Nesta semana que passou, viveu-se o "Dia da Espiga", ou a comemoração religiosa da Ascensão de Jesus aos céus, quarenta dias depois da Ressurreição Pascal ... se ainda me lembro.
Fora as raízes católicas que já perdi nos meandros do tempo, lembro a quinta-feira "da espiga", vivida em miúda, no Alentejo, claro, e que só pode ser privilégio de quem viva no interior rural, ou perto dele.
Na altura eu vivia em Évora, era menina de tranças e vestidinhos rodados.
As meninas à época, ao contrário de hoje, não vestiam calças nem calções, no dia a dia. Quando muito, isso era traje da época balnear.
Não obstante, lembro de ter tido umas calças e camisa, em vermelho liso e risquinhas condicentes, "à pirata", que é como quem diz, as nossas "bermudas" de hoje, feitas pela costureira que ia quase semanalmente a casa, fazer os arranjos e roupas simples.
As de maior responsabilidade, ou mais elaboradas, iam para a D. Soledade, a modista da classe "fina" de Évora ... senhora bem apetrechada de figurinos, onde a minha mãe escolhia criteriosamente os modelitos.
Eu vivia então, na Av. dos Combatentes, que ficava num extremo da cidade . Esta avenida terminava na estação dos caminhos de ferro, e atravessando as linhas férreas, do outro lado, continuava numa estrada que cortava os campos, até ao Bairro de Almeirim.
Era um caminho quase sem trânsito, ladeado por campos cultivados, com searas a perder de vista.
Era montado de sobreiros e azinheiras, e olival com azeitona a formar-se ;
Eram "jardins" de papoilas, malmequeres e flores roxas ... de urzes, estevas e giestas ;
Eram postes de alta-tensão, com os ninhos das cegonhas empoleirados a desníveis ;
Eram varas de porcos, ou rebanhos adormecidos por ali, quando o calor apertava, e o convite, era a sesta para o gado e para quem o pastoreava ;
Era o pipilar dos pássaros pela seara ... os cucos, os melros, os tordos, as alvéolas ... as andorinhas rasantes, em bandos volteadores ...
Era o cantar dos grilos à desgarrada, e a melopeia dormente das cigarras ...
Eram os cheiros adocicados trazidos pela brisa mansa, dos cereais de espiga a formar-se, e dos pólens, a darem-se ao zumbido dos zângãos e das abelhas atarefadas, do meu Alentejo !...
Era o chocalhar lá longe, de quando em quando, dos badalos das vacas, que se misturava ( ao crepúsculo ), com o sino de alguma igreja da cidade, nas "Avésmarias" ...
Era o céu azul de uma Primavera quase Verão, nas terras quentes ...
E era eu, menina, sem saber, sem imaginar, sem sequer sonhar o que a Vida é ...
Apanhava-se o "ramo da espiga", garante de pão na mesa, azeite, "luz", paz e alegria na casa, por todo o ano.
Para isso, deveria ser formado por espigas de trigo ( pão ), um raminho de oliveira ( azeite e paz ) ... e flores, todas as flores dos campos, e de todas as cores que pudéssemos apanhar ( os malmequeres amarelos e brancos simbolizando respectivamente o ouro e a prata, e as papoilas, o amor e a vida ).
Era atado com uma guita, e dependurado na despensa ou na cozinha, até ao ano seguinte, até à próxima "5ª Feira da Espiga", para que o "clima" fosse favorável a um ano de abundância, paz e felicidade na família.
Hoje, na cidade ( sinal dos tempos ), também há "ramos de espiga", onde a contrafacção já chegou.
Longe de searas à séria, o lisboeta que quer fazer uns trocos, vende ramos atamancados, em que as espigas são praganas, apanhadas nos baldios que bordejam os grandes centros.
O resto, bom, o resto é mais fácil de encontrar. Sempre há umas oliveiras aqui ou ali, meio adormecidas e tristes, fora do "seu" olival ... e flores ...
Desde as papoilas e macelas, a todas as flores selvagens e coloridas, a Natureza não regateia generosamente oferecê-las, em qualquer canto, mesmo agreste.
Ainda que o silêncio dos espaços não impere, ainda que o ar seja poluído, ainda que o chilreio das aves não se faça ouvir por todo o ruído envolvente ...
Ainda que não haja cegonhas encarrapitadas nos postes de alta-tensão ...
Ainda que eu já não seja a menina das calças "à pirata", vermelhas ... e também já não tenha tranças ...
... ainda que eu já tenha "descoberto" o que a Vida é ... continuará a existir a "Quinta-feira da espiga" !!!...
Anamar
EM JEITO INFORMATIVO :
Consultei este artigo que infra-cito, a propósito, e que achei muito interessante.
Coincidente com a Quinta-feira da Ascensão
O Dia da Espiga
O Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-feira da Ascensão, é uma data móvel que segue o calendário litúrgico cristão.
