segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

BREVES MOMENTOS - BRASIL 2015


MOMENTO  UM




E o céu lá em baixo é de "carneirinhos".
Se aparecessem por ali em rebanho, não me espantaria.
Mais à frente é uma planície ártica, onde um urso polar se  enquadraria na perfeição ...
Depois uma paisagem lunar inóspita, agressiva mesmo ... ou ainda mar revolto e agigantado, no emaranhado súbito e alteroso dos castelos brancos ...
A imaginação e o devaneio não pagam impostos !...

E tudo isto é o céu, visto por cima das nuvens, 14,15 h da tarde de um dia quente e ensolarado, luminoso e diáfano, mesmo sendo Janeiro ... rumo a Manaus.
Aqui, meio do Oceano Atlântico ...

Para trás, Portugal, a vidinha de sempre. Julguei que não desligaria, mas já o faço, num boicote desenfreado a tudo o que por lá ficou.
Preside-me aquele pensamento, de não adiantar angustiar-me.  Para quê ?
A vida sempre prossegue sem nós  ( mania de nos acharmos insubstituíveis !... )

E o coração que me saíu de Lisboa, pesado, contrito, apreensivo ... um coração quase culpado, sem o dever ser, começou a soltar-se, a respirar fundo, a reabilitar-se no direito à paz que tão longe de mim tem andado ... enquanto  os olhos se estendem, repousando para lá deste horizonte sem horizonte, emoldurado apenas pela escotilha do avião !


Anamar

sábado, 10 de janeiro de 2015

" A ESTAFETA "



Ainda não eram oito.
Oito horas da manhã, e o dia, de pestana fechada, decidia se abriria radioso e iluminado, azul e translúcido.
Ouvi-as.  Andavam por aqui.
Os seus grasnidos atravessavam os céus, e penetravam-me o resto do sono.
Não entendo estas gaivotas do betão, reféns da lixeira, oportunistas e estúpidas .  Afinal, gaivota que se preze, deveria sempre olhar para baixo e ver mar, deveria sempre ser salpicada pela espuma, nos rochedos, deveria patinhar na babugem da rebentação no areal deserto ... ou mesmo adormecer no embalo das marés, em tempos de mar "flat" ...

E logo elas, que têm asas !
Braços estendidos que as levam num baile molenga, ao sabor dos golpes de vento, as levam a cavalgar a aragem salgada, a verem o mundo de cima ...
Um mundo sem horizontes como é o mar, um mundo de nasceres e pores de sol, de mansidões e tormentas ...

Pudesse eu !...

Mas eu não tenho asas.  Tenho raízes.  Raízes que me prendem a um chão que nem é meu !...
Estou aqui, a morrer aos poucos, neste cubinho empoleirado em seis outros cubinhos, ao lado de sete cubinhos, frente a dez cubinhos ... num desenho atamancado em 3D.
Uma floresta de cogumelos mal nascidos !!!

Só o meu sonho, o pensamento e o coração podem voar.  Só eles são livres !
E vão, porque eu sei que para lá do que vejo, há muito mais.  Porque eu sei que além, onde a bola de fogo adormece todos os dias, quando a penumbra e a escuridão descem até mim, fica ele.
Esse mar que é sempre mágico, indomado, e berço de sonhos que às vezes nem se confessam ... que não aceita muros ou fronteiras, rédeas ou arnês ... lá longe !...

Eu já tive uma gaivota.
Mas essa, era uma gaivota a sério, não era uma gaivota mercenária.  Era livre e solta, e não era louca. Era garbosa, altiva, elegante ... bico empinado ... Tinha "pose" !
Vinha por aqui, rasava-me a janela, grasnava, encarrapitada na esquina do terraço sobranceiro.
Piscava os olhinhos miúdos, meneava a cabeça e olhava-me.
Eu sei muito bem que ela me olhava com comiseração.  Olhava as minhas raízes  fundas inevitáveis, cravadas na terra, perscrutava os meus olhos de olhar comprido, lânguido e sonhador ... e escutava o meu espírito intranquilo que baloiçava ... baloiçava ...

Fizemos um trato.

Ela vinha e contava-me das falésias, das areias e das algas.  Falava-me dos rochedos, cama de pancada das ondas impiedosas.  Descrevia-me a renda que o recuo da maré, por cada dia, deixava na areia, como um fino véu de noiva ou brocado de festa ...
E quando partia, a tempos de não perder o festim do repouso do "rei", carregava consigo as minhas emoções, era mensageira dos meus sonhos, cúmplice dos meus desejos, portadora das minhas inquietações e mágoas ... estafeta de pedaços do meu eu ...
E levava-os para lá da terra, para lá das nuvens, para lá das encostas ... para além ... onde o silêncio  se  embrenha  na  noite  e  onde  as  lágrimas  ficam  mais  salgadas  ainda ... No  mar !...

Há tempos que a   não vejo !...



Anamar

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

" APONTAMENTO - II "




Numa mesa em frente, um homem idoso de cabelo branco e sobretudo escuro, acomodou-se e pediu uma sopa.
"É só a sopa" ? - inquiriu a empregada.
" É só a sopa " ! - confirmou o homem, sozinho, com ar distante.
Percebo que vai dizendo umas coisas cá e lá, a meia voz.  Penso que está, e não está neste café, o único aberto nas imediações, em dia dito de "Ano Novo".

Mais uma ou outra pessoa, das do costume, e o café está praticamente vazio.
São sobretudo homens avulsos e velhos ;  a maioria já portadores de enfermidades visíveis, inerentes à idade, e à vida ... talvez.
E solidão ... muita solidão espreita por aqui !

Afinal, o  que leva um homem idoso, a um café quase deserto, sombrio, desconfortável, iluminado pela luz fria das fluorescentes no tecto, um espaço incaracterístico, feio, angustiante mesmo ... a pedir uma sopa, na inutilidade deste dia que promete sonhos, esperança, calor humano, aos que têm gente em casa à espera ??...
E lá fora, um sol lindo num céu azul, diáfano  e imaculado, e uma temperatura, eu diria amena, a lembrar aqueles dias beirando a Primavera !...

Na mesa ao lado, outro homem que já esteve, e já saíu, volta a estar ...
Já o conheço de outros dias.  É magro, macilento, barba por fazer, sempre enverga a mesma roupa. Cachecol ao pescoço, sem casaco, ar pobre e postura de pardalito aos saltos .
Por cada vez que chega, passa pelo balcão, enche um copo com água e senta-se.  Bebe a água gole a gole, degustando-a, como se de um verdadeiro néctar se tratasse, e fixa com um olhar baço  mas aparentemente interessado, um televisor que repete incansavelmente, as passagens de ano pelo Mundo.
Tem um grau de demência acentuado.  Não sossega na mesa.  Tem um fácies inconscientemente alegre.  A alegria e a ingenuidade dos que estão do outro lado, possivelmente delirantes, a observarem o lado de cá.  O lado da "normalidade" ...

Dirigiu-se a mim, rindo sempre, e entregou-me um pequeno rectângulo de papel, rasgado de um qualquer rascunho que encontrou, presumo.
Segundo ele, uma "mensagem do Menino Jesus" para mim.

Um texto sem sentido, rabiscado em letra de imprensa, dois pequenos corações e um desenho infantil, completavam o escrito.
Interessante início de ano, de facto !...

A  ternura deste gesto, assim do nada, das mãos de um desconhecido, um pacífico e simpático atontado, neste café escuro quase deserto, foi inesperadamente, a minha mensagem possível de Ano Novo !...
Será ela portadora de alguma premonição ???...

Anamar

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

" APONTAMENTO - I "




Que chatice a ditadura do tempo !
Que chatice, que por mais que o tentemos, nunca o conseguimos driblar.  Sempre achamos que não lhe damos grande importância, que por ele vamos passando  ou ele passando por nós,  com  alguma  superioridade  e  distanciamento,  com  alguma  sobranceria  ou  displicência ...
Mas é mentira !

Ano vai, ano vem.  Sempre me angustio com isto, apesar de me pensar fortalhaça.
Gostava de ter herdado o pragmatismo do meu pai.  Esse aí, foi efectivamente imune a épocas, a datas, a marcas temporais mais ou menos invasivas na vida das pessoas.
Já eu, não chego lá !

Sai-se de casa, e estes votos de "Bom Ano" que saltam como uma mola, das bocas, são verdadeiros petardos a atingir o alvo.  Não há conversa que se preze que não termine  ou mesmo não se resuma simplesmente, ao bendito " Bom Ano".
Mesmo que não se pare, que mais nada seja dito, basta que o nosso olhar bata em algum rosto conhecido ...

E somos confrontados com este "fatiamento" do tempo, como uma fita que se corta em bocadinhos, a denunciar etapas vencidas.
Menos um, menos um ... mais um no chão, aos nossos pés, a engordar o monte de pedaços de fita, abandonados e inúteis ...
Esta contagem é uma condenação anunciada.  É uma visão apocalíptica da insignificância das nossas vidas.
É o cadafalso a descer em requinte sádico, milímetro a milímetro, sobre as nossas cabeças ... é o declínio  inevitável, indiferente  e silencioso da Torre de Pisa, com a lentidão das eras.
É a ampulheta colocada sobre a mesa, à nossa frente, a vazar a areia, grão a grão, imparável e inexoravelmente aos nossos olhos ...
E é isto de que o Homem dispõe.  Alguns metros de fita para ir cortando !...

Tão mais fácil não pensar !  Tão mais simples não ter a noção do tempo !...

Percebo a minha mãe.  Eu vou ser como ela, mais tarde.  Eu já sou como ela, agora ...
E ralho-lhe hoje, pelo dramatismo.  E debito pragmatismos e filosofias baratas, e verdades inconsistentes.  Teorias falaciosas para espantar fantasmas ... apenas isso.  "Xô-xô"!...

