quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

" FIM DE PÁGINA "

 



Detesto esta quadra.  Detesto particularmente o dia de hoje, o famigerado 31 de Dezembro de cada ano!

Inevitavelmente sucumbimos a ele e a tudo o que lhe está associado, por mais que garantamos ser imunes ao espírito predominante.  ´
É o dia da "virada", é o dia em que queiramos ou não determinaram que mais um ano cessa e mais um ano começa, feito carta fechada que vá-se lá saber como nos irá surpreender ...
Consequentemente aí estamos nós arrastados para o vórtice dos balanços, do que fizemos e talvez não devêssemos ter feito, ou do que não fizemos e não era por aí o caminho ...
É um desatino, com o acréscimo de uma correria absurda para a concretização a gosto, do local  das festividades e as presenças a fazerem-se presentes, a preparação por simples que seja, da mesa do evento, das vitualhas e os pormenores de última hora a não serem esquecidos.
Como se de repente o mundo fosse acabar !...
As badaladas vão dar o ok, mais que comer, engolem-se as passas previamente contadas, o telefone toca ou são as últimas mensagens a expedir ... é o champanhe, as felicitações aos presentes ... e, como se tudo não fosse meramente a continuação do que ficou para trás há escassos instantes !...

Eu não sou ou estou diferente só porque ... tu não és ou estás diferente, só porque ... já que magias ou milagres que te bafejem, não existem !...

Verdadeiramente nunca fui muito chegada a esta epopeia.
Em miúda e já adolescente, nunca tive passagens de ano especiais ou particulares.  Animação nunca houve, sobretudo a partir da época em que vim viver para Lisboa.  Afinal éramos apenas três "gatos pingados"... eu, a minha mãe e o meu pai, quase sempre com um desertor que não estava disposto a esperar pela meia-noite.
A "animação" era por conta do programa televisivo a ser transmitido ... não mais.
Quando vivíamos em Évora e as férias do Natal eram passadas na casa dos meus avós, aí sim, havia um bailarico com pompa e circunstância, na Sociedade Recreativa local, com música ao vivo, que eu tinha direito a participar graças à bonomia de uma tia que não tendo filhos, tinha a pachorra de nos acompanhar, para que os pais não vetassem o evento.  O baile era uma forma de convívio e coscuvilhice, como esperado numa terrinha pequena do Alentejo profundo, e a minha tia tirava obviamente os dividendos do "sacrifício" a que se propusera.

Com o passar dos anos, cada vez mais estas celebrações ditadas pelo calendário dos Homens, se despem de significado ou justificação, além de pretexto para juntar dois ou três amigos, e ponto.
A partir de uma certa altura então, o chamamento da caminha quente, do silêncio da casa já recolhida, e a ausência de motivos que verdadeiramente me interessem, tornam penoso o arrastar da noite até que as badaladas se anunciem.  
Como dizia o meu pai que tinha um espírito bem envelhecido, "já não corro a foguetes !"...
Hoje, a passagem de ano resume-se à lembrança mais viva ainda, dos que já partiram das mais variadas formas e razões, à constatação dos lugares devolutos à mesa, à incerteza do que nos esperará nos futuros próximos e longínquos, às dúvidas e preocupações inerentes à vida tão mas tão conturbada no nosso pequeno mundo e às expectativas incomensuravelmente conturbadas no "grande" mundo por esse mundo fora !...
Nada de bom se avizinha, a paz nega-se a chegar a este nosso planeta, a fome, a guerra, a miséria, a violência e a dor inerente, obrigam-nos a perceber com nostalgia e medo que uma porta se fechou e uma nova se abrirá, sem que consigamos perceber como é o tempo lá fora ...

E o misto de sentimentos que nos afloram, aquele aperto no peito, aquela dolência sentida, aquela esperança que assoma, apesar dos pesares, fazem-nos quase sempre rolar uma lágrima incontida e teimosa que escorre sem que a possamos deter !...

