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terça-feira, 10 de março de 2020

" SEM AVISO PRÉVIO ... "



Voltei a escrever, no Pigalle.
O Pigalle voltou a ser um espaço quase devoluto em que as pessoas habituais sumiram.  E desta feita, a culpa não é do café, nem do tanto quanto aqui já referi noutros escritos.  A culpa é dos tempos que se vivem ...
O Mundo ficou, sem aviso prévio, em estado de sítio em poucos dias.  Não bastando os abalos sociais, as guerras, as incertezas, a violência e a dor instalados e que fazem parte sempre da nossa realidade ... assim, do dia para a noite, no espaço de dois meses e pouco, as nossas vidas confrontaram-se com angústias, dúvidas, incertezas acrescidas ... com perguntas sem resposta, com previsões sem fundos sustentáveis, com uma precariedade existencial que nos confrontou bem de rompante, com uma fragilidade sem tamanho, pelo facto de sermos apenas, habitantes do Planeta Terra.
Uma epidemia ( à beira de uma pandemia ),  que não conhece fronteiras, grassa como uma labareda incontrolável de este a oeste, de norte a sul, devastando, escarnecendo, restringindo, aniquilando e destruindo as pessoas, as famílias, as sociedades ... o Mundo !

De repente, sem aviso prévio, sem sinal visível, o tornado, o tsunami, o flagelo abateu-se sem anúncio, sem pedido de licença, sem autorização para entrar.  E foi entrando.  Nem sequer de mansinho, mas aos magotes de infectados, de mortos e de apavorados, por todos os continentes já.
E de um dia para o outro, as cidades viraram fantasmas, os países viraram assombrações e as nossas vidas  ficaram assim uma coisa suspensa no ar, sem sabermos bem como gerir algo que desconhecemos !
As nossas existências vivem num limbo estranho, dia após dia, num ganho por cada dia, se não foi nesse ainda, que nós, os nossos familiares e amigos, fomos  apanhados na torrente destruidora ...
Vivem-se sentimentos imprecisos, não identificáveis, de um desconforto sob o domínio de um alarmismo inevitável que parece não se controlar.
Erguem-se as vozes nas áreas da saúde, sociais, governamentais, políticas ... num apelo ao controle e à possível tranquilidade das populações, tentando-se  que as "rédeas" na sociedade, não fujam ao domínio das entidades responsáveis, o que seria um desastre ainda maior, já que o medo, o alarme colectivo e o desnorte, em situações limite, nunca conduzem a bons resultados.
Mas a comunicação social, com a facilidade da notícia ao minuto, bombardeia-nos em permanência, com os números, as estatísticas, e a actualização mesmo das notícias referentes ao outro lado do mundo.
Dá-nos  conta  de  uma  Europa  que  se "defende" a  ferro e fogo  do  avanço de  um vírus  que desde a  China, galga  a  passadas  largas  muros, fronteiras,  marcas, barreiras, céus e mares ...
Um vírus que desafia e exige soluções em tempo record, a toda a comunidade científica, no sentido de se encontrar uma terapêutica, uma vacina, uma medida profiláctica eficaz ... qualquer coisa que trave com urgência, esta onda desrespeitosa de uma calamidade que parece incontrolável.
Temos países em caos organizacional.  Temos países cerrados ao contacto exterior, quer por decisão interna ( no desespero de impedir a total circulação de cidadãos ), quer pelo boicote feito ao seu acesso por parte dos outros países, na tentativa, desta forma,  de uma contenção da epidemia.
Temos ruas vazias, o comércio fechado, os cafés e locais de convívio e encontro, igualmente encerrados.  Há zonas ditas "vermelhas", em que a incidência do risco é superior.  As pessoas remetem-se e trabalham a partir de casa, tentando proteger-se e reduzir o contágio.
Respeitam auto-quarentenas, ou quarentenas sanitárias impostas.
Itália encabeça esta lista, mas a França, a Espanha e a Alemanha sucedem-se, com o agravamento do número de infectados.
Em Portugal, as restrições às rotinas, estão aí.  Relacionamentos sociais restringidos, eventos públicos cancelados, escolas fechadas, teatros, museus e outros espaços igualmente encerrados, provas desportivas e outras,  à porta fechada, e bem assim  suspensas outras iniciativas passíveis de reunir os cidadãos com alguma proximidade.

Não me lembro de alguma vez ter vivenciado sequer algo próximo disto.
Parece que começamos objectivamente já, a viver um estado de sítio caótico que eu imagino viver-se nos países que atravessam conflitos de guerra, miséria e desestruturação social.
Não se conhece o dia de amanhã, não se sabe da real segurança das pessoas  no âmbito das suas necessidades de sobrevivência, das capacidades de resposta na área da saúde, seja em termos de estruturas físicas hospitalares, seja em termos de respostas humanas ... Enfim, começo a sentir-me numa espécie de "gheto" social.
Saio pouco, vou ao café mas não fico, relaciono-me com os que me rodeiam, com algumas precauções.  Faço as minhas caminhadas como sempre, porque as considero espaços terapêuticos de revitalização das defesas e qualidade de vida.  Não utilizo transportes públicos, vou normalmente às compras mas evito proximidades desnecessárias com terceiros.
Não estou assustada por mim.  Estou mais preocupada com a "minha gente"... filhas expostas naturalmente nas suas actividades profissionais, sendo que, por ser enfermeira num dos hospitais de referência, a mais nova vive na "linha de fogo", sem protecções especiais facultadas ao pessoal que aí trabalha, com uma criança de dois anos que frequenta uma creche, e que com o pai a trabalhar no estrangeiro pouca serventia tem no apoio presencial familiar ...
Preocupo-me com os outros três miúdos, frequentando estabelecimentos e graus de ensino diversos e praticando actividades desportivas, com treinos e trabalho de ginásio, onde naturalmente os contactos são muitos e variados ...
Enfim, preocupo-me com a crise económica que todo este caos arrasta, nacional e internacionalmente, com consequências gravosas, altamente penalizantes para o nosso país que vive no "arame", e igualmente em termos da conjuntura mundial ... Tudo isto iremos pagar ... tudo isto nos sairá  do bolso em termos próximos futuros ...
A Síria ficou para trás, o Irão e suas ameaças nucleares, do Brexit pouco já se fala, os migrantes sofrem na carne e na alma mais dores em cima das que detêm ... os nossos escândalos "privados" ( as "guerras" institucionais, os buracos económicos, as corrupções e a escandaleira da justiça ... até as crises futebolísticas acaloradas que rendem semanas de entretenimento ... ), de Trump e suas enormidades, de Bolsonaro e seus alarvismos, das injustiças sociais confrangedoras e gritantes ... da fome, da miséria, até das alterações climáticas, o Homem abriu um parêntesis e tenta unir-se em torno da causa única : salvar a Humanidade ...

O corona vírus chegou num belo dia do fim de 2019, em Wuhan na China, mas já alcançou protagonismo e capacidade de aterrorizar e fazer tremer até as maiores e mais fortes potências mundiais !
Afinal, o ser humano é efectivamente um grão de poeira face àquilo que não domina, não controla e não conhece.
Ao ser humano resta neste contexto, experimentar e exercitar um desafio que talvez nunca lhe tenha sido colocado tão prementemente na era moderna : a solidariedade, a partilha, o trabalho grupal, a união de esforços, a entreajuda, sem cor, sem raça, sem língua, sem fronteira ... em torno de uma causa comum ... salvar a sua espécie !!!



Anamar

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

" ISTO SOU EU A PENSAR ... "




O dia está de "nieblas" ou seja, está envolto num nevoeiro tão cerrado que não se vê, só se adivinha ...
Não está frio, nos 16 graus de um Janeiro, meio de Inverno.  Contudo ... chove. Chove aquela chuva miudinha que não é bem carne nem peixe, mas que chegou para me encharcar na caminhada ... já que hoje era dia .
Eu gosto das "nieblas", este tempo fantasmagórico que desenha perfis esbatidos, como se estivéssemos atrás de um vidro embaciado.  Gosto deste ar misterioso que sempre me transporta às narrativas celtas, às costas bravias e inóspitas da Irlanda, tão bem retratadas naquele filme maravilhoso de mar alteroso e descomandado  com  que  "A filha de Ryan" nos presenteou, nos écrans de cinema nos idos de 70 ...

Afinal, o dia está parecido com a vida das pessoas.
A maior parte não tem tempo, saudavelmente, para se preocupar com estas tretas. Mas como "quem tem vagar faz colheres ..." eu, até enquanto caminho, penso na vida e falo sozinha ...
O cinzento que me cercava e que me fazia "desaparecer" no raio de alguns metros, foi propício a que me interrogasse pela enésima vez, do porquê da insegurança e da instabilidade da nossa existência, nos dias que correm.
Nos primeiros tempos da minha vida, eu e as pessoas minhas contemporâneas  adquirimos, alicerçámos e interiorizámos conhecimentos, princípios, valores que nos norteavam e que nos garantiam certezas mais ou menos indiscutíveis.  Sabíamos que estas causas, produziriam aquelas consequências, que se vivêssemos controladamente dentro de determinados parâmetros  que conhecíamos, não teríamos à partida, surpresas desagradáveis ou grandes percalços no futuro.
Podíamos planificar, podíamos aceitar desafios e assumir responsabilidades, mesmo a longo prazo, porque era devidamente acautelado o risco que se corria.  E só o corria quem queria.

Hoje, vivemos num arame sem rede.  Tudo, mas tudo, pode sempre acontecer em qualquer circunstância.  Tudo o que era certo ontem, cai em suspeição hoje.  A instabilidade, a incerteza, a dúvida sobre o que e quem nos rodeia, é uma onda gigantesca que cresce mais e mais avassaladora, como um tsunami nos nossos dias.
Há uma desprotecção total do ser humano  face à sociedade, face aos cidadãos, face às instituições, face aos princípios, às linhas norteadoras e às coordenadas que nos regem.  É como se, de repente, toda a sinalética que conhecíamos, fosse desvalorizada, e todos os códigos assimilados e válidos, caíssem em desgraça e passássemos a desconhecê-los.
E aí ficamos nós  mais perdidos que no meio de um deserto, mais naufragados do que em cerração de alto mar ...
E apossa-se-nos uma angústia, um pavor, um cansaço e um descrédito em tudo, que nos indigna, nos revolta e nos reduz à fragilidade com que nos confrontamos, percebendo-nos demasiado insignificantes e desprotegidos no mundo que habitamos.
Não temos verdadeiramente ninguém que nos defenda, as instituições são mais e mais falíveis e inaptas, as estruturas sociais não respondem e não funcionam sequer em tempo útil, são manipuláveis e corrompíveis.  Deixámos de saber as linhas com "que nos cosermos" ... deixámos de identificar as verdades que o eram ...
E ficámos estranhos ... estilo  marcianos largados de uma qualquer nave espacial ...

