sexta-feira, 27 de março de 2026

" A SOLIDÃO DOS SILENCIOSOS "




Durante muitos anos, desde que vivo só, mantive o ritual de tomar o pequeno almoço num café que existia perto de minha casa, um verdadeiro ex-libris da minha cidade, dada a longevidade do mesmo.
Era um espaço amplo, chegou a ter mesas de bilhar que já não lembro com clareza, pois a prática do jogo como pretexto para juntar amigos, vem duma época anterior á minha fruição do espaço.
Do meu tempo mesmo, existia a zona de café / pastelaria, com balcão para quem estava de passagem apenas, e mesas como pequenos núcleos individuais, chamemos-lhe assim, para grupos de amigos, uns aqui, outros ali, que a certa altura, como a assiduidade era diária, já se cumprimentavam, miscigenavam, independentemente de os ligar algum interesse comum.
O café era simpático, as pessoas que não se conheciam passavam a sê-lo, a certa altura já se circulava entre mesas, já se falava de um ou outro tema candente, já se perguntava pelos ausentes ... já era quase uma família que sem combinar, se "combinava" estar ali àquela hora, diariamente ...

Eu ia todos os dias. Aprimorava a minha toilette, calçava o meu sapatinho de salto agulha, maquilhava-me, pois era então impensável para mim ir para a rua de qualquer forma.  Eventualmente, se era o caso de estar em meio de leitura, pegava no livro em causa, além do monte de papéis de rascunho que sempre fazia parte do meu "enxoval intelectual", porque o Pigalle ( assim se chamava o café ) era, foi, por muitos e muitos anos, local dos meus escritos, das minhas reflexões, dos meus pensamentos, de preocupações, dúvidas e interrogações inoportunas muitas vezes, para que as partilhasse mesmo com os mais próximos.
Muito lá escrevi, muito lá falei ... muito lá silenciei também ...
Brincavam, dizendo que se me quisessem encontrar, era passar pelo "meu escritório" àquela hora, pois era certeiro que na mesa do cantinho, lá estaria eu ... e quase nunca se enganavam !
Havia quem tivesse a gentileza de me libertar essa mesa, por conhecer o meu particular apreço pela discrição daquela localização, o que, aliás, me deixava um pouco atrapalhada face a esse particular gesto de delicadeza e simpatia !

Chegou 2019 e esse famigerado Fevereiro trouxe-nos a maldição da Covid e com ela toda a revolução social acontecida.  Vieram os isolamentos, imperativos uns, prifilácticos outros, veio o medo, vieram os espaços fechados, toda a descaracterização das vidas face a cuidados rigorosos a ter no convívio ... os hábitos desapareceram, as ruas esvaziaram, o mundo ensombrou e entristeceu.  
Alguns foram mesmo embora para a terra lá no  interior, onde usufruíam de espaços de férias que se tornaram definitivos, outros confinaram-se às habitações de todos os dias que pareciam redutos seguros, outros ... bem, outros ... muitos ... demais, partiram para todo o sempre, porque o destino para eles estava ali marcado ...

Hoje penso em tantos que me vêm à ideia, rostos que me eram quase família, histórias interrompidas, episódios inacabados !...

E nunca mais retomei a rotina que sem dúvida me dava alma, me dava vida, me fazia sentir viva !
Agora o meu café da manhã é atamancado aqui, na cozinha, descabelada, quase sempre ainda sem banho tomado ... eu e só eu !
Os gatos, a essa hora já zanzam pela casa, as flores às vezes lá me sorriem com mais um botãozinho aberto ... e silêncio, nada mais além de silêncio !...
A Covid remeteu-me ao uso do conforto de ténis nas caminhadas que fazia, deixando para um nunca mais o equilíbrio do saltinho agulha.  O Pigalle e outros cafés ( sem nenhum carisma, é verdade ), nem pra recurso são motivadores.  Os grupos desfizeram-se pelas mais variadas razões que contei, os rostos que cruzo na rua são genuinamente anónimos, e normalmente nunca portadores de notícias alegres...
Também já não levo nenhum livro debaixo do braço e papéis de rascunho são de pouca serventia, obviamente ...

