quarta-feira, 30 de março de 2011

A VIDA QUE "NUNCA" TEMOS !....


Hoje este post é e não é meu!

É meu porque o seu conteúdo foi por mim totalmente "adoptado" e subscrito.
Não é meu, porque não fui eu que o escrevi...

Por razões óbvias, não me foi possível solicitar à sua autora, autorização para colocar o seu magistral conteúdo no meu humilde espaço; mas porque o acho extremamente bem escrito, de uma lucidez, realismo, objectividade, clarividência a toda a prova...achei que tinha, de alguma forma, "obrigação" de partilhá-lo convosco!

Tenho a certeza que ela não objectaria à sua colocação...

As boas sementes dão boas flores e bons frutos ; nesta vida, há que reflectir mais e mais todos os dias...sempre!

À Dra. Carla Machado, onde estiver...os meus agradecimentos, de coração...os nossos agradecimentos, de coração! Bem-haja!


“A Vida Normal”, Carla Machado in PUBLICO, 24.08.2006

Doutorada em Psicologia pela Universidade do Minho


“Todos passamos a vida a desejar a vida que não temos.
Queixamo-nos do emprego, dos colegas que são chatos, do chefe que não nos dá valor, do muito que trabalhamos e do ordenado que é fraco.

Reclamamos do tempo, que chove e não se pode ir à praia, que não chove e faz mal à agricultura, do sol que é pouco ou demasiado, do suor, do frio e do vento, do calor que nunca mais se vai embora e do Verão que nunca mais chega.

A família cansa-nos, mas odiamos quando esta nos ignora; dizemos mal dos amigos sem os quais não sabemos passar; suspiramos pelo fim do serão em que as visitas se vão embora, mas despedimo-nos combinando um novo jantar. Estamos fartos dos filhos, mas passamos o tempo a falar deles e a mostrar as suas fotografias aos amigos. O barulho que fazem enlouquece-nos, mas o silêncio da sua ausência é insuportável. Queixamo-nos do marido ou da mulher, que não são como dantes, que nos irritam, que não nos surpreendem, mas suspiramos quando nos faltam e reclamamos quando fazem alguma coisa com a qual não contávamos.

Estamos no Algarve a suspirar pela frescura do Minho, no Minho damos por nós desejosos da brisa costeira; na cidade irrita-nos o artificialismo e em Trás-os-Montes formigamos com a ânsia de fugir à ruralidade.

E do país, todos nos queixamos até ao momento em que “lá fora” concluímos com um orgulho disfarçado que realmente “comer, comer bem, só mesmo em Portugal”.
De queixume em queixume, passamos pela vida muitas vezes sem deixar verdadeiramente que a vida nos atravesse. E só quando somos roubados ao quotidiano que tanto maldissemos, damos conta do tempo que perdemos, nos lamentos sobre o tempo que os outros nos fazem perder.

Há pouco mais de um mês, numa consulta que era suposto ser de rotina, foi-me diagnosticado um tumor. Felizmente benigno, como soube após 24 horas de espera.
E, tal como seria de prever, naquele momento inicial em que o espectro de algo mais grave ainda não tinha sido afastado, o meu pensamento imediato foi: “Mas afinal porque é que eu estou aqui, afundada em Braga a trabalhar, em vez de ter já há muito tempo fugido para Bora-Bora?”
Passado contudo tal instante, e nas 23 horas que se seguiram, foi da vida normal que tive saudades antecipadas.

A vida normal: trabalhar, ir ao cinema, abraçar quem amo, rir-me das pequenas parvoíces do quotidiano, ver a minha filha a dormir e sentir o seu cheiro.
A vida normal está aqui mesmo ao lado. E aposto que Bora-Bora tem imensos mosquitos.”



O texto do jornal Público que envio em anexo foi escrito em Agosto de 2006 pela Prof. Dra. Carla Machado, colega da Escola de Psicologia da Universidade do Minho. 

Com o decorrer do tempo o tumor que ela refere no texto, veio infelizmente a revelar-se maligno e, após uma luta de quase 5 anos, a Prof. Carla faleceu anteontem (Fevereiro 2011) tendo sido hoje a cerimónia fúnebre.

Sendo ela, sem dúvida alguma, desde há alguns anos, a referência na área, tenho um orgulho enorme em ter sido seu orientando aquando do meu mestrado, tendo sido ela a incutir-me o
gosto e a motivar-me a seguir em termos de investigação e intervenção, a área da psicologia da justiça.

Hoje recordaram-me esta sua crónica. 

Permitam-me que como homenagem, difunda mais uma vez este seu texto. Sem queixume, sermos exigentes connosco e com os outros e sermos sempre competentes e cada vez melhores. 
Ela era assim.

Ricardo Barroso


Anamar 



"O TERCEIRO DEGRAU"


Das minhas "pestes", o único que ainda não teve direito a lugar "de honra" neste meu abordar de pingos de amor, foi o Frederico.
O Frederico, que a brincar a brincar está quase com quatro anos... o Frederico que é o mais traquina, o mais descarado, o mais simpático e o mais carinhoso dos três...
Ele dá abracinhos, ele distribui beijinhos, ele encosta a cabecinha, ele derrete todo, qual um "mon chéri" em época de calor...
Ainda não se percebe claramente o que ele diz, é um pouco trapalhão mesmo, mas tem "tiradas" absolutamente espantosas!

No domingo passado, a minha tarde foi com o Frederico, ocupados que estavam os irmãos em tarefas escolares já a sério, havia que retirar de casa o "Quico" ( como se auto-denomina ), pois ligado permanentemente a "Duracell", não pára nem dá descanso a ninguém!

Fomos, eu, a minha mãe, a madrinha que é a minha filha mais nova e ele próprio, até Belas, ao golfe.
Aproveitei e levei-lhe dois livrinhos do antigamente, da mãe ou da tia (já não lembro), com as letras.
Devo dizer que o Quico conhece claramente, sem ninguém lhe ter ensinado, as maiúsculas todas e os números até dez.
Juntei portanto as gerações extremas, a minha mãe com noventa e o Quico com três...

Esteve impecável, sempre ao colo da sua "Bi" ( a forma carinhosa com que os três tratam a bisavó ), o que a deixou obviamente desvanecida.
Para ela, foi um recuar ao tempo das netas, às histórias que lhes contava e mais as que inventou na hora (porque a minha mãe sempre teve o poder que eu considero absolutamente "milagroso" e invejável, de entreter crianças!
Infelizmente não lhe herdei o dom...)
O Frederico olhava-a seriamente, com os seus dois livros sempre debaixo do braço, a "beber" as suas palavras.
Faziam-lhe um pouco "de espécie" as rugas da cara da minha mãe, bem pregueadinha, e apalpava-as como se de algo estranho se tratasse. Perguntou-lhe pelo Gaspar (ainda se lembrava...), distribuiu-lhe abracinhos, mimoseou-a com beijinhos...

Come imenso, de tudo, sem esquisitices, porque "quer ser grande". O Quico é pequenito e parece uma vassourinha com a bata do colégio vestida...
É uma criança feliz com o Mundo, vê-se no seu rostinho extrovertido, iluminado por um sorriso permanente...
Que Aquele não lhe seja muito "carrasco", é o que quereria para ele, e que ele saiba manter pela vida fora, a ternura, o carinho a simpatia e a doçura que ora distribui...

Eu sou altamente suspeita, óbvio, mas a minha "escadinha", da qual o Quico é o seu terceiro degrau, é absolutamente FABULOSA!!!...

Anamar

domingo, 27 de março de 2011

"CONTROLE A SUA DECEPÇÃO COM O MEU POST!"


Olá
O post que eu escrevera para hoje não era este.
Um dia conto-vos por que o não coloquei "no ar".
Hoje escolhi meia dúzia de "patacoadas", como diria o meu pai, para talvez se rirem um pouco.

Dei por mim um destes dias a vociferar: "Oh meu Deus, oh meu Deus, oh meu Deus! Logo eu!..."
Eu que saí da primária sem dar um só erro de ortografia, eu que sou do tempo em que havia os erros e os quartos de erro (pela pontuação e acentuação), em que, logicamente quatro quartos já somavam um erro :)....e em que a partir dos três, era certinho e direitinho que adquiríamos "direito" a orelhas de burro ou reguadas!...

A minha professora da primária, em colégio particular que frequentei ( mais tarde minha madrinha do Crisma na Igreja do Carmo em Évora ), exigente que só ela, era a figura típica da perceptora inglesa do nosso imaginário.
Magra, alta, bem solene, com o cabelo apanhado atrás em carrapito, não era de risos, nem de contemporizações...
Solteirona, já com sessenta na altura, penso, era uma figura austera, e até o carrapito que poderia conferir-lhe alguma bonomia, o não fazia, porque era um carrapito "fino", estão a ver? E não aqueles carrapitos "bimbos" do interior do nosso país.

Então, reflectia eu, como hoje em dia se me colocam questões de escrita e de acertos da mesma??!!...
É muito frequente ir ao dicionário, à Wikipédia, à correcção automática do computador...é muito frequente escrever a palavra das maneiras possíveis, olhá-la da esquerda, olhá-la da direita, de cima, de baixo, a ver o que ela me "diz"...
É muito vulgar, como a minha professora me ensinou, ir à etimologia da palavra, à sua raíz, e verificar nos derivados, a manutenção de certas consoantes, coisa que a gente de hoje nem sabe o que é...

E mesmo assim, os g e os j, os z e os s, a "precariedade" ou a "precaridade" (já vi escrito das duas formas...), fazem-me "cócegas" na cabeça...
E já não falo de acordos ortográficos e quejandos.
A esses, acho que sempre serei resistente, passando então, a legitimar mesmo os meus próprios erros...

Eu acho que isto é, como a minha mãe diz, sinal dos tempos..."a vida tudo nos dá e tudo nos leva"...
Até esta minha qualidade de absoluta correcção na escrita, começa a claudicar...BOLAS!!!

Mas depois, desculpem lá, também nos baralham as ideias : "prol" e "prole"...basta que pense um pouco e sei lindamente a diferença, quando devo empregar um, ou o outro vocábulo...
A minha "reclamação" prende-se com o facto de ver nas portas das farmácias, aquelas caixinhas de "emergência médica" anunciando os "CONTROL", quando cá para mim, a lógica seria anunciarem os "CONTROLE", já que com eles, os mais desprevenidos e menos avisados, pretendem controlar alguma "surpresa" que os possa apanhar na curva!!....eheheh

E pronto, desculpem estes "faits divers"; afinal hoje é um domingo primaveril, meio "xumbrega", com muito pouca coisa para contar...

Anamar

sábado, 26 de março de 2011

"IRREMEDIÁVEL PAIXÃO"


O Alentejo estava a dormir espreguiçado na planície...
Nem percebeu que eu passava.

Ainda só tinham acordado, as giestas, as estevas e as bolinhas de ouro das mimosas, à beira da estrada; essas, há muito haviam tirado as ramelas dos olhos e encaravam um sol fraco e envergonhado, por detrás das nuvens.
Eu pedira céu azul e limpo...não se pode ter tudo!...

