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segunda-feira, 6 de abril de 2026

" DESABAFO "

 



Estou tal qual o dia que se pôs.  Sobre a manhã um sol meio embriagado da baralhação meteorológica que lhe impingiram, previsão de chuva depois de descarados dias de praias cheias, descida em queda livre p'raí de uns sete graus centígrados na temperatura, só para desfeitearem as mangas cava saídas às pressas dos roupeiros ... ainda dava para se planear qualquer coisa, sendo que neste caso a minha "qualquer coisa" resumia-se a uma caminhada pela mata.  O dia avançou, acinzentou, fechou, ficou quezilento, chato, com poeiras do Sahara a virem azucrinar a cabeça a quem estava por aqui em paz, desbundou numa tarde de chuva copiosa, desmotivadora para quem ainda tivesse veleidades.  O meu caso !...

Assim, redundei numa disposição profundamente belicosa comigo mesma.
Passo a explicar :  sabem aqueles dias em que nada de jeito ou proveitoso nos sai das mãos, do papel ou mesmo dos fracos miolos ainda em laboração ?
Tal e qual !  Apetece-me e não me apetece nada.  Afinal nada sai escorreito, nem em concepção, menos ainda em realização.
Preciso imprimir os posts do blogue desde Agosto 2025 ( Acho sempre que um dia os vou perder sem dó nem piedade ... ), a impressora também avariou.  
E digo "também", porque neste momento penso seriamente em ir à bruxa ou mesmo fazer uma defumação radical nesta casa.  Apesar de eu ter aquele bendito amuleto "olho gordo" contra a inveja que me foi oferecido pela Larissa, ucraniana e crente, em proteção à inveja e mau olhado, nestes últimos tempos, o seu prazo de validade deve ter caducado, pois a irredutibilidade da impressora fazer algo de útil é só mais um revés da lista de "desgraças" por aqui acontecidas.

Preciso pedir junto da Segurança Social, via online, a renovação de um cartão que me é importante.  Pois bem, a salganhada de requisitos é de tal ordem, que já desisti e amanhã vou em pessoa, ao espaço cidadão ver se desbloqueio esta "tourada" que arranjam, tenho para mim, que para desmotivar, quiçá desistir, maldade feita ao cidadão comum ...

Queria rever cassetes HI8 da câmara de filmar, quase desde a outra encarnação, até porque me solicitaram a cobertura de um acontecimento com largos anos de existência, para que pudesse ser copiado.
A Sony tem uma cassete enfiada no respectivo lugar, mas penso que encravada, não sai nem deixa entrar outra ...
Novo impasse ...

Talvez ler fosse uma boa opção, até porque o dia está nesse registo, até porque iria iniciar um livro ... mas ... também não é por aí !

Ver fotos, a partir dos discos externos ?   Upss !... Boa opção ... Ou talvez não !!

Sabem aqueles dias em que nada nos sai das mãos ou dito de outra forma ... em que nada  "f.... nem sai de cima ?" ... Pois é ... 
Com o que chove lá fora, dormir ainda talvez fosse o mais acertado !!!
Mas para deprimida já me chega o cinzento plúmbeo provocadoramente à minha frente, aliás prometido para toda a semana .

Vingo-me nas amêndoas  ... e enfureço-me com as mesmas !  Que espíritos iluminados me oferecem  amêndoas !!! 😡😡
Gozação com a minha cara ... só pode ser ! Avaliação do grau de determinação e auto-controle do meu
carácter ... teste à minha força de vontade ... ou simplesmente "gulodice" ... pqp !!!

Bom, estou irritada, desbocada, furibunda, suicidária ... é o que é !

"Prontos"... diria o outro.  Já desabafei e assim como assim, amanhã é outro dia !... 😭😭😭

Anamar

quinta-feira, 19 de março de 2026

" E PORQUE HOJE DIZEM SER UM DIA ESPECIAL ... "

 


Hoje é o Dia do Pai de acordo com o calendário religioso, neste caso Dia de S. José, pai adoptivo de Jesus, liturgicamente falando.

Não sou dada a estas efemérides.  Cada vez menos sou dada a festejar datas de calendário só porque sim.  Costumo dizer que tenho o meu calendário, esse sim que persigo, procurando não esquecer dias, momentos, ocasiões que por marcantes, justificarão para todo o sempre isto ou aquilo ... Essas sim, reais efemérides na minha vida.  E particularmente Dia de Pai, de Mãe, de Mulher, de Criança, bla bla bla ... para mim são-no apenas como pretexto para o comércio fazer mais umas coroas, nesta sociedade mercantilista, materialista ... demasiado oca e vazia !

Bom ... mas eu tive um pai, obviamente.  Era já entradote na idade quando eu nasci.  Tinha quarenta e oito anos e uma inclinação desmesurada muito mais para avô do que para pai.
O meu pai "padecia" claramente da "ternura dos quarenta" e daquilo que lembro, o seu papel junto de mim, foi sempre de protector, em excesso até, com uma preocupação exagerada com o meu bem estar, com as minhas necessidades, com a minha saúde, com a providência em permanência duma vida rodeada de tudo o que me faria e me não faria falta para viver.

Como vêem, falo dele com um distanciamento no mínimo estranho, como se na verdade estivesse a falar de uma personagem algo afastada do meu mundo.
Na verdade, costumo dizer que o meu pai passou na minha vida como alguém que não conheci. E isso foi exactamente assim ...

Já contei por aqui, algures num outro post, algures num outro tempo, que sou fruto de um segundo casamento do meu pai.  Do primeiro casamento extremamente curto temporalmente falando, nasceu um rapaz, cuja mãe teve uma vida fugaz com o meu pai.  Casaram, ela adoeceu com um problema à época muito grave, um problema pulmonar, tendo vivido apenas os seus dois ou três anos restantes de vida,  acompanhada de uma prima, nas Caldas de Monchique, lugar mais propício a uma melhora do seu estado de saúde.  
Acabou por falecer e do meu irmão ser criado com a generosidade de familiares, nem sequer directos, pois os avós quer paternos quer maternos, não reuniam condições para o fazer.
O meu pai que era viajante de uma firma de ferragens, palmilhava o sul do país, de terra em terra para angariar o sustento não só do filho, como também da família, pois sendo o mais velho de cinco, no Alentejo interior, foi ele que teve que se responsabilizar inclusive pelo futuro dos irmãos.  O meu avô, que não conheci, era pouco dado ao trabalho e aos sete, oito anos, como marçano de armazém, já era o meu pai que conseguia em parte matar a fome que certamente grassava. 
Estamos a falar no tempo anterior à Primeira Guerra Mundial,  estamos a falar do pão dormido na açorda, quando havia, e no tempo do pé descalço, em que para a maioria a escola era uma miragem.
Não sei sequer se o meu pai terá completado a quarta classe ... talvez não !

Foram seguramente tempos muito duros, tempos madrastos, tempos de silêncio e abandono ...

Já numa pré-adolescência do filho, o meu pai viria a casar com a minha mãe e nasci eu.  Aí sim, parecia a vida a compensar, a consertar-se.  Criaram um lar, reergueu-se a família ... ou parecia reerguer-se ...
Quando entrou na puberdade o meu irmão foi diagnosticado com uma doença mental, uma esquizofrenia que culminou, depois de muitas vicissitudes, num internamento que veio a estender-se por toda a sua vida.
Fiquei eu, ficou o carinho, o afecto, a preocupação do meu pai, focada em mim.  Em mim e só em mim!
O meu pai, como disse, viajava ... entrava e saía, oito, quinze dias depois. A minha mãe era a única timoneira da vida ...
Pouco lembro do meu pai, na relação familiar ... Dava-me beijinhos quando chegava, dava-me beijinhos quando partia ... trazia miminhos, como por exemplo fiambre para o pão, amêndoas de licor pela Páscoa, "deixa os livros, já chega  por hoje "... e o medo da repetição e o pavor do meu futuro, tudo guardado no silêncio que nele morava. Só silêncio !
Trabalhava, trabalhava mais, não falava, pouco me perguntava ... aninhava-me a roupa da cama ao deitar ... e sofria ... eu acho que ele sofria ... muito, por certo !

O meu pai é uma figura parda, nebulosa, que me atravessou a vida.  Nunca o conheci verdadeiramente! 
Choraria ao estar só ?  Acalmaria os seus tormentos no silêncio dos seus dias ?  Eu era o seu único e total amor, tenho a certeza !  Talvez se tenha orgulhado de mim ... não sei. Se sim, nunca mo disse.  
Comprou-me a Lolinha única boneca de porcelana que chorava quando se embalava.  Chegou numa caixa com um papel de florzinhas azuis, e vive comigo até hoje.  
Noventa anos depois, de alguma forma, ela representa alguém a quem devo a vida mas que tão pouco conheci !...