Pouco saio de casa.  Para onde iria ?  O ontem foi já ontem, o amanhã não o adivinho ...
Agora até escrevo ( quando o faço ), directamente no computador ... Deixei de ter projectos, planos, ou sequer sonhos, de produzir o que quer que seja ...
Entristeci.
Resta-me o sol a iluminar-me o recanto da secretária em dias como hoje em que perdeu a vergonha e resolveu tomar tino lembrando que a Primavera até já chegou ...
Restam-me os telhados que jamais me emparedarão, porque o meu horizonte não tem horizonte ... o azul vai até onde eu o olhar ... e o meu olhar é longo, é mesmo infinito, já que vive de vasculhar todas as minhas histórias sem fim ... e são muitas... são tantas !!!

Vivo da solidão dos silenciosos ...
Vou explicar o que isto significa e porque me ocupou hoje o espírito, aparentemente com um saudosismo estranho e sem nexo, na procura de um entendimento:
Ontem, um homem que nunca conheci nem conhecerei, com três filhos de tenra idade, pulou de um sétimo andar, para a rua, talvez acreditando ter asas... asas que o levassem por certo, do mundo que eu imagino silencioso, mergulhado numa solidão que deve ter um nome, embora o não saibamos.
E é esta solidão silenciosa que mina muitos de nós até às fímbrias da alma, que corrói, que não tem som porque não tem voz, que só a sente quem tem a coragem de saltar de um sétimo andar para a rua !

Anamar

quinta-feira, 19 de março de 2026

" E PORQUE HOJE DIZEM SER UM DIA ESPECIAL ... "

 


Hoje é o Dia do Pai de acordo com o calendário religioso, neste caso Dia de S. José, pai adoptivo de Jesus, liturgicamente falando.

Não sou dada a estas efemérides.  Cada vez menos sou dada a festejar datas de calendário só porque sim.  Costumo dizer que tenho o meu calendário, esse sim que persigo, procurando não esquecer dias, momentos, ocasiões que por marcantes, justificarão para todo o sempre isto ou aquilo ... Essas sim, reais efemérides na minha vida.  E particularmente Dia de Pai, de Mãe, de Mulher, de Criança, bla bla bla ... para mim são-no apenas como pretexto para o comércio fazer mais umas coroas, nesta sociedade mercantilista, materialista ... demasiado oca e vazia !

Bom ... mas eu tive um pai, obviamente.  Era já entradote na idade quando eu nasci.  Tinha quarenta e oito anos e uma inclinação desmesurada muito mais para avô do que para pai.
O meu pai "padecia" claramente da "ternura dos quarenta" e daquilo que lembro, o seu papel junto de mim, foi sempre de protector, em excesso até, com uma preocupação exagerada com o meu bem estar, com as minhas necessidades, com a minha saúde, com a providência em permanência duma vida rodeada de tudo o que me faria e me não faria falta para viver.

Como vêem, falo dele com um distanciamento no mínimo estranho, como se na verdade estivesse a falar de uma personagem algo afastada do meu mundo.
Na verdade, costumo dizer que o meu pai passou na minha vida como alguém que não conheci. E isso foi exactamente assim ...

Já contei por aqui, algures num outro post, algures num outro tempo, que sou fruto de um segundo casamento do meu pai.  Do primeiro casamento extremamente curto temporalmente falando, nasceu um rapaz, cuja mãe teve uma vida fugaz com o meu pai.  Casaram, ela adoeceu com um problema à época muito grave, um problema pulmonar, tendo vivido apenas os seus dois ou três anos restantes de vida,  acompanhada de uma prima, nas Caldas de Monchique, lugar mais propício a uma melhora do seu estado de saúde.  
Acabou por falecer e do meu irmão ser criado com a generosidade de familiares, nem sequer directos, pois os avós quer paternos quer maternos, não reuniam condições para o fazer.
O meu pai que era viajante de uma firma de ferragens, palmilhava o sul do país, de terra em terra para angariar o sustento não só do filho, como também da família, pois sendo o mais velho de cinco, no Alentejo interior, foi ele que teve que se responsabilizar inclusive pelo futuro dos irmãos.  O meu avô, que não conheci, era pouco dado ao trabalho e aos sete, oito anos, como marçano de armazém, já era o meu pai que conseguia em parte matar a fome que certamente grassava. 
Estamos a falar no tempo anterior à Primeira Guerra Mundial,  estamos a falar do pão dormido na açorda, quando havia, e no tempo do pé descalço, em que para a maioria a escola era uma miragem.
Não sei sequer se o meu pai terá completado a quarta classe ... talvez não !