Somos espoliados nas "nossas barbas" ... e sabendo-o, contudo,  não temos armas disponíveis para a reversão das situações. Tudo é maquiavelicamente engendrado.  Verdadeiros  processos kafkianos são montados. Cantam-nos canções de embalar descaradamente entorpecentes,  para que consigamos reagir.  A verdade e a mentira, o direito e o avesso, o certo e o errado saem da tômbola aleatoriamente, como se inocentemente, o seu grau de validade fosse o mesmo ...

Estas reflexões atormentaram-me e atormentam.  Angustiam-me e desgastam-me.  Desmotivam-me e desencantam-me face à vida e ao futuro.  Sou cada vez mais uma analfabeta, face ao livro da Vida.

Fiz análises de rotina há alguns dias.  O meu colesterol continua teimosamente descontrolado, e desafiador.  Depois de há já razoável tempo eu ter assumido medidas correctivas no meu esquema de vida demasiado sedentário, assumiu valores ainda mais elevados.
Alimentação simples e não comprometedora, comportamentos de risco que evito diariamente e exercício físico praticado com total regularidade, seriam garante de uma segura descida dos seus valores.
Bem ao contrário ... num braço de ferro, persiste em assumir valores fora da tabela.
Sou meio inconsequente em relação a estes acidentes de saúde.  Como o meu pai, que resistia o mais que podia a médicos, medicamentos e tratamentos, eu, que felizmente não tenho  historial de contratempos a este nível, evito dar-lhes importância, protagonismo ou com eles me preocupar.
E por isso, tenho assumido um comportamento de "deixar correr" ...  Os resultados laboratoriais chegam, leio-os de través e guardo-os no armário até que uma nova investida de "consciência" me invada ... e os repita.

Entretanto, vou ouvindo as sugestões de gente avisada : "tens que te aconselhar com o médico !  O valor é elevado,  olha este e aquele a quem aconteceu isto e aquilo " ...

São as estatinas o fármaco aconselhado na terapêutica.  Todos o sabemos.  Só que se trata de um químico com uma moldura de efeitos colaterais assustadora.  Desde a dependência ao medicamento,  ( que exige um tratamento longo  para que tenha eficácia, direi mesmo, "sine die" ),  a um prejuízo acentuado no âmbito da parte muscular e articular do paciente, com restrições na qualidade de vida, e bem assim,  a ser potenciador de alterações cerebrais, como a demência ... o leque de aspectos negativos secundários inerentes, assustam-me e desmotivam-me totalmente.
Depois, ouvem-se algumas vozes da comunidade científica, denunciantes destas situações, com desaconselhamento do uso deste químico, e igualmente se escuta um ping-pong de opiniões sobre a mesma prescrição, desmistificando o colesterol como vilão no nosso organismo, e denunciando  e desmascarando um empolamento intencional e miserável da verdade, montado em prol do  "lobby farmacêutico", que a comercialização destes medicamentos beneficia.
O dinheiro e os interesses económicos das multinacionais sem escrúpulos, sempre à frente, trucidando, se preciso for, o ser humano !!!...

Bom, e portanto, SIM ou NÃO ?
Leio, busco na Internet, falo com gente da área, profissionais de saúde, e fico mais ou menos na mesma ... ou seja, quem fala a verdade, neste imbróglio ???!!!
Trata-se de uma  patologia  silenciosa e falsa, que só é detectável em exames e investigação adequados, ou por alguma "surpresa" grave que nos espreite ao dobrar de uma esquina ...  E aí, poderá já ser tarde !...

"Nieblas" ... sempre as benditas nieblas, poalha viscosa de desinformação, dúvidas e incertezas !...
E nós por aqui, indefesos ... como a mosca presa na teia de uma aranha monstruosa, contra a qual jamais terá capacidade de fazer frente !!!

Anamar

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

" EM BALANÇO ... "




Dei por concluído mais um volume - repositório de tudo o que publico aqui  neste meu espaço pessoal - o correspondente ao ano agora findo, de 2019.
Desde que iniciei a escrita deste blogue no passado 2008, uma iniciativa que surgiu entre a curiosidade e a experimentação, já completei dezoito volumes em suporte de papel, que guardo religiosamente na prateleira da minha estante.
São testemunho vivo da concretização de um projecto pessoal, que vale o que vale, não tem nenhum tipo de pretensão ou convencimento, e que é simplesmente algo que ficará um dia quando eu partir. Será um legado meu que falará daquilo que eu sou, daquilo que foi o meu percurso, as minhas preocupações, as minhas dúvidas, as minhas conquistas e os meus desaires, os meus sentires ... alegrias, tristezas, o que foi capaz de me emocionar ... em suma, um retrato nu desta que eu sou.

Cada palavra, cada linha, cada texto que aqui foi registado, foi-o com o desassombro, com a independência que me concedo, com a liberdade que me permito, com a autenticidade que me desenha.
Cada sentimento expresso, foi-o por escorrência simples e natural da minha pele e do meu coração.  Sem censuras, sem barreiras, sem crivos ou filtros.  Sensata ou insensatamente ... prudente ou imprudentemente ... Nunca isso me coartou, preocupou ou limitou.
Tal como na vida em que nunca aceitei cangas, baias ou fronteiras, e simplesmente me assumo com a genuinidade  que me confere uma coerência e uma verdade que sempre busco e respeito, também aqui sou eu frente a mim mesma ... em espelho de lealdade e verdade, sem fraudes ou distorções.

Sempre escrevi o que a voz me ditava, nunca me obriguei ao socialmente adequado ou correcto, sempre ignorei o "ruído" exterior, fingi não perceber intencionalidades ou interesses.
Nada foi "trabalhado", retocado, travestido pelo parecer bem, pela aceitação, pela conveniência.

E só por isso valeu a pena !
Hoje leio-me, e ao ler-me reabro a estrada, espreito as bifurcações, sinto as hesitações das encruzilhadas ... percebo as dúvidas, as angústias das incertezas nesta arte de marear, tantas e tantas vezes em meio de tempestades alterosas ...
Hoje, reassumo os batimentos acelerados dos cansaços do caminho,  respiro de novo as pausas nas sombras de paz e água fresca, com que a vida ... com que as vidas alternam nos nossos percursos ...
Hoje, congratulo-me pelo crescimento que descortino, gratifico-me pela maturidade conquistada, aceito com bonomia e paz  as cicatrizes deixadas pelas horas menos felizes, enxugo as lágrimas inevitáveis escorridas pelos tempos ... aquieto o coração, vezes de mais escalavrado e sofrido ...
Hoje, ao ler-me, "vejo-me", "descubro-me", "orgulho-me" ... "reconheço-me" ...

E apesar dos pesares, não sou capaz de me zangar com esta existência de tropeços, quedas, desacertos e incompletudes, porque sei do esforço diário desenvolvido para o acerto, porque sei do desafio imposto para a superação, porque sei da luta permanente travada  para a não desistência, porque sei da coragem e da esperança que bebi às colheradas para não soçobrar no campo de batalha ...
Por tudo isto, dia a dia me agiganto, me respeito mais e mais e me admiro ... se tal me for permitido ...
Em jeito de balanço, direi apenas que esta "herança" que deixo, talvez seja a mais preciosa que poderia  deixar, porque é uma dádiva integral de mim, na globalidade física e espiritual da mulher que eu sou !...

Anamar

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

" DESABAFOS / INTERROGAÇÕES INCONFESSÁVEIS ... "




Eu sabia que seria exactamente assim.  Sempre o soube.

É o segundo Natal em que a ausência da minha mãe deixou vazio um lugar naquela sala.
Verdade seja que nos últimos anos ela já não queria estar.  Era-lhe penoso ser subtraída ao aconchego da sua cama àquelas horas.  Mas nós sabíamos que ela estava lá.  E o beijinho de noite tranquila, dado antes da Consoada, aquecia-lhe ... aquecia-nos o coração !
Agora tudo é diferente.  Ela paira por ali, quase sempre ela paira por aqui, na presença que eu sinto, nos sinais que me vai deixando, nas conversas em surdina que mantemos ... Mas só ...
Trocar ideias com ela, como eu preciso ... nada !
Acho que nunca pensamos à séria que a nossa mãe nos fará tanta falta.
Enquanto é real nas nossas vidas, nem percebemos como aquela figura discreta, às vezes exigente, às vezes controladora, às vezes chata ... é de facto, determinante.  Não realizamos da importância dos conselhos, dos palpites, das sugestões ... às vezes dos reparos, dos remoques, das "abelhudices" contra as quais nos insurgimos com tanta frequência ...
"Mas que coisa ... a minha mãe acha que o tempo não passou e que a minha vida é a sua ... os meus interesses também !" - tantas vezes o pensei ... tantas vezes o disse ...

Hoje, estou mais "perto" dela, do que das gerações descendentes.

Na forma de pensarem e de se posicionarem na vida, as minhas filhas começam a ficar a anos-luz das minhas convicções, da minha forma de vida, dos meus padrões, daquilo que defendo, que valorizo e aprecio ...
Começo a perceber que as suas "unidades de medida" do tempo e do espaço, são outra onda.
Começo claramente a perceber que os seus ritmos, as suas referências, os seus valores e interesses, as suas capacidades face à vida, são outro departamento.
E sei exactamente que não entendem e não aceitam, a falta de "desembaraço", a lentidão às vezes, o "emperramento" mental, que pensam que nós, os pais, nunca deveríamos ter.
Sei exactamente da sua impaciência e falta de disponibilidade, para ouvir e " dar tempo a quem precisa ".
Começo a perceber a discrepância das nossas linguagens, a ininteligibilidade dos seus mundos, o meu afastamento ao seu universo.

Que dizer então dos que ocupam um degrau adiante ??