Anamar

segunda-feira, 16 de março de 2026

" HISTÓRIAS DAS VIDAS ... DELES ..."

                            

                                                                      Chico e Jonas

                                                                      Rita ( a primeira )
                                                                        Rita ( actual )

O Jonas vive comigo há catorze anos.  Quase os que tem de vida, já que me entrou casa adentro, com alguns, poucos meses.
O problema dos animais que vêm das ruas, de destinos incertos, é exactamente ser tudo ou quase tudo estimado por palpite.
Existia a Rita, ainda, já velhinha e que viria a partir em 2013.  O seu único companheiro que também já havia partido, fora o Óscar, tanto de lindo quanto de mauzinho.  A Rita, que foi então o animal mais dócil que tive até ao "reinado" do Jonas, habituada que estava ao monopólio de quase tudo aqui por casa, acho que entristeceu com a entrada deste amiguinho que podia bem ser filho dela.  
Reguila, imparável, brincalhão, provocador como o são todos os gatos bebés, acabou com o sossego da sua vida.
Ela queria paz e descanso e usufruir apenas, penso eu, das mordomias séniores de quem já viveu e conheceu muito do que haveria a conhecer na vida de um gato ...
O Jonas não percebia, nem podia perceber que a companheira dos seus dias preferisse passá-los ao sol, pelas nesgas largadas nos tapetes em janelas semi-abertas, nem que as horas de sono a que sucumbia, a tornassem num imprestável brinquedo, nem entendia sequr que ela não corresse atrás de bolas e bolinhas ou mesmo da própria cauda, numa postura insana ...
O Jonas não podia perceber ...

A Rita adoptou então, a estratégia do isolamento, procurou destinos mais discretos, aproveitou roupeiros meio fechados ou até o abrigo do assento de uma cadeira passou a servir de escudo protector daquele endemoninhado com energia pra dar e vender ...

O tempo passou, não muito ... Escassos meses escoaram no calendário até que o stress duma vida tumultuada em excesso, já no seu declínio, antecipou ( hoje estou certa disso ) o dia em que a Rita desistiu e resolveu ir embora.
Carrego esse peso de consciência, porque acredito que, à semelhança dos humanos, também os nossos companheiros de quatro patas encaram as exigências da idade sénior com as inerentes características ... a paz, o sossego, o privilégio de momentos de silêncio...
A Rita foi embora deixando uma saudade sem limites, ela que criou comigo uma relação de afecto e companheirismo inimagináveis para mim, entre um animal e um ser humano.  Faltava apenas falar a minha linguagem ... porque a sua, eu percebia com toda a clareza ...

O Jonas foi crescendo, obviamente, tomando conta do "pedaço", sentindo-se senhor e dono, até de mim, que apanhou frágil e saudosa.
Começou a "aprender" a conversar comigo, começou a desenvolver um amor de reciprocidade com a minha existência muito só e silenciosa, a dormir por opção em "conchinha" no calor do meu édredon, a entender as minhas regras, a ser a minha sombra ...
Mas eis que chega um pedido de adopção para um bonacheirão, preto retinto com gravatinha branca, farfalhudo e simpático, cujos donos regressaram ao Brasil, depois de uma vida sem sucesso por cá.
Assim me chegou o Chico, já baptizado e pronto para fazer companhia ao Jonas. 
Não foi difícil, o Chico era mesmo bonzinho, de boa índole e sem impor nunca em diferendo, a sua compleição física.  O Chico era um gato XXL, face ao minorca irreverente que já cá estava.

Tinham os dois sensivelmente a mesma idade, rondando os dez/onze anos, quando também o Chico foi embora.  Adquiriu uma diabetes que acompanhada de outras patologias, não me deu margem de escolha.
E ficou o Jonas de novo só ... ele e eu, claro !

Quem perde um destes companheiros fica tão mas tão mal, que jura não voltar a ter mais nenhum.  No dia da eutanásia do Chico, quando entre lágrimas eu dizia à veterinária que acabava ali a "geração", ela disse-me ( bem sabia ela o que a experiência lhe havia ensinado )... "nunca diga isso !..."
Mas sim, era essa a minha genuína intenção !
Mas, como o povo diz, "o Homem põe e Deus dispõe)...

Passados alguns dias, na mata onde caminho, uma das gatinhas da colónia que ali vive, aparecera com uma ferida numa pata. Mordidela de cão, rasgão das silvas ??? O que se teria passado ?!
A ferida, apesar do tratamento possível providenciado pelo Sr.Sérgio que é o benfeitor da bicharada que por lá anda entregue à sua sorte, foi infectando progressivamente.  A gatinha, que tem tanto de pequenina como de medrosa de tudo, já andava com a patinha no ar, não a assentando no chão.
Havia que recorrer mesmo ao veterinário.  Foi intervencionada, esteve hospitalizada uns dias, melhorou e ... como seria de esperar, teve alta !
E agora ?? Vai devolver-se num pós-operatório a uma mata correndo os riscos inerentes a um agravamento da situação ?  Deixará tratar-se, ou vai esconder-se entre os arbustos numa situação vulnerável e complicada ?

Facebook , mails, posts, instagram, telefonemas para amigos de amigos de outros amigos, para sensibilizar alguém que pudesse recolher a pobre de Cristo, ingloriamente ...
Portanto, eu não poderia dormir descansada se no pico do Inverno ( Fevereiro de 2024), a nova Rita ( por ser fisicamente idêntica à anterior ), voltasse para a mata ... E não voltou !
Reside comigo e com o Jonas exactamente há dois anos.  Tem cerca de metade da idade deste. Estima-se que a Rita ande agora pelos 7/8 anos.

E o filme repete-se.  Agora é o Jonas que quer sopas e descanso, que já não brinca, que namora as résteas de sol, que me persegue para onde quer que eu vá ... que fala e responde às minhas conversas ... enquanto a Rita desencanta as bolinhas, as tampinhas das garrafas, mas  também à noite, triparte comigo e o Jonas, o calorzinho do nosso aconchego nocturno ...

Qualquer dia o Jonas também partirá.  Sem ele não sei como encarar a vida e o vazio desta casa ...

Mas na mata, existe outra doçura lá abandonada há pouco, na companhia de uma irmã da mesma ninhada e que é a única referência afectiva que possui ... ainda. 
Porque a Nina, a irmã, está muito doente, internada com pneumonia e insuficiência renal, a Pipoca espera, espera, espera por ela, todos os dias, com tempo agreste ou tempo de feição.
E apesar de só pedir festas e colo, de dar turrinhas e lambidelas, de ser uma dor olhar para ela, voltar-lhe as costas enquanto ela encomprida o olhar à medida que nos afastamos, e percebe que tem que ficar,...não posso obviamente diminuir-lhe o sofrimento, porque de todas as vivências que acumulei das "vidas deles", percebo agora que a entrada de um novo elemento estranho em casa, corresponderia a um pico de stress a que não tenho o direito de sujeitar neste caso, o Jonas ...

Resta-me, depois de toda esta narrativa, perguntar a todos os amigos e amigas ... se alguém se condói e pode acolher a Pipoca ??? É que nesta altura das nossas vidas bem percebemos que o amor mais são, mais genuíno e desinteressado ... aquele amor que não falha nunca, não é o humano ... é o dos animais ... seguramente !...

                                                                                Jonas

Tenho que acrescentar sem qualquer rebuço, que a história afinal não termina aqui ... 
Apesar de infrutiferamente tentarmos acolhimento, casa, carinho e Vida ... apesar de a Pipoca continuar à espera, sem saber que a irmã não voltará mais, o milagre operou-se, e alguém que tendo tido uma gatinha cega e esta ter partido recentemente deixando um lugar que parecia inocupável, deixou o coração falar mais alto, e a Pipoca, acabou de ser adoptada num lar onde certamente o amor chegará para a compensar das agruras pelas quais já passou nesta vida ...
É que, afinal às vezes milagres cumprem-se !... 

Anamar

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

" FIM DE PÁGINA "

 



Detesto esta quadra.  Detesto particularmente o dia de hoje, o famigerado 31 de Dezembro de cada ano!

Inevitavelmente sucumbimos a ele e a tudo o que lhe está associado, por mais que garantamos ser imunes ao espírito predominante.  ´
É o dia da "virada", é o dia em que queiramos ou não determinaram que mais um ano cessa e mais um ano começa, feito carta fechada que vá-se lá saber como nos irá surpreender ...
Consequentemente aí estamos nós arrastados para o vórtice dos balanços, do que fizemos e talvez não devêssemos ter feito, ou do que não fizemos e não era por aí o caminho ...
É um desatino, com o acréscimo de uma correria absurda para a concretização a gosto, do local  das festividades e as presenças a fazerem-se presentes, a preparação por simples que seja, da mesa do evento, das vitualhas e os pormenores de última hora a não serem esquecidos.
Como se de repente o mundo fosse acabar !...
As badaladas vão dar o ok, mais que comer, engolem-se as passas previamente contadas, o telefone toca ou são as últimas mensagens a expedir ... é o champanhe, as felicitações aos presentes ... e, como se tudo não fosse meramente a continuação do que ficou para trás há escassos instantes !...