Foram seguramente tempos muito duros, tempos madrastos, tempos de silêncio e abandono ...

Já numa pré-adolescência do filho, o meu pai viria a casar com a minha mãe e nasci eu.  Aí sim, parecia a vida a compensar, a consertar-se.  Criaram um lar, reergueu-se a família ... ou parecia reerguer-se ...
Quando entrou na puberdade o meu irmão foi diagnosticado com uma doença mental, uma esquizofrenia que culminou, depois de muitas vicissitudes, num internamento que veio a estender-se por toda a sua vida.
Fiquei eu, ficou o carinho, o afecto, a preocupação do meu pai, focada em mim.  Em mim e só em mim!
O meu pai, como disse, viajava ... entrava e saía, oito, quinze dias depois. A minha mãe era a única timoneira da vida ...
Pouco lembro do meu pai, na relação familiar ... Dava-me beijinhos quando chegava, dava-me beijinhos quando partia ... trazia miminhos, como por exemplo fiambre para o pão, amêndoas de licor pela Páscoa, "deixa os livros, já chega  por hoje "... e o medo da repetição e o pavor do meu futuro, tudo guardado no silêncio que nele morava. Só silêncio !
Trabalhava, trabalhava mais, não falava, pouco me perguntava ... aninhava-me a roupa da cama ao deitar ... e sofria ... eu acho que ele sofria ... muito, por certo !

O meu pai é uma figura parda, nebulosa, que me atravessou a vida.  Nunca o conheci verdadeiramente! 
Choraria ao estar só ?  Acalmaria os seus tormentos no silêncio dos seus dias ?  Eu era o seu único e total amor, tenho a certeza !  Talvez se tenha orgulhado de mim ... não sei. Se sim, nunca mo disse.  
Comprou-me a Lolinha única boneca de porcelana que chorava quando se embalava.  Chegou numa caixa com um papel de florzinhas azuis, e vive comigo até hoje.  
Noventa anos depois, de alguma forma, ela representa alguém a quem devo a vida mas que tão pouco conheci !...

Anamar

terça-feira, 17 de março de 2026

" ESTÁ RESOLVIDO ..."

 


Resolvi que não mudo de casa !
Venha chuva, vento, tempestade ou trovoada, venham sismos, venham cataclismos de alma, decidi que, se moro aqui há cinquenta e dois anos, é aqui que vou morrer !
A vista continua a estender-se até onde quero, e se quiser mais, é só lembrar-me como era para detrás do sol posto ...
Os telhados continuam a ser os mesmos e não há como construírem outros mais, intencionalmente lixados capazes de lixar o que de melhor tenho... um céu ora azul se bem disposto, cinzento de cenho carregado com ar de respeito, ou cheio de promessas de chuva lá pela madrugada ...
Depois tenho os pores de sol que invejam muita gente... Vão desde o transparente prometedor de tempo amigo, ao laranja quase vermelho, que sem eu pedir sequer, me levam às savanas de África ... que ficam lá longe mas que ainda hei-de visitar mais uma vezinha só, antes de morrer.
Acho que esta estranha ligação simbiótica entre mim e o continente que nos fica aos pés no desenho do  globo terrestre, só pode vir porque o meu Alentejo ficou a meio caminho do Kilimanjaro, em milhas, quilómetros ou simplesmente sonhos ...