Em relação a esses, começo a virar um " ET".  Qualquer dia ( se não já, começam a olhar-me como uma figura meio dinossáurica e fóssil ... ).
Não entendo, e custo muito, mesmo muito a aceitar a tolerância e a permissividade dos pais de hoje, em relação a muitas formas de ser e estar, dos filhos.
Não entendo os modismos aos quais se adere, porque são isso mesmo ... modismos.
Não entendo que haja quatro pessoas numa sala, onde teoricamente se deveria vivenciar o convívio da Consoada, aproveitando os raros momentos em que a vida permite a partilha entre as diversas gerações, e estas estejam fixadas nos monitores dos telemóveis ...
Não entendo que os amigos dos pais sejam tratados por "tios" e "tias" ... Irrita-me solenemente esse tão generalizado preceito ...
Não encaixo ter uma neta, na idade tonta dos quinze anos, que tenha feito um "alisamento" do cabelo ... só porque não apreciava a escassa ondulação do mesmo ...
E do meu ponto de vista, sem que sequer tenha merecido alcançar esse desiderato, uma vez que o seu rendimento escolar deixou muito a desejar neste primeiro período lectivo.
No meu tempo, este tipo de compensações e "miminhos" ( por serem supérfluos e dispensáveis ), tinham-se ou não, como prémios de merecimento ou estímulo ...
Custo a engolir linhas estapafúrdias "vanguarda" ou "alternativas" no vestuário, com a cor preta a dominar as roupas jovens e as botas de tropa, inestéticas, pesadonas e pouco femininas, a completar o "boneco" ... Isto, revendo os conceitos de vestuário que, ao longo dos tempos, desde sempre foram mais ou menos clássicos, nas respectivas educações ...

Não ignoro  que o vestuário que exibimos é uma questão cultural e social, uma forma de integração ou de rejeição dos arquétipos que a sociedade impõe.
Nomeadamente os jovens, particularmente os adolescentes numa fase da vida de contestação e desafio, em que buscam uma qualquer identificação e um lugar no mundo que habitam, procuram afirmar-se com códigos de vestuário que os assimilem e integrem no grupo de referência.
Daí as correntes diversas que se caracterizam e pautam pelos diferentes padrões ideológicos seguidos.
Apenas acho que maioritariamente, se estabelecem posturas de "carneirada", aleatórias e despersonalizadas, sem nenhuma consciencialização da escolha ou opção assumidas, reféns das tendências e das modas, simplesmente.

Enfim ... dou  por  mim,  e  odeio  fazê-lo,  a  proferir  uma  frase  que  me  arrepia : " no  meu  tempo ... "
Oh Deus ... será que estou mesmo com a intolerância, a rabugice, a mumificação das "relíquias" museológicas ???!!!
Será que estou a ficar estratificada nos tempos em que vivo, empedernida, sem adaptabilidade e sem abertura ?!
Será que estou a auto-marginalizar-me das vivências do hoje, porque me sinto distante, incómoda, dispensável, estranha ao que me rodeia ... sem "espaço" ou lugar ??

Preocupante, sem dúvida !

De tudo isto eu falaria com a minha mãe.  Todas estas minhas inquietações ela entenderia ...

Acho que nunca pensamos à séria que a nossa mãe, um dia, nos faria tanta falta !...

Anamar

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

" QUANDO NÃO TEM MAIS JEITO ... "



Ontem, aquela noite determinada.  Aquele 24 de Dezembro de que não dá para fugir.
A tradição, o hábito, o institucionalizado, mas sobretudo o convencionado, ditam que as famílias se sentem em torno de uma mesa entupida de vitualhas, entre os doces e os salgados, e tentem estar unidas e de bem, pelo menos uma vez no ano ...
Umas vezes dá, outras, nem por isso !

A "família", essa instituição algo abstracta, definida como as pessoas do nosso sangue a que se juntam "artificialmente" extensões, fruto da vida e dos destinos, é cada vez mais, de facto, nos dias de hoje, uma entidade abstracta, distante, impessoal e frequentemente, penalizante.
Está "escrito" que valores como o amor, a cumplicidade, a aceitação, a tolerância, a compreensão, a união, o bem querer, entre outros, sejam, ao longo dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, pedras basilares estruturantes, verdadeiros pilares e alicerces duma família, laços que deveriam ser inexpugnáveis.

Como em tudo na vida, a teoria livresca, normalmente desmorona face à prática no terreno.
E se, de alguma forma  norteámos as nossas realidades familiares nestes arquétipos, e conseguimos com razoável sucesso monitorizar o andamento do nosso "barco" durante determinadas fases da vida, com o avanço dos anos, com as vicissitudes atravessadas ( excepto em honrosas excepções que admito ), normalmente esses "projectos" familiares mais sonhados do que realizáveis, tornam-se verdadeiros e dolorosos falhanços.
Famílias que se desmantelam pelas mais variadas razões, opções de vida novas e diferentes, face às células inicialmente estabelecidas, afastamento físico dos seus elementos, motivado pelos diversos  percursos individuais escolhidos, incompreensões e intolerâncias que não conseguem deixar-se sobrepor pelos valores que na realidade deveriam imperar entre pessoas do mesmo sangue, como o afecto e o amor ... conduzem as realidades familiares a disfuncionalidades  frustrantes e dolorosas.

As pessoas desconhecem-se.  A sua forma de ver a vida, os reais interesses e valores que têm significância para cada um, os seus posicionamentos na sociedade, e mesmo nas respectivas e posteriores realidades familiares constituídas,  são tão díspares, tão abissalmente distintos, tão estranhamente distantes e indiferentes, que não conseguimos descortinar onde é que por ali existiu alguma vez um tronco comum.
As pessoas estão de costas viradas, têm linguagens desconhecidas, comunicações colapsadas, silêncios inultrapassáveis entre si, verdades absolutas e inflexibilidades inaceitáveis.  Há mágoas, ofensas, animosidades, desunião ... indiferenças atrozes e implacáveis ... diferenças ...
Não há relativização de nada, cerrando-se cada um na sua verdade e intolerância, como mulas empacadas, incapazes de um gesto de cordialidade ou aproximação.   E muitas vezes sem que se perceba sequer o porquê !...

E aqueles que são pais e mães, irmãos e irmãs, avós e netos, ficam tão distantes física e emocionalmente, tão "transparentes" e descartáveis ... tão dispensáveis uns para os outros, acredito ... que o sangue ... o tal sangue que corre no tronco comum, queira-se ou não, já não opera milagres !
A desvalorização e deterioração dos laços é notória e total.
E à semelhança do mundo, é  cada um em si e de "per si" ... ainda que na noite de Natal, o tal 24 de cada Dezembro, a mesa das vitualhas entupida de doces e salgados tente, ingloriamente,  fazer a magia da aproximação, da cumplicidade e do amor !!!...

Anamar

sábado, 21 de dezembro de 2019

" NA HORA DO LOBO "




Verdade que depois da tempestade, chegará a bonança.
Temos vivido dias complicados em termos atmosféricos, em que depressões sucessivas com as consequências inerentes, têm violentado o país com ventos fortíssimos e cheias destruidoras que deixam populações, culturas e habitações em situações bem precárias.
Somos um país pequeno, de poucos recursos, e como tal, qualquer situação mais gravosa logo deixa marcas notórias de devastação e dor ...

Mas hoje, pese embora não tenhamos uma melhoria certa e segura, a chuva deu tréguas, o céu de chumbo pesado de borrasca  passou a um cinza menos agressivo, e há pouco, um sol muito mas muito tímido, espreitou e garantiu aos mais cépticos, que por cima das nuvens ele está lá ... sempre está lá !

Aqui da minha janela, frente à mesa onde escrevo, olho o horizonte lá longe, vejo o plátano despido aos meus pés, verifico que a folhagem das árvores que ainda a detêm, pouco mexe ... e escuto e sigo o rumo de algumas gaivotas que se bamboleiam na aragem que sopra lá fora.
O seu grasnido e o voo errante, sempre me deixam nostálgica.  Lembro os tempos da "minha" gaivota, quando ela me trazia novas dos areais distantes, e o cheiro da maresia e da caruma da Serra ...
Hoje, acho que até mesmo a "minha" gaivota foi à vida dela ... porque eu deixei de ter olhos para a contemplar e ouvidos e voz para com ela cumpliciar ...
Acho que essa ingenuidade contemplativa e onírica, ponteou apenas uma época da minha vida ... não mais !

Esta quadra calendarizada ... não canso de referir, porque não canso de sentir ... é muito complicada para a minha cabeça .   Sei que como eu, muitas pessoas se sentem, se possível, com uma solidão instalada e acrescida.  Sei que como eu, muita gente faz balanços de vida, pega no deve e haver que ela lhe estendeu ao longo do ano que se apresta a terminar, e muitas vezes, objectivamente se sente como barquinho de papel em riacho alteroso.
Questionamos mais e mais a razão da existência, reflectimos sobre o insucesso e a ineficácia da  perseguição falhada a objectivos  não alcançados ( apesar do denodo e da aposta tantas vezes investidos ), "crucificamo-nos" pela incapacidade sentida e frustrante no leme do barco, deixamo-nos invadir por saudades ( de pessoas, de lugares, de tempos, da nossa juventude ... de nós mesmos, e daqueles que um dia fomos ... ) ...
E enfim, este tipo de pensamentos perseguidores, despoletadores de vazios e mágoas, em nada contribuem para que nos sintamos felizes !

Entretanto, há poucos dias  Patxi Andión, o cantautor mais português de Espanha, sociólogo, actor e escritor, um lutador acérrimo contra o fascismo de Franco,  morreu estupidamente num acidente rodoviário, aos setenta e dois anos.
Foi para a minha geração, seguramente, uma referência cultural ecléctica, no panorama artístico internacional, em que se posicionou fundamentalmente como interventor social e político,  homem de esquerda que era.
Descomprometido e coerente, sempre assumiu, quer na sua terra ( um madrilenho com raízes bascas ), quer no exterior, nomeadamente em Portugal  onde actuou regularmente ao longo de cinquenta anos, o rosto da resistência anti fascista, da denúncia e da defesa contra as injustiças e arbitrariedades sociais, e bem assim das grandes causas e desafios, que se colocam ao homem do século XXI.
A sua voz rouca inconfundível, deixava passar mensagens de justiça, solidariedade e esperança.
Em 2013, o tema " Palavras ", intimista, particularmente doce e sensível, falava-me de algo que de alguma forma, eu experienciara anos atrás.

Hoje, Patxi Andión tinha em mãos a continuação de um trabalho em dois álbuns, a finalizar em finais de 2020 com o álbum "Profecias",  tendo o primeiro sido lançado em 2018 com o nome de "La hora Lobicán".
A "hora Lobicán" é uma expressão muito usada pelos "viejos", nas Astúrias e na Galiza, referindo aquela hora do dia, o lusco-fusco, aqueles momentos do amanhecer e do anoitecer, em que há uma indefinição entre a imagem do lobo e do cão. Em que há um confusionismo entre o que se vê e o que realmente é, como se "nieblas" espessas se abatessem e turvassem a nossa vista ...