Também nos prados, ora bem verdes, fazendo jus às chuvas impiedosas deste Inverno que não nos deixa saudades, os novelos brancos das ovelhas em rebanhos, pareciam floquinhos de neve acabados de cair.
Alguns cavalos garbosos, provocadores e ociosos, exibiam as crinas de liberdade.
os campos verdes até onde os olhos se perdiam, "sangravam" de onde em onde pelo vermelho profuso das papoilas...
Vêem-se já poucas papoilas por aí, mas aqui, na minha Terra, ainda há verdadeiros redutos vermelhos.

E depois há os sinais tristes destes tempos: os montes degradados e abandonados na planície, mostram a desertificação, a solidão, o sinal de que o Alentejo começa a não ser "casa", senão para os velhos que ficaram.
Exibem janelas e portas esventradas, mato a crescer à volta, mas chaminés hercúleas, ainda desafiadoras dos céus...

Os pássaros, esses, mesmo tendo asas, não abandonaram o Alentejo.
Desde as andorinhas, em voos rasantes bem junto ao solo, rodopiando, as rapinas em espreita de caça, planando, as garças boieiras depenicando no gado, às cegonhas, altaneiras inquilinas sobretudo de postes de alta tensão...esses continuam fielmente presos à paisagem, fielmente presos aos espaços que não têm limites, porque liberdade combina com pássaro e pássaro sempre representa liberdade...

Évora recepciona-me pela enésima vez, pela vida toda, sempre "quente", sempre igual e sempre diferente. Sempre é berço de repouso...isso eu sei-o, ainda antes de franquear as muralhas.
As cores são aquelas, o silêncio é aquele, a paz é aquela...
O rosto é o meu, de menina-mulher, que lá me fiz...os sonhos, também;
Évora sempre floresce cada ano, das minhas raízes que ficaram fundo no solo. Mais tarde plantei-lhe outras raízes...essas também lá estão, mas as únicas flores que conseguem parir, são as de glicínia roxa, lágrimas roxas pendentes e cheirosas...


Calcorreei tudo, tudo que preciso ver, porque Évora também me fornece o oxigénio para respirar melhor, para viver melhor...
Fui pela milésima vez aos "meus sítios", numa romagem de saudade, numa doce lembrança, num deixar-me recuar e ir, e ir e ir, até onde os sonhos me foram levando, numa masturbação de alma e coração que não termina nunca.

Já lá não está a "minha chaminé das cegonhas"...o tempo destruiu-a, como nos faz a nós...e com ela, foram também as cegonhas...
Mas isso que importa, se eu também não estou mais àquela janela em frente, a ver-lhes cada movimento, cada voo majestoso, todas as Primaveras?!...
Se eu não sou mais menina, se o meu pai já não existe mais, se aquela casa está sepulcralmente fechada e degradada?!...
Nem já existem as árvores de flores, intensas no cheiro e nos mosquitos, que me entravam pelas sacadas adentro!!...
Também aí o meu espaço ficou perdido na curva lá atrás!

A Universidade, o "meu liceu" de então, imponente, sólida, grandiosa, essa, arrosta com os tempos, as tempestades, os acontecimentos.
Vasculhei tudo;
A "Sala dos Actos" aberta, mostrava uma outra vez, a beleza da azulejaria antiga portuguesa, a cátedra do reitor e outros representantes académicos, ao tempo...e lá estava eu, tímida, muito tímida, sem saber por onde ia, mal ouvindo o meu nome a ser chamado, no meio de palmas, para receber alguns prémios de então, com a minha mãe na assistência a escorrer lágrimas de orgulho!!!...

Também lá estava a sala onde fiz o meu exame de admissão ao liceu, no fim da quarta classe, lembram-se? com as tranças no cabelo da criança que era...
A fonte em pedra, à roda da qual, que nem uma perdida, me esfalfava a brincar "ao agarra", com a Mané...
O sino que assinalava o começo e o fim das aulas, ainda ecoa naqueles claustros, embora talvez o seja apenas no meu coração...e eu estou a baralhar tudo!!...
Um pátio interior, na altura anexo ao Laboratório de Química...e agora, ao que parece, já nem Química lá há!
E o bar dos chupas-chupas de frutas, a vinte e cinco tostões, também já mudou de sítio, e os chupas também já não existem certamente mais!...
Os alunos universitários não comem chupas, óbvio!!...

A Praça do Giraldo, o Café Arcada...
Que envolvente e gratificante é, estar ali sentada ao sol, a fumar um cigarro, frente a uma chávena já vazia, só a ver o tempo a correr lento, como o tempo corre no Alentejo...rumo à eternidade!!

O meu périplo terminou, como não poderia deixar de ser, no jardim de D.Manuel.

Como quem visita um túmulo, um local de interioridade e intimismo, estive junto ao busto de Florbela Espanca, colocado nesse jardim.

Fui "visitar" a mulher da "Charneca em Flor", essa mulher inteira, que para mim é um talismã, um mito incontornável, um ícone, porque fala a minha e também a linguagem do Alentejo, porque traduz o meu e o sentir do Alentejo, porque, como sobejamente já aqui disse, interpreta fielmente, em simultâneo, a fragilidade e a força titânica de uma alma feminina!...

Fui, como que agradecer-lhe o ter existido, o ter sido como foi, o ter tido a coragem, a determinação e a frontalidade, apanágios da sua vida...o ter sido, afinal, uma mulher daquela Terra!!...

Anamar

quarta-feira, 23 de março de 2011

"ERAM OUTROS TEMPOS !..."

Hoje resolvi começar a reler os meus escritos.
Não sei se vos disse, mas tenho imprimido todos os textos do meu cantinho, desde o início, e com eles formado livros, em suporte de papel, óbvio.
Eu sou muito à antiga em certas coisas e confio, mas confio muito, nos livrinhos na estante, propiciando uma maior facilidade de leitura.
Além de que eles serão o meu espólio mais precioso (não pelo conteúdo que é irrelevante, mas pela autenticidade, transparência, pelo desnudar sem censura ou pré-intenção, daquilo que realmente sou, da pessoa que eu vou sendo e que um dia terei sido), a deixar aos meus netos.

Não sei se algum deles terá a pachorra de os ler, quem sabe em adultos, quando eu já for uma imagem pálida nas suas cabeças, se algum, dizia, terá a curiosidade de saber quem era e como era aquela avó (ainda por cima demasiado ausente nas suas vidas, como já tenho confessado).

Comecei a relê-los (já vou em sete volumes), por saudosismo, para auto-análise, até para tentar perceber a minha evolução ou involução ao longo destes anos.

Que o meu discurso tem sempre uma tónica muito próxima, isso eu sei.
Que se pauta por uma dolência e cores escurecidas...também!
Que, se calhar desmotiva a leitura por se revelar verdadeiramente chato...é possível!
Não é isso que me preocupa primordialmente.

Ao aceitar "assomar" quase diariamente a este varandim, sem décor, maquilhagem ou fantasia, aceitei um risco inerente...talvez o afastamento dos leitores.
Apenas, este meu "debruçar" da varanda, é o "meu" debruçar, e tem que ser livre, verdadeiro, autêntico, sem condicionalismos ou pressões de "parecer bem".
Por isso continuo e continuarei, de uma forma independente a vir aqui, enquanto tiver fôlego, necessidade, gosto por fazê-lo, tendo ou não "audiências", gostando ou não quem me lê...

Comecei como é lógico, pelo primeiro volume, onde encetava os primeiros passos nestas andanças, onde em cada post quase sempre havia um "feed-back" sobre o mesmo.
Na altura havia alguém que me lia e hoje não me lê mais, seguramente.
Alguém que a vida se encarregou de afastar de mim, alguém que a estrada levou para outros horizontes, de uma forma injusta e magoada...

Reflectia eu há tempos, por aqui, como a nossa existência cruza e descruza com outras; como o tempo, carcereiro implacável, mais afasta do que aproxima quem já se quis muito bem, mercê de tantos acontecimentos, mercê de sofrimento, dificuldade, dor.
Como ele molda sem dó nem piedade os corações, como ele semeia injustamente mágoas inultrapassáveis, como ele fustiga os sentimentos...

A "perda da inocência" que foi mote de um dos meus primeiros posts, acaba mesmo por instalar-se; o cair do pano no palco do nosso dia a dia, acaba por deixar inevitavelmente, os figurantes em cena, já sem espectadores na sala, sós consigo próprios!

Esse alguém, que certamente hoje também já a perdeu infelizmente, exortava-me então, a continuar a acreditar, a acreditar em mim, acreditar num futuro, acreditar num presente, porque, segundo ele, o acreditar está no melhor sítio do ser humano: na sua cabeça!

Pois meu amigo (era assim que me tratava na altura), mesmo não me lendo...no sopro do vento, na nuvem que passa, no sussurro de uma borboleta, ou até nas asas da "minha gaivota", que seja eu a poder dizer-lhe agora, que lembre o que me disse na altura, e que continue com a tenacidade, a determinação que tem tido na vida, a coragem, a fé e ainda a esperança com que, apesar dos pesares enfrenta as "rasteiras" que a mesma injustamente lhe preparou, encarando cada dia que se inicia na sua vida, e que mantenha guardados intocáveis dentro de si, na sua cabeça, os valores de persuasão com que há anos atrás me procurava animar, em dias de céu cinzento...

Eram outros tempos!!!...

Anamar

terça-feira, 22 de março de 2011

"A NU ... "

Mais uma noite mal dormida.
Não sei se das dores na lombar ( terrível, hoje ), se da subida de temperatura que se fez bruscamente sentir, se da Primavera que começou...Sei lá!
Como tal, um intervalo a meio do "jogo", que é como quem diz, nada como duas horinhas para pensar, repensar e nada concluir, ou pelo menos nada aproveitável.

Um dos flashes que me passaram pela cabeça, prendeu-se com o meu post "NÃO VOU POR AÍ!"...
Entretanto meteram-se-me os "SONHOS" de permeio e esta noite...os pesadelos!!! rsrsrs

Há dois posts atrás falava-vos então de Nelson Mandela, da sua personalidade, do homem, do cidadão e do político; falava-vos das qualidades a ele inerentes, natas ou trabalhadas, não interessa, invulgares no ser humano, mais ainda se submetido injustamente ao inferno, vilipendiado, por discriminação gratuita de cor e raça, que lhe sonegou da vida, já por si sempre curta, trinta anos...
Esses, ninguém poderá restituir-lhos, desses, ninguém poderá ressarci-lo, nem das consequências que os mesmos tiveram a todos os níveis, desde a desestruturação familiar, à complexidade de sentimentos, dores, sofrimentos e doenças, que o terão assaltado em cativeiro.
Pois ainda assim, como vos dizia e não me vou repetir, há uma qualidade entre todas, que considero inestimável em Mandela e que me causa uma inveja imensa, no bom sentido, claro: a sua perseverança e determinação no atingir dos seus objectivos, no perseguir dos seus ideais, no poder do seu acreditar.
Disso também são "fabricados" os grandes Homens!

Terminei o post dizendo que de alguma forma me revejo nessa "independência" descomprometida da individualidade em apreço, no não seguidismo, a qualquer preço, do instituído, se nele não acreditamos, no anti convencionalismo e subserviência que baixa a cabeça e rasteja a poderes, se conveniente...
Mandela nunca teve preço, isso é reconhecível!!

De alguma forma eu também exibo o meu "nariz empinado" para com a vida, bato o meu pé àquilo que não "assumo", aceito situações de marginalidade se acreditar nelas...nem sempre ando na corrente, nem sempre faço parte do "rebanho"...