Esta terra é horrível.  Desinteressante, sem um nada que nos prenda a ela.
Os cafés, aqueles que foram da nossa juventude inexistem.  As portas fechadas "ad eternum" em mudanças de ramo, são o pão nosso de cada dia.  Pessoas, também cada vez há menos.  Menos, daquelas que nos paravam... "como vai ? Como vai a mãezinha"  Não tem calhado a encontrarmo-nos ..."
Agora, pessoas há muitas. Demasiadas, talvez... Não as conheço. Falam outras línguas, têm outras histórias, outros sofreres estampados nos rostos ...

Também já não há aquela coisa de "os filhos já acabaram? Ainda ontem fui ao liceu consultar a pauta de exames "... 

Nem o liceu já é o mesmo, já arrasaram com os crochets nos intervalos, nos pontos de cruz em bordados partilhados ...  Já foi tudo !  "Onde pensa que vai ? A senhora não pode entrar por aí !"...
"Ah ... desculpe. Fui cá professora a vida toda. Se calhar a senhora ainda nem tinha nascido !"...

A Lisete, o Sr. Raul, o Sr. Rocha e a D.Matilde ... a D.Henriqueta, a Fernanda do Bar a Joaquina, as Amélias ... a D.Álea e todos, todos, os que faziam esta terra !

"Até amanhã, mãe. "
Ela e o Gaspar, e a janela e as sete da tarde, adeus...vá para dentro... crianças brincando ainda na relva do parque infantil das traseiras ...

Tudo diferente. Tudo doídamente diferente !!!...

O que me resta, então ?  O "bando do meio dia", as minhas gaivotas que me gritam aqui por cima.  Os periquitos de colar que sempre viajam apressados, sem que eu saiba porquê. Os pombos de bom feitio, que em qualquer lado se aninham.  Os vizinhos, que incaracterizam este meu ponto de passagem.
Os "meus", os verdadeiramente "meus", cumpriram já oito décadas. Viemos para aqui, com as mulheres embuchadas, com crianças pequenas, com provocadora felicidade ...
Todos com a vida à frente... sabíamos lá que vida !... 

Hoje, já não acho no mapa esta minha terra.  No mapa do coração ainda existe, à má fila ... mas esbate-se, todos os dias se esbate mais um bocadinho ...

Decidi que morro aqui. 
Afinal sou uma imperfeita pertença a este sítio a que chamaram terra, e que não é de ninguém ... não é mesmo de ninguém ...
Só as raízes, vellhas e turrentas, teimam em lembrar-me tantas coisas de aqui. Não as compro, não as vendo, estão nos baús das memórias.  E posso dar-me por sortuda por ter baús de memórias.  Muitos passam por cá e como naqueles filmes chatos, se nos perguntarem se valeu a pena ... nem as pipocas salvaram a coisa !!!

Anamar

" O MUNDO É DOS LOUCOS ! ... "

 


Escrevo pouco.  Não consigo impor-me uma disciplina de trabalho.  O problema é que de facto para mim, a escrita nunca foi e agora é-o menos ainda, um acto de trabalho.  Aliás sempre me confundiu como os escritores, escritores a sério, contam que acordam cedo, criteriosamente cedo, escrevem até ao almoço, de tarde repegam e à noite, frequentemente também ... ou seja, respeitam sérias rotinas.

Em primeiro lugar louvo tanta inspiração, invejo tanta disciplina, e admiro a dedicação que os leva, sem desvios ou distrações a não perderem as personagens (que direi as histórias concebidas), pelo caminho !...E não acredito, piamente não acredito, os que garantem que o livro se vai escrevendo a si próprio, quase sempre sem uma prévia linha condutora, sequer uma arquitectura mental pré-concebida ...
Devo ser eu que serei muito anormal a brincar com estas coisas, e tendo tanto às vezes entupido dentro de mim, não abro comportas nem sob um "drone balístico" a fazer-me pontaria ...
Também me é frequente, que quando a água jorra das minhas entranhas... quando tanto e tão claro tenho para dizer, não esteja em momento, ocasião, lugar, para que o papel receba os meus silêncios profundos, para que as letras alinhem palavras que façam o sentido daquilo que a alma balbucia baixinho.