" La hora lobicán, que decian los viejos.  Confunde al lobo en can y al perro en lobo.  Y todo pude ser sin que se vea nada.  Suspenso cautelar de todas las miradas.  La hora lobicán es hora y humo.  Humo para esconder y hora en punto que se dispone a ser, otra vez más, un nuevo amanecer ou atardecer secreto ... "  -  estas as primeiras estrofes do poema.

É como se se diluísse ou dissipasse a resolução visual das coisas.
Transpondo esta simbologia metafórica para a realidade da vida do Homem nos tempos actuais, pretende chamar-se a atenção para a mistificação das verdades, das realidades, das certezas.  De repente, tudo o que parece não é exactamente assim, havendo uma camuflagem perfeita, intencional, manipuladora do que está frente aos nossos olhos.
É manifestamente  um trabalho de índole social e política, que desmistifica a fluidez, a incerteza, a desvalorização e a insegurança da sociedade onde  hoje se vive.
Desmistifica, em suma, os valores de uma sociedade, que por valores reais já pouco se norteia !...
Uma sociedade "líquida" e escorrente, como actualmente se denomina ...
 





Anamar

sábado, 14 de dezembro de 2019

" O ANTI - NATAL "






Estamos na "tal" época ...
Se pudesse, emigrava.  Se pudesse, fechava a toca e hibernava.  Se pudesse, fazia-me de morta ...

Ontem tivemos a última sessão de 2019 do Clube de Leitura que integro.  Uma reunião mensal em torno de um livro, de uma mesa de vitualhas, de conversa jogada fora, mais ou menos oportuna, com maior ou menor interesse, em torno da obra, com ou sem autor presente.
Ontem o tema não se debruçava sobre nenhum enredo publicado.  Acordara-se que cada participante levaria algo sobre a quadra que atravessamos.  Algo seu, ou algo de outrém, que escolhera a propósito.
Em torno do Bolo Rei, Bolo Rainha, Tronco de Natal e azevias, cada um a seu gosto, compartilhou a escolha feita.
Nenhuma pachorra me acometera.  Para rabiscar qualquer coisa ... poema, texto ... sei lá !
Escolhi Gedeão, químico como eu, homem de ciências ... mente aberta e racional.  "Dia de Natal" ... o poema.

Mais do que amorfa, irritado é o meu estado de espírito.  Cansada de tanta ficção, hipocrisia, desencontro ... Saturada de tanto faz de conta, de tanta performance barata, que de original nada já tem.  Farta de ter que tomar o barco sem nenhum resquício de vontade, sem nenhum sopro de vento adjuvante, só porque a onda alterosa avança e leva tudo adiante, sem que consigamos escapar ao despautério.

Não me venham com a teoria familiar, do encontro, da partilha, da vivência romântica de corações em uníssono.
Não me venham obrigar a achar que só porque nascemos do mesmo tronco comum, herdámos a felicidade suprema de falarmos as mesmas linguagens, herdámos a tolerância do reencontro nas diferenças, a aceitação das divergências em cada um, na vivência da paz...
Não me venham com tretas, porque o meu tempo de ingenuidade já passou há muito, e as dores da vida, há muito também, me retiraram a bonomia do presépio de Belém.
Natais desses, santificados e sob medida, só terei tido na primeira infância.  E ainda assim, porque me concedo o benefício da dúvida, na análise de cada lembrança remota que me deixaram.  Talvez não tenha sido exactamente dessa forma, a versão doce, colorida e aconchegante que a memória já difusa pelos anos, me traz ...

Hoje, rumaria à Lapónia, com ou sem auroras boreais, para pular no calendário os dias necessários a apagarem-me no peito as mágoas, as lembranças doídas, as ofensas, as saudades, o cansaço e esta violentação que me sinto, de ter que fazer de conta que a alegria, a concórdia e a felicidade que advêm de teorias irreais, como se genéticas fossem, nos caem obrigatoriamente no prato, juntamente com as filhós, o arroz doce e as rabanadas.
Porque todos reconheceremos que tudo isso não passa de um tremendo e intencional sofisma ...
só porque Dezembro traz inevitavelmente consigo esta travessia no deserto, de que não conseguimos escapar !
Parece haver uma concertação do tipo: é Natal, ficamos todos bonzinhos e vamos brincar de sermos felizes !...

A minha cota de tolerância decresce inversamente ao avanço dos tempos e das vidas, com a confrontação face às vissicitudes progressivas do dia a dia, com o desencanto expectável perante tudo o que já nem surpresa constitui, dos posicionamentos, atitudes, indiferenças e distanciamentos de quem, nataliciamente falando, não seria suposto ...
À semelhança de todos os artefactos da época, também os meus sentimentos e emoções, jazem mudos, aferrolhados no armário, há já demasiados anos ...
É assim uma espécie de pirraça ou contestação que faço ao determinismo dos tempos ...

Entretanto, tento ser objectiva, fria e pragmática.  Entretanto, tento varrer para debaixo do tapete, as penalizações, as culpabilidades, as inseguranças, as dúvidas e aquela maldita tendência de achar que algures na vida, seguramente errei ... e muito.
Esquecendo que afinal, todos não somos mais que erráticos humanos, tentando acertos, à custa de insucessos !...

Bom ... exorcizar os fantasmas  impõe-se, nesta recta final de trezentos e sessenta e cinco dias que, inevitável e castigadoramente, exige balanços ... sempre exige balanços.
Para que, pelo menos interiormente, alguma paz nos invada e consigamos rumar, mais ou menos incólumes, a mais um ano que aguarda ao virar da esquina, a sua entrada triunfal !...


" Dia de Natal "

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

Anamar

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

" NADA DE COISA NENHUMA - Reflexões "





Nascer e morrer são os dois momentos da vida em que estamos inevitavelmente sós. São instantes, quer queiramos quer não, que só a nós verdadeiramente respeitam.
Eu diria, que são os únicos que atravessamos inapelavelmente entregues a nós mesmos.
Depois, toda a travessia é feita com outrém, ou sob a influência de outrém.

Chegamos e entramos numa célula familiar e numa estrutura social pré-desenhadas, com regras, princípios e valores que logicamente nos pré-existem e para os quais não fomos obviamente consultados.  Realidades formatadas, em que previsivelmente teremos ou deveremos então, encaixar.
Por mais autónomos, assumidos e livres que sejamos, por mais independentes na mente e no coração que nos julguemos, sempre vamos estar inseridos num azulejo pré-concebido ou num figurino previamente estabelecido.
Sofremos todo o tipo de influências, sujeitamo-nos a todos os padrões já definidos, com os quais concordamos ou não, e a nossa margem de manobra sempre é, na realidade, restrita ou limitada.

Podemos levar uma existência "quieta", pacífica, sem grandes contundências e consequentemente, sem grandes atribulações.  Se tivermos uma maneira de ser amena, pouco questionante e polémica, pouco recalcitrante e com uma carrada de bonomia, não seremos dados a "bater de frente", a por em causa, a questionar ... menos ainda a discordar ...
Teremos uma vida meio amorfa, meio pacatona ... talvez mais pacífica.  Mas, será "vida" esse caminho ?

Se por outro lado tomarmos consciência do que nos rodeia sem abdicarmos de podermos / devermos  sentir-nos críticos, observadores e mesmo julgadores, se formos reivindicativos, exigentes, coerentes com princípios e convicções, não abdicaremos de nos situarmos, de denunciarmos e de pugnarmos em conformidade com essas mesmas convicções.
Mas esse trilho de honestidade, alimentado por sonhos, esperança e luta, dá uma mão de obra dos infernos !!!
Ganhamos inimizades, desgastamo-nos, sofremos provavelmente injustiças, descriminações, boicotes, perseguições quantas vezes, ciladas por inescrupulosos, outras tantas ...

E frequentemente, cansados e à beira de desistir, quase a depor armas, sonhamos voltar costas, sumir, partir para outra ... viver numa ilha isolada ... ( rsrsrs ) ... ou seja, alcançar a paz e o sossego da solidão ... outra vez ...
O avanço da idade tira-nos o fôlego, o empenho e a coragem. O cansaço, o desgaste da vida, desilusões, frustrações e o desacreditar muitas vezes no valer a pena, tolhem-nos a vontade e as ilusões.  Tornamo-nos amargos, saturados e impacientes.
"Sumir ... vontade de sumir ... " ouvimos frequentemente dizer.  "Hoje estou em baixo ... não tenho pachorra para ver e ouvir as mesmas coisas de todos os dias, outra vez !"

E isolamo-nos.  E começamos a sentir-nos melhor  sós, com as nossas rotinas, os nossos lugares, as nossas escritas, as nossas memórias, as nossas músicas, as nossas coisas ... quiçá, as nossas manias... Porquê não ?
Também a nossa solidão, como colo de repouso, segurança  e pacificação !...
E os nossos refúgios começam a ser os momentos de escape, os momentos de silêncios, os momentos de contemplação, de introspecção, de verdade ... As nossas verdades !!!

Este texto foi escrito sem grande construção prévia.  Foi sendo escrito ... digamos assim.  Tenho-o nas mãos há alguns dias já.  A corrente ideária não se definia.  Como um braço de água, buscou simplesmente, várias escapatórias ... e foi correndo.
Ele representa uma espécie de catarse.  Uma espécie de rebentamento de dique.  Uma espécie de mergulho na profundidade da alma.   Ou simplesmente o vómito de quem está assim ... como o tempo, meio corpuscular, meio entediante, meio sonolento de Outono morno, em ocres e vermelhos, das árvores que se vão despindo dia a dia.

Ele representa, na verdade, nada de coisa nenhuma em particular ... Talvez simplesmente, uma insatisfação e um vazio que constato na minha vida, sem se calhar o saber sequer descrever ...

Anamar

domingo, 6 de outubro de 2019

" VOLTA SALAZAR ... ESTÁS PERDOADO ! "




O 25 de Abril encontrou-me já com filhos nascidos.
Trazia atrás de mim, portanto, alguns anos vividos.  Nasci, cresci e fiz-me gente na vigência do Estado Novo, que vivenciei durante tempo suficiente, para lhe perceber e sentir os mecanismos e as manhas.
Sou alentejana.  Nasci num chão de miséria, de injustiça e de infâmia.  Tenho no sangue a coragem, a luta e a determinação, e no coração, a esperança, a convicção e a altivez que nunca permitiu que vergássemos e baixássemos a cabeça.
Sou de uma raça que quebra, mas não dobra.  Mas pura de alma, honesta e trabalhadora.  Resiliente e corajosa.  Gente que enfrenta e não foge ... leva adiante, se acreditar !