Eu não sou ou estou diferente só porque ... tu não és ou estás diferente, só porque ... já que magias ou milagres que te bafejem, não existem !...

Verdadeiramente nunca fui muito chegada a esta epopeia.
Em miúda e já adolescente, nunca tive passagens de ano especiais ou particulares.  Animação nunca houve, sobretudo a partir da época em que vim viver para Lisboa.  Afinal éramos apenas três "gatos pingados"... eu, a minha mãe e o meu pai, quase sempre com um desertor que não estava disposto a esperar pela meia-noite.
A "animação" era por conta do programa televisivo a ser transmitido ... não mais.
Quando vivíamos em Évora e as férias do Natal eram passadas na casa dos meus avós, aí sim, havia um bailarico com pompa e circunstância, na Sociedade Recreativa local, com música ao vivo, que eu tinha direito a participar graças à bonomia de uma tia que não tendo filhos, tinha a pachorra de nos acompanhar, para que os pais não vetassem o evento.  O baile era uma forma de convívio e coscuvilhice, como esperado numa terrinha pequena do Alentejo profundo, e a minha tia tirava obviamente os dividendos do "sacrifício" a que se propusera.

Com o passar dos anos, cada vez mais estas celebrações ditadas pelo calendário dos Homens, se despem de significado ou justificação, além de pretexto para juntar dois ou três amigos, e ponto.
A partir de uma certa altura então, o chamamento da caminha quente, do silêncio da casa já recolhida, e a ausência de motivos que verdadeiramente me interessem, tornam penoso o arrastar da noite até que as badaladas se anunciem.  
Como dizia o meu pai que tinha um espírito bem envelhecido, "já não corro a foguetes !"...
Hoje, a passagem de ano resume-se à lembrança mais viva ainda, dos que já partiram das mais variadas formas e razões, à constatação dos lugares devolutos à mesa, à incerteza do que nos esperará nos futuros próximos e longínquos, às dúvidas e preocupações inerentes à vida tão mas tão conturbada no nosso pequeno mundo e às expectativas incomensuravelmente conturbadas no "grande" mundo por esse mundo fora !...
Nada de bom se avizinha, a paz nega-se a chegar a este nosso planeta, a fome, a guerra, a miséria, a violência e a dor inerente, obrigam-nos a perceber com nostalgia e medo que uma porta se fechou e uma nova se abrirá, sem que consigamos perceber como é o tempo lá fora ...

E o misto de sentimentos que nos afloram, aquele aperto no peito, aquela dolência sentida, aquela esperança que assoma, apesar dos pesares, fazem-nos quase sempre rolar uma lágrima incontida e teimosa que escorre sem que a possamos deter !...

VOTOS DE EXCELENTE 2026 !

Anamar

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

" PERAMBULANDO NO PENSAR ... "



Limpei hoje a jarra de flores com o ramo que os meus netos me ofereceram há praticamente um mês.
Mudara-lhe a água umas duas vezes, no sentido de manter a saúde daquele bouquet de margaridas amarelas e brancas, com vivaz a compor.
Adoro margaridas, pela singeleza e despretensão, mais ainda se forem amarelas e brancas.  Foi o caso.  Pretendiam festejar o meu aniversário, este ano particularmente referenciável, não só pelo número, mas pelo cúmulo de circunstâncias ocorridas na minha vida nos últimos tempos, que tornaram a data mais sensível e sentida.

Olhei para as flores, agora já meio murchas, olhei para o dia lá fora, ameaçador, climatericamente.  Nuvens encasteladas e bem escuras anunciavam o previsível ... mau tempo.
Lá estou eu a falar como sempre, no tempo que faz, na imagem que esta minha janela me dá, no espaço amplo, quase sem horizonte que o limite.  Ainda gostava de interpretar esta minha necessidade de parecer querer escudar-me no bom ou mau tempo, no sol ou na chuva, na intempérie ou tempo de feição, como se quisesse justificar o meu desalento ou a minha bonomia, com a natureza que me envolve, com as suas marés altas ou baixas...

Entretanto estou a ler um livro que me está a fascinar, coisa que há tempos não me acontecia, pelo menos na área da leitura.  "A breve vida das flores" de Valérie Perrin, é uma história muito bem urdida, uma narrativa originalmente fora do comum que me está a deixar agarrada a cada capítulo.
A história gira "grosso modo" em torno duma personagem invulgar, num ambiente também inédito, um cemitério e a guarda do mesmo, uma mulher com uma vida profundamente sofrida.
Violette, a protagonista que vive dentro de um espaço que poderíamos considerar mórbido, faz do mesmo um ambiente que cativa e prende quem lê a história, porque dada a sua dedicação e amor ao que faz, transforma um espaço de morte, num espaço de vida, com identidade própria, vivida e criada à custa das histórias dos "seus" mortos e do jardim em que o seu desvelo consegue tornar o que verdadeiramente seria uma ambiência lúgubre e doída. 
Desde as flores que alindam as campas, à pequena horta que ela criou e cuida, nas traseiras da sua casa, há toda uma ternura e uma afeição perscrutada e familiar.
Violette, relaciona-se melhor, atrever-me-ia a dizer, com o mundo dos que partiram do que com o mundo real em que vive ...

Talvez a finitude daquele bouquet de flores que tanto significado teve para mim, talvez a finitude particularmente rápida dos dias, sobretudo quando nos assomam escuros e tempestuosos, talvez afinal a finitude do ser humano, façam na minha mente um mix de mágoa cinzenta e informe que me contagia e  desmantela devagarzinho por dentro.  
Ultimamente sou muito, mas mesmo muito assaltada por um espírito insalubre de morte anunciada.  Parece que a sinto, parece que a adivinho, parece que ela me condiciona e me paralisa, e com isso desce em mim um imobilismo, um desinteresse e uma desaposta em quase tudo, como o que sentimos olhando o relógio e constatando que a programação que havíamos feito já não tem tempo útil, hoje, para se cumprir ...
Talvez amanhã, talvez um destes dias, quem sabe ...

Deve ser o isolamento !  Ou simplesmente talvez eu esteja realmente doente ... outra vez !

Anamar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

" OUTRA VEZ NATAL !... "

 

Dezembro é também aquele mês que se eu pudesse, saltava no calendário.
É de  novo mais um mês que forçosamente nos atira para balanços.  Balanços de tudo, do que se fez e não fez, das expectativas e das desilusões, das esperanças e dos fracassos inerentes, dos risos e das lágrimas, do ânimo que às vezes se levanta connosco e do desânimo que progressivamente toma conta de nós ao longo do dia ...
Balanços e mais balanços, e o peso de havermos carregado mais um ano que às vezes foi excessivo face à capacidade que as nossas costas anunciavam aguentar ...

2024 havia sido um ano muito difícil em muitos aspectos, mas 2025 não aliviou muito a carga dependurada do coração.
E depois há aqueles dias a atravessar... o Natal, que para mim se tem transformado numa travessia do deserto.  Cada vez são menos os que se sentarão àquela mesa.  Já só menos de meia mesa, terá  confraternizantes, e cada vez mais aquilo que cada um exibe, se transformará numa performance mal ensaiada, menos credível, mais esvaziada de reais sentimentos.
Prevejo que seremos quatro à mesa, com a alegria que conseguirmos coleccionar, com a boa disposição afivelada nos rostos, até porque está uma criança e ela não tem idade p'ra perceber, sequer suspeitar qual a cor do coração que cada um de nós tem guardado no peito.

Ao longo da minha vida, os meus Natais poderiam ocupar prateleiras bem diversificadas umas das outras.  Parece que eles se caracterizam e definem muito bem, e cada um deles pertence claramente a um dossier que poderia facilmente ser catalogado.