Mas reconheço em mim uma imperfeição tremenda, a propósito.
A minha determinação carece de verdadeira aposta, a minha perseverança é pálida, a minha vontade periclitante.
É uma falha personalística imensamente grave, eu acho.
É ela que me leva a nunca concretizar na minha vida, de um modo geral, as apostas em que me envolvo, as iniciativas que tomo, os projectos que se pintam de ouro no início, e se desvanecem como nuvens no firmamento.
E sofro imenso com isso, porque me penalizo e se calhar não deveria, porque também sei que não conseguirei alterar o "stato quo", na medida em que, sendo algo intrínseco, dificilmente é mutável nesta altura do "campeonato".
Provavelmente sou demasiado radical e severa comigo mesma, o que aumenta o meu grau de insatisfação e infelicidade, sendo que, já bastaria a auto-análise e a "mea culpa" que faço todos os dias...
Costuma dizer-se que "o que não tem remédio, remediado está", será um pouco isso no meu caso, embora eu continue "estrebuchando" comigo mesma.
Só não sei o que fazer, como fazer!!!

Noutro dia, falando com a minha filha mais nova, que é exactamente o oposto de mim nesta vertente ( ela experimenta tudo, adere às mais variadas iniciativas, divide-se, desdobra-se, alonga os dias para lá do razoável, e por isso não se entedia, conhece montes de pessoas, as mais diversas...e ainda por cima acha tudo o máximo...), dizia-me ela: "Eu tenho que voltar cá em mais não sei quantas vidas...O que eu tenho para fazer...sério, mãe, o tempo de que disponho para viver, não vai dar nem p'ra metade!!!" - e dizia-me isto com um entusiasmo convicto!
Se calhar o entusiasmo dos 33 anos, com uma experiência de vida e um olhar sobre o mundo, que talvez eu ainda hoje não tenha...

Há tempos atrás, na altura em que a minha vida profissional virou, também me dizia a mais velha: "Já viste, agora vais poder fazer tantas coisas giras que até agora não tinhas tempo p'ra fazer!..."

E eu pergunto-me: "Que raio de avantesma sou eu??!!... Onde estão as coisas giras?? E se as há e haverá por certo, por que não as acho, por que não me mexo para as achar, ou por que quando as encontro, a sua "aura" é fugidia e eclipsa-se rápido??!!"...

Às vezes, obsessivamente, esgravato até alcançar qualquer desiderato que me assalta, de uma forma compulsiva, que me tira frequentemente o sono, me traz o coração à boca, leveza à alma, sorriso aos lábios...parecendo que, aquilo sim, é uma saída para mim...
Foi assim com a construção das casas, com a decoração das mesmas, já foi assim com uma peça de roupa, um bibelot ou um móvel que me espreitava numa vitrina.
Uma vez atingido, uma vez alcançado ou possuído, é desvalorizado no imediato, torna-se efémero, e de novo insatisfatório.

Agora até lembrei aquelas imagens de alguns predadores que caçam pelo gozo de caçar, brincam com a presa, largam, pegam, judiam com a pobre, antes do golpe de misericórdia...
Depois...perdeu o interesse..."game is over"
É maquiavelismo??!!... Não sei! "É masoquismo??!!... Também não!
Sou obsessiva-compulsiva??!!...Vá-se lá saber! Também, não gosto de rotular nada nem ninguém!!

Meu Deus...onde isto já vai!...
Daqui a pouco estou a auto-internar-me numa clínica de doidos!

Comecei na insónia nocturna...as conversas vão e vão e vão...
Desculpem, isto foi somente pensar alto, sem lápis azul, sem sequer auto-censura...a nu, perante vocês!...

Anamar

segunda-feira, 21 de março de 2011

"SONHOS"


Esta noite tive um sonho.
Daqueles raros sonhos que chegam até de manhã, até que abramos os olhos...daqueles raros sonhos que deixam que os lembremos mesmo quando já acordados.

Sonhei com o meu Alentejo e se calhar, não era mais que um recado para que o visite.
Sonhei-me menina, ainda em Évora, criança muito só que era, em passeio de fim de tarde, no pino do Verão, como tantos que fiz, em direcção ao Bairro de Almeirim, limítrofe da cidade, e então separado desta por uma estrada quase sem trânsito, quase sem perigo, com os campos a ladeá-la.

Lembro com toda a clareza que no pino do Verão, os campos eram de ouro, eram de sangue, eram de macelas e campainhas roxas.
As estevas e as giestas engrinaldavam-nos, de sol os pintavam; os rosmaninhos e os alecrins de aromas os perfumavam...

Lembro de me sentar, já então, debaixo de um sobreiro, de uma azinheira, e me perder, por ali perdida, apenas escutando o resfolegar do vento naquele mar de espigas ondeantes, deixando os olhos irem mais e mais além, porque o Alentejo não tem horizontes, deixando os ouvidos impregnarem-se da melopeia das cigarras, dos grilos, dos trinados dos tentilhões, das andorinhas, abelharucos, cucos ou rolas...ou vendo os voos em preguiça das cegonhas planando na brisa, na ida para os ninhos...

Havia, houve sempre um silêncio "audível" que me agradava, que não se sente em mais nenhum sítio deste Mundo de Deus, que me fazia bem, que me aquietava, me preenchia, me "iluminava" por dentro.

Havia, houve sempre cheiros adocicados, cheiros à terra, terra-mãe, terra-alma, terra-coração...

E eu ficava por ali, horas esquecidas, porque nesse tempo não havia tempo, nem horas, nem preocupações, nem angústias...

Hoje começou a Primavera, ou melhor, começará logo às onze da noite, ouvi dizer...
Mas o dia é de Verão. O sol, o céu e sobretudo a temperatura, não são consentâneos com uma estação de transição.

Vim atrás do sol, ao Belas. Este espaço do golfe é absolutamente privilegiado.
O verde da relva à minha frente nas subidas e descidas das encostas, a construção denotando alta qualidade , o azul absolutamente límpido e uniforme do céu, e a brisa, só uma brisa que corre (hoje abençoada), emprestam a esta tarde um agradável bem estar e calma.

À vinda, no carro a música da FM lançou para o ar Bob Marley e com ele, Jamaica.
Jamaica foi a "maldade" desta tarde, em tudo ou em quase tudo, perfeita!
Jamaica foi 2006 e 2006 está muito, muito lá atrás...Jamaica nem sei mesmo se existiu, ou se faz tão somente parte do meu imaginário...
Jamaica não sei se não terá sido também um sonho, só que daqueles que se perdem na madrugada e não chegam até de manhã, até que abramos os olhos...para os contar!...

Isto hoje nem "aquece nem arrefece"...mas tinha que vos contar...porque afinal, esta noite tive um sonho!!...

Anamar

domingo, 20 de março de 2011

"NÃO VOU POR AÍ !...."


Ontem revi na TV um filme que já vira nos écrans de cinema, e que já na altura me empolgara. Pela mensagem que passa, pelos actores envolvidos, pelo realizador que o concebeu.
Os actores são nada menos que os míticos Morgan Freeman, indiscutivelmente um dos, senão o meu preferido na sétima arte, e Matt Demon, que para lá caminha...
O realizador, Clint Eastwood, que não carece de mais apresentações, como é óbvio.
Um "senhor" durante décadas como actor, agora e não menos importante (eu diria que mais), como realizador.

O filme voltou a empolgar-me tanto quanto, quando o vi num cinema da capital, apesar de ter sido num período mais favorável e feliz da minha vida;
Na altura dividi tudo com o que o filme me "encheu", com outros olhos, com outra opinião, com outro entusiasmo...
Ontem vi-o só, na minha cama, mas vibrei na mesma com ele.

Basicamente o seu enfoque é o período que respeita ao fim do Apartheid na África do Sul, das primeiras eleições livres, da subida de Nelson Mandela à presidência e a mensagem do mesmo, para lá da revelação da sua real personalidade, que foi como sabemos, durante trinta anos submetida às arbitrariedades do regime do poderio branco.

Mandela "manda-nos" espantosamente um "recado" que só os seres superiores conseguem alcançar: a capacidade que o ser humano deveria ter, de mesmo em situações limite e injustas, não guardar ressentimentos, não perder a capacidade do perdão para com os seus semelhantes, o dever da coerência na defesa de ideais, mesmo contra a adversidade, e ainda o poder da esperança, do acreditar, da perseverança mais e mais, que de facto move montanhas...

O filme é obviamente "INVICTUS"...

Afinal, tudo está magistralmente resumido neste poema escrito por Mandela no seu cárcere, o qual, segundo ele próprio, muito o terá ajudado nos momentos em que sossobrava.
Poderia e deveria ser um lema para qualquer um de nós, na generalidade seres mais imperfeitos e menos magnânimos...

"AGRADEÇO AOS DEUSES QUE POSSAM EXISTIR
A CIRCUNSTÂNCIA INDOMÁVEL DO MEU SER...
SOU SENHOR DA MINHA ALMA
CONDUTOR DO MEU DESTINO..."
Nelson Mandela


Revejo-me um pouco neste turbilhão de ser contra a maré, neste indomar de um coração, neste agarrar do destino e da alma pelos "cornos"...como timoneiros de barco em maré revolta...

Também eu nunca aceitei rédeas, reajo mal às cangas, caminho ao arrepio da generalidade desde que acredite nas minhas convicções, questiono posturas e convenções...

Se é bom ou mau, não sei.
Não será nenhum golpe de genealidade, seguramente...é tão simplesmente a minha forma incontornável de ser, o meu bater de pé para com a vida, uma espécie de dizer, como José Régio : "NÃO SEI POR ONDE VOU, NÂO SEI PARA ONDE VOU...SEI QUE NÃO VOU POR AÍ!!!"....

Anamar

sexta-feira, 18 de março de 2011

"AMOR - ÓDIO"


Os telemóveis são um inferno na vida das pessoas...
Basta que estejamos em qualquer sítio, os variados toques de chamada, desde as campainhas estridentes, a músicas da actualidade, aos clássicos melodiosos e outros, tudo sai da "cartola", tudo toca...

E a primeira coisa que se ouve é: "Onde tás?..."

Ora bem, controle mais apurado nunca vi, "marcação" mais em cima, também não!...
Normalmente apanham-nos nos sítios mais inoportunos: na fila do supermercado justo na hora de pagar, quando estamos à procura das chaves na mala, com as mãos cheias de sacos de compras quase a cair, quando estamos numa sessão qualquer em que deveriam estar desligados, e desgraçadamente logo nesse dia nos esquecemos de o fazer, o que nos deixa ruborizados ainda que estejamos às escuras...até mesmo quando, esperando uma comunicação de alguém e resolvemos dar um saltinho rápido à casa de banho, em desespero de causa...pois é nesse momento que é maior a probabilidade do famigerado tocar...e normalmente toca mesmo!...

Isto já não falando que devassamos sem querer devassar, as vidas das pessoas; as conversas são sempre feitas em decibéis acima do normal, e desde o "olá amor" aos berros irritados de mães com filhos, de maridos com mulheres, de verdadeiras lutas verbais titânicas entre pessoas...escutamos tudinho...E então quando são os velhotes coitados, com o ouvido curto...uma desgraceira!!!

