Porque será que os gatos dormem, dormem, dormem ?...
Olhei agora o meu companheiro velhote. Em cima da cama, sobre a mantinha de lã, o meu velhote de catorze anos parece estar noutra dimensão. Olhos absolutamente cerrados, não se apercebe do que o rodeia. Às vezes emite uns pequenos sons que devem pertencer ao "filme" que está a viver. Dorme de dia, mas também a noite toda, coladinho a mim.
Neste momento dorme ele, mas a Rita, a gata de 7 ou 8 anos que veio da mata onde nasceu, também dorme, do outro lado da cama. Deixam-me uma nesga onde caibo, aquecida por dois corpinhos que não falam, mas percebem tudo ... arrisco-me a dizer.
A Rita, gata tigrada com ar de boneca, "mignonne", rechonchudinha, "rodinhas baixas", o que quase lhe faz chegar ao chão a pancinha agora pelada pela ecografia que teve que fazer, está doente. Já foi observada, analisada, opinada em três espaços clínicos diferentes. Entre eles, o que para mim será o "master" dos três, o Hospital Universitário de Medicina Veterinária, não acrescentou ou alterou nada sobre os sintomas da Rita.
Pode dizer-se que a viraram dos pés à cabeça, raios X, ecografias, análises, medicação, alterações de regimes alimentares ... nada surtiu efeito no bloqueio intestinal ou obstipação severa que atormenta a Rita.
O intestino é esvaziado pelos laxantes, pelos enemas, até pelo bebégel que ensaiámos dar-lhe, volta a encher-se de fecalomas que não saem e certamente produzem um mal estar generalizado na Rita.
Deixar quase de comer, qualquer que seja a iguaria proposta, doer-se a tentar evacuar, mostram que o animal está em sofrimento.
A Rita não era para estar comigo ... mas estava escrito que o estaria ...
Quando o Chico foi adormecido e me restou o Jonas p'ra me dar cólo, entre lágrimas eu disse à veterinária : " Quando o Jonas partir, a geração de gatos na minha casa, termina ..."
Ela olhou-me e só disse :" Nunca diga nunca !"...
Teria dons adivinhatórios a Dra. Bárbara ?
Passou tempo e um dia, a "Pequenota" para o sr. Sérgio que protege os habitantes da colónia da mata, como já contei de outras vezes, ( e são onze neste momento ), foi ferida numa pata. O rasgão, talvez das silvas, infectou e teve de recorrer-se a um veterinário para operar a agora Rita.
Tudo correu dentro do previsível e a Pequenota acabou tendo alta e devendo consequentemente regressar à sua origem.
Mas aí, era Fevereiro de 2024, e a chuva, o vento, a lama e o frio que fazia sentir-se, previa uma convalescença demasiado penalizante para a gatinha com ar de boneca.
Colocou-se a questão de mobilizar este mundo e o outro para que uma alma caridosa, desse aconchego e conforto à Rita. Em vão. Ninguém se interessou ou quis, ou pôde ( sim, porque estas questões têm sempre variadas abordagens possíveis )... e a Rita veio definitivamente fazer companhia ao Jonas, já que dificilmente dali para a frente, eu deitaria em paz, a cabeça no travesseiro, se assim não fosse.
Agora a "rodinhas baixas" busca uma solução para o problema que a atormenta. Em vão, até este momento. Está massacrada por tanto exame, tanto ensaio, tanto internamento ... tanta seringa e líquidos tão pouco gostosos que lhe enfiam boca abaixo ...
Nem paz para sonhar com um mundo de passarinhos, nem vontade para brincar com as bolinhas, tampinhas e tudo o mais que jaz inerte no corredor, ela tem...
Restam-lhe as noites e as madrugadas em que, como um bebé se aninha ao meu lado, e os sonhos que lhe povoam o espírito... Neles, eu acho que a Rita ainda lembra o Simba, a Bernardete, o Gorila, o Menino, o Quiquinho ... enfim, os companheiros do paraíso no Verão e do Inferno no Inverno, que é a minha mata das caminhadas e a casa das suas vidas.
A Rita está esgotada, desinteressada, sofrida ... e o amigo Jonas companheiro aqui de casa, bem a espera todos os dias. Ontem, todo o dia na Clínica, sem comer, beber ou sequer mexer-se na jaula onde aguarda a realização dos exames, sedada como preparação para os mesmos, estava em vias de desistir.
De olhos semi-cerrados, sem força para os abrir, chegou aqui, encolheu-se debaixo da minha cama toda a noite sem se mexer para nada, e parecia ter escolhido partir.
Nada nem ninguém a demoveu nem que fosse a beber uma gota de água ... Acreditei que todo o silêncio que a envolvia me anunciaria um trágico desfecho ...
Mas não, e de novo regressámos ao veterinário para novo raio X, para novo enema, para novo e providencial clister para desobstrução intestinal ... para novo martírio, pensará a Rita.
Agora eu sei porque os gatos dormem, dormem, dormem ... Afinal eu também sou um pouco assim.
É que enquanto dormimos, os filmes que vemos e em que muitas vezes participamos, são à borla e levam-nos a mundos fantásticos, onde a dor e o sofrimento não têm espaço p'ra nos roubarem os sonhos, os desejos e as memórias ...
Não desistas, Rita ! Ambas dividimos este mundo insatisfatório, cruel e insensível ... e na minha solitude, nós os três somos parceiros no amor que nos partilhamos nesta casa quase sempre demasiado vazia e silenciosa !
Anamar
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