Será um blogue escrito com a aleatoriedade da aleatoriedade das emoções de cada momento... É de mim, para todos, mas também para ninguém... É feito de amor, com o amor que nutro pela escrita...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012
" QUE CANSAÇO !... "
Precisava escrever.
Aliás era urgente que escrevesse, porque está a faltar-me o ar. O ar no coração.
Não sei explicar, mas sinto uma cobra constritora a envolver-me o coração e a tirar-me o ar ... devagar, gradualmente, segundo a segundo, lentamente, como quem goza o que faz ...
Um nó, talvez um nó explique melhor. Um nó com laçada a apertar devagarzinho, sadicamente, doloroso, maquiavélico, que me está a tornar os olhos húmidos ...
À minha volta o café de sempre, provavelmente as pessoas de sempre, provavelmente as conversas de sempre, provavelmente a normalidade de sempre, excepto eu, cada vez mais anormal, mais inconsequente e ilógica no que sinto, na forma como me pauto, no arrastar dos meus dias.
Que cansaço ... bolas, que cansaço !
Por que há-de ser sempre assim comigo ? Por que hei-de eu ser diferente das pessoas comuns ? Por que hei-de eu sangrar, por que hei-de eu sofrer até me doer, mas doer de dor mesmo, na alma ??!!
A alma dói ? Será que a alma dói ? Mas ... onde está essa bendita alma alojada, se o peso que eu tenho é no peito, e o rio que ameaça correr, está nos olhos ??!!...
Em fundo, como uma espécie de "ponto" numa peça de teatro, oiço a voz da minha filha, pragmática, objectiva, segura, realista, a questionar-me como sempre o faz, do porquê de toda esta anormalidade de vida e personalística, se na verdade eu não tenho motivos reais ...
Se na verdade eu tenho saúde, eu subsisto e mais que subsisto, vivo razoavelmente, dentro de tudo o que nos rodeia, se eu sou simplesmente uma utópica, uma exigente sei lá do quê ... uma tonta, afinal ... se na verdade eu devia agradecer também sei lá a quem, tudo o que tenho demais ( e se calhar devia ... ) !!!
Mas ninguém está aqui "dentro", e portanto ninguém sente.
Os médicos iriam reduzir tudo aos chavões habituais, de ansiedade, angústia, desvios de personalidade, desequilíbrios, tendências compulsivamente depressivas ... e patati e patata ...
Tudo espremido, as pessoas comuns simplificariam, e diriam . " Que ganda pancada ! " ... " Esta não é certa ... não tem os parafusos todos no sítio ..." e etc, etc.
Já p'ra não dizerem "doente" ... porque as pessoas reduzem tudo a doenças . Doenças do corpo, doenças da alma, doenças ...
E os médicos curam tudo com químicos ... ou melhor, não curam, " mascaram " ... Os médicos são mestres na grande arte de " mascarar " tudo.
As dores ( as outras ), mascaram-se com analgésicos, as alergias com anti-histamínicos, a falta de sono, com soníferos, as depressões com anti-depressivos e ansiolíticos ... em última análise, a loucura, com manicómios !!
Mas eu é que sei ( não sabendo ), o que sinto !
Este estar sem estar em lado nenhum, esta tristeza e infelicidade de coisa incompleta, de árvore a que arrancaram uma pernada, de arco-íris a que roubaram uma das sete cores, de dia de Verão a que apagaram o sol, de pássaro amputado nas asas ... de coração todo partidinho em picadora de alta rotação !!!
Porra ... desculpem ... devia pôr o "ozinho" no canto, mas não ponho ... sei lá ... quero lá saber ... Hoje estou assim !!!
As contenções dentro de mim acabaram ; o parecer bem ou mal, adequado ou não, não me molesta ; o parecer sem ser, não me faz sentido mais ; o ter que "encarneirar" no rebanho, violenta-me.
Não me enquadro, parece que cada vez me enquadro menos nos contextos sociais, de costumes, dos "politicamente correcto ", do " não tens idade para ... ", " não se te apropria ... " !
Estou cansada !...
Fui espartilhada antes, durante e depois ??!!
Será que tive que atravessar gerações e épocas em que fui forjada para obedecer a padrões, figurinos e esquemas ? Em que tinha que caber em " molduras " instituídas ??!!...
E tenho que continuar nos mesmos moldes e medidas ??
E sempre tenho " sombras " que me " medem ", me " emparedam ", me " espartilham "??
Estou cansada !!...
Nada encaixa na minha vida !
Parece um tecido esfarrapado, sem conserto, parece uma renda esburacada, parece um puzzle vandalizado, parece um alfabeto em que anarquizaram a ordem das letras !!!
Logo eu, que sou aquele animal em que colocam a cabeçada e a sacode, o arnês e lhe foge, lhe dão o medicamento e o cospe !...
Logo eu, que vivo em permanente dialéctica com a vida, em permanente conflito e dúvida com as realidades, em permanente discussão comigo própria, em permanente desajuste com o espaço, o tempo e o Mundo !!...
Precisava escrever, precisava e preciso ...
Fui escrevendo sem escrever ... Fui apenas largando pensamentos, frases, sentires a esmo, ao correr desta cabeça que parou de pensar, e deixou apenas a mão e a caneta a caminharem ...
Precisava ter aberto, aliás, escancarado as comportas aqui de dentro, para ver se respirava melhor ; precisava ser desconstruída e construída de novo ... mas isso já não vai acontecer nesta vida, seguramente ... talvez na próxima reincarnação !!!...
Anamar
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