O telemóvel "cobra-se", ou melhor, a ausência de comunicação através dele!
"Liguei-te ontem! Deves ter aí uma chamada não atendida!" - Como fingir que não demos por isso?
Ou: "É muito esquisito estares sem bateria! Não puseste a carregar de noite?"...
"Que raio...nem uma mensagenzinha a avisar...não me ligas nenhuma!..."
E quando anda uma suspeição no ar, em que procuramos desvairadamente ouvir "para lá" do telemóvel, ruídos de fundo do local onde estará o nosso interlocutor..."Hum...O gajo estava na estação, porque ouvi perfeitamente o comboio!..."
E fica no ar aquela coisa sem certezas, mas com fortes indícios!...

Depois o telemóvel é um constante desafio. Quando esperamos num consultório, quando vamos no comboio, quando estamos no café, ele está bem à nossa frente, não seja que não o oiçamos, e espreitamo-lo, gulosos, como a um bolo na vitrina.
O malvado "queima-nos" as mãos, não nos dá paz, damos-lhe voltinhas e voltinhas e é a altura de disparar mensagens, mesmo quando pouco há para dizer! Nessa altura não nos lembramos da conta ao fim do mês, que até dói!

Quando estamos "incomunicáveis", com "assuntos importantes" a tratar, sempre o desligamos, não vá o diabo tecê-las, porque com o simples facto de lhe pegarmos, parece que a nossa visibilidade transparece, ou então a nossa voz que procura ser natural, sempre faz a pessoa do outro lado disparar: "Estás sozinha? Podes falar?...Mesmo??".
Bolas, engolimos em seco: "Caraças, como é que se percebeu que eu devia era ter desligado esta porcaria??!!..."

Bom, o telemóvel ajuda em situações de aperto, normalmente os cretinos, os safados, os que não têm rosto.
Nada melhor que uma mensagem escrita para se dizer o que nunca houve coragem para ser dito olhos nos olhos, nem mesmo por chamada de viva voz.
"Desengomam-se" da situação, não tendo que ver a cara do outro lado, as lágrimas do outro lado, o dedo acusatório do outro lado, a confrontação que viria do outro lado, da sua própria mesquinhez, falta de carácter e consciência!

O teor da mensagem também diz tudo, já vai avisando.
Se nem o bendito "LOL" ou :) aparecem, se os beijinhos doces, carinhosos, grandes, quentes, húmidos, etc, etc, etc, ficaram no "tinteiro"...a "coisa está preta"!
O laconismo da mensagem torna-a formal, distante, fria, gélida mesmo...pode, apenas na sua simples leitura, ditar logo uma "sentença".

O telemóvel dá insónia às pessoas...Abençoado tempo em que as minhas filhas iam para as discotecas e que por falta de hipóteses de comunicação, aguardávamos a sua chegada confiantes que tudo estaria bem.
Com o "bendito" no bolso, se não há resposta do outro lado, logo o filme se desenrola nas nossas cabeças, nunca menos do que com feridos, mortos, etc...e claro que não dormimos mais...

E quando os perdemos ou no-los roubam?!
Aí, com eles, vai-se-nos a alma! Ficamos "nus" até ao tutano, lá se nos vai metade do "equipamento"...porque afinal, lá, estava TUDO...
É um vazio em grau superior, ao que já experimentamos se saímos de casa e por acaso lá esquecemos o "apêndice". Já aí nos sentimos mal, como se o oxigénio se tivesse reduzido a metade...e este "buraco" coexiste até que tenhamos regressado e o avistemos.
Também, se não o avistarmos, ficamos doidos, e aí andamos nós, feito baratas tontas, a telefonar de outro telefone, para localizar, às vezes nos sítios mais improváveis, o trim-trim de quem diz: "Estou aqui...vê lá se me vês!"
Poça, que alívio!!...

Inevitabilidade das novas tecnologias, o que é facto é que mantemos com ele uma relação de amor - ódio, que atravessa as nossas vidas, impõe-se no nosso quotidiano, impregna-se na nossa realidade, criando-nos obviamente uma dependência tal, que não poderemos mais viver sem ele!!!...

Anamar

segunda-feira, 14 de março de 2011

"ISTO É A VIDA..."


Cá estou eu "comigo mesma" como dizia o Julius, o "Coconut man" de Sta. Lucia...
Aliás, que melhor companhia para mim do que eu própria??!!...
Já perceberam que esta, era a nota humorística do dia!!

Pensando bem, até deveria ser, já que esta carcaça vai ter que conviver comigo até ao dia da minha morte, já caminha comigo há bastante tempo, portanto, a coexistência pacífica parece-me bem, e seria uma atitude inteligente...Como sabem, é raro consegui-la!!!

E dizia "cá estou eu", porque estou no "poiso" habitual do pequeno/grande almoço; 12,30h de mais uma semana que se iniciou, comigo relapsa em relação às minhas actividades. Fiquei a dormir, faltei ao Inglês, e como os putos até ensaiei já umas quantas frases sem erros de linguagem, para dizer à "teacher" na próxima aula, a explicar-lhe que não estou bem...estou "hill" e "so that" não pude comparecer à aula.
Bom, também é verdade que é verdade!!...
Realmente mal ponho os pés no chão, este "cão ferrado" na zona renal entra à luta comigo...
Vou fazer vários exames médicos, já estou a ser medicada, nem sei bem para o quê ( quatro tipos de medicamentos de cores variadas, que engulo religiosamente num ritual há muito adquirido, cujas bulas não li nem me apetece, o que deixa a minha filha mais velha louca; "Então para que é este?" E eu - "Sei lá!" "E este?" - "Sei lá!"... " Então tomas tudo e não sabes para quê??" E eu: " Exacto, quero lá saber! Isto é tudo para queimar!..." - como dizia ontem a um amigo, que não percebeu nada...
Resolvi esclarecê-lo : "Sabes, é que quando morrer, quero ser "cromada"...como diz a Bia; ele riu a bandeiras despregadas).
Bom, mas o incómodo, o mal-estar e a dor, ainda assim, não passaram...Não há-de ser nada..."Erva ruim, a geada não mata", como mais uma vez diz a minha mãe!

Em fundo passaram há pouco uma música de Eric Clapton ( sim, que este café de vez em quando fica muito fino, e até tem música ambiente...)
Essa música trouxe-me à memória uma vez mais, retalhos lá de trás, vivências de há alguns anos, rostos, momentos, sons, cores, cheiros, até a luminosidade dos dias...enfim, aquela parafrenália que me agita o recheio cerebral.

Convivo sempre mal, parece que cada vez pior, à medida que vou ficando "mais crescidinha", com a triste realidade da vida ser uma "usurpadora", à má fila, dos momentos que a gente gosta, das pessoas que nos preencheram, dos afectos que nos aqueceram.
Assim como às crianças; dá-se-lhes um chupa, deixamos que dêem umas lambidelas e depois pronto...era bom, mas acabou-se!

As pessoas circulam pelas nossas vidas, cruzam-se connosco, atravessam o nosso caminho, às vezes seguem durante um tempo paralelamente connosco, depois de repente, sem pisca nem nada, cortam-no, e até por isso provocam-nos acidentes mais ou menos graves, porque não cumpriram as regras; outras vezes viram uma esquina e somem, quando a gente vai ver, já não vê é nada, saem fora do nosso horizonte visual e nunca mais as reencontramos, porque as bifurcações são muitas; ou então procuramos "pontos de encontro", que sempre existem para os "perdidos", mas nunca aparecem, e a gente fica por ali, a ganhar mofo e limos da humidade dos tempos...
Também há os que circulam nas rotundas, que agora existem em todo o lado, e rodam e rodam e rodam, e não saem do mesmo sítio, até nos deixarem as cabeças "azamboadas" e os olhos "entruviscados"...Esses, são os que nunca se definem nos caminhos a tomar, por mais tempo que passe...
Pior que isso, é quando resolvem inverter o sentido de marcha nesta auto-estrada por onde vamos. Aí, é desastre na certa...com feridos graves, irrecuperáveis ou mesmo mortos... sequelas que nunca mais se resolvem...na melhor das hipóteses...

Eu acho que de quando em vez, devíamos fazer umas reciclagens de "como aprender a circular", só para refrescar as memórias dos esquecidos, ou para ensinar os que tal como eu, parecem ter tirado esta bendita "carta" na farinha Amparo e nunca, nunca aprendem como ser feliz neste emaranhado de vias...

Alguém anda a gozar descaradamente connosco, não tenho dúvidas; todos os dias ao acordarmos, nos coloca nesta montanha russa e diz-nos: "Agora desenrasca-te!... Desengoma-te e faz pouco estrilho!... Pensavas que não??...Isto, é a VIDA!!!...e sempre, sempre SHOW MUST GO ON!..."

Anamar

domingo, 13 de março de 2011

"O INFERNO ALI TÃO PERTO..."


Com "O INFERNO ALI TÃO PERTO..." quero solidarizar-me com o povo japonês e com todos os outros que sofreram e sofrem na alma e no coração, agora ou antes, a dor da perda, o destroçar dos sonhos, o desmoronar das vidas...

Tanto já se disse, tanto já se mostrou...as palavras e as imagens estão exaustivamente gastas.
Povo mártir de Hiroshima e Nagasáqui, voltou a testar as suas capacidades de aceitação, sobrevivência, fé e esperança, perante o inferno, de novo sobre si abatido!

"Requiem" -de MOZART pelo povo japonês neste 11 de Março de 2011



Anamar

sexta-feira, 11 de março de 2011

"SIMPLESMENTE UM GESTO"

Estava aqui no café, agora já do costume, o tal de que vos falei, depois do Escudeiro ter encerrado (aquele a que eu chamava e ainda chamo, "dos velhos"),
estava aqui, julgava eu, em trânsito para uma consulta médica, que agora me avisaram ser só às 12,30h.
São pouco mais de 9h da manhã de um dia outra vez mais do que de "fundiça"....chove de novo depois de uns dias animados, de sol e céu azul...Ainda ontem!
Também, ainda não é Primavera!...

Fiquei por aqui a queimar tempo. Voltar para a cama que ficou em casa a esperar-me, não era certamente "boa política".
A esta hora o café, muito mais deserto do que à minha hora habitual, é frequentado por três ou quatro pessoas, na generalidade de bastante idade, que normalmente gostam de se levantar bem cedo, e aqui vêm tomar o café e sobretudo ler o jornal.

Neste meu "deambular observador" sobre rostos, posturas e conversas, houve algo que me fez reflectir.
As mesas junto à parede, onde gosto de me sentar, estão logicamente em fila, em sequência. À minha frente eu tinha uma e atrás de mim outra.
A da frente estava vazia até ao momento em que a ela se dirigiu um senhor bastante idoso, com o seu sobretudo, cachecol, boné na cabeça e chapéu de chuva.
De jornal na mão aprestou-se a sentar-se, mas antes, e porque ficaria de costas para mim, não o fez sem me pedir licença para assumir aquela posição...

"Realmente - pensei - como os tempos mudaram!..."
"Onde é que hoje, alguém das gerações actuais está desperto para uma pequena regra cívica como esta??!!"

Quem é que dos jovens ou até das pessoas da faixa etária dos 30,40 mesmo, se lembra de pedir licença ou desculpa, por se sentar de costas voltadas, numa mesa de café?

Quem é que num transporte público jamais se levanta, para dar lugar a um idoso, às vezes a uma mãe com uma criança ao colo, às vezes a uma grávida até??
Poucas pessoas, muito poucas pessoas!!