Lembro o tempo do pão dormido, da açorda temperada com um fio minguado de azeite, na janta, quando os senhores da terra se compadeciam dos assalariados que nos Invernos rigorosos não podiam trabalhar os campos, e não ganhavam.
Lembro o tempo da fome, do analfabetismo, da ignorância e do obscurantismo.
Das injustiças sociais e suas assimetrias carrascas, das desigualdades, das arbitrariedades, da exploração ... do domínio dos poderosos, e da servidão do povo.
E do que não lembrasse, os meus pais se encarregaram de mo contar.

Sou oriunda de uma classe social  média baixa, da chamada gente remediada.
Sou filha de pessoas humildes, que viveram sem outros proventos que não o seu trabalho.  O meu pai foi um comerciante no ramo das ferragens, a minha mãe, uma simples doméstica que concluíu a instrução primária apenas já adulta.  Gente honrada e trabalhadora.  Não mais !

Estudei, contudo.  Cursei uma Faculdade no tempo da ditadura.
Lembro as perseguições políticas, lembro os medos e os silêncios.
Lembro as invasões da Faculdade pela polícia a cavalo e a brutalidade usada indistintamente, os jactos de tinta lançados sobre os manifestantes, que o ousavam.
Lembro a Pide, e os "desaparecimentos" súbitos deste ou daquele colega.
Lembro a Guerra do Ultramar, onde milhares de jovens perderam a vida, ou a estropiaram.
"Para Angola, rapidamente e em força!" - dizia sem respeito, Salazar, em Abril de 1961 ...
Lembro os auto-expatriados, como saída única de fuga à mobilização.
Lá fora, sem opção, longe da família e o coração em sangue, viam o seu país sem esperança, a fenecer, a morrer aos poucos ...

E Abril de 74 chegou, e com ele, sementes de esperança, de fé e de liberdade desceram sobre todos nós.  Bençãos em que acreditámos.  Sonhos que voltámos a sonhar.  Causas que voltaram a valer a pena.  E fé ... de que então era a hora ...
Portugal acordou renascido naquela madrugada !
Demo-nos as mãos, derrubámos as diferenças, levantámos pontes e caminhámos juntos, porque era tão grande a felicidade, que não cabia num coração único !

E a democracia chegou, como presente de Natal, com laço e fita.  Foi o nosso bem maior !
Foi difícil, foi suada, foi experimentada, foi aprendida, dia a dia, passo a passo.
Caímos muitas vezes, levantámo-nos outras tantas.  Fomos mantendo a esperança no acreditar em ideais que nos guiavam.
Os valores de Abril foram perseguidos, doídos e paridos com muito sofrimento ao longo dos tempos e das vicissitudes de cada tropeço.
Porque os aprendi na pele, tentei transferi-los adiante.
Desde logo, o uso da verdade, a isenção, a coerência, a honestidade.
Desde logo, o esforço e a aposta nas convicções, com seriedade e responsabilidade, com verticalidade e carácter ... sem desistência ou abdicação, doendo a quem doer, custando o que custar, com frontalidade e sem medos ... em todas as circunstâncias da vida de cada um.

Chegámos ao hoje.  Hoje é um dia duplamente carismático na História do meu país.
Hoje é o dia em que se comemoram os 109 anos da implantação da República em 1910, marco histórico na História de Portugal, e hoje é também o dia de reflexão às vésperas das eleições legislativas para a Assembleia da República, que se realizam amanhã.

E a que se assiste, neste momento ?

Reflectindo sobre os anos andados em jogos políticos oportunistas, em jogos de bastidores pouco saudáveis e claros, olhando os escândalos sucessivos em governações sucessivas ( na justiça, na saúde, na banca, no ensino ... entre muitos mais ),  constato tristemente que nos tempos actuais se atingiu um clima generalizado de suspeição sobre tudo e todos.
Suspeição sobre a seriedade de pessoas, suspeição sobre a informação difundida pela comunicação social (onde as fugas de informação sobre casos mediáticos, justificam a proliferação da mediocridade e do sensacionalismo informativo ).  Suspeição sobre as instituições, sobre os órgãos de soberania, sobre as classes e estruturas políticas e sociais, totalmente descredibilizadas.
Neste momento, os compadrios são descaradamente visíveis.  Os negócios suspeitos e pouco transparentes, grassam.  O hermetismo de instituições acobertando apenas troca de favores e ganhos ilícitos, proliferam encapotadamente.
A mentira alastra e os órgãos que deveriam ser livres e independentes na investigação e defesa do esclarecimento e transparência de factos criminalmente censuráveis, são pressionados, silenciados e coagidos.
A corrupção, a falta de isenção e a fuga à verdade, driblam uma justiça manifestamente doente, limitada e ineficaz.
Parece termos voltado aos tempos tenebrosos do silêncio, da conivência, do favor, do jeitinho e do privilégio de alguns que se mantêm impunes, em permanente "estado de graça", intocáveis e acima da lei !... Aqueles que têm o poder de mexer a seu modo, as pedras do xadrês político e económico.
E os tempos vindouros, infelizmente,  não são sequer promissores, à luz de toda a conjuntura europeia e mesmo mundial !
Sinto-me profundamente triste, desconfortável, defraudada, estranha e revoltada, num país que devia ser o "meu", e começa a ser-me desconhecido.  Não sei viver a duvidar da minha própria sombra, com "fantasmas" ( outra vez ), a conviverem com a minha realidade !

Não foi seguramente para nada disto que os capitães de Abril saíram à rua !
Não foi seguramente para nada disto que pugnei para instituir e alicerçar valores sérios e puros, no seio da minha própria família !
Democracia será isto ?!   Ou, simplesmente fomo-la deteriorando na sua essência, com toda a mediocridade humana ?!...

Ouve-se por aí, perigosamente com demasiada frequência, mas talvez com algum entendimento, a frase : " Volta Salazar ... estás perdoado !..."
Ainda assim, e apesar dos pesares, prefiro a mensagem deixada na balada "Trova do vento que passa", saudosamente cantada por Adriano Correia de Oliveira nos idos de sessenta, do século passado :

" Mesmo na noite mais escura, em tempos de servidão, há sempre alguém que resiste ... há sempre alguém que diz não ! "

Teremos que acreditar !  Resta-nos acreditar !...

Anamar

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

" OS MORTOS - VIVOS "




Acho que ninguém apreciará este meu post.
O que é facto é que não posso só escrever coisas doces, soft, daquelas que eu sei que toda a gente gosta de ler.  Afinal, para chatice já basta a vida, dirão ... E o sonho deverá ser um imperativo, neste "vale de lágrimas"  ( como a Igreja Católica denominava esta nossa existência ... )
Apenas, dentro de mim, conflitos anunciam-se, turbilhões vivenciam-se, insatisfações impõem-se ... dúvidas também ... incertezas mais ainda ...
Sempre a minha vida se situa numa espécie de olho do furacão, sempre rodopia num vórtice imparável, sempre se coloca num limbo maioritariamente incómodo, por inseguro.
Em consequência, eu que já sou introspectiva, reflexiva e meditativa, com a "ajuda" da época do ano que atravessamos, questiono, se possível mais ainda, tudo quanto me passa pela cabeça.

Estou outonal ... estou entre os amarelos, laranjas e vermelhos do matiz da Natureza.  Contudo mais empalidecida, menos esfuziante ... mais "mate" ... mais "pastel" ...
Mais cansada  talvez, mais desmotivada seguramente.
Tenho uma vida um pouco rotinada, se calhar  demasiado rotinada.  Não sou de todo pro-activa em nenhuma vertente.  Sou mais de assumir uma postura  passiva, talvez pouco sonhadora já, e hoje em dia excessivamente pragmática mesmo.
Os tempos do mergulho no escuro, da inconsequência, do rumar sempre adiante desse por onde desse, do risco  ( cuja adrenalina não podemos ignorar que fascina ), parecem ter esmorecido um pouco ...
Hoje, "peso", "sopeso", penso e repenso ... Como diz um amigo, coloco as minhas dúvidas existenciais, de "um tomate para o outro" ... se os tivesse.  😄😄😄
Ou seja ... os cinzentos parecem estar a baixar ao meu pedaço !

À minha volta, as vidas que se vão fazendo, também nada têm de brilhante.  Pessoas atulhadas de problemas, de impasses, de cansaços e desencantos, como alguém que por acaso nada, não a favor, mas contra a corrente.
Saúdes débeis de muitos, sucessos ou realizações, que seriam gratificantes ... nada !  Apesar de determinações, esforços e trabalho exaustivo e metódico, de alguns.
Ou então, sou eu que tenho um "galo" desgraçado e só me movo em ambientes e entre personalidades pouco bafejadas pela sorte ... que também faz falta, claro.

O café que frequento no pequeno almoço, está chato e sem graça.  Foi, diariamente,  local de encontro de amigos, de tertúlia nuns dias, de sossego que me permitia ler e escrever, noutros.
Havia grupos certos, ponteando as diferentes mesas, e as pessoas saudavam-se, trocavam-se as "últimas", perguntava-se pelos ausentes ... sabia-se dos presentes ...
Hoje, as "baixas" são absolutamente notórias.  Os frequentadores, são maioritariamente idosos.  Aliás, trata-se de um espaço que é ex-libris da minha cidade, com mais de cinquenta anos de existência.
Hoje, falta um, falta outro ... doenças e mortes, têm ido levando a população ainda resistente.

E fica um clima assim  triste e meio desconchavado...
Animo-me se o horizonte me acena com uma fuga a este panorama.  Mas, esse "estado de graça", em qualquer situação, sempre é obviamente pontual.  Se depressa parto, parece que mais depressa chego ... e tudo recomeça ...

Hoje em dia percebo que as pessoas sem obrigações profissionais, ou com trabalhos auto-geridos que lhes deixam espaço de manobra nas vidas, vivem incompreensivelmente do meu ponto de vista, entupidas, afobadas com hobbies, com interesses exageradamente exigentes, com preocupações e iniciativas que se percebem excessivas, por tudo e alguma coisa que lhes ocupe o tempo e preencha as rotinas e os vazios. 
É um "non stop" de actividades ... é um exagero de ocupações pouco saudável, que me cheira a artifício montado !

E se possível, acabam correndo hoje, mais do que quando trabalhavam em "full time".
Ele são exposições, ele são museus, passeios temáticos, tertúlias de toda a ordem, clubes de vocações variadas, leituras exaustivas e enfiadas "goela abaixo" indistintamente ... Como se, e é o que por vezes se me afigura, andassem numa espécie de serviço ocupacional rodopiante, que lhes represente um significado de "vida", desde que não lhes deixe nenhum tempo livre, sobretudo para pensarem, ou equacionarem uma profunda e real solidão.
Como se, talvez inconscientemente ou não, estejam em permanente fuga para a frente, de qualquer coisa que na realidade lhes perturba a vida ... enquanto se acham e dizem bem.
Parece-me do que analiso, que o ser humano que usufrui de tempos mortos, com excessiva frequência ( em vez de eles serem uma mais valia na sua existência ), foge deles a sete pés e pretende atordoar-se de alguma forma. 
Talvez para não consciencializar o vazio das existências, a inconsistência dos sentimentos experienciados, para não questionar a relevância do existir ... ou para não se confrontar com o cinzentismo das vidas.