Verdadeiramente a minha vida, no formato actual, tem um interesse completamente desenxabido, insípido e maçante. Saio muito pouco e falta-me a paciência. Penso em muitos dos que já a compuseram, quando ela ainda tinha histórias para contar, quando valia a pena eu "escrever" pelo menos um episódio por dia ...
Hoje estou, digamos assim ... nem de Inverno nem de Verão ! Gosto de coisas tórridas, sempre gostei ... ou gosto do gelo da neve que tem um branco que é a mistura de todas as cores ...
As meias tintas ou tonalidades pastel sempre me entediaram.
Se era para dar, dava tudo, a cem por cento, até esgotar o manancial...
Se era pra chorar, chorava, descabelava-me, espremia lenços saturados até às bainhas !
A felicidade era vivida por inteiro e a mágoa e a dor era até ficar em carne viva ...

Pequenos flashes /grandes flashes do que foi, de como foi, de como era, de como ansiava, sonhava ou desejava, imagens de cores, de cheiros, de sons, vêm-me sobretudo nas madrugadas em que fico cobardemente quieta para ver se repego o "filme" que estava a viver, depois duma insónia brava de duas ou três horas ... e o sacana não volta, os intérpretes fugiram, já não há figurantes, já não há sequer enredo, embora ( e não deixa de ser engraçado ), sem os ver, eu saiba exactamente quem andou por ali ...
É então que não me quero, é então que odeio o espelho, o tempo e a memória.  É então que odeio as palavras, os lugares... e até a voz do vento me atormenta a alma ...
E já não me vou encontrando nas esquinas das vielas.  Já não me acho nas alcárcovas da vida ...
Entretanto, olhando atrás, o tempo percorrido parece um naperon que de tão antigo, está esburacado sem conserto.  Partiram tantos, mas tantos dos que constituíam o enredo da história, sei lá para onde, só sei que desfiguraram a minha realidade, a realidade que eu conhecia ... que até acho que ir também começa a fazer sentido !

E pergunto-me, às vezes surpreendida, como é que me deixei distrair tanto, que pouco já conheço dos que me rodeiam, e pouco entendo do contexto circundante ?!
Sinto-me assim uma espécie de estrangeira num país onde só consigo arranhar e mal, a língua dos que por cá habitam ...
Pareço uma apátrida de pé descalço e mochila às costas, numa metrópole que desconheço.
Sinto-me assim meio entontecida, como se curtisse a ressaca duma boa e bela bebedeira ... e só me irrita "sentir" apenas, sem que tenha o proveito doce da prevaricação !.... Isso é que era !!!....

Anamar

segunda-feira, 16 de março de 2026

" HISTÓRIAS DAS VIDAS ... DELES ..."

                            

                                                                      Chico e Jonas

                                                                      Rita ( a primeira )
                                                                        Rita ( actual )

O Jonas vive comigo há catorze anos.  Quase os que tem de vida, já que me entrou casa adentro, com alguns, poucos meses.
O problema dos animais que vêm das ruas, de destinos incertos, é exactamente ser tudo ou quase tudo estimado por palpite.
Existia a Rita, ainda, já velhinha e que viria a partir em 2013.  O seu único companheiro que também já havia partido, fora o Óscar, tanto de lindo quanto de mauzinho.  A Rita, que foi então o animal mais dócil que tive até ao "reinado" do Jonas, habituada que estava ao monopólio de quase tudo aqui por casa, acho que entristeceu com a entrada deste amiguinho que podia bem ser filho dela.  
Reguila, imparável, brincalhão, provocador como o são todos os gatos bebés, acabou com o sossego da sua vida.
Ela queria paz e descanso e usufruir apenas, penso eu, das mordomias séniores de quem já viveu e conheceu muito do que haveria a conhecer na vida de um gato ...
O Jonas não percebia, nem podia perceber que a companheira dos seus dias preferisse passá-los ao sol, pelas nesgas largadas nos tapetes em janelas semi-abertas, nem que as horas de sono a que sucumbia, a tornassem num imprestável brinquedo, nem entendia sequr que ela não corresse atrás de bolas e bolinhas ou mesmo da própria cauda, numa postura insana ...
O Jonas não podia perceber ...