Já não falo naquela "regra" quase obrigatória que eu recordo bem, de quando era miúda, de um cavalheiro abrir a porta a uma senhora, deixá-la passar primeiro, dar-lhe por exemplo o lugar no comboio, dar-lhe o lugar de frente para a sala, numa mesa de restaurante, lhe afastar a cadeira para que ela se sentasse ou dar a volta e abrir-lhe a porta do carro!!!...Já não falo!!

Vão todos cair-me em cima, rir a bandeiras despregadas, achar que desta é que me "passo" definitivamente da cabeça. Vão todos chamar-me de "machista", vão todos dizer (já os estou a ouvir) "Então as mulheres não queriam a igualdade, não queriam emancipar-se??...e patati e patata...Olha-me esta!!""...Vão todos chamar-me de incoerente, achando que me mostro frágil ou "princesa da ervilha".

No entanto eu também sei que esses que rapidamente argumentam e têm a defesa do sexo na ponta da língua, são aqueles que ao chegarem a casa, se "abolastram" no sofá a ler o jornal ou a ver futebol na televisão, enquanto as respectivas, chegadas também há pouco do emprego, se esfalfam na cozinha com a janta, de olho no banho das crianças e nos trabalhos de casa destas...

Eu penso que nada disto deveria constituir "guerra de sexos". Afinal, um gesto de educação nunca ficou mal a um idoso, a uma pessoa de meia idade, a um jovem, indistintamente do sexo, devendo as crianças ser educadas nesses princípios e valores.
Regras de civismo e de coabitação social, nunca serão "demodées" ao longo dos tempos, das gerações, nem minimizam ninguém!
Antes, são sinal de formação e de evolução de um povo e de uma sociedade.
Não são propriamente direitos nem deveres, obrigações ou cedências, são normas que, ou nos foram inculcadas pelos nossos ascendentes, pelas escolas que frequentámos, pelos exemplos que "bebemos", e nada nos custa que façam naturalmente parte das nossas vidas, ou não foram, e se calhar não só não as usamos, como as achamos ridículas, excessivas ou desadequadas...e é pena!!!

Anamar

quarta-feira, 9 de março de 2011

"DISTO SIM.....EU GOSTO!!!!"

SEM DEMAIS COMENTÁRIOS!!!!.....VAMOS SAMBAR!!!!




Anamar

segunda-feira, 7 de março de 2011

"ABENÇOADOS CHINESES!!..."


Isto tem andado muito parado. A inspiração falha, a vontade pouca, também não muito bem de saúde...

O que é facto é que...Carnaval outra vez, o primeiro trimestre do ano a ir-se...Perfeitamente incrível!

Não quero repetir-me, pois todos os anos reitero este estado de espírito: se há festividade que mais deteste, no ano, é de facto o Carnaval.
As festas "de calendário" irritam-me, mas esta que exige um riso desbragado no rosto com uma felicidade "colada" com super cola 3, que exige um despudor revelador de disponibilidade de alma, o que não tem forçosamente que acontecer, que exige palermada que chegue...é esta, em que no meio de um atordoamento colectivo, se procura esquecer as "cinzas" que despencam na próxima quarta feira, quando as "chuteiras" se tiverem arrumado até ao ano que vem...

As crianças ainda vá lá...algumas querem, porque querem, outras, as mães normalmente impingem-lhes os fatos disto e daquilo. A maior parte que se vê pela rua, com o tempo atmosférico que está, andam perfeitamente "entrouxados", e dá-se um doce a quem conseguir decifrar, na generalidade, de que estão fantasiados.
Onde é que já se viu uma linda "fada" com um kispo por cima???!!!

Até nisso os tempos mudaram de cento e oitenta graus. Nas décadas recuadas, os fatitos eram de espanhola, de fada, de saloia...e disse!
Hoje, graças à invasão dos nossos "amigos" chineses, por ruas, praças e esquinas, há fatos e acessórios mirabolantes, para todos os gostos, cores e preços.
Claro que são quase descartáveis, claro que não valem grande coisa, mas resolvem na perfeição a exigência mesmo dos mais "criativos", num piscar de olhos.

Dizia-me há dias a minha filha, que tem lá em casa aqueles três "galfarros" para vestir, coisa que eles não dispensam (eu acho que é mais coisa da mãe, com preocupações muito conservadoras em termos de costumes e tradições, do que deles próprios...Ela que se vestiu quase sempre de espanhola, coitada...Outros tempos!!...)
Dizia-me ela, dizia eu...
"Fui à loja dos chineses e em 10 minutos comprei tudo!"

Tem que se perceber que o tudo, são as fatiotas daqueles seres ignóbeis que as séries televisivas impingem às criancinhas, cujos nomes, graças a Deus não conheço...
"Cheguei lá e disse: Quero uma fita roxa para o cabelo" - aqui está!
"Quero umas perneiras cor de rosa" - aqui está!
"Quero um fato de cozinheiro" - aqui está!
"Quero uma colher de pau" - aqui está!...
Tudo, cinco euros e meio e quinze minutos de um dia de trabalho apenas.

Abençoados chineses! Que seria de nós sem eles??!!...

Eu por mim, dou o valor. Andei quase duas semanas para pôr uma bracelete no relógio da minha mãe, que se danificara e de que ela reclamava diariamente.
Só que o relógio não merecia bracelete de ourivesaria, e eu esperava, esperava pacientemente que um quiosque de rua que eu sei que tinha, abrisse, e onde encontraria significativamente mais baratas.
Só que o dono está doente!

Eu esperava, esperava, e a minha mãe desesperava e reclamava, reclamava...

Não sei como não me ocorrera, até ao dia em que tive uma "iluminação", ainda que céptica.
Entrei numa das novecentas e setenta e três lojas das redondezas, e perguntei ao chinoca de cabelo em pé que estava atrás do balcão: "Braceletes para relógios ( e exibia o relógio da minha mãe, p'ra traduzir), não tem, pois não??...

Ele ripa num segundo, de uma caixa situada nas suas "traseiras", e de lá saltaram, por um euro, braceletes de todas as larguras, cores e feitios e ainda deu direito a colocação e tudo ( Aqui p'ra nós, estava a ver quando é que o dedo do chinoca se transformava em sushi...se bem que antes o dele que o meu...) e ainda levei um "OBLIGADINHO" e tudo!!!!...

Que seria de nós sem os nossos amigos chineses?? É mesmo o que está a dar!!!...

Anamar

sábado, 26 de fevereiro de 2011

"AS PEÇAS DO PUZZLE"

Recebi de um colega um e-mail com o conteúdo deste vídeo, que reporto como muito interessante e merecedor da vossa reflexão, penso.
O seu conteúdo coloca uma questão que já aqui tenho trazido, e como atingir esse desiderato: a verdadeira razão de existir e como poderemos atingi-la harmoniosamente.

Nestas situações, costumo abster-me de maiores comentários pessoais, que certamente ficariam muito aquém da essência do que é passado nesta reflexão.
Portanto, deixo-vos apenas com:

"UM PUZZLE COM GENTE DENTRO"



Anamar

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"AQUELES JARDINS..."


Marta ficara ao sol.
Também ela tinha um jardim em frente à casa, com bancos, com relva e com árvores. Se bem que agora despidas de folhagem na sua generalidade, lá estavam, à espera que a Primavera as tornasse de novo árvores...
Aquele jardim e os seus utentes não lhe faziam bem, mas havia o sol, hoje um sol que já lembrava quase o de Verão, aberto que estava, quente que estava...
O sol era realmente uma fonte de energia poderosíssima para a alma!
Mas ainda assim, aquecia-a por fora, lembrando-lhe que talvez tivesse roupa demasiado quente para o dia que estava, mas o coração continuava gélido e escuro...

Marta perguntava-se quando terminaria aquele luto, e que mais fazer para o terminar...
Afinal havia mais de um ano que aquela perda se instalara dentro de si, e de então para cá poderia dizer que deixara de viver, arrastava apenas dias uns atrás dos outros, num somatório desencantado e esgotante.
Acordava com aquela pena, deitava-se com ela. Se a meio da noite se levantava, lá estava ela, feito urubu sobre a carniça.
Sentia-se demasiado cansada, esgotada, na eminência de desistir.
Por isso, ficara ao sol, ao lado de todos quantos também não tinham mais horizontes, nem esperança, nem ânimo, nem incentivo...Daqueles que viviam por viver...

Os dias sucediam-se...sempre iguais, sempre repetidos.

Não se lembra há quanto tempo não soltava uma boa gargalhada...daquelas que esvaziam o coração dos "fluidos negativos".
Não se sentia nem com razão, nem com vontade para isso.

Marta nunca tinha passado por uma "onda" tão devastadora na sua vida.
Nunca tinha sabido antes, o que era perder alguém tão chegado, alguém tão seu, e ficara absolutamente sem norte, como que perdida no meio do nada, como que perdida num deserto sem guia, ou no alto mar em tempestade aberta, de leme destruído.
E pensava como levar a sua vida adiante dali para a frente.
Sabia que tinha que sobreviver, e sobreviver ainda era mais penoso que viver...

Lembrava-se da expressão que ouvira num filme visto há pouco tempo:"Tu és o único empecilho para a tua própria vida...solta-te...vive!"
Teria que o fazer, com forças arranjadas não sabia bem onde, criando novos mecanismos, novos nortes, novos azimutes, como também lera: "pintando o mundo com as suas próprias cores", e essas teriam que voltar a ser bem matizadas, magistralmente matizadas, equilibradamente matizadas, como é a Natureza construída, ela não sabia por quem...

Vira um conteúdo programático do National Geographic Channel, que não a deixara afastar os olhos do écran...Onde há maior equilíbrio do que nos jardins das profundidades marinhas?
Aquele mundo surreal que mescla uma flora e uma fauna absolutamente indescritíveis, aquela cor de corais, anémonas, peixes e outras espécies, misturado com o silêncio de "outro mundo" que se sente lá em baixo, aquela coloração da água cristalina que vai do turquesa translúcido, onde o sol ainda penetra, ao sombrio e escuro dos desfiladeiros marinhos, convida a ficar, porque aquela paz não tem comparação no mundo dos Homens...

"Amazing"...não se cansava de repetir o mergulhador...asolutamente "amazing", repetia ela, de imagem para imagem, à medida que se sucediam...
Ela já espreitara um pouco isso, quando fizera "snorkeling" em determinadas ilhas do planeta, ilhas de águas quentes, onde efectivamente se pode desfrutar deste cenário. Mergulho em profundidade nunca fizera, e se a sua experiência já a extasiara, imaginava o que seria poder ir mais e mais fundo e perder-se por lá, mundo de quietude, beleza, equilíbrio e paz!...
Cada ser magistralmente colocado, em contraste com outro; cada precipício, com areias macias, "canteiros e canteiros" de "flores" dos mares, numa Primavera perpétua...um jardim à disposição do olhar do homem, que talvez o não mereça...

Tudo isso trazia à mente de Marta a insatisfação crescente pelo mundo em que vivia, por aquele cenário rudimentar, que dia a dia lhe era oferecido, por aquela realidade "fria" e vazia que tinha que partilhar com milhões de outros "fantasminhas" movidos a cordéis...