Quem dera ser como os povos indígenas do interior do planeta, das matas cerradas inóspitas, das florestas virgem inexpugnáveis ...
Lá, onde o Homem nasce e morre ao sabor da Natureza, como o sol que se levanta e se deita todos os dias, sem perguntar por que o faz ... como as marés que avançam e recuam fascinadas pelo chamamento da lua ...
Lá, onde o Homem vive sem questionar a razão, o motivo, o desígnio, o porquê ... o antes e o depois.
Sem ânsias, sem angústias, sem dúvidas ou sobressaltos.
Assim ... simplesmente assim ...

Porque afinal nada mais somos que o animal selvagem e livre, errante na savana, obedecendo aos ciclos da vida, nada além da chuva que cai quando tem que cair, nada além da nuvem que passa quando tem que passar, além das folhas que tombam nas clareiras, encerrando uma etapa de existência, para que outra se reinicie logo de seguida ... nesse exacto momento, uma outra vez !!!...
Nada mais ...

Anamar

domingo, 28 de dezembro de 2014

" COM MÚSICA NO CORAÇÃO "



O Natal esgotou-se.  Esgotou-se com tudo o que tem de bom e de mau, de magia e realidade, de desejado e imposto, de sonho e de pesadelo.
Porque efectivamente o Natal tem quase sempre mais de pesadelo, que de sonho... ( Isto, sou eu a pensar alto !... )
Sobretudo o Natal que "impõe" as pessoas umas às outras, mesmo que não tenham afinidades visíveis, linguagens próximas, formas de sentir, ou mesmo filosofias de vida semelhantes.
Natais que o calendário determina, entre gentes desestruturadas, gentes de costas voltadas, gentes com corações desencantados, almas desalentadas, famílias imperfeitas, feitas de pessoas imperfeitas ... especialmente imperfeitas !

Porque na verdade, o ser humano é cada vez mais intolerante, menos disponível, mais estratificado e fossilizado em formas de ser e estar ... e as famílias, a gente não escolhe, de facto.
Não se fazem sob medida, de acordo com figurino, ao sabor dos nossos anseios, das nossas expectativas, do que gostaríamos que fossem.
As famílias coexistem connosco, nós nascemos dentro delas, desta e não daquela, sem vontade própria ... aleatoriamente ... Vá-se lá saber porquê !...

Há os Natais que se sonham ... "familiarmente correctos", como mandam as leis da Santa Madre Igreja.  Natais tão doces, quanto os sonhos que se compram para os rechear.  Natais tão bem "esculpidos" na massa humana, tão "santos", que o amor escorreria  por todas as costuras, os sorrisos fraternos iluminariam  os rostos, a generosidade de corações disponíveis extravasaria, e os homens de boa vontade uniriam  esforços, entendimento e magnanimidade, para que essa  fosse "a noite", em torno da tribo ou do clã !...
São verdadeiramente Natais improváveis ... virtuais !

E depois, há os outros ... os Natais "reais" !
O ser humano, mercê da vida de que dispõe, melhor dizendo, da fraca qualidade de vida de que dispõe, ostraciza-se, talvez por defesa, não sei, em células cada vez mais confinadas ao seu "eu", às suas verdades e às suas convicções.
As pessoas estão cansadas, stressadas, talvez angustiadas, talvez de mal com o que as cerca.
As pessoas estão mais e mais autistas, as pessoas estranham-se, as pessoas são dominadas e possuídas por agressividades latentes, prontas a "chispalhar" ao primeiro clique, ao décimo incómodo ... à terceira contrariedade... 
Os valores do afecto, do amor, do respeito, da partilha e da cumplicidade, os tais propagandisticamente  inalienáveis, deveriam ser presentes e persistir sempre, sobrepondo-se a tudo o que vá acontecendo ao longo dos 365 dias que permeiam dois Natais.
Ao longo mesmo, das divergências, dos sentimentos menores ... Ao longo mesmo de mazelas que a vida vá semeando nos caminhos individuais ... num espírito superior, altruísta, de união e comunhão entre aqueles que se amam ...

Mas isso são utopias e idealismos que o calendário impiedosamente julga poder resolver ... só porque se chegou outra vez ao dia 25 de mais um mês de Dezembro ...

E por isso é que eu detesto o Natal !

É que ele quase sempre tem a capacidade de trazer ao de cima as "nódoas" a que fomos fechando os olhos ao longo dos dias, o lixo que fomos varrendo para debaixo dos tapetes ... os "ódios de estimação", recalcados em realidades mal resolvidas, tantas vezes !
E as pessoas não conseguem transcender-se  na verdade . O Homem é por natureza egoísta, comodista, egocêntrico mesmo.  E não se transcende em prol do outro... em prol de ninguém !  Nunca se transcende, de facto !...

E assim,  tenho para mim, já com alguma tolerância e ingenuidade,  que o Natal deveria ser apenas uma comemoração "sub-dez", digamos que vivenciado apenas até à idade da consciência.
Enquanto crianças, os sentimentos são puros, as mentes  não guardam animosidades, rancores, raivas ou mágoas.
A inocência sempre mostra alvoradas iluminadas, os corações são magnânimos e desarmados.
A disponibilidade e a generosidade  são incondicionais e têm o tamanho do Mundo.
A tolerância e o afecto distribuem-se indistintamente, com a grandeza de almas fraternas.
O ser humano, incólume, ainda não foi vergastado pela vida, destruído pelos tempos, trucidado pela sorte, armadilhado pelo destino !

É por essa razão, que o Natal sempre persiste ao longo dos tempos e das vidas, quase exclusivamente como herança terna do imaginário infantil de cada um de nós, nas memórias doces e inesquecíveis dos nossos primeiros anos !!!

Também por isso, ou apenas por isso, numa espécie de compensação para a alma, numa espécie de presente para mim mesma, o meu dia de Natal este ano,  precisou terminar embalando-me no sonho e na doçura do inesquecível e intemporal "Música no coração", que teve o mérito  indefectível de me remeter à magia de  uma realidade quase perfeita !...


Anamar

sábado, 13 de dezembro de 2014

" O NEXO DA FALTA DE NEXO ... "



O dia amanheceu mergulhado em "nieblas".
Uma cerração desgraçada, adivinhava que o sol não se levantaria.  Temperatura a baixar abissalmente, um frio de Natal a instalar-se.
Na rua, as pessoas circulam apressadas. Golas levantadas, narizes vermelhos, ofegantes, passo estugado na tentativa de enganarem o ar gélido.  Das bocas, aquele fuminho denunciador de uma humidade brava, espalha-se, como  se de uma chaminé se tratasse.

Foi o primeiro dia, deste Outono beirando o Inverno, que efectivamente puxou dos "galões" e mostrou claramente que o tempo atmosférico até agora, tem andado a brincar a uma coisa que não é nem deixa de ser.  Hoje sim, temos um daqueles genuínos dias coerentes com o calendário.
Os faróis dos carros, neste lusco-fusco de noite às cinco da tarde, projectam um  cone de luz tremeluzente, no asfalto molhado.

E choveu toda a noite.
Os pingos das gotas de chuva nas vidraças da janela, o pingue-pingue metálico na calha do estore da vizinha de baixo, foi-me lembrando ao longo das horas de silêncio, que estaria  desagradável lá fora.
O gato preto ... onde andará ?
Continuo a entrevê-lo através dos estendais, prédio abaixo. Estendais agora vazios de roupa, em tempo de borrasca. Sobrevive no terraço, em completa solidão.
Onde se acoitará da água ?  Sim, porque do frio, não há lugar razoavelmente protector.

Os pingos ...
"Estás constipada ?" - perguntaram-me ao telefone.
"Não ! Estou apenas a pingar !" - respondi, justificando o fungar perceptível.
A gente pinga, de quando em quando.  Pingam os olhos, pinga o nariz, ao sabor do pingar do coração. Porque é aí que tudo começa !
Será que se pode ter saudades do futuro ?  Ou melhor, de um futuro que ainda o não foi, e apenas se idealizou ?
Será que se pode ter saudades de alguma coisa que não se viveu, só se adivinhou no coração ?
Porque saudades do passado, é fácil.  E lógico.  As saudades são os restos que ainda não partiram.

Sou capaz de olhar um galho adormecido, e cheirar o verde húmido da mata, quando foi apanhado...
Sou capaz de olhar um calhau rolado  das areias distantes, e inebriar a alma com a  maresia que dele se desprende ...
Sou capaz de ouvir os chocalhos do rebanho no pastoreio, e as badaladas da torre sineira ... ritmadas, cadenciadas, ecoando no silêncio, como então ...
Escuto com precisão o grasnido da gaivota planante, antes de repousar no alto daquele poste lá ...
E  escuto  também  as  exactas  palavras  ditas, os  risos  largados, os sorrisos  subentendidos ...
E oiço o Natal, e o ano vizinho ... e cheiro a intimidade da sala, e o calor da cama cúmplice...

Tudo ontem ...

E amanhã ?
Amanhã, é uma manhã como a de hoje, mergulhada em "nieblas".  É um vendaval  de chuva cerrada, que não deixa ver através das vidraças embaciadas.  É uma espécie de vereda que caminha  na ravina  e  termina lá ao fundo, subitamente ...  num penhasco  em garganta rasgada sobre o mar ...
Amanhã ... é uma manhã cinzenta de um Outono beirando o Inverno.
Amanhã é uma interrogação sem resposta.  É um futuro de  fé sem esperança ...
Amanhã é a ausência de nexo, numa história que desconhece o seu significado !...

Anamar

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

" A DÚVIDA METÓDICA "




Não escrevo faz tempo.
É assim a minha vida.  Altos, baixos, períodos de valer a pena, períodos de indiferença e distanciamento em relação a tudo.  Amorfismo face à realidade, encolher de ombros, fazer-me morta ... deixar correr.
Se calhar é assim a vida de toda a gente.  Afinal, não há carapaças de tartaruga para todos, apesar que me daria imenso jeito !

Ontem, um programa televisivo equacionando um tema assaz interessante : " Haverá ainda futuro para Deus ? "
Um espaço de reflexão, de opinião, de questionação.  Um espaço de interrogação.  Muitas perguntas, nenhuma conclusão.  Obviamente !

A existência de um deus nas nossas vidas, a busca de um significado para elas, numa sociedade ferida de tal desencanto e tão desprovida de soluções, que empurra mais e mais o ser humano para um afastamento do divino.
A ciência explica muitas dúvidas existenciais, daquelas com que nos confrontamos diariamente. Explica muitas, mas não todas.  Longe disso !