Não sei.
Sei que hoje estou cáustica e profundamente amarga, como comecei por dizer.  Mas, ainda assim, em lugar de sentir que estou perto de gente viva, percebo estar mais perto de mortos-vivos convictos de que existem, quando talvez já tenham morrido sem que o hajam percebido !...

Anamar

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

" O QUE SERÁ, QUE SERÁ ?... "




Ando a ficar um pouco interrogativa perante certas coisas da vida.
Pergunto-me se estou a ficar velha, ultrapassada ou com a intolerância típica de quem já não tem muita paciência, nem se obriga a fazer fretes.

Pertenço a um Clube de Leitura a que aderi há alguns anos, quando procurava entupir-me de iniciativas para ocupar um tempo que me sobrava e uma solidão que me sufocava.
Já há alguns anos portanto, que me incluo nessa tertúlia de um grupo de pessoas que têm em comum ( apesar de em alguns casos já pré-existir alguma amizade antiga, ou mesmo familiaridade entre elas ), o gosto pelos livros e pela leitura.
É uma forma de nos "obrigarmos" a ler, a conhecer estilos e autores diferentes, e depois mensalmente, a pretexto de discutirmos os conteúdos, comentarmos e sobre eles dialogarmos e trocarmos opiniões e sensibilidades de análise, convivermos à volta de uma mesa, onde, claro, à boa maneira portuguesa, não faltam as vitualhas  com que cada um comparticipa para um lanchinho aconchegante.
Isto ocorre mensalmente, como disse, e sempre que possível, contactado o autor ou a autora do livro em discussão, o mesmo honra-nos com a sua presença e simpatia.
Temos abordado variados autores, mais ou menos actuais, muitos portugueses, com obras referenciadas, premiadas algumas, na ribalta muitos deles, no panorama intelectual do nosso país.

Até aqui nada de especial, ou que tenha justificado a razão deste meu post.
Acontece que ando preocupada e desiludida comigo mesma.  Estarei a perder qualidades ... ou ... ?

Verifico que há tempo de mais, não tropeço numa obra que me preencha o espírito, que me encha as medidas ...  um daqueles livros inesquecíveis, que pelo conteúdo e pela forma, nos empolga, nos deixa plenos ... Uma espécie de livro de "uma vida", como costumamos dizer.
Acontece-me o mesmo em relação a filmes, embora nos últimos anos eu  ande um pouco arredia das salas de cinema, e em casa, pela televisão, o glamour da sétima arte nunca é igual.

Acho que hoje em dia toda a gente escreve, toda a gente canta, toda a gente é "capaz" de fazer qualquer coisa, em qualquer área ...
Não parece ser exigível a vocação que antigamente entendíamos como determinante para o efeito.
Não parece ser imprescindível haver aquela "queda", aquela coisa nata, que dantes achávamos ser dom de uns e não de outros ...
Nada disso.  Hoje as pessoas parecem ser totalmente ambivalentes, mesmo polivalentes, ou pelo menos, "acham-se" ... como dizem os brasileiros.

E talvez por isso, ou só por isso, dou por mim a esbarrar com frequência de mais, com experiências negativas, sobretudo na área da literatura.  O que, claro, me traz à cabeça quase sempre a escrita dos clássicos da nossa língua.  Mas não só, evidentemente.
Não sou de ler qualquer coisa.  Ler por ler ... compulsivamente.  Engolir tudo ...

Mas ...

Como era delicioso ler um Eça, um Aquilino, Jorge Amado, Redol, Virgílio Ferreira, Namora, Manuel da Fonseca, Florbela, Eugénio de Andrade ... mas também, Rodrigues dos Santos, Isabel Allende, Elena Ferrante, Miguel Sousa Tavares, Maria Dueñas, Beauvoir, Garcia Márquez, Somerset Maugham, Erico Veríssimo, Machado de Assis, Mia Couto, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Hemingway ... e tantos, tantos outros, nacionais ou não ( aliás, é altamente redutor referir simplesmente nomes que de rompante me vieram à cabeça ) !...
Não precisarei obviamente falar de um Pessoa, de um Lobo Antunes, Saramago ou Agustina ...

Sempre houve escritores com uma escrita hermética, mais difícil, mais confusa e intrincada  ... mais "chata" mesmo.
Sempre se comentou haver autores quase intragáveis, em cujas obras se pegava e muitas vezes nunca se lhes atingia o fim.  E no entanto, "monstros" da escrita, que dispensam apresentações ou sequer galardões.  São insuspeitos !

Sempre houve.

Mas hoje em dia ... ( e volto ao princípio ), começo a preocupar-me comigo mesma, porque seguramente sou eu que já não reúno aptidões valorativas, capacidades intelectuais de análise e crítica... Com um bocadinho de jeito, até de entendimento.
E daí eu falar em senilidade, quiçá burrice instalada.
É que, neste momento, tenho andado no degredo de ler obras ( escolhidas no Clube, como disse ), que "corto um dobrado" para conseguir atingir os respectivos epílogos.
É um esforço titânico ler páginas atrás de páginas que não se entendem, não fazem sentido, não são escorreitas, claras, simples, com nexo ... perceptíveis ao menos ...
Parece que quanto mais rebuscada é a escrita, mais intrincada a mensagem, mais confusa a linguagem, mais desconexa a pontuação das frases que parecem amontoar-se simplesmente ... maior é a " obra prima" !
Será que quem escreve tem a presunção de se colocar num patamar intelectualmente superior ao leitor  comum, articulando histórias sem história, frases que têm que ler-se duas e três vezes, páginas que têm que se voltar duas e três vezes ... livros até, em que as pessoas saltam episódios, vão à frente, voltam atrás na esperança de encontrar um fio à meada ??!!  E que isso seja sinónimo de qualidade ??!!...

Bom ... não deve ser nada disto !  Devo ser eu que estou a ficar limitadita ... burra, seguramente ... ou ultrapassada !
Vão ver que os padrões de escrita, de boa escrita para a qual fui treinada, ensinada e incentivada desde a primária ... estão completamente ultrapassados, fora de moda, caíram em desuso ... são coisa do passado, mesmo !
Vão ver que a correcção linguística, gramatical e até formal, da articulação de ideias com princípio, meio e fim ... também já não interessam nada !

As pessoas não se expõem.  Os leitores defendem-se para evitarem rótulos.  E são mesmo capazes de aplaudir, louvar, demonstrar fascínio ... Eu silencio a minha perplexidade ... "Onde ? " - questiono-me ...

Pergunto-me o que teriam a dizer sobre tudo isto ( nem preciso chegar ao Camões ou sequer ao Pessoa ) ... fico-me só pelo Eça ... sempre actual, sempre contemporâneo ??!!...

Anamar

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

" HOJE ESCOLHI FALAR DE SOLIDÃO "



As pessoas queixam-se de solidão.
Entendo que solidão não é propriamente aquele sentimento que advém de estarmos sozinhos, sem ninguém por perto.  Até porque muitas vezes, nós somos mesmo os melhores companheiros de nós próprios . Nós escolhemo-nos, e não é uma situação de desespero de causa.

Para mim, solidão não é sequer não ter interlocutor, até porque ao longo do dia mantemos conversas de circunstância com milhentas pessoas mais ou menos conhecidas, que connosco se cruzam, sejam conversas acidentais, sejam um pouco mais sérias.  Mas só !
Sei que vivemos em "colmeias", como já aqui lhes chamei, em que de uma célula habitacional para outra, ninguém sabe nada de ninguém.  Ou, sabe o estritamente indispensável.  As pessoas conhecem-se, às vezes há 40 anos ou mais, mas ... não se conhecem, de facto !  É assim !...

Nos meios pequenos há uma proximidade aparente entre os conterrâneos.  Aparente e apenas na base do "diz que diz", da coscuvilhice, das "novidades" com que as gentes têm que ocupar, afinal, os seus tempos.  Isso parece "colmatar" a solidão ... mas só parece !

Também sabemos que podemos estar rodeados de muita gente, e absolutamente sós.  Não obrigatoriamente em solidão !
Sós, porque não empatizamos, sós porque não conhecemos, sós porque não gostamos daquela situação pontual que estamos a viver.  Sós, por opção ou escolha assumida.  Não em solidão !

E sós numa relação ... quantas e quantas vezes ?! Também existe ... e tanto ! Porque as pessoas passaram a desconhecer-se, porque as pessoas viraram já as costas ... sós, porque o projecto que era dos dois, deixou de o ser !  E essa situação é de doer mesmo !  Vidas aparentemente comuns, vidas que se desenrolam lado a lado ... apenas !
Há presenças, num caldo de uma assustadora ausência ... chamo-lhe, de "vida" !...

Depois há os amigos, uns mais próximos que outros.  Alguns que vêm lá de trás, do tempo da inocência e da ingenuidade, em que, sem conhecermos ainda as hipocrisias sociais, tudo se contava, tudo se falava, tudo se cumpliciava, tudo se dividia, sem temores.
Ainda não existiam os medos da censura, dos julgamentos, da não aceitação, das "punições" implacáveis da sociedade que viríamos inevitavelmente a conhecer mais tarde, e que sempre está pronta a estender um dedo acusatório.
Mas muitos, perdemos pelo caminho.  A vida quase sempre se encarregou de disseminar as pessoas por aí, nas suas próprias realidades, e o afastamento acaba por impor-se.

E se os amigos nós escolhemos, que dizer da família, que nos calhou na "rifa" ???
A família vai-se perdendo também. Força das circunstâncias.  Hoje vão uns, amanhã vão outros, e vão ficando apenas as recordações de outros tempos e de outras vivências, que o foram em comum.
Os nossos, aqueles de sangue, bem nossos mesmo, também nas suas vidas, e àparte serem já de outras gerações distanciadas da nossa, não têm tempo, paciência ou mesmo compreensão para as nossas coisas, para a nossa linguagem, para a nossa forma de entendimento.  A realidade virou, num curto espaço temporal, de cento e oitenta graus, e pouco do "de ontem" consegue encaixar-se no "de hoje" !

Em suma, há múltiplas formas de as pessoas se sentirem sós ... Repito ... do meu ponto de vista, não obrigatoriamente  em solidão !

