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domingo, 16 de fevereiro de 2020

" A ESPERANÇA AINDA MORA EM WUHAN"


 REQUIEM  PARA  WUHAN




Hoje foi um domingo de sol em Wuhan.

Foi a esperança que mo disse.  A doçura de um sol frouxo penetrou  pelas vidraças veladas, fechadas há muito, na reclusão de quem foge ao horror lá de fora.
Sente-se o silêncio da condenação dos condenados, nos hospitais, nas casas ... nas ruas ...
Experimenta-se o medo ... o pavor de quem foge aos tentáculos monstruosos que pairam por ali ...
Agoniza-se de terror pelo ar que se respira, pela mão que se toca, pelo monstro gigante que espreita em cada esquina ... e emudece-se sepulcralmente ...
Percebe-se a exaustão dos que lutam, dos que se excedem e se ultrapassam na ânsia de chegar primeiro.  Antes dela ... da morte !

Mas a esperança ainda lá vive.
A esperança dos que se sentem abençoados pelo simples facto de amanhecerem, por cada dia.
A esperança dos que se sentem escolhidos, só porque, mesmo através da vidraça, podem ver o verde que ponteia naquela cidade amaldiçoada e mártir, de onze milhões de penitentes..
Uma planície aluvial de colinas, lagos e lagoas, antes pujante de vida, hoje o epicentro infernal de mais um descaso atroz do destino !...

E o sorriso ...
O sorriso dos que ainda conseguem sorrir ... 
 ... só porque em Wuhan  há pegas azuis,  que não desistiram de gorgear e de enfeitar hoje, ainda, um céu que foi azul também...

Anamar 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

" A VOZ DO DONO "


Não sou licenciada em Direito.  Não tenho formação jurídica.  Convivi contudo intimamente, mais de dois terços da minha vida com quem o era, e com quem a tinha.
E tinha-a, nos tempos em que nesta área ainda havia muita gente honesta, séria, capaz, sabedora e escrupulosa.
Depois, a minha linha sucessória deu continuidade a esta senda, com os princípios, os valores, a dedicação, o esforço, a seriedade e o acreditar de quem havia felizmente bebido em boa "fonte".

Assim, sou uma simples cidadã deste país que constata, analisa e reflecte sobre o que se passa à sua volta ... e se indigna ainda, felizmente, com todos os atropelos miseráveis em que vamos tropeçando.
Esta minha exposição  traduz por isso, apenas o meu sentir, a minha análise e o meu entendimento, estando seguramente ferida de imprecisões técnicas que não domino, e logicamente, de rigor de linguagem e conceitos.

Neste momento, e de novo na ribalta pelas piores razões, mais episódios da novela "Tancos" - o desvio das armas nesta unidade militar.
E como cidadã comum que lê, se informa e escuta o que a rodeia, assiste-me o direito à indignação, à estupefacção, e à incredulidade perante o rumo que as coisas entretanto, assumiram.