Os primeiros Natais que recordo, os mais gratificantes e doces, foram, como já contei em posts lá para trás, os Natais da minha meninice, os Natais de família à séria, os Natais alentejanos, os Natais inevitavelmente inesquecíveis.
Eram os tempos de acreditar no Menino Jesus, sim porque era Ele que se aprontava a marcar presença, nas gélidas noites de Missa do Galo na Igreja da Saúde na terra que era muito mais minha que aquela onde na realidade nasci.  Noite quase sempre escura e estrelada, noite de avó a caminho da igreja, no seu xaile quentinho e lenço na cabeça, de uma igreja que nunca mais me saíu da mente, clara e iluminada, com a talha dourada ainda mais refulgente, os círios acesos e o cheiro das velas ardidas, e a fila que aguardava p'ra beijar o pezinho ao Menino no fim da cerimónia, que o padre pegava e limpava com uma toalha de linho após cada osculação ...
Em casa, enquanto os homens se aqueciam no madeiro imenso, a arder na lareira de parede a parede daquela cozinha velha, as mulheres, tias, primas, mais novas ou mais velhas, preparavam a consoada com as iguarias de sempre.  Haveríamos de as degustar para aquecermos o espírito, à chegada do frio da noite ...
É um lugar comum, creio, para a maioria de nós guardarmos carinhosamente, e por todas as razões, os nossos Natais de infância ... os mais doces deles todos !

Depois vieram os Natais da Beira.  Outra realidade, outras pessoas ... contudo sempre família.
Esses, foram os Natais da infância das minhas filhas.
Outra casa, outros amigos, outros cheiros e sabores, mas contudo ainda éramos alguns, os dedos das duas mãos chegariam para os contar, mas havia vida a pulsar também, nos adultos e na criançada.
Havia a árvore e o presépio, tudo colhido nas matas, havia risos e gargalhadas, o bacalhau e a "roupa velha" no dia seguinte ...
Depois ... bom, depois foram indo ... Uns para a terra de ninguém ( esses só nos repousam nas memórias e nas imagens dos vídeos que ainda hoje nos fazem sorrir ), outros apenas tomaram novos rumos, novos trilhos ... outros destinos !
Gostava de poder espreitar aquela mesa, na noite da consoada, e espicaçar o lume, como o fazia, para minorar o frio que sempre tenho ... Gostava, mas não posso ... a vida é assim !

Hoje, bem, hoje por enquanto talvez sejamos três, à mesa.  E de todos os Natais, estes que tenho vivido nos últimos tempos, são os mais incaracterísticos, aqueles de que menos memórias guardarei, aqueles em que os lugares vazios estão mais vazios do que nunca, aqueles em que a solidão e um silêncio interior ( que talvez só eu pressinta ), mais se fazem sentir.
É um misto confuso de sentimentos, é um ruído e uma turbulência tonitruante, é uma ausência e uma escuridão absoluta, numa sala ainda assim iluminada, numa mesa onde ainda assim haverá conversas, onde vamos todos fazer de conta que por ali passa uma qualquer felicidade e alegria que afinal não se deixam mascarar, e que lá bem no fundo, não enganam ninguém ...

Feliz Natal !...



Anamar

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

" NEM SEMPRE O AMOR CURA "

 


Vivo há mais de cinquenta anos nesta casa, neste andar desta praceta, num nascente poente que me inunda de sol de manhã à noite.

Para aqui vim em início de vida, tinha vinte e três anos de idade, ainda só uma filha, vida profissional a iniciar-se, quilos de sonhos a cumprir.  E por cá vivi, com os altos e baixos, provavelmente normais a todas as vidas.  Nasceu outra filha, escreveram-se páginas e páginas de histórias, realizações ou não, alegrias ou não, coisas boas a recordar e outras nem tanto.
Afinal as histórias do ser humano serão todas um pouco parecidas e infinitamente diferentes também !

Leccionei na escola aqui do burgo, e por mim passaram gerações e gerações cada uma com as suas idiossincrasias, das quais guardo até hoje, rostos, nomes, guardo memórias quase sempre felizes.
E constato que a reciprocidade dos afectos perdurou pelos tempos ... apesar de hoje já sermos outros !
Afinal, uma das características da memória é ir colher lá atrás, com grande grau de precisão, exactamente essas lembranças que ainda hoje aquecem o coração !

A minha casa é pertinho do céu e sobranceira a um casario descaracterizado, desordenado... eu diria, caótico.
Resta-me o céu azul ou carregado de nuvens ameaçadoras, se o tempo não está de feição, resta-me a lembrança da Pena lá longe, na linha do horizonte antes de terem construído um intrometido edifício de seis ou sete pisos que a cobriu do meu ângulo de visão, restam-me os pombos que decoram qualquer ambiente urbano neste momento, os periquitos de colar que atravessam aqui por cima, quase sempre apressados e que se anunciam pelo seu piado  característico e finalmente as gaivotas, em bandos desordenados ou espanejadas na aragem que passa, como se encetassem apenas um bailado e não tivessem rumo ou norte. 
E finalmente restam-me os pôres de sol inigualáveis e por isso mesmo, inesquecíveis, que me são presenteados a partir desta minha janela privilegiada, fechando os dias, virada que está a poente, com Sintra lá ao fundo, bem longe e bem saudosa ...

E pronto, a minha casa, que tem de tudo um pouco, já com uma vetusta idade, encerra o espólio da minha existência.
Cada peça que a compõe, é um tesouro para mim.  Cada uma tem um valor que não é material, mas incondicionalmente afectivo. Se tivesse que as escolher em função da dedicação que lhes tenho, seria uma tarefa hercúlea.
A minha vida gira dentro desta casa, como ninho de protecção e conforto.  Por maneira de ser nunca fui dada a muitos e variados convívios.  Sou uma pessoa de fácil relacionamento mas preferencialmente escolho o isolamento no meu "buraco"... Não é por mal, talvez seja assim por ter um carácter reservado, que foi sendo lapidado ao longo do meu percurso de vida, mercê do "figurino" desenhado desde a infância, numa vida vivida praticamente a sós com a minha mãe.  Mas, sendo curto o meu núcleo de relações, sinto que sou estimada pelas pessoas ... acho que posso dizer isso.
O facto de há já mais de vinte anos viver só, porque me divorciei, a Covid que também condicionou o convívio entre as pessoas e em última mas não despicienda razão do avanço da idade, vivo cada vez mais confinada a este reduto só meu.
Meu e dos meus gatos, um casal que divide as vidas dia e noite, com a minha ...

"Os anos tudo trazem e tudo levam" ... era uma velha máxima que a minha mãe usava e abusava, coisa que me irritava profundamente, quando parecia que eu afinal tinha a vida toda para viver... o mundo todo para conquistar ...
Hoje, ver a vida do patamar onde já me encontro, permite-me perceber quão verdadeira e adequada aquela era...
Hoje, a minha filha mais nova, que cuidou da avó até ela nos deixar, antecipa novamente o cenário que me espera ... 
A minha filha é doente oncológica de há um ano a esta parte. Eu digo "é", porque quem tem a desdita de contrair esta doença, por mais benigna que esta o seja, o que parece ter sido o quadro para ela diagnosticado dentro da panóplia de hipóteses com que poderia ter sido "sorteada", é-o para toda o sempre.  É um quadro clínico que não tem certezas, é traiçoeiro e surpreende.  Demasiadas vezes surpreende!
Acresce, que ela é sozinha e tem quase inteiramente a seu cargo uma criança de apenas oito anos.
Vive na margem sul, é enfermeira também num dos hospitais dessa localização, e tem toda a logística de vida dela e da filha, instalada naquelas bandas.
Como se imagina, o meu equilíbrio emocional virou da noite para o dia, complicando ainda mais o mundo caótico que sempre é o meu espírito.  
Assim, fui confrontada com talvez a necessidade ( vou chamar-lhe assim ), de nos aproximarmos em termos habitacionais, que é como quem diz, eu ir viver para mais perto delas as duas. 
Eu avanço na idade, logo nas exigências inerentes a essa situação, o futuro dela em termos sanitários sobretudo, é imprevisível, bem como o são, as capacidades que venha a ter futuramente e a impossibilidade dos nossos poderes adivinhatórios vislumbrarem o futuro que nos espera.
Sem dúvida o tempo urge e a partilha entre nós, é escassa.

E vou ter que resolver.
Nunca sequer imaginei vir a ter que passar por uma situação destas, porque vender a minha casa está longe de ser uma mera transação financeira; envolve um lado emocional profundo e uma sensação de despedida.
Fechar esta porta é um virar de página, é um encerrar de um enorme capítulo da minha vida, num período desta em que a resistência emocional e afectiva é mais vulnerável do que nunca.  É um desafio à minha capacidade de superação de sentimentos intensos de nostalgia, de apego e de incertezas.
É um desafio à capacidade de que consiga dispor, de pragmatismo, frieza, objectividade, pressão emocional ...
Ainda não parti e já tenho saudades, ainda não parti e já lido com sentimentos contraditórios do que classifico de egoísmo, desumanidade, falta de amor ... se optar por ficar ...
A minha filha pensa nela, mas também pensa em mim se quando eu precisar dela me não puder ajudar como fez com a avó...
Sem dúvida é uma duplicidade de sentimentos que me atormentam, é uma mescla de amor e de dor, como se no coração me estivessem a roubar as memórias, as histórias, a vida !...

