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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

" O FIEL JARDINEIRO "





Os dias continuam radiosos e abençoados.  O sol não se esquiva, a temperatura é generosa, o céu azula, os pássaros chilreiam e mostram-se saltitantes pelos campos e jardins, onde a erva rebentou em força  com um verde saudável e viçoso, e onde as flores despontam já, com a pujança e a beleza promissora de uma Primavera candente.
O sol faz o milagre.  Aliás, o sol sempre faz o milagre de despertar, colorir e adornar gentilmente os dias que agora nos arquivam a escuridão, a neblina e o frio do Inverno, que apesar de tudo ainda atravessamos.

Adoro a Natureza.  Sempre ela subjaz aos meus escritos, porque sempre ela emoldura e determina os meus estados de alma.  Não canso de o referir, e tenho-a como o bem mais seguro e precioso de que dispomos,  porque ela representa a VIDA ... 
É certa, magnânima, não guarda ressentimento ...
Fascina-me sempre a sua dádiva sem cobrança, apesar dos maus tratos e da insensibilidade do Homem.  Ela não pede, aceita ... não nega, dá-se ... não cobra e não nos falha ...

Aprecio quem a aprecia.  Identifico-me com quem com ela se identifica.  Agrada-me a sensibilidade de quem com ela gosta de se miscigenar, de quem lhe identifica a linguagem e lhe sabe ler os mistérios.
De quem se extasia com um nascer ou um por de sol.  De quem sabe olhar as margaridas selvagens, as azedas delicadas, ou a nudez dos plátanos despidos.  De quem entende, porque escuta, o trinado do melro, o arrulhar dos pombos, o pipilar do chapim ou da pega rabuda ... o grasnido da gaivota que patrulha os penhascos alterosos ou saúda a rebentação da maré baixa ...
Emociono-me com quem se debruça para colher um malmequer dos campos, uma madressilva dos muros velhos, apanhar um seixo dos areais, ou com quem "guarda" a cantilena da rebentação, nas praias ora desertas.  Quem entende a voz do vento, quem lê o recado da tempestade ... quem silencia, para sonhar, no horizonte ...
Enterneço-me com quem planta tomates, pimentos, aromáticas, figueiras, malaguetas, morangos e outros,  em vasos de varanda, e  rejubila com cada um que nasce e cresce, e o acarinha e o trata como se de uma criança se tratasse.
Extasio-me com a dádiva de amor posta na recuperação das espécies doentes ou moribundas, tantas e tantas vezes irremediável e desprezadamente largadas no lixo ... por nós, aqueles que não as "sentem" como seres vivos clamando por ajuda ...
Extasio-me com quem ajardina encostas inóspitas de falésias junto ao mar, só porque nelas se encerram vidas, histórias e destinos ...
E admiro profundamente quem ama os animais, sobretudo aqueles a quem a desdita jogou em futuros  tortuosos e indefinidos ... Quem os ajuda, os defende e os protege ...

Conheço alguém assim.
E só consegue ser assim, quem tiver um coração do tamanho do mundo e uma alma aberta, disponível, pura e "naïve", capaz de deixar albergar em si tudo e todos que o precisarem ... Quem tiver uma sensibilidade ímpar e desperta,  na arte da "jardinagem da vida" ...
Já lhe chamei  "o homem das rosas", e sobre ele escrevi um conto, há anos atrás.  Hoje, chamo-lhe o "fiel jardineiro" ... e sinto-me privilegiada por, de quando em vez, também eu ser uma humilde "plantinha" do seu jardim ...



Anamar

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

" DE TUDO UM POUCO "



O dia amanheceu radioso, aliás já ontem o seu semblante foi primaveril.
Um sol luminoso e quente, num céu completamente límpido e translúcido, emoldurou estes primeiros dias de Fevereiro.  Afinal, Fevereiro igual a si próprio ... sempre nos presenteia com estes dias que parecem anunciar uma Primavera com pressa de chegar ...

Ontem, a efeméride do costume ... dia de Nossa Senhora das Candeias,  Nossa Senhora da Candelária, Nossa Senhora da Apresentação ou Nossa Senhora da Luz ... conforme o local que A homenageia.  Este ano, com uma data interessantíssima :  02-02-2020, ou seja, uma sequência numérica chamada de palíndromo.
Este conceito que não se aplica apenas aos números, respeita a uma palavra, frase ou qualquer outra sequência de unidades que tenha a característica de poder ser lida de igual forma, da direita para a esquerda, ou em sentido contrário.
 "Ovo", "reviver", "luz azul", "ame o poema", são exemplos de palíndromos.
Na nossa travessia,  tivemos  já o privilégio de vivenciar duas capicuas :  os anos  1991 e  2002, o que é raro acontecer. A data de ontem, constitui uma perfeição global !

Bom, neste domingo "perfeito", a Senhora da Luz chegou-nos com um tempo gloriosamente luminoso ... talvez por isso mesmo !  E acresce, que consequentemente  e pegando no ditado popular, teremos ainda um Inverno para chegar ...
Sempre a minha mãe lembrava : se o dia da Senhora das Candeias "rir", o Inverno está p'ra vir, e se ele "chora", temos o Inverno fora !...
Sempre a minha mãe e os seus "ditos" !...

Hoje fiz a minha caminhada, embrulhada na mornidão deste solzinho de Inverno, doce e manso.
Por todo o lado onde o verde ainda só se anuncia longinquamente, os pássaros volteiam, saltitam e trinam numa alegria esfuziante.
Afinal, Fevereiro é mês de acasalamento e nidificação, Março mês de posturas e nascimentos, ou não albergasse em si a chegada da estação da renovação e da continuidade ...
A Natureza é sábia e nunca erra !

E a Natureza é um pote de alimento para a alma, um boião de néctar para o coração !
O ser humano experimenta em si, uma força e um poder,  uma esperança sentida e vinda nem se sabe de onde, e uma claridade insuspeita que nos inunda, como uma onda que se espraiasse mansamente num areal deserto ...
De repente, da escuridão e das trevas dos meses de recolhimento que atravessamos, surge o dealbar de uma nova aurora, de um renascimento que nos anima e "recarrega" todas as baterias do nosso ser !...
Era então que a minha mãe dizia que "ficamos com vontade de fazer coisas" ...  E fazer coisas, para ela, era desencadear uma faxina feroz na casa, de fio a pavio, que ninguém amansava ...
Nunca entendi muito bem estas "realizações" que deixavam a minha mãe exultando de felicidade !... ( rsrsrs  😄😄😄 )
Não lhe herdei, de facto, estes rompantes efusivos que tornam felizes as pessoas simples, as que não exigem demais da vida, as que se realizam e pacificam com o que os dias lhes vão dando ...
São seres de paz, de bonomia, de aceitação ... seres não tumultuados, e de bem com a existência !...

Ontem tive comigo, toda a tarde, a minha benjamina.  A Teresa, a caminho dos três anos que completará em Junho, é de facto uma bênção para quem com ela convive ...
Pequenina de estatura, tem um desenvolvimento físico mas sobretudo mental, que me maravilha.  Desde muito novinha no infantário, no que considero ser uma mais valia no desabrochamento intelectual de qualquer criança, estimulando-lhe aptidões fundamentais quer individualmente quer na relacionação grupal, a Teresa é uma criança sem inibições, com uma desenvoltura e um à-vontade espantosos, extrovertida e com uma linguagem perfeitamente escorreita e rica, para a pouca idade que detém.
Tem um discurso lógico, claro e rico em expressões.  Divide e partilha.  É calma e sempre bem disposta.  Não é uma criança birrenta, pelo que é fácil o convívio com ela.  Ouve os adultos, aceita o que se lhe diz e expõe as suas ideias enriquecendo-as com uma expressão gestual que me fascina ...
O convívio quase exclusivo com a mãe, já que o pai trabalhando no exterior passa grande parte do tempo fora, propicia-lhe e estimula-lhe uma ligação íntima  com esta, muito forte e cúmplice, que nos mostra uma menina parecendo ter bastante mais idade.

Já há muitos anos que não acompanhava de perto o crescimento de uma criança.  Antes dela, o meu outro neto mais novo, tem já doze anos, e acho que me escapou muito do seu desenvolvimento.
A vida tem períodos e fases mais ou menos complicadas, em que as prioridades, por vezes, não nos são generosas ...
Agora a Teresa, chegada quase nos quarenta anos da mãe, e em que eu talvez já não acreditasse muito que um novo elemento nos viesse enriquecer a família, é uma descoberta permanente ... um enamoramento e um fascínio constantes para mim, o facto de poder testemunhar o seu percurso promissor, nestes tempos tão conturbados e descoloridos !...

Desculpem um pouco da imodéstia.  Não o é, na verdade.  Sinto-me sim, uma "sortuda", uma privilegiada e abençoada mesmo, por a vida ainda me presentear com a possibilidade da descoberta do milagre que é a chegada ao mundo de um ser tão indefeso, tão frágil e tão vulnerável ...  e poder testemunhar dia a dia, a sua busca pelo seu lugar no mundo !
De alguma forma, sente-se  uma realização muito grande, uma imensa expectativa, e como que uma gratificação e um sentido objectivo para a continuidade, também, das nossas existências nesta Terra !...