Então afinal, o que entendo eu como solidão ?  Para mim, solidão é bem outra coisa.

Entendo sentir-me efectivamente em solidão, não quando não me restam alternativas que não seja, por exemplo ficar no silêncio do meu quarto.  Isso, pode simplesmente ser uma escolha pessoal.  Pode ser-me absolutamente necessário, por reequilibrante e desejado.
Solidão não significa não ter encontrado quem queira acompanhar-me ao cinema, por exemplo.  Isso é meramente um acidente de percurso, sem nenhuma importância.

Solidão é não encontrar linguagens comuns, sentires que identificamos como próximos, entendimentos desarmados, sem baias, restrições ou cautelas ...
É não encontrar corações abertos e disponíveis, a quem possamos escancarar as nossas maiores "misérias", sem medos ou pudores, sabendo que ali está um porto de abrigo, uma escora, um suporte, um amparo. É não encontrar alguém que saiba ler dentro de nós !
É não encontrar quem nunca, seguramente, nos deixará cair ...  que não julga, não crucifica, não faz juízos de valor negativos e destruidores ...
O que não significa  que precise de manifestar concordância incondicional connosco, e que não tenha capacidade e frontalidade  mesmo, de discordar severamente deste ou daquele ponto.  Isso será salutar, amigo, fraterno ... isso será afecto, carinho e amor !

Penso que terei sido clara.  Tudo isto, para mim ... sim ... é que é SOLIDÃO !...

Anamar

domingo, 11 de agosto de 2019

" REALIDADE "






A vida, leva a vida a sofrer de desencontros.  A sofrer de destempos, de desocasiões, de momentos furados ...
Em jovens, quando estamos cheios de gás, de fé e de convicções ... quando temos a garra de alcançar entre as mãos, o mundo todo ( porque tudo parece possível ), pela nossa imaturidade, ingenuidade e incapacidade, não podemos dar o passo ... porque a perna ainda é curta !
As limitações que se nos colocam, as exigências familiares, sociais, as dificuldades e as desilusões que nos vão começando a sombrear o caminho, como nuvem que nos escurecesse a alma, tratam de refrear-nos essa ânsia de vida, de poder e de sonho ... Reduzem-nos a "caixa de velocidades" ...
São  inerentes aos verdes anos, a utopia, a inconsciência doce, alguma irresponsabilidade natural.

É uma fase da vida em que, aberta a malfadada porta da adultícia, que ironicamente ansiamos que se abra, a realidade nos cai em cima ...
A vida, a bendita da vida com que nos têm enchido os ouvidos na doçura da nossa adolescência ... a vida real, dura, exigente, impiedosa e  intolerante, saca-nos  cá  p'ra  fora do bem  bom, e diz-nos : "anda ... faz-te à estrada !  Agora é mesmo a sério !..."
Entramos na montanha russa.  Temos todos os sonhos do mundo ... ainda ... Não temos capacidades de os viver !
Estamos aí, na luta, errando, acertando, escalando as montanhas, saltando os precipícios, e tacteando ... passo a passo, na exigência de uma sobrevivência digna e gratificante.
Temos sonhos, força, juventude ... e ausência de tempo para os concretizar ...

Os anos seguem, desenrolam-se mais ou menos pacificamente. Atingimos seguramente algum estatuto social, graças ao esforço desenvolvido. Ocupamos um lugar, somos respeitados, amarinhamos a pulso a encosta da pirâmide, na certeza de que havemos de chegar ao topo.  Porque afinal, os sonhos ainda não nos abandonaram. Longe disso !  São-no mais maduros, mais realistas, mais assertivos.
Constituímos famílias, às vezes precárias porque as escolhas não caíram no bilhete premiado ... e continuamos.
Economicamente sentimo-nos confortáveis.  Segurança é uma palavra que começa a incorporar o nosso léxico de vida.  Realizações, também.  Saem-nos do corpo e da alma. A competição é desenfreada, monstruosa, é dura, é intolerante e incomplacente. Profissionalmente tornamo-nos um pouco "workholics" ... Não há escolha. O mérito virá da competência !

Não há, é tempo ... Acreditamos que apenas "ainda" ... porque haveremos de chegar lá !
Haveremos de poder usufruir daqueles paraísos com que as agências de viagens nos enchem os olhos.  E com a pessoa certa ao nosso lado !
Haveremos de realizar aquele sonho maluco que nunca ninguém entendeu ... mas que era nosso !...  Haveremos seguramente de ter tempo.  Por ora, temos que continuar a escalada ... Os putos estão a crescer, as necessidades a aumentar, as responsabilidades, também.  Terá de ser adiante.  Por agora, ainda não dá !

E a vida anda ... inapelavelmente.
Os cabelos começam a branquear-nos as cabeças. As crianças já são pequenos adultos à nossa volta. Deixámos o Corsa lá atrás, e já andamos de Audi 4, porque é mais seguro.  Somos respeitados, ou talvez o devêssemos ser, se tivermos em conta os joelhos escalavrados e as solas dos sapatos que gastámos.  Pensamos que estamos a cumprir o nosso desígnio.  Procuramos dar exemplos de equidade, justiça, honestidade, seriedade, respeito e todos aqueles que agora não me ocorrem ...
Temos a casa de fim de semana, vamos na segunda ou terceira relação, porque as anteriores ou se desfasaram no tempo, ou as vidas não nos deram margem de as viver em pleno, em verdade.
Os amores seguiram, quantas vezes, trilhos distintos, deixando para trás as juras que ainda ontem fizéramos ...

Mas a vida que leva a vida a sofrer de desencontros, de destempos, de desocasiões e de momentos furados, começa a opacizar-nos a mente e a vontade.  E os sonhos tão sonhados, almejados, e acreditados, já não encontram forças em nós, para os buscar lá atrás, e viver ...
O tempo que era ... já foi !...
Perdemos a frescura, a ingenuidade e a fé ... A oportunidade já não é oportunidade de coisa nenhuma, porque as cores da paleta com que agora se pintam os nossos dias, esmaeceram-se ... de cansaço !
Se calhar, a vontade já não tem a garra de agarrar mais nada nesta vida, entre as mãos ... As ilusões, que o foram no tempo em que não havia tempo nem condições de as agarrar, cansaram ...

Hoje, se alongarmos o pensamento para o que ficou, percebemos claramente os encontros e desencontros com que a vida e os anos brincaram connosco !

Amargo, este meu texto ???!!!
Infelizmente,  penso  que  não.  É tão só um quadro a preto e branco da história da nossa estrada ... julgo !
É, como lhe chamei, simplesmente ... REALIDADE !...

Anamar

segunda-feira, 29 de julho de 2019

" QUANDO DESCONHECEMOS OS FILHOS ... "




Acabei de estar a almoçar, com uma das minhas filhas.
Acabei de estar com esta, como poderia ser com a outra.  Juraria não ser diferente, esta sensação amarga e doída que experimento neste momento.  Um misto de mágoa, de tristeza, de desconforto, de frustração ... de raiva, mesmo !

A gente põe os filhos no mundo e chega à conclusão que deu vida a crias que nada têm a ver connosco.
E uma sensação de impotência, de revolta, de incredulidade, de estupefação também, tomam-nos conta.   De repente percebemos que temos à nossa frente seres com outras linguagens, com outras verdades, que vivem noutras realidades, que valorizam outras coisas.
De repente, percebemos que andámos a perder tempo nas nossas vidas lá atrás.  Que tantas vezes hipotecámos, por conta, as nossas vidas lá atrás ...
Como se tudo aquilo que quisemos ensinar e transmitir, tivesse caído em saco roto.  Como se tudo, valesse nada !!!...

Dou por mim a achar que passaram por nós, eras temporais de afastamento.  Dou por mim a perceber que anos-luz de distância se instalaram entre mim e elas.
E o que tenho à minha frente, são duas estranhas, que não sei, não conheço, não entendo.  Duas pessoas que não me conhecem, não me entendem, não me sentem.

O mesmo sangue nas veias ?!  O que é isso ? - pergunto-me.

Tenho vivido equivocada.  Julguei que talvez tivesse feito o meu melhor, à luz dos parâmetros que me formavam, em termos dos valores recebidos, da educação adquirida, sentimentos enquadrados.
Julguei.  Mas, certamente, não foi nada disso !

Interrogo-me e culpabilizo-me.  Errei onde ?  Falhei quando ? Será que me distraí ?  Será que me omiti ?  Será que me fechei sobre mim mesma, e achei que tratando das fraldas, dos sarampos, das amigdalites, das dores de barriga, dos deveres escolares, da transmissão de ensinamentos e princípios norteadores que tomei como fundamentais e determinantes, bastaria ?!
Será que fui egoísta ao ponto de desvalorizar talvez, o fundamental ?
De defraudar mesmo, as suas expectativas ... e não me apercebi ?!
Será que dialoguei pouco, que sentei pouco no colo ?  Que acalmei pouco os pesadelos e não escutei os sonhos ?
Será que acariciei de menos, que fechei ouvidos ao que se calhar, pretendiam dizer-me ?
Será que fui dura em excesso, exigente demais ...
Será que dei pouco amor ... ?
Será que deixei que a vida, sempre a vida, com todos os seus tropeços me tirasse do foco, me endurecesse, me enconchasse sobre mim mesma e me tirasse espaço afectivo no coração, para elas ?!

Oiço muito disto, à minha volta.
Sei que há muitos pais e mães que sofrem hoje, por todas as mazelas deixadas ao longo das vidas.  Por culpas que se atribuem, por feridas abertas e não saradas, que parecem mesmo infeccionar-se mais, com o correr do tempo.
Mas também conheço casos de sucesso absoluto, em que filhos e netos, totalmente entrosados, vivem no sétimo céu.
As pessoas respeitam-se, conversam pacificamente, não desconversam ... entendem-se, não se agridem, divergem mas nem por isso se desvalorizam, entreajudam-se ... fazem-se presentes sempre ... em todas as circunstâncias ... partilham momentos bons e momentos menos bons no dia a dia.
As pessoas, amparam-se ... Fundamentalmente, as pessoas AMAM-SE !

E pergunto-me, onde terão aqueles pais e aquelas mães, hoje já avôs e avós, aprendido a fórmula secreta para um tão grande acerto ?!
Será que nas realidades familiares, as culpas ou os sucessos, só serão de um lado ?
Será que estamos perante pais e mães de eleição e filhos extraordinários, versus pais e mães energúmenos, impreparados, incompetentes, que nunca o deveriam ter sido ( como já ouvi ), e filhos incarnando potenciais " monstrinhos" ?!...