VOTOS DE EXCELENTE 2026 !

Anamar

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

" TERGIVERSANDO "

 

O dia está quase a fechar .  Fecha cedo agora que o Inverno já nos faz companhia há alguns dias.
Hoje o sol, fraquinho fraquinho, espreitou de vez em quando por detrás de algumas nuvens esparsas, o suficiente para fazer sorrir o céu mesclado.
Ao meio dia, o bando não falhou, como não falha, incompreensivelmente, nunca.  São dezenas e dezenas de gaivotas que irrompem do nada e se pavoneiam aqui por cima, rodopiando na aragem. Volteiam como se sem norte ou objectivo, bailando apenas numa dança doce em passes de "prima donna", airosos e leves.
Depois, passados alguns minutos, conforme chegaram, partem e um muro de um terraço de um prédio alto, lá longe,  dá-lhes poleiro. Lá ficam por tempo não determinado, cuja explicação não descortino, e somem ... com a garantia que no outro meio dia, voltarão aos meus céus ...
O "bando do meio dia" como o denominei, começa a coabitar comigo, e já o espero diariamente do alto do meu sétimo andar, quase ao nível das aves que esvoaçam mais baixo.  
Depois acompanho-as com o olhar alongado até ao limite do horizonte. Bem espio as suas intenções, mas em vão as consigo decifrar.  Talvez um dia ...

Eu bem sei que o mar ainda está longe, eu bem sei que já não me trazem novas lá de Sintra, onde as escarpas descem às águas, onde as ondas rendilham as espumas nas areias, agora desertas e frias.
Mas por que diabo se vêm meter comigo aqui à minha janela, coitada que sou sem asas, sonhos ou vontades ??
Elas não sabem por certo que agrilhoada estou ao chão que assoma metros e metros lá em baixo ... e quem tem âncoras nos pés, não adianta ter sonhos no coração !...

Ao meu lado, Enya, canta, naquela sonoridade celestial que me transporta ao intimismo, ao silêncio e à paz que adivinho povoar as vidas dos que escolheram o branco da neve e do gelo, o verde, menos verde e mais branco das latitudes setentrionais, as casas aconchegantes de madeira, onde as chaminés fumegam das lareiras que iluminam e aquecem. 
O silêncio que se espalha, o frio cá fora e o calor lá dentro ... os pores de sol laranja, sobre as planícies geladas, os abetos, ciprestes e pinheiros esfíngicos no recorte na alvura da paisagem, o chocolate quente tomado dentro das cabanas protegidas do frio com um fogaréu permanentemente aceso no interior ... ou o negrume do céu onde as estrelas brilham mais e com sorte as auroras boreais nos visitam ... são uma espécie de sonho que vivo com os olhos bem abertos.
Conheço alguns países nórdicos, Noruega, Finlândia, Islândia, bem juntinhos do círculo polar ártico ou mesmo atravessados por ele, e invejo a paz, pelo menos a paz, a simplicidade e o silêncio que tanto me apetecia vivenciar, justo nesta fase da vida !

E mais um Natal já foi, um Natal urbano pautado pelo desvirtuamento do essencial e imbuído das "obrigações" que conseguem retirar-lhe a autenticidade e a verdade que o deveria emoldurar.  Um Natal muito vazio, muito "plástico", muito tecnológico, muito digital, muito não vivido e pouco sentido ...
Enfim ... mais um, do punhado mais ou menos generoso que ainda nos possa ser consentido pela vida ... com o tempo a escoar-se como ampulheta em contagem decrescente ou areia pelo meio dos dedos da mão !...

Fiquem bem!


                                

Anamar

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

" PERAMBULANDO NO PENSAR ... "



Limpei hoje a jarra de flores com o ramo que os meus netos me ofereceram há praticamente um mês.
Mudara-lhe a água umas duas vezes, no sentido de manter a saúde daquele bouquet de margaridas amarelas e brancas, com vivaz a compor.
Adoro margaridas, pela singeleza e despretensão, mais ainda se forem amarelas e brancas.  Foi o caso.  Pretendiam festejar o meu aniversário, este ano particularmente referenciável, não só pelo número, mas pelo cúmulo de circunstâncias ocorridas na minha vida nos últimos tempos, que tornaram a data mais sensível e sentida.