Anamar

domingo, 19 de janeiro de 2020

" SEI LÁ QUE NOME DAR A ISTO ... "




E o bando dispersou.
Eram muitas, há pouco, patrulhando lá de cima o que suponho ser bem desinteressante aqui por baixo ... um casario sem rei nem roque, uma floresta de betão com alguns assomos de verde, para fazer de conta.
Sei que gaivota não é bicho de jardim, não é bicho de floresta, mata ou serra.  Gaivota é bicho de arribas, de falésias a pique, de rochedos salpicados de sal.  Gaivota é bicho de azul, de rendilhados de espuma, de caramujos, de algas e de peixe de marés distraídas.
Adormece-se se a onda ajuda, pica a fundo sobre as cristas, se ela é rude e se impõe.
Gaivota é bicho de ser livre.   Perspicaz, atrevida e desafiadora, não entendo por que perde tempo a andar por aqui ...
Por essa razão perdoei à minha, que partiu há muito.   Partiu, mas levou-me com ela nas asas do sonho, para bem longe deste cativeiro ...

O céu hoje é um céu de Primavera, num glorioso dia de Inverno.  O seu azul diáfano, a sua luminosidade de doçura perceptível, o calor tímido do seu sol, é um doce envolvimento para o coração e para a alma.
Da janela, repousada em varanda de privilégio do meu sétimo andar, pouco se atreve a tapar-me o horizonte.  Pouco se atreve a escurecer-me a luz.  Pouco se atreve a boicotar-me o pensamento que se solta e voeja longe, mais e mais longe ... sempre mais além ...

O rasto de um avião aqui por cima, traçou uma linha perfeita na tela do firmamento.  Um avião, seja qual for, é um caminho, é um projecto, é uma viagem, é uma história.  Sempre é uma história na vida das pessoas. Uma história contada ou inacabada.
Um avião, é uma chegada e uma partida.  É um encontro onírico.  Para mim, sempre o é.
E lá vou eu ... atrás do rasto, atrás das asas ... atrás do sonho !

Vem aí a tempestade "Glória", dizem os serviços meteorológicos oficiais.
Que saudades dos tempos em que a voz de Anthímio de Azevedo, tudo simplificava no pequeno écran ...
As tempestades não tinham denominações absurdas.  Eram tempestades e pronto. O Inverno era o Inverno, com sabor a frio, a chuva, a ventos, mais ou menos fortes, dias seguidos ... os que fossem .
O Inverno eram as golas altas, os gorros fofos, as luvas que hoje esquecemos no fundo das gavetas.  Eram os pés encharcados, os guarda-chuvas partidos nas reviravoltas das esquinas. Eram as gripes, os espirros e as tosses persistentes.  Era o Vicks Vaporub que a mãe nos punha antes de dormir ...
O Inverno era o que abria as portas à Primavera, e esta ao Verão que antecedia o Outono, no tempo certo, sem surpresas ou desvarios.
As castanhas comiam-se assadas quando o S.Martinho nos batia à porta.  Os morangos e as cerejas assomavam com a doçura mansa da Primavera. As favas desciam-nos à mesa pelas Páscoas.
Era assim.  Sabíamos e esperávamos com gosto, com desejo, com alegria ... porque sabíamos que era exactamente assim !
As coisas eram conhecidas e seguras.  Sabíamos perfeitamente com o que contar, sem sustos ou atropelos. 
Hoje acontece tudo, sempre, em qualquer momento.  Perdeu a graça !...

Hoje sabemos muitas coisas.  Coisas de mais.  Aliás, sabe-se tudo, em tempo real.  E pasmamos com a evolução das tecnologias, com o avanço do conhecimento e da informação.
Mas morre-se nos hospitais, não da doença que lá nos levou, mas de uma bactéria residente, que parece estar ali, para abater quem entrou com uma apendicite ...
E morre-se, porque um inocente avião em rota comercial, é derrubado "por engano" por um míssil, no meio de confrontos absurdos e incontroláveis, em guerras políticas e fratricidas, comandadas de secretárias a milhares de quilómetros de distância.
E há fogos sem norte ou rumo, que devastam, destroem e matam, dia após dia ... homens, plantas, animais ... a Natureza sem defesa, consumida e reduzida a cinzas.  Seguem-se inundações catastróficas, num caos e num desmando que o Homem, afinal, não controla ou aquieta.
O planeta zanga-se.  Zanga-se e avisa.  Zanga-se e castiga.

O futuro mostra-se como as areias movediças do deserto, como as dunas móveis que se fazem e desfazem, à nossa frente ... incerto e duvidoso ... assustador !
O trabalho, o mérito, a isenção, o esforço, a verticalidade, parecem não garantir a dignidade e a realização de ninguém.  São outros os valores que movem o Homem de hoje.  São outros os "requisitos" garante da segurança nos dias vindouros. Os baluartes da sociedade são falaciosos, as estruturas que deveriam pugnar pelos seus direitos, e defendê-la das arbitrariedades que nela grassam, têm pés de barro e mostram-se ineptas, ineficazes e incapazes de proteger os cidadãos.
Manda o poder. Todo o poder ... material ou não ! Impõe-se sem escrúpulos.  De todas as formas de que dispõe.
Enfim, as tempestades vão muito além das meteorológicas !

Bem ... onde o pensamento me trouxe, numa viagem sem bilhete, intemporal e não programada !...
Comecei na minha janela, olhando o espaço sem limite ou fronteira, deitado aos meus pés, há algumas horas atrás ... e termino, quando o sol já faz as malas para dormir ... saboreando uma chícara aconchegante de café, de novo junto à minha janela, quando as gaivotas já buscaram guarida e só os pombos idiotas perambulam por aqui.
O plátano agora esquálido e esfíngico, despido da folhagem que ainda esperará para voltar, parece dormitar como os velhos à lareira.
De resto, o silêncio do fim de dia aproxima-se a passos largos.  Afinal, foi mais um dia de Inverno com um glorioso semblante primaveril !...


Anamar

sábado, 18 de janeiro de 2020

" OS PEQUENOS PRAZERES ... "



Levantei-me tarde, aliás como é hábito.  Herdei do meu pai os genes da apreciação de uma boa manhã na cama, não importando a hora do recolhimento.  Essa, pode ser qualquer uma, ao sabor das circunstâncias e dos momentos.
Já varei muita madrugada entretida cá nas minhas coisas,  já me amanheceu o dia sentada ao computador frente à janela de sempre, já escrevi muito de meu nas horas silenciosas e cúmplices, perdidas noite adiante.
Mas aquela oportunidade de tempo sem tempo, no entremeio da fofura dos lençóis, no ninho aconchegante e quente do édredon ... essa, é uma benesse sem tamanho, é um privilégio que me compensa da obrigatoriedade de encarar mais um dia, com ou sem vontade, no desencasular face à luta diária que sempre nos espera !
Sou tipicamente uma mulher da "noite".  Funciono do lusco-fusco, adiante.  As manhãs ... sobretudo as horas da alvorada deprimem-me, violentam-me, incapacitam-me os neurónios, tornam-me totalmente disfuncional ...
Sobretudo nesta época do ano em que se pressente borrasca lá fora, em que se ouve o vento agreste a soprar, em que se adivinham  nuvens cavalgantes e encasteladas cobrindo a abóbada por cima das nossas cabeças ... em que a chuva copiosa tamborila ou açoita a vidraça ...
Foi o caso desta noite, em que por cada momento consciente entre o sono e os sonhos que me acompanharam,  saboreei  a  doçura  do  estar  bem ... de  tudo  estar  mais  ou  menos  perfeito !...

Depois, cumpri a caminhada que me imponho  três vezes por semana, na procura de mais qualidade de vida, com a satisfação do dever cumprido.  Sim, porque não sendo eu uma pessoa que me reconheça disciplinada, sobretudo nesta área, conseguir manter um projecto, uma determinação e uma realização, sabe-me efectivamente a uma verdadeira e prazeirosa conquista.
Hoje, em itinerário alternativo à mata enlameada e intransitável pelas chuvas caídas, inaugurei satisfatoriamente o percurso que apelidei de "inverno" ...

O sol acabou espreitando pelo meio de algumas nuvens esparsas que viriam a adensar-se e a fazerem cara feia, agora ao fim do dia.
Almocei de prato na mão, sentada sobre a máquina de lavar roupa, junto à janela, saboreando a generosidade de uma luminosidade dourada, doce e envolvente, dos raios que me inundavam.
À minha frente, o casario desgovernado, que me permite olhar horizontes longínquos,  mais adivinhados do que alcançáveis, transportava-me ao sabor do sonho, na liberdade das gaivotas que por aqui preguiçosamente planavam.
Há quanto tempo eu não me oferecia este descompromisso de formalismos !... Há quanto tempo eu não me permitia esta coisa de poder ser como eu quisesse, sem demais preocupações, presenças ou obrigatoriedades !...
Bebido o cafezinho de fim de refeição, sem urgências ou afobações, esperava-me uma tarde ociosa sem programas determinados.  E poder fazer isto, aquilo  ou aqueloutro conforme me desse na telha, tinha um sabor abençoado.

Vim para o computador  mexer e remexer em pastas, documentos, fotografias arquivadas, testemunhos de eventos, momentos que o foram, registos que marcam inesquecíveis acontecimentos, indelevelmente guardados por esta ou aquela razão, mas que se pretende que perpetuem aquela fatia das nossas vidas.
São memórias inapagáveis, são formas de nos trazerem o passado ao presente, de uma forma tão vívida que parece que o vivemos outra vez.
Revi o vídeo do lançamento do meu livro "Silêncios" que fará em Maio, três anos decorridos.  Rever as pessoas, sentir toda aquela festa, toda aquela emoção, todo aquele "conto de fadas" de um dos dias mais felizes da minha vida, deixar-me de novo envolver naquele regaço de carinho e afecto, trouxe-me outra vez as lágrimas aos olhos.
Olhar as pessoas, ver os seus rostos na alegria com que me homenagearam, escutar as palavras proferidas na Biblioteca Piteira Santos ... "beber" Énya no seu "Only Time" que nunca se apagará do meu coração ... foram presentes bem acima do que eu alguma vez sonhara, do que eu alguma vez mereceria ...