O Homem, na precariedade da sua existência, na insatisfação dos mundos em que mergulha, na orfandade das suas dúvidas, sem enxergar respostas, entregue aos seus medos, às suas angústias, face à  sua  pequenez e fragilidade, face a tanto desencanto e tantas perplexidades ... precisa na maior parte das vezes, de uma âncora, de um porto, de uma lógica, de um caminho.
E cria uma figura "paterna" maior, última, definitiva, em que dogmaticamente acredita, se recosta, se aninha.
Esse "mito", essa protecção que desconhece, mas sob a qual nada lhe acontecerá, esse arrego doce, esse colo embalador que não julga, sempre compreende e perdoa, restitui-lhe a tranquilidade que o aquieta, dá-lhe o norte e a significância para o caminho doído, ergue-o quando cai, dá-lhe forças na doença, ânimo no desespero  ... luz na escuridão ... repouso ... esperança numa salvação promissora, transcendental.
Essa figura que não se vê, não se palpa, contra a qual consequentemente o Homem não se pode rebelar, surge na sua vida como solução, saída, resposta final.
E o Homem que criou na sua mente essa figura parental,  vive assim mais em paz, mais confiante, mais submisso, mais humilde.
Não O questiona, ou raramente O questiona ( Se o fizer, sentir-se-á um ímpio, um ser desprezível e ingrato ), e aceita em conformismo,  o destino, a "cruz", a penitência.
Como peregrino em devoção e agradecimento, tenham as provações a dimensão que tiverem ...  ruma à salvação !

Assim vivem os crentes, e assim encontram uma razão para a sua existência.

E os não crentes ?  Aqueles que nunca, ou "ainda não" foram tocados por essa luz, ou não experienciaram esse "milagre" ?
Nesses, incluo-me eu.
De facto, agnóstica que sou, depois de um início de vida tradicional e deterministicamente religioso, encontro-me na encruzilhada da dúvida.
Com uma formação académica científica, com uma irreverência, e uma espécie de contrapoder atrevido, dentro de mim face à vida, sinto-me uma sedenta e estupefacta caminheira, com um pragmatismo desencantado, na beira da estrada, olhando, perscrutando, analisando, descodificando, interrogando e desgraçadamente não encontrando "outras" justificações ou respostas, para nada daquilo que segundo a segundo, vai desfilando neste carril aleatório e sem nexo.
Não encontrando  "outro" sentido ou significado, "outro" fio condutor lógico na percepção dos acontecimentos, não encontrando "outras" leituras credíveis, na aleatoriedade acidental ... olho cansativamente o papel em branco, no qual tenho que desenhar, momento a momento, a "estória" que com alguma liberdade arbitral vou vivendo.
Dramaticamente.  Angustiadamente.  Cepticamente.

Questiono-me sempre, se viver assim, não  é só por si, uma  "tragédia" ?!
Se encarar o transcurso  do tempo, sem bengala, sem "antidepressivos" de alma, sem  "analgésicos" de coração, sem muletas emocionais ... apenas entregue à minha esperança e desesperança em todos os seres - que não passa por desígnios de salvação de alma -  entregue exclusivamente à minha fé particular e inabalável no ser humano, nas suas potencialidades e nas suas espantosas capacidades regenerativas, no seu poder de encontro e de renascimento constantes ...  questiono-me sempre, dizia, se estas minhas escolhas,  estas minhas convicções de caminho, não serão assumidos exercícios suicidas, de teimosia temerária, de inconsciência não acautelada, em que a minha vulnerabilidade, a minha pequenez, e a minha insignificância de peão de tabuleiro, são largadas em permanência,  no xadrês da vida ?!...
Lá ... onde dizem que Deus não joga !...

Mas eu sou inevitavelmente assim, e não consigo ( o que simplistamente talvez me adoçasse e pacificasse o percurso), ver a existência humana, de forma diferente !
Esta dialéctica é a minha verdade.   Esta estrada acidentada e pedregosa, o meu caminho.  Esta autenticidade muitas vezes titubeante, desoladora e sem colorido, a assumpção daquilo em que acredito ...
Porque eu "desconfio" muito seriamente, que depois de nada ... nada existe mesmo !!!


Anamar

domingo, 30 de novembro de 2014

" LAÇOS INVISÍVEIS "



O "farrusco do fiambre" perambula pelo terraço lá em baixo.  Afinal, ele é um residente !... Um residente e um resistente !
Verão após Verão, Inverno após Inverno, acumulando anos de vida, numa vida que não sei quantos anos já conta ... ele lá continua inabalável ... com as quatro patas firmes no lajeado, chova, faça sol, tempestade ou bom tempo.
Habitante único daquele terraço, não tenho a noção de como sobrevive.
Há tempos largos que o não espreitava. Cabeça demasiado preenchida, coisas a mais para a estrutura mental de que disponho, não me têm levado a espraiar as vistas  pela janela, preguiçosamente a olhar o tudo e o nada, por sobre os telhados a perder de vista, rumo a um horizonte verde, bem lá longe !

Hoje deitei o nariz de fora.  O ar estava liquefeito. O fim de tarde mostrava um céu diluído, um sol laranja, iluminado, distante ... farrapos de nuvens, como novelos de lã branca, espalhados lá por cima.
Nada grave !
E ele lá estava.  Entrevi-o entre o emaranhado de estendais, e de roupa colocada pressurosamente a secar, não vá chover amanhã ...
Era um recorte esfíngico, uma figura sonolenta, um "bibelot" de porcelana ... visto do alto do meu sétimo andar.

Quem também tenho pressentido por aqui, em passagens fugidias, em voos sonolentos e rasantes, é a "minha gaivota", que se anuncia com aqueles grasnidos que tão bem conhecemos, quando o mar encapelado apenas lhe permite que o sobrevoe ... em dias de tempestade anunciada.
Há tempos que não "conversamos".  Há tempos que não trocamos aquela promiscuidade  de "mulher para mulher" !...
Sempre costumava espreitar-me,  altaneira, do alto do terraço contíguo à minha tribuna, mirando-me de lado, olhos perscrutantes, argutos e  miudinhos ... Assim como quem me mede os humores ... Depois, deixou de vir.  A lixeira, super-mercado de Inverno, fica lá para trás da minha disponibilidade visual.
E também, ela frequenta-a no Inverno apenas, quando recua da orla costeira, porque o tempo madrasto,  lhe escasseia o peixe fresco na dieta.
Hoje, veio por aqui.

Coisa estranha esta, de me sentir órfã se os não vejo ... de me sentir acompanhada, se os vejo !
Coisa estranha esta, quando o ser humano se sente acompanhado por um gato e uma gaivota que só toca com o olhar, e que só acompanha com o pensamento !...

Às vezes, largo uma frase no espaço que nos separa ... convicta que a digo para quem a não escutará. Mas não importa, é assim uma espécie de código de coração, uma espécie de partilha de sentimentos, um diálogo surdo, mas generoso.
Uma cumplicidade de solidões ...
Eles não me conhecem, mas eu conheço-os e são por isso, um pouco "meus" ...
Porque como diz Saint-Exupéry, sempre "somos responsáveis por tudo o que cativamos".
E, cada um a seu modo, cada um à sua maneira, tornaram-se parte da minha vida, passaram a integrá-la.
Se mais não for, por  em dias como  hoje, em que me abeiro da vidraça em busca de vida lá fora,  a sua presença por perto, ser um afago na alma, que consegue trazer-me ao rosto um sorriso rasgado ...

Mesmo que o fim de tarde me não ofereça um sol laranja, iluminado ...

Anamar

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

" OLHANDO P'RA DENTRO DE MIM ..."



E o céu lá longe,  fechou com uma estranha sobreposição de nuvens, como frente de rebentação  no areal deserto.   Por detrás daquela abstracta imensidão, um fogacho laranja iluminava ainda o firmamento  no estertor final do dia !

Era mais um dia de Novembro, deste Novembro pardo, que sempre se veste de  ocres queimados, de vermelhos envelhecidos, ou de verdes  recolhidos,  em tons de musgos beirando o Natal.
As montanhas no firmamento pariam água, água e mais água, neste nosso desconforto de desesperança !
Frio ... já algum frio, que me parece mais interior, ainda assim .
A menos que a solidão seja gelada ... Acho que a solidão é gelada, sim !...

Não há sobre o que escrever, a não ser que eu devasse  janelas que se iluminam, penetre nos espaços de aconchego, me deixe embrulhar em sonhos que sempre voejam por aqui, que não são meus,  mas são levados nas asas estendidas das gaivotas que recuaram.
Desistiram de mar, desistiram de escarpas empoleiradas, desistiram de inventar praias de maré baixa ... e o seu grasnido ecoa em agudos estrepitantes, pelos céus.
Lá de cima, já se deve ver o Natal, a progredir em  passadas largas.  Os azevinhos engalanados enrubescem,  e pingam as bagas encorpadas, ao longo dos caules espinhosos.

Daqui "vejo"  a mata. Vejo a serra penumbrenta, a cheirar a terra molhada, parideira de frutos e tímidas flores de Inverno.  Cheira a carqueja, cheira a lareiras distantes, e cheira à humidade que amarinha pelas pedras e pelos troncos ...  As clareiras escureceram, neste dia apagado há tempo já ...
Os castanheiros bravos deixaram de cuidar dos seus ouriços  entreabertos, que espreguiçaram  as castanhas, a esmo,  pela terra fria ...

Daqui "vejo" o mar. Vejo as falésias e as gargantas profundas das arribas, a contorcerem-se, no açoite impiedoso da rebentação ...
Vejo  o  verde  das  rochas,  tapadas  e  destapadas  pelo  impudor  das  marés.
E vejo o véu deixado na areia molhada, pelo noivado permanente das águas, que sempre chegam e sempre partem ...
Como tudo na vida ...