O sol continuava a aquecer-lhe a cabeça, quente, se calhar demasiado quente...o seu pensamento dançara por muitos "becos", levara-a a muitas paragens, tirara-a daquele banco...mas agora tinha que voltar...
"Que injustiça!" - pensou - "Que injustiça!"...

Afinal, o jardim que tinha à sua frente, nada tinha a ver com aqueles em que se "perdera" nos últimos momentos da sua vida...

Anamar

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"CHEGA UM MOMENTO..."

Arrumando a minha desarrumada secretária, em que não mexia desde que a minha vida profissional mudou, (parece que com medo de que remexendo toda aquela papelada desenterrasse alguma coisa indesejável para a minha mente), decidi que andava por aqui "lixo" a mais (no meio dele, só cartas de bancos com extractos, e aquelas coisas assim, que sempre pensamos conferir, guardamos para depois, e nunca mais lhes pegamos....eram vinte e três...), e que urgia que ordenasse minimamente todo aquele caos instalado.

Encontrei, a seguinte frase, acho que escrita num e-mail que a Conceição me enviou, e se efectivamente assim foi, data do início de Julho do passado ano:

"Chega um momento na tua vida em que efectivas quem é importante para ti, quem nunca o foi, quem não é mais e quem o será para sempre"

A Conceição, colegas que o fomos profissionalmente tantos e tantos anos, dias divididos, noites divididas, e que foi necessário afastar-me da Escola talvez, para lhe conhecer a real sensibilidade, mercê, hoje sei-o bem, da sua natural timidez e humildade...apanágio das pessoas realmente superiores!

De facto a vida de todos nós, pretende-se que seja de um crescimento e de uma maturação em que forçosamente, mais cedo ou mais tarde, separaremos "o trigo do joio", o valor relativo das personagens das nossas existências.
Há amigos ou conhecidos de infância, que juraríamos poder colocar no rol daqueles que sempre nos iriam ser indispensáveis, e que afinal perdemos pelo caminho...e há personagens determinantes, inexpugnáveis como as muralhas dos mais altos castelos, rijas e inquebráveis como o aço, em que curiosamente só "tropeçámos", quando a adultícia ou o Outono já começam a tomar conta das nossas vidas...e se calhar exactamente por isso.

Com maior rigor, maior nível de exigência, com critérios provavelmente mais apertados, com menos "rosa" na cabeça, mais clarividência, menos sonhos ou castelos de cartas...a ingenuidade obrigatoriamente mais perdida pelos atropelos dos anos...levam-nos a seriar, a excluir, a optar...a decidir...

E aí deverão ficar até ao fim dos nossos dias, os que passarem no crivo desta peneira de afectos, porque esses serão certamente os que valeram a pena, os merecedores...

Mas deveremos fazer um esforço para que outra forma de análise, encapotada pelas emoções e afectos, não nos tire a clarividência necessária à isenção nas escolhas, para que saibamos distinguir o "lobo mau" na pele do "capuchinho vermelho"...para que, nas encruzilhadas de um caminho quantas e quantas vezes difícil de trilhar, tenhamos ao nosso lado, aqueles, que se for necessário nos estenderão sempre uma mão de ajuda, ou nos matarão a sede quando a canícula nos asfixia...

Serão esses que nos darão o privilégio de serem nossos companheiros de jornada, nossos partilhadores de agruras, nossa sombra abençoada quando o sol tisna, nosso ombro e nosso bordão...

Penso que, mais cedo ou mais tarde, esse momento de escolha chegará para todos nós...e a real importância de cada um para nós próprios, será, como a douta frase diz, na verdade, EFECTIVADA!!...

Anamar

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

"UMA VISITA AO FUTURO..."

Ontem mais um idoso encontrado morto em casa, constituía notícia de jornais.
A vizinhança dera o alerta.
Este Outono/Inverno, garantiria que já houve para mais de dez casos;
Diagnóstico: solidão

A solidão é uma forma de maus tratos físicos e psicológicos, umas vezes infligidos intencionalmente pela própria família, negligenciando-os, outras, fruto das circunstâncias da vida madrasta, que mais ou menos a todos espera.
Solidão não é logicamente apenas estar só. Muitas pessoas, dada a sua forma de ser, preferem-no. Utilizam positivamente essa "liberdade" condicionada, e vivem sem demais atropelos.
Claro, desde que tenham alguma qualidade de vida em termos emocionais, se sintam úteis, ocupados, ainda com objectivos.

Ao contrário, há pessoas que apenas o facto de não terem afectos que as preencham, lhes determina uma solidão profunda.
Quando falo em afectos, não me refiro a afectos dos familiares próximos...refiro-me à falta de uma companhia preenchedora. Porque há pessoas que não sabem viver sós!
Dessa solidão à depressão, é um passo; a depressão é a desistência, é o abandono de tudo, até das funções mais básicas, vitais e necessárias à vida em sociedade, é o deixar, dia a dia, empalidecer as cores do que nos rodeia, é o começar a espreitar um amanhã que se acredita sem futuro, é o depor das armas, a retirada, o não valer a pena!

São pessoas por vezes com família, ascendentes ainda, e descendentes;
apenas, os ascendentes, pela lei natural da vida, vão seguindo, os descendentes têm e constroem vidas próprias, não por falta de amor ou preocupação, mas por falta, cada vez mais, de "espaço afectivo", porque eles próprios criaram as suas próprias células de continuidade...

E são essas pessoas, novamente encalhadas na "charneira da vida", que vemos nos bancos dos jardins, que vemos nos cafés a falar sempre das mesmas coisas (normalmente futebol e notícias políticas não muito profundas);
São essas pessoas que vão ficando cada vez mais "atontadas", por ausência de metas, projectos, valorização pessoal, e que vão vendo a vida através do vidro embaciado de uma janela, que lhes mostra uma visão míope, a juntar às suas normais dioptrias...

À medida que o tempo passa, qual o desfecho previsível para estas "estórias"?

Enquanto mantiverem alguma autonomia e nos dias em que reunirem forças e vontade para saírem da cama, fá-lo-ão; talvez "vivam" de episódios que já viveram, de rostos que já foram, de músicas que já ouviram, de histórias que já protagonizaram...

Um dia, normalmente, os descendentes, por razões óbvias, claro, acham esta situação insustentável, porque o é, na realidade, e tomam a doída e difícil decisão, por "bem": levá-las para uma comunidade de "pares", onde os assuntos ou a ausência destes é comum, onde se vê muita televisão, onde o silêncio é pesado e o sono das sestas abençoado, onde se faz e desfaz tricôt ou renda (para quem já soube...), onde estão "muito bem", porque o ambiente é aquecido, os quartos são limpinhos e a comida "muito boa"...e esperam...apenas esperam...
Esperam, mas também já não se rebelam...estão adormecidos numa paz indiferente e anestesiante!...

A princípio, as visitas de rostos conhecidos fazem-se com alguma frequência; a semana, quando há essa noção, aguarda ansiosamente o seu fim, e os olhos, na porta da sala de estar, "grudam", até que entre um rosto que as aqueça...
Depois, começa a ser penoso ter essa "obrigação" todos os fins de semana...
Arrastar os descendentes dos descendentes, é inequacionável...e cada vez menos aquela porta lhes aquece a alma...
Depois, fica o Natal, a Páscoa, o aniversário e pouco mais...

Eu sei que é exactamente assim...mas não é por mal.
É a vida que tende a expurgar de qualquer forma, quem já está a mais! É a vida que trucida tudo e todos, sem compaixão...

Foi esta a sociedade e a família que o Homem conseguiu criar, sobretudo nas grandes cidades (na província ainda há famílias que assimilam até ao fim, no mesmo espaço, os seus idosos), é esta visão apocalíptica, de que eu acho, teremos todos um pavor atroz!!...

Por isso talvez se compreenda, por exemplo, que no Alentejo profundo, um Portugal particularmente só e deprimido, em montes perdidos na planície, haja idosos que antecipem a partida, mais simplesmente, por forma a "libertar" tudo e todos, antes que o último recurso tenha que ser accionado.

São eles que constituem as notícias dos jornais...
São eles que nos fazem pensar e abanar as consciências...
São eles que nos assustam particularmente...
São eles afinal, o espectro dos nossos "futuros"!...


Anamar

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"THE HUMAN PLANET"

Recebi de uma colega este Clip da BBC, que por si só dispensa apresentações.

Achei que seria merecedor de ser visualizado por quem aqui venha ao meu "cantinho", afinal trata-se de uma visão diversificada e muito bem conseguida, da "casa" que nos foi destinada em sorte no Universo!
A sua diversidade, riqueza, preservação, defesa, admiração, deveriam ser valores por nós, o ser humano, prestigiados, e cada vez mais orientadores das nossas posturas e atitudes, no sentido de tomarmos em nossas mãos acerrimamente a sua manutenção e futuro!!!

Deixo-vos portanto com "The human planet"...


Anamar

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"CINZENTO IGUAL AO DIA..."

Nada há pior para mim, que precisar escrever, e como um limão seco, espremer, espremer e não sair nada, ou melhor, não me ocorrer nenhum assunto, nenhum tema que me fervilhe na mente, e no entanto...precisar escrever!

Outro dia ouvi da Susana e da Marina, que eu considero verdadeiras artistas plásticas, em matéria de pintura, a óleo, aguarelas, mas também gravura e não só (aliás a Marina tem trabalho reconhecido a nível do público em geral), que não se pinta quando se quer, mas sim quando a vontade e a inspiração brotam cá de dentro...

Eu sempre disse o mesmo, e não é que com isso eu tenha a pretensão de sequer pensar que o que escrevo tem algum valor. Só que, de facto, apesar de me ser uma necessidade vital, seria incapaz de o fazer por "encomenda", porque acho que não se escreve "a metro"...

Portanto, em dias como os de hoje, em que me sinto truncada dessa imaginação, começo a não respirar até ao fundo, como se me estivessem a sufocar e a retirar o tal "oxigénio" de que careço para viver.

Aliás o dia hoje começou mal.
Acordei à hora que deveria para ir para as actividades que iniciei. Iria ter Psicologia e Tai-Shi.
Levantei-me, de facto. Estava cinzento e chovia. Ouvia-se o vento a fustigar a janela do quarto.
Levantei-me e voltei a deitar-me, com aquele amargo de "dever" não cumprido, de ser "relapsa", ou melhor, começar demasiado cedo a ser "relapsa".

Argumentei para mim própria que o repouso seria útil para os meus rins, que de facto, andam a fazer-se "notar demais"...Embora talvez com alguma veracidade, é um pouco esfarrapada esta argumentação.
E dormi até ao meio dia quase, ou seja, eu igual a mim própria...no meu melhor!!!
Mas não quero culpabilizar-me excessivamente por isto...aliás, não devo...embora eu lide muito mal com o incumprimento do que quer que seja, habituada que fui a ver a vida sempre a sério...

Sentia-me um pouco "doída" do dia de ontem...como quem ressaca de algo que nos fez mal, deixando-me uma sensação de desconforto.
Quando me sinto assim, a minha tendência normal é recolher "à concha", espaço protector e isolado. Aqui, na concha, parece que até os "miolos" entram em hibernação e não pensam; não há lugar a emoções que doam, não há lugar ao desenterrar de sensações arquivadas.
Parece que tudo fica naquele silêncio e paz dormentes, que se experimentam, quando se entra numa igreja antiga e só, em que os passos ecoam no empedrado do chão, em que a luz é coada pelas rosáceas ou vitrais das paredes e em que nos encontramos connosco mesmos, se resolvermos sentar-nos por momentos, nos bancos corridos de madeira, cá atrás, olhando no vácuo todo aquele espaço imenso, aquelas abóbadas projectadas ao céu, aquelas colunas grandiosas...e em que ficamos até que o frio que normalmente ali se sente, comece a penetrar-nos excessivamente...