E pronto ... anoiteceu entretanto.
O meu sábado foi um conforto de alma pejado de pequenos prazeres, soltos e leves, uma  verdadeira dádiva  que  me  concedi,  com  o  sabor  da  liberdade,  da  irreverência  e  da  plenitude  de simplesmente  ser  e  saber-me  mulher,  na  posse  das  minhas  vontades, opções  e  escolhas !...

Afinal, a vida também é feita destes pequenos e saborosos retalhos ... acredito !!!...

Anamar

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

" EM OUTONO DE ALMA "




A hora mudou seguindo esta determinação peregrina que obriga ao reajuste biológico de cada um.  Simultaneamente o tempo atmosférico aproveitou p'ra virar, e assim, cinco da tarde a escuridão aproxima-se a passos largos.
Tem chovido alguma coisa ... migalhas para o que as nossas reservas carecem ... e a abóboda cinzenta e espessa vista aqui do meu "posto observatório" de sempre, é desconfortante e triste.
É uma verdadeira tarde de Outono, aquela com que o dia escolheu para encerrar.
Entretanto, à tangente, fiz a minha caminhada sem que me molhasse.  Umas borrifadelas ainda ameaçaram chegar a vias de facto, mas depois retrocederam.
A mata estava estranhamente silenciosa.  Ausência de utentes e ausência de sinais de vida.  Parecia que por ali reinava um sono reconfortante.  As tonalidades que a pintam neste momento, têm predominantemente a doçura quente das cores da época.  Cores de recolhimento, introspecção e paz.
Os vermelhos, os laranjas e os amarelos  no meio de verdes algo desbotados, proliferam pelas veredas solitárias.  As  árvores despem-se ao sabor da aragem que perpassa, enquanto que os musgos já lhes trepam os troncos.

Eu estou em modo de hibernação ... batimentos lentos e suaves, emoções controladas, entusiasmos e motivações em banho-maria, deslumbramentos ... já eram, correrias e afobações ... não estou nessa !
Olho à volta e, sinceramente, pouca coisa me acelera as pulsações, pouca coisa me acelera o passo e motiva, pouca coisa me espevita a alma ...
Hibernação no seu todo !  Só não durmo como o urso pardo, os esquilos, os morcegos e as marmotas, entre muitos mais.  E há momentos em que verdadeiramente o lamento.
Estou numa espécie de ressaca de vida.  Isolo-me muito, disponho de pouca paciência e também não encontro no dia a dia, nada que justifique eu precisar despender mais.
Até mesmo acontecimentos que me projectavam o humor e a boa disposição aos píncaros, têm neste momento pouco efeito, como uma droga terapêutica a que o organismo já se tivesse habituado faz tempo ...
A vida que se foi fazendo com uma estabilidade precisa até há anos atrás, com certezas e concretizações nos limites espectáveis e previsíveis, de repente ( a mim parece-me mesmo de repente ), deu uma cambalhota insuspeita e inimaginável.
Muitos amigos em situações débeis em termos de saúde e de qualidade de vida, vivem realidades escuras, esgotantes e desinteressantes.
Grandes inseguranças e incertezas assombram e atormentam os dias.  Parece que só se ouve falar em desgraças, em dificuldades, em desencantos e em cansaços arrastados, sem soluções à vista.
Parece que espreito para um mar de náufragos ... cada um esbracejando e esfalfando-se para alcançar uma bóia salvadora ...

Sei que não sou uma optimista por excelência.  Bem ao contrário, sou aquela que quase sempre vê o copo meio vazio ... mas a análise que supra-citei, pouco tem do meu negativismo genético ou inato.
É simplesmente uma observação bem real e concreta.
E por isso, como claras que desandaram do ponto, assim sinto a vida escorregadia, pouco tranquila e fiável. Cinzenta e cansativa.
A incerteza de um amanhã que não se garante, é uma desestabilização interior.
Esbarra-se contínua e sistematicamente em dificuldades, tropeços e inacessibilidades.  A resiliência de cada um, atravessa provas de fogo e testa-se por cada dia.
Sendo que, porque os anos passam, e com eles a condição humana se deteriora, tudo o que enfrentamos carece de um esforço e de uma frescura acrescidos, que já não detemos na sua plenitude ...
E os "sempre em pé" são cada vez mais figuras míticas nesta nossa realidade ... espécies cada vez mais em vias de extinção !...

Enfim ... vive-se por cada dia, ainda que cada dia se envolva nas "nieblas" de que algumas vezes falo, sem visualização de grandes horizontes ou amanhãs auspiciosos ...

E pronto ... não consigo escrever nada melhorzinho.  Se o fizesse, estaria a falsear as minhas emoções, a trair os meus estados de espírito ... quiçá as minhas convicções.
Talvez esta saturação languinhenta do tempo escorrente, melhore daqui a alguns dias ...
Afinal a intensidade de uma dor sempre amaina milagrosamente, no efeito de um Ben-u-ron ... ainda que se saiba ser ele apenas analgésico e não um curativo da causa ...






Anamar

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

" CADERNO DIÁRIO "



Chove e faz sol ...  Um sol fraquito, uma chuva a fazer de conta, mas de pingos grossos, contudo espaçados, pingava na vidraça.
Comecei a ouvir um tic-tac aqui pertinho, sentada que estou frente à janela, sem perceber muito bem do que se tratava.  Completamente distraída, com o computador banhado por este reflexo dourado de um sol outonal, não percebi logo o que ocorria lá fora ...
O meu gato, plantado por detrás do PC, usufruindo também ele, do morno aconchego desta luminosidade doce, dormita ronceiramente, como os gatos costumam fazer, simulando um aparente desinteresse por tudo o que os rodeia.  Não é à toa que se define este estado letárgico, como sendo de "dormir a caçar ratos" ...

Entretanto ... a "chover e a fazer sol ... as bruxas estarão a comer pão mole", seguramente ... 😄😄😄
Estou muito versada hoje em adágios populares, parece ...

Dentro de alguns dias vou procurar "arrimo" para bem longe.  Dentro de alguns dias aniversario, também.  É sempre um evento malquisto por mim.  A impotência de parar esta torrente incontrolável do tempo, esta escorrência "non stop" cada vez mais vertiginosa, deixa-me angustiada.
Neste momento as semanas não andam ... correm.  Os meses não correm ... voam.  Os dias, mal começam e já delapidaram as devidas vinte e quatro horas por cada um.  Os anos ... bom ... esses, desafiam-me com ar de escárnio, sadicamente, mostrando-me constantemente quem mais ordena !!!
Falo com pessoas amigas.  Todas são unânimes em dizer-me que há por aí uma batota qualquer, que não descortinamos ...  2019 entrou ao sprint em Janeiro ( ontem mesmo ... ), e ainda não desistiu de alcançar a meta de 31 de Dezembro com a celeridade que mais parece a da luz nos seus caminhos ...

Assim, se estiver longe, num local mais impessoal, afastada de telefonemas, felicitações e quejandos, até parece que o tempo se vai esquecer de mim ...
Por aqui, o tempo tem a cara do tempo de sempre.  As rotinas são globalmente as mesmas.  "Tudo como dantes, no quartel de Abrantes" ...
Anoitece cedo, o céu cobre-se de nuvens encasteladas.  Não sabemos o que vestir, para não pecarmos por excesso nem por defeito.  A roupa da cama já fica ligeira, madrugada adiante.
Não ando apetrechada de vontade ou paciência p'ra ver gente.  Aliás, esta tem sido a tónica dos meus últimos posts, como se tem visto.  Mas reconheço não ser seguramente boa política, este isolamento.
Este encapsular teimoso conduz a um estado emocional negativo.  Cada dia mais nos confinamos ao nosso espaço, cada dia convivemos menos, menos aferimos a nossa sanidade mental, menos escrutinamos a nossa forma de pensar, a nossa capacidade de análise, as nossas conclusões.  Cada dia caminhamos mais e mais para um autismo formal, para um desinteresse pela realidade circundante que cada vez nos diz menos, numa espécie de busca de uma eremitagem salvadora ... num afastamento escolhido da realidade da vida.  Parece querermos defender-nos não sei bem do quê ...
E nada disto é, contudo, saudável !

Mas lá fora as pessoas correm.  Correm muito de manhã à noite.
Das minhas relações, a maioria já não está no activo.  Mas isso, ao contrário do expectável, parece ainda complicar mais a presunção de disponibilidade.  Fazem-se planos, "cadernos" de intenções ... "havemos de ..."  E depois, não havemos nada !  Sempre assim.
Não sei se em nome do comodismo, da preguiça, do imobilismo epidémico ... eu sei lá ... estamos e continuamos ( lamentando-o, ironicamente ), empacados !

E mal amanhece, já anoitece, o que é o caso ...
Ainda há pouco o sol fraquito me banhava ... Já é noite cerrada ... e mais um dia prepara o encerrar de portas !
"Mais um dia", dizia em tempos uma aluna minha, com ar sapiente, à meia noite, no encerramento de mais uma noite de aulas.
"Ou menos um "... retorqui.
Matutou por breves instantes e medindo-me de alto a baixo, afirmou, com ar sabedor, vitorioso e de alguma comiseração : " Para a senhora, talvez menos um, para mim, seguramente mais um !"...