Quando andava no liceu, na disciplina de Organização Política e Administrativa da Nação ( acho que era assim que se chamava ), aprendi que num estado de direito, existiam consignados na Constituição da República, três poderes, a saber, o legislativo, o executivo e o judicial e que as áreas abrangidas pelos mesmos, deveriam ser respeitadas,  não podendo ser entre si devassadas, violadas e "atropeladas".
Também aprendi, que à luz da mesma Constituição ( documento sagrado ou Bíblia, numa democracia ou estado de direito ), todos os cidadãos eram iguais perante a lei, com igualdade de deveres e de direitos.
Acontece que, como sabemos, nada disto se passa.
Neste momento assiste-se a uma vergonhosa, escandalosa e discricionária interferência do poder político sobre as estruturas judiciais responsáveis, primeiro pelo inquérito ( na fase de investigação ) e agora sobre a instrução do referido processo.
Há uma manifesta e objectiva obstrução à isenção que os profissionais de direito (garantes do cumprimento de todos os trâmites julgados necessários e fundamentais para a averiguação e  esclarecimento do processo ), tentam por em prática.
Assiste-se a uma intocabilidade de determinadas figuras públicas, devido à "dignidade" dos lugares que ocupam no quadro político do país.  Refiro-me como é de conhecimento geral, ao Primeiro Ministro e ao Presidente da República, que haviam sido convocados pelo Ministério Público, na qualidade de testemunhas, a prestarem esclarecimentos julgados úteis, importantes e determinantes para a consecução da investigação do processo.
A Procuradoria Geral da República, na figura da sua Procuradora Geral, Lucília Gago, veio de imediato à liça, invocando a não adequação desta intimação, dada a especificidade dos cargos desempenhados por António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, impedindo que esta diligência fosse efectuada.
Baseou a sua fundamentação numa consulta feita ao seu conselho consultivo, e desta forma  tornou-a  numa directiva sobre a intervenção da hierarquia em processos judiciais.
Indicava este parecer, que os procuradores só poderiam desobedecer às chefias, quando estivesse em causa uma violação da consciência jurídica do magistrado, e ainda assim, deveria a mesma ser devidamente espaldada e fundamentada, sob risco de ser levantado um processo disciplinar ao mesmo.
Desta forma, os Procuradores viram-se desautorizados, condicionados, viram os seus poderes coartados, viram as suas consciências violadas e a sua autonomia questionada, tornando-se  simples marionetas nas mãos dos seus superiores hierárquicos, abrindo-se assim um perigoso precedente, sem tamanho.
Passaram a ser meros técnicos jurídicos e não mais magistrados, na verdadeira acepção do desempenho das suas funções, caracterizadas sempre por isenção, idoneidade e independência, limitando-se agora a expressar, a traduzir  e a  fazer exercer determinantemente e não mais,  o entendimento dos seus superiores.
Ou seja, a defenderem  inapelavelmente, e tão só, a "voz do dono " !!!

Esta "guerra" aberta e vergonhosa que mostra claramente a intromissão abusiva e inadmissível da esfera política na área judicial, leva-nos ao crepúsculo mais escuro, das liberdades alcançadas na madrugada de Abril, há quase 46 anos.  Leva-nos a memórias de repressão, de silêncios e de opacidade. Traz-nos à memória perseguições, processos persecutórios hediondos, interesses escusos, arbitrariedades e compadrios !!!

Não foi p'ra nada disto, seguramente, que os cravos vermelhos desceram à rua naquela madrugada de ESPERANÇA !!!

Anamar

terça-feira, 10 de setembro de 2019

" QUANDO O DIA SE FEZ NOITE ... "




Há cinquenta e três anos, no dia 9 de Setembro, a primeira página do "Diário de Lisbôa" , obviamente de 1966, abria com uma notícia devastadora para todo o país, particularmente para o povo de Sintra : a sua Serra estava a arder !

O "Diário de Notícias" colocava em manchete :  " Sintra : uma vila ocupada " ou " 1966 - Quando a Serra de Sintra ardeu toda "...

As chamas irromperam na Quinta da Penha Longa, alastrando à Quinta de Vale Flor, Lagoa Azul e Capuchos e, segundo um relato publicado no site do jornal "Bombeiros de Portugal", vários pontos de referência da vila de Sintra estiveram sob risco elevado, como foi o caso do Palácio de Seteais, Palácio de Monserrate e Parque da Pena.
A própria localidade de S. Pedro de Sintra chegou a correr perigo, e as projecções incandescentes, originaram focos de incêndio noutros pontos do concelho — Albarraque, Cacém, Colares, Gouveia, Magoito, Mucifal, Pinhal da Nazaré, Praia Grande e Praia das Maçãs — obrigando à dispersão dos meios de combate.
O vento forte foi responsável pelo alastramento das chamas, que só a chuva verdadeiramente acabou por extinguir.