É como costumo chamar-lhe, uma paz quase uterina!

Como vêem, isto está pior ainda do que o tal limão seco de que vos falava no início; isto foi mesmo escrever ao correr da pena...Hoje, apenas tentei aliviar um pouco este barril de pólvora dentro de mim...Relevem! Os doidos têm destas coisas!!!!....

Fiquem bem!

Anamar

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"ST.VALENTINE'S DAY"


Existem diferentes versões sobre a origem do dia dos namorados.

É bem provável que a festa dos namorados tenha sua origem num festejo romano: a Lupercália. Em Roma,os lobos vagueavam próximos das habitações e um dos deuses do povo romano, Lupercus, era invocado para manter os lobos distantes. Por essa razão, era oferecido um festival em honra a Lupercus, no dia 15 de fevereiro. Nesse festival, era costume colocar os nomes das meninas romanas escritos em pedaços de papel, que eram colocados em frascos. Cada rapaz escolhia o seu papel e a menina escolhida deveria ser sua namorada durante aquele ano todo.

O dia da festa transformou-se no dia dos namorados, nos EUA e na Europa, o Valentine’s Day, 14 de fevereiro, em homenagem ao Padre Valentine.
Em 270 a.C., o bispo romano Valentino desafiou o imperador Claudius II, "the Cruel", que proibia que se realizassem matrimónios.
Para Claudius, um novo marido significava um soldado a menos.
Preso, enquanto esperava sua execução, o bispo Valentine apaixonou-se pela filha cega do seu carcereiro, Asterius, que mercê de um milagre, recuperou a visão.
Para se despedir, Valentine escreveu uma carta de amor para Asterius. Foi assim que surgiu a expressão em inglês "From your Valentine". Mesmo tido como santo pelo suposto milagre, ele foi executado em 14 de fevereiro.

O feriado romântico ou o dia dos namorados judaico: desde tempos bíblicos, o 15º dia do mês hebreu de Av tem sido celebrado como o Feriado do Amor e do Afecto.
Em Israel, tornou-se o feriado das flores, porque neste dia é costume dar flores de presente a quem se ama. Inicialmente, só era permitido às pessoas casarem-se com pessoas da sua própria tribo. De certo modo, era um pouco semelhante ao velho sistema de castas na Índia. O 15 de Av tornou-se o Feriado do Amor, um feriado judeu reconhecido durante os dias do Segundo Templo.
Em tempos bíblicos, o Feriado do Amor era celebrado com tochas e fogueiras.
Hoje em dia, em Israel, é costume enviar flores a quem se ama ou para os parentes mais íntimos. O significado e a importância do feriado, aumentaram em anos recentes.
Canções românticas são tocadas na rádio e em festas celebradas à noite, em todo o país.

No Brasil, a génese da data é menos romântica. Alguns atribuem-na a uma promoção pioneira da loja Clipper, realizada em São Paulo em 1948. Outros dizem que o Dia dos Namorados foi introduzido no Brasil, em 1950, pelo publicitário João Dória, que criou um slogan de apelo comercial que dizia: "não é só com beijos que se prova o amor". A intenção de Dória era criar o equivalente brasileiro ao Valentine's Day - o Dia dos Namorados realizado nos Estados Unidos.
É provável que o dia 12 de junho tenha sido a data escolhida, porque representa uma época em que o comércio de presentes não fica tão intenso. A ideia funcionou tão bem para os comerciantes, que desde aquela época, o Brasil inteiro comemora anualmente a data.
Outra versão, reverencia a véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro.

Autor - Alexandre Diniz em Blog de 6/9/2010

Encontrei na Net este texto. Ouvira exactamente a história de Valentine na minha aula de Inglês-conversação, na passada quinta feira.
Hoje, que estamos a comemorar o dia, a professora de Inglês II colocou duas quadras bem "naïves", no quadro, que não resisto a deixar aqui :

"My love is like a cabbage
Divided into two...
The leaves I give to others
But the heart I give to you !..."

"I wish I were a China cup
From wich you drink your tea
And every time you took a drink
You could be kissing me..."

Bom, narrada a "story" e suas origens, deixado um apontamento romântico, era inevitável que eu não abordasse a efeméride, em que de ano para ano encaro de uma forma mais ácida...

Claro que direi que sou formalmente contra o "circo" de consumismo montado em torno destes eventos (tenho-o dito, ano após ano em que este blogue existe...)

Claro que direi que é hipócrita haver "dias de" ou "dias para"...isto porque, amar deverá ser o ano inteiro e cultivar e manter essa chama iluminada, também o deverá ser todos os trezentos e sessenta e cinco dias...

Claro que desvalorizarei gestos e atitudes no dia de hoje, muito doces e louváveis, se amanhã já se deixarão murchar as rosas vermelhas, porque as "rosas" são perecíveis...

Claro que direi tudo isto, mas oh incoerência do ser humano!... Sinto-me uma infeliz por eu própria afinal não ter o meu St. Valentine também!...
E fiquei vaidosa e emocionada, quando alguém que me conhece pouco, acha talvez que me conhece o suficiente, para me enviar "um beijo especial para uma mulher especial...neste dia também especial...", ou o meu amigo inglês, de Birmingham, que conheci meia dúzia de dias em Bali, muito só, vítima de AVC, mas um sonhador absoluto, ter arrastado a sua bengala até aos correios, para me enviar um coração vermelho cheio de bombons, de Inglaterra para cá...

Hoje ao almoço, a Lúcia "atafulhava-se" com uma bruta taça de morangos com chantilly, que chegava ao céu, e dizia : "é para aquecer o coração no dia de hoje! É assim o S. Valentim das pessoas sós!"...

Olhei para os morangos e pensei: "Ao menos ela aprecia morangos!..." Se eu fosse católica, diria: "Deus tira com uma mão e dá com a outra!!!!"...

Divirtam-se!!!...

Anamar

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"RECOMEÇO"

Estou toda baralhada!

Tenho defendido acerrimamente que tudo quanto são recordações de pedaços de momentos da nossa vida, será o espólio que nos acompanhará e enriquecerá os nossos dias futuros.

Tenho defendido e eu própria sou uma "recolectora" de tudo o que pareça prolongar uma vivência, levar adiante um momento, "fixar" uma emoção, gravar um estado de alma.
Já vos disse que sou uma coleccionadora inveterada de fotos, bilhetes de cinema, pedrinhas da praia, ramos de arbustos, flores secas....guardanapos de papel...doentiamente coleccionadora, sempre na esperança de que cada um daqueles apontamentos, me traga os sons, os cheiros, as cores, as sensações a que esteve ligado.

É sempre um revisitar de anos que já foram e não são mais, de pessoas que já foram e não são mais....da pessoa que eu já fui e não sou mais...daquilo em que acreditei e constituíu um "bluff", das esperanças que tive e foram goradas...dos sonhos que sonhei e se esfumaram!...

E é um facto que o mexer e o remexer nessa amálgama, normalmente não me deixa feliz, nem confortável, nem sonhadora....porque de onírico, esse repositório pouco tem!

Ontem à noite, para queimar o resto das horas de mais um dia da contagem decrescente, e para evitar que o dormir excessivamente cedo me levasse a insónia certa e segura pelo meio da noite (quando já dormimos aparentemente o suficiente e estaríamos prontos a levantarmo-nos, não fossem horas normais de gente normal dormir...), estive a ver um filme na televisão.
Já nem guardo o nome da película, pois não teve interesse por demais.

Apenas o filme terminava com a seguinte frase, dita pelo actor principal (Jude Law), que foi a causa da minha reflexão/baralhação : "As memórias são a razão da infelicidade do homem! Se não houvesse memórias cada dia seria sempre um recomeço!..."

E agora? - pensei...em que é que ficamos?

Efectivamente, sabe Deus a perseguição que me é movida pelas memórias!!!....
Sabe Deus como tantas e tantas vezes fujo delas a sete pés!!!....
E sabe Deus, como por vezes daria jeito que de facto, cada dia pudesse ser um recomeço!!!....

Anamar

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"UMA NOVA VISÃO SOBRE AQUELA MATA...."

Às três da tarde o dia fechou.
Sobre Sintra o céu estava tão negro, que sugeria aquelas reportagens do National Geographic sobre tufões ou furacões.
Pensei: "quando começar a chover, desaba uma torrente diluviana lá de "cima".

Ainda não tinha feito a minha caminhada diária e agora hesitava seriamente se sim ou não me faria ao caminho.
Tinha a meu favor as calças de caminhada supostamente impermeáveis, o "chuvasqueiro", que como o nome indica, é um corta-vento, corta-chuva...corta qualquer coisa (pelo menos comprei-o como tal), e como ainda não chovia e eu precisava mesmo partilhar-me com a Natureza, com o isolamento, com os meus pensamentos, resolvi meter-me ao caminho...

A poucos metros de casa e alguns pingos de uma chuva não forte, mas contínua, já se faziam sentir.
Eram talvez três e meia, e a luminosidade do dia levava-nos a crer estarmos já próximos da noite.
Pensei: "como será atravessar aquele bosque que certamente estará deserto, com esta chuva ininterrupta, este silêncio profundo, com o cerrado das árvores e arbustos a tornar ainda mais misteriosas todas aquelas veredas?..."

A chuva era copiosa e sentia as calças a gelarem-me as pernas, o corta-chuva muito frio, embora estivesse crente que ele não estaria a deixar passar a água para dentro.
Do capuz escorria-me água para o rosto, e quentes, mesmo, só tinha os pés.

O bosque estava efectivamente deserto e silencioso. Não vi vivalma, não cruzei ninguém, e até a passarada habitual, devia ter-se protegido na folhagem.
Na ausência de sol, as flores estavam fechadas, as azedas amarelinhas que atapetam o chão haviam cerrado as suas campânulas.
Apenas das mimosas, agora a florescer, pingava água de cada cacho.
Com mais um pouco de sol e calor, e tê-las-emos transformadas numa explosão de ouro e aroma intenso, naquela mata.

Foi estranho, foi diferente, foi de uma solidão absoluta aquele caminho.
Apenas a chuva fria desabava sobre tudo.
Mas gostei...não me arrependo de ter ido. É na realidade uma terapêutica para a alma, a partilha com a Natureza, esteja chuva ou esteja sol, é um multivitamínico tomado como curativo das mazelas do coração!...

Só teve um senão, a minha caminhada de hoje...É que ao chegar a casa e tirar a roupa, constatei que de impermeável, nada daqueles trajes tinham, o que significa que desde o cabelo até à roupa interior não era frio que eu sentia...era mesmo a roupa a deixar-se passar pela chuva!...
Assim sendo, não sei se poderei reincidir...

Anamar

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

"O MILAGRE DOS BOTÕES..."