E chega-me o cheiro.  O cheiro doce e salgado das maresias ancestrais.  O cheiro do pilriteiro maduro, das urzes e das estevas do bosque,  Dos cedros, dos abetos, do gilbardeiro e das roseiras bravas.  E todos os cheiros que eu quiser, porque sou livre de os inventar ...

E chegam-me todas as emoções adormecidas no meu eu.  Reúno os escombros dos sonhos sonhados, e fecho os olhos, numa dolência de recolhimento, de entorpecimento da alma ...  de  cansaço indiferente,  que  já  não  se  subleva,  porque  não  tem  força  para  se  erguer ...

Chega-me  tudo ... tudo  o  que  estranhamente  duvido  ter  sido ... porque  parece  que  nunca  foi .
Chega-me a palidez de sépias antigas, o sombrio de memórias que tiveram cor, e luz, e cheiros e risos ... e murcharam no pé , como um botão de camélia que não teve força para abrir ...
E sinto-me a fenecer, como o sol precário desta tarde, a desistir ...


Anamar

sábado, 15 de novembro de 2014

" TOCANDO EM FRENTE "



A vida encarrega-se ...

De repente, como uma onda alterosa, ela ergue-se e arruma o assunto, que é como quem diz, decide inapelavelmente o que entende ...
Sem que tenhamos capacidade de resposta ou de insurgimento.
Assim, numa curva da estrada, no virar de uma esquina, da noite para o dia, de supetão, surpreende-nos como o salto da serpente emboscada, sem previsão ou acautelamento possível, em ratoeira perfeita.
E transforma-se naquela vaga do tsunami, que todos já vimos em imagens conclusivas.  Mostra-se, vem e varre sem piedade, tudo o que tem pela frente.  Indiferente ao "tudo", mesmo ...

Deve ser isso que consubstancia a afirmação corrente : " O  Homem põe e Deus dispõe" ... e que fará todo o sentido para a maioria das pessoas.
São marés, dizem uns.  Há fases assim, dizem outros ... em que tudo parece desfazer-se em espuma, em que o céu se abate, o chão foge, e em que como areia, tudo nos escapa, de brincadeirinha, por entre os dedos.

E pronto!  Os caminhos ficam todos fechados.  Não adianta !
Resta-nos aquele sentido de preservação e de sobrevivência que nos toma, quando a catástrofe desaba bem por cima das nossas cabeças.
Encolhemo-nos, enrodilhamo-nos qual feto na protecção uterina, imobilizamo-nos ... ficamos quietinhos e esperamos.
Esperamos que talvez a muralha de adversidade que se ergueu à nossa frente, passe ( tem que passar, porque a resistência humana tem limite ), que  talvez o céu brutalmente negro, consiga parir de novo um sol luminoso, que a amenidade subsista à chuva torrencial, e que na terra apareçam novos caminhos na ressaca da destruição.

O Homem encerra em si o princípio da regeneração.  É instinto, é característica de espécie, enquanto ser vivo que é.
"Deus dá a roupa consoante o frio", diz a sabedoria do povo, que não erra.
Como tal, depreende-se que sempre estaremos artilhados com o necessário, nem mais nem menos, para enfrentar os carregos da nossa existência ... ainda que ela se encarregue por nós ... ainda que ela chegue, e dê o golpe de misericórdia !

A vida é dos fortes.  A vida é de quem ousa.  A vida é de quem a enfrenta, dos audazes e lutadores ... E  mais meia dúzia de chavões a propósito, poderiam ser ditos, pressupondo que ... " dos fracos não reza a História".
Deve ser verdade.  Acredito que o seja !

Então e esses ?  Os menos resistentes, ou os menos "equipados", ou os mais cépticos, ou os menos pragmáticos ... ou os menos capazes ?  O que se lhes faz ?

Bom, talvez pela seriação natural imperativa, não tenham mesmo futuro.
Talvez sejam destinados a sucumbir, no apuramento da espécie.
Talvez  a  vida  os  expurgue,  num  processo  selectivo,  natural,  implacável  e  óbvio ... Talvez !...

E a vida redesenha-se, queiramos ou não.  Sempre se redesenha !
E muitos sonhos adiados, sucumbem simplesmente num segundo.  E somos então lançados num vórtice que primeiro nos baralha, depois nos atordoa, e finalmente nos resigna, por impotência !

É frase feita e gasta, mas de facto, cada vez mais, "carpe diem" é a única coisa certa que nos resta, a única que podemos e devemos fazer, por inevitabilidade ...
Tudo o mais é utopia pura !...

E por isso, provavelmente cumprir a Vida ou ser inteligente perante ela, seja simplesmente ... "compreender a marcha e ir tocando em frente"... até porque ... "num dia a gente chega, e noutro vai embora ",  afinal ...

Anamar

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

" UMA MÃO CHEIA DE NADA ..."





Os dias são o que deles fazemos ...
Os dias são o que neles vivemos ... Vivemos ou "vivêmos" ... p'ra se perceber melhor ...

Já gostei muito dos sábados !!!  Eram o meu dia sonhado e inventado, nos sete que desfilam na semana.
Era o dia esperado, criado e recriado nas asas da imaginação.  Mesmo que fossem sábados como hoje ... ou melhor, sobretudo se fossem sábados como hoje, de cara feia, cenho carregado, de escuridão, vento e chuva, distribuídos por quem gere estas coisas ...

Eram sábados com história ... muitas histórias ! Eram sábados de sala iluminada, de vamos ali e voltamos ... golas levantadas já, sábados de correr à chuva em chapéu dividido, com as gotas trazidas nas rajadas do vento  a molharem a meia de licra ( comprometendo a exigência da toilette ), empoleirada nos saltos altos em harmonia.
Eram sábados com vozes, conversas, risos e gargalhadas. Sábados aquecidos no tinto de  copo  de  pé alto,  adoçados  na  cremosidade  do  chocolate,  brindados  no  cálice  de  Limoncello ...
Olhares  cúmplices  e  segredos  trocados.  Eram  sábados  com  alma.  Eram  sábados  com  vida !
E um calor que trepava, amarinhava, e envolvia ... Capaz de  trazer à vida, alguém que partiu ...

Não era esta coisa de silêncio a esfumar-se entre as quatro paredes ... sempre  só as quatro paredes .
Não era este abandono gélido que me perfura até às entranhas.  Este som que não ecoa, estas palavras que não são ditas ... porque não há quem diga palavras, por aqui ...
Não era este frio que atravessa as vidraças, pela ausência de sonho, e me tolhe, me limita, me amarfanha ...
Não era esta ausência de tudo, mas sobretudo da esperança.
Não era o saber-me viva, apenas porque respiro ... ainda !
Não era o mitigar-me com os farrapos das nuvens, olhando o céu que se redesenha a cada golpe de vento.  Como se  a  faxina do firmamento  pudesse soprar-me  para longe,  este peso de nuvem negra sem arco-íris !...

E anoiteceu.  Anoiteceu abruptamente ... insensivelmente ...

E tanto sábado que eu  tinha então, ainda p'la  frente ... e tão pouco sábado que tenho hoje, entre os dedos ...

Ainda "cheiro" os sábados, porque cada hora era uma hora de ser. Cada hora tinha uma batida diferente do coração, e um sorriso específico nos lábios.
Havia os de sol, que eram dourados, só dourados, e havia os de chuva e escuridão que eram doces, apenas doces ...
E eu, era aquela ... de então.  Não esta de hoje, sem identidade definida, vazia, amorfa, indiferente.
Sonâmbula na vida, distante, esquecida ... cansada !

Oiço o grasnido da minha gaivota já perdido no cinzento fechado, aqui por cima.  As asas estendidas e o peito à aragem, levam-na por círculos longínquos, adormentados,  para bem longe da minha janela.
O horizonte limita-me a vista e tolhe-me o pensamento ...

Por que raio ainda existem sábados, nas semanas ?!...

Anamar

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

" POR UM PRATO DE LENTILHAS "



Tudo ficou cinzento, circunspecto, fechado ...
Fechado o tempo lá fora, e fechadas as vidas das pessoas.

Li há dias, sei lá onde, que a crise sem fim que atravessamos, quase já perdemos o norte desde quando, teve o mérito de desenvolver criatividades, alternativas, desafiar coragens, espicaçar sonhos, despoletar o arrojo, varrer a preguiça e a acomodação ... e quiçá, desenvolver o que de melhor o ser humano guardava, até insuspeitamente, dentro de si.
A crise empurrou as pessoas, lançou-as no vórtice da incerteza, e como tal, fê-las abrir pára-quedas, esticar as asas, percebendo que teriam que voar.  Coisa que até desconheciam ser capazes de fazer, em alguns casos !!!

Tudo certo. Até aqui, acredito que sim.
Diz o povo que a "necessidade é mestra de engenho".  E o povo nunca erra, que eu sei !

Mas se estes aspectos representam a parte "boa" da crise, ou melhor, a parte menos "má", que dizer-se de todos aqueles que fizeram emergir no ser humano, tudo o que de pior o caracteriza, tudo o que de mais reprovável ele encerra ?

Neste momento, o oportunismo, a má formação, o mau caractismo, a indiferença perante  valores (que de repente sucumbiram ao "salve-se quem puder" ), o inescrupulismo , o trucidar do companheiro, o sacanear do próximo, a mentira, ou então a cómoda  ausência de verticalidade, se essa puder prejudicar e comprometer ... manifestam-se a cada esquina, em cada local de trabalho, em cada grupo social !!...

Que dizer do encolher de ombros, do assobiar p'ro lado ( muito conveniente quase sempre ), ou até mesmo da conivência com situações comprometedoras, pouco claras, ou mesmo reprováveis ... só porque há que garantir os magros níqueis ao fim do mês ... a qualquer preço ??!!

Que dizer-se quando percebemos que as pessoas que julgávamos mais impolutas, verticais e dignas, afinal traziam ao pescoço,  um preço na coleirinha?!!!

Que dizer-se quando percebemos que os reais valores que norteiam o ser humano, são os do oportunismo, os da defesa estrita dos seus interesses, os da sabujice miserável, os da subserviência descarada, o "ficar-se bem no boneco"  ... ainda que no aconchego da sua  consciência, haja um diabinho reprovador e  inclemente ??!!