O sinistro lavrou, descontrolado e incontrolável, ferindo de morte o coração do Monte da Lua ... três dias em que o sol, entristecido e impotente, escureceu e se apagou ...
Todas as corporações de bombeiros de Lisboa foram mobilizadas.  Mais de 4000 operacionais estiveram  no terreno.
Só que, nessa altura não existiam meios aéreos de combate, nem carros de tracção às quatro rodas, nem depósitos de grande capacidade ou bombas de grande débito ...
A combater o incêndio haviam sido também chamadas Forças Militares, como reforço dos operacionais no terreno.  O  aquartelamento  de Artilharia  Anti-Aérea  Fixa  de Queluz  ( RAAF ), pertencente ao Concelho de Sintra, fez-se presente.  Integrava militares jovens, naturalmente sem nenhuma experiência para o efeito.
Coragem e denodo não lhes faltaram, só que, o fogo, traiçoeiro, cercou-os e encurralou-os ...
Ironicamente, o Alto do Monge, terceiro ponto mais elevado da Serra, o mais importante, se não o único túmulo da Serra, vestígio arqueológico constituído por pedras que formam uma cripta funerária com cerca de 50 séculos, foi o túmulo para 25 jovens que aí caíram carbonizados, no cumprimento da missão que lhes fora atribuída.
Houve quem os tivesse ouvido ainda clamar por água, sem nenhuma possibilidade de os socorrer.
Os seus corpos só foram encontrados no dia seguinte, e por eles e pela sua postura, se pôde adivinhar o horror por que terão passado ...

Sintra imortalizou-os num memorial em pedra, no local onde heroicamente tombaram ...

Eu era então adolescente. Encontrava-me a passar férias no Alentejo em casa dos meus avós.
As notícias da catástrofe, contudo, varriam o país, e a estupefacção e penalização eram gerais.

Hoje, já não conseguia situar no tempo, com exactidão, essa calamidade.  Já estive no local há alguns anos, e no alto desse pico, numa Serra que amo, cujo horizonte se perde muito além do olhar e onde apenas as aves se escutam e a brisa perpassa,  prestei silenciosamente uma homenagem simbólica a esses bravos jovens, que um dia, lá muito atrás, tiveram com a morte um encontro marcado para esse lugar !...

Um amigo, sintrense de naturalidade e de coração, publicou contudo, um texto tocante que, com a sua autorização, e a minha gratidão, agora aqui transcrevo.
Ele, que foi e é, testemunha viva de uma ferida sangrante que dilacerou para todo o sempre, a sua terra !...

" AINDA  FOI  ONTEM "


"  Para mim, sim foi ontem e também para todos aqueles que incrédulos, assistiram a três dias que mais eram noites com labaredas e fumo intenso, que parecia mais o inferno de Dante, que a tranquilidade e bonança do clima daquela Serra, que hoje é património da humanidade : o Monte da Lua, a Cynthia, a Serra de Sintra, com o seu arvoredo, as suas paisagens idílicas e palácios  tão imortalizados na literatura,  e que atraem milhares de pessoas.

Passaram cinquenta e três longos anos, no combate a esse grande flagelo. Lá, morreram então,  vinte e cinco jovens soldados, sediados em Queluz no aquartelamento de  Artilharia Anti-Aérea Fixa, que  em desespero, rodeados pelas chamas,  se refugiaram numa mina de água, nos Capuchos.
Ironia dramática do destino !  Inexperientes, sem meios ou preparação para o combate a  um flagelo daquelas dimensões, lá viriam a sucumbir ...

A sua memória está hoje preservada em vinte e cinco cedros plantados no local, e os seus nomes  estão inscritos  num memorial rochoso,  no alto da Serra que lhes deu morada eterna ...
Mas principalmente, está na mente e no coração das pessoas que não esquecem o seu sacrifício.
Sintra aprendeu a dura lição ...  

Eu tinha treze anos, assisti na base da Serra, na quinta dos meus pais, ao drama, escutei as pessoas e vi  a sua impotência...
Sou uma das muitas memórias vivas, que acompanhou  e transmite o que se viveu.
E porque  sigo de perto  a  política local, assinalo,  por ser verdade, a existência de uma grande preocupação em prol  desse legado  que é a Serra de Sintra. 
Como era dito numa antiga  propaganda aos relógios Breitling, nós nunca somos proprietários das coisas, somos simplesmente os cuidadores, para que as transmitemos  nas melhores condições aos nossos vindouros.