Sorri para dentro, argumentei para dentro, e tive pena que ela, já adulta, ainda não se tivesse dado conta que para todos ( desde que pusemos o pezinho por aqui ), cada dia é sempre menos uma folha a escrever-se, no caderno diário que nos coube em destino...

Enfim ... Coisas da vida real ... simplesmente !

Anamar

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

" A MÃE QUE NUNCA NOS DEFRAUDA "




Estou com tiques de velha.  Mas velha bem velha, porque recuso que para lá caminhe ... Pelo menos por ora. Não, agora !!  ( rsrsrs )
Grosso modo, os meus serões terminam já, no quentinho do meu édredon - porque as noites arrefeceram à custa de uma viragem meteorológica acentuada - espapaçada na paz da minha cama, no silêncio do meu quarto, quando tudo já é sossego em casa e os gatos acomodados.
A televisão raramente transmite alguma coisa de jeito, porque simplesmente nada de jeito ocorre neste país e no mundo.
Não sou adepta de séries, porque não é garantido que tenha tempo para as acompanhar com continuidade.  Mais ainda, quando saio em períodos mais prolongados.  Tentar retomá-las à chegada, é um "drama", e sempre os momentos mais emocionantes são perdidos.  O que me irrita ... não nego.

Assim, na preparação de um sono calmo e retemperador, e para que a cabeça não me fuja para o que não deve ( às vezes verdadeiras "coligações explosivas" de pensamentos ), refugio-me no canal transmitido pela National Geographic, pelo qual pago uma mensalidade extra-pacote.
Mas sempre o que vejo, me justifica plenamente esse acréscimo.

A National Geographic é um canal inteiramente vocacionado para a Natureza.  Exibe programas fascinantes, de qualidade indiscutível, maravilhosamente filmados e legendados. Transporta-nos a lugares na terra, no mar ou mesmo no ar, que de outra forma nos estariam vedados.
A National Geographic Society é uma das maiores instituições não lucrativas do Mundo, no domínio da Ciência e da Educação, vocacionada para explorar, conhecer e proteger / preservar o nosso planeta.
Foi fundada em 1888 em Washington, Estados Unidos.  Abarca áreas como a Geografia, a Arqueologia, a História Natural, Aventura e Viagens, entre outras.
Os seus trabalhos envolvem fotógrafos, jornalistas, operadores de câmara, biólogos, naturalistas e exploradores intrépidos.
As filmagens com os riscos inerentes, são de um pormenor, de um preciosismo, de uma exigência e concretização, extraordinários.  O apoio e rigor científicos associados, são absolutamente insuspeitos, mantendo a bitola de excelência a que nos foi  habituando ao longo dos tempos, sendo que com o avanço das tecnologias de ponta, a realização dos trabalhos, beneficia hoje, de uma qualidade insofismável.
As equipas, deslocadas para os lugares mais inóspitos do mundo, em condições quase sempre severas  em termos logísticos e ambientais, são constituídas, como disse,  por técnicos de craveira superior, que na aventura das suas expedições, nos transportam a paisagens majestosas, a meandros incríveis da vida selvagem, ao  conhecimento  profundo dos hábitos das  espécies ( da  sua  adaptação,  resistência  e  mesmo  formas  de  sobrevivência ),  dos  habitats  de  plantas, animais  e  povos, de fenómenos  geológicos  e  climáticos  existentes  no  nosso planeta, que repito, assistimos  no conforto  do  nosso  lar, como  se  os  assistíssemos  em  presença ... e  que  de  outra  forma  nos seriam  inalcançáveis !...

E eu, que ando numa de misantropia ( versão light ... tranquilizem-se ) ( rsrsrs ), coroo as minhas noites, num emaravilhamento incansável e sem limites, com bichinhos, plantas, mares, pores-de-sol, neves perpétuas, tufões e furacões, Invernos, Verões, Outonos e Primaveras, ( com a magia com que nos surpreendem ), rios pressurosos desenhando caminhos no meio de rochas sem idade, auroras boreais, ilhas desertas, parques naturais fantásticos, peixes que sobem os caudais turbulentos para a desova, na obediência de uma lei biológica surpreendente, animais hibernantes, aves multicolores em rituais espantosos de acasalamento, águas que sobem, águas que descem ... terras que se irão extinguir um dia ... florestas que não desistem, desertos silenciosos e abrasadores, ainda assim com uma riqueza de vida inexpectável ...

Porque apesar da selecção natural ( com a lei do mais forte a prevalecer, obviamente ), da luta das espécies ( em que as mais adaptáveis, são as que resistem ) e da condenação torpe, inconsciente e assassina a que o Homem vota outras até à sua extinção ... a condição de se ser vivo e a luta por continuar a sê-lo, vence os designios, as eras, e a eternidade !...

Isto é a Natureza, mãe universal que nunca, mas mesmo nunca, nos defrauda !!!...

Anamar


domingo, 29 de setembro de 2019

" DE UM TUDO ... AO FIM DA TARDE ..."




Anoiteceu com um céu laranja.  Doce e pálido.  Não intenso e afogueado. Isso foi antes, quando o sol ainda se assomava, já por detrás das chaminés, lá ao fundo.
Não tenho nada especial para dizer. Mas tenho quilos de palavras entupidas na garganta.
Não tenho nada especial para aqui deixar.  Mas tenho toneladas de sentimentos contraditórios a sufocarem-me o coração.
Fui à janela da frente. Onde poucas vezes vou. Abro, fecho, subo persianas, desço persianas, corro cortinas, abro cortinas ... ao sabor do sol, do vento e da chuva, se cai e os vidros por acaso, foram esquecidos...
Pouco mais.  A vida desenrola-se-me aqui, para as traseiras da casa.  Aquele lado, privilegiado, que me leva a reboque por sobre os telhados, no voo da brisa, para horizontes bem mais distantes e mais meus ...

É uma hora lixada, esta. Esta, em que o sol se vai, numa estação de lusco-fusco.  Esta, em que a sua luz é doce ... duma doçura de despedida e nostalgia.
Não brilha como antes.  Não aquece como antes.  Temos a certeza que a esquina do ano já se dobrou.  Daqui em diante, o silêncio da Natureza abate-se sobre a Terra, aqui neste nosso canto.
E é como se houvesse um chamamento que não se descreve e só se sente ... ao sono, à quietude, à hibernação ...
São dias de dourados, ocres e amarelos esmaecidos ... São dias de castanhos e vermelhos, nas folhas acumuladas nas alamedas dos parques.  E de árvores despenteadas que começam a despir-se, para a noite que se avizinha ...

Da janela da frente, eu adivinho, mais que vejo, a avenida, o telhado, a casa ...
Era aquela hora em que eu sabia a minha mãe, nos preparativos para se aquietar.  Sim, porque ela dormia cedo.  Depois da torrada, do chá e do telejornal, era a hora de sossegar.  Ela e o Gaspar ... o cão que um dia lhe chegou da desdita do abandono, companheiro de todas as horas e a quem "só faltava falar" ...
Se fechar os olhos ( e há pouco fechei-os por instantes ), estou lá, naquela sala iluminada pela luz do candeeiro de marfinite, com um querubim segurando um archote, na credência entre os dois sofás, frente  à  estante,  com  a  televisão  ainda  com  as  últimas  notícias  no écran ...
Vejo no chão a carpete verde, vejo a cesta do Gaspar dormir as sestas, e consigo ver também cada bibelot, por pequeno que seja, em cada prateleira ...
Vejo exactamente tudo ... até os sorrisos das fotografias sobre a camilha, e o vaso com a avenca sempre verde, no centro ...
Estou lá ... vejo claramente a tonalidade aconchegante da única luz acesa.  Vejo a entrada às escuras, vejo a cozinha com a luz clara da lâmpada do tecto ... Vejo, e oiço ...
É uma imagem obtida na minha mente, por reconstrução depois da desconstrução que foi a vida !...
É como se fizesse um rewind em câmara lenta, e o projectasse à frente dos meus olhos ...
Impressiono-me como é isso possível ... mas é !  Ela está ali ... eu, estou ali ... O tempo não é mais o hoje  ... O tempo é o ontem ... como se o arreganhasse lá atrás e o re-estendesse à minha frente, qual passadeira que se desenrola e desvenda ...
O tempo é o preâmbulo da minha vida, é o prefácio da minha história ...

Hoje, na caminhada não encontrei vivalma.  Como sabem, falo muito da caminhada. Mas não é pela caminhada, porque essa, é um esforço que me imponho.  É pela mata.  A mata é o meu quinhão de Natureza com que me presenteio.
Ainda bem que não encontrei vivalma ... Vivalma, gente ... porque cada vez gosto menos de gente !
Encontrei gatos vadios.  Gatos da mata que são genuínos, livres, soltos, e que só aparecem quando querem e para quem querem ...
Encontrei pombos, rolas, pegas rabudas, melros, pardais ... Andorinhas não vejo por lá.  As flores também já partiram quase todas, e com elas, o som das abelhas, dos besouros, e mesmo das cigarras do pino do Verão.  E as borboletas foram buscar outras Primaveras por aí ...
Lá, o ouro manso dos raios solares que atravessam as clareiras em adormecimento, guarda o silêncio das penumbras que se prometem ...
E é uma paz incontida e sem dimensões !...