Que dizer-se então das pessoas instaladas, em lugares de cúpula ( seja ela qual for, e tenham lá chegado sabe-se lá por que meios ), que em manobras kafkianas, prepotentes, sem ética ou rigor, usam e abusam dos privilégios discriminatórios que esses lugares lhes conferem, do seu poder decisório arbitrário, e da sua falta de critério e princípios ... e jogam com os "peõezitos" no xadrês, divertindo-se , mexendo-os a seu prazer, movendo-os e manipulando-os maquiavelicamente, de uma forma aleatória, sem isenção, distante e indiferente ... puxando os seus cordelinhos, retirando os tapetinhos, e abrindo alçapões e ratoeiras ??!!
Conhecem para isso claramente o processo da emboscada, imbuem-se do gozo que dá o jogo do gato e do rato, usam, brincam, sequestram, limitam, desarmam, e reduzem ao silêncio, as presas que lhes caíram na teia ...
E iniciam processos persecutórios, discriminatórios, que destroem a vida das pessoas ...
Processos suicidas, sem defesa, com meandros obscuros e controversos, altamente discutíveis, porque cautelosamente engendrados.

É mais ou menos este, o filme de terror que se vive em muitas empresas, e locais de trabalho, dos mais humildes, às mais renomadas multinacionais, neste momento, neste país, nesta Europa dita civilizada, onde os Direitos do Homem são lei ... dizem !.

Se se cai na graça dos chefes, dos tais deuses de pés de barro que ali estabeleceram o seu reino omnipotente, tudo bem. A paz existe, o convívio privilegia-se, a camaradagem e mesmo a amizade, instalam-se ... até ver.
Mas se por um qualquer infeliz desígnio do destino, o "peãozito" se põe em bicos de pés, discorda ou questiona regras, valores ou determinações  ( mesmo  numa perspectiva pedagógica ) ,  se ainda que com razão, põe em causa posturas, abana estruturas, denuncia irregularidades abafadas, se torna incómodo porque estende o dedo acusatório a interesses instalados, desmascara o que jamais poderia ser desmascarado, "cutuca" vespeiros não convenientes ... mexe na merda ... Ah, então, sem direito a demais explicações, análise ou defesa, é arbitrariamente banido do tabuleiro, e confrontado com a ameaça velada, de não conseguir fazer jogo, em nenhum outro xadrês ...
Ao alcance dum simples "pufftt"... o destino de uma pessoa,  é jogado na sarjeta !...

E assim vai a vida de muitos portugueses ... acreditem !
De facto, "o mar não está p'ra peixe" ... E como há que sobreviver, ou as pessoas emigram nas condições que lhes surgirem, ou se submetem, entram no esquema, engolem sapos, aceitam as descriminações sem levantar "ondas", e tornam-se cegos "yes man" ... aceitam submissamente toda a gama de chantagens ou manipulações, de cabeça baixa ... depõem armas, empacotam os sonhos, as veleidades de justeza, de seriedade, de verdade e de aposta ... de luta, de profissionalismo ... em suma, aceitam "vender" os seus ideais ... por um triste "prato de lentilhas" !!!...

Já o D. Quixote se não deu bem ... e a crise ainda não estava instalada !!!...



Anamar

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

" ERA ASSIM NOVEMBRO "



Começou Novembro.
Novembro, aquele mês com que não convivo pacificamente,  no elenco dos doze, com que cada ano nos brinda !   E ironicamente, ou talvez não, nasci nele !
O que é um facto é que, com ou sem S. Martinho, com mais ou menos sol a brincar de Verão ... quando Novembro chega, o cheiro a Outono  instala-se definitivamente, e o castanho, os laranjas e os amarelos queimados, pintalgam tudo por aí.
Os dias parecem deitar-se para a sesta, num remanso aconchegante que convida a toca.  O  ar adocica, amodorra, o tempo recolhe, preparando a hibernação que se aproxima ...
As árvores despem-se ;  os parques atapetam as suas alamedas com folhas adormecidas, e há uma incontestada sonolência, na alma de todos os seres vivos ...
Até os pássaros emudecem, e os silêncios descem  à Terra !

E  havia aquela casa junto ao lago...
A bordejar-lhe as margens, os canaviais baloiçavam preguiçosos, perante a aragem que começava a refrescar.
Bem perto, a floresta de coníferas, de castanheiros, de plátanos, de zimbros , bétulas, carvalhos e olmos, começava a subir e a adensar-se.  As bagas,  que aprovisionariam as "despensas" de esquilos, martas, arminhos, lemingues e outros ... adornavam os caules. Os cogumelos amontoavam-se na sombra  do arvoredo, e a quietude pairava ...
As luzernas dos raios de sol que até há pouco lhe rasgavam ainda as entranhas, já não se definiam como antes.  Sem dúvida o sol andava bem mais baixo !
Os líquenes e os musgos revestiam troncos  que em permanência viviam na penumbra.   As formações dos gansos selvagens em migração para o sul, eram esquadras aladas, cortando os céus, com determinação e objectividade !...

Toda esta paz e serenidade, era o que de bom Novembro trazia ...

O barco, com os remos esquecidos, indolente, baloiçava imperceptivelmente na amarra de corda que o sujeitava à margem.  Também ele parecia dormitar ...

E percorria-se a mata, de cesta no braço, de cachecol ao pescoço, botas nos pés, embiocados já, numa meiinha de lã.
E eram de mitilos, de amoras, de zimbros, de medronhos, de groselhas, framboesas ou arandos ... de toda a panóplia de frutos vermelhos ... mas também de maçãs, de avelãs, de castanhas e  nozes ... a profusão das compotas a encherem a despensa,  a doçura das  geleias a confortar os corpos, o calor dos licores, a aquecer os espíritos ...
ao serão, quando já sabia bem cutucar as brasas, assar as castanhas no borralho, e ouvir histórias antigas, que saltitavam entre gerações !

Novembro era a luz que diminuía, e se coava, eram os lobos, os alces e os ursos, lá mais longe, que se adivinhavam na montanha.
Eles apareceriam, quando o manto branco cobrisse finalmente tudo !
Até lá, só os sons tão conhecidos, nos chegavam, pelas madrugadas e pelas noites de breu, iluminadas às vezes pela luz da lua !

Deve lá estar, a cabana de madeira !   Aposto que  ainda sai fumo daquela chaminé ! Aposto que a pele de rena ainda jaz no sofá, frente à lareira !  Aposto que as hastes do alce, por cima da porta, continuam a proteger a habitação !... Aposto que os patos bravos e os gansos selvagens cortam os céus com o seu grasnido ...  E que também o uivo do lobo ecoa desde a montanha ...
O barco dormido, baloiça na água ... e todas as bagas de todos os arbustos eclodirão, e rechearão todas as tartes imaginadas ...
Aposto !... Aposto, porque "vejo"  daqui ...  Aposto, porque sonho, e  o sonho é livre !!!

Lá ... era assim, a doçura de Novembro !!!...

Anamar

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

" OLHOS DE GATO ... "



Estou a ver se vejo isto pelos olhos dos gatos ...

Eu tenho dois ... gatos de apartamento.
Agostinho da Silva alimentava os que vagueavam nos telhados circundantes, pelas madrugadas, e vinham ao sótão filosofar com ele, discutir-lhe os estados de alma ... consta.
Porque, não tenho dúvidas ... os gatos são filósofos.  São-no, além de muitas outras coisas que escapam ao entendimento humano.

Olho os meus, e sinto que os injustiço.  Como eu gostaria de ter uma qualquer "porta de serviço", directa para as estrelas, para que eles as pudessem olhar, na frescura das noites !
Porque os gatos preferem as noites.  Por isso são seres místicos e míticos, já que nas noites, os seres que as povoam, são mutantes, não tenho dúvidas.
São seres de silêncios e de penumbra, aquela luz difusa que define com total clareza, contornos que só alguns olhos sabem ver.
E os deles sabem !

O Óscar era feliz nas telhas da Verdizela.   Calcorreava-as de ponta a ponta, de nível em nível, ora para a frente, ora para trás, perscrutando lá de cima, o pinhal, cuidando de perceber os ruídos, apercebendo o resmalhar da folhagem das buganvílias trepadoras, que subiam alto ...
Era um pequeno tigre garboso, recortado na escuridão do firmamento, absorto em contemplação, ou de tocaia aos sons do silêncio.
O Óscar não descia as ramagens, mas às vezes tinha a visita de parceiros mais felizes ... os gatos vadios, gatos de ninguém, gatos de pinhal ... gatos do mundo !
Gatos inteiros, ousados e curiosos de desfrutar o "poleiro" privilegiado do Óscar.
E então era aquela coisa da demarcação de território ... E nessa matéria, ele não dava abébias.  Aqueles telhados eram  seus, afinal !!!

Mas como os meus gatos são gatos de apartamento, o mais que fazem é olhar a lua, que quando é cheia, os endemoninha.  A eles e a mim !...
Semi-cerram os olhos para melhor focarem aquela estrela no infinito ... ( aquela lá longe, que parece piscar-lhes um segredo ).  Ou seguem fixamente o voo provocador dos pombos que os desafiam, ou  olham nostalgicamente a minha gaivota quando poisa perto demais, equilibrando-se ora numa ora noutra pata, numa espécie de sapateado, no altinho dos terraços.
Aí, rilham os dentes, e transformam essas figuras livres e soltas, em presas imaginárias, em caçadas  mais imaginárias ainda ...  até que lhes saiam do horizonte visual ..
Então, retomam a vigília em que passam as horas, sobretudo se o sol abençoar os seus lugares de estar.

Os meus gatos de hoje, os tais que dividem o apartamento comigo, não sabem o que é um quintal, um telhado, um beco mal cheiroso, sequer a sombra protectora de um carro ...
Por isso aspiram, aspiram profundamente, os cheiros que alcançam a nesga da janela do sétimo andar.
Tudo é novo, além das paredes, das janelas e da porta da rua !
Bebem o ar fresco que corre, o vento endiabrado que lhes abana os bigodes, brincam com as gotas da chuva que escorre nas vidraças ... como bênçãos dos céus, num deslumbre absoluto !
E queimam os dias a dormir, ronceiros, nos locais mais inimagináveis da casa, e tentam brincar com bolas, tampinhas, fitas de embrulho em caracóis provocantes ... porque até os ratos, tristemente são a fingir ...
E claro, desafiam-se, surpreendem-se, perseguem-se, lambem-se, mordem-se e enroscam  os corpos numa bola única de pelo ...
E voltam a dormir !!...