E em contínuo, pelas madrugadas de insónias, vejo e revejo o filme dos cinquenta anos em que, bem ou mal, a rir ou a chorar por aqui estive ...

Lá fora, hoje, as gaivotas dançam na aragem fria do vento que corre, enquanto que um laranja doce escurece aos poucos na linha do horizonte, lá para os lados de Sintra ... anunciando que mais um dia chegou ao fim !

Anamar 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

" CANSAÇO "

 


Júlio Machado Vaz no seu último livro Outonecer que entre muitos outros aspectos incide na temática do envelhecimento ( referindo o "peso" psicológico que nos toma exactamente com a entrada no Outono da vida ), descreve que como nenhuma outra idade, os três quartos de século completados no ano passado, o mexeram por dentro. 
Até então, as décadas anteriores foram vivenciadas com um olhar de normalidade, de aceitação, de pouca ou nenhuma perturbação emocional.
Mas completando setenta e cinco, percebeu objectivamente aquilo a que verdadeiramente chamamos de "o peso dos anos".
Li o seu livro há pouco tempo e é verdade que JMV me mostrou nesse seu livro uma faceta de melancolia e até talvez de um entristecimento que nunca lhe havia sentido até então, como se de repente ele se tivesse voltado mais para o seu eu interior, e desligasse do mundo fora desse casulo ...

Eu sou absolutamente contemporânea do professor.  Eu também completei ontem três quartos de século de vida.  Não três quartos da jornada que me coube ou caberá. Afinal, o caminho percorrido encurta cada vez mais o que está por percorrer ... 
Contudo, também, tal como ao professor, este outonecer, ou até mais ... este invernar da vida, me magoou, feriu, atingiu, como se tivesse sido surpreendida à má fila, pelo transcurso do tempo.  
É como se não me tivessem avisado... é como se me tivessem apanhado distraída ... sem que ninguém acendesse para mim, pelo menos, o semáforo amarelo !!!

Sou muito introspectiva.  Muito negativa, muito derrotista, pouco esperançosa ... sempre com o copo meio vazio na mão.  É característica personalística, infelizmente.  E por mais que psicologicamente eu "trabalhe" em mim esta forma errónea de encarar a vida, não consigo alterar, com argumentos nenhuns, esta malvada forma de a enfrentar e de sentir ...
Muita coisa aconteceu e acontece na minha vida, nos últimos tempos ... e não forçosamente coisas felizes.  Experimento ou uma sensação de desistência com a praia à vista, ou sinto um abandono que me faz encarar os dias como em fim de caminho.
É uma sensação de não valer a pena isto ou aquilo, não valer a pena pôr a mesa da vida, porque já não ocorrerá nenhum banquete mais, não valer a pena desarrumar nada porque seria uma perfeita inutilidade fazê-lo, parece estar tudo em fase de acabar e não de recomeçar ...
Não tenho um foco, um objectivo, uma meta, algo por que me esforçar, algo que justifique continuar a esbracejar no meio da tempestade, algo que me faça sonhar, algo que afaste de mim este mofar que parece circundar-me e apodrecer-me aos poucos ...
Detesto-me, estou exausta, sinto-me um peso morto, algo de fétido ... uma merda !
Não me reconheço ! Perdi-me totalmente nas encruzilhadas da vida ... esqueci o caminho e o nevoeiro adensa-se ao meu redor.  Pouco já se divisa, pouco se enxerga, um negrume está a descer mais e mais ...
Veremos até onde e quando suportarei a tempestade ...
Veremos até onde terei olhos para a sempre beleza do crepúsculo ...

Anamar

terça-feira, 21 de outubro de 2025

" OUTRA VEZ OUTUBRO ... "



O dia amanheceu cinzento, chuvoso, bem outonal, como aliás vinha sendo previsto pela meteorologia.
Está um dia de semblante aconchegante, sobretudo pra quem não precisa ir para a rua, que é o meu caso.
Já Pessoa dizia que "um dia de chuva é tão belo quanto um dia de sol. Ambos existem; cada um como é "
E concordo totalmente porque embora eu seja uma incondicional "prisioneira" emocional do sol, o intimismo que hoje se sente lá fora, cria aqui dentro uma sensação inegável de ninho, o que nos ampara e embala a alma.

Porque raio tendo eu a começar tudo o que escrevo, a situacionar o meu discurso, nas condições atmosférica que me cercam ?!... Isso deve significar que elas são determinantes ao meu eu interior ... e porque o serão?? Talvez um bom psicólogo o soubesse explicar.
As minhas filhas riem e dizem : "Lá estás tu... se chove, se faz sol, se se aproxima uma tempestade ... se vai estar um mar de rosas ... nunca vi ninguém assim !"
Vou até confidenciar um pormenor que não lembraria ao diabo mais velho ... algo verdadeiramente caricatural ... mas real... o que posso fazer ?! 
Tenho viajado ao longo dos tempos quando, e se posso.  Sinto-me sempre uma itinerante que leva a vida a desenhar roteiros, lugares, terras, gentes, costumes, inacabáveis... visando sempre uma próxima viagem. E claro, achando que vou morrer tendo-me sobrado o mundo inteiro por conhecer ... E como o lamento !!! 
Pois bem... a propósito do sol, que quase sempre persigo,  como referi, cheguei a marcar muitas viagens de avião, pensando nos parâmetros de geolocalização da rota, e a marcar o lugar ( que é sempre junto à janela ), por forma a sentar-me do lado em que o sol me inunde, quer na ida, quer na vinda, se o percurso for obviamente diurno ... Ah, ah, ah ... já é coisa de doidos !!! 😕😏

Bom, mas já estou a afastar-me daquilo que efectivamente era o tema deste meu escrito .

Faz amanhã exactamente um ano, que a minha vida tomou um rumo inesperado, terrível, para o qual eu não estava nem de longe nem de perto, preparada.  Um soco no estômago, um gelo que me desceu às entranhas, um terror profundo que me tolheu, no teor do telefonema que recebi pelas dez da manhã.
Do outro lado, a minha filha mais nova, com quarenta e seis anos à altura, chorava e dizia-me entrecortadamente : "Mãe, tenho um nódulo na mama e há fortes suspeitas que possa vir a ser grave"

Exames de rotina, que no caso dela haviam sido feitos há pouco mais de um ano, cuidadosa que é, até porque profissionalmente está na área da saúde, apanharam, assim, do nada, na maior imprevisibilidade possível, uma situação que paralisa, desde logo momentâneamente, a vida de qualquer um.
Eu acho que numa fracção de segundos desfilam à nossa frente, hipóteses, medos assombrosos, dúvidas, mas também sonhos que parecem desfazer-se, esperança e talvez, imagino eu, aquela pergunta que revolta, mas que inevitavelmente nos cai frente aos olhos :"Porquê eu, se nem sequer existe um historial familiar que pudesse indiciar, um dia, quem sabe, a prevalência da possibilidade do surgimento deste fantasma ?"
Parece, mais que uma partida do destino, uma facada à má fila, feita cobardemente pelas costas, silenciosa e sádica ...

O dia 22 de Outubro de 2024, num Outubro Rosa, inesquecível para mim, mudou-me definitivamente por dentro. A minha vida nunca mais foi ou poderá ser a mesma. 
"Quem é doente oncológico, sê-lo-á enquanto viver ", afirmam os especialistas, os cientistas, todos os que dedicam à exaustão, as suas vidas a tentar uma escapatória, uma saída, uma cura ...
Abordo o menos insistentemente que consigo, com a minha filha, informações, esclarecimentos, dum tema que pra mim se tornou quase tabu, pelo medo com que me assola.
Vivo pendurada de datas de exames, que peço ela me informe e bem assim os respectivos resultados, vivo de "lupa" na mão sobre qualquer sintoma que, claro, logo tomo como suspeito disto e daquilo.
"Estás cansada ? Estás demasiado magra !  Dói-te alguma coisa em especial ?"

Sei que no interior dela também existe um looping de inquietações, de medos, de ansiedades e inquietudes.  Sei que existem, mas ambas somos parcimoniosas com o tema.
Por cima da minha cabeça, existe, em equilíbrio precário, uma espada ... e que cada dia, ou cada resultado tranquilizante, é uma vitória, é uma esperança que se volta a abrir, é o ar que consigo inspirar em maior profundidade ... 
Penso que ambas sentimos uma urgência maior em valorizar os períodos de acalmia, ambas parecemos, sobretudo ela, sorver cada momento, usufruir cada situação, cada experiência, cada dia de vida, com pressa, como se fossem precários e como se de um momento para o outro, esse período de abençoada paz possa terminar ... 

Adormeço por cada dia com tudo isto ... amanheço por cada dia com tudo isto !
A angústia e a insegurança vivem comigo, habitam em mim !...

