Decididamente, deu-me "a louca" !
O Mundo está a preto e branco, o país está mais a preto que branco, as pessoas sofrem, angustiam-se e não dormem, com tanta escuridão à sua volta ... eu, decidi ( em total insanidade, e sem que fosse prudente fazê-lo ... ) marcar uma viagem.
Preciso respirar. É-me quase vital p'ra não sufocar, partir, ir embora .
Por pouco tempo, é certo, mas inventando para mim, que é muito.
Basta que seja outro ar, outro céu e outro mar, para que eu já me sinta num conto de fadas, num qualquer paraíso perdido, com o condão de me deixar arquivado numa prateleira distante, tudo, tudo, o que é a minha realidade descolorida, de uma Europa e de um Mundo "de gaita" !
Não se vê nenhuma "luz" nos tempos próximos.
Acho mesmo, que já nem será para a minha geração, poder-se voltar a viver com alguma descontracção, ou pelo menos voltar-se a "respirar" até ao fundo, de novo.
Estamos, e continuaremos a estar, num arame sem rede. Vivemos sobressaltos constantes.
Deitamo-nos hoje, com a insegurança do acordar de amanhã. As nossas noites são assoladas por pesadelos.
E se, surge uma doença ? E se, surgem obras no condomínio ? E se, temos um acidente a que tenhamos que responder economicamente ? E se, um filho derrapa além da conta ?
E se, e se, e se ???
Nunca vivi a "tapar buracos", que é como quem diz, a esticar a manta do palhaço, como diz um amigo meu.
P'ra tapar a cabeça, destapam-se os pés, e para tapar os pés, falta na cabeça, porque sempre é curta ; não dá para repousarmos tranquilamente, que não arrisquemos constipar-nos.
Tento acalmar-me às vezes, a pensar que à minha volta, "grosso modo", o cidadão comum que me rodeia, vive um pouco da mesma forma.
E ouve-se dizer : "desde que dê para o mês " ! "é assim : este mês faz-se isto, e aquilo espera para o próximo" !...
Deus do céu ! As gerações actuais, porque têm idades diferentes, resistências diferentes, e até formas de pensar diferentes, têm uma flexibilidade maior, uma adaptabilidade a estes esquemas, mais folgada.
Eu, venho do tempo do "pé de meia", da "segurança" para o dia de amanhã, para a doença futura, para a velhice próxima.
Eu, venho do tempo de que o passo teria que acompanhar a perna, e nada de megalomanias, de deslumbres ou malabarismos desavisados. Nada de aventuras suicidas, nada de "desvios" permitidos ...
E pronto ; esse era o espírito dos meus pais, e o espírito sempre existente, enquanto "fui gerida" economicamente, em lar matrimonial.
Depois ... bom, depois bagunçou-se tudo !
O Mundo "embananou-se" quase logo ( eu acho até, que havia uma qualquer conspiração astral, programada contra mim ... rsrsrs ) !
E como sem ovos não se fazem omeletes, nem das cartolas, os coelhos saem assim sem mais nem menos ( porque deram em ficar espertos ), eu, "embananei-me" também !
Eu, e mais quase dez milhões de portugueses, que eu sei !
Claro que há quem esteja a dar-se muito bem nisto tudo.
Como há sempre quem se dê muito bem, e seja muito sagaz no mexer dos cordelinhos certos, em qualquer altura.
E normalmente são sempre os mesmos !...
E isso é que me dá uma raiva desgraçada ! Porque há efectivamente gente, cujos horizontes são privilegiados, e com uma capacidade, eu diria inata e singular, para da "merda fazer ouro" ...
E são de novo, sempre os mesmos !!!...
Eu não fui "fadada" com essas capacidades.
Nem ninguém com escrúpulos, ausência de jeitinho para expedientes, ou outros esquemas pouco transparentes, o consegue ...
E por isso, olhem ... já não sei o preferível ...
Depois, desgraçadamente, na minha época, também se acabaram os "tios do Brasil", figura vetusta, parda e sovina, que "abrilhantava" com os "níqueis" aferrolhados, as famílias, em gerações passadas.
O "tio do Brasil", era o frequente benfeitor, quando partia, e enchia os cofres dos que por cá ficavam.
Dava sempre jeito, um qualquer desses "tios", que nunca víramos, não conhecíamos, nem lembrávamos ... mas que fiel ao sangue a correr nas veias, não nos renegava a herança choruda, no dia do ajuste final !...
Pois nem esse bendito "tio", eu desencantei ... bolas !!!
Por mais que esquadrinhasse a árvore genealógica, ninguém, dos meus, se demoveu a ir para Terras de Vera Cruz, em busca de outros horizontes.
Oh gentinha !... Mania dos alentejanos, ao contrário de portugueses mais aventureiros e inconformados de outras zonas do país, se agarrarem ao torrão natal, num saudosismo e masoquismo idiotas !...
Passar miséria, talvez, mas nunca deixar o seu chão e os seus, também !...
Sei é que me deu "a louca" !...
E pensei : "Perdido por um, perdido por mil ! Qualquer dia, bato a caçuleta e vou-me embora ...
Qualquer dia, o "lar" está à minha espera ...
Qualquer dia, o cancro, o Alzheimer, a esclerose não sei das quantas, as cataratas nos olhos e a surdez nos ouvidos, esperam-me ao virar da esquina.
As artroses, as pernas que ficam madraças, as últimas mais-valias físicas e mentais, vão à vida ...
Qualquer dia, qualquer dia, qualquer dia ...
Quase já ... me transformo num "esgar humano", num "simulacro de pessoa", numa "sombra passante" ... numa tontinha, a quem, à mesa, têm que por o guardanapo no pescoço e os talheres na mão ; numa incontinente de líquidos e gases, nos locais inapropriados ( para vergonha, dos que se haviam habituado a verem-me como "invencível", como "gente", como "gigante", quase ... )
Qualquer dia, ninguém mais me quer escutar, porque baralho as conversas, não oiço os diálogos, fico porca na higiene, e chantageio emocionalmente tudo e todos ( como é apanágio de um "velho" que se preze ) ...
Qualquer dia "embico" nos próprios pés, refino a tão "requintada" maneira de ser que já tenho, apuro a "raiva" de vida, que já sinto ... e lixo a vida a todos os que me rodeiam ...
Então ... se qualquer dia é isso tudo, que se vai passar ... que se "f.... a taça" !!!
Tenho todo o direito que me "dê a louca" !!!...
Anamar