O Chico, o pachorrento grandalhão, atreve-se à escada, se consegue passar pelas minhas pernas distraídas, quando entreabro a porta.   E desce-a, apressado, como se conquistasse algum paraíso perdido.
Um dia não dei por ele e ficou fora, no emaranhado de um mundo novo que é o meu prédio de sete andares.  Algum tempo depois, chamava do lado de fora, reivindicando a entrada.
Ficam assim, meio burros, os gatos de apartamento !...
Mas também, o Chico é um pouco tímido, já percebi, e carregado de bonomia.
Já o Jonas, não se atreve.  É um ladino do caraças, um reguilóide movido "a pilhas".  Pequeno de porte, magro, elegante, é um vivaço  com olhos de miúdo safado ... mas um medricas permanente.
Basta uma sapatada do Chico para o meter na ordem, e acalmar a sua hiper-actividade.  Então, que remédio ... brinca sozinho e de tudo faz um brinquedo.
Lembra os filhos únicos, que têm que entreter-se por conta própria ...

E o tempo passa, e estes pobres gatos do "betão", nos redutos musculados que são as nossas casas ( e que sempre achamos serem as suas maiores maravilhas ), não vivem ... vegetam.
Esperam ( se calhar como nós ), apenas que o tempo passe.

É certo que têm o prato cheio, é certo que não sofrem a intempérie e a insegurança da terra de ninguém ... e na generalidade são rodeados de muito carinho e afecto.
É certo que os maltratos da rua,  não os atingem ...
Mas sofrem outros, infligidos à sua condição de seres vivos.
O Homem castra-os ( "trata-os", como as pessoas dizem, para adoçarem o acto ).  Não acasalam, não procriam, portanto.   Há quem lhes extraia as unhas, para que os sofás fiquem incólumes ...
Fazem  pouco  ou  nenhum  exercício  físico,  porque  obviamente  o espaço  de que dispõem  é  limitado.  Em  consequência,  tendem  a  tornar-se  obesos, com  inerentes  problemas  de  saúde ...
Mas  não sofrem depressão  como os humanos, nem problemas existenciais ... porque os gatos, não são dados a essas minudências ...

Tenho pena deles ... dos gatos do "betão" ...

A vertigem do pinheiro, não a conhecem, a emoção da caçada, também não, os instintos da defesa, do ataque e da emboscada,  inatos nos felídeos iguais a si, não os apuram ...
O sabor do vento e da chuva,  a felicidade dos caminhos francos,  os espaços amplos  ou o esconso das ruelas ...nunca virão a saber como são ...
Não apanham pardalitos, lagartixas ou borboletas ...
Não sonham ... não vivem romances tórridos, pelo luar de Janeiro ... nas escapadelas nocturnas !...
"Liberdade", não é palavra do seu léxico ...
Afinal, estes gatos "civilizados" não são mais que pássaros de asas cortadas,  habitando gaiolas douradas e  olhando o infinito perdido !!!...


Anamar

domingo, 26 de outubro de 2014

" DE TUDO UM POUCO ! "




Reincido no tempo !  Salvam-se as castanhas assadas, que estão no tempo, e já fumegam por aí !

Eu, estou com um pé em cada estação.  Tenho um olho guloso na praia que não pisei por cá, este ano...  tenho a ânsia de coração, da renovação que as Primaveras nos trazem ... experimento interiormente a nostalgia e o encasulamento de um Outono meio louco, que padece de sezões ... e pareço precisar urgentemente, do frio e do desconforto que o Inverno promete, para assim aceitar com alguma bonomia,  a vida confinada às quatro paredes deste quarto, aberto como sempre, sobre o casario desordenado duma terra sem história, simpatia ou beleza.
É verdade que o sol se põe ainda entre os laranjas e os vermelhos, é verdade que ainda desenha lindos ocasos lá ao fundo ... mas sente-se tudo fora de ordem ... na Natureza e em nós próprios ...

Ontem, "Os gatos não têm vertigens" ... uma ternura que até estranhamos.  O desempenho magistral duma Maria do Céu Guerra  igual a si própria ... sem beliscadura.  Um filme "naïf", com tanto de verdade, de realismo e de emoção, que nos embala o sonho e ilumina o espírito.
Tantas questões ali respondidas !  Tantos sentimentos ali experimentados !
Fiquei a saber ( e isso aqueceu-me a alma ) ... que não sou velha ... sou "vintage" !!!....   (rsrsrs)

Depois, a arrecadação, lembrando um campo de batalha, onde já não pisava talvez há mais de dois anos.  Uma "conveniente" avaria não reparada da porta, impediu-me o acesso a tralhas de uma vida.
Esta minha arrecadação é ecléctica  no recheio, e guarda histórias contadas ao longo de todo o sempre.

Ela guarda as provas provadas de uma família.  Lá, tudo mora.
O que por já não ter préstimo imediato, não garantiu lugar na casa,  o que guardava expectativas de reutilização um dia, às mãos dos vindouros, e aquilo que ainda se mantém "em trânsito" entre o lá e o cá, como é o caso das malas, de próximas, longínquas viagens, com muito de sonho, e não tanto de realidade ...
Chegou a hora de abrir a porta, de franquear a entrada, de tomar pulso ao poder do tempo sobre as coisas ... e de decidir. Decidir o que fazer à montureira guardada ... Se a redefinir, se continuar deixando-a  ao percurso do tempo, para um dia alguém ser compelido a tomar tal tarefa em mãos ...

Achei que teria que agir.  Porque se nada daquilo me fez falta durante tanto tempo já, não fará seguramente nunca mais !

Olhei as gaiolas e os viveiros dos pássaros que já tive.  Vazias, ferrugentas, parecem apartamentos devolutos sem vida !
Olhei as "toneladas" de livros escolares, dossiers de arquivo, cadernos e testes.  Se nunca mais ninguém  os  utilizou,  caídos  em  desuso,  nada  já  se  adequa ... O  "papelão"  os  aninhou !...
Olhei os suportes de garrafas, sem garrafas.  Vinhos que azedaram, ou se delapidaram de alguma forma .  Ninguém lhes sentiu a falta !
As historinhas infantis e adolescentes, da infância e juventude das minhas filhas e minhas também ! Para essas, garanto um final mais feliz.  Tenho uma menina de dez anos, que felizmente gosta de ler.
Acho que apreciará !
E tenho jogos e peluches e bonecas, e "chorões", e legos, e loicinhas e "pinypons" ... e berços e carrinhos, e toda a panóplia de cangalhada que faria as delícias de um rancho de meninas ...
Tenho dois rapazes e uma rapariga, sendo que o mais novo já fez sete anos ...
Nunca a "arrecadação" desceu, pela escassez do tempo, quiçá pelo "démodé" dos brinquedos !...
Olhei a arca, cheia dos papéis dos sonhos ...
Eu explico :  à medida que as minhas filhas, uma a seguir à outra, aprenderam a fazer riscos, desenhos, colorir, pintar ...
à medida que produziam em série, paisagens ordinariamente providas de casa, sol com olhos, árvores maiores que a casa, flores que eu diria gigantes, e um boneco e uma boneca, por via das dúvidas legendados ... "papá" e "mamã" ...
à medida que esse manancial artístico era produzido, juntamente com os primeiros "os" e "as", e "is", dentro das duas linhas bem juntinhas a conterem as letras entre si, nos primeiros cadernos ...
à medida que as palavras incipientes,  de duas sílabas, as primeiras frases de uma linha, e redacções de três, eram articuladas ...  eu sonhei que um dia, sim, com todo o tempo do mundo, com toda a paciência do mundo, com toda a placidez, eu iria desfrutar ainda enlevada e babada de novo, tudo aquilo ... sendo que o faria com a paz, a serenidade e a disponibilidade que me seriam conferidas pela fase da vida que então viveria ...

Pois bem ...
À semelhança de tudo na nossa existência, adiar é um erro.  Guardar para revivenciar, um logro. Esperar o reencontro com emoções "em marinada", um engano.
Há que esgotar o momento, e nunca deixar para trás. "Agora", é a hora para o que essa hora nos dá. Deixar que o bafio penetre os nossos sonhos ... inadequado.  Viver até à exaustão, uma ordem !
Nunca nada se repete, a vida é permanentemente mutável ... e o significado das coisas, único !
Resta-nos a mágoa irremediável da saudade.  E a saudade é uma realidade inacabada ... que veio "à forra" e nos faz sofrer !
Inevitavelmente !!! Tão inevitavelmente, quanto o é o percurso inapelável e inexorável do tempo !

Decidi que não quero, nem posso fazer da vida uma "arrecadação", como a minha.
Empoeirada, desarrumada, desordenada, escura ... sem luz ou sol que a rasgue.
Com um recheio obsoleto,.. imprestável !  Uma arrecadação de memórias, que foram fugindo em bando, pelos interstícios da porta !
Uma fotografia a sépia, cuja precisão vai sumindo na penumbra !...
Bafienta.  Com um imobilismo ou adormecimento, anquilosantes ... incapacitantes ... mortais !!!...

De tudo um pouco, neste fim de semana "ronceiro" ...
Um fim de semana em que também a hora mudou, para antecipar a noite e a escuridão, a dias de verão que se recusam a invernar ...
Tudo  morno,  um  marasmo  oxidante ... uma  modorra  de  tarde  estival,  pegajosa,  a  destempo !!!

Anamar

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

" ESCORRÊNCIA "




Ando tão indefinida quanto a indefinição do tempo !

Um tempo que põe a mesma árvore que frutifica, a reiniciar a floração, sem se decidir ... põe-nos a nós, de neurónios baralhados, corpos confundidos, feitos "baratas tontas", em encruzilhadas de vida, sem bússola.
Ou em alternativa, que o não é, num marasmo, numa apatia, numa desmotivação e num cansaço de doer.

