Detesto esta quadra. Detesto particularmente o dia de hoje, o famigerado 31 de Dezembro de cada ano!
Inevitavelmente sucumbimos a ele e a tudo o que lhe está associado, por mais que garantamos ser imunes ao espírito predominante. ´
É o dia da "virada", é o dia em que queiramos ou não determinaram que mais um ano cessa e mais um ano começa, feito carta fechada que vá-se lá saber como nos irá surpreender ...
Consequentemente aí estamos nós arrastados para o vórtice dos balanços, do que fizemos e talvez não devêssemos ter feito, ou do que não fizemos e não era por aí o caminho ...
É um desatino, com o acréscimo de uma correria absurda para a concretização a gosto, do local das festividades e as presenças a fazerem-se presentes, a preparação por simples que seja, da mesa do evento, das vitualhas e os pormenores de última hora a não serem esquecidos.
Como se de repente o mundo fosse acabar !...
As badaladas vão dar o ok, mais que comer, engolem-se as passas previamente contadas, o telefone toca ou são as últimas mensagens a expedir ... é o champanhe, as felicitações aos presentes ... e, como se tudo não fosse meramente a continuação do que ficou para trás há escassos instantes !...
Eu não sou ou estou diferente só porque ... tu não és ou estás diferente, só porque ... já que magias ou milagres que te bafejem, não existem !...
Verdadeiramente nunca fui muito chegada a esta epopeia.
Em miúda e já adolescente, nunca tive passagens de ano especiais ou particulares. Animação nunca houve, sobretudo a partir da época em que vim viver para Lisboa. Afinal éramos apenas três "gatos pingados"... eu, a minha mãe e o meu pai, quase sempre com um desertor que não estava disposto a esperar pela meia-noite.
A "animação" era por conta do programa televisivo a ser transmitido ... não mais.
Quando vivíamos em Évora e as férias do Natal eram passadas na casa dos meus avós, aí sim, havia um bailarico com pompa e circunstância, na Sociedade Recreativa local, com música ao vivo, que eu tinha direito a participar graças à bonomia de uma tia que não tendo filhos, tinha a pachorra de nos acompanhar, para que os pais não vetassem o evento. O baile era uma forma de convívio e coscuvilhice, como esperado numa terrinha pequena do Alentejo profundo, e a minha tia tirava obviamente os dividendos do "sacrifício" a que se propusera.
Com o passar dos anos, cada vez mais estas celebrações ditadas pelo calendário dos Homens, se despem de significado ou justificação, além de pretexto para juntar dois ou três amigos, e ponto.
A partir de uma certa altura então, o chamamento da caminha quente, do silêncio da casa já recolhida, e a ausência de motivos que verdadeiramente me interessem, tornam penoso o arrastar da noite até que as badaladas se anunciem.
Como dizia o meu pai que tinha um espírito bem envelhecido, "já não corro a foguetes !"...
Hoje, a passagem de ano resume-se à lembrança mais viva ainda, dos que já partiram das mais variadas formas e razões, à constatação dos lugares devolutos à mesa, à incerteza do que nos esperará nos futuros próximos e longínquos, às dúvidas e preocupações inerentes à vida tão mas tão conturbada no nosso pequeno mundo e às expectativas incomensuravelmente conturbadas no "grande" mundo por esse mundo fora !...
Nada de bom se avizinha, a paz nega-se a chegar a este nosso planeta, a fome, a guerra, a miséria, a violência e a dor inerente, obrigam-nos a perceber com nostalgia e medo que uma porta se fechou e uma nova se abrirá, sem que consigamos perceber como é o tempo lá fora ...
E o misto de sentimentos que nos afloram, aquele aperto no peito, aquela dolência sentida, aquela esperança que assoma, apesar dos pesares, fazem-nos quase sempre rolar uma lágrima incontida e teimosa que escorre sem que a possamos deter !...
VOTOS DE EXCELENTE 2026 !
Anamar

1 comentário:
Sem dúvida uma altura propicia a neuras. Bom ano do Jonas
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