Não sou nem mais nem menos do que milhões de outras pessoas, que talvez apenas não exteriorizem aquilo que sinto.
Resolvi hoje falar disto, convosco, partilhar talvez com outros, sentires iguais ao meu ... Talvez alivie um pouco !

Que Outubro, tantas e tantas vezes tão negro, possa tornar-se na vida de cada mulher num auspicioso e verdadeiro Outubro Rosa ... Esse, é o meu mais íntimo desejo para o resto dos meus dias por aqui !...

Anamar

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

" PEDAÇOS ... "


Os dias amarelaram. No céu, de um azul pouco convincente, fraquinho, fraquinho, nuvens esparsas vão seguindo viagem. Um vento desabrido pavoneia-se por aqui e arrepia-nos o corpo.  O Outono assoma.  Hoje já cá está.
Num banco da praceta, alguém que tem como protecção apenas um cobertor, aninhou-se.  Visto cá de cima é uma espécie de embrulho que alguém ali tivesse deixado.  Talvez já se prepare para a noite que chega a passos largos apesar da temperatura o não aconselhar.

Esta época do ano, estes dias melancólicos e de silêncio que parecem esconder uma sonolência triste da natureza, não me fazem bem nenhum.  Parece que tudo deitou para dormir.  Parece que tudo fechou os estores para uma hibernação de desamparo.
Do Outono eu adoro as cores da natureza.  A "caça" aos laranjas, amarelos, castanhos e  avermelhados ou até mesmo o início da queda da folhagem das árvores e arbustos que já completaram o ciclo anual de vida, leva-me a procurar nos programas turísticos, lugares por esta Europa fora onde os encontrasse no intimismo de paisagens inesquecíveis. E sonhar ...
Recordo imagens gravadas na mente, há muitos anos, num Setembro norueguês, onde a simplicidade da vida em meio a uma natureza doce e aconchegante, chamava a passeios pelos campos em busca das flores silvestres sazonais e das bagas dos frutos vermelhos a oferecerem-se às compotas da época ...
E era muito bonito mesmo, a paz que se respirava, os cheiros que nos impregnavam a alma, aquela pacatez no meio da floresta ... os abetos e as coníferas duma forma geral, ainda verdes, erectos na espera das primeiras neves que não demora, os enfeitariam ...

Estou a atravessar uma fase da vida em que a saturação do dia a dia e a vida numa cidade horrível, totalmente descaracterizada, sem absolutamente nada de interessante e que nada tem de semelhante com tempos idos, me deprimem ainda mais.
Com uma frequência nas ruas pouco recomendável, sem um espaço verde de valer a pena, sem uma esplanada de um café para ameno cavaqueio ... nada, absolutamente nada ... cada vez mais e mais me isolo em casa, 
A solução seria sair, ir embora, procurar outros espaços, o que só por si já limita qualquer interesse ou entusiasmo de o fazer. Ter que pegar no carro, fazer-me ao trânsito, à confusão das gentes, retiram-me qualquer vontade que possa existir.
Neste momento anseio apenas por paz, silêncio, natureza ... Neste momento adoraria viver fora daqui.
Sinto-me a adoecer ... a sério, sinto-me a ficar com a saúde mental seriamente afectada.

Este post, como o nome indica, aborda apenas pedaços de mim, nada de relevante que acrescente ou retire nada a ninguém ...
Afinal não há muita escolha no registo emocional para as pessoas que, como eu,  estando já profissionalmente libertas, pertencendo a uma determinada faixa etária, e em que as opções lúdicas propostas são pouco ou nada aliciantes ... além de escrever banalidades ou registos vazios de vida, pouco ou nada interessantes !
Não sei ou me interessa tricotar, nem tenho prendas domésticas, fujo das imagens aterrorizantes das guerras que grassam e dizimam os povos, fujo das notícias catastróficas de desgraças naturais quase sempre despoletadas pelas alterações climáticas trazidas pela mão do Homem, odeio as guerras políticas que devastam os países, os continentes, a nossa sanidade mental ... vou lendo, pouco, pela dificuldade de concentração, descreio cada vez mais no ser humano e nas suas reais intenções ... sobra-me o quê?!

A mata ... o único lugar onde ainda há verde, pássaros que pipilam, gatos sem dono ou casa ... e já nem patos bravos nadam nos tanques ... porque novamente o Homem se encarregou de lhes envenenar as águas ... 😓😓

Anamar 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

" FANTASMINHAS DOS SILÊNCIOS ..."

 



Sempre o ano começava agora.  Agora que as férias objectivamente terminavam, agora que a criançada já povoa de novo as ruas, agora que se reabriam os livros, os dossiers, até mesmo a pasta, dormida que estivera nos meses de Verão. 
Não sei bem explicar este brouhaha interior que chegava como a última onda da praia, e se instalava, feito um frisson inquieto, que ano após ano se anunciava.

Era sempre assim. Havia uma animação no ar que nos preenchia de uma espécie de expectativa inexplicada, de uma espécie de alegria e de ansiedade que não doía, nem cansava, feita de curiosidade, vontade de rever, encontrar, falar, rir, olhar rostos que deixáramos, fechar abraços que interrompêramos ... enfim, sempre havia um objectivo a atingir, um desígnio a alcançar, um foco ...
E começava mais um ano lectivo !

Hoje, olho para trás e parece que esvaziei por dentro.
O cheiro dos livros e dos cadernos já não impregna este meu espaço, sei que as salas já não me esperam, sei que é como se eu tivesse dado um salto apenas, para as prateleiras onde os livros alinhadinhos  repousam sonolentos, imprestáveis, desocupados ... piscando-me apenas os olhinhos meio cansados e inúteis. Apenas fazendo-lhes companhia ... avivando memórias ... 
Hoje, é como se nem na equipa de suplentes eu ocupe lugar ...
Os meus miúdos mais velhos, todos três universitários, alguns iniciando, outros olhando já o mercado de trabalho, pertencem a departamentos que já não domino ...
A benjamim, numa terceira classe com currícula que pouco me diz, também já nada tem que me mobilize.  Agora é a vez de ser a mãe a afobar-se, a inteirar-se, a desdobrar-se na azáfama instalada ...

E no entanto tudo parece que foi ontem, parece ter sido ontem que pela última vez cruzei aqueles portões de entrada, aqueles portões de uma vida !...

Lá, já ninguém me conhece ... "Onde é que a senhora vai ?"... E eu só quereria franquear uma última vez, à sorrelfa, a porta da sala dos professores... naquela ânsia, quase certeza que ainda haveriam de estar ali, todos, no cavaqueio à volta de camilhas que agrupavam os interesses, as áreas, os grupos disciplinares, de acordo com as especificidades individuais ...
Eram os matemáticos, os de inglês ... mais além Português, ou Física e Química ou Biologia , ou ... ou ... ou ...
E já tantos foram embora !... E já tantos deixaram de responder à chamada ... E já tantos estão tão irreconhecíveis, quando às vezes ainda nos cruzamos, em golpes acidentais, que me confrangem o coração !
O tempo , o malfadado tempo brincou com todos nós, de esconde-esconde ... Deixei uns e que é feito deles ?!  Onde raio se perdeu a gargalhada da Tininha ?  A bonomia da Emília ? Os bordados da Alcina ?  O Moisés, o Arlindo, o Sampaio, a Ana Frade, a Teresa Sobreira, a Celeste ... todos ... tantos ?!...
Não os acho além da minha memória, não os escuto a não ser no som do silêncio ...
Fantasminhas que povoam as minhas lembranças ... palavras, cheiros e cores que se vão esbatendo na espuma dos dias ...

Uma vida ! A vida ... a única que detenho.  Até um dia ... quando for ... em que as portas definitivamente se fecharão !

Anamar

sábado, 19 de julho de 2025

" UM PEDAÇO DE TERRA ..."

 


Cheguei há dias de uma viagem que fazia parte do meu roteiro de sonhos, e que como todas as viagens, neste momento em que o fluxo de viajantes pelo mundo é inimaginável, estava marcada há bastante tempo.
Refiro isto, para que se perceba que apesar dela representar uma realização desejada há muito, não foi totalmente usufruída, por razões de ordem pessoal, relacionadas com a saúde.
Mas enfim, dentro do possível, tentei tirar o máximo partido da viagem à Islândia.

