Será um blogue escrito com a aleatoriedade da aleatoriedade das emoções de cada momento... É de mim, para todos, mas também para ninguém... É feito de amor, com o amor que nutro pela escrita...

domingo, 11 de novembro de 2012
" ZIZI NO PAÍS DOS SONHOS "
A mãe incumbira-a de, logo cedinho, apanhar medronhos na floresta junto à casa, na hora em que eles ainda estão orvalhados, e a cor, é por isso mais intensa ...
Zizi pegou no cestinho, colocou a touca sobre os cabelos soltos, e embrulhou-se o melhor que pôde na capa de lã, porque os medronhos se apanham no Inverno, e estava um frio de rachar !
Transpôs o umbral da porta, e no galho do azevinho junto à janela do seu quarto, como sempre, lá estava o passarinho azul, que ela tão bem conhecia.
O danadinho sempre a acordava cedo, e não queria saber do frio que fazia lá fora.
Mas hoje, Zizi tinha que apanhar as bagas vermelhas, para a tarte do lanche que a mãe queria confeccionar ... por isso, apenas lhe lançou um sorriso ensonado e tomou o atalho, no meio das ervas ainda brancas da geada da noite, que começava a derreter, ao sol fraco que espreitava.
Já andavam borboletas por ali.
Nem se percebia porquê ; as poucas flores coloridas que existiam, sempre eram tímidas na exuberância, porque afinal era Dezembro, e as borboletas também têm frio ... "E nem uma capinha usam !", pensava Zizi com os seus botões.
" D. Formiga Rabiga " já andava a cirandar ... Não havia tempo a perder ... bem diferente da cigarra, que já àquela hora, enchia o peito a cantar, sem nenhum pudor da preguiça que a invadia.
Os cogumelos tinham obviamente os seus "chapéus de chuva" abertos ... Eles é que eram espertos ... e o primeiro ouriço-cacheiro espreitou-a, na volta do caminho.
Tratava-se da Pimpinela, uma mãe, de ninhada bem escondida, mas que sempre se deixava ver, a Zizi.
Parou para lhe perguntar pelos bébés em crescimento, e convidou-a a esticar as pernas, acompanhando-a aos medronhos.
Sempre poderiam conversar com mais calma.
Zizi nunca entendeu, por que Pimpinela tinha um casaco tão agreste a cobri-la. Que coisa !!!...
Antes, o sobretudo fofinho de Salomão, o coelho branco que perdia horas a brincar com ela .
Pelo menos podia fazer-lhe festas, e dar-lhe beijinhos, enquanto lhe contava os seus segredos ...
"Miau miau" ... eis o Bigodes, um gatalhão malhado que vivia pelas moitas, mas que sempre era atraído ao cheiro dos petiscos da cozinha da quinta, e só não violava a porta, porque a D. Cremilde não era de modas, e tinha atrás dela, uma vassoura apta a funcionar em qualquer emergência ...
Mas Zizi dividia com o Bigodes, uns miminhos trazidos à surrelfa do cozinhado, sem que a mãe sequer sonhasse ... e por isso eram grandes amigos.
Juntou-se também, nessa manhã, à Pimpinela, ao Salomão e à menina, na rota dos medronheiros ...
Uns passos adiante, empoleirado no ramo mais alto do pinheiro bravo, já de olhos fechados, no princípio do seu sono, estava D. Ramon, o mestre mocho, que sempre medeava as questões dos habitantes da floresta.
Abriu e fechou um olho à passagem da comitiva, e quedou-se de novo no seu repouso.
Afinal a noite terminara há pouco, e o sol já aí estava, para o encandear...
Plim !...
Zizi levou a mão à touca, já que a cabeça estava por baixo, quando uma castanha caída do ouriço, a apanhou em cheio ...
Zacarias não pôde deixar de se rir ( no tronco em que se empoleirava ), com o susto da menina.
Zacarias começava a primeira refeição do dia.
Um esquilo que se preza, tem que alimentar-se, e encher a despensa diariamente ... não pode dormir em serviço !...
Mas medronhos ??... Também não se lhe dava apanhar alguns. Seria afinal fruta fresca no seu "frigo-bar"...
E pulando p'ra frente e p'ra trás, resolveu acompanhar a turma da colheita.
Zizi estava cada vez mais feliz ...
Mas ... estava faltando alguém, e ela não percebia porquê ...
Que era feito do Sebastião, o ratinho dos bosques, que estranhamente se dava bem com a Pimpinela, com o Salomão, com o Bigodes, com o D. Ramon (imagine-se ! ), e com o Zacarias ??!!
Teria adormecido até mais tarde nessa manhã?? Estaria a ficar preguiçoso ??
Só que Sebastião, na noite anterior, tinha comparecido à festa na clareira do bosque, como sempre preparada pelo melro, pelo pintarroxo, pelo rouxinol e pelo pintassilgo, que a ofereciam antes de partirem, já que o frio lhes tolhia as cordas vocais, e era impossível viver sem cantar!
E para a festa eram convidados todos os animais da floresta, e só terminava, quando o cuco entrava em cena, para cantar os doze "cu-cus" da meia noite, hora a que a lua já ia bem alta, e se cansava de dar luz àquela "gente" .
Como a dos pirilampos não era suficiente, a escuridão instalava-se, e cada um deveria recolher a casa ...
Então Zizi lembrou dos medronhos, do sol que também já ia alto no céu, da mãe que a esperava para fazer a tarte, do tempo que passara entretanto ... e com todas as borboletas dos campos a rodopiarem ao seu redor, pediu aos amiguinhos que a ajudassem ... e começou a apanhá-los ...
E repentinamente, o despertador tocou feito um realejo, e a menina dos cabelos soltos, touca na cabeça, capinha para o frio e cestinho no braço ... a menina dos medronhos, que tinha um passarinho azul, um ouriço-cacheiro, um coelho branquinho, um gato malhado, um mocho sábio, um esquilo traquina, um rato ... e muitas, muitas borboletas fora de época, como amigos ... percebeu que crescera, que o cabelo não era mais solto, que não vivia há muito, no meio daquele bosque da sua infância ...
Percebeu que a D. Cremilde já não fazia tartes de medronhos para o lanche, simplesmente porque não havia mais D. Cremilde ...
Zizi percebeu tudo, até mesmo que a Zizi que fora, também já não existia ...
... Por isso entristeceu ... e chorou !!!...
Anamar
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