Ando numa de desencanto, de corte empático com o ser humano. De cansaço.  De desaposta ... de decepção ... mesmo de indiferença ...
"Este país não é para velhos", um thriller realizado pelos irmãos Coen, tendo como intérpretes, os icónicos Javier Bardem, Tommy Lee Jones e Josh Brolin, que arrecadou o Óscar de melhor filme de 2008 e que recordo agora,  quadra-se bem com o meu estado de espírito actual, em que pareço necessitar defender-me emocionalmente, com um afastamento, uma rejeição e consequentemente uma recusa dos valores que me cercam, num país e num mundo que não entendo, não aceito e me enoja ...
Estou farta de uma sociedade movida por marionetas, submetida a interesses obscuros, pouco transparentes e claros, em que apenas os valores materiais, do sucesso e da ascensão a qualquer preço, o compadrio, o favorecimento e o poder, norteiam os alpinistas inescrupulosos e nojentos que pululam nessa mesma sociedade.
Estou farta de que me tirem a ingenuidade, me arranquem a esperança e a fé em futuros que vejo tenebrosos para os meus, e para todos aqueles que estão a crescer, acreditando ...
Estou farta de que me escureçam o horizonte e o carreguem com as nuvens da incerteza, da angústia e da dúvida no amanhã ...
Estou farta de que me arranquem o sonho ...

Em suma ... estou farta de gente !!!...

Anamar

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

“ O PIGALLE AINDA MEXE ..




Em 2013 ( Agosto ) postei neste espaço, um texto sobre o Café Pigalle, café que faz parte do meu quotidiano, aqui na minha cidade.
Como lá refiro, trata-se de um espaço com mais de cinquenta anos, atravessado por isso, por muitas gerações, entre elas, a minha.   É pois, um "ex-libris" da Amadora.
A história do Pigalle de 2013 até à actualidade, é a história triste de um gigante que se acaba aos poucos, mercê das crises, da má gestão, do descaso, da não aposta ... do desinteresse ... ou da velhice, quiçá !...

Publiquei entretanto o texto no Facebook, num espaço de que sou "amiga", "Amadora - Passado, Presente e Futuro ", e com ele desencadeei na altura, diálogos muito interessantes entre os leitores, amadorenses com histórias cruzadas e vividas em passados próximos, exactamente no Pigalle.  Pessoas que haviam deixado de se ver, de se encontrar, pessoas cujos nomes lhes faziam sentido, mas não tinham certezas de quem eram ao certo ... Enfim, reaproximei amigos de uma vida, companheiros de bilhar, tertulianos de horas mortas, em juventudes idas ...
E isso, foi-me profundamente gratificante ...

Passaram seis anos entretanto.
Hoje ( e este é o prodígio que as redes sociais às vezes têm, quase sempre mais negativas que positivas nos relacionamentos ), o meu texto foi "repescado" como memória, por alguém que obviamente não conheço, mas que lendo-o, o comentou .
O texto "saltou" portanto, de novo, para a página do referido Grupo de Amigos.

Entendi por isso, reatar o contacto com as pessoas que tenham curiosidade e interesse em saber do percurso de vida, do Pigalle, seis anos transcorridos ... eu, que o frequento incontornavelmente, todos os dias ...
E escrevi o texto que aqui igualmente posto :


"Surpreendeu-me o  regresso do meu texto, tão carinhosamente aceite na comunidade Amadora- Passado, Presente e Futuro, aquando da sua publicação, em 2013.
Se os amigos repararem, a maioria dos comentários datam exactamente desse ano.
Pois bem, volvidos seis anos após a minha publicação, cabe-me reportar que o Pigalle, o tal “dinossauro” da nossa cidade, resistiu e resiste à intempérie do tempo, e ainda mexe !
Mexe mal, trôpego das pernas, sem força anímica para se erguer e padecente de reumático,  idêntico ao dos seus frequentadores ...
Penso que o FB recuperou este meu escrito e repô-lo como memória, creio.  Daí que tenha sido retomado por alguns amigos, e me tenha caído à frente, de novo esta manhã, exactamente quando eu tomava o pequeno almoço ... no Pigalle !
A precariedade e o envelhecimento do café, mantêm-se, ou melhor, agravaram-se nestes seis anos, como é lógico esperar de alguma coisa sem manutenção qualitativa significante.
O espaço físico, eu diria estar  exactamente igual, com uma “lavadela de cara” agora nas férias, em que encerrou.
Portanto, sem ponto ou vírgula de acréscimo.
Os empregados reduzem-se a uma única funcionária que, por ser multi-funcional e não parar um minuto, tem conseguido resistir à “sanha” de despedimentos sucessivos, de pessoas que passam períodos temporais escassos e mínimos, ao serviço do estabelecimento.
É um rodopio de empregabilidade de funcionários que ( e alguns revelaram qualidade na prestação de serviços ), mal entram e já partem ...
Explicaram-me ser uma política defensiva por parte dos patrões, a quem não interessará assumir contratos mais definitivos, com tudo o que eles envolvem de responsabilidades, como empregadores.
Ao cliente, em termos de géneros, e por comparação com todos os outros espaços idênticos de restauração, existentes na mesma zona da cidade ( afinal, o seu centro ), pode falar-se em “mínimos absolutos” ...
Não chega a ser um espaço prazeiroso em termos logísticos.  É um café servido por luz artificial, como se sabe, em que não há vontade expressa de o tornar confortável e aconchegante para o cliente.  Todo o Verão se “suam as estopinhas” com os ares condicionados desligados ( avariados ... diz-se ), e no Inverno o aquecimento também poucas vezes nos ameniza o ambiente ...
A clientela  continua a privilegiar a classe “sénior”, digamos, já que o café não é  obviamente, minimamente  atractivo para os jovens.  Talvez por isso, fruto de tudo isto e da pouca simpatia e alguma conflitualidade do dono, que por ali perambula, muitos grupos de amigos que à mesma hora, diariamente, ali confraternizavam, desapareceram, buscando outros espaços  certamente mais aliciantes, do nosso burgo.
Quando, depois de férias reabriu, percebi que mais e mais o Pigalle se descaracteriza.  As “baixas” acentuam-se.  Por insatisfação dos clientes, fundamentalmente, mas também  por “deserção” forçada e triste de outros ...                                                
Acredito que apenas a detenção da venda de jogo seja a sustentação económica do café ... e não mais.
Perguntarão então os amigos, depois desta minha longa e exaustiva dissertação, por que, masoquistamente   ou  talvez  não ... insisto  em  frequentar  aquele  espaço ?!   
Serão recaídas saudosistas ?!                                                                                                                             
Pois não sei exactamente o porquê desta questão !
Alguns amigos perguntam-me, meio a brincar meio a sério :  “então, amanhã  vais  ao  Centro  de Dia ?”  E não entendem ... também eles.                                           
Sei que sou fiel nas escolhas.  Sei que sou saudosista das memórias.  Sei que me prendo e miscigeno com os locais, os hábitos e as histórias ... e eles se me colam debaixo da pele ...
Será isso ?  Será essa a razão por que, “desgraçadamente” os sapatos, sem racionalmente  me obedecerem, por cada manhã, ao sair de casa, para lá me encaminham ???!!!

Um abração, esperando não vos ter roubado demasiado tempo com esta minha crónica ... Afinal ... o Pigalle ainda mexe !!!... "

                                                                                      1964



Anamar

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

" LAVADOUROS PÚBLICOS "



O Facebook irrita-me, as redes sociais irritam-me ...

Podem sempre argumentar-me : "ninguém te obriga a frequentar esses espaços ... "
E até é verdade, pese embora hoje em dia, perca  muitíssimo menos do meu tempo com eles.
Pretendem ser espaços de lazer, lúdicos, de entretenimento e por que não ... de alguma aprendizagem.
Neles se acede a informação que de outra forma talvez não se tivesse ( sobretudo quem cultiva pouco a assiduidade nas estações televisivas, também por muito desencanto, cansaço e por senti-las igualmente, uma perda de tempo ). Por eles se chega a lugares que nos seriam inalcançáveis de outra forma, neles nos cruzamos com gente ( virtuais uns, conhecidos outros, amigos ... alguns ) e com eles nos iludimos às vezes, pensando minorar a solidão de que muitos objectivamente se queixam.
Deveriam propiciar um convívio salutar, uma dialéctica saudável, uma partilha de opiniões construtiva.  Afinal, são muitas cabeças a pensar diversamente, são formas de estar e sentir diferentes, são múltiplas sensibilidades e capacidades de análise. Portanto, visariam um enriquecimento pessoal.

Mas não. Nada disto.  Afinal esta não é mais do que uma visão idílica da coisa, uma expectativa construtiva, ou ... e isso é mesmo o mais certo, uma ingenuidade do tamanho de um "bonde", como diriam os nossos "irmãos" além Atlântico.

Tristemente tem que concluir-se que o espectáculo degradante que por aqui se vive, não é mais do que a fotografia triste e desalentadora ... porém real, do país real em que vivemos !

Em primeiro lugar, tem e deve questionar-se a autenticidade, a correcção e a verdade sobre tudo o que é postado.  Será prudente ...
Cada vez menos, as fontes são fidedignas, e visam simplesmente a manipulação e a exploração intencional dos mais desinformados, incautos, crédulos ou mesmo ignorantes.
Aliás, é o que na generalidade, os media, hoje em dia fazem.  Actuam por deturpação, desonestidade, falta de fiabilidade, intencionalidade dirigida e ausência de transparência e verdade.
Este é o caminho seguido ( até por órgãos com responsabilidade social e informativa objectiva, que deveriam pugnar por isenção ), para vender, alarmar, desestabilizar e desconstruir ... Vale tudo !