Um "abanão", dizia-me um amigo, eu precisar urgentemente ... Um abanão !!!

Mas que abanão ?   Que intensidade de abanão precisarei eu, para ver a vida de outra forma, para me ver com outras "lentes", para achar alguma credibilidade nesta coisa que vou desfiando ( "gemendo e chorando, neste vale de lágrimas" - dizia-se na catequese ), vinte e quatro sobre vinte e quatro horas ?
"Para sorrir" ... dizia ele !...
Refém ... sinto-me refém de uma não sei que história sem história,  sinto-me penitente de uma não sei que falta ou pecado, sinto-me ré de um não sei que ilícito ou infracção ...

Dor ...
Um destes dias li um artigo espantoso, sobre a dor.
A dor muda que carregamos e não dizemos. Vem às vezes aos rostos, que não têm a habilidade da camuflagem ...
Vem às vezes à voz menos treinada em desdizer ...
A dor do corpo, quase sempre a menos importante, e depois a outra, a gigante ... a monstruosa ... a da alma, a que está cá dentro e que comanda.
Comanda o dia e comanda também a noite.  Traz-nos ao peito, raivas  incontroláveis.  Traz-nos água aos olhos, desobedientes.  Traz-nos nós que não se desatam, às gargantas que entopem e emudecem.
Ensombra a luz do caminho, e por isso, o assombra irremediavelmente.
Paralisa e tolhe.  Agarra-nos, como as forças da lama de um pântano escuro agarram quem lá fica prisioneiro.


A dor, cuja cura mendigamos e de que ninguém quer ouvir falar, por incómoda, por perturbadora, por massacrante ... Se calhar, até por acusadora ... será ?
A dor que não expomos, porque não é socialmente correcto expô-la, não é prudente no mínimo, ou aconselhável ...
Sequer adequado, encararmos as fragilidades, denunciarmos as dificuldades, exibirmos as nossas merdas, e menos ainda, servi-las de bandeja na praça pública, para repasto de urubus ...
Porque urubus pairam, sempre pairam, desde que cheire a carniça em putrefacção.
Já assim é, na savana africana ...

E isso, é demais ... assim já é demais ! É masoquista, é suicida, é temerário ... é brincadeira de mau gosto, ou perda da noção !
Porque é no mínimo ingénuo acreditar em arrego, esperar uma espécie de protecção ou colo anónimos, acreditar em disponibilidade, interesse ou vontade real, filantropia, afecto de geração espontânea, propiciados a nomes sem rosto ... o nosso .
É no mínimo tonto, fora da realidade ... sem necessidade, dirão os avisados.
E depois, quem é suficientemente insano que grite no escuro, que suba à montanha e clame, ou que abra o buraco no deserto e largue lá o seu desespero, auto-estigmatiza-se, auto-rotula-se ... coloca-se uma etiqueta ...
Desnuda-se, tira a roupa protectora da alma ... e mostra-se vulnerável e frágil.  Mostra-se no seu pior.
Mostra como é tão anormalmente diferente, tão imperfeitamente humano, tão marginalmente "outsider", numa sociedade de sentires calibrados, equilibrados, previsíveis e aconselháveis.
Uma sociedade vocacionada para o sucesso, e para os vencedores ... Não para os perdedores, aqueles que evidenciam uma sobrevivência desequilibrante e desequilibrada !...

E talvez tão tivesse valido a pena !...

E incomoda os outros !

E as pessoas não vivem aqui, para serem incomodadas.
As terapias, individuais ou grupais, como qualquer serviço, pagam-se.   E aliás, custam os olhos da cara a quem delas precise !
A sociedade não tem obrigação de ser psicoterapeuta de causas não suas !
Nela, é cada um por si.  E é esta a realidade.  Não tenhamos veleidades !

Na verdade,  muitos, quase todos  vivem felizmente deslumbrados com a vida.   Vivem numa integração quase perfeita no éden da existência.  Vivem em gratidão permanente.  Vivem em êxtase absoluto, porque acordam e dormem cada dia, todos os dias.
Numa realidade normativa, cumprem sem guerrear, com  razoável satisfação, o inquestionável, destinado a si e aos que amam.
E percebem que é assim, deve ser assim ...  Incorporam essa realidade sem utopias, sonhos megalómanos, devaneios absurdos, exigências doentias, insatisfações despropositadas ... a idiota mania do direito à felicidade ...

São indivíduos estruturados, assertivos, inteligentes, pragmáticos, realistas, saudáveis, não lunáticos, crescidos e não atrofiados emocionalmente, adultos, maduros ... ( sei lá o que estas coisas são !!!... )
e por isso, talvez felizes ... ou mais felizes !

Sabem, é muito engraçado fazer-se uma análise antropológica, social, relacional ... das respostas de cada indivíduo face ao que o perturba, ao que o desagrada e o incomoda. Face a quem vá chapinhar no seu charco cálido e manso ...
Se nos cheira mal, afastamo-nos.  Se nos queimamos, tiramos a mão.  Se nos incomodam, evitamos e podemos mesmo fugir ...
Deve ser legítimo, lógico ... deve ser humano !

E uma escorrência fétida, putrefacta, infecta ... só mesmo de máscara, luvas e viseira ... eu entendo !...

Anamar

domingo, 19 de outubro de 2014

´" É ASSIM QUE EU SOU !..."




É extremamente curioso, o ambiente de um terminal de chegada de aeroporto.
É um mundo dentro do Mundo !...
Seja na multidão que circula, seja na diversidade cultural que desfila, seja no multicolorido da pele, dos trajes, seja nas línguas, nos cabelos, no ar, dos que estão e dos que chegam ... seja nas emoções expressas ou na ausência delas ... seja no ruído de fundo, permanente, seja até nas bagagens que passam ... Tudo é uma curiosidade só !!!

É um espectáculo, estar simplesmente sentado, apenas olhando atentamente, sem urgências, analisando quem, com mais ou menos pressa, chega e parte.
Chega do grande coração intraportas que medeia desde a pista de aterragem à sala das bagagens, por corredores intermináveis, guichets, escadas e passadeiras rolantes ... e parte para o exterior, para a rua, para a grande metrópole ... para a vida lá fora, para o trânsito, para a chuva, o calor ou o vento, para a família ou para os hotéis, para alguém, ou para ninguém .

Os rostos em férias são diferentes dos rostos em trabalho.  O ar tranquilo dos que se adivinham veraneantes, é diverso do ar afobado, do fato e gravata, dos que se adivinham em trabalho.
As mochilas a que quase   se resume a bagagem despreocupada dos mais jovens, contrasta com as várias malas, avantajadas quase sempre, das famílias ou dos viajantes de uma faixa etária que nunca dispensa as "amenities " ...

Os operadores de viagens esperam fastidiosamente a chegada dos clientes.   Exibem mecanicamente o folheto informativo, gracejam entre si.  Às vezes parecem sonolentos.
Aeroporto, para eles, representa trabalho simplesmente.
Já nem curiosidade experimentam pelos rostos que esperam, massa informe que se repete em ondas, pelos dias e pelas noites.

Quem chega e sabe que tem quem o espere, abre um sorriso à porta de acesso, rasga esse sorriso quando encontra o rosto esperado no meio da multidão, e acena efusivamente enquanto empurra em ritmo acelerado, o carrinho da bagagem, pela rampa abaixo, na urgência do abraço, do beijinho, de mais sorrisos e gargalhadas.  Afinal, o chão firme já está debaixo dos pés ...

P'ra mim, um aeroporto sempre é um lugar de emoções.
Está inevitavelmente associado a destinos, a sonhos, a outras realidades, novas vivências e maior riqueza interior ...
A períodos garantidos, de afastamento das rotinas muitas vezes pesadas ...
Está associado a sol com outra cor, a mar generoso, rostos distintos, verde e flores, saberes e sabores, outros cheiros e outro vento ...  outra chuva, aventura e liberdade !
Há sempre um mistério desejado e doce, para além das salas de embarque, que não consigo disfarçar.
Mesmo quando não vou, mesmo quando ali estou apenas por acidente, e não saio do lugar ... o meu olhar guloso e atrevido infiltra-se, sem passaporte, percorre corredores, escadas, passa barreiras, adivinha os assentos de espera, olha a pista com os "monstros" alados em dormência de repouso, e o meu coração de caminheiro inquieto, sem rota definida, de viajante sedento e curioso  - que feito pássaro solto, salta de galho em galho  -  acelera as batidas, e lança-se no espaço, em velocidade de cruzeiro, a muitos mil pés de altitude, para um voo interminável e errante !!!

É assim que eu sou !...



Anamar

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

" HISTÓRIAS SEM HISTÓRIA ..."


O tempo está isto. Está esta coisa que se sabe ...
Mas também, sempre ele tem a culpa de tudo ! Por isso, ri ou chora, adocica ou sopra de fúria, se, e quando quer. Com estados de humor indiferentes aos estados de humor flutuantes, dos simples mortais.

Afinal a gente sempre reclama. Sempre achamos, do que reclamar.
É a humidade, é a chuva, é o sol forte demais, a desuso, é a ventania desabrida, é o ar trovoado que nos azara a cabeça, ou é o cinzento de um céu mal pintado ... Enfim, qualquer coisa é "bode expiatório", qualquer coisa justifica o desconforto, a vontade estranha de fugir, de voar p'ra outros céus,  outro chão ...
Qualquer coisa explica esta estranha ânsia de levantar ferro e zarpar ... zarpar por aí, por onde não houvesse vivalma ...de preferência ... digo eu !

Até os patos estão fora do lago...
Mais de vinte ponteavam há pouco a relva, na bordadura da água.
Cá fora a chuva cai, copiosa, insensível. Tenebrosa.  Toda a noite, toda a madrugada e por todo o dia, vento fortíssimo arremessou torrentes de água contra os vidros das janelas, empoleiradas neste terceiro andar, sobranceiro ao verde frondoso das árvores baixas e da relva do golfe, e frente ao cinzento uniforme e plúmbeo do céu, sem horizonte que o limite.