A Islândia é aquela ilha perdida no hemisfério norte, no meio do Atlântico, lá bem no "altinho" do globo terrestre, beijando a norte, o círculo polar ártico, o que significa uma latitude de sessenta e tal graus.
É um país relativamente jovem, geologicamente falando ( 20 milhões de anos ), que devido à sua intensa actividade vulcânica, continua a acrescentar "chão" ao seu território.
Por ele passa a dorsal mesoatlântica, com a proximidade das duas placas tectónicas euroasiática e norte americana, o que "conflitua" a "paz" geológica da ilha, com uma imensa e quase permanente actividade vulcânica, com a erupção de alguns vulcões, com regularidade, e bem assim, os associados sismos devidos ao "pote" de magma líquida existente por debaixo dos nossos pés.
É um país com uma população de menos de quatrocentos mil habitantes, para uma área de cerca de cento e três mil quilómetros quadrados.  Dois terços dessa população reside em Reiquiavique, a capital. 
Apresenta por isso uma paisagem inóspita, caracterizada por um relevo muito acentuado, montanhas, campos arenosos nos sopés, formados por areia negra basáltica, glaciares, lagos e lagoas, cursos de água, esmagadoras cascatas e mar, obviamente mar à sua volta, porque de uma ilha se trata.
É um país com características comuns aos outros países nórdicos que conheço, desenvolvido, calmo, organizado e sobretudo, seguro e pacífico!
A sua população é relativamente jovem, os salários são altos, os impostos baixos, mas a vida, caríssima.
A sua História começa no final de século IX, com a colonização feita pelos exploradores vikings.

Não pretendo ser exaustiva, nem que os meus escritos sejam uma página de agência de viagem, ou tragam algo de novo, ao que qualquer curioso e interessado pelo país, não colha nas páginas da internet.
Não !
O que aqui irei destacar e enfatizar, é apenas a minha visão, e a experiência sensorial sobre o que me levou à Islândia ... a sua beleza natural esmagadora, a sua natureza fascinante, as suas cores, os seus sons e até mesmo os seus silêncios ... as suas lendas, a agressividade do seu mar, a dureza das pedras negras que formam as suas areias, a rudeza do seu basalto amontoado a esmo pelas erupções vulcânicas que mal se anunciam ... os espaços amplos parecendo esquecidos, a falta de horizontes que impeçam que o nosso olhar, o nosso coração e até o nosso sonho vá sempre mais e mais além ...
Foi tudo isso que me preencheu, tudo isso que me fez respirar em pleno, a palavra com que defino a Islândia : LIBERDADE !

Já viajei sozinha durante anos.  Hoje, por razões de segurança, e porque os anos foram passando, viajo em grupo, com agência de viagens.
Esta forma actual de viajar tem obviamente vantagens, até culturalmente falando, uma vez que os guias que vou cruzando, verifico serem profissionais cada vez mais competentes, sabedores, cultos e claro ... são uma rede de suporte fundamental, sobretudo em situações imprevisíveis que possam ocorrer.
Mas para mim, as viagens de grupo têm desvantagens incontornáveis.  Não se consegue usufruir de uma comunhão plena com o que se deseja.  Ninguém respeita por exemplo, o silêncio de quem o anseia.  Quantas vezes procuro afastar-me do grupo, da turba de gente que só está feliz tirando fotografias em magotes, fazendo vídeos com comentários absurdos e apalermados que obviamente ficam gravados e que não interessam nada a muitos dos próximos.  Ou passam à frente, despudoradamente ... e pronto, lá se vai o vídeo, que dessa forma macula aquele momento mítico que se desejaria reter pra todo o sempre ... 

A Islândia propicia muitos lugares de paz e de silêncio, onde só a brisa que perpassava na folhagem se escutava.  
A Islândia é um misto de cores, dos verdes aos castanhos e ao negro da  lava solidificada, ao azul do céu que tivemos o privilégio de usufruir todo o tempo ... o som gorgolejante da água que corre por todo o lado, as espécies e cores das flores silvestres que nunca murcham, a fauna autóctone como os ostraceiros, os cisnes, as andorinhas do mar e as cores inesquecíveis dos papagaios do mar, ave marinha que nidifica nas falésias e é o icone representativo da Islândia ... às ovelhas, cabras e algumas vacas, bem como os cavalos de raça islandesa que pastoreiam em total liberdade, pontilhando as encostas e as planícies.
Não existem grandes agregados populacionais.  Não existem torres de apartamentos nas pequenas cidades.  As casas, praticamente todas, quase sempre revestidas de madeira, usufruem de logradouros à volta, sem muros ou barreiras impeditivas do convívio.
Como a população é absolutamente dispersa, as casinhas de cores vivas, espalham-se, uma cá, outra lá, pelas zonas mais planas, no fundo das montanhas, como se fossem miosótis despontados no meio da turfa que pinta a paisagem.  Parecem pecinhas de lego lá longe, onde a vista alcança ...
O ar é puro, leve, sente-se claramente despoluído !

E depois, p'ra finalizar, nesta altura do ano, em pleno solstício de Verão, o sol da meia noite foi uma fantástica imagem de marca absolutamente indelével na minha vida !...

Foi assim a Islândia !  Senti-la ... só indo conferir ... 😉







Anamar

domingo, 27 de abril de 2025

" CATARSE "



Aqui estou num domingo ensolarado, cinco horas da tarde, silêncio total dentro de casa. Da rua chegam acordes de música pimba, em algum palco improvisado desta bendita terra, que distrai as pessoas fiéis ao estilo, de acordo com as datas que transcorrem.  
Hoje certamente trata-se do rescaldo do 25 de Abril ...
Os gatos dormem, cada um para seu lado. O Jonas junto à janela, no sol que não dispensa , a Rita, certamente na penumbra das colchas da cama do outro quarto.  
Não a entendo, veio da mata, sempre viveu na mata onde as madrugadas chegam mais cedo ainda, e onde os dias são claros, luminosos, com verde e passarada até tarde da noite, e só gosta do escuro, ou talvez só nele se sinta segura.  A Rita está comigo há um ano e três meses e ainda não se desarmou por completo face a um movimento mais estranho, um barulho, a qualquer coisa que na sua cabeça de ventoinha lhe inspire cuidados ...

Para amortecer o som da rua que não me apetece ouvir, coloquei agora um CD na aparelhagem ao meu lado.
Sinto-me totalmente vazia.  Vazia e desconfortável como se tivesse perdido por aí, uma parte de mim, como se o meu eu fosse um puzzle inarticulável, um puzzle que perdeu peças pelo caminho... algo amputado e irrecuperável. 
Sinto dentro de mim a confusão de um desnorte em manhã de neblina cerrada.  Sinto-me a viver, só porque respiro, o coração bate, repito gestos, mexo-me, às vezes falo, alto ou baixo, para os gatos ou para dentro de mim ... pouco mais.
Não tenho um foco, um objectivo, uma razão por que ... Nada de importante, nada de valer a pena ponteia a minha vida.  As pessoas têm histórias, vivências, memórias, capítulos a que reconhecem interesse ao lembrar.  Eu sou tomada apenas por três sentimentos ... irresolúveis todos eles : angústia, ansiedade e saudade.

A angústia e a ansiedade apertam-me o peito e a garganta.  Pesam-me quilos sobre as costas, sufocam-me, assomam-me água aos olhos, dor ao coração.
A saudade crava-me garras na carne, quase até sangrar.  A saudade puxa-me lá atrás, exactamente aos lugares e aos momentos que já lá não estão.  A saudade agarra-me pela mão e passeia-me pelas estradas que foram, traz-me as pessoas inalcançáveis porque viraram esquinas, dobraram a folha do livro, sumiram na nuvem que se desfez ...
A saudade acicata-me a alma, porque é a inevitabilidade frente aos meus olhos, porque os caminhos sempre são apenas para a frente.  Na vida não há retrocessos. Reescritas, também não. A vida não tem rascunhos.  Sempre e só o texto definitivo.

O tempo, inexorável, segue adiante.  Há um momento em que são mais os lugares devolutos que os preenchidos e diariamente a vida se redesenha, queiramos ou não, saibamos ou não viver com ela num novo figurino.
De repente, consciencializamos que a realidade que conhecíamos, que nos dava segurança e conforto, que tinha as regras e os parâmetros no meio dos quais nos movíamos, desapareceu, sumiu sem avisar.
Não vale a pena buscar, procurar, tentar reencontrar. 
Pessoas, coisas, lugares, rotinas, as certezas e as  verdades que orientavam os nossos azimutes, os sentires e até a vibração das nossas vivências ... de repente foram, já não estão, escaparam ao nosso olhar.  E de repente também , ficamos numa terra estranha, estrangeiros no nosso lugar, sem pertença ou raiz. 
E tudo deixa de fazer sentido, tudo deixa de ter nexo ou motivo.  Resta o vazio e o silêncio.
A história encerra o capítulo, a agulha percorre a última faixa do disco ...

Anamar

sábado, 12 de abril de 2025

" A AUSÊNCIA ..."

 



Já faz hoje sete anos que a minha mãe partiu.
Foi embora de mansinho, sem estardalhaço, com aquela discrição de pessoa humilde que sempre a caracterizou.
A vida permitiu-lhe fechar o ciclo perfeito, pois noventa e sete anos antes, exactamente noutro onze de Abril, numa vilazinha do interior no Alentejo, haveria de abrir os olhos ao mundo, para o bem e para o mal...