Depois, assiste-se no Facebook a um ringue de pugilato.
Uma discordância de opinião, ainda que expressa com educação, é um desaforo, é um insulto, é um desafio.  E a liça está instalada.  Ninguém leva "desaforo" para casa ...
E ninguém se coíbe de afrontar ostensivamente, destratar, injuriar e ofender quem "ousou" defender outra opinião ou outro ponto de vista, que não o seu.
E o vocabulário usado entre quem, capacitado ou não, salta indistintamente para a "luta", ainda que não se conheça ou sequer faça ideia de quem está do outro lado ... é triste, aviltante e lamentável ... pelo menos.
Os termos usados, as palavras proferidas, os epítetos e "mimos" largados, falam bem de um atrevimento inqualificável de um "bas-fond" cultural e social, arrepiante.
E as pessoas perdem totalmente a noção de educação, decoro e mesmo dos limites até onde as suas capacidades ( notoriamente insignificantes) lhes permitiriam ir, sem fazerem  uma figura absolutamente lamentável, uma imagem tristemente reprovável .  Uma verdadeira e vernácula "figura de urso" !...
Os erros de ortografia são useiros e vezeiros na "decoração" das exposições apresentadas. O que atesta aquilo que afirmo.  O ridículo das mesmas não é sequer percepcionado por quem as apresenta, e tudo é despropositado, dispensável e arrepiante !!!
A ileteracia, a ignorância, quase o analfabetismo da grande maioria das "sumidades" que se colocam em bicos de pés, debitando discursos de oratória assustadores e avassaladores, de puro convencimento e narcisismo quase sempre ... alastram.
Não há triagem, não há filtragem, não há sequer bom senso.
Guerras políticas ou futebolísticas então, são com frequência, lamentavelmente,  razão de insultos, ofensas gratuitas ou mesmo cortes de relações e amizades entre pessoas que até se queriam bem ...

Depois, o Facebook é com demasiada frequência uma feira de vaidades, de cinismos e de exibicionismos.   E como se percebe isso mesmo, claramente !...
É o "lavadouro público " da actualidade ...
É o local da troca de novidades, é o espaço da exibição de fúteis e imaginários status, é o "diz que diz", é o sonho de uma amostragem sub reptícia, como quem não quer a coisa,  de vidas famosas, sempre espectaculares, felizes e invejáveis ...
Tudo se coloca no Face, tudo se confessa no Face, tudo se exibe no Face, ainda que tantas vezes se perceba quão sombrias são as intenções ... quão subliminares são as mensagens ...

E por tudo isto ... mais do que entrar, passar e sair rapidamente nestes espaços, é pura perda de tempo.  É um desafio à paciência, nada se aprende e com um bocadinho de "sorte", apanhamos uma irritação daquelas !...

E pronto ... Agora podem bater à vontade, que eu fui ali e já venho .... 😄😄😄😄😄



Anamar

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

" VOANDO COM O PENSAMENTO ... "



O meu humor mudou.  É estranho, nem sei bem porquê, mas acho que é a nostalgia que sempre se apodera  de  mim, nesta chegada do Outono que já espreita.
O Verão foi perfeitamente atípico em termos atmosféricos, embora pareça preverem-se temperaturas muito elevadas, agora que Setembro se aproxima.

Só que esta sensação de encerramento de qualquer coisa, deixa-me sempre meio ensimesmada e escurecida por dentro.  E Setembro, queiramos ou não, fecha a porta às chamadas "férias grandes" e inicia um período laborioso, o início das aulas e com ele a mexida da miudagem, a mexida dos pais, as escolas a reabrirem-se outra vez, o azul a partir e o cinzento da nova estação a chegar...
E totalmente à minha revelia, eu tenho e acho que terei até morrer, este esquisito relógio biológico dentro de mim ...

O início dos anos, para mim e talvez para muita gente, era exactamente este recomeço, esta azáfama, como se de uma epifania se tratasse, ritmicamente .
E pronto, da noite para o dia claudico no humor, que também se acinzenta.
Tenho andado animada, como se o " frou frou" que se começa a sentir, também me pertencesse.
Mas não.  Já há algum razoável tempo que não.
Neste timming da vida, é agora a vez da minha primogénita se preocupar, e não será pouco, com um a entrar na faculdade, outra no décimo ano e o caçula no oitavo ...  Uma razoável dor de cabeça, convenhamos !...
Eu estou nos bastidores apenas, assistindo de longe e sabendo aquilo que querem contar-me.

E por isso fico com esta sensação de "desemprego" ... Tudo à minha volta se agita, e as minhas rotinas, mais coisa menos coisa mantêm-se !
É engraçado, porque quando estamos no activo, reclamamos, suspiramos pelos fins de semana, feriados e férias, e a aposentação então, será o culminar do "paraíso" !!!...
Aí, temos a convicção que chegados lá, tudo o que existe na lista de espera do tempo que não temos, final e seguramente irá concretizar-se ...
Leremos muito, conviveremos mais de perto com os colegas que também sonham com isso, passearemos muito mais, iremos a cinemas, museus, exposições ... e sobretudo poderemos usufruir de tudo isso sem o maldito relógio nos contabilizar o tempo despendido, como se estivéssemos a ser perdulários ...
Os malfadados testes em rimas e rimas para corrigir deixarão de existir, as aulas sempre para preparar, nem que tenhamos leccionado quarenta anos ou mais ... também não, as reuniões intermináveis e quase sempre uma "seca" pela ineficácia, menos ainda ...
Enfim, será altura de saborear com todos os condimentos, e sem afobações ou culpas, o estatuto ganho merecidamente, claro, com o trabalho, a dedicação e o esforço quantas e quantas vezes roubado à nossa vida privada, de uma carreira longa e vivida plenamente ...

Engano.  Rotundo engano ! Pura ilusão !
Agora que as horas deixaram de ser "horas", agora que a pressa deu lugar à disponibilidade, agora que a agitação deu lugar à tranquilidade e à paz de quem não tem rigores de horários a cumprir ... agora que acontece tudo isso que sonháramos lá atrás, falta tempo, falta ocasião, falta vontade e parece que ainda deveríamos correr mais do que antes, se de facto quiséssemos cumprir e honrar o tão almejado calendário ...

E este "fenómeno" que me acontece, juro-vos, é relatado igualmente, sem falhar uma vírgula, com a maioria das pessoas que se encontram nesta circunstância.
E por isso, sempre é motivo de riso, perplexidade e no fim, complacência e aceitação, quando nos encontramos.
E lá dizemos, com ar penitente : " a ver se passamos a encontrarmo-nos mais, para não ser só naqueles lugares e em circunstâncias dramáticas que cada vez mais, infelizmente nos ocorrem ... a despedida de colegas e amigos de uma vida !"...

De facto, boas intenções sobram.  Nesses momentos equacionamos a importância e a efemeridade da vida.  Lembramos o caminho percorrido e perguntamo-nos quanto mais teremos para percorrer ...
E juramos, juramos mesmo que dali em diante, tudo será diferente ...
Porque até temos saudades reais uns dos outros, bolas !  Porque até teríamos coisas p'ra contar, assuntos para dialogar, partilhas de momentos vividos, uns mais, outros menos felizes ... Porque até teríamos histórias, fotografias, novidades para dividir ...

Teríamos, sim.  Teríamos tudo isso !...
E depois ???   Bom, depois tudo retoma o seu ritmo do dia a dia, e o tudo desfaz-se em nada ou pouca coisa, esmagados pela imbecilidade e insensibilidade do tempo que trucida, que desfaz sonhos e que transforma as cores dos futuros de cada um de nós ... nos cinzentos que o Outono nos trará !!!

De facto, o ser humano é obra !!!...

Anamar

sábado, 24 de agosto de 2019

" FELIZ "





Cheguei da caminhada há pouco.  Uma e meia - três, hora bem suada,  , porque "caminhada suada ... é caminhada redobrada ! "... 😂😂😂
Julgava eu que ia caminhar à bolina, ou seja com a brisa prometedora a dar-me de frente, o que tornaria a dita, um pouco menos penosa ... Nem tanto. A temperatura está suficientemente elevada para quase não deixar sentir a brisa que corre !

Como previsível, hoje, na mata não encontrei vivalma.  Vivalma ?... Minto.  Encontrei um gato, ou melhor, encontrei "o" gato ... Ou gata, não sei bem.
Incrível como sendo a terceira vez que ele me sai ao caminho, e no maior despudor e confiança aceita as festas na barriga que me vira, a pedi-las, eu ainda não consciencializei a "documentação" da criatura ... 😂😂 Sou mesmo distraída !
Tem tudo para ser um gato vadio. Aparece-me sempre na zona mais improvável da mata.  Longe das casas, onde, aí sim, há gatos selvagens alimentados por moradores de quem vive paredes meias.  Não tem coleira, e parece fazer a vida por ali mesmo.
O ar tranquilo, pacífico, bonacheirão com que dorme em paz nas sombras das árvores, nos caminhos sombreados ou no meio da erva rasteira, denota uma personalidade totalmente amistosa.
Como não sei se é gato ou gata, passarei a chamá-lo de "Feliz" ... É um adjectivo uniforme, que não distingue género, e feliz  seria  eu,  se  gato fosse  e  tivesse  aquela  mata  como "quintal ", e a liberdade como presente !...

Claro ... se gato fosse, porque ainda que eu olhe os recantos convidativos, aliciantes, escondidos, isolados, onde a erva parece macia, as plantas crescem a esmo, as árvores se multiplicam  na sombra que generosamente nos disponibilizam ... como humana que sou, não estaria certamente confortável sem uma mantinha por baixo ...  E as formigas, meu Deus, as formigas !... E as abelhas, os besouros e as vespas que volteiam ... já sem falar das moscas, varejeiras ou não ... 😃😃😃
O Homem é mesmo um ser muito complicado !!!