Olhei para as flores, agora já meio murchas, olhei para o dia lá fora, ameaçador, climatericamente.  Nuvens encasteladas e bem escuras anunciavam o previsível ... mau tempo.
Lá estou eu a falar como sempre, no tempo que faz, na imagem que esta minha janela me dá, no espaço amplo, quase sem horizonte que o limite.  Ainda gostava de interpretar esta minha necessidade de parecer querer escudar-me no bom ou mau tempo, no sol ou na chuva, na intempérie ou tempo de feição, como se quisesse justificar o meu desalento ou a minha bonomia, com a natureza que me envolve, com as suas marés altas ou baixas...

Entretanto estou a ler um livro que me está a fascinar, coisa que há tempos não me acontecia, pelo menos na área da leitura.  "A breve vida das flores" de Valérie Perrin, é uma história muito bem urdida, uma narrativa originalmente fora do comum que me está a deixar agarrada a cada capítulo.
A história gira "grosso modo" em torno duma personagem invulgar, num ambiente também inédito, um cemitério e a guarda do mesmo, uma mulher com uma vida profundamente sofrida.
Violette, a protagonista que vive dentro de um espaço que poderíamos considerar mórbido, faz do mesmo um ambiente que cativa e prende quem lê a história, porque dada a sua dedicação e amor ao que faz, transforma um espaço de morte, num espaço de vida, com identidade própria, vivida e criada à custa das histórias dos "seus" mortos e do jardim em que o seu desvelo consegue tornar o que verdadeiramente seria uma ambiência lúgubre e doída. 
Desde as flores que alindam as campas, à pequena horta que ela criou e cuida, nas traseiras da sua casa, há toda uma ternura e uma afeição perscrutada e familiar.
Violette, relaciona-se melhor, atrever-me-ia a dizer, com o mundo dos que partiram do que com o mundo real em que vive ...

Talvez a finitude daquele bouquet de flores que tanto significado teve para mim, talvez a finitude particularmente rápida dos dias, sobretudo quando nos assomam escuros e tempestuosos, talvez afinal a finitude do ser humano, façam na minha mente um mix de mágoa cinzenta e informe que me contagia e  desmantela devagarzinho por dentro.  
Ultimamente sou muito, mas mesmo muito assaltada por um espírito insalubre de morte anunciada.  Parece que a sinto, parece que a adivinho, parece que ela me condiciona e me paralisa, e com isso desce em mim um imobilismo, um desinteresse e uma desaposta em quase tudo, como o que sentimos olhando o relógio e constatando que a programação que havíamos feito já não tem tempo útil, hoje, para se cumprir ...
Talvez amanhã, talvez um destes dias, quem sabe ...

Deve ser o isolamento !  Ou simplesmente talvez eu esteja realmente doente ... outra vez !

Anamar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

" OUTRA VEZ NATAL !... "

 

Dezembro é também aquele mês que se eu pudesse, saltava no calendário.
É de  novo mais um mês que forçosamente nos atira para balanços.  Balanços de tudo, do que se fez e não fez, das expectativas e das desilusões, das esperanças e dos fracassos inerentes, dos risos e das lágrimas, do ânimo que às vezes se levanta connosco e do desânimo que progressivamente toma conta de nós ao longo do dia ...
Balanços e mais balanços, e o peso de havermos carregado mais um ano que às vezes foi excessivo face à capacidade que as nossas costas anunciavam aguentar ...