Estou um pouco "robôtizada"...
passo a explicar: não há fome que não dê em fartura!
Hoje tentei amanhecer a cores! Se vi "passarinho verde" como dizem os brasucas?
Pois garanto-vos que nem verde, nem azul, nem de cor nenhuma, só os do meu bosque da caminhada...
Apenas, resolvi mover-me a "botões": 1º botão, travar o despertador pelas 9 horas (nada mau!), 2º botão, duche, 3º botão, pequeno almoço, 4º Inglês, 5º Tai-Chi, 6º Tuna, 7º Danças de Salão, 8º Caminhada...e desejos de meter fotografia neste mosaico...

Já estão a rir-se não estão?
Pois é! A minha filha também se riu e disse-me: "Ah...muito bem! Finalmente percebeste que tinhas que te mexer!... Vamos ver se chega até à Páscoa!!!..."

Percebi a ironia dela e tive vontade de lhe responder (mas aí ia estragar tudo): "Vamos ver se chega ao Carnaval!!! rsrsrs"

Mas como "um cedo faz muitos cedos" (mais outro dos sábios ditados da minha mãe), não sei se estão a perceber o espírito da coisa, já tomei o pequeno almoço que nem gente normal, já almocei que nem gente normal, agora estou a banhar-me de sol num banco de jardim, e durante várias horas do dia, ligada a esta corrente de muito mais que 220 volt, não tive tempo de me concentrar em grandes coisas.
Apenas durante a caminhada, no bosque de que vos falei, enquanto inspirava profundamente o ar puro que por lá circula e absorvia o silêncio que se ouve, deixei vogar livremente o pensamento, tentando não aprofundar emoções de nenhuma espécie, e como tal, anestesiando a vida.

Estas "terapêuticas agressivas" que de repente me atravessam a mente e me enchem de súbitas e repentinas intenções, energias, mas realizações pouco duradouras, e portanto pouco profícuas, são o meu lado "escorpiónico" puro. Tudo funciona sempre a 0 ou a 100%...e depois dá bota!!!

Vou usar a técnica da minha filha mais nova: ir experimentando muitas coisas que, penso, me possam agradar, e seleccionar depois;
Quem sabe assim, o 10º botão seja o do candeeiro da mesa de cabeceira, para apagar a luz e me apagar a mim, para mais uma noite, em que, com sorte, algum sonho ilumine o pesadelo que por vezes é a minha vida!!...

Anamar

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"PASSAR E ESPERAR"

Para mim,tal como as portas são locais de "passagem", os bancos são locais de "espera".
Tenho "fetiche" por portas, já aqui disse, fascinam-me, planeio fotografa-las,nos meus tempos livres; para mim, são idênticas à vida, locais de passagem, de transição, que separam mundos, que vedam normalmente o desconhecido, a que só tem acesso quem as transpõe.

Pode valer ou não a pena atravessar uma porta. Nunca sabemos...
Pode valer ou não a pena fazer o percurso da vida...também nunca sabemos...

Atrás dela "contam-se" histórias, há fantasmas e fantasmas de seres, que ao longo dos tempos dividiram aquela porta; há miríades de risos e de choros, de alegrias e desgostos que se compartilharam com ela.

Através dela, quando se nasce, se passa para dentro, e quando se morre, através dela passa-se normalmente para fora. E ela fica inexpugnável, até que o tempo a deixe...

Os bancos é outra história...os bancos são locais de "espera", locais de "fazer tempo".
E "fazer tempo" é apenas privilégio de quem já o viveu, é privilégio de quem tem relógios a andar mais devagar...
Lá, as pessoas encontram-se e portanto esperam umas pelas outras, às vezes com o coração aos saltos.
Lá, as pessoas adormecem deixando que o sol as atravesse até à alma...
Lá, qual miradouro da rua, da praceta, do bairro, algumas pessoas "esticam" as horas dos dias, que assim se tornam intermináveis, o que lhes acrescenta a vida...
Lá (tal como a D.Madalena), se "fazem horas", para regressar a uma casa vazia e sonolenta, presumo;
Lá, se conversa e se desconversa, quando o ouvido "endurece" e já não se percebe com nitidez a conversa do vizinho de banco...

São locais de convívio ou também podem ser locais de solidão.
Muitas vezes são apenas locais de paz, de parêntesis na vida, aprazíveis, sobretudo se divididos com mais olhos que gostem da mesma paisagem, que admirem igualmente o mesmo mar, o mesmo verde, o mesmo jardim, o mesmo céu...
São locais de mães, que à distância olham crianças que brincam, quando foi o tempo...

Mas são sempre locais de "espera"...

E espera, é tudo o que o ser humano faz todo o tempo da sua existência...o que muda é aquilo que vai esperando ao longo dos tempos...ou aquilo em que acredita ainda poder esperar...

Anamar

sábado, 5 de fevereiro de 2011

"O ETÉREO MUNDO DOS LOUCOS"

O etéreo mundo dos loucos, ou o reino dos que se passaram já para o "outro" lado...

Acho que nunca vos falei disto, mas desde criança, que a ida àquele local era algo penoso, inquietante, angustiante para mim.
Mas lá ia, no sábado ou no domingo que os meus pais entendiam. Era sempre como se fosse devassar um mundo de duendes, seres estranhos e imprevisíveis que me assustava.
Sempre senti o mesmo, mesmo depois de adulta, mesmo com outro entendimento das coisas, mesmo quando fui eu que tive que tomar a cabeça da situação, por morte do meu pai.

Eu tenho um meio irmão, mais velho que eu dezassete anos, fruto de um primeiro casamento do meu pai. Essa união foi efémera, e quando o meu irmão tinha apenas dois anos, perdeu a mãe.
A partir daí, e tendo o meu pai que levar a vida adiante, o meu irmão foi "jogado" de casa de familiar para casa de familiar, meio de empréstimo, meio de compaixão, até o meu pai casar segunda vez, anos depois, com a minha mãe.
Quase logo nascia eu, e quase logo o meu irmão adoeceu, aos dezassete anos de idade.

Uma esquizofrenia grave, procura dos mais eminentes médicos da especialidade à altura, Egas Moniz, Elísio de Moura (não esqueçam que estamos no início da década de 50), electrochoques, coletes de forças, internamentos, fugas, etc, etc, um inferno vivido, penso.

Finalmente desenganado, e tendo a doença ficado, por assim dizer, crónica, o meu irmão ficou definitivamente internado numa Casa de Saúde para doentes mentais, onde "vive" há 60 anos, portanto.
Como família tinha o pai, tinha a minha mãe que adoptou como "madrinha", tinha-me a mim, com quem nunca viveu...Ninguém mais.

Há dezoito anos atrás o meu pai faleceu, a minha mãe locomove-se com alguma dificuldade nos seus 90 anos, as sobrinhas, minhas filhas portanto, subtraíram-se o mais possível (sobretudo a mais velha), ao constrangimento do penetrar naquele mundo...eu, penalizo-me pela ausência excessiva e injustificada...

Hoje, lá fui, tentar com uns "mimos" disfarçar o que não é disfarçável na minha consciência, a minha falta...
E como sempre, desde menina, senti exactamente aquele aperto claustrofóbico de um mundo paralelo ao nosso mundo.
Um mundo de pessoas que estão noutra realidade.

Em miúda e ao tempo, encaravam-se as deficiências como uma espécie de mácula ou vergonha familiares, e eu acho que tinha vergonha de que me conotassem com aquele ser.
Hoje, sentada ao sol, lado a lado com ele, num banco ao ar livre, com o azul de um céu escandalosamente lindo por cima de nós, com os trinados dos primeiros pássaros que já se baralharam de estação, e acham que a Primavera já aportou...eu olhava à volta e analisava as reacções, o vestuário, a postura, todo o surrealismo de tudo aquilo, a lembrar um filme de Woody Allen.
As conversas que entabulam connosco, sem nexo na maior parte das vezes, a moedinha de 1 euro que é pedida, p'ro café, o cigarrinho à socapa, os beijos e abraços apertados e infindáveis de que somos alvo, se por acaso se focalizam em nós...tudo aquilo...é aquilo....não se descreve...só se vê...só se sente...só nos atormenta!

No meio daquele cenário (que ironia), algo me faz inveja.
É que aquele reino, que é do silêncio, que é do olhar perdido, que é da ilógica estabelecida...parece ser um reino de paz, é um reino em que já não há degladiação, nem juízos de valor, nem angústias, nem desejos...se calhar também já não sofrimento.
Não há passado nem futuro...o presente, não sabem bem o que é...

Tudo isto, à distância apenas de uma fronteira, a fronteira entre a "normalidade" e a "loucura"...à distância do atravessar daquele portão e do franquear daqueles muros...

Anamar

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"COISAS DO ANTIGAMENTE...."


Hoje é dia de Nossa Senhora das Candeias.

Sabiam? Aposto que não...
Eu sabia...mas a minha mãe sempre se encarrega de me refrescar a memória, ano após ano, com estas questões "importantes"...

Acabei de falar com ela pelo telefone.
As chamadas são sempre curtas, porque são de telemóvel e ficam caras, de modo que giram sempre em torno dos mesmos itens: se dormiu bem, se já telefonou à neta mais velha, o que já fez em casa (se lavou, se limpou, se varreu....essas coisas importantes...), se já fez a caminhada diária que se auto-propôs (sim, que a minha mãe tem uma força de vontade e disciplina férreas, não é que nem eu!)...e terminamos normalmente em "como está o tempo"...

Aí é que entrou a Sra. das Candeias;
Diz ela que os "antigos, as pessoas do campo" (sic), se regulavam por estas coisas.
Passo a explicar qual um "Borda de água": "Se a Sra. das Candeias rir, está o Inverno p'ra vir....Se a Sra. das Candeias chora, está o Inverno fora", ou dito de outra forma, se o dia for de sol, o Inverno ainda estará para continuar, mas se ao contrário, chover, o Inverno está à beira do fim.

Ora este ano, como se constata, Ela riu; o dia hoje está lindo, de sol e céu limpo, portanto, como me dizia a minha mãe, "devo abrigar-me, porque se já estou constipada, tendo a não melhorar".

E eu perguntei-lhe (farta de saber, mas tendo que arranjar assuntos que interessem os seus quase noventa anos): "Então não é amanhã, a Sra. das Candeias?"
Resposta imediata: "Não, amanhã é S. Brás, protector dos problemas de garganta!"...

Lembro-me bem e enternecidamente, de em miúda sempre ir à missa e aos festejos que marcavam a data de amanhã.
Morava ao tempo em Évora, 7,8,9 anos teria na altura...numa avenida que tinha ao cimo, uma Igreja em homenagem a S. Brás, que todos em Évora conhecem e que ainda lá está, claro, no chamado Rossio de S.Brás.
Nesse dia, a Igreja tem festejos próprios em honra do santo.
Recordo com uma nitidez absoluta de, depois da missa, se formar à porta da igreja uma fila de pessoas, entre as quais estava eu, que iam deixar uma dádiva ao santo, recebendo-se em troca um "santinho" para marcar os livros de missa...

A minha esmola era p'raí de cinco tostões, já não lembro...e em troca não iria ter anginas o ano inteiro!!!!
Ainda hoje me parece "justo"!!!!!

Meu Deus...como o tempo corre!
Mas é como se me sentisse claramente na fila dos esmoleres ainda, com a moedinha na mão!
S.Brás, Évora, infância...o meu pai, a minha mãe, avós, tios, primos...a família incólume...ainda...há tantos anos já!!!!

Anamar