Nesse incêndio as pessoas sentiram a necessidade de, fosse qual fosse a sua ideologia, maneira de pensar, raça ou género  ( como agora fica bonito dizer-se )  preservar este património, que o era também, da Humanidade ! 
Foi no tempo do Estado Novo, veio depois a Democracia,  passaram diversos partidos pela gestão da Câmara de Sintra,  mas  toda esta gente, sem excepções conhecidas,  se preocupou em melhorar, em investir, em prevenir e em combater  as causas, ou as origens deste pavoroso flagelo.
Ao longo dos anos  investiu-se nas novas tecnologias, principalmente na prevenção. E por isso, hoje, a Serra devidamente monitorizada, oferece condições de uma segurança contra qualquer foco de incêndio, que  não  existiam  nesse  lamentável  dia  de um  Setembro a “arder” !... 
Pois é...... o AMOR de um povo à sua terra, faz milagres como este.

Neste momento, estamos todos confrontados e mobilizados  com o problema da Amazónia. Está na hora de toda a opinião pública mundial exigir a mudança de paradigma... creio.
A Amazónia não é de ninguém ...  é património da Humanidade !
Que seja então gestão das Nações Unidas,  e não de governos inescrupulosos  como os existentes actualmente. 

As sementes das ideias  fazem caminho lento... mas para germinarem têm que ser semeadas !... " 

   Aníbal  Rodrigues





Anamar

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

" QUANDO OS SINOS DOBRAM ... "





Estive na Amazónia em 2015.  Sonho antigo, acalentado até que foi possível.  Certo é que não poderia morrer sem o realizar.

Neste momento, pelas piores razões do mundo, a Amazónia está na ordem do dia.  E pelas piores razões do mundo, na Amazónia está a viver-se o que não poderia viver-se ...
O Homem, sempre o Homem, o maior inimigo de si próprio, está cego, surdo e mudo !
Sobre a Amazónia e todo o pesadelo que a envolve, já tudo se disse ... ou quase tudo se terá dito.  Qualquer coisa mais, será claramente redundante.

É a mais extensa floresta tropical do mundo.  Com 5500000 quilómetros quadrados, abrange vários países, entre eles o Brasil, o Peru, a Colômbia, Venezuela, Equador, Paraguai e Bolívia, sendo que o Brasil detém 60 % dessa área.
É um dossel impenetrável de árvores, onde 30 % das espécies mundiais ( aves, mamíferos e plantas ) vivem, na bacia do maior rio que a atravessa : o Amazonas, com uma extensão de 6400 Km, o que o torna o segundo mais extenso do planeta.
A floresta com 400 mil milhões de árvores capta 86 mil milhões de toneladas de carbono por fotossíntese, libertando 20% do oxigénio de todo o mundo, razão por que esta floresta é obviamente considerada o pulmão da Humanidade.  Todo o desequilíbrio provocado neste sistema ecológico, afectará consequentemente todos os climas da Terra, alterando-os irremediavelmente.
Neste momento, como sabemos, todas as agressões que estão a ser feitas à mata, com os incêndios provocados por queimadas intencionais e criminosas em favor dos madeireiros, desflorestando áreas de dimensão absurda, bem como do avanço vertiginoso da agro-pecuária e da exploração de minério,  factos que ocorrem sob a protecção das autoridades competentes, com a omissão, demissão e conivência do governo corrupto de Bolsonaro, serão já responsáveis pelo disparo notório do já bem identificado aquecimento global de todo o planeta, com todas as consequências inerentes gravíssimas.
Só no passado ano, foi desflorestada uma área superior à área de mais de 100 mil campos de futebol.

A denúncia é feita internacionalmente, inclusive, apelando-se à sensibilização do Mundo para esta catástrofe e calamidade que afecta todos os habitantes da Terra.
A denúncia é feita ... mas está contabilizado também aí, o maior número de assassinatos de jornalistas e activistas ambientais, do que em qualquer outro lugar.
Os madeireiros são hostis e perigosos. Para eles, não existe lei.  As armas e o seu uso indiscriminado foram bandeira da campanha que elegeu Bolsonaro, e como tal, não é só a Natureza que corre e sofre riscos, mas também quem se atreva a impedir a actuação discricionária do avanço dos madeireiros, face ao lucro obtido pelo desmatamento selvagem.

