
A sua perspicácia, o seu poder observador, o seu fino dote de crítica social acutilante e oportuna, sempre nos encantam em todas as suas obras.
A actualidade da sua escrita é espantosa. Com a sua língua feroz, lucidez absoluta e um humor cáustico, enfrentou satírica e provocatoriamente a "ferrugem" da sociedade em que viveu.
Que juízo de valor faria Eça, se actualmente "descesse" a este cantinho à beira-mar plantado e se confrontasse com o paralelismo gritante entre a sua e a nossa época (fins do século XIX e o início do século XXI) entre as quais medeiam afinal cento e alguns anos??!!...
Senão....reparem :
ESTRANHA CONTEMPORANEIDADE
«O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão
dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A
prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens
públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na
imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma
rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um
inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte:
o país está perdido!»
Isto foi escrito em 1871, por Eça de Queirós, no primeiro número de “As Farpas”.
Anamar
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