Sete anos que me deixaram numa orfandade que não sei descrever.  A sensação de solidão, de desproteção ... a sensação de ausência de referências, de me sentir perdida, têm às vezes uma dimensão atroz e abissalmente doída.
São emoções que contrariamente ao que imaginava, têm-se instalado em grau crescente na minha vida à medida que o tempo passa.  Costuma dizer-se, sobre perdas emocionais e afectivas, que elas nunca desaparecem, mas que o tempo é um conselheiro mestre no seu esbatimento.  Tal como a terra abate, no chão que as acolhe, assim a dor vai amainando, ficando mais difusa e leve para o ser humano que as suporta.
No meu caso, isso não tem acontecido.  De dia para dia, o buraco na alma deixado pela ausência da minha mãe, bem ao contrário, parece recrudescer e é como se a ferida sangrasse tanto ou mais que nos primeiros tempos.
Comunico-me mentalmente com ela quase em permanência, como se ela por aqui ainda estivesse.  Pareço pressenti-la quando a chamo, a questiono, a suplico.  Pareço perceber-lhe respostas, pareço sentir-lhe o amparo ...

Vivo só.  Na minha casa, sou eu e dois gatos.  O silêncio "ribomba", a ausência de "vida" parece respirar-se em cada canto.  São as noites, são os dias ... são de novo as noites ...
Entrei numa escalada de desinteresse, sem rumo, sem foco ... não vivo, sobrevivo apenas.
E ninguém vive se não tiver metas, objectivos, sonhos ... ninguém vive se por cada manhã não sentir dentro de si uma razão, um valer a pena, um incentivo para reiniciar a jornada.  E esses são exactamente os meus dias.  Nada parece justificar-me o reinício.  Nada é suficientemente importante para me reerguer.
E é quando percebo claramente a falta que ela me faz.
Sempre foi uma pessoa de bem com a vida, sem exigências ou vontades elaboradas. Era feliz com pouco, nunca tinha vontades ou sonhos acima do que considerava o necessário e o suficiente.  Sempre tinha uma palavra de compreensão e conciliação.  Vivia em função da felicidade dos outros ... dos seus ... da família.  E procurava sempre aplacar os desacertos de quem a elegia para amparo e ajuda.

Tanta coisa que hoje, só com ela poderia dividir !...  Tantas angústias que hoje, só ela poderia entender !  Tanto amparo e afecto que hoje, só ela me poderia dar !... Tanto colo que já não tenho !...

As pessoas estão nas suas vidas.  Com as minhas filhas tenho uma objectiva dificuldade em comunicar.  Há uma décalage geracional perfeitamente cavada entre nós.  Hoje, eu estou sempre errada.  Hoje, sou eu a omissa por definição, e aquela que parece nunca ter capacidade ou inteligência para perceber o que acontece, que não entendo, que não sabe fazer pontes, mas sim conflituar.
As outras pessoas, têm mais o que fazer. Cada um vivendo ou apenas sobrevivendo, creio ( às vezes vindo à tona à força de esbracejar ), como pode e dá.  Vão também passando pelos intervalos da chuva,  com a resiliência e a coragem que têm ... Não adianta muito, quando nos cruzamos ...
E por tudo isso, remeto-me ao meu canto, cada vez mais.  A paciência é pouca, a motivação decrescente, o interesse não justifica. E portanto, cada vez mais desaprendo a socialização, cada vez mais emperro na linguagem escrita ou falada ... Não vale a pena !
E um cansaço atroz invade-me.  Sei que estou psicologicamente afectada, sei que nada disto me é benéfico, sei que as forças e o empenho claudicam, tropeçam nos dias enormes... que não tão grandes porque parte deles os passo a dormir ...

É então que vejo a minha mãe sentada no sofá da salinha, é então que a oiço com aquela bonomia que a caracterizava, dizer-me : " Não pode ser, filha ... tens que reagir ..."
E a sua mão encarquilhada acariciava-me o rosto, enquanto que o seu colo se agigantava e me aninhava com a doçura que apagava a dor, que injectava a força e a coragem na minha alma ...

Hoje ela já não está ... hoje, estou irremissivelmente SÓ !...

Anamar

terça-feira, 4 de março de 2025

" MAIS ÓRFÃ AINDA ... "



A minha família no Alentejo ... para mim, a única depositária das memórias do que fomos, de como era e como foi, de quem eram e que histórias foram vividas ... lá, e apenas lá, onde podiam ainda  sentir-se os pedaços e os retalhos das vivências arquivadas, dos fantasmas que por ali se passeiam, e aqueles que fugidiamente nos escapam ... essa minha família, dizia, extinguiu-se ontem, com a partida da última pessoa que me pertencia de sangue e de coração.
A partir de agora, já nada me prende ou me leva ao Redondo !

Àquele cemitério da vila recolheram as últimas lembranças, histórias, alegrias ou tristezas, anos e gerações...
Já pouco estará preservado, penso, e os que lá iam cuidar, limpar, alindar, ocupam agora as campas identificadas apenas pelos nomes e pelos retratos esmaltados incrustados na pedra.  Já não existe ninguém da família, e provavelmente a Câmara terá tomado conta das propriedades ... sim, porque se trata de campas privadas, que se compravam, estando na mesma, muitas vezes, pais e filhos que se acercaram tempos mais tarde. 

Às vezes, anos atrás, quando lá ia, gostava de me passear por aquele "jardim" de silêncios, ouvindo apenas os trinados dos pássaros nos ciprestes e o estalar da gravilha debaixo dos meus pés.
Tinha uma ideia que se foi esbatendo com os tempos, de onde e quem estava aqui ou ali, e quando encontrava, pelos nomes ou fotografia, uma súbita emoção e até mesmo um misto de alegria mergulhada em tristeza, se apossava de mim.
Era como se se operasse um regresso a casa, um retorno à origem, um reencontro, antecipando o derradeiro, que talvez um dia, quiçá, se venha a verificar noutra dimensão.

Eram avós, tios, primos ... apelidos familiares, com sorte rostos conhecidos, ainda lembrados, de quando aquela terra, foi uma espécie de chão emprestado, eu que vivi sem pertencer na verdade a nenhum ...
E depois, ainda que o não quisesse, todas as lembranças, todos os momentos, tudo o que foi experienciado, dito, vivido ... desfilava-me frente aos olhos, como se uma película de filme estivesse a passar em "reprise" ... e os mortos, todos os mortos dançavam uma dança de roda à minha volta, exibindo o sorriso fotográfico, quase sarcástico,  escolhido para a cabeceira da sepultura ... como se dissessem... "acredita, cá te esperamos ... tudo é uma questão apenas de tempo ... "
E já então eu ficava ali, embalada no silêncio, envolvida pela brisa que passava com pés de lã, sem ruído ou perturbação.
Afinal, estávamos num campo santo !...
Costumava fazer estas visitas bem cedo, quase madrugada, para evitar a canícula que o Alentejo garantidamente me proporcionaria, à medida que o sol subisse no firmamento.

E era então que me via com todas as idades possíveis, desde o jogo do pião, aos bailes na Sociedade ... desde os Natais, às Páscoas, as covinhas dos berlindes na terra do largo da minha avó, aos lanchinhos em casa da tia velha, onde eram obrigatórios os bagos da romã e os bolinhos caseiros, guardados expressamente, porque as férias escolares haviam começado e um belo dia a camioneta da carreira, haveria de "desaguar-me", ali mesmo, pertinho de casa.
Era então a vez de eu ser "disputada" pelos diferentes núcleos familiares ... aqui almoçava, ali, lanchava, além petiscava iguarias feitas de propósito, sabendo serem da minha predileção. 
Eu passava diariamente por todos eles, numa espécie de via sacra , e tinha uma tia, inclusive, que exigia que eu me pesasse à chegada, para garantir que no fim das férias eu tinha mais umas graminhas de peso !!!...
Todos me amavam, todos se orgulhavam da miúda afectiva que eu era, da estudante promissora em que acreditavam  eu viria a tornar-me ...
Todos cá, todos vivos ... todos fazendo parte da minha vida ... todos mimando-me e envolvendo-me num colo inigualável ...

Hoje, só existe o que está dentro de mim, e mesmo que quisesse seria incapaz de passar às gerações seguintes, esta história familiar, que não conheceram e nem imaginam sequer como foi. 
O tempo, sempre implacável, acabará por apagá-la, mesmo  das memórias mais velhinhas ... e uma orfandade sentida e palpável percorre-me e deixa-me mais pobre ainda ...

E aquela terra, foi o único ninho, mais ninho que eu conheci !...

Anamar