Junto ao Amazonas e também nas margens  dos seus afluentes, Rio Negro, Tarumã, Solimões, Xingu ... vivem povos indígenas.  São etnias milenares, são índios de muitas tribos diversas, que vivem da terra, da mata e dos rios.
São povos recolectores que subsistem dos frutos e vegetais que a floresta dá, da caça dos animais selvagens, e dos peixes que habitam as águas fluviais.
São povos totalmente desprotegidos, sujeitos à impunidade dos agressores que não dão qualquer valor à vida, num país sem rei nem roque, e em que apenas as leis dos mais fortes e das classes privilegiadas, têm poder.
Assiste-se neste momento ao seu pedido veemente junto das instâncias internacionais, na tentativa de salvarem as suas aldeias, as suas vidas e as suas terras ancestrais.
" A terra é a nossa vida  ... Mataram o rio, mataram as nossas fontes de vida e agora puseram fogo na nossa reserva” - a descrição é de uma mulher indígena ...


Bom ... mas tudo isto, como disse, são redundâncias sobre tudo o que se tem dito, o que toda a gente sabe, e o que se encontra estatística e cientificamente, em qualquer fonte informativa, hoje ao dispor e ao alcance fácil de cada um de nós.
Eu quero sim, dizer-vos ... contar-vos o que foi pra mim a Amazónia, no curto período em que a visitei. Porque ela me representa muito mais e mais além, do que o que aqui debitei.
Ela, que em 2009 foi considerada justamente, a maior das Novas Sete Maravilhas da Natureza, pela Fundação New 7 Wonders ...

A Amazónia é um desparrame de emoções e de sentires. Ela respira, pulsa ... ela cheira, ela soa, mesmo no silêncio da mata ... mesmo quando os únicos ruídos são os trinados de toda a profusão de aves e de insectos que a povoam.  E começam a escutar-se, mal a madrugada anuncia um novo dia.
São verdadeiros concertos celestiais que nos transportam a outra dimensão, na paz que se respira ...

A Amazónia não se vê, não se visita, não se descreve.  A Amazónia "sente-se", simplesmente ...

Queria falar-vos dos nasceres de sol no Rio Tarumã, quando a alvorada não tem cores que a definam.  Do lilás ao laranja, do prateado ao verde da selva projectada nas águas, como se fossem um lago adormecido ...
Queria falar-vos do "encontro das águas", onde os Rios Negro e Solimões se tocam, mas nunca se misturam ...
E das casas dos caboclos, nas margens...  Da simplicidade das suas vidas ...
Queria contar-vos do êxtase sentido, quando os bandos de aves cruzam os céus, ou se dependuram das ramagens, feitas adornos esquecidos em árvore de Natal, e o colorido da sua biodiversidade nos aquece a alma ... quando deixamos voar com eles, o sonho, livre e liberto ...

As águas sobem, as águas descem, ao ritmo das estações ... mas sempre é lindo e idílico, o cenário que nos rodeia ...
As ramagens, em espreguiçamento lascivo, mergulham luxuriantes na correnteza ; os cheiros adocicados do trópico por vizinho, inunda-nos as narinas e os sons da mata ou do manguezal ( gritos estridentes, cacarejos desgarrados, trinados a descompasso ) ecoam no silêncio quente e húmido da floresta.
O silêncio ... um silêncio que não se descreve.  Só se sente.  Entranha-se-nos na pele e afaga-nos o coração...
Esquecem-se as vozes humanas, esquece-se o movimento de gentes.  Há apenas sensações inundantes, emoções incontidas e uma esmagadora mensagem de paz, harmonia, bem estar, equilíbrio, plenitude ... um forte sentimento de miscigenação e entrosamento quase irreal, com aquela natureza primária, pujante, com aquele santuário em comunhão com a nossa alma ...
Então, o olhar percorre adormentado, a imensidão exuberante ... E esse olhar ficar-nos-à  para todo o sempre !

"Quando o uirapuru canta, a floresta silencia, como se toda a natureza parasse.  É a hora de fazer um pedido, porque se realizará, se o virmos e ouvirmos cantar " diz uma lenda indígena sobre esta pequena e esquiva ave da Amazónia, multicor, considerada o pássaro sagrado da selva.

Esta, foi a Amazónia que eu vi, que eu senti ... que eu vivi !...







O mundo precisa da Amazónia ... mas HOJE, a Amazónia precisa do mundo... não esqueçamos !!!



















































































































Anamar