A Rita adoptou então, a estratégia do isolamento, procurou destinos mais discretos, aproveitou roupeiros meio fechados ou até o abrigo do assento de uma cadeira passou a servir de escudo protector daquele endemoninhado com energia pra dar e vender ...

O tempo passou, não muito ... Escassos meses escoaram no calendário até que o stress duma vida tumultuada em excesso, já no seu declínio, antecipou ( hoje estou certa disso ) o dia em que a Rita desistiu e resolveu ir embora.
Carrego esse peso de consciência, porque acredito que, à semelhança dos humanos, também os nossos companheiros de quatro patas encaram as exigências da idade sénior com as inerentes características ... a paz, o sossego, o privilégio de momentos de silêncio...
A Rita foi embora deixando uma saudade sem limites, ela que criou comigo uma relação de afecto e companheirismo inimagináveis para mim, entre um animal e um ser humano.  Faltava apenas falar a minha linguagem ... porque a sua, eu percebia com toda a clareza ...

O Jonas foi crescendo, obviamente, tomando conta do "pedaço", sentindo-se senhor e dono, até de mim, que apanhou frágil e saudosa.
Começou a "aprender" a conversar comigo, começou a desenvolver um amor de reciprocidade com a minha existência muito só e silenciosa, a dormir por opção em "conchinha" no calor do meu édredon, a entender as minhas regras, a ser a minha sombra ...
Mas eis que chega um pedido de adopção para um bonacheirão, preto retinto com gravatinha branca, farfalhudo e simpático, cujos donos regressaram ao Brasil, depois de uma vida sem sucesso por cá.
Assim me chegou o Chico, já baptizado e pronto para fazer companhia ao Jonas. 
Não foi difícil, o Chico era mesmo bonzinho, de boa índole e sem impor nunca em diferendo, a sua compleição física.  O Chico era um gato XXL, face ao minorca irreverente que já cá estava.

Tinham os dois sensivelmente a mesma idade, rondando os dez/onze anos, quando também o Chico foi embora.  Adquiriu uma diabetes que acompanhada de outras patologias, não me deu margem de escolha.
E ficou o Jonas de novo só ... ele e eu, claro !

Quem perde um destes companheiros fica tão mas tão mal, que jura não voltar a ter mais nenhum.  No dia da eutanásia do Chico, quando entre lágrimas eu dizia à veterinária que acabava ali a "geração", ela disse-me ( bem sabia ela o que a experiência lhe havia ensinado )... "nunca diga isso !..."
Mas sim, era essa a minha genuína intenção !
Mas, como o povo diz, "o Homem põe e Deus dispõe)...

Passados alguns dias, na mata onde caminho, uma das gatinhas da colónia que ali vive, aparecera com uma ferida numa pata. Mordidela de cão, rasgão das silvas ??? O que se teria passado ?!
A ferida, apesar do tratamento possível providenciado pelo Sr.Sérgio que é o benfeitor da bicharada que por lá anda entregue à sua sorte, foi infectando progressivamente.  A gatinha, que tem tanto de pequenina como de medrosa de tudo, já andava com a patinha no ar, não a assentando no chão.
Havia que recorrer mesmo ao veterinário.  Foi intervencionada, esteve hospitalizada uns dias, melhorou e ... como seria de esperar, teve alta !
E agora ?? Vai devolver-se num pós-operatório a uma mata correndo os riscos inerentes a um agravamento da situação ?  Deixará tratar-se, ou vai esconder-se entre os arbustos numa situação vulnerável e complicada ?

Facebook , mails, posts, instagram, telefonemas para amigos de amigos de outros amigos, para sensibilizar alguém que pudesse recolher a pobre de Cristo, ingloriamente ...
Portanto, eu não poderia dormir descansada se no pico do Inverno ( Fevereiro de 2024), a nova Rita ( por ser fisicamente idêntica à anterior ), voltasse para a mata ... E não voltou !
Reside comigo e com o Jonas exactamente há dois anos.  Tem cerca de metade da idade deste. Estima-se que a Rita ande agora pelos 7/8 anos.