Quanto mais conheço os Homens, mais adoro a Natureza ... sem eles ... 😉😉😉
Tornei-me absolutamente ecologista.  Neste momento, o meu respeito é total por todas as espécies.  Herdei um pouco esta aprendizagem, da minha filha mais nova.  Desde sempre, o raio da rapariga tinha umas coisas que na altura eu atribuía a alguma insanidade.
Era ela que com sete, oito anos, nas férias no campo, já colocava os grilos que os amiguinhos apanhavam, numa caixa de fósforos, com um pirilampo por companhia.  Dizia que era para dar luz ao grilo ... 😊😊
Certo dia apareceu-me com um pequeníssimo embrulho de presente.  Dentro da caixinha encontrava-se uma ninhada de ratos, recém nascidos, pelados e cegos ainda, bem acomodados em cama de algodão fofo.  Achava que dessa forma, poderia garantir-lhes um futuro promissor !...
Inevitavelmente foi recambiada à procedência, ela e a ninhada, óbvio !!
Moscas em casa, não havia ordem de se matarem.  Com um saco de plástico apanhava-as e soltava-as na janela ...
Carreiros de formigas ... um crime, se pisados !!!
Enfim, eu achava aquilo tudo um pouco destrambelhado ...

Esta minha filha, que é, digamos um pouco "arisca" para mim,  isto para não adjectivar mais profusamente a coisa  ( Em público, não ficaria lá muito bem, mas quem me ler, poderá sempre fazê-lo, porque não errará seguramente muito ! ... 😄😄 ), continua acérrima defensora e respeitadora da Natureza, das plantas aos bichos, do mar ao sol, e felizmente educa a filha, agora com dois anos, da mesma forma.  É uma ternura ver a Teresa  fazer festas às flores, sem nunca as arrancar !...

Pois eu, neste momento também apanho as moscas e outros voadores que se atrevam, e solto na janela.  E não faço o mesmo aos mosquitos, porque convenhamos ... magrinhos como são, não teriam por certo nenhum futuro depois do salvamento !!!  😄😄😄
Afinal todos eles dividem connosco, este planeta que se está a acabar !!!

Bom ... este meu post hoje, meio humorístico, meio sério ... é pelo menos, feliz.  Porque feliz é o sentimento que me invade, depois do feliz encontro com a doçura do meu amigo "Feliz" !!!

Os animais, em qualquer circunstância, e sem sombra de dúvida, são sempre melhores que o Homem!!!...

Anamar

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

" NADA OU TUDO ... "




Admiro as pessoas que têm sempre do que falar, que têm sempre uma história p'ra contar ... uma novidade, um acontecimento, uma memória ... e até mesmo uma invenção !...😁😁
Aliás, há vidas carregadas de emoção, muita adrenalina, muitos altos e baixos, muita coisa a correr bem, muita coisa a correr mal ... enfim ... ricas em criatividade, fazem de um nada um tudo, que apreciamos ler ...

Acho que padeço exactamente da ausência dessa criatividade, mas duma criatividade de valer a pena ... Esmifro-me para arranjar a ponta dum pintelho sobre que falar. Remexo os miolos, meto no shaker, agito e ... a maior parte das vezes ... nada !
Tenho que concluir que vivo uma sensaboria duma vida, de um cinzentismo atroz !
Nada p'ra rir, nada que valha a pena ... mas também, felizmente ( a verdade deve dizer-se ), também nada para chorar, o que seria bem pior !...
O que é um facto, é que estou para aqui  a encher chouriços sem qualquer préstimo ...
Mas pensando melhor, a minha vida é na verdade uma caixa de Pandora que não pode, não deve ser aberta ... O que seria narrável, não pode ser narrado !  E talvez desse p'ra um bom romance ! 😃😃
Mas não arrisco, como a Pandora fez ... já chega de desgraças neste mundo !...

Bom ... mas amanhã a minha gente aniversaria.  Mãe e filho no mesmo dia.   Uma semana depois, é a vez  do benjamim daquela equipa ...
Sempre o referencio.  Nunca me passa em brancas nuvens. 
Este ano, o António faz um aniversário muito particular, e presumo que importante para ele.  Aquele menino que ainda ontem tinha fraldas, dançava quando os discos infantis lhe eram tocados, e que hoje, mais que penugem já tem barba na cara, fará 18 anos !
Além de o parabenizar como habitualmente, escrevi-lhe este ano, pela primeira vez, uma cartinha, por correio e tudo, como manda a tradição, onde lhe ponho o coração de avó, desnudo, deixando-o falar livremente.
Reiterei-lhe  tudo aquilo que entendi como importante, neste dealbar da adultícia.
Nem sempre, porque a vida é corrida demais, temos ocasião de soltar os nossos sentimentos, mesmo com os nossos mais chegados ... Outras vezes temos mesmo um certo acanhamento, por poder ser tomado como alguma pieguice.
Mas convém que não se percam nunca, as oportunidades de aconselhar, lembrar, disponibilizar, reconfirmar e garantir sempre o nosso afecto incondicional, o nosso apoio, a nossa presença ... o nosso colo, ainda ... Porquê não ?!...

A mãe, é a minha filha mais velha, que completa 46 anos.  Também ela era ontem ainda, uma menina de bibe e ganchinhos no cabelo, depois uma estudante responsável, uma excelente aluna, posteriormente uma mãe de uma família de três miúdos, com dotes inimagináveis, quando ainda era adolescente ... e finalmente hoje, uma profissional de mão cheia ( claro que poderei ser suspeita ao afirmá-lo ), reconhecida pelos seus superiores hierárquicos, numa profissão que não se deseja a ninguém.
Neste momento mesmo, toda a família goza férias no sul, e ela sem as ter, trabalha até altas horas todas as noites, sozinha em Lisboa.  E está, inclusivamente, com alguns problemas de saúde ...
O sentido da responsabilidade, da justiça e de serviço, não permitem que uma pessoa idónea possa descurar ou aligeirar a seriedade com que se trata a Vida !!! Não permitem pactuar com facilitismos ou menor exigência !!!  E ela, sabe disso ...

Para eles, vão indirectamente também por aqui, os meus votos mais sinceros de que toda a felicidade deste mundo possa abençoá-los !
Como mãe e avó, só posso reafirmar o meu orgulho por o ser, e desejar que o futuro os premeie de acordo com os seus merecimentos !...

E pronto ... o meu post hoje, deu nisto !...

Anamar

domingo, 4 de agosto de 2019

" NA RENTRÉE "








Regressei de fora há quase duas semanas.  O tempo desliza à velocidade da luz !
Por aqui, o dia a dia repete-se.  Quem de cá não saíu, manteve obviamente, as rotinas.  Agora, café abre, café fecha, boas férias, boas férias, desejam-se as pessoas.  Afinal, tradicionalmente Agosto continuará a ser por excelência o mês escolhido pelos portugueses, para gozo de férias.
Os que estão, não foram e não irão, falam inevitavelmente das mesmas coisas ... política, que agora também está no defeso, futebol ... em época baixa com algumas competições avulsas sem interesse de maior, e claro ... doenças, porque as maleitas chegam em força a partir dos sessenta .
Depois ... desgraças ...  Acontecem todos os dias e a comunicação social, em especial alguma, adora e vive delas ...
É a faceta masoquista do ser humano !...

Existe uma espécie de hibernação por aqui.

Mala guardada, roupas tratadas e arrumadas, retoma dos hábitos de sempre ... Sinto-me como que "desempregada" ...

Por enquanto os meus sonhos, nocturnos, pelo menos, mantêm-se por lá, pelos sítios por onde andei.
Revivo o mar doce de quente, revejo a costa emoldurada pelo coqueiral, pelos pássaros e pela brisa que acaricia, revisito as caminhadas às seis da manhã, quilómetro a quilómetro, com os pés beijados pela maré espreguiçada e sonolenta.
Revejo o azul  turquesa e transparente, ora mais verde, ora mais intenso no azul que ostenta, ora prateado, escurecido se há nuvens encasteladas em abóboda brincando de fantasminhas, ou dourado e em fogo, se o sol nele se projecta, nos nasceres e nos pores.

Tudo está fresco e recente, as fotos estão-me nas mãos, e aquela "comichão" na sola dos pés que me empurraria para qualquer destino, é uma doença crónica.  Decididamente, eu padeço da síndrome das malas às costas ...  😃😃😃

Agora entrou Agosto, e com ele, esta modorra de um Verão meio descaracterizado que em termos meteorológicos ainda não se afirmou.
Vento e mais vento, dias frescos e enfarruscados ...  Bons para a minha caminhada.
Retomei-a esta semana, depois de uma de descanso, em que tentei por em ordem os pés que chegaram tremendamente inchados da viagem longa.
A circulação sanguínea, deficitária na imobilidade de um avião em horas e horas de voo, a isso leva !
Tromboflebites são um risco nestas circunstâncias, mas, faço de conta que não vejo, menos ainda valorizo.
Acho que também nisto, sou como o meu pai.  Não queria nada com médicos, como dizia.
Quando partiu, com noventa anos feitos, a sua secretária guardava no fundo das gavetas, medicamentos aviados e nunca tomados !  Era endiabrado, o meu pai !!!
Era um ser livre.  Talvez o mais livre que atravessou a minha vida.  Tinha uma faceta de menino desobediente e refilão.  Não passava cartão a convenções e obrigatoriedades.  Geria e regulamentava por si, a sua própria vida ...
Procurei, e penso que de alguma forma alcancei este estádio, também para mim própria.  Deixei de dar satisfações a terceiros, organizo-me ao meu jeito e modo, e tenho um pouco o lema de ... "quem gosta, gosta ... quem não gosta ... temos pena " ... como "soi dizer-se" !