Mas,
se actualmente poucas são as pessoas que ainda vão ao campo nessa
quinta-feira, abandonando as suas obrigações, para apanhar a espiga, ou
que se deslocam às igrejas para participar nos preceitos religiosos
próprios da data, tempos houve em que, de norte a sul do país, esta foi
uma data faustosa, das mais festivas do ano, repleta de cerimónias
sagradas e profanas, que em muitas zonas implicava mesmo a paragem
laboral. A antiga expressão “no Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem
nos ninhos” deriva dessa tradição.
A origem gaudiosa deste dia é,
contudo, muito anterior à era cristã. Este dia é um herdeiro directo de
rituais gentios, realizados durante séculos, por todo o mundo
mediterrâneo, em que grandiosos festivais, de intensos cantares e
danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza.
Para os
povos arcaicos, esta data, tal como todos os momentos de transição, era
mágica e de sublime importância. Nela se exortava o eclodir da vida
vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, e a esperança nas
novas colheitas.
A Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras
festas ancestrais pagãs, cristianiza depois a data e esta atravessa os
tempos com uma dupla acepção: como Quinta-feira de Ascensão, para os
cristãos, assinalando, como o nome indica, a ascensão de Jesus ao Céu,
ao fim de 40 dias; e como Dia da Espiga, ou Quinta-feira da Espiga, esta
traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera
agrícola e familiar.
O Dia da Espiga é então o dia em que as pessoas
vão ao campo apanhar a espiga, a qual não é apenas um viçoso ramo de
várias plantas - cuja composição, número e significado de cada uma,
varia de região para região –, guardado durante um ano, mas é também um
poderoso e multifacetado amuleto, que é pendurado, por norma, na parede
da cozinha ou da sala, para trazer a abundância, a alegria, a saúde e a
sorte. Em muitas terras, quando faz trovoada, por exemplo, arde-se à
lareira um dos pés do ramo da espiga para afastar a tormenta.
Não
obstante as variações locais, de um modo geral, o ramo de espiga é
composto por pés de trigo e de outros cereais, como centeio, cevada ou
aveia, de oliveira, videira, papoilas, malmequeres ou outras flores
campestres. E a simbologia de cada planta, comumente aceite, é a
seguinte: o trigo representa o pão; o malmequer o ouro e a prata; a
papoila o amor e vida; a oliveira o azeite e a paz; a videira o vinho e a
alegria; e o alecrim a saúde e a força.
Além destas associações
basilares ao pão e ao azeite, a espiga surge também conotada com o
leite, com as proibições do trabalho e ainda com o poder da Hora, isto
é, com o período de tempo que decorre entre o meio-dia e a uma hora da
tarde, tomando mesmo, nalguns sítios do país a designação de Dia da
Hora. Nas localidades em que assim é entendida esta quinta-feira,
acredita-se que neste período do dia se manifestam os mais sagrados e
encantatórios poderes da data e nas igrejas realiza-se um serviço
religioso de Adoração, após o qual toca o sino. Diz a voz popular que
nessa hora “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão
não leveda e até as folhas se cruzam” . Nalgumas povoações era também do
meio-dia à uma que se colhia a espiga.
Noutras regiões ainda, esta
data é dedicada ao cerimonial do leite. Na aldeia da Esperança, no
concelho de Arronches, este é aliás o “Dia do Leite” e os produtores de
queijo ordenham o seu gado e oferecem o leite a quem o quiser. Também em
Guimarães, e em muitas freguesias do concelho de Pinhel, o leite
ordenhado neste dia é oferecido ao pároco. Em Santa Eulália, no concelho
de Elvas, esse leite é dado aos pobres, acreditando-se assim que a
sarna não atingirá as cabras.
Nas zonas onde esta data é associada à
abstenção laboral, cessam-se muitas actividades como a cozedura do pão
ou a realização de negócios. Na Lousada, em Penafiel, não se cose nem se
remenda e há quem deixe comida feita de véspera para não ter de
cozinhar neste dia.
No que diz respeito ao sul do país, e sobretudo
na actualidade, a maioria das tradições do Dia de Espiga resume-se à
apanha do ramo da espiga, ao qual, em muitos sítios, se adiciona também
uma fatia de pão, para que durante todo o ano não falte este alimento em
casa.
Consultei ainda informação, que diz deverem ser em número de cinco, cada uma das espécies presentes no ramo, e outra que afiança que duas espigas de trigo, duas papoilas, dois malmequeres brancos e outros tantos amarelos, e uma haste de oliveira em flor, são a quantidade certa para "não ser demais nem de menos" ...
Há também zonas do país, em que se junta videira ( simbolizando o vinho e a alegria ) e alecrim ou rosmaninho ( simbolizando a saúde e a força ).
Acredita-se que este costume associado à recolha da "Espiga", e que prevalece primordialmente no Centro e Sul do país, teve origem num antigo ritual cristão, que era uma bênção dos primeiros frutos.
No entanto, tendo tanta ligação à Natureza, supõe-se que vem bem mais de trás no tempo, talvez das antigas tradições pagãs, associadas às festas da deusa Flora, que aconteciam por esta altura, e às quais se prendem também as tradições dos Maios e das Maias.
Há zonas de Portugal em que por cada ano, o ramo velho, digamos, é queimado numa fogueira no dia de S. João.