Está um tempo de borrasca.
O firmamento não tem nuvens ... é uma nuvem !   Inteiro, escuro e triste, desliza açoitado pelo vento, empurrado, como se fosse fumarada enfarruscada de chaminé de fábrica.
As árvores vergam, ameaçando quebrar, a temperatura caíu abissalmente, antecipando um Inverno em Outubro ... e as rajadas ruidosas, assobiam desaconchegando tudo e todos. Fustigando o corpo e macerando a alma !...

O silêncio por aqui, ouve-se ...

À excepção do assobio da ventania que se esgueira por qualquer não detectada frincha, à excepção do tamborilar forte das gotas de chuva nas vidraças, e do lamento queixoso da ramaria ... tudo o mais, é quietude.

Vi-os há pouco , à passagem ... aquele casal, na beira da estrada.
Dividiam uma protecção única, para a chuva impiedosa.  As roupas ainda ligeiras, obedecendo à convenção calendarizada, levantavam as golas, fingindo proteger.
Eu juraria estarem completamente encharcados, porque o vento desordenava o percurso da chuva .
E cingiam os corpos na tentativa de aconchego ... e seguravam o chapéu sem esperança, titubeante aos golpes desabridos ... e tinham os rostos iluminados, radiosos e coloridos do calor terno que os inundava, com  uma felicidade e um sorriso tão rasgado, que desafiava a autoridade dos céus ...
Eu diria que passeavam pelos intervalos das gotas, provocadoramente, desatentos ...
Tão demais o que os unia !!!...Tão de menos a intempérie que os rodeava !!!...

Anoiteceu-me junto às vidraças.
Sou eu, os dois gatos e a cadela, o universo espectador deste fim de dia.
Eles dormem.  Eu, alongo o olhar através da penumbra que desce mais e mais, de instante a instante, apagando os contornos deste quadro sem caixilho.
Espicho os olhos por entre as cordas que despencam dos céus, na tentativa de divisar alguma coisa, alguém ... lá longe ... mais além ..
Uma sombra que entrasse solidão adentro... Uma ária que me trinasse um rouxinol ... Um perfume que me subisse da mata ...
Ou tão só, na esperança  de descobrir onde pára a nesga de azul e os raios de sol ( neste anoitecer castigador ), que eu tenho a certeza, pairavam sobre o chapéu de chuva daqueles dois ...

Anamar

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

" INEVITABILIDADE "




Não sei como será viver-se, tendo como esperança de vida, não  ter esperança de vida ...
Não sei como será acordar-se, e por cada manhã  constatar que  mais uma noite passou,  e voltaram a esquecer-se de nos vir buscar, durante o sono ...
Para o bem ou para o mal !...  Ainda não foi desta ...
Não sei como é, olhar o mundo do poleiro da ramagem,  da emoção daquele galho que já foi nosso, e saber que os voos não se podem fazer com as  asas já cortadas ...

E sentir o fervilhar da vida por aí, ouvir dos projectos e dos sonhos, perceber a pulsação dos que riem, dos que falam e se agitam, e entram, e saem, e caminham ... porque têm caminho à sua frente ...
Conviver com o sorriso feliz e iluminado, dos que têm esperança ... porque têm vida !!!

E  não têm paciência, disponibilidade, vontade ou interesse, para ouvir aquela nossa história que nos garantem, repetida já,  cem vezes ...
E confrontam-nos  constantemente  com a confusão, a imprecisão,  a ausência de nexo da nossa argumentação ...
Eles lá  têm tempo para isso !!...
O tempo deles é precioso demais para o perderem  escutando nada de relevante.  Afinal, têm vidas que os solicitam, e onde  há  tanto  para fazer !...

E reclamam da repetição do repetido, da negligência dos nossos  cabelos brancos em desalinho, da indiferença ou da distância adormecida que nos embala ... porque as emoções nos falham, as forças se esbatem,  o cansaço se instala, a  mente  se  opaciza ,  na proporção da turvação crescente do nosso olhar... e da nossa cabeça !

Não sei como será percebermos que o tempo passou, muito depressa, que o nosso lugar do sofá, é quase só o que nos deixaram ... e que nos cabe viver, ou melhor, sobreviver  sem que façamos grande turbulência, exigências,  ou agitações de maré brava e perturbadora ...
Para que o estorvo que já somos, não se torne insuportável, e a nossa presença  quase já  muda ... inaceitável ...

E verificamos o ar entediado  e saturado com que não ouvem já as mesmas queixas, repetidas mil vezes, que falam das dores, da imobilidade, do desequilíbrio, dos sons  não ouvidos, ou das imagens não definidas ... Do que se confundiu, do que se esqueceu, do que se baralhou ...
Se tudo isso é verdade, é constante, é permanente ... e dói mesmo ?!
Dói no corpo alquebrado, no coração cansado e na alma entristecida ?!

A minha mãe tem noventa e três anos e meio.
Já por aqui falei muito dela.
Já contei como a sua história é de coragem, dedicação, força, tenacidade e persistência.
Nunca foi mulher de capitular face a adversidades e  a  tropeços.  A  sua vida  foi sempre mais a dos outros, em detrimento da própria.  A do meu pai, a minha, a das netas ... também  a dos bisnetos.

Agora garante estar  farta de por aqui andar.
As dores são insuportáveis, diz.  A autonomia desaparece diariamente, porque a decrepitude a incapacita de reger os seus dias, como sempre fez.
O seu sofá  é o mais alto poleiro da ramagem, de onde olha um mundo que já não conhece, já lhe diz pouco, e sobretudo, a cansa... A minha mãe está a querer desistir da caminhada !
Só pede que uma qualquer noite, se lembrem  dela,  por cá.

Olho-a e penso, num misto de emoções que não descrevo ... como será viver-se tendo como esperança de vida, não  ter mais esperança de vida ?!...

Anamar

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

" DELETEM !... "



Estamos naquela hora em que o sol nos foge numa fracção de segundos.  Apenas o tempo de procurar os óculos, para percebermos que ele já foi por hoje, naquele azul diluído num laranja-fogo, lá longe ...
Está a por-se bem mais à esquerda, no meu horizonte visual, por detrás das antenas de telecomunicações encarrapitadas incomodamente no alto de um terraço, frente à minha janela.
Ainda assim, deu p'ra ver que se deitou numa espécie de água de maré baixa, quando o mar recua, e fica aquela serenidade no areal.

Levantei-me não há muito, constatei ...  E pensei como foi curto o meu dia, como se encurtando-o mo anestesiasse, doesse menos, por menos horas ter de confronto comigo mesma.
Porque, de facto, enquanto os sonhos vão e vêm na sala escura do nosso "consciente onírico", tudo desfila à revelia do real, e com sorte, deambulamos por espaços, por pessoas, por momentos que já foram, e que se não foram, muito provavelmente gostaríamos que tivessem sido ...

Estou assim ... não diria desequilibrada ... Não gosto do termo.
"Desestruturada", encaixa na perfeição.
Desestruturada é alguma coisa fora do contexto, fora do enquadramento ... fora da moldura.
Aquele pedaço de pano que esgaçou, sem hipótese de conserto, está totalmente desestruturado.

Um dia fica-se assim.  Quando os olhos, o peito e a mente, não obedecem a ordens.
"Florzinha de estufa", como diria a minha filha, que tem pouca queda p'ra perceber estas coisas fora dos enquadramentos rígidos de racionalidade, pragmatismo e objectividade, na realidade em que se mexe .
Fraca capacidade de resiliência.  "Frescuras" ... diria, se fosse brasileira.  Falta do que fazer ... dir-se-á.  "Vida santa " ... dirão os que analisam de fora ... " que não valorizo".
"Querer mais o quê ?... perguntam-se.
Tontinha, insana ... mal agradecida e parva !!!

Estão desde já, todos perdoados !
Estas coisas, não entende quem quer.  Sim, quem pode.  Quem é capaz.  Quem percebe.  Quem sente, ou sentiu .

Quase me culpabilizo por não ter uma razão comezinhamente palpável, que justifique o esfiapar deste tecido de refugo, que é a minha mente, sobretudo nestes dias coloridos a ocres e vermelhos de Outono, com o sol a dormir por detrás das antenas, só p'ra me desfeitear ...
Uma razão daquelas que fazem estatística.  Que engrossam colunas.  Insuspeita.  De peso.  Uma boa razão, de valer a pena !
Porque nos tempos que correm, só tem direito a lamúrias existenciais, quem sofrer de males maiores, aqueles que atacam as pessoas ditas normais, por azar, acidente, ou destino, nesta época de crise bravia.
Esses sim, mereceriam o nosso respeito, comiseração e solidariedade.

Só  que  há  "males  maiores",  tão  "mortais"  quanto  outros.  Que  uns  entendem ... outros  não !...
Também, não vou agora aqui discutir o sexo dos anjos !

"Em criança não nos despedimos dos lugares.
Pensamos que voltamos, sempre.
Acreditamos que não é a última vez " - diz Mia Couto.

Eu sempre olho para os lugares, bem ao contrário ...  Achando que é de facto a última vez.  Lamentando que o seja, quase sempre.
Por isso também, guardo uma religiosidade solene quando o sol amodorra, e os silêncios possíveis ocupam os espaços vazios por aqui.  Sempre penso, que muitos o vêem deitar sem que o vejam acordar amanhã ...

E pareço ouvir aquele meu amigo ( alguém, já não sei quem foi, dizendo a sorrir, abanando a cabeça desaprovadora ) : "Lá estás tu a ver as coisas dessa forma !  Tens é que pensar, quantos lhe assistem o despertar, isso sim !"

A velha história do copo meio cheio e meio vazio ...  A demagogia à solta !...

Este texto hoje, é um desconchavo mental.  Uma peça de "patchwork" de má qualidade !
Retalhos mal ajambrados, coisa atamancada e perversa ...
É lava de vulcão, cujo vómito súbito seria impensado ...
É tudo, e é nada !  É só um "botar para fora", neste Outono pesado e cansativo.

Querem um conselho ???   "Deletem !... "

Anamar