quinta-feira, 5 de março de 2026

" O TEMPO ... SEMPRE O TEMPO ! ..."

 


Morreu António Lobo Antunes.

A sua apresentação é totalmente desnecessária no panorama cultural do país, vezes demais pobre e redutor.
Abriu uma escrita, um sentir, uma forma livre e despretensiosa na análise do então nosso contemporâneo.
Lembro-me de ainda em Angola ter, como muitos da minha geração, começado pela "Memória de Elefante" e com ele ter-me flagrado com uma escrita nova, desassombrada, inquietante.  Uma escrita que surpreende e retém, como quem abre um baú e anseia conhecer-lhe os interiores ...

Lobo Antunes era um disciplinado indisciplinado, um provocador que apenas não retém o politicamente adequado, um sonhador que conta o que tiver que contar, um homem aparentemente desligado, mas profundamente mergulhado e preso pelas raízes do sonho.
Quem o ouve, percebe um ser mascarado de dureza, de indiferença, de convicções.  E no entanto, o seu olhar límpido, denuncia uma particular sensibilidade, uma certitude em relação às coisas, e a simplicidade de quem já pensou sobejamente nelas.
Eu diria que ele já tocou o céu e o inferno, e já sabe claramente donde vai e para onde vai ...

O seu discurso actual, mostra a isenção de quem nada tem que provar a ninguém, mostra a paz de quem já vive descomprometido com a vida e a morte, com Deus e o diabo, com o paraíso e o inferno e com o amor das coisas belas que por cá deixou e que ainda conseguiu ver até ao último suspiro !

Mais um dos grandes partiu e com ele ficámos todos mais pobres ...



Anamar