2024 havia sido um ano muito difícil em muitos aspectos, mas 2025 não aliviou muito a carga dependurada do coração.
E depois há aqueles dias a atravessar... o Natal, que para mim se tem transformado numa travessia do deserto.  Cada vez são menos os que se sentarão àquela mesa.  Já só menos de meia mesa, terá  confraternizantes, e cada vez mais aquilo que cada um exibe, se transformará numa performance mal ensaiada, menos credível, mais esvaziada de reais sentimentos.
Prevejo que seremos quatro à mesa, com a alegria que conseguirmos coleccionar, com a boa disposição afivelada nos rostos, até porque está uma criança e ela não tem idade p'ra perceber, sequer suspeitar qual a cor do coração que cada um de nós tem guardado no peito.

Ao longo da minha vida, os meus Natais poderiam ocupar prateleiras bem diversificadas umas das outras.  Parece que eles se caracterizam e definem muito bem, e cada um deles pertence claramente a um dossier que poderia facilmente ser catalogado.

Os primeiros Natais que recordo, os mais gratificantes e doces, foram, como já contei em posts lá para trás, os Natais da minha meninice, os Natais de família à séria, os Natais alentejanos, os Natais inevitavelmente inesquecíveis.
Eram os tempos de acreditar no Menino Jesus, sim porque era Ele que se aprontava a marcar presença, nas gélidas noites de Missa do Galo na Igreja da Saúde na terra que era muito mais minha que aquela onde na realidade nasci.  Noite quase sempre escura e estrelada, noite de avó a caminho da igreja, no seu xaile quentinho e lenço na cabeça, de uma igreja que nunca mais me saíu da mente, clara e iluminada, com a talha dourada ainda mais refulgente, os círios acesos e o cheiro das velas ardidas, e a fila que aguardava p'ra beijar o pezinho ao Menino no fim da cerimónia, que o padre pegava e limpava com uma toalha de linho após cada osculação ...
Em casa, enquanto os homens se aqueciam no madeiro imenso, a arder na lareira de parede a parede daquela cozinha velha, as mulheres, tias, primas, mais novas ou mais velhas, preparavam a consoada com as iguarias de sempre.  Haveríamos de as degustar para aquecermos o espírito, à chegada do frio da noite ...
É um lugar comum, creio, para a maioria de nós guardarmos carinhosamente, e por todas as razões, os nossos Natais de infância ... os mais doces deles todos !

Depois vieram os Natais da Beira.  Outra realidade, outras pessoas ... contudo sempre família.
Esses, foram os Natais da infância das minhas filhas.
Outra casa, outros amigos, outros cheiros e sabores, mas contudo ainda éramos alguns, os dedos das duas mãos chegariam para os contar, mas havia vida a pulsar também, nos adultos e na criançada.
Havia a árvore e o presépio, tudo colhido nas matas, havia risos e gargalhadas, o bacalhau e a "roupa velha" no dia seguinte ...
Depois ... bom, depois foram indo ... Uns para a terra de ninguém ( esses só nos repousam nas memórias e nas imagens dos vídeos que ainda hoje nos fazem sorrir ), outros apenas tomaram novos rumos, novos trilhos ... outros destinos !
Gostava de poder espreitar aquela mesa, na noite da consoada, e espicaçar o lume, como o fazia, para minorar o frio que sempre tenho ... Gostava, mas não posso ... a vida é assim !

Hoje, bem, hoje por enquanto talvez sejamos três, à mesa.  E de todos os Natais, estes que tenho vivido nos últimos tempos, são os mais incaracterísticos, aqueles de que menos memórias guardarei, aqueles em que os lugares vazios estão mais vazios do que nunca, aqueles em que a solidão e um silêncio interior ( que talvez só eu pressinta ), mais se fazem sentir.
É um misto confuso de sentimentos, é um ruído e uma turbulência tonitruante, é uma ausência e uma escuridão absoluta, numa sala ainda assim iluminada, numa mesa onde ainda assim haverá conversas, onde vamos todos fazer de conta que por ali passa uma qualquer felicidade e alegria que afinal não se deixam mascarar, e que lá bem no fundo, não enganam ninguém ...

Feliz Natal !...



Anamar