústias, as inseguranças, os medos mas também a determinação e a busca incessante de respostas assertivas, de soluções fundamentadas, de rotas sustentadas numa busca interminável de soluções.
A vida, mas também a morte, povoam-lhe o quotidiano. A certeza de que "nunca houve um animal tão eficiente e simultaneamente tão desgraçado quanto o Homem", convive com a sua realidade. "Tem medo de animais e adora plantas porque "não chateiam", não se relaciona com Deus mas é quase crente, tem mais medo do cancro do que de outras doenças ... receia o sofrimento e a solidão ... tem medo de tudo , admite".
Define como sentido para a vida , " genes, ambiente e sorte, mais nada " !...

Fala no elitismo absurdo incentivado, clivando distanciamentos entre médicos e enfermeiros, e da falta de proximidade de médicos formados com notas teoricamente imbatíveis, mas em que a humanização imprescindível e indispensável do toque para com o paciente, é praticamente inexistente, é um "non sense" intolerável e inaceitável, numa sociedade cada vez mais desumanizada e indiferente. 

Fala de tantas coisas que nos passam também pela cabeça...  
É uma personagem intrinsecamente humilde, como sempre o são os grandes Homens.  É um homem de partilha do saber, da criação de pontes, de trabalho de equipa, sempre incentivando os benefícios do trabalho grupal na esfera do conhecimento. Um afrontador do individualismo, da competição no que ela possa ter de mais negativo e um feroz defensor da dialéctica, da partilha de conhecimento, da profundidade analítica na corrida pela solução de um dos maiores monstros em termos de saúde que o ser humano encara, nos tempos actuais : o cancro !!!

Neste momento, embora não tenha a menor formação científica nessa área, embora seja mera espectadora da realidade social vivida na esfera da saúde, tento, como simples aprendiz, perceber como, nos dias de hoje, além de todo o conhecimento e especialização, além de todo o desenvolvimento tecnológico que é uma ferramenta privilegiada ao serviço dos especialistas, além de todas as armas impensáveis de que dispõem, é ... foram e serão indubitavelmente todo o trabalho e dedicação como foco de vida em prol do ser humano, os únicos capazes de forjar os grandes "arquitectos" e os grandes ícones que ficarão para sempre na história da Humanidade !

Anamar