E o filme repete-se.  Agora é o Jonas que quer sopas e descanso, que já não brinca, que namora as résteas de sol, que me persegue para onde quer que eu vá ... que fala e responde às minhas conversas ... enquanto a Rita desencanta as bolinhas, as tampinhas das garrafas, mas  também à noite, triparte comigo e o Jonas, o calorzinho do nosso aconchego nocturno ...

Qualquer dia o Jonas também partirá.  Sem ele não sei como encarar a vida e o vazio desta casa ...

Mas na mata, existe outra doçura lá abandonada há pouco, na companhia de uma irmã da mesma ninhada e que é a única referência afectiva que possui ... ainda. 
Porque a Nina, a irmã, está muito doente, internada com pneumonia e insuficiência renal, a Pipoca espera, espera, espera por ela, todos os dias, com tempo agreste ou tempo de feição.
E apesar de só pedir festas e colo, de dar turrinhas e lambidelas, de ser uma dor olhar para ela, voltar-lhe as costas enquanto ela encomprida o olhar à medida que nos afastamos, e percebe que tem que ficar,...não posso obviamente diminuir-lhe o sofrimento, porque de todas as vivências que acumulei das "vidas deles", percebo agora que a entrada de um novo elemento estranho em casa, corresponderia a um pico de stress a que não tenho o direito de sujeitar neste caso, o Jonas ...

Resta-me, depois de toda esta narrativa, perguntar a todos os amigos e amigas ... se alguém se condói e pode acolher a Pipoca ??? É que nesta altura das nossas vidas bem percebemos que o amor mais são, mais genuíno e desinteressado ... aquele amor que não falha nunca, não é o humano ... é o dos animais ... seguramente !...

                                                                                Jonas

Tenho que acrescentar sem qualquer rebuço, que a história afinal não termina aqui ... 
Apesar de infrutiferamente tentarmos acolhimento, casa, carinho e Vida ... apesar de a Pipoca continuar à espera, sem saber que a irmã não voltará mais, o milagre operou-se, e alguém que tendo tido uma gatinha cega e esta ter partido recentemente deixando um lugar que parecia inocupável, deixou o coração falar mais alto, e a Pipoca, acabou de ser adoptada num lar onde certamente o amor chegará para a compensar das agruras pelas quais já passou nesta vida ...
É que, afinal às vezes milagres cumprem-se !... 

Anamar

quinta-feira, 5 de março de 2026

" O TEMPO ... SEMPRE O TEMPO ! ..."

 


Morreu António Lobo Antunes.

A sua apresentação é totalmente desnecessária no panorama cultural do país, vezes demais pobre e redutor.
Abriu uma escrita, um sentir, uma forma livre e despretensiosa na análise do então nosso contemporâneo.
Lembro-me de ainda em Angola ter, como muitos da minha geração, começado pela "Memória de Elefante" e com ele ter-me flagrado com uma escrita nova, desassombrada, inquietante.  Uma escrita que surpreende e retém, como quem abre um baú e anseia conhecer-lhe os interiores ...

Lobo Antunes era um disciplinado indisciplinado, um provocador que apenas não retém o politicamente adequado, um sonhador que conta o que tiver que contar, um homem aparentemente desligado, mas profundamente mergulhado e preso pelas raízes do sonho.
Quem o ouve, percebe um ser mascarado de dureza, de indiferença, de convicções.  E no entanto, o seu olhar límpido, denuncia uma particular sensibilidade, uma certitude em relação às coisas, e a simplicidade de quem já pensou sobejamente nelas.
Eu diria que ele já tocou o céu e o inferno, e já sabe claramente donde vai e para onde vai ...

O seu discurso actual, mostra a isenção de quem nada tem que provar a ninguém, mostra a paz de quem já vive descomprometido com a vida e a morte, com Deus e o diabo, com o paraíso e o inferno e com o amor das coisas belas que por cá deixou e que ainda conseguiu ver até ao último suspiro !

Mais um dos grandes partiu e com ele ficámos todos mais pobres ...



Anamar