A mata já está assim ... É uma profusão de azedas, num manto interminável por todo o lado.
O amarelo luminoso das corolas abertas ao sol ainda fraco, lembra que a Primavera anuncia a sua futura chegada, qualquer dia, um dia destes ...
A passarada entretanto também anda num rodopio lindo de se ver e ouvir. Os melros de bico amarelo que escassearam nos rigores do Inverno, esvoaçam de ramo em ramo, pousam nos caminhos, trepam aos troncos mais altos das árvores, vivem paredes meias com os periquitos de colar ...
É a vida a manifestar-se através de uma natureza generosa que vai cumprindo o destino ano após ano !
Aqui perto de mim, num terraço ao lado, ao nível de um oitavo andar, um casal de gaivotas prepara-se para nidificar. Por certo descobriram algum recanto protegido e foram ficando. O mês da postura é Abril, e eu estou imensamente curiosa com o que dali sairá ...
Eu costumo chamar às gaivotas dos meios urbanos, de mercenárias, pois aparentemente recuam do seu habitat natural, as ravinas e as falésias costeiras, cada vez mais para as cidades, onde parecem encontrar comida fácil.
Li que sendo aves oportunistas, aproveitam-se dos desperdícios que os humanos deixam ao Deus dará, com lixos a céu aberto e não protegidos, para se alimentarem sem grande trabalho de procura.
Estão a começar a tornar-se uma espécie de praga com os consequentes prejuízos inerentes à sua presença excessiva por aqui, e já há municípios que estudam a forma como deverão proceder para fazerem um controle equilibrado desta sua absurda escolha de vida.
Para mim a gaivota sempre se associou emocionalmente à definição de liberdade. Para mim a gaivota sempre teve e tem uma conotação poética de sonho, independência, fantasia e da tal liberdade que liga distâncias, pessoas, destinos ...
Olho-as e sigo com elas pelos céus fora, invejando-as, viajando nas suas asas esticadas, em bailados preguiçosos na aragem que corre. E com elas pareço ver o mundo de cima, com elas atravesso borrascas, cumes de serras, até à amplidão do mar, lá longe ... onde o fim não se divisa, e onde as escarpas altaneiras ou a babugem das marés rendilhadas nas areias desertas, guardam os gritos que lançam, e onde ecoam os grasnidos da linguagem que só elas decifram ...
Por isso, tenho pena das gaivotas das cidades. Parecem peças retiradas de puzzles equilibrados, parecem figuras grotescas desinseridas, cumprindo pena num lugar que não o seu, ocupando de uma forma bizarra a moldura de um casario incaracterístico, empoleiradas nos lugares mais inapropriados, onde definitivamente não pertencem ...
E entristeço ao vê-las ...
Em tempos "tive" uma gaivota, como costumo dizer. Era atrevida, a sacaninha ... Rasava-me a janela, espreitava-me curiosa piscando os olhos afoita, dançava-me no vento, na brisa preguiçosa de céus cinzentos, bem aqui à minha frente. E desafiava-me o sonho, espicaçava-me a ilusão, era estafeta dos meus pensamentos ... de cá para longe, onde eu acreditava haver quem os decifrasse ...
Deixou de vir. Tudo acaba nesta vida !...
Hoje tenho o bando disperso , como já contei um destes dias. Mas um bando, não é uma gaivota ... aquela ... a "minha"... 😒
Tenho uma ternura especial para com as aves. Acho que é inveja. Inveja pura e dura, por não ter nascido com asas ...
Em tempos tive viveiros, bem sofisticados de canários e periquitos, construídos à medida, nos tempos maravilhosos da pequenada se deslumbrar com os caminhos da criação ao crescimento das famílias ... Era por uma boa intenção, mas, que grande malvada eu fui !...
E eu lá percebi que pássaro, não é p'ra viver preso em cativeiro, mesmo que a prisão seja dourada ?!...
Em menina, nos saudosos tempos do Alentejo, na cidade que mais amo, Évora, vivia bem em frente ao Fomento, uma empresa que tinha uma chaminé de tijolo, altaneira, desafiadora dos céus. Acho que ainda lá está.
Todos anos, no dealbar dos tempos primaveris o topo da chaminé era habitado por uma família de cegonhas, ano após ano, onde acasalavam, nidificavam e procriavam ... sempre no retorno ao ninho antigo ...
No Inverno rigoroso do Alentejo, os hóspedes partiam em demanda do calor do norte de África, e o ninho esvaziava-se até ao ano seguinte ... E era triste vê-lo vazio, despedir-me das ingratas !...
Não sabíamos era exactamente quando voltariam. Até que um belo dia, manhã cedo, a minha mãe entrava-me quarto adentro e dizia-me : " Anda, levanta-te, vem ver quem chegou !"
E era uma epifania !...
Sempre assim ... Depois, cresci ... 😌😌
Anamar
1 comentário:
Gaivotas em terra, sinal tempestade no mar.
Jonas
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