Não posso ir por aí.  Não posso aceitar carregar em exclusividade toda a culpa do mundo, se falhei, se errei, e se os sentimentos entre as pessoas estão feridos de morte.
Se em vez de filhos, tenho à frente seres cuja presença, em vez de me ser gratificante, amorosa e portadora de felicidade, me faz mal, me deixa mais e mais destruída, e cujo distanciamento me surge como a única solução possível para um convívio minimamente aceitável e penoso ...
Angústia.  Uma profunda angústia é o que me fica.  Tristeza, é o que sinto no coração.   E culpa.   Mais culpa ainda, por estar a conseguir verbalizar tudo isto que aqui deixo, nestas palavras.

"Tu é que és a mãe.  Tu é que tens que dar o primeiro passo "- oiço, de quando em vez.
Mas qual passo, se esbarro no desconhecido, no incompreensível ... se encalho numa parede, se encontro um fosso e não uma ponte ?!...

Que mãe, afinal, serei ?
Qual a imagem materna que lhes represento ?
Quanto de sofrimento nos impomos, com toda esta incompatibilidade de linguagens ?
Seres de costas viradas ...  Seres que optam por separarem as vidas, por defesa, por sobrevivência, por inexistência de opção ...
" Carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue " , diz-se ...

E no entanto, pais e filhos ... E no entanto, vidas tão curtas, sem direito a reescrita ou escapatórias ...
E no entanto, tanto que fica por dizer-se, tantas palavras que secam na garganta antes de se soltarem, tantos olhares que não se trocam e se evitam, tanta ternura que se perde antes de nascer ... tanto amor que estiola como planta à míngua de água ... tanto, tanto que lembramos,  arrependidamente  e  sem remédio,  tarde  de  mais ... quando  tudo  já  terminou !!!...

Anamar

sábado, 6 de julho de 2019

" PAUSAS "




Há momentos em que a vida pausa.
E se não formos nós a determiná-lo, parece ser ela mesma que se encarrega de o fazer.  É como um bolo que para crescer, precisa de levedar.  É como uma casa que acumulou pó ao longo do tempo, e em que há que abrir as janelas para que areje, por irrespirável que o ar se tornou.

E às vezes nem há propriamente nada que despolete a mudança.  É ela que se impõe.
Não quer dizer que se deitem fora os móveis, que se troquem as cortinas, que se mudem as colchas.
Se calhar, dá-se uma pintadela, troca-se o lugar das coisas, puxa-se o brilho ao soalho, manda-se polir aquela escrivaninha velha, colocam-se flores nas jarras e ... opera-se o milagre :  passa a ver-se e a perceber-se tudo com outros olhos, outros sentires, outra linguagem.  Recomeça-se a vida naquele espaço ...

Há momentos em que a vida mofa, de parada, de extática, de estagnada, de cinzenta.
E fica incómoda, cansativa, nauseante, sem graça.  E aí, tem que se agitar, como uma bebida no "shaker".  Faz mais mal que bem, vivê-la !

Tal como a História que tem os momentos marcantes que a escrevem e a determinam, assim a história das nossas vidas se vai fazendo por parágrafos, por mudanças de linha, por hiatos, por pontos de interrogação e exclamação, por reticências ... às vezes, por pontos finais.
E vira-se a página, ainda que nem seja a vontade que impere.  É o ciclo da existência, simplesmente ...
Não sabemos o que virá.  Sabemos que "aquela" vida, como está, não tem pés para andar.
Muitas vezes não sabemos sequer o que deverá ser ... sabemos é que o que é, mata e destrói.
E é ela, a vida, que nos põe à frente um sinal de stop, tão imperioso ele se afirma !

Então, há que reflectir, repaginar, valorizar desapaixonadamente o essencial do que fica, não alimentar rancores do que parte.  Aproveitar sempre o que se aprende, procurar melhorias no que virá.  Não desprezar nunca, valores e sentimentos, se essenciais.  Retirar a espuma sobrenadante e aproveitar sempre, o lastro residual, por ser sólido, seguro e valorizável !
Há que sacudir a água das penas, como os passaritos, numa poça refrescante ... e levantar voo.

Há momentos em que a vida pausa.
Ela é mestra, sapiente, pedagógica.  É preciso é saber escutá-la.  Estar atento.  Dá sinais, como um corpo a adoecer. Como uma alma que entristece e fenece, ela tem linguagem própria.  E não adianta fazer de conta.  Não há analgésicos que lhe acudam !  Fede de apodrecimento, como fruta passada do ponto na árvore que a acolheu ...

Não arranjemos motivos, razões, bodes expiatórios, culpados ... alvos.  Certamente, por algumas e todas as razões do mundo, o destino desgastou, exauriu, esgotou ... descoloriu ! É assim ... é tão só, a dinâmica da vida !...
O Homem tem que sobreviver a ela. Como um ser racional, inteligente e  pragmático, é-lhe exigida a compreensão das pausas da sua vida.  E decidi-la.  Reorientá-la.  Sopesá-la.  Redescobri-la na sua essência, e no que lhe é importante.
Esse, será um sinal de inteligência !...

... porque há momentos em que a vida pausa !...

Anamar

segunda-feira, 24 de junho de 2019

" TÃO SIMPLES ASSIM ..."



Escrevo pouco, ando dispersa, desligada, indiferente.
Acho que um pouco vazia de emoções.  Experimento uma certa acomodação à vida, que me desafiava e já não desafia como antes.
Penso que rotinei em excesso, amodorrei, indiferentizei-me com o que me rodeia.  Vivo num encolher de ombros, tanto me fazendo que o sol brilhe ou seja cinzento o dia ...
Cansada.  Cansada, parece ser o vocábulo que mais me vem aos lábios.  Digo-o e digo-mo, vezes sem conta.  Quase todos os dias ...

Será que quando atravessamos uma grande tempestade, pouco já consegue abalar-nos ?
Será que quando olhamos a morte de perto, quando a percebemos realmente e com ela conversamos, ainda que noutro corpo e noutro coração, ficamos meio dormentes, como com uma ferida aberta que já não sangra mas continua a doer ?  Um doer lento, manso, como um resto de anestesia que nos ficasse no sangue, circulando de alto a baixo ??
Talvez passemos a relativizar a importância de tudo, a importância até da própria vida.
E percebemo-la tão pequenina, tão insignificante ... tão frágil, que toda a importância que ao longo dos anos lhe atribuíamos, toda a inquietação com que nos atormentou, não passaram de fogos fátuos, que se apagam na noite escura.

Sinto-me "entupida" de um desconforto destrutivo, e sinto-me só comigo mesma, falando-me de estados de alma que só eu conheço, que só a mim interessam, que só para mim têm significância, e que os outros não entendem nem aceitam, simplesmente porque não entendem mesmo.
Vem aquela coisa de empatia solidária de alguns ... "sim ... tem dias assim, em que acordamos com uma insatisfação atroz com tudo, com uma inércia que nos tolhe até os menores movimentos e vontades ... Comigo também "... bla bla bla ...
Parece que oiço as vozes, distingo as palavras, até vejo os rostos de quem, complacentemente, o diz, no intuito de uma espécie de compensação, ajuda, compreensão ... simpatia ...

Ou oiço os outros que não entendem, simplesmente porque não entendem a linguagem ... como dizia.
Porque na verdade, na realidade ... porquê, sentir-me assim, sem alegria de viver, se a vida parece ser tão importante ?!

A vida, a sua justificação, o seu significado, o seu interesse, a sua lógica, são as tais questões existenciais que, se começamos a questioná-las, está tudo perdido ... para não usar um português mais vernáculo ...
Em tempos idos tive um interlocutor nesta mesma onda.  Talvez de nada adiantasse, mas pelo menos existia uma compreensão empática das dúvidas que nos tomavam ...
Acho que ele encontrou um "modus vivendi", e vai seguindo.  O trabalho é uma excelente terapia.  Pelo menos retira-nos tempos de ociosidade e introspecção.  E isso, ele tem muito.
Eu não.
É espantoso como, quando estamos no activo, ansiamos atingir aquele patamar de vida em que teoricamente iríamos finalmente realizar isto, aquilo e o outro, para que não temos então tempo ...
Tolice.  Nada se passa dessa forma.  O tempo está mais vazio, de facto, mas falta o resto.  E o resto é a centelha de vontade, a exuberância da frescura, o quinhão de loucura que parece termos perdido por aí ... Faltam objectivos, porque parece que pouco nos falta já, fazer.  Já está quase tudo pronto.
Os filhos têm vidas próprias e resolvem as suas próprias questões.  Os netos cresceram ou estão a crescer, depressa de mais, quase à nossa revelia, com padrões e linguagens que já não identificamos bem.  A casa ou as casas que haveríamos de adquirir, já quase só são, uma dor de cabeça, uma fonte de despesas e preocupações. Os nossos ascendentes, grosso modo, já partiram e libertaram-nos das exigências que lhes eram devidas.  Praticamente todos os amigos que tenho já não têm pai ou mãe ...
Começamos a perder conhecidos e amigos ... Alguns deles, inesperadamente.  E a sensação de "orfandade", torna-se assim mais abrangente ... Os amores ... bom, os amores também já os vivemos.
Quando pensamos, dizemo-nos como seria bom apaixonarmo-nos de novo !  Sorrimos, ao lembrar ... A vida também já nos roubou sonhos, esperanças, fé.  A vida já nos apagou as chamas que nos ardiam no peito ... e não há tanto tempo assim, afinal !!!

Então, fica aquela coisa de "pão dormido" ... de "comida requentada" ... de balão furado ...
Falta gás, falta "élan", falta força, falta projecto ... faltam objectivos ...

Porque ...

Os objectivos norteiam a vida.  A falta deles amorfiza os dias e retira o ânimo e a vontade.
Nas empresas trabalha-se por objectivos que impõem ritmos, metas, orientam esforços, definem rumos.  A luta pelo alcance dos mesmos, estimula a superação, o aperfeiçoamento, o desafio pessoal, a capacidade individual. Diariamente devem ser condutores das nossas vidas, porque são o semáforo que, aceso no fim do trilho, chama, ilumina, facilita.  Sem eles, vive-se um pouco por viver.

O homem gera-os, por vezes por razões positivas, por vezes por razões negativas.
São eles que erguem diariamente o homem que clama por justiça, o homem que busca a vingança de ódios acumulados, o homem que luta pela reposição de direitos feridos ... o homem que pugna por ideais em que acredita.
São uma mola impulsionadora que nos empurra o sonho adiante, que nos alimenta o ego e nos dá força para continuar...

Deve então ser exactamente  tudo isto, e não mais !... Ausência  de  objectivos,  na  minha  vida ! Tão simples  assim !!!...

Anamar