Entretanto,  Agosto é "aquele" mês ... Três dos meus, aniversariam.  Mãe e filho no mesmo dia, completam respectivamente 46 e 18 anos.  O  "caçula" dessa equipa, uma semana depois, atinge os 12.
O António ... "vejo-o" de fraldas, bamboleando-se  ao som da "Joana come a papa" em fins de semana em casa de avós ... já fez o acesso ao Superior.  Ganhará o estatuto de universitário e prepara-se para tirar a carta de condução ...
Incrível, como isto é possível !  Como é que o rapaz cresceu desta forma, e eu nem dei por isso ?!...
A menorzinha, de outro "team", nos seus recentes dois aninhos, tudo fala, tudo conversa, numa alegria só, como criança livre, feliz, desinibida e sociável que é !

E como não estar eu própria,  feliz também ?...
Tenho saúde, tenho amigos, tenho uma família com as imperfeições e dificuldades maiores ou menores de todas as famílias ... vejo-os crescer, fazerem-se gente, sem demais atribulações.  Amo os que me amam.  Vivo cada dia de "per si" ... pois já percebi que quem sofre de véspera, é o perú do Natal ... 😌
Sonho ... continuo a sonhar, e tenho que acreditar que o melhor dia será sempre o de amanhã ...
Tenho muitas saudades dos meus pais ... sobretudo da minha mãe que ainda há pouco partiu.  Mas tenho a certeza que por onde quer que ela ande, também estará feliz.  Teve uma vida longa e realizada ao seu modo, e sentir-se-à orgulhosa, seguramente, ao espreitar cá para baixo  ( ? ), por todos os que por cá deixou ...
Porque afinal, todos não somos mais do que sementes da árvore que ela foi !...






Anamar

" ETERNAMENTE GRATA "


Amigos

Assinalo mais um momento importante neste meu espaço : a ultrapassagem de mais de 70000 acessos aos meus escritos.
Como muito já repeti, este meu blogue é um espaço lúdico que ME dou, mas que partilho com muitos de vós.
Comecei-o absolutamente por acaso, no passado ano de 2008, e ele tem sido, mais ou menos assiduamente, companheiro de jornada em todos os momentos da minha vida.
Escrevo-o aleatoriamente, com temas quase sempre particulares e intimistas, que não tenho nenhum pejo de expor e repartir convosco.  Afinal, a grande maioria dos que me lêem, não me conhecem, embora alguns possam achar que sim.
Nele e com ele, tenho atravessado muitos altos e baixos na minha vida.  Momentos bons, momentos de festa, e momentos menos bons ... momentos de dor e sofrimento.  Afinal e tão só, como toda a gente neste mundo...

Sei que muitos acedem por gosto, muitos nele se revêem, outros acedem por hábito ... outros, por curiosidade ... e  outros,  porque  julgam  controlar  um  pouco  a  minha vida,  por  aqui !...  👀  👀
Aprecio e adoro essa pachorra !  Afinal é reveladora de muita coisa !
Só que ... talvez lhes saia muitas vezes ao lado !....  ihihih
Desculpem este meu sarcasmo e ironia. É que eu também tenho de quando em vez, uma faceta de "nat" ...

Esclareço ... na minha recente viagem a Myanmar, conheci, na cultura e na religião deste povo, estas entidades ou divindades, melhor dizendo. E adorei-os !
Os "nats" são por assim dizer, almas penadas, espíritos inquietos que ainda não encontraram lugar de paz, que perambulam por aí, para normalmente infernizarem a vida dos mortais.  São espíritos inquietos, truculentos, endiabrados ... quais meninos pirracentos, que se divertem a fazer tropelias.
Se forem "mimados" pelos mortais que assombram, tudo bem, favorecem-lhes as vidas e até os protegem.  Se não ... estão tramados ... de tudo farão para lhes trocar as voltas !.... ihihih
Incontestavelmente, seres bem "simpáticos" !.... 😃😃

Esclarecidos ???
Afinal, também me divirto no meu blogue !...

Bom, sem pretender alongar-me, este meu post tem o objectivo único de obviamente demonstrar a minha gratidão a todos ... mas todos mesmo, duma maneira geral, que embora na "sombra" desse lado e ainda que sem comentarem, são presenças sentidas e companhias muito, muito importantes para mim !....  OBRIGADA !

E até aos 80000 !!!

Anamar

segunda-feira, 17 de junho de 2019

" SIMPLESMENTE UMA RECAÍDA ... "



Um pardal cisca na mesa da frente, as migalhas por ali deixadas.  Reparo que as alfazemas já estão em flor e os jacarandás, eu sei que iluminam de lilás esfusiante as ruas, os largos e alamedas por toda a cidade.
Na mata, os "bordões de S. José" estão também a começar a florir, neste mês de santos, que não o seu ...
Tempo vai em que Junho era um mês de muitas ocupações.  Desde logo, os exames à porta, no quinto ou no sétimo ano, relegavam-nos ao reduto do quarto, em noites de estudos intermináveis, quando a rima dos manuais a serem dissecados, parecia infindável.  Três de História, três de Geografia, três de Física e outros tantos de Química dos terceiro, quarto e quinto anos, e por aí adiante ... em todas as disciplinas curriculares.
Eram noites para estudar e manhãs para dormir, já que o silêncio da concentração só nos ajudava pelas madrugadas. Eu vivia num rés-do-chão de uma avenida barulhenta e movimentada, e por isso, não era fácil durante o dia conseguir o sossego desejado.

Já aqui contei, creio, que a minha mãe entendia que se me fizesse companhia noite dentro, tudo me seria mais fácil. E por isso, vinha para junto de mim  fazer renda e obsequiar-me com miminhos constantes ... miolo de pinhão, bolachinhas a gosto, ananás em calda, pratinhos de arroz doce, frutas caramelizadas e tudo o mais que lhe viesse à cabeça.
Sempre gostei de estudar com música, baixinha, e nessa altura do ano, toda a noite as marchas populares ocupavam as estações de rádio.

Depois, Junho era o mês dos casamentos de Sto.António e assisti-los pela televisão, era um programa e tanto ... As  marchas  populares, no  desfile  pela avenida, eram  outra  "maravilha" !...
Os afazeres eram aligeirados ou acelerados mesmo, para que não se perdesse pitada !
O Festival da Canção parava o país ...
E a vida corria mansa e simples.  As tecnologias que nos absorvem e estupidificam hoje em dia, não existiam, e por isso, ler, escrever, desenhar para quem gostava e deliciar-se com o que um dos dois únicos canais televisivos exibiam, já estava de bom tamanho ...

Os horizontes passavam muito pelos desígnios norteados pelos pais, que ansiavam que os filhos fossem mais além do que a bitola e a fasquia das suas próprias vidas !
Os objectivos a atingir eram por isso óbvios.  A vida era modesta, aparentemente sem grandes surpresas ou sobressaltos.  Os valores eram aqueles que a boa formação que nos era transmitida, impunha.
As casas eram lares, as famílias eram clãs, os sonhos eram direito da existência, os relógios pareciam correr devagar, e os anos pareciam mais generosos do que agora.
As estações estavam definidas, e sabíamos perfeitamente que grossas camisolas de gola alta eram imprescindíveis no Inverno.  Sabíamos que as andorinhas e as cegonhas haviam de emigrar, quando os primeiros tremores da estação se fizessem sentir.
Sabíamos vagamente que no mundo havia conflitos, e que existia um fantasma que se chamava "guerra fria" ... Mas tudo isso era lá longe !... O muro de Berlim parecia dividir o mundo, e tudo se passava entre a América e a Rússia, que assustava, e onde existia uma gente estranha, dura e má ...
Por cá, convinha ser discreto, andar na linha, não fazer politiquice ...
As férias do Verão eram intermináveis e passavam-se por aqui mesmo. Quem tinha "terra", recolhia uns dias ao chão onde nascera e donde no regresso vinham as batatas, as chouriças, até o azeite e o vinho, da colheita do ano ...
As roupas faziam-se nas modistas.  Pronto a vestir era ainda uma ideia estranha.  E não havia marcas. Todos usávamos mais ou menos indumentárias semelhantes, sem luxos ou exibicionismos.  Não existiam as "jeans" e as raparigas quase sempre usavam saias.
Víamos o Flipper, golfinho inteligente que sempre nos deliciava, e a Bonanza entrava-nos em casa na garupa dos cavalos dos Cartwright ...
A mãe comprava a Crónica Feminina, a Flama, os Lavores Femininos e nós líamos os "Caprichos" meio à surrelfa. Amor e sexo, pertenciam um pouco ao imaginário de adolescentes como eu ...
Passávamos o cabelo a ferro na tábua de engomar, e em vez de condicionador usava-se cerveja para o fortalecer ...
Começávamos a reivindicar os primeiros biquinis, que não o eram, mas sim os púdicos "duas peças" ...
Sonhávamos ouvindo Roberto Carlos, delirávamos com o romantismo de Adamo, Hardy, Silvie e o seu romance escaldante com Hallyday ... Bécaud, Aznavour ...
Livros existiam, alguns ... não muitos ... os clássicos ... Eça, Herculano, Guerra Junqueiro, Florbela, Camilo e outros. Encadernados, com bordaduras e letras a ouro, davam requinte às estantes que os exibiam ...

Enfim ... o pardal acabou voando, o perfume das alfazemas impregna-me o coração e eu ... acabei "acordando" desta recaída nostálgica a um tempo já esbatido, como o são as imagens a sépia que ocupam ainda muitas das nossas molduras ...

Saudades do que era ... das que éramos ...

Anamar